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sexta-feira, 11 de abril de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (8)

FIM DA FÉ OU FIM DO DOGMATISMO?

No mesmo livro em que acusa as religiões abraâmicas de serem fontes de muitos males que afligem a humanidade, Sam Harris apresenta opiniões surpreendentes sobre a espiritualidade humana:
A história da espiritualidade humana e a história das nossas tentativas para explorar e modificar dados da consciência através de métodos como o jejum, o canto, a privação sensorial, a oração, a meditação e o consumo de plantas psicotrópicas. Não há dúvida que experiências deste tipo podem ser conduzidas de modo racional. Na verdade estes são alguns dos únicos meios de que dispomos para determinar até que ponto a condição humana pode ser deliberadamente transformada. (p.233)

No coração da religião, esconde-se uma semente de verdade, porque a experiência espiritual, o comportamento ético e as comunidades fortes são essenciais à felicidade humana. No entanto, as nossas tradições religiosas são intelectualmente caducas e politicamente ruinosas. Embora a experiência espiritual seja claramente uma propensão da mente humana, não precisamos de acreditar em nada de insuficientemente comprovado para a concretizar. É óbvio que tem de ser possível juntar a razão , a espiritualidade e a ética no nosso pensamento sobre o mundo. Isto seria o princípio de uma abordagem racional das nossas preocupações pessoais mais profundas. E seria o fim da fé. (p.245)
Imagino que o facto de Sam Harris considerar a espiritualidade como aspecto inerente à condição humana seja surpreendentemente para muitos ateus. Pode ser que algum queira comentar sobre esse assunto.

Como bahá'í também acredito que em cada religião existe uma semente de verdade. Já referi isso em posts anteriores. E também acredito que as “tradições religiosas” (entendo isto como sinónimo de instituições religiosas) têm tido um papel significativo na cristalização e anulação do poder regenerador da religião.

Talvez a ideia mais forte destas palavras do autor d’O Fim da Fé seja a necessidade de harmonia entre espiritualidade e razão. O equilíbrio entre estas duas facetas humanas é também um princípio bahá’í. Mas não penso que esta abordagem racional à espiritualidade humana não seria o fim da fé. Parece-me mais correcto dizer que seria o fim do dogmatismo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (7)


RELIGIÃO: PROGRESSO OU RETROCESSO?

No livro O Fim da Fé, Sam Harris critica as ortodoxias religiosas por fecharem a porta a “abordagens mais sofisticadas da espiritualidade”(p.23). É curioso que num livro onde abundam críticas violentas às religiões abraâmicas, se encontrem também apelos ao desenvolvimento de novas formas de espiritualidade, e ao progresso da religião. O contraste entre estas duas ideias é surpreendente.
O progresso da religião, como noutros domínios, deve ser uma questão de investigação no presente, e não uma mera repetição de doutrinas no passado. Aquilo que é verdade hoje deveria ser observável agora, e passível de descrever em termos não insultuosos em relação a tudo o resto que sabemos do mundo. Nesta medida todo o projecto se afirma retrógrado, já que não consegue resistir às mudanças que se operam em nós culturalmente, tecnologicamente e até eticamente. (p.25)

A maior parte daquilo que hoje consideramos sagrado só o é pela simples razão de assim ter sido considerado no passado (p. 27)

Não há nenhuma razão para que a capacidade de nos apoiarmos emocional e espiritualmente não evolua com a tecnologia, a política e a cultura em geral. Na verdade, a haver algum futuro para a humanidade, é forçoso que isso aconteça. (p.43)
Penso que a maioria dos Bahá'ís identificarão estas frases de Sam Harris com duas ideias chave: o progresso e a necessidade de livre (e independente!) pesquisa da verdade.

A nossa experiência colectiva enquanto espécie leva-nos a acreditar que as sociedades e as civilizações não conseguem progredir se a transmissão de conhecimento assentar na mera repetição de ideias e processos do passado. Também sabemos que as grandes evoluções em diversas áreas do conhecimento se deram quando se questionaram conceitos transmitidos. O que seria hoje a ciência se Copérnico ou Darwin não tivessem questionado as ideias do passado? Haveria liberdade ou democracia se os pais do Iluminismo não tivessem posto em causa as instituições tradicionais e os costumes da sua época?

