sábado, 9 de maio de 2020

Um livro sobre a Epístola da Paciência

Por Christopher Buck e Foad Seddigh.


Nesta entrevista, Christopher Buck fala com o Dr. Foad Seddigh, o autor de um novo livro sobre a maravilhosa virtude da paciência.

P: Dr Seddigh, você escreveu um livro sobre a Epístola da Paciência, revelada por Bahá'u'lláh. O que o inspirou a realizar este projecto?

R: Este trabalho de Bahá'u'lláh é considerado como uma das Suas mais importantes epístolas. Bahá'u'lláh revelou a Epistola da Paciência num momento crítico, na véspera do Seu exílio de Bagdade para Istanbul. Esta saída de Bagdade assinala um novo capítulo na história da missão de Bahá'u'lláh. Este texto notável – revelado no mesmo dia em que Bahá'u'lláh declarou a Sua missão de forma aberta, ainda que em privado – é o único registo que temos das palavras exactas de Bahá'u'lláh nessa importante ocasião histórica, em 22 de Abril de 1863, o dia em que nasceu a Fé Bahá'í.

Todos estes ensinamentos, expressos de uma forma tão maravilhosa, inspiraram-me a estudar a Epístola da Paciência com o objectivo de a entender de forma mais profunda. Assim, fui preparando extensos apontamentos durante muito tempo. E por fim, tive a inspiração de me lançar num projecto de escrever este livro.

P: No Islão clássico existem os 99 “Maravilhosos Nomes de Deus”. O 99º nome de Deus, numa lista, é “o Paciente”. À luz disto, diria que “paciência é um atributo de Deus?

R: Os estudiosos Muçulmanos concordam com o número dos “Maravilhosos Nomes de Deus” – apesar dos atributos de Deus serem incontáveis. Nem todos aparecem no Alcorão, que menciona 85 destes nomes. Por exemplo: “A Deus pertencem os Nomes Mais Maravilhosos; assim, chama-O por eles” (Alcorão 7:180). Bahá'u'lláh refere os “Mais Maravilhosos Nomes” de Deus em dois parágrafos do Livro Mais Sagrado.

No entanto, existe algum debate sobre se “o Paciente” (as-Sabur, ou as-Sabir) faz parte dos 99 “Maravilhosos Nomes de Deus”. Em resumo, “Paciência” é um atributo de Deus, que se manifesta na natureza e no carácter dos Mensageiros de Deus.

P: É possível transformar a perfeição divina da “Paciência” em acções bondosas?

R: Evidentemente! Pode acontecer quando temos um desejo no coração de abarcar a perfeição divina da “Paciência” e quando, simultaneamente, fazemos um esforço concertado para a alcançar e para a incluir nas nossas acções e processos de decisão diários. Para o mundo beneficiar com a nossa paciência, necessitamos de trazê-la para a linha da frente e fazer esforços diários para a exemplificar nas nossas acções diárias.

P: Na Epístola da Paciência, o que é que Bahá'u'lláh ensina sobre a virtude da paciência?

R: Bahá'u'lláh dedica um quinto desta epístola fascinante a explicar a virtude da paciência. Em primeiro lugar, Ele apela aos crentes para que entrem na Cidade da Paciência, que tradicionalmente significa uma cidade fortificada, um local de protecção e segurança. Por outras palavras, quando se está nesse local, está-se protegido contra elementos indesejáveis. Neste contexto, a “Cidade da Paciência” é uma metáfora. Significa apenas que quando adquirimos a virtude da paciência, ficamos num ambiente espiritualmente seguro.

Depois, e com muito detalhe, Bahá'u'lláh descreve a vida do profeta Job, que demonstrou essa virtude de uma tal maneira que o nome de Job se tornou sinónimo de paciência. Bahá'u'lláh prossegue explicando os vários tipos de paciência e por fim afirma que a recompensa prometida por Deus aos que se adornam com o ornamento da paciência é ilimitada:
Além disso, sabei que por todas as boas acções é decretada uma recompensa limitada no Livro de Deus, com excepção da paciência. Este é a observação de Deus para Maomé, o Apóstolo de Deus: “Aqueles que perseveram pacientemente, em verdade, receberão uma recompensa imensurável.” (Bahá'u'lláh, Tablet of Patience, tradução provisória de Foad Seddigh)
P: Depois de estudar esta epístola, tem algum conselho para uma pessoa comum, sobre como melhorar e aprofundar a nossa capacidade de paciência – tanto no desenvolvimento do nosso carácter como para benefício dos outros?

R: Podemos reflectir aquilo que Bahá'u'lláh revelou na Epistola da Paciência e meditar profundamente neste atributo. Devemos estar constantemente conscientes sobre a paciência e aumentar a nossa compreensão sobre esta virtude. Tal como em todas as coisas, devemos trabalhar para melhorar, pouco a pouco, a nossa prática diária da paciência.

Nada se alcança imediatamente - em especial, a paciência. Precisamos de a trabalhar até a dominarmos. E devemos, em especial, seleccionar alguns aspectos da paciência que nos são mais pertinentes. E aqui está a ironia: é preciso paciência para aprofundar a nossa capacidade para ter cada vez mais paciência!

Por exemplo, nas nossas interacções diárias com amigos, vizinhos e colegas, podemos ficar impacientes ou reagir impulsivamente perante actos em situações desagradáveis de diversos graus. A virtude da paciência ajuda-nos a dar a resposta e atitude certas nessas situações. Ajuda-nos a ter a reacção adequada e ensina-nos a não reagir com base em impulsos, mas antes, a reflectir sobre a situação e depois a agir com sabedoria.

