sábado, 17 de novembro de 2018

O Nacionalismo pode construir a Paz?

Por David Langness.


Poderá o nacionalismo – que defende a territorialidade, o fortalecimento das fronteiras, o poderio militar e a independência política – construir a paz no mundo?

Não. E sobre este assunto os ensinamentos Bahá'ís afirmam:
...um mundo idólatra saúda e adora apaixonada e clamorosamente os falsos deuses que as suas próprias fantasias fúteis criaram fatuamente e as suas mãos mal guiadas tão impiamente exaltaram. Os principais ídolos no templo profanado da humanidade não são senão os triplos deuses do nacionalismo, do racismo e do comunismo, em cujos altares governos e povos, sejam democráticos ou totalitários, estejam em paz ou em guerra, sejam do Oriente ou do Ocidente, cristãos ou islâmicos, estão, de várias formas e em diferentes graus, agora a adorar. Os seus sumo-sacerdotes são os políticos e os doutores mundanos, os chamados sábios da época; o seu sacrifício, a carne e o sangue das multidões massacradas; os seus encantamentos, pregões antiquados e fórmulas insidiosas e irreverentes; o seu incenso, o fumo da angústia que emana dos corações dilacerados dos despojados, dos estropiados e dos desabrigados. (Shoghi Effendi, The Promised Day Is Come, p. 113)
Esta análise franca, escrita pelo Guardião da Fé Bahá’í em 1941, quando decorria a 2ª Guerra Mundial, apelava aos líderes do mundo que se unissem. Avisava-os – reiterando as advertências de Bahá’u’lláh nas suas cartas e epístolas aos reis e governantes do mundo na década de 1860 – sobre as consequências do fracasso da sua união; e simultaneamente expunha um plano racional e apelativo para a unificação:
Numa hora tão crítica na história da civilização, compete aos líderes de todas as nações do mundo, sejam grandes e pequenas, sejam do Oriente ou do Ocidente, vencedoras ou vencidas, prestar atenção ao aviso sonante de Bahá'u'lláh e, completamente imbuídos com um sentido de solidariedade mundial, o sine qua non da lealdade à Sua Causa, levantarem-se para realizar na totalidade o esquema reparador que Ele, o Médico Divino, prescreveu para uma humanidade doente. Que rejeitem definitivamente todas as ideias preconcebidas, todos os preconceitos nacionais, e prestem atenção ao sublime conselho de 'Abdu'l-Bahá, o Intérprete autorizado dos Seus ensinamentos. Você pode servir melhor o seu país – foi a resposta de 'Abdu'l-Bahá a um alto funcionário do governo federal dos Estados Unidos da América, que O questionou sobre a melhor maneira como poderia promover os interesses do seu governo e povo – se se empenhar, na sua qualidade de cidadão do mundo, a ajudar na aplicação derradeira do princípio do federalismo subjacente ao governo do seu país nas relações agora existentes entre os povos e as nações do mundo. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, pag. 36-37)
Muitas pessoas, incluindo historiadores, filósofos, futuristas e planificadores, estão agora a chegar exactamente à mesma conclusão:
O desenvolvimento mais importante da nossa era, precisamente, é o desvanecer do estado-nação: a sua incapacidade de resistir às forças contrárias do século XXI e a sua calamitosa perda de influência sobre as circunstância humanas. A autoridade política nacional está em declínio e, como não conhecemos nenhum outro tipo, parece o fim do mundo. É por isso que um tipo estranho de nacionalismo apocalíptico está tão em voga. Mas o apelo actual do machismo como estilo político, a construção de muros e a xenofobia, a mitologia e a teoria racial, as fantásticas promessas da restauração nacional - não são curas, mas sintomas daquilo que se está a revelar lentamente a todos: os estados-nação, por todo o lado, estão num estado avançado de decadência política e moral, do qual não podem se libertar individualmente. (Rana Dasgupta, The Demise of the Nation State, The Guardian, April 5, 2018)

À primeira vista, passados 370 anos, o estado-nação parece estar a florescer. Embora existissem apenas 70 países soberanos independentes em 1945, existem agora 193, sendo os mais recentes o Montenegro, Timor-Leste e o Sudão do Sul. A Palestina e o Kosovo estão à espera para se juntar à ONU. Mas essa proliferação de países é um sinal da fraqueza do Estado-nação, não da sua força. (Mark Lyall Grant, Can the Nation-State Survive?, Chatham House/The Royal Institute of International Affairs, March-April 2018)
Os ensinamentos Bahá’ís dizem que o nosso velho sistema de estados-nação – que existe desde o Tratado de Vestfália, em 1648 – deixou de ser útil. O mundo mudou drasticamente desde então, mas o nosso sistema de governação ainda se mantém fiel aos métodos antiquados que se usavam há séculos atrás. Rana Dasgupta, um dos principais pensadores mundiais sobre este assunto, afirma:
Os próprios governos nacionais precisam estar submetidos a um nível superior de autoridade: eles provaram ser as forças mais perigosas na era do estado-nação, travando guerras intermináveis contra outras nações, oprimindo, matando e enfraquecendo as suas próprias populações...

Se desejamos redescobrir um sentido de propósito político na nossa era de finança global, big data, migração em massa e revolução ecológica, temos de imaginar modelos políticas capazes de funcionar nessa mesma escala. O actual sistema político deve ser complementado com regulamentos financeiros globais, certamente, e também, provavelmente, mecanismos políticos transnacionais. É assim que iremos concluir esta nossa globalização, que hoje está perigosamente inacabada. Os seus sistemas económicos e tecnológicos são realmente deslumbrantes, mas para servir a comunidade humana, devem estar subordinados a uma infraestrutura política igualmente espetacular, que ainda nem começámos a construir.

... o nosso sistema de estado-nação já está numa crise da qual não tem agora capacidade para se libertar. É o momento para pensar como se pode construir essa capacidade. Ainda não sabemos como será. Mas aprendemos muito com as fases económica e tecnológica da globalização, e agora possuímos os conceitos básicos para a próxima fase: construir a [estrutura] política do nosso sistema mundial integrado. (The Demise of the Nation State, The Guardian, April 5, 2018)
Os ensinamentos de Bahá’u’lláh antecipam esta mudança radical nos assuntos mundiais e revelam a arquitectura de um sistema global democrático – juntamente com a estrutura espiritual necessária para a construir.

