sábado, 11 de julho de 2020

A atitude radical de ‘Abdu’l-Bahá sobre Unidade Racial

Por Jonathan Menon.



Pouco antes do meio-dia de terça-feira, 23 de Abril de 1912, Abdu’l-Bahá entrou no auditório do segundo andar da capela Rankin, na Howard University, em Washington, DC. No interior, arcos de madeira escurecida, com cerca de 15 metros de comprimento, apoiavam-se em pilares junto às paredes e eram o suporte de um telhado de madeira negra. Um espectador notou que a banda musical começou a tocar quando Ele entrou, e a audiência levantou-se e aplaudiu.

‘Abdu’l-Bahá estava na América há menos de duas semanas. Tinha chegado a Nova Iorque em 11 de Abril, para uma viagem de oito meses naquele continente. Em vez de assumir o papel de forasteiro que observa a vida americana, ‘Abdu’l-Bahá conseguiu colocar-Se no centro de praticamente todos os grandes debates da nação americana. Mas a última coisa que se esperava de um idoso persa - filho de Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í, que durante 40 anos tinha sido prisioneiro do Império Otomano - era que Ele fizesse o que nenhum outro visitante distinto alguma vez tivera coragem de fazer nos Estados Unidos: que desafiasse publica e continuadamente as ideologias racistas que legitimavam as divisões raciais na vida americana.

Quando partiu dos Estados Unidos, em 5 de Dezembro, ‘Abdu’l-Bahá tinha exposto uma nova visão sobre a unidade racial na América, baseada em argumentos científicos, sociais e morais, actos pessoais e gestos pessoais emocionantes – e especialmente, uma nova linguagem de imagens raciais – que ajudaram os americanos pretos e brancos a superar séculos de desconfiança.

Louis Gregory no Egipto

Vendo em retrospectiva, torna-se claro que ‘Abdu’l-Bahá tinha planeado envolver-Se no debate racial nos Estados Unidos, pelo menos três anos antes. Em 1909, Ele começou a trocar correspondência com Louis George Gregory, advogado afro-americano residente em Washington, D.C, e formado nas universidades de Fisk e Howard. Gregory era presidente da Associação Histórica e Literária de Bethel – a mais antiga organização afro-americana da capital; Gregory era, portanto, um dos mais proeminentes afro-americanos de Washington.

Louis Gregory
Gregory crescera na Carolina do Sul. O seu padrasto nascera livre, mas a sua mãe tinha 14 anos quando o exército da União a libertou da escravatura. O seu avô, um ferreiro próspero, tinha sido morto a tiro durante uma noite pelo Ku Klux Klan, porque possuía um cavalo e uma mula (e isso era considerado um insulto). Tal como muito outros jovens afro-americanos instruídos que viveram no tempo da segregação racial (as chamadas leis Jim Crown), Louis descrevia-se como “radical e atento” e activista num “programa de agitação fervorosa em nome do povo”.

Numa resposta a uma primeira carta de Gregory, ‘Abdu’l-Bahá convidou-o a focar-se não no conflito, mas na unidade. “Espero” – ‘Abdu’l-Bahá usava a terminologia comum na época – “que possais tornar-vos… um meio pelo qual pessoas brancas e de cor possam fechar os seus olhos para as diferenças raciais e ver a realidade da humanidade, e essa é a unidade universal que é a unicidade do reino da raça humana…”

Em Abril de 1911, Louis Gregory viajou até ao Egipto para se encontrar com ‘Abdu’l-Bahá em Ramleh, uma cidade perto de Alexandria. Durante a sua primeira conversa, ‘Abdu’l-Bahá abordou imediatamente o cerne do problema: “E o conflito entre as raças branca e de cor?” perguntou Ele.

“Esta pergunta fez-me sorrir,” escreveu Gregory, “pois imediatamente senti que o meu interlocutor, apesar de nunca ter visitado pessoalmente a América, sabia mais das condições do que eu podia alguma vez saber. Respondi que havia muita fricção entre as raças. Que aqueles que aceitaram os ensinamentos Bahá’ís tinham esperanças de um acordo amigável sobre diferenças raciais; mas outros estavam desanimados. Entre os amigos existiam almas sinceras que desejavam uma unidade mais profunda entre as raças e esperavam que Ele pudesse indicar-lhes o caminho. Ele perguntou ainda: «Isto refere-se à eliminação de ódios e antagonismos por parte de uma raça ou de ambas as raças?» Ambas as raças, foi a minha resposta, e Ele disse que isso seria feito.”

“Trabalhai pela unidade e harmonia entre as raças”, disse ‘Abdu’l-Bahá a Gregory. “Não devem existir distinções”. Um ano mais tarde, quando ‘Abdu’l-Bahá estava junto ao altar da capela Rankin, frente a 1600 estudantes, professores e convidados da Universidade de Howard, Louis Gregory estava ao seu lado.

As imagens raciais de ‘Abdu’l-Bahá

A universidade de Howard tinha sido fundada em 1867 para educar os antigos escravos; em 1912 era a principal universidade afro-americana. A enorme multidão era a primeira audiência predominantemente afro-americana a que ‘Abdu’l-Bahá Se dirigia na América. Começou por chamar a atenção da diversidade na sala. “Hoje estou feliz”, disse Ele, “pois vejo brancos e pretos sentados lado a lado”. E depois afirmou que rejeitava as opiniões prevalecentes de brancos e pretos quanto à noção essencial sobre raça – tinha-se espalhado a convicção de que a raça de uma pessoa era um aspecto central da identidade humana:
Alunos da Universidade de Howard, 1912

"Não existem brancos e pretos perante Deus. Todas as cores são uma só, e essa é a cor da sujeição a Deus. Perfume e cor não são importantes. O coração é importante. Se o coração é puro, branco ou preto ou qualquer outra cor não faz diferença”.