A paciência tem muitas facetas, dimensões e ramificações: a paciência no caminho de Deus e em suportar tribulações; paciência nas acções que devemos tomar e cujo resultado é incerto; paciência em relação aos nossos objectivos e ambições a longo-prazo; paciência no nosso relacionamento diário com os outros. Esta é apenas uma pequena lista de alguns aspectos da paciência. Cada um deles é necessário para desenvolver o nosso carácter e capacidade espiritual.

Vou aprofundar brevemente apenas um destes: ser pacientes com nós próprios. Cada um de nós vem a este mundo com diferentes qualidades e capacidades, que não são uma escolha pessoal. Por vezes, podemos sentir que devíamos ter recebido mais. Por exemplo, uma pessoa pode pensar que podia ter uma memória melhor, ser mais alto, etc. No entanto, nós não temos controlo sobre estas coisas. Na verdade, são-nos atribuídas, como se fossem uma oferta.

Devemos estar gratos por qualquer oferta que Deus nos faz – isso também faz parte da paciência. Devemos fazer o melhor uso possível daquilo que nos é oferecido. Se sentimos que estamos desfavorecidos, devemos olhar à nossa volta; há sempre gente ainda mais desfavorecida. Por isso, é necessária paciência. Devemos ser pacientes com nós próprios.

A virtude da paciência permite-nos olhar para a vida de uma perspectiva positiva, feliz, espiritualmente vibrante e consciente. Neste caso, cultivar a paciência depende grandemente da nossa confiança em Deus e da nossa submissão e aceitação da vontade de Deus.

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Texto original: New Teachings on the Virtue of Patience (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

Foad Seddigh é doutorado em engenharia aeronáutica pela Universidade de Oregon (Estados Unidos). Foi professor de engenharia mecânica em várias universidades durante várias décadas.

sábado, 2 de maio de 2020

Perguntas: um Mês Bahá’í e um Atributo Divino

Por Christopher Buck.


Recentemente, um amigo Baha'i colocou-me uma questão interessante: “O que significa o mês Bahá’í das «Perguntas»?”

Quando colocou a questão, ele não estava a pedir-me uma definição. Todos sabemos o que é uma pergunta. A sua questão focava-se no significado espiritual mais profundo das “Perguntas”, e se se trata, ou não, de um atributo de Deus, tal como os nomes dos outros 18 meses do calendário Bahá’í – Misericórdia, Luz, Esplendor, etc.

Mas a resposta não é simples – pelo contrário, é bem profunda. Então vamos contextualizar a sua questão sobre “Perguntas”.

O calendário Bahá’í foi criado originalmente pelo Báb, que o designou como calendário Badi, que significa “novo” ou “maravilhoso”. Dizer que este calendário é novo, inovador ou diferente seria um eufemismo. O calendário Badi baseia-se no calendário solar, tem 19 meses de 19 dias e ainda 4 dias intercalares (5 nos anos bissextos). Mais interessante: cada dia da semana, cada dia do mês, cada mês, cada ano, cada ciclo de anos tem nomes espirituais, normalmente entendidos como características essenciais, atributos, ou “Nomes de Deus”.

Isto não são simples nomes; na verdade, são atributos divinos. E aqui está um paradoxo: Deus, na Sua essência, transcende todos os nomes e atributos. Falando correctamente, estes nomes descrevem a forma como Deus Se manifesta no mundo da criação. Atributos e características do mais alto nível, estes nomes também são conhecidos como perfeições divinas. Numa criação perfeita, todas as coisas criadas reflectem uma ou mais destas perfeições. Mas isto ainda é mais verdade para o ser humano, que é o apogeu da criação. E é uma verdade muito mais forte para os profetas e fundadores das grandes religiões mundiais, os espelhos perfeitos de todos os nomes e atributos de Deus.

Estes “Nomes de Deus” – belos, poéticos e místicos – vêm de uma famosa oração matinal recitada durante o mês do jejum no Islão Xiita. Esta famosa oração é conhecida como Du’a’ al-Sahar (“Oração da Alvorada”) e referida também como Du’a’ al-Bahá (“Oração do Esplendor/Glória”). Bahá’u’lláh refere-a como the Lawh-i Baqa, a “Epístola da Eternidade”. Esta oração matinal contém o “Mais Grandioso Nome de Deus”, que os Bahá’ís reconhecem como Baha, e que significa “Esplendor” ou “Glória”. Na oração da alvorada existem vinte e dois nomes pelos quais o suplicante implora a Deus. O Báb escolheu dezanove destes para o calendário Badi. A primeira invocação desta fantástica oração afirma o seguinte:
Ó meu Deus!Imploro-Te pela Tua Baha [Glória] na sua maior grandiosidade [abha]pois todo o Teu Esplendor [baha] é verdadeiramente resplandecente [bahiyy].Eu, em verdade, ó meu Deus,Imploro-Te pela plenitude do Teu Esplendor[baha].(de uma tradução de Stephen Lambden)
Como disse anteriormente, Deus transcende nome e atributos. Por exemplo, muitas vezes dizemos “Deus é uno”. É verdade, mas Deus transcende a singularidade, tal como afirma o Báb: “Entre estas razões está o irrefutável testemunho do intelecto, de que nada existe para lá da Essência da Eternidade, e de Ele não possir qualquer atributo, seja qual for o significado, salvo a Sua própria Essência.” (tradução provisória de Nader Saiedi, Gate of the Heart, p. 194)

Porque a singularidade é um conceito humano, tão abstracto quanto tal, trata-se de uma projecção da inteligência humana; ela é conceptualizada através de conceitos que permitem que a inteligência a compreenda. Por outras palavras, o mais elaborado dos pensamentos que tenhamos nunca poderá ultrapassar as nossas próprias limitações mentais. Nunca poderemos compreender Deus. O melhor que podemos fazer é perceber algumas das qualidades de Deus manifestadas na criação, e que aparecem de forma plena e perfeita nos profetas de Deus, tais como Moisés, Zoroastro, Buda, Jesus, Maomé, Deganawida (“o Pacificador”), o Báb e Bahá’u’lláh.

