sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Amor e Luto: o Falecimento de ‘Abdu’l-Bahá


Quando morre uma pessoa que nos é querida, não podemos deixar de nos perguntar: "Será que o amor que esta pessoa maravilhosa trouxe ao mundo acabou para sempre?"

A dor funciona assim. Pode deixar-nos destroçados, no escuro, sem sabermos se podemos enfrentar o futuro. A dor, é claro, vem directamente da sensação de perdermos para sempre um ente querido.

Mas os ensinamentos Bahá’ís garantem-nos que o amor puro nunca morre: "A maior dádiva do homem é o amor universal - aquele íman que torna a existência eterna." ('Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, p. 111)

‘Abdu’l-Bahá, o centro da aliança de Bahá’u’lláh e o líder dos Bahá’ís do mundo após o falecimento de Bahá’u’lláh, escreveu e falou extensivamente sobre o amor:

Sabe tu com certeza que o Amor é o segredo da santa Dispensação de Deus, é a manifestação do Todo-Misericordioso, a fonte das efusões espirituais. O amor é a luz bondosa do céu, o sopro eterno do Espírito Santo que vivifica a alma humana. O amor é a causa da revelação de Deus ao homem, o laço vital que, de acordo com a criação divina, é inerente à realidade das coisas. O amor é o único meio de assegurar a verdadeira felicidade, tanto neste mundo, como no vindouro. O amor é a luz que guia nas trevas, o elo vivo que une Deus ao homem, que garante o progresso de cada alma iluminada. O amor é a mais grandiosa lei que governa este ciclo poderoso e celestial, o poder único que liga os diversos elementos deste mundo material, a força magnética suprema que dirige os movimentos das esferas nos domínios celestiais. O amor revela com poder infalível e ilimitado os mistérios latentes no universo. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Baha, nº 12)

‘Abdu’l-Bahá definiu quatro tipos de amor, e disse:

O primeiro é o amor que flui de Deus para o homem; consiste de graças inesgotáveis, do esplendor Divino e iluminação celestial. Através deste amor o mundo do ser recebe vida. Através deste amor o homem é dotado de existência física até que, através do sopro do Espírito Santo - este mesmo amor - ele recebe a vida eterna e torna-se a imagem do Deus Vivo. Este amor é a origem de todo o amor no mundo da criação. (Abdu’l-Baha, Paris Talks, p. 181)

'Abdu'l-Bahá na Terra Santa, 1920
Todos os anos os Bahá'ís expressam o seu amor pelas Figuras Centrais da Fé observando solenemente o Seu falecimento e saída deste mundo: o martírio do Báb em 9 de Julho; a ascensão de Bahá’u’lláh em 29 de Maio; e em 28 de Novembro, a ascensão de 'Abdu'l-Bahá. Mas o que isso significa isso em termos dos ensinamentos Bahá’ís sobre a vida eterna?

Quando faleceu em 1921, ‘Abdu'l-Bahá - muitas vezes referido amorosamente como "o Mestre" ou o "Exemplo Perfeito" do que significa ser um bahá'í - deixou um legado de grande serviço e devoção constante aos ideais Bahá'ís da paz, do amor e da unidade.

Exilado do Seu país natal quando era criança e preso durante quarenta anos, ‘Abdu'l-Bahá viajou pelo mundo, quando já era idoso, para levar a mensagem do Seu pai sobre a unidade da humanidade às pessoas em toda a parte. Aclamado como um embaixador global da paz, amado e reverenciado em todo o mundo pela Sua humildade, pela Sua abnegação e pela Sua defesa da paz e da unidade, nomeado cavaleiro pelo Império Britânico pelo Seu trabalho que alimentou os pobres e evitou a fome na Palestina durante a Primeira Guerra Mundial, 'Abdu'l-Bahá abandonou este mundo aos 77 anos de idade, após uma vida de serviço humilde à humanidade.

O Seu neto Shoghi Effendi - que ‘Abdu’l-Bahá nomeou como o Guardião da Fé Bahá'í - mais tarde resumiu os últimos anos do Mestre, durante os quais Abdu’l-Bahá pediu aos Bahá’ís que não lamentassem a Sua morte:

Ao concluir as Suas cansativas viagens pelo Ocidente, que consumiram os últimos resquícios das Suas forças esmorecidas, escrevera: "Amigos, aproxima-se o tempo em que já não estarei convosco. Fiz tudo o que podia ser feito. Servi a Causa de Bahá'u'lláh até o limite máximo da Minha capacidade. Trabalhei dia e noite durante todos os anos da Minha vida. Oh! Quão intensamente desejo ver os crentes assumir as responsabilidades da Causa!... Os Meus dias estão contados e, salvo isto, não resta nenhuma outra alegria para mim." Alguns anos antes, Ele aludira assim à Sua morte: "Ó Meus fiéis amados! Se em algum momento acontecimentos aflitivos ocorrerem na Terra Santa, nunca se sintam perturbados ou agitados. Não temam, nem se lamentem. Pois tudo o que acontecer irá enaltecer o Verbo de Deus e difundir as Suas divinas fragrâncias." E também: "Lembrem-se, quer Eu esteja ou não na terra, a Minha presença estará sempre convosco." "Não considerem a pessoa de 'Abdu'l-Bahá", aconselhou Ele aos Seus amigos, numa das últimas Epístolas, "pois esta pessoa terá, por fim, de Se despedir de todos vós; antes, fixai o vosso olhar no Verbo de Deus... Os amados de Deus devem levantar-se com tamanha firmeza, que se num dado momento, centenas de almas, tal como ‘Abdu’l-Bahá, se tornarem alvo dos dardos das aflições, nada afectará ou diminuirá o seu... serviço à Causa de Deus." (Shoghi Effendi, God Passes By, pag. 309)

Mas lamentaram-se. O funeral de 'Abdu'l-Bahá reuniu a famosa e turbulenta diversidade religiosa da Terra Santa, atraindo gente consternada e admiradores de todas as religiões, raças, idades, origens e classes sociais. Uma forte sensação de perda e pesar dominava essas almas, e a intensidade dessa sensação uniu-as. O impacto inédito de ‘Abdu’l-Bahá e a libertação de emoções que o acompanhou resultaram num funeral como nunca se tinha visto.