Cerca de vinte anos antes, em 1893, os jornalistas que cobriam a Exposição Mundial Colombiana (a Exposição Mundial de Chicago) tinham começado a tinham começado a associar o termo “preto” com mal, trevas e perigo. Uma história publicada numa conhecida revista literária americana (“Frank Leslie’s Popular Monthly”), por exemplo, descreveu um grupo de africanos numa das exposições etnográficas da seguinte forma: “Sessenta e nove estão com a sua barbaridade ameaçadora”, escreveu o jornalista, “mais pretos que uma noite de lua-nova e tão abjectos quanto os animais que vagueiam nas selvas das suas terras tenebrosas”. Em 1905, milhares de nova-iorquinos foram ver Ota Benga, um pigmeu de 37 anos, da tribo Mbuti, no Zaire, exibido numa gaiola num jardim zoológico na Bronx, juntamente com um orangotango. “Isto é um homem ou um macaco?” questionava o jornal New York Times.

Mas desde a visita de Louis Gregory em 1911, ‘Abdu’l-Bahá tinha começado a elaborar uma nova linguagem racial - um novo conjunto de imagens e metáforas raciais – que conscientemente contradiziam estas conotações e hábitos racistas. O seu foco foi o próprio Louis Gregory.

“Eu comparo-vos”, disse-lhe ‘Abdu’l-Bahá, “à pupila dos olhos. Sois preto, e ela é preta, e por isso torna-se o foco da luz”. “Quando fomos a Estugarda”, escreveu ‘Abdu’l-Bahá, “apesar de ser de cor preta, ele resplandeceu como luz brilhante na reunião com os amigos”. “Ele vai regressar à América muito em breve”, aconselhou Ele a um amigo americano, “e vós, as pessoas brancas, devem saudar e homenagear este brilhante homem de cor, de forma que todas as pessoas fiquem surpreendidas”.

Na Universidade de Howard, nessa noite na Igreja Episcopal Metodista Africana Metropolitana, e nas Suas outras palestras para audiências multirraciais em Washington, durante quatro dias, ‘Abdu’l-Bahá aprofundou e alargou esta linguagem racial para reformular as diferenças raciais como fonte de beleza.

“Ao estar aqui esta noite e ao olhar para esta plateia”, disse Ele à audiência, “lembrei-me curiosamente de um bouquet de violetas, juntas unindo várias cores, escuras e claras”.

“No reino vegetal, as cores diversificadas das flores não são motivo de discórdia. Pelo contrário, as cores são motivo beleza do jardim, pois uma cor única não seria atraente. Mas quando observamos flores de múltiplas cores, vemos encanto e exibição. O mundo da humanidade também é semelhante a um jardim, e a humanidade é semelhante às flores de múltiplas cores. "

Numa palestra no dia seguinte, ‘Abdu’l-Bahá explicou que:

“No grupo das joias das raças, que os pretos sejam como safiras e rubis e os brancos sejam como diamantes e pérolas. A beleza combinada da humanidade será testemunhada na sua unidade e harmonização.”

Para além dos Direitos Civis

Durante a Sua viagem, ‘Abdu’l-Bahá argumentou que a igualdade legal e política nunca seria capaz de ultrapassar o fosso cultural que separava brancos e afro-americanos. “Podem reunir todas as forças físicas da terra”, foram as suas palavras relatadas por um jornalista de Nova Iorque, “e tentar por todos os meios criar a união onde todos se amem uns aos outros, onde todos tenham paz – mas isso terminará em fracasso.”

Não era suficiente que grupos raciais antagonistas fossem forçados a unir-se através de meios legislativos. Eles tinham de fazer a opção pela união. E isso exigia uma base sólida de amor e unidade.
 
Louis Gregory e Louise Mathew
A Sua defesa da unidade racial, portanto, ia além dos meros argumentos económicos, políticos e morais. Ele não alinhava com qualquer das conhecidas posições dos brancos no debate racial americano, nem aceitava a dicotomia entre o apaziguamento e a agitação política que caracterizavam os líderes afro-americanos. Ao contrário de Booker T. Washington e dos reformadores do Evangelho Social, que se preocupavam com o desenvolvimento económico; ao contrário da abordagem sobre direitos políticos e orgulho racial, de W.E.B. Du Bois; e ao contrário de Marcus Garvey - que em breve promoveria a transferência dos afro-americanos talentosos para África onde fundariam um estado pan-africano ideal - ‘Abdu’l-Bahá procurava uma mudança na atitude emocional de americanos pretos e brancos em relação à questão racial e nas suas relações mútuas. 

A batalha retórica de ‘Abdu’l-Bahá com as ideologias da ordem racial americana foi apenas o início de uma campanha geral para superar a segregação racial nas mentes e nos corações dos americanos. Ele concebeu uma estratégia para a unidade racial que visa não só a promoção dos direitos económicos e civis de todos os afro-americanos, mas também a cura para séculos de desconfiança que o preconceito racial criou entre brancos e pretos. Durante a Sua viagem na América, e durante o resto da Sua vida, Ele lutou para traduzir esta nova abordagem à unidade racial para o reino da realidade.