Mas a evolução também existe na história das religiões. O aparecimento de cada religião constituiu um ponto de rotura com as religiões do passado; é nesse momento que se questionam dogmas, rituais, instituições e tradições; é também aí que se lançam as bases de uma nova etapa da evolução espiritual e social de um, ou mais, povos.

Nas palavras acima citadas encontro um apelo a que se ponham de lado os dogmas e tradições, e se investigue realmente o que existe na essência das religiões. É a defesa da livre e independente pesquisa da verdade; nesta matéria, não posso deixar de concordar com o autor d’O Fim da Fé.

Por outro lado, quando Sam Harris declara que "todo o projecto [religioso] se afirma retrógrado", leio nas suas palavras uma expressão de frustração pelo facto de muitas instituições religiosas não serem capazes de se adaptar à modernidade. É como se tivessem ficado cristalizadas nos seus dogmas e rituais, e de forma arrogante se proclamam detentoras exclusivas de verdades absolutas.

Não creio que todo a religião seja retrógrada. Prefiro antes acreditar que todo o projecto religioso tem o seu tempo. É como uma planta. A semente germina, surge uma pequena planta, que ao longo do tempo crescerá, dará os seus frutos, e por fim definhará e acabará por morrer. Acontece com todas as religiões. Incluindo a minha.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (6)

AINDA O ISLÃO

No livro O Fim da Fé, Sam Harris reconhece o contributo civilizacional do Islão (p.119), mas refere esse facto como se tratasse de uma obra do acaso; uma decadência generalizada das restantes civilizações teriam permitido o surgimento da civilização islâmica. Os muçulmanos tornaram-se portadores de valores civilizacionais e promotores do conhecimento científico porque não havia mais ninguém para o fazer. Ao fazer afirmações destas, o autor evita comparações com a forma como surgiram outras civilizações.

Os actuais problemas do mundo Ocidental com o Islão, não podem ser entendidos com bases em interpretações infantis do Alcorão. E a evidente estagnação da civilização islâmica que Sam Harris aponta(p. 144), deve ser analisada de forma objectiva de sob diferentes perspectivas. O autor do Fim da Fé está longe de ser a pessoa indicada para nos ajudar a perceber o Islão enquanto inspirador de uma civilização, assim como os motivos da ascensão e decadência dessa civilização. Reflectir sobre o que levou uma civilização tão brilhante e evoluída a cair e regredir seria um tema bem mais interessante do que um conjunto de análises politico-religiosas que nada mais são do que mera verborreia preconceituosa.

OUTRAS QUESTÕES

“Haverá paz com o Islão?” (p.149) questiona Sam Harris. O próprio não parece muito optimista na resposta a esta pergunta, o que também não admira, quando ao longo do livro se torna evidentes os seus preconceitos. O Ocidente colabora com tiranos muçulmanos, queixa-se o Sr. Harris (p.143); e tem razão.

E os tiranos não-muçulmanos? Quem vende armamento e tecnologia ao regime chinês? Quem suporta as ditaduras e as pseudo-democracias em África? Quem apoiou os sistemas totalitários na América Latina?

Onde estão os muçulmanos moderados, pergunta Sam Harris (p. 135)? Porque é que a sua voz não se faz ouvir? Lembro o autor já tinha defendido a ideia de que os moderados religiosos apenas fazem o jogo dos fundamentalistas. Mas não obstante estas considerações, o Sr. Harris conclui que é fundamental encorajar a transformação social e política das sociedades islâmicas, apoiando os muçulmanos moderados (p. 163-164). O estranho desta conclusão, é que no mesmo livro o autor já tinha acusado os crentes moderados de dar cobertura aos fundamentalistas. Para quem tanto preza o uso da razão, esta contradição não fica lá muito bem.

