Por David Langness.
E se dormisses?
E se durante o sono,
tu sonhasses?
E se no seu sonho,
fosses para o céu?
E lá colhesses uma estranha e bela flor?
E se, ao acordar,
tivesses essa flor na tua mão?
Ah, e então? – Samuel Taylor Coleridge
Já teve um sonho, uma visão, que lhe tocasse a alma?
Eu tive, com certeza. No meu sonho, que tive há quase vinte e cinco anos, conheci a minha mulher. Alguém nos apresentou e apertámos as mãos, um pouco formalmente e um pouco timidamente. Trocámos apenas algumas palavras — já nem me lembro quais — e olhámos nos olhos um do outro, por um instante. O meu espírito agitou-se. De alguma forma, eu sabia, no fundo da minha alma, que esta mulher se tornaria a minha companheira para a vida.
Quando o sonho se desvaneceu e acordei, fiquei atordoado, sem reacção. Parecera tão real, tão presente, que demorei alguns minutos a compreender que se tratava apenas de um sonho. Senti-me desolado, porque as minhas emoções me diziam que algo de profundo tinha acontecido; mas a minha mente racional dizia-me que, infelizmente, era apenas um sonho.
Passei dias a fio a lembrar aquele sonho. Não conseguia livrar-me dele. Conseguia ver os seus olhos azul-acinzentados com tantos pormenores — como poderia não ser real? O meu coração chegava a doer ao fim do dia, desejando que aquele sonho se tornasse realidade.
Duas semanas depois, isso aconteceu.
Numa conferência a que assisti, a mulher que eu só tinha visto em sonho atravessou o salão à minha frente. Reconheci-a imediatamente. Senti um arrepio na espinha. Ela passou por mim, talvez a uns seis metros de distância, e eu disse ao meu amigo que estava sentado ao meu lado: "Ei, ali está a mulher com quem vou casar."
"A sério?", perguntou o meu amigo, surpreendido. "Como é que ela se chama?"
"Não faço ideia", respondi.
"Esqueceste do nome dela?"
“Não, ainda não nos conhecemos. Há duas semanas, vi-a num sonho.”
“O quê?” O meu amigo olhou para mim de uma forma muito estranha, como se eu tivesse acabado de ter um surto psicótico.
Quatro meses depois, a minha mulher Teresa e eu casámos.
Além disso, esta alma humana imortal está dotada de dois meios de percepção: um é instrumental; o outro é independentemente. Por exemplo, a alma vê através dos olhos, ouve com os ouvidos, cheira pelas narinas e toca nos objectos com as mãos. São as acções ou operações da alma realizadas através de instrumentos. Mas no mundo dos sonhos, a alma vê quando os olhos estão fechados. O homem está aparentemente morto, jaz ali como morto; os ouvidos não ouvem, mas ele ouve. O corpo jaz ali, mas ele — isto é, a alma — viaja, vê, observa. Todos os instrumentos do corpo estão inactivos, todas as funções aparentemente inúteis. Apesar disso, existe uma percepção imediata e vívida por parte da alma. Ela experimenta o êxtase. A alma viaja, percebe, sente. Acontece muitas vezes que um homem, em estado de vigília, não consegue resolver um problema e, ao adormecer, encontra a solução num sonho. Quantas vezes aconteceu ter sonhado, tal como os profetas sonharam, com o futuro; e os acontecimentos assim prenunciados concretizaram-se literalmente. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 416)
Algumas pessoas chamam a esta sensação de percepção espiritual independente déjà vu ou premonição; outras chamam-lhe de visão de futuro; outras ainda, vêem-na simplesmente como aquela estranha sensação visceral de já terem estado ali ou feito aquilo antes. Todos nós temos este tipo de experiência de déjà vu, seja ela fortemente preditiva como a minha, ou apenas uma ligeira premonição, a sensação de já termos vivenciado o que estamos a vivenciar agora.
Os ensinamentos Bahá'ís dizem que, nestes sonhos premonitórios, a alma "viaja, vê, observa..."
A minha experiência foi certamente assim. Provavelmente já teve experiências semelhantes, em que um acontecimento, uma pessoa ou uma cena com que sonhou se torna subitamente real.
A ciência ainda não tem uma explicação para esta experiência humana universal. Mas os ensinamentos Bahá'ís têm:
Quantas vezes acontece o espírito ter um sonho no reino do sono cujo significado se materializa exactamente dois anos depois! Da mesma forma, quantas vezes acontece o espírito resolver, no mundo dos sonhos, um problema que não conseguiu resolver no reino da vigília.
Acordado, o olho vê apenas a curta distância, mas no reino dos sonhos, quem está no Oriente pode ver o Ocidente. Acordado, vê apenas o presente; adormecido, contempla o futuro. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 261-262)
Não consigo imaginar melhor prova da existência da alma.
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Texto original: How Our Premonitions Prove We Have Souls (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.