Louis Gregory era frequentemente o seu assunto. No mesmo dia da palestra em Howard, ‘Abdu’l-Bahá quebrou o rígido protocolo de Washington ao sentar Gregory num lugar de honra num almoço diplomático para o qual ele - por ser preto - não tinha sido convidado. Alguns dias mais tarde, o Seu discurso sobre unidade racial deu os seus primeiros frutos quando Gregory foi eleito para o Conselho executivo do Templo Bahá’í da Unidade, uma organização Americana que era constituída quase totalmente por americanos brancos. E talvez ainda mais significativo, Ele juntou e encorajou o casamento de Gregory e Louise Mathew, ele preto e ela branca. Casaram em Nova Iorque em 27 de Setembro de 1912 e viveram felizes até ao falecimento de Louis, em Julho de 1951.

-----------------------------
Texto original em inglês: Abdu’l-Baha’s Radical Approach to Race Unity (www.bahaiteachings.org)


Jonathan Menon foi editor do site 239 Days in America e está a escrever uma biografía de Sarah J. Farmer (1847-1916).



sábado, 4 de julho de 2020

Porque matamos os Profetas? O Martírio do Báb


A história contém uma narrativa trágica sobre a forma como nós, os humanos - em especial os que têm poder - tratamos os profetas. O que faz os nossos dirigentes reagir tão cruelmente aos fundadores das grandes religiões mundiais?

Porque desprezamos e matamos os nossos profetas?

Provavelmente já todos percebemos que as autoridades e os líderes sociais têm um registo histórico dramático quando abordam os santos mensageiros de Deus. Eles foram os responsáveis pelos terríveis maus-tratos infligidos aos fundadores das grandes religiões mundiais e aos seus primeiros seguidores. Foram os actos desses líderes que levaram Abraão e Moisés serem alvo de prisão, exílio, escárnio e perseguição. Krishna e Buddha foram ridicularizados e censurados pelos governantes do seu tempo. Os líderes políticos e religiosos de pretensas civilizações avançadas crucificaram Cristo, fizeram guerra a Maomé, exilaram e encarceraram Bahá’u’lláh e executaram o Báb.

Talvez ainda não tenham ouvido falar do Báb e do que Lhe aconteceu. A extraordinária história deste jovem e carismático profeta pode surpreender o(a) leitor(a). No fundo, Ele iniciou uma nova religião progressista no seio de uma das sociedades mais corruptas e atrasadas do mundo, e consequentemente sofreu tremendamente.

O Báb (título que em árabe significa “A Porta” ou “O Portão”) foi um jovem persa – de nome próprio Siyyid Ali Muhammad - que anunciou a Sua mensagem 1844. Os Seus ensinamentos religiosos tinham raízes no misticismo profético Sufi, prevalecente na Pérsia do sec. XIX. O Báb transmitiu uma mensagem excitante - que vinha anunciar o futuro aparecimento de uma grandiosa revelação mundial, tal como João Baptista tinha anunciado o advento de Cristo - e que Ele e o Prometido iriam unir a humanidade e reconciliar as suas tradições religiosas:
Tornai-vos como verdadeiros irmãos na una e indivisível religião de Deus, libertos das diferenças, pois, em verdade, Deus deseja que os vossos corações sejam espelhos para os vossos irmãos de Fé, para que vos encontrais reflectidos neles, e eles em vós. Este é o verdadeiro caminho de Deus, o Omnipotente, e Ele, na verdade, está atento aos vossos actos. (Selections from the Writings of the Bab, p. 55)
A Fé Babi assumiu rapidamente uma intensidade ardente naquela cultura agrilhoada em tradições. Inicialmente eram poucos os aderentes que conheciam os ensinamentos do Báb; mas depois, milhares e dezenas de milhar tornaram-se Babis, afastando-se das tradições e práticas sociais islâmicas, e desafiando a autoridade dos seus líderes. Os governantes da Pérsia e o seu poderoso clero reagiram agressivamente a estes desenvolvimentos. Seguiu-se uma campanha de perseguições e chacinas brutais.

Seis anos após o surgimento desta nova Fé, o governo decretou a execução do seu jovem e carismático fundador. Já tinham sido torturados e executados mais de 20.000 seguidores fervorosos do Báb durante aqueles breves e intensos seis anos de existência do movimento Babi. O Báb apelava para mudanças revolucionárias nos sistemas de crenças e governação, e proclamava a unidade de todas as religiões; consequentemente, as autoridades receavam que este desafio dinâmico e o seu crescente apoio viesse a restringir ou desfazer o seu poder.

Com a sua vasta chacina contra os Babis, o rei da Pérsia e os mullás tentavam acabar com o movimento Babi; mas era cada vez mais as pessoas que se tornavam Babis, apesar das perseguições horríveis. Finalmente, em Julho de 1850, as autoridades condenaram o Báb à morte; acusaram-No de apostasia – a mesma acusação que os fariseus fizeram a Jesus – mas o Báb recusou-Se a negar os Seus ensinamentos e aceitou tranquilamente as consequências.

A sentença seria executada no dia 9 de Julho de 1850, por um pelotão de fuzilamento, numa praça da cidade de Tabriz. Anis, um dos mais jovens seguidores do Báb, insistiu em acompanhá-Lo na morte, e as autoridades aceitaram o seu pedido. Uma enorme multidão reuniu-se na praça, preparando-se para assistir ao acontecimento.

