sábado, 24 de julho de 2021

Visitar uma amiga que se apaga lentamente no ocaso da vida

Por Teresa e David Langness.


Recentemente vivemos uma experiência profunda sobre envelhecimento, e sobre a qual poucas pessoas falam: visitámos uma amiga que se apagava lentamente no ocaso da vida e olhava para os mistérios do além.

Algumas pessoas poderiam considerar isto uma realidade deprimente, mas em muitos aspectos, um momento de ligação compassiva com uma amiga às portas da morte também nos convida a contemplar o encontro espiritual que em breve enfrentaremos nas nossas próprias vidas.

Tivemos este momento marcante quando fomos visitar uma querida amiga num lar de idosos. Os seus dias estão contados – tal como estão os nossos – mas, no caso dela, esse número reduzia-se a apenas alguns, e ela estava a aproximar-se do grande momento.

As escrituras Bahá’ís garantem-nos:

Não vos entristeçais, nestes dias e neste plano mundano, se coisas contrárias aos vossos desejos tiverem sido decretadas e manifestadas por Deus, pois seguramente aguardam-vos dias de ditosa felicidade, de encanto celestial. Mundos santos, espiritualmente gloriosos, desvendar-se-ão perante os vossos olhos. (Bahá’u’lláh, SEB, CLIII)

E tal com salientam os ensinamentos Bahá’ís:

Estes poucos e breves dias hão de passar, e esta vida desaparecerá dos nossos olhos; as rosas deste mundo perderão a sua frescura e beleza, e o jardim dos triunfos e prazeres mundanos declinará e definhará…, e a isto o sábio não prende o seu coração (‘Abdu’l-Bahá, SAQ, 188)

'Abdu'l-Bahá - o filho e sucessor de Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá’í – aconselhou-nos a não prender os nossos corações neste mundo, que rapidamente sairá das nossas mãos. Ele deu-nos um vislumbre da relevante realidade espiritual que nos aguarda quando abandonarmos a nossa condição física temporária. Foi numa palestra em 1912, na Northwestern University em Evanston, Illinois:

Através da sua ignorância, o homem teme a morte; mas a morte que ele teme é imaginária e absolutamente irreal; é apenas imaginação humana… 

O conceito de desagregação é um factor na degradação humana, causa de rebaixamento e menorização, fonte de temor e aviltamento. Tem sido conducente à dispersão e ao enfraquecimento do pensamento humano, enquanto a percepção da existência e continuidade tem elevado o homem a ideais sublimes, estabelecido os fundamentos do progresso humano e estimulado o desenvolvimento de virtudes celestiais; assim, compete ao homem abandonar pensamentos de inexistência e morte, que são absolutamente imaginários, e considerar-se imortal, eterno no propósito divino da sua criação.

Ontem percebemos que a nossa amiga esperava libertar-se deste mundo, contemplava o limiar de um mundo novo e estava pronta a levar consigo as virtudes espirituais que tinha desenvolvido e aperfeiçoado ao longo da sua vida.

Mas há algo que devem saber sobre a nossa amiga. A Délia tem um espírito impetuoso, vivo e animado. Sempre foi corajosa, cheia de energia e ideias, e era capaz de ultrapassar os seus netos quando já se aproximava dos 80 anos. Desafiava frequentemente a tradição por uma questão de convicção. Apaixonou-se pela Fé Bahá’í e dedicou a sua vida aos seus ensinamentos. Na sua condição de mulher branca com antepassados indígenas, durante toda a sua vida adulta, ela deu uma atenção especial à forma como a sociedade trata as pessoas de cor. Passou grande parte da sua vida a trabalhar para corrigir injustiças, a perceber como as pessoas interagem entre si quando ultrapassam as barreiras para ver as almas dos outros. Costumava falar em nome daquelas cuja voz não se ouve.

Quem conhecesse a Délia, gostava imediatamente dela. Quem a conheceu, provavelmente também se lembra como ela tinha os pés bem assentes no chão, fazia um magnífico bolo de chocolate e fazia colchas incrivelmente artísticas.

Na derradeira fase da sua vida, a Délia perdeu a capacidade para falar; assim, quando recebia visitas, ela comunicava com a intensidade do seu olhar. Agora, à medida que o seu corpo perdia o vigor e a sua alma se preparava para aquele segundo nascimento a que estamos todos destinados, apenas podemos adivinhar o que ia na mente daquela alma que nos observava com um olhar profundo.

Após um AVC, a Delia passou estes últimos anos num lar de idosos, onde pode receber os cuidados de que precisa. Nos sucessivos quartos ao longo daqueles longos corredores, ela está rodeada por pessoas em condições semelhantes, pessoas que estão nos últimos dias ou meses desta realidade física.

Quando a visitámos em casa há dois anos, a música de celebrações animadas e eventos sociais à tarde enchiam a grande sala de estar – mas hoje, os espaços de reunião silenciosos e as visitas cuidadosamente monitorizadas e protegidas com mascaras contam a história do COVID-19 e o seu impacto tremendo na população idosa. Ficamos impressionados com a dedicação e carinho permanentes dos funcionários. Cada um tinha acompanhava cuidadosamente os seus pacientes ao longo da pandemia com bondade, dignidade e graça, conscientes das profundas transições que tiveram o privilégio de testemunhar, mas sensíveis à necessidade de deixar a natureza seguir o seu curso sem infligir dor ou sofrimento prematuros aos residentes e às suas famílias.

Ao ver a Delia atrás de uma protecção de acrílico transparente - que estranhamente fazia lembrar o cenário de uma prisão - percebemos que nenhuma barreira se poderia interpor entre a sua essência e a nossa. Os nossos olhares cruzaram-se sem quaisquer palavras de conforto que ela pudesse ouvir. Entoámos orações Bahá'ís e vimo-la fechar os olhos em alguns momentos, profundamente compenetrada, enquanto pronunciamos as palavras:

Ajuda-me a ser altruísta na entrada celestial da Tua porta, e ajuda-me a ser desprendido de todas as coisas dentro dos Teus lugares santos.