Muitos, se não todos, destes nomes de Deus são reconhecíveis, e até mesmo familiares – Sublimidade, Glória, Grandeza, Conhecimento e Beleza. Existem ainda outros atributos. É aqui que surge a questão sobre o mês e atributo das “perguntas”. Aqui fica o versículo da Du’a’ al-Sahar, ou Du’a’ al-Baháʾ:
Ó meu Deus!Imploro-Te pelas Tuas perguntas [masaʾil] que Te são mais conformes
Pois todas os Teus interesses [masa’il] são verdadeiramente amados.Eu, em verdade, ó meu Deus, imploro-Te pelo todo dos Teus assuntos [masaʾil].(traduzido por Stephen Lambden)
Como podemos ver neste versículo, a palavra árabe para “perguntas” – masa’il – também tem outros significados: “interesses” e “assuntos”. Alem de “perguntas”, Masa’il também significa “temas”, “problemas”, “pontos em questão” e “teses”. (Na lei islâmica, por exemplo, al-masāʾil al-fiqhiyya significa “questões de jurisprudência”. Masáʾil fi al-ttibb traduz-se como “Manual de Medicina”)

Sabemos que os atributos divinos podem tornar-se boas virtudes humanas. Por outras palavras, as qualidades divinas são a fórmula secreta no elixir da transformação espiritual Na alquimia do espírito, o cobre da fantasia satânica transforma-se no ouro das perfeições angélicas.

Assim, “perguntas” enquanto atributo de Deus é o interesse divino pelos assuntos humanos. “Perguntas” enquanto bom atributo é uma preocupação humana pelos assuntos humanos. Perguntas, num contexto Bahá’í, significa preocupação pelos outros e capacidade para questionar – e responder – sobre aquilo que os pode ajudar.

Os profetas são iguais, as suas revelações são distintas, as suas leis são progressivas - propondo verdades, oferecendo a salvação, concedendo graça, ensinando a harmonia, apresentando a libertação, influenciando a sociedade, desenvolvendo a civilização, promovendo a ciência, exigindo igualdade, enobrecendo o carácter, iluminando os indivíduos, mistificando a realidade, dando um propósito, aprofundando a identidade, enriquecendo a vida, conferindo ética aos actos, transmitindo visão, inspirando vontades , guiando decisões, referenciando a moral, fortalecendo as famílias, promovendo a caridade, mitigando o sofrimento, defendendo a justiça, advogando a paz, cultivando a reciprocidade, edificando a moralidade, encorajando iniciativas, recompensando a rectidão, exaltando a virtude, celebrando a espiritualidade, incentivando o zelo, prometendo a vida após a morte, garantindo a imortalidade, alargando horizontes, expondo mistérios, cultivando a reflexão, elevando a alegria e vitalizando a vida

No Seu calendário prático e místico, o Báb revelou os mais originais e profundos ensinamentos espirituais sobre a natureza e qualidades de Deus. Sem dúvida.

Alguma da informação neste artigo foi fornecida por Omid Ghaemmaghami.

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Texto original: The Baha’i Month, and Godly Attribute, of Questions (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Novo Templo Baha'i - Bihar Sharif (Índia)


Foi hoje apresentado o projecto de uma Casa de Adoração Bahá’í a ser contruído em Bihar Sharif (Índia). Este será o segundo templo Bahá’í na Índia. O anúncio foi feito pela Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís da Índia.

A empresa que projectou este novo templo afirmou que o novo templo deve “ oferecer um espaço de experiência do divino e simultaneamente estar humildemente enraizada no meio envolvente”

"Bihar é uma zona fértil e as suas aldeias apresentam um cenário intemporal da vida rural indiana", declarou Suditya Sinha, um dos arquitetos. “A Casa de Adoração surgirá neste cenário rural exuberante. Inspirados pela arquitetura e artesanato tradicionais, optamos por usar tijolos feitos com materiais locais. A terra é literal e metaforicamente moldada na forma do templo.”

Com base nos padrões encontrados na arte popular Madhubani de Bihar e no antigo património arquitetónico da região, a empresa criou um projecto com um padrão repetitivo de arcos. O edifício terá uma abóbada com nove arcos na base, que se multiplicam até que cada segmento pareça fundir-se numa geometria única. As aberturas no centro da abóbada e em cada anel de arcos reduzirão o peso do tecto, permitindo a entrada de luz suave.

Reflectindo sobre o poder da oração, Naznene Rowhani, da Assembleia Nacional, afirma: “Nos tempos difíceis que estamos a viver, as pessoas estão a sentir mais do que nunca a necessidade de recorrer ao seu Criador. Assim, a construção do templo em Bihar Sharif tem agora um significado ainda maior, e sentimos que devemos desenvolver esse processo, garantindo a segurança e a saúde de todos os envolvidos na sua construção.”

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FONTE: Local Temple design unveiled in India (BWNS)

Não há paraíso mais maravilhoso...


sábado, 25 de abril de 2020

E se Deus fosse uma Mulher?

Por Nasim Mansuri.


A maioria das religiões refere-se a Deus com pronomes masculinos. Mas será que nos podemos dirigir a Deus como se fosse feminino?