Praça de Tabriz onde o Báb foi executado.
Na manhã anterior ao fuzilamento, Sam Khan, o coronel que comandava o regimento arménio de soldados mercenários que deveriam executar o Báb, pediu perdão ao Báb. “Eu professo a Fé Cristã, e não vos desejo qualquer mal”, disse Khan ao Báb na Sua cela, “Se a Vossa Causa for a Causa da Verdade, livrai-me da obrigação de derramar o vosso sangue.”

Sam Khan
O Báb respondeu ao comandante: "Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da vossa dificuldade."

Depois de levado para a praça, o Báb foi amarrado e pendurado com cordas junto à parede de um aquartelamento.

Após a ordem de fogo de Sam Khan, os mosquetes do regimento disparam. Testemunhas ocidentais que presenciaram o evento referem que “o fumo das setecentas e cinquenta armas foi tanto que a luz do dia se transformou em escuridão.

Quando o fumo se desvaneceu, a multidão viu que o Báb tinha desaparecido.

Anis estava ileso junto à parede; as cordas que o prendiam estavam desfeitas em pedaços. Surpreendida, a multidão começou a gritar que tinha visto um milagre.
“O Siyyid-i-Bab desapareceu da nossa vista!” clamava a multidão agitada. Começaram freneticamente a procurá-Lo e acabaram por O encontrar sentado na Sua cela, a falar com Siyyid Husayn – uma conversa que tinha sido interrompida. O Seu rosto mostrava uma calma imperturbável. O Seu corpo tinha escapado ileso à saraivada de balas que o regimento Lhe dirigira. “Terminei a Minha conversa com Siyyid Husayn”, disse o Báb [ao oficial]. Agora podeis prosseguir o comprimento da vossa intenção”. (Nabil, The Dawn-Breakers, p. 513)
Entretanto, o Coronel Sam Khan ordenou ao seu regimento que abandonasse a praça e jurou que nunca mais obedeceria a uma ordem semelhante, mesmo que isso lhe custasse a sua própria vida. Quando as tropas de Khan saíram da praça, o coronel que comandava a tropa local ofereceu-se para realizar a execução. Nesse momento o Báb proferiu as Suas últimas palavras:

"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado no Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco. (The Bab, quoted by Shoghi Effendi in God Passes By, p. 53)

Os guardas penduraram novamente o Báb e o Seu companheiro Anis. O pelotão de fuzilamento tomou posição e disparou. À segunda tentativa, consumou-se a execução.

Hoje, corpos do Báb e do Seu seguidor repousam sob uma cúpula dourada no Monte Carmelo, em Haifa, na Terra Santa. Milhões de pessoas de todo o mundo visitam anualmente este local sagrado, onde o Santuário do Báb proclama ao mundo a mensagem Bahá’í de unidade, paz, amor e desprendimento.

No próximo dia 9 de Julho a comunidade Bahá’í assinala o martírio do Báb, homenageando o Seu sacrifício e reconhecendo o novo ciclo religioso que Ele iniciou e que abriu caminho para a mensagem revolucionária e unificadora de Bahá’u’lláh.

-----------------------------
Traduzido e adaptado de: Why Do We Kill Our Prophets? The Martyrdom of the Bab (www.bahaiteachings.org)

domingo, 28 de junho de 2020

A Divina Santidade Feminina

Por Peter C. Lyon.


Um dos pilares da Fé Bahá’í é a igualdade entre homens e mulheres. ‘Abdu’l-Bahá explicou:
O mundo no passado foi governado pela força e o homem tem dominado a mulher devido às suas qualidades de maior força e agressividade, tanto do corpo como da mente. Mas o equilíbrio já está a mudar; a força está a perder o seu domínio, e o estado de alerta mental, a intuição e as qualidades espirituais de amor e serviço, em que a mulher é forte, estão a ganhar ascendência. Consequentemente, a nova era será uma época menos masculina e mais permeada com os ideais femininos, ou, para falar mais precisamente, será uma época em que os elementos masculinos e femininos da civilização estarão mais equilibrados. ('Abdu'l-Bahá, citado em A Compilation on Women)
Numa impressionante afirmação deste princípio, na sua mística Epístola do Santo Marinheiro, Bahá’u’lláh descreve como um ser celestial feminino se torna um juiz simbólico da santidade.