Quando esta oração terminava, a luz iluminava a sua face onde desciam lágrimas.

Délia olhava para nós no final de cada oração com uma expressão pensativa. Seria antecipação? Perguntas? Surpresa? Saudades? Depois os seus olhos focavam-se, como se estivesse a olhar para um horizonte distante e vendo muito mais do que possamos imaginar.

Por fim, os nossos olhares cruzaram-se novamente até que surgiu uma funcionária sorridente que lhe disse umas palavras carinhosas e a levou para o seu quarto. Acenámos e ela despediu-se de nós apenas com os olhos.

Sentimos um misto de emoção ao deixar o lar de idosos. Não temos pressa em transitar para o próximo mundo – temos ainda uma longa lista de coisas que queremos fazer – mas um de nós disse que se lembrava de ter estado numa cama de hospital há alguns anos, com uma Délia saudável na cadeira das visitas, tentado ser um exemplo de serviço aos doentes. Perto da morte naquele momento e sentindo a sua estranha atracção, as palavras de uma oração ecoavam nos nossos corações e saltaram de um livro de orações aberto:

Ó meu Senhor, o meu coração anseia por Ti com um fervor como nenhum coração jamais conheceu.

Ao recordarmos aqueles longos internamentos hospitalares anos atrás, lembramos a relação estreita entre o cuidador e o paciente como um acto de serviço que prende um pouco mais a pessoa a este mundo, e reafirma os laços firmes do amor. O olhar de Délia é agora um sinal que nos recorda que até ao final, cada um de nós está aqui para dar sentido à vida dos outros. Alguns devem prolongar a pausa no limiar, aparentemente para convidar outros a abraçar aquele acto intencional de generosidade, mesmo quando aquele que está no centro capta a visão do amor divino no mundo além.

Quando um dia completarmos aquela viagem eterna e tivermos atravessado Rubicão - que todos temos de atravessar - esperamos ter a sorte de deixar pessoas que sentiram o nosso amor e, como resultado, expandiram a sua própria capacidade de amar. Também esperamos contemplar, lucidamente, tudo o que a nossa amiga está a ver agora, enquanto olha para lá de nós para os mistérios do além.

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Texto original: Visiting a Dying Friend: When We Pass Into the Next World (www.bahaiteachings.org)


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David e Teresa Langness são ambos escritores, activistas sociais e Bahá’ís de longa data.

sábado, 17 de julho de 2021

Vinte e Seis Orações reveladas por 'Abdu'l-Bahá

 

Tradução Provisória para Português-PT


Orações de 'Abdu'l-Bahá

Março de 2021




Ele é Deus.

Ó tu que circulas em adoração em torno do Ponto ao redor do qual circula a Assembleia nas alturas! Ergue as tuas mãos em gratidão no Limiar do Deus uno e verdadeiro, e diz: Ó Tu, a mais elevada aspiração de todo o amante fervoroso! Ó Tu, o Guia de toda a alma errante! Favoreceste este servo frágil com as Tuas bênçãos infinitas, e levaste este desafortunado e humilde ao Limiar da Tua unicidade. Levaste a estes lábios secos as águas vivas da Tua amorosa benevolência, e revivificaste esta alma cansada e atrofiada com as brisas da misericórdia divina. Agradeço-Te por me teres concedido a plena parte do Teu mais gracioso favor e me investires com a honra de alcançar o Teu sagrado Limiar. Imploro-Te uma parte infinita das dádivas do Teu Reino no alto. Concede a Tua assistência. Confere o teu favor gracioso.
[1]


Ó Tu amigo invisível! Ó Desejo de tudo neste mundo e no mundo que há de vir! Ó Tu Amado compassivo! Estas almas indefesas estão cativas pelo Teu amor, e estes fracos procuram abrigo no Teu Limiar. Todas as noites eles suspiram e lamentam-se no seu afastamento de Ti, e todas as manhãs eles lastimam e choram devido ao ataque do povo da malícia. Eles são atormentados em cada momento por uma nova angústia, e quando respiram são dolorosamente testados pela tirania de todo o opressor perverso. Louvores a Ti porque, apesar disso, eles estão ardendo como um templo de fogo e brilham resplandecentes como o sol e a lua. Eles estão confiantes, como estandartes erguidos, na Causa de Deus, e apressam-se para a arena, como valentes cavaleiros. Eles floresceram como flores encantadoras e estão plenos de júbilo como a rosa alegre. Portanto, ó Tu amoroso Provedor, ajuda graciosamente estas almas santas pela Tua graça celestial que é concedida pelo Teu Reino, e permite que estes seres santificados possam manifestar os sinais do Altíssimo. Tu és o Todo-Generoso, o Piedoso, o Todo-Misericordioso, o Compassivo.
[2]


Ó Tu, Senhor incomparável e afectuoso! Embora faltem a capacidade e valor, e seja infinitamente difícil suportar as tribulações, o valor e a capacidade são dons concedidos por Ti. Ó Senhor! Dá-nos capacidade e torna-nos meritórios, para que possamos demonstrar a maior firmeza, renunciar a este mundo e a todos os seus povos, acender o fogo do Teu amor e, tal como velas, brilhando intensamente com uma chama ardente e espalhando o nosso esplendor.