Os líderes mundiais enviaram cartas e telegramas. Winston Churchill enviou um telegrama pedindo para "transmitir à Comunidade Bahá'í, em nome do Governo de Sua Majestade, a sua simpatia e condolências". Mas 'Abdu'l-Bahá também foi chorado pelos residentes mais pobres da Terra Santa, que Ele amou, apoiou, alimentou e ajudou durante décadas.

O Seu serviço fúnebre e enterro tiveram lugar no dia 29 de Novembro de 1921, um dia após o Seu falecimento, na encosta do Monte Carmelo, na Palestina Otomana, hoje Israel. Milhares de pessoas subiram a montanha, “Uma grande multidão”, escreveu o Alto Comissário Britânico para a Palestina, “reuniu-se, chorando a Sua morte, mas regozijando-se também pela Sua vida”.

A urna contendo os restos mortais de 'Abdu'l-Bahá foi transportada ao lugar de repouso final aos ombros dos Seus entes queridos… O longo séquito de enlutados, entre soluços e choros de muitos corações pesarosos, subia vagarosamente as encostas do Monte Carmelo, em direção ao mausoléu do Báb… Próximo da entrada leste do Santuário, o caixão sagrado foi colocado sobre uma mesa simples, e, na presença daquela vasta multidão, nove oradores, que representavam as Fés Muçulmanas, Judaica e Cristã… proferiram as suas orações fúnebres… A urna foi então levada para uma das câmaras do Santuário e ali desceu, triste e reverentemente, para a sua última morada, num sepulcro adjacente àquele em que jaziam os restos mortais do Báb. (Shoghi Effendi, God Passes By, pag. 310)

O governador de Jerusalém afirmou: "Nunca encontrei uma expressão mais unida de pesar e respeito do que a que foi causada pela absoluta simplicidade da cerimónia." Os observadores da imprensa estimaram a presença de mais de dez mil pessoas: árabes, turcos, persas, curdos, arménios, europeus, americanos, Judeus, Católicos, Cristãos Ortodoxos, Anglicanos, Muçulmanos, Drusos e Bahá'ís, funcionários do governo e clero, os mais ricos e os mais pobres, todos estavam ali para mostrar o seu profundo respeito pelo homem a quem um conhecido jornal chamou “A Personificação do Humanitarismo”. Enlutada, chorando e lamentando, a enorme multidão sentiu coletivamente uma tão profunda de perda que muitos participantes se debateram fortemente para conter as suas emoções.

Era um luto pela perda de alguém tão único e tão humilde, tão sábio e altruísta e tão dedicado no serviço aos outros, que receavam ter perdido algo muito mais do que um ser humano - alguém insubstituível, alguém extremamente precioso, não apenas um homem, mas uma alma verdadeiramente heroica e transcendente.

Muitos naquela multidão gigantesca deviam literalmente suas vidas a 'Abdu'l-Bahá, quer pelas generosas doações que Ele fizera aos pobres durante décadas ou pelos cereais que Ele armazenou para alimentar o povo faminto da Palestina durante o que eles chamaram de “A Grande Desgraça”, a longa Guerra Mundial que cortou o abastecimento de alimentos para a região.

O falecimento de ‘Abdu’l-Bahá e o Seu funeral no dia seguinte produziram uma das manifestações públicas mais espontâneas, profundas e unidas, de afecto e ternura que a Terra Santa alguma vez viu. A ascensão de 'Abdu'l-Bahá não apenas demonstrou a realidade dos ensinamentos Bahá'ís sobre a eternidade do amor, mas reavivou na nossa memória o conselho gentil que Ele deu a outros que perderam entes queridos:

A inescrutável sabedoria divina está subjacente a esses acontecimentos que partem o coração. É como se um jardineiro bondoso transferisse um arbusto novo e viçoso de um local exíguo para uma área muito espaçosa. Essa transferência não faz o arbusto murchar, atrofiar ou perecer; pelo contrário, essa mudança fará com que cresça e se desenvolva, que adquira vivacidade e delicadeza, que verdeje e dê frutos. Este segredo oculto é bem conhecido do jardineiro, mas as almas que estão inconscientes destas graças supõem que ele, na sua ira e cólera, tenha arrancado o arbusto. No entanto, para aqueles que estão cientes, este facto oculto está manifesto, e este mandamento predestinado é considerado uma graça. Portanto, não vos sintais consternados ou desconsolados pela ascensão deste pássaro da fidelidade; pelo contrário, sob todas as circunstâncias orai por esse jovem, suplicando perdão por ele, e elevação da sua condição. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, nº 169)

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Texto original: Love and Grief: the Passing of Abdu’l-Baha (www.bahaiteachings.org)


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Porque é que os Bahá’ís celebram o Dia da Aliança?


Depois do falecimento do Profeta fundador de uma religião, quem pode falar em nome dele? Esta questão tem atormentado as religiões ao longo da história, e as discussões resultantes causaram muita dor e sofrimento.