Quando era criança, aceitei simplesmente que nos referíssemos a Deus como “Ele”, com todo o imaginário paternal mental que isso implica. Mas à medida que explorei o conceito Bahá’í de igualdade entre homens e mulheres, e participei em conversas sobre a linguagem de género, comecei a questionar a razão para haver um Deus “masculino”.

As Escrituras Bahá’ís têm muitas citações que abordam explicitamente a igualdade de género. Veja-se este exemplo: “Enquanto a realidade da igualdade entre homem e mulher não for plenamente estabelecida, o mais elevado desenvolvimento social não é possível”. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace). Mas as Escrituras também referem Deus com pronomes masculinos – e simultaneamente afirmam que Deus está para lá da imaginação humana:
Aquilo que imaginamos não é a Realidade de Deus; Ele, o Incognoscível, o Impensável, está muito além do mais elevado conceito do homem. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks)
Se Deus é incognoscível, porque O referimos com um pronome masculino, algo mundano como o género? (E também é verdade que a citação anterior também usa “homem” para se referir a toda humanidade. Falarei disso mais tarde)

Os ensinamentos Bahá'ís não descrevem Deus tal como Ele é frequentemente representado – um velho lá no céu. É mais correcto decrevê-Lo com outros termos populares, como “O Universo”, ou “A Verdade”, ou “Um Poder Superior”. Apesar de não serem muito precisos, estes termos fazem-nos lembrar algo muito mais intangível, muito mais abrangente.

Os ensinamentos Bahá'ís dizem claramente que Deus não tem uma forma física:
Dizer que Deus é uma realidade pessoal não significa que Ele tenha uma forma física ou que Se assemelhe a um ser humano. Manter essa crença seria mera blasfémia. (escrito em nome de Shoghi Effendi, numa carta a um crente Bahá’í)
No entanto, a humanidade durante muito tempo ao longo da sua história referiu-se a Deus com pronomes de género. No fundo, é mais fácil. E apesar de Deus não ser uma pessoa, Ele é uma realidade pessoal. Quando falamos da influência de Deus nas nossas vidas, do nosso sentido de lealdade e amor para com Deus, e dos ensinamentos de Deus, é muito mais fácil dirigirmo-nos a este Ser Supremos como se Ele fosse uma pessoa.

Na história da maioria das culturas, o conceito de um ser todo-poderoso apenas poderia parecer plausível se fosse atribuído a uma figura masculina. E ao longo dos séculos, os Manifestantes de Deus ao transmitirem os Seus ensinamentos à humanidade também tiveram de usar uma linguagem que as pessoas entendessem. O conceito de um Deus “feminino” poderia ter sido excessivo numa altura em que as pessoas mal compreendiam a noção elementar de igualdade de entre homens e mulheres. Também poderia ter provocado mal-entendidos sobre Deus, levando as pessoas a acreditar que existe mais do que um.

As Escrituras Bahá'ís esclarecem que Deus é uma realidade que transcende os aspectos materiais, nomeadamente o género. E explicam que o uso de uma linguagem de género, particularmente nos casos em que se dirige a toda a humanidade como “homem” não é apenas uma questão de convenção. É uma questão de linguagem e tradução; mas isso não implica que as mulheres sejam inferiores aos homens:
Homem é um termo genérico que se aplica a toda a humanidade. A frase bíblica “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” não significa que a mulher não tenha sido criada. A imagem e semelhança também se aplica a ela. Em persa e em árabe existem duas palavras distintas que foram traduzidas para inglês como homem: uma significa homem e mulher colectivamente, a outra distingue homem como masculino e mulher como feminino. A primeira palavra e o seu pronome são genéricos e colectivos; a segunda aplica-se apenas ao masculino. Acontece o mesmo em hebreu. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)
Adoro o facto dos ensinamentos Bahá’ís serem tão claros sobre a igualdade de homens e mulheres, mesmo no tema da linguagem. Tanto Mulheres como homens podem manifestar atributos divinos; nenhum deles está acima do outro. Aos olhos de Deus, o género dos seres humanos não tem significado:
Na realidade, Deus criou toda a humanidade, e na perspectiva de Deus não existe distinção entre homem e mulher. Aquele cujo coração é puro, é aceitável aos Seus olhos, seja homem ou mulher. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)
A Casa Universal de Justiça diz-nos que a linguagem de género ao referir-se a Deus não tem significado. A nossa percepção é profundamente influenciada pelos padrões patriarcais que prevalecem na nossa sociedade:
No caso dos termos genéricos das traduções em inglês das Escrituras Bahá’ís, a tendência de considerar estes termos como sendo aplicáveis apenas a seres masculinos é um reflexo de uma sociedade dominada por homens, que prevaleceu durante muito tempo, e em relação à qual existe uma reacção das mulheres que pretendem igualdade e um reconhecimento legítimo… a linguagem é um fenómeno vivo e, sem dúvida, o significado desejado dos termos genéricos tornar-se-á mais evidente à medida que a influência do compromisso Bahá’í com a igualdade dos sexos se espalhar mais amplamente na sociedade humana. (em nome da Casa Universal de Justiça, 26 de Setembro de 1993)
A Fé Bahá’í reconhece que a linguagem é uma “coisa viva” – constantemente sujeita às mudanças na nossa cultura e na nossa compreensão da realidade. À medida que as nossas palavras mudam, também muda o nosso entendimento de palavras já existentes. Assim, à medida que transformamos a sociedade, o nosso entendimento sobre Deus também se aprofundará.