Felizmente que no meio desta obsessão anti-islâmica encontramos algum bom senso na forma como Sam Harris cita e se refere a Fareed Zakaria. O autor do Fim da Fé, refere-se ao editor da Newsweek como o homem que vê as origens da violência islâmica não no Islão, mas na história recente do Médio Oriente (p.159); que notou um retrocesso no mundo árabe nos últimos 50 anos (p.159); que aponta o falhanço das instituições políticas do mundo árabe como sendo a causa da ascensão do fundamentalismo islâmico (p.160); que considera a modernização política, económica e social como a chave para a redenção dos árabes (p.161).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (5)

O PROBLEMA DO ISLÃO

"Estamos em guerra com o Islão" é uma das ideias principais do livro O Fim da Fé. A afirmação é uma óbvia simplificação da realidade; o relacionamento entre o Ocidente e alguns países do Médio Oriente é bem mais complexo do que esta frase deixa a entender. É óbvio que - nas últimas décadas - o Islão radical têm sido uma fonte de problemas para o mundo Ocidental e para o próprio Islão. Penso que expressões como "Islão radical" e "fundamentalismo islâmico" apenas entraram na linguagem corrente expressão após a revolução iraniana de 1979. Onde estava esse o radicalismo islâmico antes dessa época?

Isto só por si lava-nos imediatamente a questionar: a que é que Sam Harris se refere quando fala do Islão? Ao longo do capítulo “O Problema com o Islão” percebemos que o autor se refere a todos os países de maioria muçulmana. Por outras palavras, inclui todos os muçulmanos, sejam eles liberais ou conservadores, árabes, persas, indianos, malaios, indonésios, africanos... todos eles são colocados por Sam Harris do mesmo lado de uma trincheira imaginária. Não seria mais objectivo considerar que o problema existe apenas devido às acções de regimes ditatoriais e grupos extremistas estabelecidos em alguns do Médio Oriente?

Não é isto uma simplificação típica de um modelo de pensamento radical? E não é estranho que seja uma atitude comum de extremistas religiosos e anti-religioso? Não seria possível ser um pouco mais racional? Afinal era isso que se esperava de quem, no mesmo livro, tanto apregoa o uso da razão.


A atitude mental do Islão radical merece ser comparada com outros radicalismos com que o Ocidente já se deparou. Podemos compará-lo com diversos fenómenos de intolerância religiosa que viveram à sombra de poderes instituídos. Desta forma, parece-me pertinente questionar porque é que Sam Harris não faz a comparação dos bombistas suicidas muçulmanos com os kamikazes japoneses da 2ª Guerra Mundial? Não existe algo de comum entre eles? Não acreditam ambos que se sacrificam por uma causa suprema, tentando levar a morte e destruição aos seus inimigos?

É, no mínimo estranho, que Sam Harris não seja capaz de fazer este tipo de comparações. Preferiu simplificações infantis em vez de uma análise racional da situação. Talvez as suas simpatias pelas religiões orientais não lhe tenham permitido fazer essa comparação.

INTERPRETAÇÃO DOS TEXTOS SAGRADOS

N'O Fim da Fé apresentam-se quase seis páginas (p. 129-134) de citações do Alcorão. São frases que, segundo o autor, revelam o carácter violento do Islão. Não é necessário ser muito versado na história do Islão para perceber que os textos do Alcorão revelados em Medina são muito diferentes dos textos revelados em Meca. Segundo vários teólogos muçulmanos, isto implica que a aplicabilidade e a abrangência do texto varia conforme o contexto da revelação.

Mas não é o Sr. Harris o grande defensor do uso da razão na análise da religião? Será a interpretação literal dos textos sagrados o exemplo dessa tão desejada racionalidade? Podemos ignorar o contexto (local e circunstâncias) em que os textos surgiram? Podemos fazer uma mera interpretação literal dos textos e já está? Mas não é exactamente isto o método dos fundamentalistas islâmicos? O uso da razão é mesmo isto?...

É óbvio que o Sr. Harris tem imensos preconceitos contra o Islão. Depois de insistir nas interpretações literais do Alcorão, encontra um versículo que afirma "Não vos mateis uns aos outros" (4:29). Estranhamente o autor prefere não interpretar literalmente este versículo; afirma que é "ambíguo" (p. 128). Conclui-se que o autor não prima pela objectividade...

Ao ler o livro O Fim da Fé, percebemos que o método do autor para avaliar as religiões é fazer uma interpretação literal dos textos e validar esse significado literal contra o senso comum. Nada de procurar sentido metafóricos ou significados implícitos; ficamos por uma leitura simplista. Mas será que o Sr. Harris faz isso com todas as religiões e todos os sistemas de crença?

