O PROBLEMA DO ISLÃO"Estamos em guerra com o Islão" é uma das ideias principais do livro
O Fim da Fé. A afirmação é uma óbvia simplificação da realidade; o relacionamento entre o Ocidente e alguns países do Médio Oriente é bem mais complexo do que esta frase deixa a entender. É óbvio que - nas últimas décadas - o Islão radical têm sido uma fonte de problemas para o mundo Ocidental e para o próprio Islão. Penso que expressões como "Islão radical" e "fundamentalismo islâmico" apenas entraram na linguagem corrente expressão após a revolução iraniana de 1979. Onde estava esse o radicalismo islâmico antes dessa época?
Isto só por si lava-nos imediatamente a questionar: a que é que Sam Harris se refere quando fala do Islão? Ao longo do capítulo “O Problema com o Islão” percebemos que o autor se refere a todos os países de maioria muçulmana. Por outras palavras, inclui todos os muçulmanos, sejam eles liberais ou conservadores, árabes, persas, indianos, malaios, indonésios, africanos... todos eles são colocados por Sam Harris do mesmo lado de uma trincheira imaginária. Não seria mais objectivo considerar que o problema existe apenas devido às acções de regimes ditatoriais e grupos extremistas estabelecidos em alguns do Médio Oriente?
Não é isto uma simplificação típica de um modelo de pensamento radical? E não é estranho que seja uma atitude comum de extremistas religiosos e anti-religioso? Não seria possível ser um pouco mais racional? Afinal era isso que se esperava de quem, no mesmo livro, tanto apregoa
o uso da razão.

A atitude mental do Islão radical merece ser comparada com outros radicalismos com que o Ocidente já se deparou. Podemos compará-lo com diversos fenómenos de intolerância religiosa que viveram à sombra de poderes instituídos. Desta forma, parece-me pertinente questionar porque é que Sam Harris não faz a comparação dos bombistas suicidas muçulmanos com os kamikazes japoneses da 2ª Guerra Mundial? Não existe algo de comum entre eles? Não acreditam ambos que se sacrificam por uma causa suprema, tentando levar a morte e destruição aos seus inimigos?
É, no mínimo estranho, que Sam Harris não seja capaz de fazer este tipo de comparações. Preferiu simplificações infantis em vez de uma análise racional da situação. Talvez as suas simpatias pelas religiões orientais não lhe tenham permitido fazer essa comparação.
INTERPRETAÇÃO DOS TEXTOS SAGRADOSN'O Fim da Fé apresentam-se quase seis páginas (p. 129-134) de citações do Alcorão. São frases que, segundo o autor, revelam o carácter violento do Islão. Não é necessário ser muito versado na história do Islão para perceber que os textos do Alcorão revelados em Medina são muito diferentes dos textos revelados em Meca. Segundo vários teólogos muçulmanos, isto implica que a aplicabilidade e a abrangência do texto varia conforme o contexto da revelação.
Mas não é o Sr. Harris o grande defensor do uso da razão na análise da religião? Será a interpretação literal dos textos sagrados o exemplo dessa tão desejada racionalidade? Podemos ignorar o contexto (local e circunstâncias) em que os textos surgiram? Podemos fazer uma mera interpretação literal dos textos e já está? Mas não é exactamente isto o método dos fundamentalistas islâmicos? O uso da razão é mesmo isto?...
É óbvio que o Sr. Harris tem imensos preconceitos contra o Islão. Depois de insistir nas interpretações literais do Alcorão, encontra um versículo que afirma "Não vos mateis uns aos outros" (4:29). Estranhamente o autor prefere não interpretar literalmente este versículo; afirma que é "ambíguo" (p. 128). Conclui-se que o autor não prima pela objectividade...
Ao ler o livro O Fim da Fé, percebemos que o método do autor para avaliar as religiões é fazer uma interpretação literal dos textos e validar esse significado literal contra o senso comum. Nada de procurar sentido metafóricos ou significados implícitos; ficamos por uma leitura simplista. Mas será que o Sr. Harris faz isso com todas as religiões e todos os sistemas de crença?
Sabendo do fascínio de Sr. Harris pelo Budismo, que diria ele da máxima budista "Se encontrares o Buda na estrada, mata-o!" ? Será que também a interpreta literalmente considerando-a um incentivo à intolerância e à violência, uma prova da falsidade do Budismo e da sua influência maligna na história da humanidade? Ou será que por se tratar do Budismo tentaria procurar um significado metafórico, ou uma qualquer mensagem implícita nestas palavras? A resposta a estas questões encontra-se aqui:
Killing the Buddha.
É estranho como o Sr. Harris consegue ser mais racional quando analisa textos do Budismo.
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NOTA: Este tema não se esgota por aqui; no próximo post abordarei outros assuntos que Sam Harris escreveu sobre o Islão no livro O Fim da Fé.