Com esta transformação, a sociedade pode começar a compreender que as qualidades “masculinas” normalmente associadas com Deus – força, poder, conhecimento – também são femininas. E pode começar a ver as qualidades “femininas” – como amor, carinho e compaixão – como inerentemente divinas e, portanto, tão dignas de louvor quanto as qualidades viris que tendemos a considerar masculinas.

E será que isto significa que podemos referir Deus com pronomes femininos? Penso que sim. Mas referir Deus com um género específico apenas para facilitar um diálogo nunca deve obscurecer a verdade: Deus está para lá da compreensão humana, para lá do género, para lá de uma forma física ou qualquer conceito humano que possamos ter.

Ao trabalhar para estabelecer a igualdade entre homens e mulheres em todos os aspectos das nossas vidas, vamos compreendendo Deus cada vez mais.

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Texto original: Is God a Woman? (www.bahaiteachings.org)

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Nasim Mansuri é uma apaixonada pela escrita. Nascida no Paraguai, tem servido a comunidade Bahá’í em vários países. Actualmente estuda Engenharia Química e Escrita Profissional no Massachusetts, onde é activa na dinamização de várias actividades Bahá’ís.

sábado, 18 de abril de 2020

Reflexões sobre a Revelação do Báb

Por Ingo Hoffman.


Há mais de um ano, com o aproximar do bicentenário do nascimento do Báb, senti que devia tentar escrever um livro – como se fosse uma homenagem pessoal – dedicado a esta celebração Bahá'í global.

Enquanto escrevia os vários capítulos desse livro, fui levado a reflectir sobre o advento da revelação do Báb e nos sinais que apontam para ela, no seio da minha herança cultural, no coração da Europa.

Tornou-se claro para mim que a minha viagem espiritual se iniciou no capítulo 13 do livro Respostas a Algumas Perguntas, de 'Abdu'l-Bahá, e me trouxe às minhas grandes preocupações sobre o aquecimento global – um caminho que não foi fácil de percorrer, como percebi ao longo deste ano!

Vivo num país – a Alemanha – onde existe um consenso esmagador em todos os segmentos da sociedade que as alterações climáticas provocadas pelo homem estão bem fundamentadas em factos e análises científicas, e que a humanidade deve tomar medidas e assumir responsabilidade pelo aquecimento global.

Estou confortável ao afirmar isto após uma longa carreira como físico e como crente convicto no princípio Bahá'í de equilíbrio entre ciência e religião, como duas formas complementares para entender a realidade. Também acredito que tendo crescido numa área – Munique – onde não posso ignorar o significado da arte Cristã, como materialização daquilo que incitou as pessoas no íntimo dos seus corações e das suas crenças religiosas; a outra face da moeda é a realidade científica. No decorrer deste processo, muitas coisas ficaram mais claras para mim: o termo “apocalipse” tem um significado muito mais amplo do que a maioria das pessoas pensam.

Tendo em consideração a cada vez maior percepção dos desafios à nossa frente – não apenas as alterações climáticas, mas também os crescentes desastres ambientais e o aumento das ameaças à paz mundial – comecei a perceber que se está a espalhar entre nós um novo tipo de ansiedade secular apocalíptica. Percebo uma preocupação global crescente sobre um possível colapso de toda a nossa civilização, juntamente com uma percepção de que o nosso espaço de acção está a diminuir. Assim, não é surpreendente que a palavra “apocalipse” tenha vindo a ser mais utilizada em debates públicos e opiniões, durante a última década.

Quando pensava em tudo isto, lembrei-me da interpretação de 'Abdu'l-Bahá sobre algumas das visões proféticas de S. João de Patmos no livro do apocalipse, o último livro do Novo Testamento. De facto, a crença comum da Cristandade – partilhada por crentes antigos e actuais – sempre viu estes sinais apocalípticos como relacionados com o fim da “velha terra e do velho céu”. Tradicionalmente, os Cristãos conhecem estas profecias relacionando-as com o regresso de Cristo e a “Nova Jerusalém” descendo do “novo céu”.

No entanto, no livro Respostas a Algumas Perguntas, 'Abdu'l-Bahá comenta que há sempre um significado exterior nos versículos do Apocalipse, mas também uma interpretação mais profunda e um significado simbólico:
De igual modo, [no Livro do Apocalipse] a religião de Deus é descrita como a Cidade Santa ou a Nova Jerusalém. Claramente, a Nova Jerusalém que desce do céu não é uma cidade de pedra e cal, de tijolo e argamassa, mas antes, a religião de Deus que desce do céu e é descrita como nova. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised version, p. 77)
Referindo-se ao capítulo 12 do Livro do Apocalipse, 'Abdu'l-Bahá apresenta um significado totalmente novo, descrevendo-o como uma narrativa alegórica do nascimento da revelação do Báb.

Para pessoas habituadas à perspectiva Cristã, isto pode ser surpreendente: abre-se um novo capítulo de leitura do apocalipse bíblico que nos leva à história e tradição Islâmicas, e não se fica pelo Cristianismo. Obviamente, o Báb apareceu neste horizonte e declarou a Sua missão em 1844 como a “porta” para Bahá'u'lláh – e simultaneamente alargou ainda mais os significados do Livro do Apocalipse.

A interpretação incrível de 'Abdu'l-Bahá descreve a “mulher no céu” da visão de S. João, que está vestida como uma noiva vestida com o sol, e coma lua debaixo dos pés:
Esta mulher é essa noiva, a religião de Deus que desceu sobre Maomé. O sol com que ela se vestia, e a lua sob os seus pés, são os dois governos abrigados à sombra dessa religião: o persa e o otomano, pois o símbolo da Pérsia é o sol e o do Império Otomano é a lua crescente. (Idem)
No Livro do Apocalipse, a mulher simbólica dá à luz uma criança – a revelação do Báb – enquanto um dragão vermelho com sete cabeças se prepara para devorar o seu filho assim que nascer. Na verdade, o dragão é uma metáfora que representa a dinastia Omíada que nos primeiros anos do Islão, ansiava matar todos os descendentes de Maomé por temer perder o poder.