Sabendo do fascínio de Sr. Harris pelo Budismo, que diria ele da máxima budista "Se encontrares o Buda na estrada, mata-o!" ? Será que também a interpreta literalmente considerando-a um incentivo à intolerância e à violência, uma prova da falsidade do Budismo e da sua influência maligna na história da humanidade? Ou será que por se tratar do Budismo tentaria procurar um significado metafórico, ou uma qualquer mensagem implícita nestas palavras? A resposta a estas questões encontra-se aqui: Killing the Buddha.

É estranho como o Sr. Harris consegue ser mais racional quando analisa textos do Budismo.

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NOTA: Este tema não se esgota por aqui; no próximo post abordarei outros assuntos que Sam Harris escreveu sobre o Islão no livro O Fim da Fé.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (4)

UMA RELIGIOSIDADE INFANTIL

"Se Deus existe, então porque é que há tanto sofrimento?". Esta é uma pergunta perfeitamente legítima; também é recorrente entre crentes e ateus. Tentar perceber o que faz com que tantos dos nossos semelhantes sejam sujeitos a sofrimentos atrozes (provocados pelos seu semelhante ou por causas naturais) não é tarefa fácil. Pela minha parte sempre desconfiei das pessoas que têm na ponta da língua um resposta para este tipo de questão.

Sam Harris não consegue evitar esta questão. Para o autor de O Fim da Fé, o sofrimento é uma prova óbvia da não existência de Deus.
Se ver metade do nosso povo a morrer na fornalha não serve de prova contra a ideia de que existe um Deus todo-poderoso a olhar pelos nossos interesses, parece razoável presumir que nada o poderá fazer. (p.72)

A criança que nasce sem membros, a mosca sem vista, as espécies desaparecidas – não são mais do que barro moldado pela Mãe Natureza. Nenhum deus perfeito poderia manter tais incongruências. Vale a pena lembrar que se Deus criou o mundo e todas as coisas nele existentes, criou também a varíola, a peste e a filaríase. (p.191)
A infantilidade da argumentação torna-se tanto mais gritante, se pensarmos que o autor destas frases advoga o uso da razão na análise do fenómeno religioso. Porque será que não consegue ir além de um raciocínio do tipo "Se existe sofrimento, então é porque não existe um deus que nos proteja" ou "Se existisse um deus bondoso ele não permitia que acontecessem coisa más"? No fundo isto equivale a dizer: "Se Deus existisse, então o mundo em que vivemos tinha de ser uma espécie de paraíso sem qualquer tipo de sofrimento".

Pergunto-me porque é que o advogado do uso da razão não consegue separar duas questões bem distintas: o “porquê do mal” e a “existência de Deus”. Com o seu tipo de raciocínio também se poderiam dizer coisas do género, “Se as taxas da Euribor, estão a subir, então Deus não existe”.

A ideia que prevalece nesta argumentação de Sam Harris é que para ele ou existe um Deus infantil (tipo velho de barbas brancas que lança raios e coriscos, protegendo uns e castigando outros) ou então não existe. Para quem advoga o uso da razão na análise da religião, não se pode dizer que este seja um raciocínio brilhante.

Com argumentações deste tipo, não admira que o autor de O Fim da Fé tenha sido bastante atacado em revistas ateístas e humanistas. No fundo, um ateísmo que apenas se limita a rebater os argumentos de uma religiosidade infantil (acreditando literalmente nos textos sagrados) apenas consegue ser um ateísmo infantil.

Mas voltemos à questão “Se Deus existe, então porque é que há tanto sofrimento?”. Deixo aqui uma tentativa de resposta; como escrevi, desconfio sempre das pessoas que têm uma resposta imediata para esta pergunta (inclui alguns bahá'ís que acreditam que o sofrimento é um teste que Deus faz aos seres humanos).

O mundo material não tem como propósito ser um local perfeito para seres racionais como nós. Penso que este é apenas um primeiro palco da nossa existência, onde estamos sujeitos às leis da natureza, com todo o sofrimento e alegria que estas nos possam causar. Na nossa condição humana temos capacidade para efectuar juízos de valor (distinguindo o bem do mal); e no decorrer da nossa existência material temos liberdade de escolha na aplicação de juízos de valor, condicionando, assim, a nossa evolução enquanto criaturas morais.