Na verdade, esta questão dominou a história da maioria das religiões. Cismas, seitas e até guerras religiosas foram o resultado de divergências profundas e desastrosas sobre a sucessão e a autoridade. Muitos destes conflitos tornaram-se lutas pelo poder, demasiado trágicas, provocando carnificinas, ódio, fanatismo e a consequente perda do espírito original que os fundadores dessas religiões ensinaram. No mínimo, estes confrontos internos enfraqueceram cada religião onde ocorriam, e reduziam a sua capacidade de ensinar o amor, a harmonia e a unidade do mundo.

Os ensinamentos Bahá’ís, ao contrário das tradições religiosas do passado, abordam esta questão de forma clara, directa e imutável – de uma forma verdadeiramente única.

Quando Bahá’u’lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá’í - faleceu em 1892, Ele deixou um Testamento chamado "O Livro da Aliança". Ali, Ele nomeou 'Abdu'l-Bahá, o Seu filho mais velho - a quem Se referiu como "O Mais Poderoso Ramo" - como Seu sucessor e líder da Fé Bahá'í:

Ó vós que habitais na terra! A religião de Deus é para o amor e a unidade; não a façais causa de inimizade e dissensão…

Conflito e discórdia são categoricamente proibidos no Seu Livro. Este é um decreto de Deus nesta Mais Grandiosa Revelação. Está divinamente preservado de anulação e está investido por Ele com esplendor da Sua confirmação. Em verdade, Ele é o Omnisciente, o Sapientíssimo…

A Vontade do Testador divino é esta: Incumbe aos … Meus parentes – a todos – voltar as suas faces para o Mais Poderoso Ramo. Considerai o que revelámos no nosso Mais Sagrado Livro: "Quando o oceano da Minha presença tiver vazado e quando o Livro da Minha Revelação estiver terminado, voltai as vossas faces para Aquele proposto por Deus, Aquele que ramificou desta Raiz Antiga". O objecto deste versículo sagrado não é nenhum outro senão o Mais Poderoso Ramo ['Abdu'l-Bahá].

Devido a esta aliança explícita por escrito, a Fé Bahá'í, mais de um século após o falecimento do Seu fundador, é a única grande religião mundial que manteve a sua unidade e resistiu com sucesso à divisão sectária. Em momentos da sua história, alguns indivíduos tentaram criar cismas e divisões entre a comunidade, mas nenhum conseguiu - porque os Bahá'ís entendem o que a Aliança significa e seguem as suas disposições.

Assim, nos dias 24 ou 25 de Novembro, os Bahá’ís de todo o mundo celebram a unidade da sua Fé – e a unidade essencial de todas as religiões – como um dia sagrado a que chamam Dia da Aliança.

Neste Dia Sagrado especial reconhecemos e celebramos a nomeação de ‘Abdu’l-Bahá como o Centro da Aliança de Bahá’u’lláh, representando a linha contínua e unificada de orientação espiritual que protege a Fé Bahá’í da divisão e da desunião. Também reconhece a Aliança maior e mais ampla que existe entre Deus e a humanidade, que se expressa nas relações proféticas que ligam cada fé.


Os Bahá'ís acreditam na revelação progressiva - que Deus revela a verdade religiosa e mística através de uma sucessão contínua de profetas e mensageiros, ao longo da história humana. A revelação progressiva liga os grandes professores religiosos do mundo, os fundadores das principais religiões da humanidade, numa grande corrente de orientação espiritual de Deus. Buda, Krishna, Cristo, Moisés, Muhammad - Bahá’ís acreditam que cada um dos profetas e mensageiros de Deus fundou uma grande religião, e também prometeu aos Seus seguidores que regressaria.

Quando os novos mensageiros aparecem para cumprir esta promessa, Eles conduzem a humanidade repetidamente de regresso à sua realidade espiritual. Esta aliança eterna entre Deus e a humanidade convida todos a reconhecer e aceitar o próximo profeta, formando um processo de educação divina chamado revelação progressiva. ‘Abdu’l-Bahá escreveu que os Bahá’ís veem esta unidade da religião como uma cadeia ininterrupta e orgânica de mensageiros de Deus, que ensinaram a mesma Fé essencial:

E constitui um princípio básico da Lei de Deus em toda a Missão Profética, que Ele celebre uma Aliança com todos os crentes – Aliança essa que dura até o fim daquela Missão, até ao dia prometido, quando a Personagem especificada no início da Missão se torna manifesta. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l‑Bahá, #181)

A Aliança Bahá’í, claramente delineada na Vontade e Testamento de Bahá’u’lláh, continua essa cadeia ininterrupta de orientação divina e amor - não só prometendo à humanidade que outro mensageiro divino virá no futuro, mas também nomeando ‘Abdu’l-Bahá como sucessor de Bahá’u’lláh. Essa nomeação proporciona o princípio organizador para a expansão dos ensinamentos Bahá’ís e a administração da comunidade Bahá’í, em crescimento em todo o mundo; e além disso, responde às questões de sucessão e liderança que perturbaram tantas religiões do passado. Numa palestra que realizada em Nova Iorque em 1912, ‘Abdu’l-Bahá explicou:

Quanto à principal característica da revelação de Bahá'u'lláh, existe um ensinamento específico não proclamado por qualquer um dos Profetas do passado: trata-se da ordenação e nomeação do Centro da Aliança. Através dessa nomeação e provisão, Ele salvaguardou e protegeu a religião de Deus contra divergências e cismas, tornando impossível a qualquer um criar uma nova seita ou facção de crença. Para assegurar a unidade e a concórdia, Ele estabeleceu uma Aliança com todas as pessoas do mundo, incluindo o intérprete e explicador dos Seus ensinamentos, para que ninguém pudesse interpretar ou explicar a religião de Deus de acordo com o seu próprio ponto de vista ou opinião, e assim criar uma seita baseada no seu entendimento individual das Palavras divinas. (The Promulgation of Universal Peace, #135)

A nomeação de Bahá’u’lláh conferiu a ‘Abdu’l-Bahá a autoridade para agir como o único intérprete das Escrituras Bahá'ís, e nomeou-o como aquele que executaria o propósito de Bahá’u’lláh no estabelecimento da ordem administrativa Bahá’í. A nomeação de 'Abdu'l-Bahá como o Centro da Aliança também reconheceu que na Sua vida pessoal, nas Suas palavras e actos, 'Abdu'l-Bahá exemplificou perfeitamente as qualidades e ideais de um verdadeiro Bahá’í.