Ao longo de dois mil anos de interpretação Cristã, esta mulher representou primeiramente a “verdadeira fé” (como mediador entre Deus e a Sua igreja), mais tarde representou a própria igreja e por fim representou Maria, a mãe de Jesus. O dragão foi sempre visto como o inimigo da igreja ou da verdadeira fé: nos primeiros anos era uma metáfora representando o rei Herodes ou o imperador Nero, e durante a Reforma era o Papa romano. Não esqueçamos o seguinte: no Livro da Revelação, S. João não atribui nomes às personagens das suas visões proféticas – provavelmente por uma boa razão. Isto abriu espaço para interpretações segundo as necessidades de cada época; mas o que acontece é que as profecias apenas ficam claras quando se cumprem.

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Texto original: Reflections on the Revelation of the Bab (www.bahaiteachings.org)

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Ingo Hofmann é doutorado em física pela universidade de Munique e professor na Goethe-University, em Frankfurt (Alemanha). Nos anos mais recentes trabalho como representante para assuntos externos da Comunidade Bahá'í da Alemanha É autor do livro Apokalypse im Umbruch der Zeit (BoD, 2019) onde apresenta e desenvolve o tema deste artigo.

sábado, 11 de abril de 2020

A bela e triste história de amor do Báb e Sua Esposa

Por Kathy Roman.


Sou uma pessoa muito sentimental e adoro ler uma emocionante história de amor - e quando a história é verdadeira, então ainda melhor!

Uma das minhas narrativas preferidas na história da Fé Bahá’í é a história do Báb e da mulher que Ele apreciava acima de todas as outras: a Sua esposa Khadijih Bagum.

Tudo começou quando o Báb e Khadijih eram crianças. Eram primos em segundo grau e brincavam juntos, até que chegaram à idade em que, segundo as tradições islâmicas da sociedade persa, já não era permitido que estivessem juntos e se vissem. Quando o Báb completou 23 anos, a Sua mãe começou a procurar uma esposa para Ele.

Na mesma ocasião, Khadijih, que tinha cerca de 20 anos, teve um sonho vívido:
Uma noite vi no mundo dos sonhos, Fátima, a filha de Maomé, vindo a nossa casa e desejando que uma de nós se casasse com o seu filho. Eu e as minhas irmãs recebemo-la com afecto e cortesia. Quando ela se sentou, olhou-nos intensamente; depois levantou-se, aproximou-se de mim e beijou a minha testa. (Munirih Khanum, Episodes in the life of Munirih Khanum, Marriage of Khadijah to the Bab, pp. 32-33.)
Khadijih, acrescenta:
Na manhã seguinte, levantei-me e senti-me leve e feliz, mas tinha vergonha de contar o meu sonho a alguém. Na tarde desse mesmo dia, a mãe do Báb veio a nossa casa. Juntamente com as minhas irmãs, recebemo-la, e para minha surpresa, tal como tinha visto no meu sonho, ela levantou-se, aproximou-se de mim sorrindo, beijou a minha testa e abraçou-me. Após uma conversa normal, ela saiu. A minha irmã mais velha segredou-me ao ouvido que ela tinha vindo pedir a minha mão para o filho. Respondi: “Tenho tanta sorte!” Depois relacionei o meu sonho da noite anterior e disse a realização do meu sonho tinha trazido imensa alegria ao meu coração. (Idem)
Carta do Báb à Sua Esposa
O Báb e Khadijih casaram logo a seguir; o jovem casal estava muito apaixonado. Mas pouco depois do casamento, Khadijih teve um sonho assustador. Um leão feroz apareceu no seu pátio e ela agarrou-o com os braços à volta do pescoço. O leão arrastou-a pelo pátio dando duas voltas e meia. Quando Khadijih acordou na manhã seguinte, contou o sonho horrível ao seu marido. Ele explicou-lhe o significado do sonho – as suas vidas juntas não durariam mais do que dois anos e meio. E assim começou uma mudança nas suas vidas, com o casal a preparar-se para as muitas adversidades que viriam.

Um ano mais tarde, Khadijih, grávida do primeiro filho, ficou muito doente durante parto, colocando em risco a sua vida e a vida do bebé. A mãe do Báb assustada pela mãe e pela criança, pediu ao Báb que salvasse ambos. O Báb pegou num espelho e escreveu nele uma oração. Pediu à sua mãe que segurasse o espelho em frente da sua esposa Khadiji. Seguidamente, nasceu um menino a quem deram o nome de Ahmad. Mas pouco depois do seu nascimento, o bebé morreu.

A mãe de Báb ficou muito zangada e perturbada por o filho não ter conseguido salvar a mãe e o bebé, mas o Báb explicou que Deus não o destinara a ter filhos.