Ó Senhor do Reino! Liberta-nos deste mundo de ilusões vãs e conduz-nos ao reino do infinito. Deixa-nos ficar totalmente livres desta vida inferior e faz com que sejamos abençoados com as dádivas abundantes do Reino. Liberta-nos deste mundo de nada que tem aparência de realidade e confere-nos a vida eterna. Concede-nos júbilo e alegria, e favorece-nos com satisfação e contentamento. Conforta os nossos corações e concede paz e tranquilidade às nossas almas, para que, ao ascendermos ao Teu Reino, possamos alcançar a Tua presença e regozijar-nos nos domínios superiores. Tu és o Doador, o Concessor, o Omnipotente!
[3]


Ó meu eterno Amado e meu adorado Amigo! Por quanto tempo deverei permanecer privado da Tua presença e dolorosamente atormentado pelo afastamento de Ti? Conduz-me aos abrigos do Teu Reino celestial e, no local do aparecimento do Teu Domínio celestial, lança-me o olhar da Tua benevolência.

Ó Tu Senhor Omnipotente! Inclui-me entre os habitantes do Reino. Este mundo mortal é a minha morada; concede-me uma morada nos domínios Ilocalizável. Pertenço a este plano terreno; derrama sobre mim o esplendor da Tua gloriosa luz. Vivo neste mundo de poeira; torna-me um habitante do Teu domínio celestial, para que eu possa dar a minha vida no Teu caminho e alcançar o desejo do meu coração, possa coroar a minha cabeça com o diadema do favor divino e levantar o grito triunfal de “Ó Glória de Deus, o Mais glorioso!”
[4]


Ó Tu Senhor bondoso! Essas almas são os Teus amigos que estão reunidos e são levados pelo Teu amor. Eles são transportados pelos raios da Tua beleza e cativados por Teus cabelos plenos de almíscar. Eles entregaram-Te os seus corações e, humildes e desamparados, peregrinam no Teu caminho. Eles abandonaram amigos e estranhos e seguraram-se à Tua unidade, curvando-se em adoração diante de Ti.

Eles pertenciam a este mundo inferior; Tu recebeste-os no Teu Reino. Eles eram como plantas secas no deserto da privação e da perda; Tu fizeste-os arbustos do jardim do conhecimento e da compreensão. As suas vozes estavam silenciosas; Tu fizeste-os falar. Eles estavam desanimados; Tu lançaste esclarecimento sobre eles. Eles eram como solo seco e árido; Tu transformaste-os num jardim de rosas de significados interiores. Eles eram como crianças no mundo da humanidade; Tu capacitaste-os para atingir a maturidade celestial.

Ó Tu, o Bondoso! Concede-lhes um amparo e um refúgio dentro do abrigo da Tua proteção e protege-os de testes e provações. Concede-lhes a Tua assistência invisível e confere-lhes a Tua graça infalível.

Ó Tu, Senhor bondoso e amado! Eles são como o corpo e Tu és o Espírito da vida. O corpo depende, para a sua vivacidade e beleza, da graça do espírito. Eles estão necessitados, pois, das Tuas confirmações e anseiam pelo poder sustentador do Espírito Santo nesta nova Revelação. Tu és o Poderoso. Tu és o Doador, o Provedor, o Concessor e o Perdoador. Tu és Aquele que brilha intensamente do Reino invisível.
[5]


Ó Divina Providência! Dificuldades desconcertantes levantaram-se e obstáculos formidáveis surgiram. Ó Senhor! Remove estas dificuldades e mostra as evidências da Tua força e poder. Atenua estas dificuldades e facilita o nosso caminho ao longo desta viagem árdua. Ó Providência Divina! Os obstáculos são inflexíveis, e os nossos esforços e provações conjugam-se com uma miríade de adversidades. Não há outra ajuda salvo Tu, e nenhum socorro excepto Tu próprio. Colocamos todas as nossas esperanças em Ti e entregamos todos os nossos afazeres ao Teu cuidado. Tu és o Guia e o Que Remove de toda a dificuldade, e Tu és o Sábio, o Que Vê e o que Ouve.
[6]


Ó Deus de Misericórdia! Ó Tu, o Omnipotente! Sou apenas um servo frágil, débil e indefeso, mas tenho-me sustentado no abrigo da Tua graça e favor, alimentado no seio da Tua misericórdia, criado no regaço da Tua benevolência. Ó Senhor! Embora eu seja pobre e necessitado, todo o carenciado se torna próspero através da Tua dádiva, enquanto todo o abastado, se privado dos Teus favores, torna-se, na verdade, pobre e desolado.

Ó Providência Divina! Concede-me a força para suportar este pesado fardo, e permite-me proteger esta dádiva suprema, pois tão forte é a força dos testes e tão penosa é a investida das provações que toda a montanha se desfaz em pó, e o mais alto cume reduz-se a nada. Sabes bem que no meu coração nada procuro salvo a lembrança de Ti, e na minha alma nada desejo salvo o Teu amor. Ergue-me para servir os Teus amados, e permite-me residir eternamente em servidão no Teu limiar. Tu és o Que Ama. Tu és o Senhor das múltiplas dádivas.
[7]


Ó Providência Divina! Desperta-me e torna-me consciente. Faz-me ficar desprendido de tudo salvo de Ti, e cativa-me com o amor da Tua beleza. Lança sobre mim o sopro do Espírito Santo, e permite-me ouvir o chamamento do Reino de Abhá. Concede-me poder celestial, e acende a lâmpada do espírito no lugar mais íntimo do meu coração. Liberta-me de todos os compromissos e salva-me de todos os apegos para que eu não possa nutrir qualquer outro desejo salvo a Tua complacência, procurar nada salvo o Teu Semblante, e não percorrer outro caminho que não o Teu caminho. Permite que eu possa capacitar os negligentes a tornarem-se cientes e os adormecidos a despertar, que eu possa oferecer a água da vida aos que estão pesarosamente sedentos e levar a cura divina aos que padecem e estão doentes.