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Texto original: Can Nationalism Produce Peace? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 10 de novembro de 2018

Um Plano Bahá’í para a Paz




Segundo os ensinamentos Bahá’ís, a humanidade chegou a um ponto do seu desenvolvimento evolutivo em que o mundo necessita de um governo mundial:

Virá o tempo em que a necessidade imperativa de realizar uma vasta e ampla assembleia de homens será universalmente percebida. Os governantes e reis da terra devem estar presentes e, participando nas suas deliberações, considerar as formas e os meios que estabelecerão as fundações da Grande Paz mundial entre os homens. Essa paz exige que as Grandes Potências resolvam, para bem da tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si. Se algum rei pegar em armas contra outro, todos se devem levantar unidos e impedi-lo. Se isto for feito, as nações do mundo não necessitarão de quaisquer armamentos, salvo com o propósito de salvaguardar a segurança dos seus reinos e de manter a ordem interna nos seus territórios. Isto garantirá a paz e a serenidade de todos os povos, governos e nações. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p.164)

A Fé de Bahá’u’lláh foca-se na criação de um mundo onde pessoas pacíficas vivem num planeta sem guerra.

Como característica central desta visão sagrada – e crucial para a sua realização – os ensinamentos Bahá’ís advogam a criação de uma federação de nações do mundo que assegure a paz mundial. No livro “O Segredo da Civilização Divina”, escrito em 1875, ‘Abdu’l-Bahá delineou plenamente a visão Bahá’í de um mundo pacífico e sustentável:

A verdadeira civilização desfraldará o seu estandarte no centro do coração do mundo, quando um certo número de soberanos distintos de carácter nobre – exemplos brilhantes de devoção e determinação – decidirem, para o bem e para a felicidade de toda a humanidade, levantar-se com determinação firme e visão clara, e estabelecer a Causa da Paz Universal. Devem fazer da Causa da Paz o objecto de consulta geral e procurar por todos os meios ao seu alcance estabelecer a União das nações do mundo. Devem concluir um tratado vinculativo e estabelecer um pacto, cujas provisões sejam claras, invioláveis e definitivas. Devem proclamá-lo a todo o mundo e conseguir-lhe a aprovação de toda a raça humana. Este empreendimento nobre e supremo – a verdadeira fonte de paz e bem-estar para todo o mundo – deve ser considerado sagrado por todos os que habitam na terra. Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para garantir a estabilidade e permanência deste Mais Grandioso Pacto. Neste Pacto global, os limites e fronteiras de todas as nações devem ser claramente fixadas, os princípios subjacentes às relações entre governos devem ser definitivamente estabelecidos, e todos os acordos e obrigações internacionais cumpridos. De igual modo, o volume de armamentos de cada governo deve ser estritamente limitado, pois se for permitido aumentar os preparativos de guerra e forças militares de qualquer nação, isso levantará suspeitas das outras. O princípio fundamental subjacente a este Pacto solene deve ser tão forte que se qualquer governo violar posteriormente as suas provisões, todos os governos da terra se levantarão para o reduzir à completa submissão; ou melhor, a raça humana, como um todo, deve decidir, com todo o poder ao seu dispor, destruir esse governo. Se este que é o maior de todos os remédios for aplicado ao corpo doente do mundo, este certamente recuperará das suas enfermidades e permanecerá eternamente são e salvo.

Veja-se que, se essa feliz situação acontecer, nenhum governo necessitará de armazenar continuamente armas de guerra, nem se sentirá obrigado a produzir constantemente novas armas militares para dominar a raça humana. Uma pequena força para fins de segurança interna, punição do crime e de elementos desordeiros e prevenção de desordens locais, seria necessária – não mais do que isso. Desta forma toda a população ficará, primeiramente, libertada do fardo esmagador das despesas impostas para fins militares, e, posteriormente, um grande número de pessoas deixaria de dedicar o seu tempo à concepção contínua de novas armas de destruição – esses testemunhos de ganância e sede de sangue tão inconsistentes com o dom da vida – e, em vez disso, voltariam os seus esforços para a produção de tudo o que pudesse fomentar a paz, o bem-estar e a existência humana, e pudesse tornar-se causa de desenvolvimento e prosperidade universais. Então toda a nação na terra reinaria em honra, e todo o povo seria criado na tranquilidade e contentamento. (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, pag. 65-67)

Será que esse “maior de todos os remédios” é eficaz - ou parece um sonho distante e inimaginável? Há quem não acredite que a humanidade possa alcançar uma civilização assim tão segura, pacífica e tranquila - mas os Bahá’ís acreditam:

Alguns, desconhecendo o poder latente no esforço humano, consideram este tema altamente impraticável, ou melhor, para lá do âmbito do maior esforço humano. Contudo, este não é o caso. Pelo contrário, graças à infalível graça de Deus, à amorosa bondade de Seus favorecidos, aos esforços incomparáveis de almas sábias e capazes, e aos pensamentos e ideias dos líderes inigualáveis desta era, absolutamente nada pode ser considerado inatingível. Esforço - incessante esforço - é necessário. Nada menos do que uma determinação invencível poderá consegui-lo. Numerosas causas que em tempos passados eram consideradas puramente visionárias, neste dia tornaram-se muito acessíveis e praticáveis. Por que deveria esta mais grandiosa e sublime Causa – o sol do firmamento da verdadeira civilização e a causa da glória, do progresso, do bem-estar e do sucesso de toda humanidade – ser considerada um feito impossível? Seguramente, virá o dia virá em que a sua bela luz irradiará esplendor sobre a assembleia do homem.

Com os preparativos continuarem ao ritmo actual, o aparato do conflito atingirá um ponto em que a guerra se tornará algo intolerável para a humanidade.