Este processo inicia-se quando uma Virgem Celestial, talvez numa condição de autoridade, chama energicamente outra donzela:
Após isso, a virgem celestial olhou do seu aposento excelso,
E com a testa acenou à Assembleia Celestial,
Inundando o céu e a terra com a luz do seu semblante,
E quando o esplendor da sua beleza brilhou sobre o povo do pó,
Todos os seres estremeceram nos seus túmulos mortais.
Então ergueu o chamamento que nenhum ouvido alguma vez escutou durante toda a eternidade,
E assim proclamou: “Pelo Senhor! Aquele cujo coração não tem a fragrância do amor do excelso e glorioso Jovem Árabe,
Não poderá de forma alguma ascender à glória do mais alto céu!”
(Bahá’u’lláh, The Tablet of the Holy Mariner, Baha’i Prayers, p. 323)
Esta emissária divina recebe uma missão de descobrir a verdadeira santidade entre os crentes:
E [a Virgem Celestial] ordenou-lhe:
“Desce das mansões da eternidade até ao espaço,
E volve-te para aquilo que ocultam no íntimo dos seus corações.
Se inalares o perfume da túnica do Jovem que se ocultou no tabernáculo da luz devido àquilo que as mãos dos ímpios forjaram,
Ergue um brado dentro de ti, para que todos os habitantes dos aposentos do paraíso, que são as personificações da riqueza eterna,
possam escutar e compreender;
Que todos desçam dos seus aposentos eternos e tremam
E beijem as suas mãos e pés por terem voado até aos cumes da fidelidade; Porventura, poderão encontrar nas suas túnicas a fragrância do Bem-Amado.”
(Idem, p. 323-324)
Esta Virgem embarca depois na sua missão:
Então o semblante da donzela preferida brilhou sobre os aposentos celestiais precisamente quando a luz irradiava da face do Jovem sobre o Seu templo mortal;
Depois ela desceu tamanha beleza que se iluminaram os céus e tudo o que neles existe.
Moveu-se e perfumou todas as coisas nas terras da santidade e da grandeza,
E quando chegou naquele lugar, ergueu-se na sua plenitude no meio do coração da criação,
E procurou inalar a sua fragrância num momento que não conhece princípio ou fim.
Depois ela testemunha a falta de fé de alguns crentes e a opressão que Bahá’u’lláh (o Jovem) enfrenta, avisa a assembleia divina e morre de desgosto:
Não encontrou neles aquilo que desejava, e isto, em verdade, é apenas uma das Suas narrativas maravilhosas!
Ela então gritou em alta voz, chorou, e retomou a sua própria condição na sua mansão mais sublime,
Seguidamente pronunciou uma palavra mística, murmurada em segredo pela sua língua doce,
E ergueu o chamamento entre a Assembleia Celestial e as imortais virgens celestiais:
“Pelo Senhor! Não encontrei nesses pretendentes inúteis a brisa da Fidelidade!”
“Pelo Senhor! O Jovem ficou só e desamparado na terra do exílio, nas mãos dos ímpios.”
Então, proferiu dentro de si um tamanho pranto que a Assembleia Celestial gritou e estremeceu,
E caiu sobre o pó e entregou o espírito. Parecia ter sido chamada e despertada para Aquele que a convocou ao Reino do Alto...
(Idem, p. 324-326)
Para realçar o poder e a percepção dessa feminilidade, Bahá’u’lláh menciona as numerosas donzelas e virgens que na assembleia celestial lamentam esta tragédia:
Então as virgens celestiais, cujo semblante nenhum habitante do altíssimo paraíso alguma vez contemplara, apressaram-se a sair dos seus aposentos.
Todas se reuniram ao seu redor, e encontraram o seu corpo caído no pó;
E quando contemplavam o seu estado e compreendiam a palavra da narrativa feita pelo Jovem, destaparam a sua cabeça, rasgaram as suas vestes, feriram os seus rostos, esqueceram a sua alegria, derramaram lágrimas, bateram nas faces, e esta, em verdade, é uma das misteriosas e penosas aflições
(Idem, p. 326-327)
-----------------------------
Texto original: The Divine Sanctity of the Feminine (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Peter C. Lyon é um especialista em comunicações, residente em Washington, DC. É graduado em História e Espanhol pela Universidade do Texas. É escritor e leitor ávido de livros de história. Aceitou a Fé Bahá’í em 2001.

sábado, 20 de junho de 2020

O Santo Marinheiro, a Sarça Ardente e a Eterna Aliança de Deus

Por Peter C. Lyon.


A Epístola do Santo Marinheiro – imponentemente mística e poderosamente simbólica – foi revelada por Bahá’u’lláh; é um texto repleto de mistérios e até profecias.

‘Abdu’l-Bahá aconselha os Bahá’ís:
Estudai a Epístola do Santo Marinheiro para que possais conhecer a verdade e considerar que a Abençoada Beleza [Bahá’u’lláh] predisse plenamente eventos futuros. Que aqueles que percebem, fiquem avisados. Em verdade, isto é uma dádiva para os sinceros! (‘Abdu’l-Bahá, Baha’i Prayers, p. 319)

Shoghi Effendi refere que certas epístolas estão “dotadas por Bahá’u’lláh com um poder e significado especiais” (Shoghi Effendi, Baha’i Prayers, p. 307)

Poderá o Santo Marinheiro ser uma dessas Epístolas especiais?

Reafirmar a Antiga Aliança

Houve circunstâncias únicas em torno da origem e composição desta Epístola. Quando Bahá’u’lláh revelou o Santo Marinheiro, em Março de 1863, a recém-nascida comunidade Bábi enfrentada pressões perigosas. Havia ameaças de perseguições e o primeiro-ministro otomano tinha decretado o exílio de Bahá’u’lláh de Bagdade para Istambul. A Epístola do Santo Marinheiro foi revelado em árabe e persa (e hoje apenas a parte em árabe está oficialmente traduzida). Tal como qualquer texto das Escrituras Bahá’ís, pode ser interpretada de múltiplas formas.

O Santo Marinheiro começa:
Ele é o Misericordioso, o Bem-Amado! Ó Santo Marinheiro! Ordena à tua arca da eternidade que apareça perante a Assembleia Celestial, Glorificado seja o meu Senhor, o Todo-Glorioso! [este refrão surge após cada linha e será excluído daqui em diante por uma questão de brevidade]. Lança-a sobre o mar antigo, em Seu Nome, o Mais Maravilhoso, E permite que os espíritos angélicos entrem, em Nome de Deus, o Altíssimo. Levanta a âncora, então, para que possa navegar sobre o oceano da glória… (Bahá’u’lláh, Baha’i Prayers, p. 319)
Uma leitura possível desta ode coloca Bahá’u’lláh como o santo marinheiro e a “arca da eternidade” como a imutável fé de Deus. (Adib Taherzadeh, The Revelation of Baha’u’llah: Baghdad 1853-63, p. 236).