Esta minha explicação não é absoluta, nem definitiva. É a resposta que tenho neste momento; é diferente da que tinha há alguns anos atrás, e certamente será diferente da que encontrarei dentro de alguns anos. É possível que a humanidade nunca encontre uma reposta definitiva para esta questão. Continuaremos sempre à procura de novas respostas. Mas enquanto criaturas racionais, certamente não nos podemos contentar com respostas tão infantis quanto as de Sam Harris.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (3)

CRENTES MODERADOS

Imagine que alguém lhe afirmava que os aviões são máquinas diabólicas que apenas servem para matar pessoas e que apenas têm trazidos enormes desgraças à humanidade. Depois de escutar isto, você invocava os benefícios da aviação comercial no progresso das comunicações, do transporte e do bem-estar dos os povos. Mas o seu interlocutor responderia que mesmo os aviões civis usados são máquinas terríveis que facilmente se convertem em máquinas de guerra; e mesmo que não o façam, alguns podem cair vitimando centenas de inocentes. Em resumo, toda a actividade da aviação se devia proibir, para evitar que novas calamidades se sucedessem.

O absurdo deste tipo de argumentação é óbvio.

Imagine agora que em vez de aviação se falava de religião. O seu interlocutor defende que toda a religião é maligna e como tal deve ser extinta; e mesmo a religião moderada deve ser evitada, pois ela possui em si os germes do fundamentalismo e do fanatismo que tanto mal têm causado à humanidade.

Igualmente ridículo? Para Sam Harris, isto não é ridículo. É uma realidade óbvia. Veja-se este excerto do seu livro O Fim da Fé:
Muitos dos religiosos moderados seguiram a supostamente grande via do pluralismo, afirmando a igual validade de todos os credos. Contudo, ao fazê-lo esqueceram-se de referir os axiomas irremediavelmente sectários que estão na base de cada um deles. Enquanto um cristão acreditar que só os seus irmãos se salvarão no Dia do Juízo Final, jamais respeitará as crenças dos outros; afinal, as chamas do inferno foram ateadas por essas mesmas ideias e continuam ainda hoje a receber os seus discípulos. Tanto muçulmanos com judeus têm, em geral uma visão arrogante acerca das suas próprias tradições e há mais de mil anos que persistem em apontar os erros das outras religiões. (p. 18-19)
O que imediatamente se estranha nestas palavras é a redução das religiões às suas expressões exclusivistas ("axiomas irremediavelmente sectários"). Será possível que Sam Harris nunca tenha ouvido falar de inclusivismo, ou mesmo de pluralismo religioso? Não sabe que todas estas atitudes são transversais a todas as religiões? Para quem advoga o uso da razão na análise do fenómeno religioso, é caso para perguntar porque é que o autor não consegue ser um pouco mais racional nas suas análises. Será ignorância ou má fé?

O que prevalece destas palavras é a incapacidade do autor de O Fim da Fé para compreender fenómenos como o pluralismo religioso, uma incapacidade igual à dos fundamentalistas religiosos que preferem viver isolados em guetos mentais (ou físicos), ignorando (e evitando conhecer!) as crenças dos outros. Como já escrevi uma vez, as atitudes fundamentalistas religiosas e anti-religiosas caracterizam-se por atitudes mentais muito semelhantes.

Sam Harris nem sequer se demora uma linha para reflectir de que forma poderia existir alguma "igual validade de todos os credos". A ingenuidade do autor suscita várias questões: Será que ele preferia que uma religião asfixiasse todas as outras, resolvendo, assim, o problema do pluralismo? O facto de nem todas as pessoas crentes serem adeptas do pluralismo religioso por acaso invalida o fenómeno religioso como um todo? E por acaso na base de todas as religiões apenas existem axiomas sectários? E qual o contexto em que surgiram as declarações consideradas sectárias?
O problema que a moderação religiosa nos coloca é que não admite qualquer crítica à literalidade religiosa. Não podemos dizer que os fundamentalistas estão loucos, já que eles estão apenas a exercer a sua liberdade de culto; não podemos sequer afirmar que eles estão enganados em matéria de religião, porque o seu conhecimento das escrituras é, regra geral, inigualável. (…) A moderação religiosa é um produto do conhecimento secular e da ignorância das escrituras – e, em termos religiosos, não tem bona fides que a coloque em pé de igualdade com o fundamentalismo. (…) A moderação religiosa, na medida em que representa uma tentativa de nos concentrarmos naquilo que a ortodoxia sagrada ainda pode ter de útil, fecha a porta a outras abordagens mais sofisticadas da espiritualidade, da ética e da construção de comunidades fortes. (p.23)
Sinceramente, não percebo que o que significa uma moderação onde não à espaço para “crítica à literalidade religiosa”. Será que este homem alguma vez leu algum texto do John Hick? Saberá que sabe quem é Leonardo Boff? E desconhecer correntes religiosas moderadas (ou religiões!) que criticam o literalismo religioso é motivo para questionarmos o que é que Sam Harris realmente sabe sobre religião.

