sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Epístola da Sabedoria (5)

O VERBO DE DEUS

NOTA: entre parêntesis rectos [ ] encontram-se referências aos parágrafos da Epístola da Sabedoria.

Depois de proclamar a harmonia entre diferentes conceitos “acto da Criação” e “Eternidade da Criação”, Bahá’u’lláh sustenta que as origens e desenvolvimento do universo dependem, não apenas de forças naturais, mas também do Verbo de Deus (Palavra Criativa). Para Ele, a Natureza é um reflexo da Vontade de Deus[12, 14]. Trata-se de uma posição que refuta o materialismo e positivismo europeu do sec. XIX.[21, 22, 41]

O conceito de Verbo de Deus, enquanto palavra criativa de Deus, encontra-se nas escrituras de outras religiões. No primeiro capítulo do Evangelho de S. João lemos:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez."
No Islão também se proclama o poder da Palavra Criativa de Deus, ao afirmar-se que Deus criou o mundo apenas com uma palavra. Bahá’u’lláh reafirma este conceito na Oração Obrigatória Longa e na Epístola da Visitação. Trata-se de uma metáfora que nos transmite duas ideias: o poder do Verbo (enquanto palavra criativa) e o consequente poder de Deus.

Na Epístola da Sabedoria, Bahá’u’lláh indica que o Verbo está na origem da Criação, mas não Se alonga muito no tema do Verbo, e declara mesmo que não pretende continuar a abordar o assunto. No entanto, outras das Suas Epístolas focam este tema:
O Verbo de Deus é o Rei das Palavras e a sua influência penetrante é incalculável. Sempre dominou e para sempre continuará a dominar o mundo da existência. O Grande Ser diz: o Verbo é a chave-mestra para o mundo inteiro, pois através da sua potência, as portas dos corações dos homens, que na realidade são as portas do céu, descerram-se... É um oceano de inesgotáveis riquezas, que envolve todas as coisas. Cada coisa que se possa discernir é apenas uma emanação dele.(a)
O Verbo pode manifestar-se na forma de palavra revelada pelos Manifestantes. Essa palavra revelada também está dotada de um enorme poder:
...no momento em que manar dos Meus lábios a palavra que exprima o Meu atributo "o Omnisciente", cada coisa criada segundo a sua capacidade e suas limitações, será investida de poder para desenvolver o conhecimento das mais maravilhosas ciências, e será capacitada a manifestá-las no decorrer do tempo, a mando d'Aquele que é o Todo-Poderoso, o Conhecedor de Tudo. Sabe tu, com certeza, que a Revelação de todos os outros Nomes é acompanhada de uma manifestação semelhante de poder divino. Cada uma das letras que procede dos lábios de Deus é, em verdade, uma Letra Mãe, e toda a palavra proferida por Aquele que é o Manancial da Revelação Divina é uma Palavra-Mãe, e a Sua Epístola é uma Epístola-Mãe. Bem-aventurados os que aprendem esta verdade.(b)
'Abdu'l-Bahá descreve a natureza do Verbo comparando-o aos raios do sol(c). Deus é como o sol; enquanto o sol existiu, também existiram os raios de sol. No entanto, a existência dos raios depende apenas do sol. Tal como o sol emana raios sem se dividir, Deus emana o Verbo sem partilhar a Sua essência. Quando os raios brilham sobre um espelho perfeito (o Manifestante), as qualidades do sol aparecem.

As Escrituras Bahá’ís também afirmam que o Verbo é causa da criação e continua a exercer poder e influência sobre o mundo. É "o poder penetrante em todas as coisas, quem move as almas, quem une e regula o mundo da humanidade"(d) e "nunca foi negado ao mundo da existência"[10].

Se - como vimos no post anterior - os dois conceitos sobre o início da Criação são válidos, se o Verbo é a causa da Criação e se o Verbo está sempre presente (nunca nos foi negado), então podemos deduzir que a criação não é um acto que ocorre isolado no tempo, mas antes um processo contínuo. Assim conseguimos perceber porque é que Bahá'u'lláh afirma que existe harmonia entre os dois conceitos. O que não é compatível com os ensinamentos Bahá’ís é a ideia de criação como um acto único que ocorre no tempo, estabelecendo uma separação clara entre existência e não existência.


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(a) - Epístola de Maqsud
(b) - Seleção Escritos de Bahá'u'lláh, LXXIV
(c) - Respostas a Algumas Perguntas, cap. 53
(d) - Sel. Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 225

1 comentário:

fernanda.margaca disse...

Deveras interessante.
A criação, realizando-se através do Verbo de Deus, processa-se por uma função de degrau (step function) muito bem conhecida na matemática e na física.
Quando surge um Manifestante Divino, com mais uma nova porção do Verbo Divino, toda a criação recebe, nessa altura, uma actualização que lhe aumenta o potencial de avançar para um novo estádio. O desenvolvimento deste potencial é que a meu ver é feito de forma contínua, levando o seu tempo...
A revelação é uma força aplicada a todo o universo que pode pôr em movimento, uniforme ou uniformente acelerado, diferentes processos e indivíduos.
No entanto, o indivíduo pode encontrar o Verbo de Deus, em qualquer altura, e ser por Ele transformado (ou como por vezes se diz, ressuscitado).
Ocorre-me que a obrigação do Bahai de ler as Escrituras diariamente e orar diariamente é um mecanismo que o leva a se submeter ao poder criador do Verbo - ou seja, a se ir diariamente transformando :)