É claro, a partir do que já foi dito, que a glória e grandeza do homem não consiste em ser ávido por sangue e ter garras afiadas, em arrasar cidades e espalhar devastação, em massacrar militares e civis. O que seria um futuro brilhante para ele seria a sua reputação pela justiça, a sua bondade para com toda a população, fosse rica ou pobre, a sua atitude de edificar países e cidades, aldeias e bairros, tornar a vida fácil, pacífica e feliz aos seus semelhantes, estabelecer os princípios fundamentais para o progresso, elevar os padrões e incrementar a riqueza de toda a população. (Idem)

O mundo continua a mover-se para esta visão de realização da paz universal. A comunidade das nações fez a sua primeira dessas tentativas com a Sociedade das Nações, após a Primeira Guerra Mundial; e tentou de forma mais empenhada, com mais países e criando o conceito de direitos humanos universais, ao criar as Nações Unidas, após a Segunda Guerra Mundial. No entanto, nenhuma destas organizações implementou plenamente a visão de Bahá’u’lláh de um mundo verdadeiramente unido, desarmado e pacífico. Ainda temos um longo caminho à nossa frente antes de conseguirmos a verdadeira unidade global.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 3 de novembro de 2018

Quais as Verdadeiras Causas da Guerra?

Por David Langness.


“Qual a maior necessidade do mundo da humanidade?”, perguntou um Bahá’í a ‘Abdu’l-Bahá em 1914, pouco antes de rebentar a Primeira Guerra Mundial.

Falando pouco antes do início do conflito mais mortífero da história da humanidade até então - onde morreriam 19 milhões de pessoas no espaço de quatro anos - ‘Abdu’l-Bahá disse:
Hoje no mundo da humanidade, o assunto mais importante é a questão da Paz Universal. A concretização deste princípio é a necessidade gritante deste tempo. As pessoas tornaram-se impacientes e descontentes. O mundo político de toda a nação civilizada tornou-se uma vasta arena para exibição de militarismo e exibição de espírito marcial. As mentes dos estadistas e dos ministros, de todo o governo, estão principalmente ocupadas com a questão da guerra, e nos municípios ecoa o apelo à guerra.

Os interesses pessoais estão na base de toda a guerra. Ganância, comércio, exploração, alargamento de fronteiras do reino, colonização, a preservação de direitos estabelecidos, protecção de vidas e interesses dos cidadãos, são alguns dos pretextos para lançar uma guerra. E tem sido provado pela experiência que os resultados da guerra são ruinosos, tanto para conquistadores como para conquistados. Os países são devastados, o património público é espezinhado, o comércio fica paralisado, os campos rubros com o sangue inocente e o progresso do mundo é retardado. Como pode uma pessoa corrigir um mal cometendo um mal ainda maior, derramando o sangue dos seus irmãos? A maior parte do rendimento de cada país é gasta na preparação de máquinas militares infernais, enchendo os arsenais com pólvora e munições, na construção de armas de disparo rápido, na construção de fortificações e aquartelamentos militares, e na manutenção anual do exército e da marinha. Desde os camponeses até ao topo, toda a classe social é fortemente tributada para alimentar esse monstro insaciável de guerra. Às pessoas pobres é retirado tudo o que conseguiram com o suor do seu rosto e o trabalho das suas mãos.

Na realidade, a guerra é contínua. O efeito moral das despesas com estas somas colossais de dinheiro em meios militares é tão prejudicial quanto a guerra em si e o seu séquito de carnificinas e horrores. As forças ideológicas e morais das partes em conflito tornam-se bárbaras e brutais, os poderes espirituais ficam atrofiados e as leis da civilização divina são desrespeitadas. Um tamanho sorvedouro financeiro seca as veias e os músculos do corpo político, e congela as sensibilidades delicadas do espírito.

Não existe a menor dúvida que a nação ou governo que faz um esforço extraordinário na promoção da paz universal será cercada por confirmações divinas, e será objecto de honra a respeito entre todos os habitantes da terra. Essa acção será conducente à prosperidade e ao bem-estar da espécie humana. Sobre esta questão da paz universal, há cinquenta anos, sua santidade Bahá’u’lláh escreveu a todos os soberanos e monarcas do mundo explicando em detalhe os benefícios da paz e os males das carnificinas. Entre outras coisas, Ele disse: originalmente, a espécie humana era uma família, unida e compacta; posteriormente, os membros desta família foram divididos e subdivididos através da ignorância e do preconceito. Agora chegou novamente o momento da sua unificação final. A paz universal trará esta consumação há muito desejada. (Star of the West, Volume 4, pp. 41-42)

Na sua notável resposta a esta questão, ‘Abdu’l-Bahá fez várias observações fascinantes e incisivas. Primeiro, Ele salienta que “na realidade a guerra é contínua”, especialmente quando “a maior parte do rendimento de cada país é gasta na preparação de máquinas militares...”

‘Abdu’l-Bahá fez uma observação presciente. Hoje, intelectuais e historiadores referem este tipo de abordagem militarista continuada aos conflitos nacionalistas como “guerra perpétua” ou “guerra eterna”. Muitos escritores perspicazes e especialistas militares - como Dexter Filkins, James Chace, David Keen, James Pinckney Harrison, Tran Van Don e Robert Fisk - concluíram que esta guerra é mentalmente contínua e descreveram-na como factor determinante em locais flagelados pela guerra, como o Médio Oriente, o Afeganistão e outros locais do mundo; é também um grande actor nas tensões globais entre as nações mais poderosas do mundo.

Assim, quando muitos países industrializados levam as suas instalações fabris a centrar as suas energias na produção de armas e gastam a maior parte dos seus orçamentos e recursos nacionais nas suas forças militares – tal como ‘Abdu’l-Bahá previu – isto conduz-nos inevitavelmente a uma guerra:
Considerai agora que os países mais avançados e civilizados do mundo foram transformados em arsenais de explosivos, que os continentes do globo foram transformados em enormes campos de batalha, que os povos do mundo formaram eles próprios nações armadas, e que os governos do mundo estão a competir uns com os outros sobre quem dará o primeiro passo para o campo da carnificina e do massacre, sujeitando assim a espécie humana ao grau extremo de aflição. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #225)
Os ensinamentos Bahá’ís advertem a humanidade e os seus líderes que fazer uma guerra perpétua leva à ruína, tanto de indivíduos como de nações. Em qualquer competição pela supremacia de armamentos, nenhum poder de fogo é suficiente. Quando um país tenta apenas ficar à frente dos outros, cada adversário gasta enormes quantias numa corrida fútil e guiada pelo medo – que geralmente termina com o mesmo “equilíbrio de poder” com que começou. Ninguém vence uma corrida aos armamentos.