Apesar de eu ser simples humilde e pobre, Tu és o meu abrigo e o meu refúgio, o meu apoio e a minha ajuda. Faz descer a Tua ajuda de modo que todos fiquem surpreendidos. Ó Deus! Tu és, em verdade, o Omnipotente, o Mais poderoso, o Doador, o Concessor, e o Que Tudo Vê.
[8]


Ele é Deus.

Ó Deus, meus Deus! Voltei o meu rosto para Ti, e suplico pelas efusões do oceano da Tua cura. Ajuda-me graciosamente, ó Senhor, a servir o Teu povo e a curar os Teus servos. Se me auxiliares, o remédio que ofereço será o medicamento curador de toda a doença, uma corrente de águas vivificadoras para toda a sede ardente, e um bálsamo tranquilizador para todo o coração ávido. Se não me auxiliares, nada existirá salvo a própria aflição e eu mal conseguirei levar a cura a qualquer alma.

Ó Deus, meu Deus! Ajuda-me e auxilia-me através do Teu poder a curar os enfermos. Tu és, em verdade, o Curador, o Suficiente, Aquele que elimina toda a dor e enfermidade, Aquele que tem domínio sobre todas as coisas.
[9]


Ó Senhor! Concede-me uma porção da Tua graça e benevolência, do Teu cuidado e protecção, do Teu amparo e dádiva, para que o fim dos meus dias se possa distinguir do seu princípio, e o final da minha vida possa abrir os portais das Tuas bênçãos. Que a Tua benevolência e bênção desçam sobre mim em todo o momento, e o Teu perdão e misericórdia sejam outorgados cada vez que respiro, até que, sob a sombra protectora do Teu Estandarte erguido, eu possa finalmente dirigir-me ao Reino do Todo-Louvado. Tu és o Concessor e o Que sempre Ama, e Tu és, em verdade, o Senhor da graça e da dádiva.
[10]


Ó Tu Provedor, ó Tu Que Perdoas! Uma alma nobre ascendeu ao Reino da realidade e precipitou-se deste mundo mortal de pó para o reino da glória eterna. Exalta a condição deste convidado recém-chegado e veste este servo de longa data com um novo e maravilhoso manto.

Ó Tu, Senhor Incomparável! Concede o Teu perdão e cuidado afectuoso para que esta alma possa ser admitida nos retiros dos Teus mistérios e possa tornar-se um companheiro próximo na assembleia dos esplendores. Tu és o Doador, o Concessor, o Que sempre Ama. Tu és Aquele Que Perdoa, o Afectuoso, o Mais Poderoso.
[11]


Ele é Deus.

Ó Tu Senhor clemente! Estes servos foram almas nobres e estes corações radiantes foram iluminados e resplandeceram com a luz da Tua guia. Beberam um cálice transbordante de vinho do Teu amor, e escutaram os mistérios eternos das melodias do Teu conhecimento. Eles ligaram os seus corações a Ti, libertaram-se da cilada do afastamento, e seguraram-se à Tua unidade. Torna estas almas preciosas companheiros dos habitantes do Paraíso, e recebe-os no círculo dos Teus eleitos. Familiariza-os com os Teus mistérios nos abrigos no reino do alto, e imerge-os no mar de luzes. Tu és o Concessor, o Luminoso e o Generoso. 
[12]


Ó Providência Divina! Imerge o pai e a mãe deste servo do Teu Limiar no oceano do Teu perdão, e purifica-os e santifica-os de todo o pecado e transgressão. Concede-lhes a Tua piedade e misericórdia, e confere-lhes o teu perdão gracioso. Tu, em verdade, és Aquele Que Perdoa, o Sempre Clemente, o Concessor de graça abundante. Ó Tu, Senhor indulgente! Apesar de sermos pecadores, as nossas esperanças estão cravadas na Tua promessa e na Tua garantia. Apesar de estarmos envoltos nas trevas do erro, nós, em todos os momentos, voltámos as nossas faces para a alvorada dos Teus favores abundantes. Trata-nos como for conveniente ao Teu Limiar e confere-nos o que for digno da Tua Corte. Tu és o Sempre Clemente, Aquele Que Perdoa, Aquele que desculpa todas as falhas.
[13]


Ó Tu, Senhor bondoso! Santifica o meu coração de todo o apego, e alegra a minha alma com as boas novas de alegria. Liberta-me do apego ao amigo e ao estranho, e cativa-me com o Teu amor para que eu possa ficar totalmente devotado a Ti, e ficar pleno de êxtase fervoroso; que eu nada deseje salvo a Ti, nada procure salvo a Tu próprio, nenhum caminho trilhe salvo o Teu, e com ninguém comungue salvo Contigo; que eu possa, tal como um rouxinol, ficar encantado pelo Teu amor e, dia e noite, suspirar, lamentar, chorar e gritar “Yá Bahá’u’l-Abhá!” 
[14]


Ó Senhor! Que efusão de dádivas Tu concedeste e que fluxo de graça abundante Tu conferiste! Fizeste com que todos os corações se tonassem como um único coração, e que todas as almas se juntassem como uma única alma. Dotaste corpos inertes com vida e sentimento, e concedeste a corpos sem vida a consciência do espírito. Através dos raios brilhantes emanados do Sol do Todo-Misericordioso, revestiste estes átomos de pó com existência visível, e através vagas do oceano da Tua unicidade, capacitaste estas gotas evanescentes a crescer e bramir.