Depois, após a morte de ‘Abdu’l-Bahá, a Aliança Bahá’í continuou quando a Sua própria Vontade e Testamento nomeou Shoghi Effendi como o Guardião da Fé Bahá’í e tomou providências para a eleição global da Casa Universal de Justiça. Esta Aliança contínua preparou o caminho para a transição da sucessão hereditária para a administração com processos democráticos da comunidade Bahá’í. A primeira eleição para a Casa Universal de Justiça ocorreu em 1963, cem anos depois de Bahá’u’lláh ter proclamado a Sua mensagem.

Esta Aliança Bahá’í, uma linha clara de sucessão que manteve a unidade da Fé Bahá’í intacta e inviolável, serve para unir os corações dos Bahá’ís em todo o mundo – e também mostra a humanidade que podemos alcançar uma unidade mais global que inclua todas as pessoas e nações.

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Texto original: Why Do Baha’is Celebrate the Day of the Covenant? (www.bahaiteachings.org)


domingo, 21 de novembro de 2021

sábado, 20 de novembro de 2021

O Conceito Bahá’í de Aliança

Por John Hatcher.


Desde tempos imemoriais, Deus estabeleceu uma aliança com a Sua criação. As escrituras de Bahá’u’lláh descrevem esse pacto essencial, que basicamente garante que o Criador nunca deixará de guiar a humanidade através do aparecimento periódico dos Seus Manifestantes divinamente predestinados:

Reúne-os, então, em torno desta Lei Divina, a aliança que estabeleceste com todos os Teus Profetas e Teus Mensageiros, e Cujos mandamentos escreveste nas Tuas Epístolas e nas Tuas Escrituras. Eleva-os, além disso, a tais alturas que os capacitem a perceber Teu Chamamento. (Bahá’u’lláh, Prayers and Meditations, p. 106)

Nas Suas Escrituras, Bahá’u’lláh explicou a diferença entre duas categorias de alianças divinas relevantes para a educação da humanidade.

Ele começou por identificar a aliança eterna entre Deus e a humanidade, representada de forma mais visível na história religiosa registada pela aliança de Deus com Abraão. Segundo a história, Deus enviará sempre Mensageiros Divinos para a humanidade, para nos dar orientação e assistência adequadas, para nos dar o apoio espiritual que só Eles transmitem, para nos dar o conhecimento que só Eles revelam e para nos dar a conhecer as vidas exemplares que Eles vivem.

A Grande Aliança entre Deus e a Humanidade


Esta aliança eterna é por vezes referida nos textos Bahá’ís como o “Grande Plano de Deus” ou a “Mais Grandiosa Aliança”. Estas frases descritivas designam todo o processo sistemático em que Deus envia sucessivos profetas, mensageiros e manifestantes para educar progressivamente a humanidade, com o objectivo permanente de construir uma sociedade global que funcione de acordo com princípios espirituais. Ou, usando palavras do próprio Cristo, o propósito do “Grande Plano de Deus” é a construção gradual do Reino de Deus na terra.

A humanidade desempenha um papel importante neste acordo ou aliança - devemos procurar os Manifestantes sempre que Eles aparecem. Quando os descobrirmos e acreditarmos nos Seus ensinamentos, somos obrigados a seguir todos as orientações que Eles revelem, até que apareça outro Manifestante para continuar este programa contínuo de evolução humana.

O Papel da Humanidade em cada Nova Aliança


O segundo tipo de aliança é um acordo entre cada Manifestante individual e os Seus seguidores. O novo mensageiro ou Manifestante assegura-nos que os Seus ensinamentos iluminar-nos-ão e guiar-nos-ão até ao aparecimento do Manifestante seguinte. O papel central da humanidade neste pacto é apoiar esses novos ensinamentos para o nosso crescimento, comportamento e aperfeiçoamento pessoal; e também devemos ser fiéis a quaisquer instruções que o Manifestante forneça para a promulgação e segurança da nova religião. Em particular, este pacto exige que sigamos todos os sucessores ou instituições que o Manifestante estipulou ou nomeou para Lhe suceder após o Seu falecimento.

A Ligação entre o Físico e o Metafísico


Assim, estes dois tipos de alianças estabelecem a base sistemática de ligação ou comunicação indirecta entre o reino metafísico e o reino físico. Também descrevem os meios pelos quais a humanidade pode estabelecer a fase inicial de uma relação de amor profundo e duradouro com um Ser que pessoalmente não vimos, nem ouvimos, em nenhum sentido físico directo. Assim, passamos a comunicar-nos com Deus e, de facto, “entramos na Sua presença” devido à nossa aliança com Deus através dos Seus Manifestantes.

Ao aparecer periodicamente na história humana, os Manifestantes fazem evoluir gradualmente a nossa compreensão sobre o Criador e facilitam o progresso da nossa relação de amor com Ele. Na verdade, as Escrituras Bahá'ís afirmam que sem esses intermediários, a distância entre nós e o Criador não poderia ser superada, e o nosso próprio progresso individual e colectivo seria impossível, tal como escreveu 'Abdu'l-Bahá:

Quanto aos Santos Manifestantes de Deus, Eles são os pontos focais onde os sinais, as provas e as perfeições dessa Realidade sagrada, pré-existente, aparecem com todo esplendor. Eles são a graça eterna, a glória celestial, e d’Eles depende a vida imortal da humanidade. (Selections from the Writings os ‘Abdu’l-Bahá, #21)

Desta forma, os Manifestantes de Deus não trazem apenas uma nova mensagem espiritual para a humanidade - Eles agem como os raios do sol espiritual, dando vida, calor e sustento a toda a existência.