O tema da aliança – a promessa de que Deus guiará a humanidade e que esta obedecerá às Suas leis – é o traço distintivo desta epístola. A palavra aliança tem aqui um significado duplo: Deus promete enviar uma série de mensageiros divinos para educar a humanidade durante todos os tempos; e Bahá’u’lláh promete dar liderança e orientação à comunidade Bahá’í – e ao mundo – à medida que vão evoluindo.

Para demonstrar que a Fé Bahá’í é parte da antiga aliança de Deus, o Santo Marinheiro ouve novamente o Livro do Génesis, a Arca de Noé e o dilúvio:
Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá. Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança; entrarás na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos. (Genesis 6:17-18)
Tanto Bahá’u’lláh como Noé são marinheiros que guiam os crentes. A arca, que protege os elementos sagrados da criação de Deus contra o desastre, pode ser interpretada como a antiga fé de Deus – seja a de Noé ou a de Bahá’u’lláh. As Escrituras Bahá’ís salientam a unidade essencial destes dois comandantes divinos:
É o Santo dos Santos que constitui a essência da religião de Adão, Noé, Abraão, Moisés, Cristo, Maomé, o Báb e Bahá’u’lláh, e que perdurará durante todas as Dispensações proféticas. Nunca será abolido, pois consiste em verdade espiritual e não material. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 69)
Além disso, o Santo Marinheiro reforça a ideia de que a Aliança de Bahá’u’lláh é a mesma que no Antigo Testamento faz referência a Moisés:
Ordena-lhe que apareçam e alcancem esta condição sublime e invisível… Uma condição onde o Senhor apareceu na Chama da Sua Beleza na árvore imortal… Onde as personificações da Sua Causa se purificaram do ego e da paixão… Em torno da qual a Glória de Moisés circula com as hostes eternas… Onde a Mão de Deus surgiu do Seu peito da Grandeza… (Bahá’u’lláh, Bahá’í Prayers, p. 320)
A frase “o Senhor apareceu na Chama da Sua Beleza na árvore imortal” refere-se ao encontro de Moisés com a Sarça Ardente:
Apareceu-lhe o Anjo do Senhor numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia… Deus, do meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! … Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. (Êxodo 3:2-6)
De igual modo, a frase “Onde a Mão de Deus surgiu do Seu peito da Grandeza” alude a outro episódio em que Moisés tem uma doença na mão e fica curado miraculosamente:
Disse-lhe mais o Senhor: Mete, agora, a mão no peito. Ele o fez; e, tirando-a, eis que a mão estava leprosa, branca como a neve. Disse ainda o Senhor: Torna a meter a mão no peito. Ele a meteu no peito, novamente; e, quando a tirou, eis que se havia tornado como o restante de sua carne. (Êxodo 4: 6-7)

Profecia Cumprida

O significado das palavras de ‘Abdu’l-Bahá sobre a Epístola do Santo Marinheiro prever eventos futuros ficou claro em Agosto de 1863, seis meses após a revelação da Epístola, quando Bahá’u’lláh viajou de navio, conforme referido por Shoghi Effendi:
[Bahá’u’lláh], conforme pressagiado na Epístola do Santo Marinheiro, foi colocado a bordo de um navio a vapor turco e três dias mais tarde, ao meio-dia, juntamente com os Seus companheiros de exílio, desembarcou no porto de Constantinopla [no dia 16 de Agosto de 1863]. (Shoghi Effendi, God Passes By, p. 157)
A Epístola do Santo Marinheiro parece antever as subsequentes viagens por mar, nomeadamente o exílio de Bahá’u’lláh em 1868 (em que atravessou o Mediterrâneo) para a cidade prisão de Akká, e as viagens de ‘Abdu’l-Bahá à Europa e América, viagens essas que foram tremendas para a expansão da Fé no Ocidente.

Tendo explorado estes aspectos desta Epístola única, poderá o leitor concluir que ela está dotada de um poder especial? Um princípio essencial da Fé Bahá’í diz que cada pessoa deve investigar a verdade de forma independente; por isso, convido-vos a descobrirem.

-----------------------------
Texto original: A Holy Mariner, A Burning Bush, and God’s Ancient Covenant (www.bahaiteachings.org)


 - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Peter C. Lyon é um especialista em comunicações, residente em Washington, DC. É graduado em História e Espanhol pela Universidade do Texas. É escritor e leitor ávido de livros de história. Aceitou a Fé Bahá’í em 2001.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Marchas de Protesto contra o Racismo: devo participar? E depois?

Por David Langness.


Aos longo dos anos, várias cidades e vilas nos Estados Unidos têm sido palco de marchas de protesto e manifestações contra a morte de muitos afro-americanos às mãos da polícia.

Muitas destas marchas têm sido pacíficas e produtivas, permitindo que uma ampla diversidade de pessoas expresse livremente as suas opiniões e mostre a sua oposição pública ao racismo e injustiça. Uma ampla cobertura mediática dessas marchas pacíficas mostrou à América que o racismo não é apenas um “assunto de pretos” – porque os protestos incluíam uma significativa diversidade de participantes.

Mas algumas marchas não foram pacíficas, tendo alguns participantes optado pela violência, destruindo propriedades, e agredindo outros participantes e polícias. Por outro lado, algumas marchas pacíficas suscitaram uma resposta policial desproporcionada, hiper-militarizada e violenta.

Assim, qual a nossa posição sobre a participação em marchas em defesa da justiça racial? Quem entre nós já participou numa marcha pacífica? Sentiram que tinham atingido o objectivo pretendido?