Ó Omnipotente Que dotaste um pé de palha com o poder de uma montanha e permitiste que um grão de pó reflectisse a glória do sol resplandecente! Concede-nos a tua graça e favor, para que possamos levantar-nos para servir a Tua Causa e não fiquemos intimidados perante os povos da terra.
[15]


Ó Tu, Senhor Omnipotente! Somos mantidos nas mãos fortes do Teu poder. Tu és o nosso Amparo e a nossa Ajuda. Concede-nos a Tua terna misericórdia, confere-nos a Tua dádiva, abre os portais da graça, e lança sobre nós o reflexo dos Teus favores. Permite que a brisa vivificadora deslize sobre nós e desperta os nossos corações ávidos. Ilumina os nossos olhos e torna o santuário dos nossos corações a inveja de todo o aposento florescente. Regozija toda a alma e alegra todo o espírito. Revela o Teu antigo poder e manifesta a Tua grande força. Faz com que as aves das almas humanas voem para novos cumes, e permite que os Teus confidentes neste mundo inferior vislumbrem os mistérios do Teu reino. Torna firmes os nossos passos e confere-nos corações inabaláveis. Somos pecadores e Tu és o Que sempre Perdoa. Somos Teus servos e Tu és o Senhor Soberano. Somos caminhantes sem lar e Tu és o nosso abrigo e refúgio. Ajuda-nos graciosamente e auxilia-nos a difundir os Teus doces sabores e a enaltecer a Tua Palavra. Eleva a condição dos destituídos e concede o Teu tesouro inesgotável aos miseráveis. Outorga a Tua força ao fraco e confere poder celestial ao débil. Tu és o Provedor, Tu és o Gracioso, Tu és o Senhor Que governa sobre todas as coisas.
[16]


Ele é o Mais Sagrado, o Mais Glorioso.

Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso! Louvores a Deus, o Senhor de todos os mundos!

Ó Senhor, meu Deus, meu Abrigo e meu Refúgio! Como posso mencionar-Te dignamente, mesmo com as mais maravilhosas palavras de glorificação, ou as mais eloquentes odes de louvor, ó Tu Omnipotente e Clemente, consciente que estou de que a língua de todo o orador eloquente hesita, e toda a expressão de louvor, seja da pena ou da língua humana, se confunde na sua tentativa de glorificar um único dos sinais da Tua omnipotência, ou enaltecer uma única Palavra que tenha sido criada por Ti. Na verdade, as asas dos pássaros das mentes humanas quebram-se no seu desejo de subir à atmosfera da Tua divina santidade, e as aranhas das fantasias fúteis são impotentes para tecer as suas teias frágeis nos mais sublimes cumes do pálio do Teu conhecimento. Nenhum recurso existe para mim, pois, salvo reconhecer a minha incapacidade e falhas, e nenhuma morada há para mim salvo nas profundezas da pobreza e da privação. Em verdade, a incapacidade para Te compreender é a essência da compreensão, a confissão das falhas é o único meio para alcançar a Tua presença, e a admissão da pobreza é a fonte da verdadeira riqueza.

Ó Senhor! Ajuda-me graciosamente, e aos Teus servos sinceros, no nosso serviço ao Teu exaltado Limiar, fortalece-nos nas nossas súplicas à Tua santidade divina, e capacita-nos a sermos humildes e submissos perante a porta da Tua unicidade. Torna firmes os meus passos no Teu caminho, ó meu Senhor, e ilumina o meu coração com os raios esplendorosos vindos do céu dos Teus mistérios. Refresca o meu espírito com a brisa vibrante que soprou do paraíso do Teu perdão e indulgência, e alegra a minha alma através do sopro revivificador que se estende nos campos da Tua santidade. Ilumina a minha face no horizonte da Tua unidade, e permite que eu possa ser contado como um dos Teus servos sinceros e incluído entre os Teus servos que permanecem firmes e inabaláveis.
[17]


Ó Senhor, nosso Deus! Estamos indefesos; Tu és o Senhor da força e poder. Somos miseráveis; Tu és o Omnipotente, o Todo-Glorioso. Somos pobres; Tu és o Possuidor de Tudo, o Mais Generoso. Ajuda-nos graciosamente na nossa sujeição ao Teu sagrado Limiar, e auxilia-nos, através da Tua Graça fortalecedora, a adorar-Te nos locais de alvorada do Teu louvor. Permite-nos difundir as Tuas fragrâncias sagradas entre as Tuas criaturas, e fortalece os nossos lombos para Te servir entre os Teus servos, para que possamos guiar todas as nações ao Mais Grandioso Nome e levar os povos às praias do oceano glorioso da Tua unicidade.

Ó Senhor! Liberta-nos dos apegos ao mundo e aos seus povos, das transgressões do passado, e das aflições que ainda estão para vir, para que possamos erguer-nos para exaltar o Teu Mundo com a maior alegria e radiância, e celebrar o Teu louvor durante o dia e durante a noite, para que possamos chamar todas a pessoas ao caminho da guia e ordenar-lhes que observem a rectidão, e que possamos entoar os versículos da Tua unidade entre toda a Tua criação. Poderoso és Tu para fazer o que Te apraz. Tu és, em verdade, o Omnipotente, o Mais poderoso.
[18]


Ele é Deus.

Ó Tu, generoso e amado Senhor! Estes amigos estão embriagados com o vinho da Aliança e são caminhantes no deserto do Teu amor. Os Seus corações estão consumidos pelas chamas do afastamento de Ti, e desejam ansiosamente a revelação dos Teus esplendores. Do Teu Reino oculto, o Domínio do invisível, revela-lhes a glória fulgurante da Tua graça, e derrama sobre eles o esplendor da Tua dádiva. A cada momento, envia uma nova bênção e revela um favor diferente.