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Texto original: The Baha'i Concept of the Covenant (www.bahaiteachings.org)


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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

sábado, 13 de novembro de 2021

Porque os Soldados precisam de ter uma Voz na guerra

Por David Langness.


Em 1914, pouco antes de serem disparados os primeiros tiros da Primeira Guerra Mundial, uma pessoa perguntou a 'Abdu'l-Bahá: "Como se pode alcançar a paz universal?" Em resposta, 'Abdu'l-Bahá pode ter surpreendido e chocado os Seus ouvintes.

Na Sua resposta contundente, ‘Abdu’l-Bahá destacou três propostas sem precedentes:
  • Os bancos não devem emprestar dinheiro às nações em guerra; 
  • As empresas de transportes devem recusar-se a transportar armas e munições para qualquer lugar; 
  • E por fim, os soldados devem exigir que os seus comandantes apresentem uma justificação clara e convincente para a guerra em que se vão envolver – antes de disparar o primeiro tiro.
Se alguma destas três coisas tivesse acontecido antes da “guerra que iria acabar com todas as guerras”, a carnificina nunca teria acontecido.

‘Abdu’l-Bahá começou por dizer: “Os ideais da Paz devem ser nutridos e espalhados entre os habitantes do mundo; devem ser formados na escola da Paz e conhecer os males da guerra”.

E depois, descreveu as Sua propostas reformistas, uma por uma:

Primeiro: os financeiros e os bancos devem deixam de emprestar dinheiro a qualquer governo que tencione fazer uma guerra injusta contra uma nação inocente.

Historicamente, isto não teria precedentes. Normalmente, os grandes bancos mundiais emprestam dinheiro aos governos para financiar os custos da guerra, e antes da Primeira Guerra Mundial, cinco dessas grandes instituições – Barings, Kleinworts, Morgans, Rothschilds, e Schröders – e três grandes instituições financeiras mundiais dessa época – Lloyds, Midland, e Westminster – perceberam que podiam ganhar dinheiro com a guerra que se avizinhava, cobrando taxas de juro elevadas nos empréstimos aos vários governos. Essas instituições encorajaram diretamente os dirigentes políticos a envolver os seus países na guerra (para mais informação sobre o papel dos bancos na guerra, ver este link).

A segunda proposta de ‘Abdu’l-Bahá era igualmente radical:

Segundo: os presidentes e administradores das empresas de caminhos de ferro e navegação devem abster-se de transportar munições de guerra, engenhos infernais, armas, canhões e pólvora de um país para outro.

Naquela época, a maioria das mercadorias era transportada por ferrovia e por navio e, como resultado, as grandes transportadoras também consideravam a guerra um projecto muito lucrativo. As principais linhas de transporte de tropas, armas e munições dependiam do transporte ferroviário e, se estes se recusassem a transportar o material de guerra, poderiam ter efectivamente interrompido as hostilidades. (para mais informações sobre o papel dos transportes na guerra, ver este link).

Mas a terceira proposta de ‘Abdu’l-Bahá parece a mais revolucionária das recomendações – e a mais crítica para os senhores da guerra, a quem Ele chamou “reis, governantes, políticos e fomentadores de guerra”:

Terceiro: os soldados devem solicitar, através dos seus representantes, aos Ministros da Guerra, aos políticos, aos deputados e aos generais que exponham numa linguagem clara e perceptível os motivos e as causas que os levam a estar à beira de uma calamidade nacional. Os soldados devem exigir isto como um direito especial.

‘Demonstrem-nos’, devem dizer, ‘que esta é uma guerra justa, e então entraremos no campo de batalha; caso contrário não daremos um passo. Ó reis e governantes, políticos e fomentadores de guerras; vós que passais as vossas vidas nos palácios mais requintados da arquitetura italiana; vós que dormis em apartamentos arejados e bem ventilados; vós que decorais os vossos salões de recepção e de jantar com belos quadros, esculturas, tapeçarias e frescos; vós que andais em Elísios perfeitos, rodeados por laranjais e murtas, num ar com odores de perfumes deliciosos e sons de doces canções de mil pássaros, a terra como um tapete luxuriante de erva esmeralda, flores brilhantes salpicando os prados e árvores revestidas de verdura; vós que estais vestidos com seda cara e tecidos de produção requintada; vós, sentados em macios sofás de penas; vós, que comeis os pratos mais deliciosos e saborosos; vós que desfrutais da maior facilidade e conforto nas vossas mansões maravilhosas; vós que assistis a excelentes concertos musicais sempre que vos sentis um pouco confusos e tristes; vós que adornais os vossos grandes salões com grinaldas verdes e flores recortadas, coroas frescas e faixas verdejantes, iluminando-os com milhares de luzes eléctricas, enquanto a fragrância refinada das flores, a música suave e encantadora, a iluminação fantasiosa, criam uma ambiente maravilhoso; vós, que estais nesse ambiente: saí dos vossos refúgios, entrai no campo de batalha se gostais de vos atacar uns aos outros e desfazer os outros em pedaços, e assim expressar as vossas chamadas discórdias. A discórdia e a contenda existem entre vós; porque nos fazem a nós, pessoas inocentes, participar nisso? Se o combate e a carnificina são coisas boas, então conduzam-nos para o combate com a vossa presença!