A última frase consegue ainda ser mais surpreendente além de confirmar que não percebe o que é a moderação religiosa, insinua a necessidade de “outras abordagens mais sofisticadas da espiritualidade, da ética e da construção de comunidades fortes”. Afinal o que pretende ele? Denunciar a religião como fonte de todos os males do mundo moderno, ou procurar novas fontes de espiritualidade?

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (2)

O USO DA RAZÃO

Se há uma ideia válida no livro O Fim da Fé, essa é a da necessidade de uso da razão na abordagem do fenómeno religioso (p.79-85). O autor apresenta exemplos sobre a facilidade com que a maioria das pessoas tende a abdicar do uso da razão ao receber informação sobre religião. Veja-se o seguinte exemplo
  1. O apresentador do noticiário da noite diz que há um grande incêndio no estado do Colorado. Vinte mil hectares já arderam e o fogo continua completamente fora de controlo.
  2. Os biólogos dizem que o ADN é a base molecular para a reprodução sexual. Cada um de nós assemelha-se aos nosso pais porque herdamos um complemento do seu ADN. Cada um de nós tem braços e pernas porque o nosso ADN codificou as proteínas que os produziram durante o nosso desenvolvimento inicial.
  3. O papa diz que Jesus nasceu de uma mãe virgem e que ressuscitou fisicamente depois de morto. Ele é o Filho de Deus, que criou o universo em seis dias. Se acreditarmos nisto, iremos para o Céu depois de morrermos; caso contrário iremos para o inferno onde sofreremos para toda a eternidade. (p.80)
Serão estas informações igualmente válidas? Que confiança merecem estas informações face ao que conhecemos hoje sobre o mundo em que vivemos? Claramente estes argumentos são um bom desafio para todos os que se afirma religioso. E existem muitas afirmações semelhantes à terceira que merecem a reflexão dos crentes.

Mas será que Sam Harris consegue ele próprio ser racional na análise do fenómeno religioso? Consideremos a sua atitude face às Escrituras Sagradas. Seria de esperar que o uso da razão permitisse ao autor perceber o tipo de linguagem da literatura religiosa. Certamente que poderia demorar-se reflectindo sobre os significados, os simbolismos e as imagens contidas nos Textos.

Na verdade, o autor de O Fim da Fé, não usa a razão ao analisar as Sagradas Escrituras; Sam Harris limita-se a fazer meras interpretações literais, e quando encontra algo que seja contrário ao senso comum, declara imediatamente que está na presença de mais uma prova da falsidade ou inadequação dessa religião. Poderá o uso da razão limitar-se a uma análise tão simplista da validade do fenómeno religioso? Será assim tão difícil perceber que os textos dos Livros Sagrados possuem uma linguagem própria (tal como muitas outras áreas de conhecimento e actividade humana)?

Mas voltemos à necessidade do uso da razão no fenómeno religioso.

Entre os princípios bahá'ís encontram-se a livre e independente pesquisa da verdade e a necessidade de harmonia entre fé e razão. À luz destes princípios – e lembrando que 'Abdu'l-Bahá afirmou que "qualquer religião contrária à ciência não é verdadeira" – é natural que os bahá’ís simpatizem com a ideia do usa da razão na análise do fenómeno religioso. Mas estarão os bahá'ís imunes a esta atitude de abdicar da razão quando se fala de religião?