Ó Providência Divina! Somos fracos e Tu és o Mais Poderoso. Somos pequenas formigas e Tu és o Rei do Domínio da Glória. Concede-nos a Tua graça e confere-nos a Tua bênção, para que possamos acender uma chama e espalhar longe o seu esplendor, para que possamos mostrar força e mostrar algum serviço. Permite que possamos levar iluminação a esta terra sombria e espiritualidade a este mundo efémero de pó. Não deixes que repousemos por um momento só, nem que nos conspurquemos com as coisas transitórias desta vida. Permite-nos preparar o banquete da guia, registar os versículos do amor com o nosso sangue, esquecer o medo e o perigo, a tornarmo-nos árvores frutíferas, a fazer surgir perfeições humanas neste mundo efémero. Tu, em verdade, és o Todo-Generoso, o Mais Compassivo, o Sempre Clemente, Aquele que Perdoa.
[19]


Ele é o Todo-Glorioso.

Ó meu Senhor, meu Rei, meu Governante e meu soberano! Apelo-Te com a minha língua, meu coração e minha alma, dizendo: cobre este servo com a túnica do Teu cuidado, o traje da Tua ajuda infalível, a armadura da Tua protecção. Auxilia-o a fazer menção de Ti e a enaltecer as Tuas virtudes entre o Teu povo, e a soltar a sua língua para proferir a Tua glorificação e louvor em toda a assembleia realizada para celebrar a Tua unidade e santidade. Tu és, em verdade, o Forte, o Poderoso, o Todo-Glorioso, o Que Subsiste por Si Próprio.
[20]


Ó meu Senhor bondoso, ó Tu, desejo do meu coração e da minha alma! Concede aos Teus amigos a Tua benevolência, e dá-lhes a Tua misericórdia infalível. Sê um consolo para os Teus amantes fervorosos, e um amigo, um consolador e um companheiro amoroso para aqueles que anseiam por Ti. Os seus corações estão em chamas com o fogo do Teu amor, e as suas almas são consumidas pela chama da devoção por Ti. Todos eles desejam precipitar-se para o altar do amor a fim de poderem, de bom grado, entregar as suas vidas.

Ó Providência Divina! Concede-lhes o Teu favor, guia-os bem, ajuda-os graciosamente a alcançar a vitória espiritual, e confere-lhes dádivas celestiais. Ó Senhor, ajuda-os com a Tua magnanimidade e graça, e torna as suas faces lâmpadas radiantes nas assembleias consagradas ao Teu conhecimento, e sinais da dádiva celestial nas reuniões onde os Teus versículos são expostos. Tu és, em verdade, o Misericordioso, o Todo-Generoso, Aquele Cuja ajuda é implorada por todos os homens.
[21]


Ele é o Todo-Glorioso, o Mais Esplendoroso.

Ó Providência Divina, ó Senhor clemente! Como poderei alguma vez entoar adequadamente o Teu louvor, ou adorar-Te e glorificar-Te suficientemente? Qualquer língua que Te descreva é apenas erro, e qualquer pena que te retrate é apenas uma evidência da loucura por tentar essa tarefa enorme. A língua é apenas um instrumento composto de elementos; a voz e a linguagem são apenas atributos acidentais. Como, então, posso eu celebrar, com o instrumento da voz mortal, o louvor d’Aquele eu não tem parceiro ou semelhante? Tudo o que posso dizer ou procurar está limitado pelo alcance da mente humana e circunscrito pelos limites do mundo humano. Como pode o pensamento humano alguma vez escalar os cumes sublimes da santidade divina, e como pode a aranha da fantasia fútil tecer a teia frágil das imaginações frívolas nos retiros da santidade? Nada posso fazer, salvo testemunhar a minha impotência e confessar o meu fracasso. Tu és, em verdade, Aquele Que é o Possuidor de tudo, o Inacessível, Aquele que está incomensuravelmente exaltado acima da compreensão daqueles que estão dotados de entendimento.
[22]


Ó Providência Divina, Tu és o Sempre Clemente! Ó Tu, Deus Omnipotente, Tu és o Compassivo! Permite que este Teu servo amado permaneça à sombra da Tua glória, e concede que este pobre e desgraçado possa prosperar e florescer no lugar da Tua misericórdia. Dá-lhe de beber do cálice da Tua proximidade, e permite-lhe permanecer à sombra da Tua Árvore Abençoada. Confere-lhe a honra de alcançar a Tua presença, e dá-lhe a bem-aventurança eterna. Ajuda misericordiosamente os familiares vivos desta alma nobre a seguir os passos do seu querido pai, a mostrar o seu carácter e conduta entre todos os povos, a seguir o Teu caminho, a procurar a Tua complacência, e a proferir o Teu Louvor. Tu és o Deus que sempre ama, o Senhor da Dádiva.
[23]


Ó Tu, Deus incomparável! Somos os Teus humildes servos e Tu és o Todo-Glorioso. Somos pecadores e Tu és o Sempre-Clemente. Somos cativos, pobres e humildes, e Tu és o nosso abrigo e o nosso auxílio. Somos como formigas minúsculas e Tu és o Senhor de majestade, entronizado no mais alto céu. Protege-nos, como sinal da Tua graça, e não nos negues o Teu cuidado e ajuda. Ó Senhor! Os Teus testes são, de facto, severos, e as Tua provações podem arruinar fundações de aço. Preserva-nos e fortalece-nos; anima e regozija os nossos corações. Ajuda-nos misericordiosamente a servir, tal com ‘Abdu’l-Bahá, o Teu Limiar sagrado.
[24]


Ele é Deus!