Conseguem imaginar isso? Antes de entrar em combate ou disparar um tiro, as tropas devem ter o direito de ouvir e decidir sobre os motivos da guerra - e se concordam em lutar, aqueles querem a guerra - os homens, normalmente isolados das consequências violentas das suas decisões, devem conduzi-los na batalha sangrenta.

‘Abdu’l-Bahá sumariza dizendo:

Em resumo, todos os meios que produzem a guerra devem ser verificados e as causas que impedem a ocorrência da guerra devem ser apresentadas, para que o confronto físico possa tornar-se uma impossibilidade.

... para que o confronto físico possa tornar-se uma impossibilidade” é a sua conclusão, na busca do primeiro objectivo dos ensinamentos Bahá’ís: a paz mundial.

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Texto original: Why Soldiers Need a Voice in War (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Aniversários Gémeos de Manifestantes Gémeos

Por Kamelia.


Durante séculos, os povos do mundo aguardaram o Dia Prometido de Deus, um Dia em que a paz e a harmonia seriam estabelecidas na terra. O amanhecer deste novo dia testemunhou o aparecimento não de um, mas de dois Manifestantes de Deus - o Báb e Bahá’u’lláh - cujas Revelações libertaram as forças espirituais destinadas a transformar a sociedade.

"Manifestante de Deus" é um conceito Bahá’í usado para definir um intermediário entre Deus e a humanidade, ou o que é comumente referido como um Mensageiro ou Profeta. O termo "Manifestantes Gémeos" refere-se à Revelação sem precedentes do Báb e de Bahá’u’lláh, numa sequência temporal muito próxima.

A Fé Bábi resplandeceu durante seis anos, até que o martírio do seu fundador - o Báb, em 1850 - lançou a jovem Fé em desordem. Embora o Báb fosse um Manifestante de Deus e o fundador de uma grande religião, Ele também Se considerava um precursor e exortou ardentemente os Seus seguidores a procurarem o segundo Manifestante - referido enigmaticamente como "Aquele Que Deus tornará manifesto" - que surgiria “em menos de um piscar de olhos” após a Sua própria missão, para completar o aparecimento único de Manifestantes gémeos numa única era.

Entre os apoiantes devotos do Báb estava Mirza Husayn-Ali, que mais tarde assumiu o título de Bahá’u’lláh – que significa a Glória de Deus. Bahá’u’lláh e o Báb nunca Se encontraram e apenas trocaram cartas.

Foi só em 1863, dezanove anos após o início da Fé Bábi (treze desde a morte do Báb), que Bahá’u’lláh declarou publicamente ser o Prometido anunciado pelo Báb, produzindo assim o “fruto destinado e revelando o seu propósito final”, e também proclamou ser o Prometido de todos os Tempos.

Para Israel, Ele não era nem mais nem menos do que a encarnação do “Pai Eterno”, o “Senhor dos Exércitos” que desceu “com dez mil santos”; para a Cristandade, Cristo regressado "na Glória do Pai"; para o Islão xiita, o regresso do Imam Husayn; para o Islão sunita, a descida do “Espírito de Deus” (Jesus Cristo); para os Zoroastrianos, o prometido Shah-Bahram; para os Hindus, a reencarnação de Krishna; para os Budistas, o quinto Buda. (Shoghi Effendi, God Passes By, pag. 94)

Com o nascimento da Fé Bahá’í, o aparecimento de duas religiões relacionadas, mas independentes, surgindo na mesma era tornou-se uma realidade.

Todos os povos do mundo esperam dois Manifestantes, que devem ser contemporâneos; todos aguardam o cumprimento desta promessa. Na Bíblia, os judeus têm a promessa do Senhor dos Exércitos e do Messias; no Evangelho, é prometido o regresso de Cristo e de Elias. Na religião de Muhammad há a promessa do Mihdi e do Messias, e é o mesmo acontece no Zoroastriano e as outras religiões. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, p39)

O motivo por trás dessa rápida sequência, e as dádivas sem precedentes libertadas pela Revelação dos Manifestantes Gémeos, permanece um mistério.

“Que um intervalo tão breve”, afirmou Ele [Bahá’u’lláh], “tenha separado esta poderosíssima e maravilhosa revelação da Minha própria Manifestação anterior, é um segredo que nenhum homem pode desvendar, e um mistério que nenhuma mente pode sondar. A sua duração foi predestinada.” (Shoghi Effendi, God Passes By, pag. 92)

‘Abdu'l-Bahá apresenta de forma convincente a verdadeira relação entre os Fundadores gémeos da Fé, com esta explicação esclarecedora:

A Revelação do Báb pode ser comparada ao sol [...] A posição da Revelação de Bahá’u’lláh, por outro lado, é representada pelo [...] sol no meio do verão e na posição mais alta. Com isso quer-se dizer que esta Dispensação sagrada está iluminada com a luz do Sol da Verdade brilhando na sua posição mais exaltada, e na plenitude da sua resplandecência, do seu calor e glória. (Shoghi Effendi, God Passes By, pags. 99-100)

O conceito de “Manifestantes Gémeos de Deus” é fundamental nos ensinamentos Bahá’ís, pois a missão do Báb e de Bahá'u'lláh estão inextricavelmente ligadas: a missão do Báb era preparar o caminho para a vinda de “Aquele que Deus tornará Manifesto”, que finalmente apareceu na pessoa de Bahá'u'lláh. Por esta razão, tanto o Bab como Bahá’u’lláh são reverenciados como figuras centrais da Fé Bahá’í. Juntos, esses Luminares gémeos inaugurariam uma era de paz e justiça prometida em todas as religiões do mundo.