Seguidamente o Báb, que amava imensamente a sua mulher, escreveu-lhe estas palavras de conforto:
Ó bem-amada!... Não serás uma mulher, como outras mulheres, se obedeceres a Deus na Causa da Verdade, a maior das Verdades… Sê paciente em tudo o que Deus decretou. Em verdade, o teu filho Ahmad está com Fátima, a Sublime, no Paraíso santificado. (H.M. Balyuzi, The Bab, p. 47)
Khadijih, iluminada e espiritualmente amadurecida, notou que o seu amado marido não era um homem como os outros. Mas não tinha percebido o quão diferente ele era, até uma noite inesquecível. Algum tempo antes do Báb declarar a Sua Missão, Khadijih Bagum teve um encontro fascinante com o seu marido. No meio da noite, o Báb levantou-Se da cama e não voltou durante horas. Preocupada, Khadijih foi à Sua procura.
... ela viu a sala superior da Casa imersa em luz. Perguntou a si própria qual seria a fonte de toda aquela luz, e de onde teriam vindo todas aquelas lamparinas. Mas esta não era luz tangível; era luz divina, e ela não estava a ver com os seus olhos físicos, mas com a sua visão interior… Ali viu um Sol que iluminava o mundo e uma lua brilhante no meio da sala, com as Suas mãos levantadas em direcção ao céu. Apesar dos seus olhos estarem fixos na luz deslumbrante que emanava do Seu ser, um sentimento de temor e medo apossou-se dela. Queria sair dali, mas não era capaz de se mover. O seu temor cresceu tanto que se sentia entorpecida. (citado por Baharieh Rouhani Ma’ani, Twin Divine Trees, p. 34)
Na manhã seguinte, o Báb disse-lhe:
Sabei que o Deus Omnipotente se manifesta em Mim. Eu sou Aquele Cujo advento o povo do Islão esperou durante mil anos. Deus criou-Me para uma grande Causa, e tu testemunhaste a revelação divina. Apesar de eu não ter desejado que Me visses nesse estado, Deus, porém, assim o quis para que não houvesse qualquer espaço no teu coração para dúvida ou hesitação. Idem, p. 35)
Khadijih Bagum disse que assim que ouviu O Báb a proferir aquelas palavras, ela acreditou n’Ele… e o seu coração ficou calmo e seguro. Posteriormente, o Báb revelou uma oração para a sua amada Khadijih, para ser recitada nos momentos em que Ele estivesse ausente ou quando ela receasse pela sua segurança. Ele disse:
Na hora da tua perplexidade, recita esta oração antes de ires dormir. Eu próprio aparecer-te-ei e afastarei a tua ansiedade. (Nabil, The Dawn Breakers, p. 143)
O Báb e a Sua esposa Khadijih partilharam uma vida intensa de sacrifício, num momento que seria mais tarde conhecido como “A Hora da Alvorada” – o início de uma nova religião mundial. Apesar da feroz perseguição religiosa, separação forçada, e perda trágica do filho recém-nascido, os dois permaneceram firmemente dedicados um ao outro, e a Deus. O Báb descreveu a mágoa que sentiu quando se separaram:
Meu doce amor... Deus é minha testemunha que desde o momento da nossa separação, a mágoa tem sido tão intensa que não se pode descrever... (H.M. Balyuzi, Khadijih Bagum: Wife of The Bab)
Os dois recém-casados, muito apaixonados, estiveram pouco tempo juntos neste mundo. Mas durante esse curto período de tempo apreciaram cada dia e superaram cada adversidade. O seu amor resistiu até ao fim do tempo e estarão unidos em todos os mundos de Deus.

Tal como o Báb predisse, dois anos e meio depois do sonho de Khadijih com o leão, Ele foi martirizado… mas essa é outra história bela e trágica.

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Texto original: The Bittersweet Love Story of The Bab and His Beloved Wife (www.bahaiteachings.org)

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 4 de abril de 2020

A propósito da Quarentena, algumas analogias com Eventos na História Bahá'í

Por Irina Kenig.


Com a pandemia do Coronavirus (COVID-19) a paralisar o mundo, parece que a vida fez uma pausa e deu-nos tempos para reflectir sobre a condições actuais do mundo e reavaliar aquilo que é importante para nós. Apesar de serem tempos desafiadores, também são ricos em oportunidades que podemos descobrir. Como Bahá'í, tento perceber o sentido nestes tempos incertos, vendo-os com um olhar espiritual e uma perspectiva histórica.

Do ponto de vista espiritual, vejo este tempo como uma extensão do mês do Jejum Bahá'í. Nos próximos meses, vamos experimentar a privação, e praticaremos a moderação, a generosidade e a paciência. Tal como no Jejum, este é um momento em que podemos reflectir profundamente sobre como a situação actual nos pode ajudar a ficamos mais ligados aos princípios da Fé Bahá'í e como podemos servir melhor a humanidade.

Nestes dias podemos escolher, com mais frequência do que anteriormente, orações especiais para procurar ajuda e orientação. Na Epístola de Ahmad, Bahá'u'lláh diz:
Lembra-te dos Meus dias durante os teus dias, e da Minha angústia e Meu exílio nesta remota prisão.
Este versículo levou-me a traçar paralelos entre os eventos da história da nossa Fé e a actual situação em que nos encontramos. Assim, se estou preocupada sobre as semanas em que terei de ficar no conforto da minha casa e na companhia da Netflix (ha ha ha) quer dizer, da minha família, então talvez deva lembrar-me de como Bahá'u'lláh e os Seus companheiros ficaram presos na fortaleza de Akká durante dois anos. Quem já esteve em peregrinação e teve o privilégio de ver, sabe que a cela de Bahá'u'lláh ocupou era do tamanho de um pequeno quarto. E se me perturba o facto de não podermos apertar as mãos uns dos outros e termos de manter uma distância de dois metros entre nós, então o que pensar daqueles peregrinos que caminhavam durante dois meses desde a Pérsia até Akká para se encontrarem com a Abençoada Beleza, mas era-lhes negado o acesso à cidade e apenas tinham a oportunidade de O ver através da janela da Sua cela, a uma grande distância, acenando-Lhe e depois regressando a casa? [1]