Ó Deus, meu Deus! Com absoluta humildade e fervor, submissão e devoção, imploro-Te com a minha língua e com o meu coração, com o meu espírito e a minha alma, com a minha mente e a minha consciência, que concedas o mais acalentado de todos os desejos, destines o mais meritório de todos os actos, e ordenes toda a honra e perfeição, favor e beleza, prosperidade e salvação para esta família que se precipitou para a Tua sombra protectora ao nascer da Tua aurora resplandecente, e procurou refúgio no Teu abrigo firme e na tua fortaleza poderosa. Em verdade, esta almas prestaram atenção ao Teu chamamento, aproximaram-se do Teu Limiar, ficaram em chamas com o fogo do Teu amor, e foram levadas pelos sopros da Tua santidade. Eles foram constantes no serviço à Tua Causa, humildes perante o Teu Semblante, nobres sob a Tua sombra protectora. Eles são conhecidos como portadores do Teu nome entre o Teu povo, e fazem menção de Ti entre os Teus servos.

Ó Deus, meu Deus! Exalta-os com a Tua glória antiga, honra-os no Teu Reino de grandeza, e ajuda-os com as hostes dos Teus favores neste dia grandioso. Ó Senhor, meu Deus! Eleva bem alto o seu estandarte, concede-lhes uma parte mais ampla da Tua protecção, leva longe os seus sinais, e aumenta o seu esplendor, para que se possam tornar a lâmpada dos Teus múltiplos favores e divulgadores das Tuas dádivas e amorosa generosidade.

Ó Senhor, meu Deus! Sê Tu o seu companheiro na sua solidão, e nos seus momentos de angústia cerca-os com o Teu auxílio. Lega-lhes o Teu Livro e outorga-lhes uma medida plena das Tuas dádivas e concessões. Tu és, em verdade, o Forte, o Poderoso, o Gracioso, o Generoso, e, em verdade, és o Misericordioso, o Compassivo.
[25]


Ó Senhor, tão rico em bondade, tão repleto de graça,
A Cujo conhecimento o íntimo do meu coração e alma se convertem!

Pela manhã, o consolo da minha alma não é outro senão Tu;
O conhecedor do meu fervoroso intento não é outro senão Tu.

O coração que por um momento conheceu a Tua menção
Não buscará outro bálsamo, salvo a dor de saudade de Ti.

Que murche o coração que não suspira por Ti,
E que ceguem os olhos que não choram por Ti!

Em todas as minhas horas mais profundamente sombrias, ó Senhor do poder,
O meu coração tem a Tua lembrança como uma luz brilhante.

Sopra, com o Teu favor, o Teu espírito em mim,
Para que o que nunca foi, possa assim ser para sempre.

Não consideres o nosso mérito e o nosso valor,
Ó Senhor da dádiva, mas a graça que Tu verteste.

A estes pássaros de asas partidas cujo vôo é lento
Confere-lhes, da Tua terna misericórdia, novas asas.
[26]


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Texto em inglês: Twenty-six Prayers Revealed by ‘Abdu’l-Bahá

sábado, 10 de julho de 2021

E se todos tivéssemos um Pai Carinhoso e Amoroso

Por Anne Gordon Perry.



Pais dedicados e amorosos podem ser uma força estabilizadora, capaz de encorajar, proteger, educar, apoiar, acarinhar e dar atenção, e simultaneamente serem exemplos e mentores. E se todos tivéssemos um pai exemplar com essas características?

Os ensinamentos Bahá’ís apresentam um exemplo – ‘Abdu’l-Bahá, o filho e sucessor de Bahá’u’lláh. Apesar de não ser um Profeta, ‘Abdu’l-Bahá tem uma posição única para os Bahá’ís, conforme explicado pela Casa Universal de Justiça na introdução ao “Livro Mais Sagrado” de Bahá’u’lláh:

Esta figura única é simultaneamente Exemplo de um padrão de vida ensinado pelo Seu Pai, intérprete autorizado e divinamente inspirado dos Seus Ensinamentos, e Centro da Aliança que o Fundador da Fé Bahá’ís fez com todos os que O reconheceram.

A Fé Bahá’í pede aos seus seguidores que se tornem cidadãos do mundo, reconheçam e ajam conscientes da unicidade da humanidade, e ofereçam amor e compaixão a todas as pessoas. ‘Abdu’l-Bahá notabilizou-se neste Seu papel como exemplo destes sublimes ensinamentos, conforme indicam claramente diversas narrativas de pessoas que O conheceram.

Wellesca Allen-Dyar ("Aseyeh"), que se tornou Bahá’í em 1901 e fez a sua peregrinação a Akka seis anos mais tarde, descreveu que ‘Abdu'l-Bahá:

... era capaz de ser para nós um pai afectuoso, um companheiro e um amigo, e podíamos conviver e socializar porque não estávamos continuamente a pedir-Lhe que respondesse a perguntas; quando isso acontecia, Ele assumia imediatamente outra atitude e… podíamos sentir a Sua dignidade, a Sua grandeza, a profundidade ilimitada da Sua sabedoria. Ele, de facto, é uma “fonte de água viva que leva à vida eterna”, e o conhecimento e sabedoria saiam dos Seus lábios tal como a água sai de uma fonte, dando vida a todo o coração sedento...”

Myron Phelps, um advogado e escritor de Nova Iorque, viajou para Akka em 1902 e descreveu como ‘Abdu’l-Bahá, conhecido por muitos como “o Mestre”, Se relacionava com outras pessoas:

“Todas as pessoas o conhecem e amam – os ricos e os pobres, os novos e os velhos – até os bebés pulam nos braços das mães. Se ele sabe que alguém está doente na cidade – Muçulmano ou Cristão, ou de qualquer outra seita, isso não importa – ele fica cada dia junto à sua cama, ou envia um mensageiro de confiança. Se é necessário um médico e o paciente é pobre, ele chama ou envia um, e também a medicação necessária. Se ele sabe que um tecto furado ou uma janela partida são uma ameaça à saúde, ele chama um trabalhador e fica à espera de que o problema seja concertado. Se alguém está em apuros – se um filho ou irmão vai para a prisão, ou se alguém é ameaçado pela lei, ou se fica em dificuldades demasiado pesadas – é ao Mestre que vai imediatamente pedir conselho ou ajuda. Na verdade, para conselhos todos vêm, ricos e pobres. Ele é uma espécie de pai de todas as pessoas…”

Juliet Thompson, uma pintora americana, tornou-se Bahá’í durante uma estadia em Paris, em 1901. Encontrou-se com ‘Abdu’l-Bahá em 1909 na Terra Santa e mais tarde na Europa e nos Estados Unidos. Escreveu o seguinte:

Ele dá – dá – dá! O Seu amor nunca parece satisfeito com o que dá. Infatigavelmente, ele dá o seu espírito e coração – tal como um pai dá coisas materiais – pequenas recordações ou flores, símbolos mais carinhosos.”