De uma perspectiva espiritual, aplicam-se vários princípios Bahá'ís a estas questões importantes:

  • Deus ama a justiça e pede-nos que trabalhemos pelo seu aparecimento no mundo: “A mais amada de todas as coisas aos Meus olhos é a justiça; não te afastes dela…” (Bahá'u'lláh, As Palavras Ocultas)
  • A unicidade da humanidade é o espírito desta época: “Apagai os fogos da guerra, elevai os estandartes da paz, trabalhai pela unicidade da humanidade e lembrai-vos que a religião é o canal do amor para todos os povos.” ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu'l-Baha)
  • Os ensinamentos Bahá'ís pedem a cada pessoa para “derrubar as barreiras” entre as raças: “Rejeitando de uma vez por todas a doutrina falaciosa da superioridade racial, com todos os seus males, confusões e misérias associadas, e acolhendo e encorajando a mistura de raças, derrubando as barreiras que agora as dividem, eles devem esforçar-se, noite e dia, por cumprir as suas responsabilidades particulares na tarefa comum que enfrentam com tamanha urgência” (Shoghi Effendi, The Advent of Divine Justice)
Os Bahá'ís não são violentos e obedecem às leis civis do país onde residem; por esse motivo, não participam em marchas ilegais ou violentas – mas podem organizar e aderir a marchas pacíficas contra o racismo, contra os preconceitos e contra a opressão. Na verdade, os Bahá'ís americanos participam nas marchas em campus universitários contra o preconceito racial desde a década de 1940 – um acontecimento que o Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, favorecia e aprovava. Os Bahá'ís participaram activamente nas lutas pelos direitos civis e anti-apartheid. As instituições Bahá'ís eleitas a nível local, nacional e internacional, têm sido firmes na defesa dos direitos humanos e na eliminação de ideologias e políticas racistas, muito antes dessas causas se terem tornado movimentos de massas populares. Os ensinamentos Bahá'ís – com o seu foco tão intenso na unicidade da humanidade e na erradicação do preconceito e do fanatismo – encorajam todas as pessoas a agir neste assunto de importância vital.

No entanto, os Bahá'ís não se limitam a participar nas marchas e depois vão para casa. Os Bahá'ís tentam fazer muito mais do que isso, com esforços constantes para detectar e destruir a fonte do preconceito nos nossos corações e mentes; com a educação das crianças e jovens sobre a unidade da raça humana; e ao construir comunidades saudáveis e funcionalmente integradas que incluam todos os grupos étnicos e raciais.

Na verdade, muitos comentadores consideram que a Comunidade Bahá'í global constitui o grupo organizado mais diversificado de pessoas no planeta.

Constituída por uma amostra verdadeiramente representativa de toda a humanidade, os Bahá'ís provêm de todos os grupos étnicos na terra. Na comunidade Bahá'í, encontramos pessoas de todas as tonalidades e cores. A Fé Bahá'í não exclui qualquer nacionalidade, grupo étnico, cultura ou classe social. E isto, porque a mensagem essencial de Bahá'u'lláh sobre a unidade acolhe milhões de pessoas de mais de 2100 origens raciais, étnicas e tribais.

Esta abertura e ausência de divisões ou barreiras sociais cria algo especial e único, algo que nunca aconteceu antes na nossa longa história: quem acredita nos ensinamentos de Bahá'u'lláh sobre unicidade da humanidade tem uma oportunidade única de se integrar na mais diversificada comunidade humana que existe hoje no mundo.

Integrar a comunidade mundial Bahá'í dá um sentido de cidadania global a cada Bahá'í, permitindo-lhe encontrar-se com pessoas de todas as origens. Quando isso acontece, os nossos horizontes alargam-se. Encontramos, conhecemos e desenvolvemos amizades com pessoas de diferentes círculos sociais, diferentes grupos raciais e com diferentes perspectivas de vida. Essa experiência enriquecedora, abrangente e civilizadora pode servir como um antídoto natural contra o preconceito:

... há necessidade de um poder superior para ultrapassar os preconceitos humanos, um poder ao qual nada no mundo da humanidade possa obstar e que obscureça os efeitos de todas as outras forças que funcionam no mundo humano. Esse poder irresistível é o amor de Deus. É minha esperança e prece que possa destruir o preconceito desse ponto único de distinção entre vós, e vos una permanentemente sob a sua santificada protecção. Bahá'u'lláh proclamou a unicidade do mundo da humanidade. Ele fez com que várias nações e credos divergentes se unissem. Ele declarou que a diferença de raça e de cor é como a beleza diversificada das flores num jardim. Quando entramos num jardim, vemos flores amarelas, brancas, azuis, vermelhas em abundância e beleza – cada uma radiante por si própria, apesar de diferente das outras, partilhando com elas o seu próprio encanto. As diferenças raciais no mundo humano são semelhantes. Se todas as flores num jardim fossem da mesma cor, o efeito seria monótono e enfadonho para os olhos.

Por isso, Bahá'u'lláh disse que as várias raças humanas dão uma combinação harmoniosa e uma beleza de cor ao todo. Que todos se associem, pois, neste grandioso jardim humano, tal como as flores crescem e ficam lado a lado, sem discórdia ou desentendimentos entre si. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)

-----------------------------
Texto original: Hands Up, Don't Shoot: Should I Protest? And Then What? (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de junho de 2020

O Racismo como Fenómeno Social e Espiritual

Por Makeena Rivers.


Temos tendência a pensar nos preconceitos e na animosidade raciais apenas como uma deficiência social – mas, na verdade, também sinalizam uma deficiência espiritual.