Bahá’u’lláh, nas Suas epístolas aos reis e governantes do mundo, advertiu-nos repetidamente sobre as corridas aos armamentos:
Harmonizai as vossas diferenças e reduzi os vossos armamentos, para que o fardo das vossas despesas possa ser aliviado e para que as vossas mentes e corações possam ficar tranquilos. Sarai as dissensões que vos dividem e não mais precisareis de armamentos, salvo naquilo que exigir a protecção das vossas cidades e territórios. Temei a Deus e acautelai-vos para não ultrapassar os limites da moderação e serdes contados entre os extravagantes.

Ficámos a saber que aumentais as vossas despesas todos os anos e que colocais o respectivo fardo sobre os vossos súbditos. Em verdade, isto é mais do que eles podem suportar e é uma penosa injustiça. Decidi com justiça entre os homens e sede símbolos da justiça entre eles. Isto, se julgardes honestamente, é a coisa que vos convém e é digna da vossa condição. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXVIII)

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Texto original: What Really Causes War? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 27 de outubro de 2018

Ninguém vence uma corrida aos armamentos

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá’ís apelam aos dirigentes da humanidade que desarmem – que abdiquem dos seus enormes depósitos de armamento - reconhecendo colectivamente que a era da guerra está a chegar ao fim:
Através de um acordo geral, todos os governos do mundo devem desarmar simultaneamente e ao mesmo tempo. Isto não terá efeito se um depuser as armas e outro recusar fazê-lo. As nações do mundo devem acordar umas com as outras sobre este assunto de importância suprema, para que assim possam abandonar em conjunto as armas mortais de carnificina humana. Enquanto uma nação aumentar os seus gastos militares e navais, outra nação será forçada a entrar neste despique louco pelos seus supostos interesses naturais. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 116)
Devemos chegar a um acordo para nos unirmos e pormos fim à guerra, dizem os ensinamentos Bahá’ís, não só devido à sua carnificina, morte e destruição, mas também devido aos seus custos ocultos para as sociedades que fazem a guerra. As guerras aparentemente intermináveis no mundo – aquelas onde estamos agora a combater e as que estamos a planear e preparar para combater no futuro – custam-nos enormes quantidades de dinheiro e de vidas humanas. Por exemplo, no meu país, os Estados Unidos, as despesas com guerra excedem as despesas de todas as outras áreas.

Aqui fica o detalhe: os EUA gastam 6% do seu orçamento anual na educação das suas crianças; 6% no próprio governo; 5,5% em habitação e despesas comunitárias; 5% em saúde e cuidados de saúde; 4% em assuntos internacionais, incluindo toda a ajuda externa; 3% em energia e ambiente; 2,5% em ciência e investigação médica; 2,5% em trabalho; 2% em transportes; 1% em alimentação e agricultura - e 62,5 % no Departamento de Defesa, guerras, programas de armamento e apoio a militares veteranos.

Por outras palavras, os Estados Unidos gastam mais de três quintos do seu dinheiro em despesas militares.

Consegue imaginar o que poderia ser feito com esse dinheiro se reduzíssemos as nossas despesas militares para um nível mais razoável?

O tremendo volume das despesas militares em algumas culturas belicistas pode chocar a maioria de nós, porque - a menos que sejamos militares ou trabalhemos numa instalação militar – temos pouco ou nenhum conhecimento sobre os custos de um empreendimento dessa natureza.

Depósito de aviões militares retirados do serviço
O Exército dos Estados Unidos deu-me uma formação directa dobre despesas militares. Alguns dias após ter iniciado a recruta num campo de treino inserido numa base militar do tamanho de uma cidade, comecei a pensar nos custos de manutenção de uma grande força permanente de combate. Via os milhares de soldados com quem treinava; comia em enormes refeitórios; compreendia quanto custava construir, equipar e manter tanques, helicópteros e aviões de combate; e comecei a compreender a enorme dimensão das nossas despesas militares. Em pouco tempo percebi como se poderia usar aquele dinheiro para construir um futuro pacífico e não belicista.

Se quer ter uma noção da magnitude das despesas militares, comece por imaginar o que é alimentar, alojar, fornecer roupa, transportes e cuidados de saúde a 1,3 milhões de homens e mulheres. Depois imagine o custo de pagar e treinar (e re-treinar) esses homens e mulheres. E depois, em cima de tudo isso, tente estimar o custo tremendo dos sistemas de armamento, o armamento avançado, de alta-tecnologia, as chamadas “armas inteligentes” que hoje se usam na guerra. Um míssil guiado por computador custa um milhão de dólares. Um bombardeiro B-2 custa 2 mil milhões de dólares.

Além disto, as despesas militares não seguem as leis normais da economia. O ritmo acelerado das evoluções científicas e tecnologias leva a que os chamados “custos de defesa” tipicamente cresçam de forma mais rápida do que as despesas não-militares. A corrida global aos armamentos para construir sistemas de armas maiores, mais mortíferos e temíveis levam-nos a orçamentos militares cada vez mais elevados. E por fim, estes sistemas de armamentos tornam-se obsoletos quando tecnologias mais recentes e mais caras acabam inevitavelmente por aparecer.

Esta interminável competição armamentista entre nações, e a constante prontidão para uma guerra global que as nações sentem dever estar preparadas, tornou-se um dos maiores falhanços da nossa civilização moderna, um ciclo vicioso que constitui um abominável crime colectivo contra a humanidade. Leva-nos a prosperidade, rouba comida da boca das crianças e gasta enormes quantidades de dinheiro na morte e não na vida.