Muitos países fecharam as suas fronteiras e algumas famílias estão separadas sem saber quando estarão novamente juntas. Graças a Deus, muitos de nós temos formas de manter o contacto através do Skype ou do Viber. No entanto, esse não foi o caso do Báb, quando foi expulso e exilado de Shiraz. Ele teve de ficar separado da Sua jovem esposa com quem tinha casado recentemente, e da Sua respeitável mãe. Infelizmente, nunca voltaram a estar juntos. Na verdade, durante muito tempo, estas duas importantes mulheres da Sua vida não tiveram conhecimento da Sua execução.[2] Numa outra ocasião, Bahá'u'lláh, apesar ter recebido a ordem de exílio para a Sua família, teve de deixar o Seu filho Mirza Mihdi, que tinha três anos de idade, devido à saúde do menino. A família tinha medo de que a longa e dura viagem de Teerão para Bagdade, durante o inverno, fosse um perigo para a sua vida. Mirza Mihdi só se juntou à família oito anos mais tarde.[3] Esta longa separação dos seus pais seria muito dolorosa para uma criança, mesmo nos nossos dias em que temos tecnologias que nos mantêm ligados. Então, quão mais difícil deve ter sido viver algo semelhante, no meio do século XIX, quando não existiam essas tecnologias?

A varanda de uma familia Baha'i, em Itália
Durante uma quarentena voluntária, ainda posso fazer compras de bens essenciais ou sair para passear; no entanto, durante o Seu encarceramento em Akká, Bahá'u'lláh não tinha esta possibilidade. Podemos imaginar o quão imensamente feliz Ele ficou quando, após sete anos de prisão domiciliária, entrou pela primeira vez no Jardim de Ridvan, tão carinhosamente preparado para Ele por 'Abdu'l-Bahá, para que pudesse apreciar aquela vegetação deslumbrante.

Hoje se nos lamentamos pelo facto de termos de ficar em casa com todas as comodidades e na companhia dos nossos entes queridos, talvez seja útil lembrar o Báb. Privado de qualquer conforto, no frio intenso dos meses de inverno quando a Sua barba ficava coberta de gelo após as Suas abluções [4] e as Suas mãos gelavam e já não conseguia escrever, o Báb nem sequer tinha uma lamparina para iluminar o Seu quarto. Durante a maior parte do tempo de encarceramento em Mah-Ku, Ele apenas tinha um companheiro, Siyyid Husayn-i-Yazdi. [5] E se eu ficar sem víveres ou abastecimentos, tudo o que tenho de fazer é encomendar o que preciso com um clique do mouse. As minhas encomendas serão entregues à minha porta após algumas horas. No entanto, o Báb tinha de encomendar os abastecimentos através de um acompanhante de confiança, e tinha de esperar pela sua encomenda durante semanas ou meses. Numa ocasião, o Báb pediu que Lhe comprassem mel. Quando o recebeu, o Báb ficou desiludido porque tinha sido excessivamente caro. Pediu que o mel fosse devolvido e advertiu os comerciantes para que não cobrassem demasiado pelos seus produtos. [6] Isto é algo que podemos relacionar com estes tempos de crise, quando os retalhistas aumentaram os preços dos produtos mais essenciais.

Por fim, este tempo de angústia global faz-me pensar nos heróis de Shaykh Tabarsi. Isolados no interior do forte, privados de alimentos, comeram cintos de cabedal e ervas, mas não permitiram que os seus espíritos desanimassem ou que as suas mentes esquecessem o grande objectivo que pretendiam alcançar. [7] Sacrificaram-se tremendamente por todos nós, as futuras gerações de Bahá'ís que levariam o estandarte da unidade por todo o mundo. Que sejamos inspirados pelo seu heroísmo e sacrifícios, e guiados pelo seu exemplo, que consigamos espalhar os Ensinamentos de Bahá'u'lláh com que a humanidade encontrará consolo. Bahá'u'lláh deu-nos esta oração que podemos usar em momentos de crise:
Ó Tu Cujos testes são um remédio curador para aqueles que estão próximos de Ti, Cuja espada é o desejo ardente de todos os que Te amam, Cujo dardo é o desejo mais querido dos corações que por Ti anseiam, Cujo decreto é a única esperança dos que reconheceram a Tua verdade! Imploro-Te, pela Tua doçura divina e pelos esplendores da glória do Teu semblante, que faças descer sobre nós, do Teu retiro nas alturas, aquilo que nos permita aproximar de Ti. Torna firmes, então, os nossos pés na Tua Causa, ó meu Deus; e esclarece os nossos corações com o esplendor do Teu conhecimento, iluminando-os com o brilho dos Teus Nomes.

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NOTAS:
[1] - Baharieh Rouhani Ma'ani, Leaves of the Twin Divine Trees, p. 149
[2] - Idem, p. 40
[3] - Idem, p. 100
[4] - Nabil, The Dawn-Breakers, p 252
[5] - The Bab, Persian Bayan, Unit 2, chapter 1
[6] - Nabil, The Dawn-Breakers
[7] - Idem.
[8] - Baha'u'llah, Baha'i Prayers

Texto original: How Isolation Can Help Us Draw Parallels to Events in Baha'i History (www. https://www.bahaiblog.net/)

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Irina é uma Bahá'í que gosta de estudar a história da Fé Bahá'í. Vive na Califórnia com o marido e a filha. É artista, dedica-se à fotografia e dedica-se à escrita. Nos seus tempos livres gosta de cozinhar e de estar com a família. Aprecia o contacto com a natureza e cultiva árvores de fruto. Colecciona livros, lê muito e é visitante assídua de museus; gosta de viajar pelo mundo e explorar outras culturas.