Esta frase pode parecer controversa para algumas pessoas, mas muitos de nós sentem-na e vivem-na. A opressão que existe na nossa realidade social tem um impacto profundo naquilo que somos. O nosso acesso a recursos como educação estável, cuidados de saúde rigorosos e de boa qualidade, água potável e alimentação nutritiva estão todos profundamente marcados pelo racismo.

E aquelas coisas onde mal se vê a linha que separa aquilo que somos socialmente e aquilo que somos no nosso íntimo, na nossa alma? As componentes espirituais daquilo que somos – tais como as nossas atitudes no amor, generosidade, e confiança, ou a nossa tendência para sermos inclusivos ou críticos – também são profundamente moldadas pelo racismo. Um exemplo evidente: o conceito de supremacia branca opõe-se directamente às interligações da humanidade. Quando começamos a perceber que as raízes do racismo não são apenas sociais, mas que também vivem nas veias e no coração da nossa sociedade, torna-se claro que apenas mudanças nas políticas e nas estruturas não nos levam muito longe. Ainda é necessário fazer muito trabalho para erradicar o racismo nos espaços sistémicos e organizacionais – mas também não podemos negar a crise espiritual que ele representa.

Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, delineou as mudanças que temos de fazer para enfrentar o racismo de forma eficaz:

Um esforço tremendo torna-se necessário por ambas as raças se os seus pontos de vista, os seus hábitos e conduta pretendem reflectir, nesta idade de trevas, o espírito e os ensinamentos da Fé de Bahá’u’lláh. Rejeitando definitivamente todas as doutrinas falaciosas sobre superioridade racial, com todas os seus males, confusão e misérias, e acolhendo e encorajando a mistura de raças, e derrubando as barreiras que agora as separam, devem todos esforçar-se, dia e noite, para cumprir as suas responsabilidades específicas na tarefa comum que enfrentam com tanta urgência. (Shoghi Effendi, The Advent of Divine Justice, pp. 39-40)

Os detalhes sobre como o racismo actua na sociedade são importantes, mas o racismo tem efeitos físicos e espirituais. Muito investigadores identificaram diferenças persistentes no acesso a cuidados de saúde entre comunidades marginalizadas, independentemente do nível educacional e estatuto social, indicando que o racismo influencia a saúde física de todos os negros. Além de desigualdades económicas e pressões raciais sobre comunidade negras e mestiças, o racismo é também cria obstáculos ao crescimento espiritual dos brancos.

Uma sociedade racista ensina às pessoas atitudes e crenças que são contrárias à empatia, à justiça e à unidade. Embora estes obstáculos possam ser superados – da mesma forma que algumas pessoas negras e mestiças superam o seu status quo – eles exigem um esforço que seria desnecessário se o racismo não existisse.

‘Abdu’l-Bahá, filho do fundador da Fé Bahá’í, falou do propósito espiritual das nossas vidas nestes termos:

… neste mundo ele deve preparar-se para a vida do além. Aquilo que ele precisa no mundo do Reino deve ser obtido aqui. Tal como ele se preparou no mundo do ventre ao adquirir forças necessárias nesta esfera da existência, de igual modo, as forças indispensáveis à existência divina devem ser potencialmente adquiridas neste mundo. Que precisa ele no Reino que transcenda a vida e a limitação desta esfera mortal? Esse mundo do além é um mundo de santidade e esplendor; por isso, é necessário que neste mundo ele adquira estes atributos divinos. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 226)

Se a nossa sociedade condiciona populações, raças e classes de pessoas a acreditar que são superiores a outros, isso é como criar uma barreira que impede de alcançar um estado de santidade, amor e inviolabilidade. Ignorar uma história de violência, escravatura e exploração brutal também nos impede de cicatrizar as feridas. Essas feridas continuarão abertas e muitos de nós continuarão a sentir-se presos nas profundezas da raiva ou da confusão que nos impede de desenvolver um genuíno amor uns pelos outros, até que todos reconheçamos a nossa história e a desigualdade em que vivemos.

Claro que podemos descobrir a origem da maioria dos problemas sociais na falta de compreensão ou aceitação de um princípio espiritual. O fosso crescente entre ricos e pobres, por exemplo, deve-se essencialmente a uma doença espiritual chamada ganância. Sexismo, xenofobia, e lutas violentas devem-se à incapacidade dos povos em perceber a forma como estamos intrinsecamente ligados uns aos outros. Os ensinamentos Bahá’ís dizem:

Devido à nossa ignorância e falta de visão, dividimos este lar comum, dividimos os membros dessa família em várias raças, dividimos a religião em várias seitas e depois, com estas supostas divisões entrámos em guerra uns com os outros; derramámos o sangue uns dos outros e pilhámos os bens uns dos outros. Não é isto ignorância imperdoável? Não é isto o cúmulo da injustiça? Se formos justos e virmos sem preconceitos, compreenderemos que não existem diferenças fundamentais. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pp. 178-179)

Quando se trata do tema da raça, temos um longo caminho para percorrer. Mesmo que não consigamos recuperar completamente nas nossas vidas, temos a responsabilidade de levar o nosso trabalho o mais longe possível.

-----------------------------
Texto original: Racism as a Social and Spiritual Phenomena (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Makeena Rivers é uma recém-graduada pela Columbia School of Social Work (Nova Iorque) onde se focou em assuntos de raça, reclusão, educação e classe. Anteriormente tinha estudado psicologia e sociologia na Emory University.