As armas não produzem o que quer que seja. Quando uma fábrica produz um camião, por exemplo, esse camião realiza trabalho, e continua a fazê-lo ao longo da sua vida útil, contribuindo para a economia e para as pessoas que o utilizam. Mas quando uma fábrica produz uma arma, esta não dá qualquer contributo. Essa arma fica estática – um míssil num silo não faz qualquer trabalho útil – não tendo qualquer proveito para a sociedade que o produz, excepto no momento em que é usada e produz morte. O último presidente militar dos EUA, o general Dwight D. Eisenhower, afirmou:
Cada arma que é produzida, cada navio de guerra que é lançado, cada míssil que é disparado, significa, no fundo, um roubo aos que têm fome e não são alimentados, aos que têm frio e não têm roupa. Um mundo com armas não está só a gastar dinheiro. Está a consumir o suor dos seus operários, o génio dos seus cientistas, as esperanças das suas crianças. O custo de um bombardeiro moderno é este: uma escola moderna em mais de 30 cidades; são duas centrais eléctricas que servem cidades de 60.000 pessoas; são dois hospitais completamente equipados; são 75 quilómetros de estrada pavimentada. Pagamos por um único avião de combate meio milhão de alqueires de trigo. Pagamos por um único cruzador uma quantidade de casas que podia alojar 8000 pessoas. Esta é, repito, a melhor forma de vida que encontramos no caminho que o mundo está a tomar. Mas isto não é sequer uma forma de vida, em qualquer verdadeiro sentido. Sob as nuvens de uma guerra ameaçadora, é a humanidade que se coloca numa cruz de ferro. (…) Não haverá outra forma para o mundo viver? (“The Chance for Peace,” from a speech given to the American Society of Newspaper Editors, April 16, 1953.)
Os ensinamentos Bahá’ís concordam, dizendo que cada uma destas armas e sistemas de armamento representam um falhanço espiritual e proporções épicas, designando-os como “os frutos malignos da civilização material”:
...entre os ensinamentos de Bahá’u’lláh está o de apesar da civilização material ser meio de progresso do mundo da humanidade, enquanto não se combinar com a civilização Divina, o resultado desejado – que é a felicidade da humanidade - não será alcançado. Pensem! Estes couraçados que reduzem uma cidade a ruínas no espaço de uma hora são o resultado da civilização material; igualmente, os canhões Krupp, as espingardas Mauser, a dinamite, os submarinos, torpedos, aviões armados e bombardeiros - todas estas armas de guerra são os frutos malignos da civilização material. Se a civilização material tivesse sido combinada com a civilização Divina, estas armas de fogo nunca teriam sido inventadas. Pelo contrário, a energia humana teria sido totalmente dedicada a invenções úteis e ter-se-ia concentrado em descobertas louváveis. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 303)
Então o que pode transformar a nossa civilização material altamente militarizada numa civilização divinamente unida, pacífica e produtiva, tal como previsto pelos ensinamentos Bahá’ís? No próximo artigo vamos tentar responder a esta pergunta fundamental, analisando as principais causas da guerra.

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Texto original: No One Wins an Arms Race (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Orações adicionais reveladas por Bahá'u'lláh


Tradução provisória em Português-PT

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Puro e santificado és tu, ó meu Deus! Como pode a pena mover-se e a tinta fluir quando as brisas da benevolência deixaram de soprar e os sinais da generosidade desapareceram, quando o sol da humilhação se eleva e as espadas da calamidade são desembainhadas, quando os céus da tristeza se levantam e as flechas da aflição e as lanças da vingança chovem das nuvens do poder – de tal forma que os sinais da alegria abandonaram todos os corações, e os símbolos da alegria foram apagados de todo o horizonte, os portões da esperança fecharam-se, a misericórdia da brisa celestial deixou de soprar sobre o roseiral da fidelidade, e o turbilhão da extinção atingiu a árvore da existência. A pena geme e a tinta lamenta a sua situação crítica, e a epístola está aterrada com este grito. A mente está agitada com o sabor desta dor e mágoa, e o Rouxinol divino chama: “Ai! Ai! Por tudo o que se fez aparecer”. E isto, ó meu Deus, nada são senão as Tuas dádivas ocultas.
—Bahá’u’lláh

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Ó Tu que tens nos Teus punhos o Reino dos nomes e o Império de todas as coisas, Tu vês como eu me tornei um estranho na minha terra devido ao meu amor por Ti. Suplico-Te, pela beleza do Teu semblante, que faças do meu afastamento do lar um meio pelo qual os Teus servos se possam aproximar da Fonte da Tua Causa e Aurora da Tua Revelação. Ó Deus, apelo-Te com uma língua que não pronunciou qualquer palavra de desobediência contra Ti, implorando-Te, pela Tua soberania e poder, que me mantenhas seguro no abrigo da Tua misericórdia e me concedas força para Te servir e para servir o meu pai e a minha mãe. Tu és, em verdade, o Omnipotente, a Ajuda no Perigo, o Que Subsiste por Si Próprio.
—Bahá’u’lláh

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Em Nome de nosso Senhor, o Santíssimo, o Mais Grandioso, o Exaltado, o Mais Glorioso!
Glória a Ti, ó Tu Que és o Senhor de todos os seres e o Propósito Final de toda a criação! Testemunho, com a língua do meu ser exterior e interior, que Te revelaste e manifestaste, que enviaste os Teus versículos e deste a conhecer as Tuas provas, e que és independente de tudo salvo de Ti e santificado acima de tudo excepto de Ti próprio. Peço-Te, pela glória da Tua Causa e poder do Teu Verbo, que assistas graciosamente aqueles que se levantaram para cumprir o que lhes foi ordenado no Teu Livro, e a realizar aquilo com que a fragrância da Tua aceitação se possa espalhar amplamente. Tu és, em verdade, o Poderoso, o Gracioso, o Clemente, o Generoso.
—Bahá’u’lláh