Foi profetizado que no tempo desses dois Manifestantes a terra será transformada, o mundo da existência será renovado. A justiça e a verdade envolverão o mundo; a inimizade e o ódio desaparecerão; todas as causas de divisão entre povos, raças e nações desaparecerão; e a causa da união, harmonia e concórdia aparecerá. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, cap. 10)

Para fortalecer ainda mais a ligação entre estes dois Manifestantes, temos a celebração dos seus Aniversários Gémeos. “O Festival dos Aniversários Gémeos” ou “Dias Sagrados Gémeos” celebram o nascimento do Báb no primeiro dia de Muharram no calendário islâmico (20 de Outubro de 1819) e o nascimento de Bahá’u’lláh no segundo dia de Muharram (dois anos antes, em 12 de Novembro de 1817). Quanto aos aniversários gémeos, Bahá’u’lláh declarou:

Estes dois dias são considerados um só aos olhos de Deus. (Bahá’u’lláh, The Kitáb-i-Aqdas, p.225)

Até recentemente, alguns países celebravam os Dias Sagrados Gémeos de acordo com o calendário islâmico, enquanto outros celebravam os nascimentos do Báb e do Bahá’u’lláh com algumas semanas de intervalo, de acordo com o calendário gregoriano. Em 2014, a Casa Universal de Justiça anunciou que tinha chegado o momento de todas as comunidades Bahá’ís adoptarem o calendário Bahá’í. Agora, os Bahá’ís e os seus amigos em todo o mundo podem celebrar esses Dias Sagrados Gémeos como um jubiloso festival global.

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Texto original: Twin Birthdays for Twin Manifestations (www.bahaiblog.net)

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Kamelia é Bahá’í e mãe de três crianças. Estudou Direito, Contabilidade e Apoio Infantil. Tem um interesse especial em Estudos Bahá’ís e Educação Infantil.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Festejar o Halloween, respeitosamente...

Por Shadi Toloui-Wallace.


Tipicamente, nesta época do ano, as crianças, os jovens e as famílias recordam as roupas mais criativas, elaboradas e assustadoras que usaram no Halloween.

Caminhar pelo nosso bairro na véspera do Halloween tem sido para mim uma experiência cultural divertida ao longo dos anos. Muitos amigos ficam surpreendidos quando lhes digo que na Austrália, onde cresci, não tínhamos Halloween. Lembro-me das crianças com máscaras estranhas que apareciam à minha porta, pedindo doces; mas isso muitas vezes deixava-me confusa, e eu dava às crianças pequenas barras de cereais, simplesmente porque eu não tinha ideia do que estava a acontecer. O Halloween não é uma tradição comum na cultura australiana. Além disso, em Outubro estamos na primavera, a estação menos assustadora do ano.

O que é o Halloween?


O Halloween é celebrado anualmente a 31 de Outubro e dá início a um período de três dias chamado tríduo de Todos os Santos, um tempo dedicado a lembrar os mortos; são celebrações enraizadas nas práticas cristãs ocidentais. É amplamente aceite que muitas das tradições actuais do Halloween tiverem origem no antigo festival gaélico das colheitas, o Samhain, que tem raízes celtas e pagãs, nomeadamente a celebração do fim da temporada das colheitas. Algumas dessas tradições herdadas hoje incluem as máscaras, os doces ou travessuras, abóboras decoradas, fogueiras, brincadeiras com maças e visitas a locais assombrados.

Apropriação cultural no Halloween


No início desta semana, perguntei a um grupo de pré-jovens com quem trabalho quais as máscaras que iriam vestir no próximo Halloween. A maioria dos jovens tinha planos bem detalhados e partilhava-os com entusiasmo, mas uma moça entre eles evitou a conversa. Mais tarde, ela disse-me que a sua mãe mencionou que a sua máscara podia ser desrespeitosa ou ofensiva para uma cultura específica. Então essa jovem sentou-se novamente à mesa, tentando pensar em qual máscara que poderia fazer quando já faltava menos de uma semana para o evento. Tive pena dela, mas também fiquei muito impressionada pela consciência e percepção dela e da sua mãe.

Ao longo dos anos, temos ouvido muito sobre que tipo de máscaras são consideradas respeitosas ou desrespeitosas com pessoas de diferentes religiões, géneros, grupos culturais, opiniões políticas e minorias étnicas. Isso, naturalmente, fez-me pensar: o que dizem as Escrituras Bahá'ís sobre isso?

Os Bahá’ís festejam o Halloween?


Sem explorar as nuances da apropriação/apreciação cultural, ou cultura/traje, quero focar este ensaio nas formas que podem assumir a apreciação e representação respeitosa, na perspectiva da Fé Bahá'í, particularmente quando se participa em eventos festivos ou tradicionais. Se o objectivo da Fé Bahá’í implica unir a raça humana aplicando os ensinamentos Bahá’ís, como fazer isso usando máscaras?

Na verdade, os Bahá’ís têm alguma forma de celebração de Halloween? A partir das minhas próprias investigações, percebo que não existe uma regra clara sobre a participação nessas festividades; no entanto, a Casa Universal de Justiça dá aos Bahá’ís parâmetros claros e relevantes se decidirmos participar em actividades culturais ou tradicionais:

Os Bahá'ís devem obviamente ser encorajados a preservar as suas identidades culturais herdadas, desde que as actividades envolvidas não infrinjam os princípios da Fé. A perpetuação dessas características culturais é uma expressão de unidade na diversidade. Embora a maioria dessas celebrações festivas tenham, sem dúvida, provindo de rituais religiosos de épocas passadas, os crentes não devem ser dissuadidos de participar naquelas em que, ao longo do tempo, o significado religioso deu lugar a práticas com orientação puramente cultural. (A Casa Universal de Justiça, para uma Assembleia Espiritual Nacional, 26 de Maio de 1982)

