sábado, 30 de agosto de 2025

É possível beber até morrer?

Por David Langness.


Se já visitou o Memorial da Guerra do Vietname em Washington, D.C., viu os nomes dos 58.000 americanos que morreram nessa guerra. Estou aqui para lhe dizer: alguns deles não morreram em combate.

Como militar e objector de consciência durante a guerra do Vietname, vi a morte nas suas formas mais horríveis, mas, estranhamente, a morte acidental ou auto-infligida pelo álcool parecia muito pior do que a morte em combate.

Por isso, digo: é possível beber até morrer. Eu vi isso acontecer.

Muitos militares em guerras morrem em consequência dos ferimentos, mas poucas pessoas que não vivenciaram conflitos armados sabem que um número considerável desses militares morre devido aos seus próprios comportamentos. O consumo excessivo da droga, e também de álcool, mata muitos. Vi isto acontecer várias vezes – a causa oficial da morte: a intoxicação alcoólica. Também vi oficiais a escreverem cartas às famílias dos soldados mortos, dizendo que morreram corajosamente em combate para poupar os sobreviventes da vergonha e do estigma de uma morte causada pelo álcool.

Como é que isso acontece? Simplesmente, um militar começa a beber o mais intensamente e o mais rapidamente possível, determinado a apagar a terrível realidade da guerra. Procurando o esquecimento, o militar tem geralmente como objetivo ingerir rapidamente uma quantidade tão grande de álcool na corrente sanguínea que provoque uma perda de consciência agradável, pelo menos durante algum tempo. Alguns destes militares até podem ter tido pensamentos suicidas, mas a maioria dos que conheci queria apenas um alívio temporário, uma breve anestesia para a enorme dor psíquica que os rodeava.

Mas é fácil calcular mal e beber demais. Quando isto acontece, dá-se uma overdose de álcool, o que significa que as áreas do cérebro que controlam as funções básicas de suporte de vida do seu corpo – ritmo cardíaco, respiração, temperatura interna – começam a deixar de funcionar. E rapidamente se segue a morte.

Foi exatamente isso que aconteceu com um amigo próximo a quem chamarei Ernie (nome fictício), um camarada do meu pelotão na 101ª Divisão Aerotransportada no Vietname. Ernie veio de uma pequena cidade agrícola no Missouri e, quando se alistou no Exército, era apenas um rapaz – tinha 17 anos e vinha do mundo rural. Acho que o Ernie nunca bebeu antes de usar a farda. Inocente e ingénuo, Ernie passou por experiências terríveis no início da sua missão e sofreu muito com isso. Perdeu a fé na humanidade, como acontece a muita gente em tempos de guerra. Isso fez com que quisesse afogar a sua decepção. Um dia, voltou à base depois de sobreviver a um violento tiroteio, disse: "Vou ficar o mais bêbado que puder esta noite", e não viveu para ver a manhã seguinte.

Agora sei que se não tivesse conhecido a Fé Bahá’í e parado com a bebedeira da adolescência antes de ser chamado ao exército, poderia facilmente ter acabado assim.

Em vez disso, tento ser um Bahá'í. Como disse 'Abdu'l-Bahá em Londres, em 1911:

Um Bahá'í não nega nenhuma religião; aceita a Verdade em tudo, e morreria para a defender. Ama todos os homens como seus irmãos, de qualquer classe, raça ou nacionalidade, credo ou cor, bons ou maus, ricos ou pobres, belos ou hediondos. Ele não comete violência; se for atingido, não retribui o golpe... Como proteção contra a intemperança, não bebe vinho nem bebidas alcoólicas. Bahá’u’lláh disse que não é bom para um homem são tomar aquilo que lhe vai destruir a saúde e os sentidos.

Não foi fácil durante a guerra, mas mantive a sobriedade durante todo o tempo em que estive destacado, e mantive-a desde então. Procurei a temperança, e devo a minha vida a isso.

Por temperança, não creio que 'Abdu'l-Bahá quisesse dizer apenas o sentido habitual da palavra:

temperança: moderação no consumo de bebidas alcoólicas ou abstinência total

Em vez disso, pode ter-se referido a esta definição alternativa mais ampla, listada em primeiro lugar no dicionário:

temperança: capacidade de moderar os seus próprios desejos e reações, sobriedade no comer e no beber

Claro que a raiz da palavra temperança é temperamento. Os adolescentes, sobretudo os jovens do sexo masculino, nem sempre controlam bem o seu próprio temperamento – o que talvez explique uma das razões pelas quais os exércitos procuram sempre jovens soldados que ainda não controlam totalmente a sua raiva, os seus apetites ou a sua racionalidade. Soubemos recentemente, através de vários estudos científicos, que aqueles que se encontram no final da adolescência ou no início da idade adulta, especialmente os homens, nem sempre desenvolvem as suas capacidades plenas de bom julgamento até atingirem os vinte e poucos anos. A tomada de decisões saudáveis ocorre no córtex pré-frontal do cérebro – mas, como o córtex pré-frontal continua a desenvolver-se até ao início ou meados dos vinte anos, as nossas capacidades de tomada de decisão não amadurecem completamente até ao início da idade adulta.

Suspeito que esta amadurecimento neurológico possa ser uma das razões pelas quais os ensinamentos Bahá’ís dizem “… a experiência tem mostrado o quanto a renúncia ao tabaco, ao vinho e ao ópio proporciona saúde, força e prazer intelectual, discernimento de julgamento e vigor físico”.

A expressão "discernimento de julgamento" refere-se, obviamente, a uma tomada de decisão saudável, sábia e criteriosa. Como as decisões que tomamos hoje determinam o nosso destino amanhã e mais além, cada um de nós precisa de procurar a melhor sabedoria que o nosso cérebro e a nossa alma podem reunir em cada momento do nosso desenvolvimento humano. Esta é uma das razões pelas quais os ensinamentos morais da religião podem ter um impacto tão positivo na sociedade – porque temperam os nossos temperamentos.

Quando retiramos as substâncias que causam dependência desta equação e as deixamos de fora, tomaremos melhores decisões e viveremos vidas mais longas, saudáveis e felizes.

------------------------------------------------------------
Texto original: Can You Drink Yourself to Death? 

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

Sem comentários:

Enviar um comentário