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Em Nome de nosso Senhor, o Santíssimo, o Mais Grandioso, o Exaltado, o Mais Glorioso!
Ó Deus, meu Deus! Tu vês como o Teu servo voltou a face para Ti e desejou ser honrado por fazer aquilo que lhe foi ordenado no Teu Livro. Ordena-lhe, através da Tua Mais Exaltada Pena, aquilo que o aproxime do Mais Sublime Cume. Tu, em verdade, és o Educador do mundo e o Senhor das nações, e Tu, em verdade, és o Poderoso, o Que Tudo Subjuga, o Omnipotente.
—Bahá’u’lláh

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Ó Deus, meu Deus! Glória a Ti por me teres guiado até ao horizonte da Tua Revelação, iluminado com os esplendores da luz da Tua graça e misericórdia, por me teres feito pronunciar o Teu louvor, e dado a contemplar aquilo que foi revelado pela Tua Pena.
Suplico-Te, ó Tu, Senhor do Reino dos nomes e Modelador da terra e do céu, pelo sussurrar do Cedro Divino e pela Tua palavra mais doce que arrebatou as realidades de todas as coisas criadas, que me ergas em Teu Nome entre os Teus servos. Sou aquele que procurou durante o dia e a noite, ficar frente à porta da Tua dádiva e apresentou-se perante o trono da Tua justiça. Ó Senhor! Não rejeites aquele que se segurou à corda da Tua proximidade e não prives aquele que dirigiu os seus passos para a Tua mais sublime condição, o cume da glória e objectivo supremo – aquela condição em que todos os átomos clamam na língua mais eloquente: “A terra e o céu, a glória e o domínio pertencem a Deus, o Omnipotente, o Todo-Glorioso, o Mais Generoso”.
—Bahá’u’lláh

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Louvor a Ti, ó Senhor meu Deus, por me teres guiado ao horizonte da Tua Revelação e me teres feito ser mencionado pelo Teu Nome. Suplico-Te, pelos raios que se estendem do Sol da Tua providência e pelas vagas ondulantes do Oceano da Tua misericórdia, que concedas que a minha linguagem possa ter um vestígio da influência do Teu próprio Verbo exaltado, atraindo com isso as realidades de todas as coisas criadas. Poderoso és Tu para fazer o que desejas através da Tua Palavra maravilhosa e incomparável.
—Bahá’u’lláh

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Ele é o Incomparável!
Louvor a Ti, ó Senhor meu Deus! Suplico-Te pelo Teu Nome Mais Exaltado no Tabernáculo do esplendor cintilante, e pela Tua Palavra Mais Sublime no Domínio da glória transcendente, que protejas este servo que gozou da Tua companhia, deu ouvidos aos tons da Tua voz e reconheceu a Tua prova. Concede-lhe, pois, o bem deste mundo e do próximo, e outorga-lhe uma condição de rectidão na Tua presença, para que os seus pés não se possam afastar do Teu caminho todo-glorioso e mais exaltado.
—Bahá’u’lláh

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Ele é o Todo-Glorioso!
Louvor a Ti, ó meu Deus! Chamaste-me e eu respondi-Te. Convocaste-me e eu precipitei-me para junto de Ti, ficando sob a sombra da Tua misericórdia e procurando abrigo no limiar da porta da Tua graça. Nutriste-me, ó Senhor, através da Tua providência, escolheste-me apenas para Ti, criaste-me para o Teu serviço, e designaste-me para comparecer perante Ti. Suplico-Te, pelo Teu Nome Todo-Glorioso e pela Tua beleza que alvoreceu no horizonte da Tua mais exaltada Essência, que me ligues a Ti tal como fizeste anteriormente, e não me separes de Ti próprio. Faz surgir de mim, ó meu Deus, aquilo que seja digno de Ti. Tu és, em verdade, poderoso sobre todas as coisas.
—Bahá’u’lláh

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Ó meu Deus! Ó meu Deus! Dou testemunho que este é o Teu Dia mencionado nos Teus Livros, Tuas Epístolas, Teus Salmos e Teus Textos. Neles manifestastes aquilo que estava oculto no Teu Conhecimento e guardado nos repositórios da Tua infalível proteção. Suplico-Te, ó Senhor do Mundo, pelo Teu Mais Grandioso Nome com o qual os membros do povo foram abalados, que auxilies os Teus servos e as Tuas servas a tornarem-se firmes na Tua Causa e a erguerem-se ao Teu serviço.
Em verdade, Tu és poderoso para fazer o que desejas, e no Teu punho estão as rédeas de todas as coisas. Tu proteges quem quer que desejas através do Teu poder e Domínio. E, em verdade, és o Omnipotente, o Que tudo Subjuga, o Mais Poderoso.
—Bahá’u’lláh

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Em relação aos seus assuntos, ele que repita dezanove vezes: “Tu vês-me, ó meu Deus, desprendido de tudo salvo de Ti e segurando-me a Ti. Guia-me, pois, em todos os meus assuntos para aquilo que me beneficie para glória da Tua Causa e sublimidade da condição dos teus amados”. Ele que reflicta sobre o assunto e empreenda o que lhe vier à mente. Esta oposição veemente dos inimigos dará lugar a uma prosperidade suprema.
—Bahá’u’lláh

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Ele é Deus, exaltado é Ele, o Senhor do poder e grandeza!
Ó Deus, meu Deus! Dou-Te graças em todos os tempos e louvo-Te sob todas as condições.
Na prosperidade, todo o louvor é Teu, ó Senhor dos Mundos, e na sua ausência, toda a gratidão é Tua, ó Desejo daqueles que Te reconheceram!
Na adversidade, toda a honra é Tua, ó Adorado de todos os que estão no céu e na terra, e na aflição, toda a glória é Tua, ó Encantador dos corações daqueles que anseiam por Ti!
No infortúnio, todo o louvor é Teu, ó Tu, Alvo daqueles que Te procuram, e no conforto, todas as acções de graças são Tuas, ó Tu cuja lembrança é estimada nos corações daqueles que estão próximos de ti!
Na prosperidade, todo o esplendor é Teu, ó Senhor daqueles que Te são devotos, e na pobreza, todo o mandamento é Teu, ó Tu, Esperança daqueles que reconhecem a Tua unidade!
Na alegria, toda a justiça é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus, e na tristeza, toda a beleza é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus!
Na fome, toda a justiça é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus, e na saciedade, toda a graça é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus!
Na minha pátria, toda a dádiva é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus, e no exílio, todo o decreto é Teu, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus!
Sob a espada, toda a munificência é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus, e na segurança do lar, toda a perfeição é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus!
Na mansão sublime, toda a generosidade é Tua, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus, e sobre a mais simples poeira, todo o favor é Teu, ó Tu para além do Qual não existe outro Deus!
Na prisão, toda a fidelidade é Tua, ó Tu Concessor de dons, e na reclusão, toda a eternidade é Tua, ó Tu que és o Rei Sempre-Eterno!
Toda a dádiva é Tua, ó Tu Que és o Senhor da dádiva, o Soberano da dádiva e o Rei da dádiva! Dou testemunho que Tu és louvado nas Tuas obras, ó Tu, fonte de dádiva, e obedecido nas Tuas ordens, ó Tu Oceano de dádiva, Aquele de Quem provém toda a dádiva, Aquele para quem toda a dádiva regressa!
—Bahá’u’lláh