Numa outra carta, a Casa Universal de Justiça partilhou que Bahá’u’lláh deixou-nos a tarefa de identificar os elementos da diversidade que queremos manter e que são "agradáveis aos olhos de Deus:"

... o que Bahá’u’lláh fez para todos nós foi estabelecer um padrão pelo qual se determina o que é agradável aos olhos de Deus, permitindo-nos assim manter aqueles elementos de diversidade que são únicos nas nossas diferentes culturas. A adopção desse padrão divino permite que cada povo tenha confiança na permissibilidade daquilo que pode reter do seu passado. (23 de Junho de 1995)

Assim, apesar do Halloween ser "uma prática com orientação puramente cultural", os Bahá’ís não são encorajados nem desencorajados a participar. Como muitos dos ensinamentos Bahá’ís, o rumo da acção é deixado à consciência do indivíduo, e, consequentemente, muitos Bahá’ís festejam o Halloween.

Então, como podemos participar numa tradição ocidental milenar, como o Halloween, de forma respeitosa, e simultaneamente manter o "padrão divino" de Bahá’u’lláh?

Manter o Padrão Divino - Respeitosamente


‘Abdu’l-Bahá abordou detalhadamente o papel da religião no estabelecimento da unidade e da fraternidade universais, promovendo a igualdade de géneros, a prosperidade económica para todos, a educação universal e a disseminação do conhecimento, e pondo fim a qualquer vestígio de preconceito de religião, raça, político, patriótico ou económico:

… cada era tem um espírito e o espírito desta era iluminada está nos ensinamentos de Bahá'u'lláh, pois estes lançam o alicerce da unidade do mundo da humanidade e promulgam a fraternidade universal. Baseiam-se na unidade da ciência e da religião, e na investigação da verdade. Sustentam o princípio de que a religião deve ser a causa da amizade, união e harmonia entre os homens. Estabelecem a igualdade de ambos os sexos e apresentam princípios económicos para a felicidade dos indivíduos. Difundem a educação universal, para que cada alma possa adquirir tanto conhecimento quanto possível. Revogam e eliminam preconceitos religiosos, raciais, políticos, patrióticos, económicos e quaisquer outros. Esses ensinamentos, que estão disseminados pelas Epístolas e Cartas, são a causa da iluminação e da vida do mundo da humanidade. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, nº 71

Ao considerar as nossas intenções com o estabelecimento da unidade da humanidade, também podemos ter em conta como essas ambições têm impacto nas nossas relações com grupos minoritários, no nosso conhecimento e compreensão da sua história, nas susceptibilidades em torno das suas práticas e tradições culturais, cerimoniais e formas de abordar as questões sistémicas subjacentes que actuam como barreiras perpetuadoras que hoje impedem o seu progresso na sociedade:

O princípio fundamental da unidade da humanidade e o objectivo da Fé de promover a unidade na diversidade estão na base da abordagem Bahá’í para os povos indígenas. Os seus direitos são inseparáveis dos direitos humanos para todos, e a Fé Bahá’í defende o direito dos povos indígenas a desenvolverem-se e a orgulharem-se da sua própria identidade, cultura e idioma. Uma grande importância é atribuída ao ensino da Fé às populações indígenas num país, mais especialmente porque elas foram frequentemente negligenciadas ou oprimidas por outros segmentos da sociedade ...

Uma característica única da Ordem Administrativa Bahá’í é a maneira pela qual permite que todos os diferentes elementos da comunidade Bahá’í, provenientes de uma multiplicidade de origens étnicas, raciais, culturais e educacionais, trabalhem juntos em apoio mútuo e de forma espiritualmente benéfica. (A Casa Universal de Justiça, para um Bahá'í individual, 25 de Julho de 1995)

Como promotores da unidade da humanidade, nós, Bahá'ís, também devem considerar nossas suposições sobre aqueles que vivem num clima económico, político ou geográfico diferente, e considerá-los como iguais, reconhecendo e respeitando as suas antigas histórias, tradições e herança:

Discriminar qualquer raça, por ser socialmente atrasada, politicamente imatura e numericamente minoritária, é uma violação flagrante do espírito que anima a Fé de Bahá’u’lláh. A consciência de qualquer divisão ou clivagem nas suas fileiras é estranha ao seu próprio propósito, princípios e ideais. Quando os seus membros tiverem reconhecido plenamente a reivindicação do seu Autor e, ao identificarem-se com a sua Ordem Administrativa, aceitarem sem reservas os princípios e leis personificados nos Seus ensinamentos, deverá ser automaticamente eliminada toda diferenciação de classe, credo ou cor, jamais ser permitida, sob pretexto algum, e por maior que seja a pressão de acontecimentos ou da opinião pública, que ela se refirme. Se alguma discriminação deve ser tolerada, não deverá ser contra, mas sim, a favor da minoria, seja racial ou outra. (Shoghi Effendi, The Advent of Divine Justice, pp. 35-36)

Como podemos promover a unidade e defender a diversidade com respeito pelos outros, e simultaneamente defender o "padrão divino" de Bahá’u’lláh no próximo Halloween - e em todos os dias do ano?

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Texto original: What’s Respectful this Halloween? (www.bahaiteachings.org)

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Shadi Toloui-Wallace nasceu em Bisbarne, na Austrália e vive em Vancouver, no Canadá. É formada Comunicação Social e Relações-Públicas e é reconhecida pelos seus contributos musicais para a comunidade Bahá’í e envolvimento iniciativas artísticas e comunitárias, a nível local e internacional. é editora do site BahaiTeachings.org. Para saber mais sobre Shadi, visite este site: ShadiTolouiWallace.com