Os bahá'ís é suposto acreditarem – tal como os cristãos – que Cristo nasceu de uma virgem (ver este post). É uma verdade oficial que, quando questionada, recebe invariavelmente uma justificação do género: "Deus é omnipotente; não há nenhuma impossibilidade nisso." Não é este tipo de resposta um convite a abdicarmos da razão? Não se está com isto a sugerir que troquemos uma "verdade oficial" por dois princípios essenciais da religião revelada por Bahá'u'lláh?

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (1)

INTRODUÇÃO

Imagine-se um livro sobre o Japão. O autor é americano e começou a escrevê-lo no dia 8 de Dezembro de 1941. Facilmente poderemos imaginar o teor do livro. É óbvio que um livro dedicado ao mesmo tema, escrito por um autor de outra nacionalidade, ou noutra época, teria um teor consideravelmente diferente.

Imagine-se agora um livro que tenta denunciar o fenómeno religioso (e principalmente o Islão) enquanto fonte de todo o mal do mundo moderno. O autor é americano e começou a escrevê-lo no dia 12 de Setembro de 2001. O livro tem por título O Fim da Fé e foi escrito por Sam Harris; foi publicado há alguns meses no nosso país, e aclamado como uma das obras mais relevantes do pensamento ateu radical dos nossos dias.

O que há de tão especial num livro que tem subjacente a ideia de que as religiões são fontes de mal e meros sistemas de crença em conflito entre si? Na diversidade de temas abordados pelo autor, encontramos coisas como:
  • Descrições de perseguições cristãs contra judeus e bruxas (p.96);
  • Argumentos que pretendem provar que o Islão é um “culto de morte” (p.119);
  • A denúncia da perversidade da influência do Conservadorismo Cristão na política americana e os erros da actual administração norte-americana em relação ao Médio Oriente (p.169);
  • A defesa do consumo de marijuana (p.177-181);
  • A defesa do uso de tortura (217-219);
  • Críticas à religião moderada (p.118), aos movimentos pacifistas (p.219) e aos movimentos políticos de esquerda (p. 146,150) por fazerem o jogo dos fundamentalistas.
  • A defesa do uso da razão na análise do fenómeno religioso (p.79-85);
  • O único caminho possível para uma evolução espiritual baseia-se num misticismo (descrito como um empreendimento racional) (p.244).
Torna-se inevitável perguntar o que leva uma pessoa a formular uma espécie de manifesto ateísta moderno onde se misturam ideias que apelam ao senso comum, com ideias que merecem ser debatidas, com outras que são perfeitamente inaceitáveis? Será que as pessoas que aclamaram a publicação deste livro em Portugal alguma vez o leram? Se o fizeram, porque não se demarcam de algumas posições deste autor? Lembro que esta amálgama de ideias ético-politico-religiosas recebeu fortes críticas de meios ateístas como o New Humanist e a Free Inquiry.

Ao longo do livro percebemos que Sam Harris não ataca o fenómeno religioso como um todo; as suas críticas vão para as religiões abraâmicas, acabando o autor por reconhecer a sua admiração pelo Hinduísmo e pelo Budismo (p.313). Por este motivo, não faltou que considerasse “O Fim da Fé” como uma defesa envergonhada do Budismo; recordo que o autor é praticante de técnicas de meditação inspiradas no Budismo. A este propósito a edição portuguesa desta obra (Editora Tinta da China) merece um reparo: sendo o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão o centro das críticas deste livro, porque é que a folha de rosto deste livro, além de apresentar os símbolos destas três religiões, também inclui um símbolo hindu?

Mesmo quando expostas num livro que parte do pressuposto que os extremistas religiosos são os que seguem mais correctamente os cânones das suas religiões, as ideias de Sam Harris merecem ser discutidas e debatidas. Não obstante a fragilidade de alguns dos seus argumentos, ou a forma preconceituosa como analisa algumas questões, a impressão com que fiquei quando acabei de ler "O Fim da Fé" é que este livro merece ser lido, pois é um desafio a qualquer pessoa que se afirme religiosa ou crente. Ao longo das próximas semanas vou abordar aqui alguns dos temas deste livro.

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ACTUALIZAÇÃO: Diga-se, em abono da verdade, que quando este livro foi publicado, o Ricardo Alves, no Diário Ateísta, manifestou a sua discordância em relação a questões de ordem científica e política.