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Louvado sejas, ó Senhor meu Deus! Santifica os meus olhos, e os meus ouvidos, e a minha língua, e o meu espírito, e o meu coração, e a minha alma, e o meu corpo, e todo o meu ser de se voltar para qualquer outro que não Tu. Dá-me, depois, de beber da taça que transborda com o vinho selecto da Tua glória.
—Bahá’u’lláh

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sábado, 20 de outubro de 2018

O que Podemos Fazer pelos Refugiados no Mundo?




Cuidar dos refugiados do mundo e dos sem-abrigo é uma tarefa difícil, porque as necessidades normalmente superam largamente os meios disponíveis.

Numerosas organizações governamentais e humanitárias fazem o possível para ajudar esses refugiados, fornecendo terrenos, abrigos temporários, comida, bebida, roupas, escolas e muito mais; com isso, os cada vez maiores campos de refugiados no mundo podem responder temporariamente às necessidades de milhões de pessoas deslocadas.

Recentemente, o ACNUR - a Agência das Nações Unidas para os Refugiados - informou que o número de pessoas deslocadas no mundo aumentou para 65,6 milhões - mais do que toda a população do Reino Unido. Esse número surpreendente (inclui um aumento de 300.000 em relação ao ano anterior) é o maior número de refugiados alguma vez registado.

O que pode uma pessoa fazer em relação a esta crise global? Temos a responsabilidade de agir ou devemos deixar essa tarefa para organizações e governos?

Do ponto de vista de Bahá’í, ajudar os refugiados sem lar é um assunto para todos. Bahá’u’lláh - Ele próprio um refugiado e exilado - escreveu:

Ó ricos da terra! Não fujais da face do pobre que jaz no pó; pelo contrário, sede amigos dele e permiti-lhe que conte a história dos males com que o inescrutável decreto de Deus o afligiu. Pela rectidão de Deus! Enquanto estiveres com ele, a Assembleia no alto estará a olhar por vós, a interceder por vós, a louvar os vossos nomes e a glorificar a vossa acção. (Gleanings fromthe Writings of Baha’u’llah, sec. CXLV)

‘Abdu’l-Bahá, que também foi refugiado e prisioneiro juntamente com o Seu Pai, afirmou:

Que todos vós possais estar unidos, que possais concordar, que possais servir a solidariedade da espécie humana.  Que possais ser os bem-intencionados para toda a humanidade. Que possais ser os auxiliadores de todo o pobre, que possais ser os enfermeiros do doente. Que possais ser fontes de conforto dos que têm o coração despedaçado. Que possais ser um refúgio para o vagabundo. Que possais ser uma fonte de coragem para o assustado. Assim, com o favor e assistência de Deus poderá erguer-se o estandarte da felicidade humana no centro do mundo e a insígnia da concórdia universal será desfraldada. (The Promulgation of Universal Peace, p. 425)

Como exemplo do quão terrível se tornou a actual crise de refugiados no mundo, vejamos o pequeno Líbano. Com 10.000 km2, é um dos países mais pequenos do mundo em termos de superfície terrestre. Durante a década de 1960, o Líbano era conhecido como "a Suíça do Oriente" e Beirute, a sua capital, "a Paris do Médio-Oriente ".

Como sabemos, o Líbano tem como vizinhos a Síria (a norte e a leste) e Israel (a sul). O Líbano tem sido atormentado por violência sectária e guerra civil; em 1990, a guerra civil terminou e havia quase um milhão de libaneses deslocados. Algumas partes do Líbano ficaram em ruínas, e a Síria foi uma potência ocupante até 2005. Seguiram-se uma série de assassinatos de líderes libaneses, facto que dificultou a formação de um governo estável. Depois, em 2012, a guerra civil na Síria ameaçou transbordar para o Líbano e, em 2013, mais de 677.000 refugiados sírios atravessaram a fronteira libanesa, procurando a segurança relativa do país. Hoje o Líbano tem mais de 1 milhão de refugiados sírios, aproximadamente um sétimo da população do país.

Mas o Líbano não é o único país com pessoas deslocadas e sem-abrigo. Como podemos nós, indivíduos, lidar com essas questões urgentes e prestar ajuda aos deslocados, aos sem-abrigo e aos refugiados? Quem pode servir como exemplo na ajuda a essas multidões indefesas?

Em 1932, Shoghi Effendi escreveu sobre uma Bahá’í que fez exatamente isso:

O rebentar da Grande Guerra deu-lhe mais uma oportunidade para revelar o verdadeiro valor do seu caráter e libertar as energias latentes no seu coração. A residência de 'Abdu'l-Bahá em Haifa estava rodeada, durante todo aquele conflito sombrio, por um grupo de homens, mulheres e crianças famintas, que a má administração, a crueldade e a negligência dos funcionários do governo otomano tinham levado a procurar ajuda para as suas aflições. Das suas mãos [de Bahiyyih Khanum, irmã de Abdu'l-Bahá], e da abundância do seu coração, essas vítimas infelizes de uma tirania abjecta recebiam, dia após dia, provas inesquecíveis de um amor que aprenderam a invejar e a admirar. As suas palavras de alegria e conforto, a comida, o dinheiro, as roupas que ela distribuía livremente, os medicamentos que, por um processo próprio, ela mesma preparava e ministrava diligentemente - tudo isso teve a sua parte no confortar do inconsolável, no recuperar da visão do cego, no abrigar do órfão, no curar do doente e auxiliar o desalojado e o vagabundo. (Baha’i Administration,, p. 193)

A Grande Guerra foi a Primeira Guerra Mundial; o cenário era a Palestina; a Folha Mais Sagrada era o título da Bahiyyih Khanum, a irmã mais velha de Abdu'l-Bahá.

Durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Palestina esteve isolada do mundo e ameaçada pela fome, Bahiyyih Khanum e ‘Abdu’l-Bahá tornaram-se exemplos brilhantes de cuidado pelos pobres e necessitados, pelos destituídos, pelos desafortunados e pelos refugiados – o tipo de exemplo que começa no coração dos indivíduos, e inspira grupos e nações que hoje fornecem ajuda:

Nem as autoridades britânicas foram lentas em expressar a sua gratidão sobre o papel que ‘Abdu’l-Bahá desempenhou no aliviar do fardo dos sofrimentos que oprimiam os habitantes da Terra Santa durante os dias tenebrosos daquele conflito angustiante. (Shoghi Effendi, God Passes By, p. 306)

O governo britânico atribuiu o título de Cavaleiro a ‘Abdu’l-Bahá devido ao seu trabalho que evitou a fome entre o povo da Palestina durante a guerra.

Apenas o envolvimento pessoal, o amor e a unidade – unidade de pensamento, de vontade e de acção – pode dar início a soluções permanentes. Essa unidade, essa fraternidade global, esse amor, podem nascer das soluções espirituais e práticas proclamadas por Bahá’u’lláh.

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Texto original: What Can One Person Do about the World’s Refugees? (bahaiteachings.org)


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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 13 de outubro de 2018

Como seria um Mundo Pacífico?

Por David Langness.


Mais do que qualquer outra coisa, os ensinamentos Bahá’ís focam-se no alcançar a paz universal através da unidade global – a unidade das raças, religiões e nações.

A visão de Bahá’u’lláh para o futuro da humanidade centra-se em torno da construção da unidade do planeta, estabelecendo laços de fraternidade entre todos os povos e nações, e descobrindo o nosso rumo, enquanto espécie, para uma paz global duradoura, justa e unificadora:
Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar toda a terra. Esforçai-vos para que consigais alcançar esta condição transcendente e mui sublime, uma condição que pode assegurar a protecção e segurança de toda a humanidade. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Todos os dias milhões de Bahá’ís celebram, honram e trabalham diligentemente para este ideal irresistível. Shoghi Effendi - o Guardião da Fé Bahá’í e historiador e intelectual educado em Oxford - resumiu esse ideal quando, em 1936, delineou brevemente a visão Bahá’í da unificação da humanidade:
A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas.

Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que a integram, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos.

Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial.

Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal.

Um mecanismo de intercomunicação mundial será concebido, envolvendo todo o planeta, livre de entraves ou restrições nacionais, e funcionando com maravilhosa rapidez e perfeita regularidade.

Uma metrópole mundial actuará como centro nervoso de uma civilização mundial, foco para onde convergirão as forças unificadoras da vida e da qual emanarão as suas influências estimulantes.

Uma língua mundial será inventada ou escolhida entre as línguas existentes e será ensinada nas escolas de todas as nações federadas como auxiliar à sua língua materna.

Uma escrita mundial, uma literatura mundial, um sistema universal e padrão de moeda, pesos e medidas simplificará e facilitará o relacionamento e a compreensão entre nações e raças da humanidade.

Nessa sociedade mundial, ciência e religião, as duas mais poderosas forças da vida humana, reconciliar-se-ão, cooperarão e desenvolver-se-ão harmoniosamente.

A imprensa, num tal sistema, dará um espaço pleno à expressão das diversificadas opiniões e convicções da humanidade e deixará de ser manipulada de forma maliciosa por interesses poderosos, sejam privados ou públicos, e libertar-se-á da influência de governos e povos rivais.

Os recursos económicos do mundo serão organizados, as suas fontes de matérias primas serão aproveitadas e totalmente utilizadas, os seus mercados serão coordenados e desenvolvidos, e a distribuição dos seus produtos será regulada equitativamente.

Rivalidades, ódios e intrigas entre nações cessarão e a animosidade e o preconceito racial serão substituídos pela amizade, compreensão e cooperação raciais.

As causas de luta religiosa serão permanentemente removidas, as barreiras e as restrições económicas serão completamente abolidas, e a desmesurada distinção entre classes será suprimida.

A indigência, por um lado, e a acumulação grosseira de bens, por outro, desaparecerão.

A enorme energia que se gasta e desperdiça na guerra, seja económica ou política, será consagrada a objectivos, como o alargamento do alcance das invenções humanas e o desenvolvimento técnico, o aumento da produtividade da humanidade, o extermínio da doença, o alargamento da investigação científica, a melhoria do nível de saúde física, o aperfeiçoamento e refinamento do cérebro humano, a exploração dos recursos insuspeitos e não utilizados do planeta, o prolongamento da vida humana e a promoção de qualquer outro meio que estimule a vida intelectual, moral e espiritual de toda a raça humana. (The World Order of Bahá’u’lláh, p. 203.)
Esta poderosa e emocionante visão Bahá’í sobre uma nova ordem mundial - caracterizada pela justiça, paz e unidade - inspira Bahá’ís e os seus apoiantes em todo o mundo a trabalhar para o dia em que as forças unificadoras da vida culminem num mundo pleno de esperança, alegria e harmonia.

Se essa visão agita a sua alma e intriga a sua mente, talvez lhe interesse saber mais sobre como o plano de paz Bahá’í pretende trazer esse mundo justo e pacífico à existência. Vamos analisar, no próximo texto desta série, como os ensinamentos Bahá’ís recomendam que façamos o desarmamento do nosso planeta.

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Texto original: What Would a Peaceful World Look Like? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.