Também descreveu como Lee McClung, então Tesoureiro dos Estados Unidos, após o seu encontro com o Mestre procurando palavras para descrevê-lo, e tendo dito: “Senti como se estivesse na presença de um grande Profeta – Isaías, Elias…não, não é isso. A presença de Cristo – não. Senti como se estivesse na presença do meu Pai Divino.

Jean LeFranc, um jornalista francês do jornal Le Temps, encontrou-se com ‘Abdu’l-Bahá em Paris e escreveu:

“O rosto venerável de ‘Abdu’l-Bahá, cujos olhos brilham, irradia inteligência e bondade. Ele é paternal, afectuoso e simples; ele inspira confiança e respeito. O seu poder divino vem, sem dúvida, de saber como amar as pessoas e ser amado por elas.”

Lady Blomfield, uma das primeiras Bahá’ís britânicas, recebeu ‘Abdu’l-Bahá como hóspede durante as Suas visitas a Londres. Neste relato, ela descreve um evento ocorrido em Paris:

“Num bairro muito pobre de Paris, num domingo de manhã, grupos de homens e mulheres começavam a provocar desacatos. Destacava-se entre eles um homem grande que tinha na mão um grande pedaço de pão, e gritava, gesticulava e dançava. Saindo do Salão da Missão onde tinha falado para uma congregação muito pobre a convite do seu Pastor, ‘Abdu’l-Bahá entrou no meio dessa multidão. O homem desordeiro que segurava o pão, ao vê-lo parou de repente. Depois prosseguiu… gritando: “Deixem passar, deixem passar! Ele é o meu Pai, deixem passar”. O Mestre passou pelo meio da multidão, que ficara silenciosa e o cumprimentava respeitosamente. “Muito obrigado, meus queridos amigos, muito obrigado”, disse sorrindo para eles. Os pobres eram sempre os seus amigos especialmente queridos. Nunca ficava mais feliz do que quando estava rodeado por eles, os que tinham coração humilde!”

Frederick Dean, Budista e jornalista que se encontrou com ‘Abdu’l-Bahá em várias ocasiões em Nova Iorque, era o repórter do “The Independent” e da “The Weekly Review” com a função de acompanhar o evento na igreja onde ‘Abdu’l-Bahá ia falar:

“Conheci o professor pela primeira vez numa igreja da zona residencial. Tinha sido enviado pelo meu jornal para fazer uma reportagem sobre o sermão. O orador era tão surpreendentemente parecido com o meu pai que, imediatamente após a cerimónia, entrei na antecâmara e falei-lhe dessa notável semelhança. Tranquilamente, ele respondeu: “Eu sou o teu pai e tu és o meu filho. Vem jantar comigo.” Outro compromisso impediu [o jantar], mas perguntei se podia tomar pequeno almoço com ele na manhã seguinte. “Vem”, disse ele. E fui; e após aquele primeiro encontro seguiram-se outros. Caminhámos e falámos no seu jardim. Falei-lhe da sua característica particular que me atraía devido à minha própria perspectiva de vida: que eu vinha de uma família do sudeste asiático e que eu era Budista – um Budista-Cristão. “Também eu”, respondeu o professor. “Eu também sou Confucionista-Cristão e Brâmane-Cristão; Judeu e Muçulmano-Cristão. Sou irmão de todos os que amam a verdade – a verdade em qualquer traje que desejem vestir”… 

No último dia em que o vi, ele deu-me uma rosa – tinha sempre rosas recém-colhidas na sua mesa… Quando me deixou à porta, disse-me: “… Pensa em mim como o teu pai carinhoso e não como algo divino que deve ser adorado…” Quem se encontrou com ele levou consigo algo indescritível que torna os prazeres da vida mais brilhantes.

John E. Esslemont, um médico escocês, encontrou-se com o Mestre em Haifa, em Novembro de 1919 e foi seu convidado durante dois meses e meio. Ele descreveu como, apesar de ter quase setenta e seis anos de idade, ‘Abdu’l-Bahá ainda era “notavelmente vigoroso”:

Os Seus serviços estavam sempre à disposição daqueles que mais necessitavam. A Sua paciência infalível, delicadeza, bondade e tacto tornavam a Sua presença uma bênção. Era Seu hábito passar grande parte da noite em oração e meditação. Desde manhã cedo até à noite, com excepção de uma breve sesta após o almoço, Ele estava energicamente ocupado a ler e a responder a cartas… e tratando dos múltiplos afazeres da casa…

À tarde, Ele tinha usualmente um momento de descontração na forma de caminhada ou passeio, mas mesmo aí Ele costumava ir acompanhado por uma, duas pessoas, ou por um grupo… com quem conversava… ou se tivesse oportunidade… visitava e ajudava alguns pobres. Após o Seu regresso, Ele convidava os amigos para a usual reunião da noite… Ele ficava encantado por reunir pessoas de várias raças, cores, nações e religiões em unidade e amizade cordial ao redor da mesa hospitaleira. Ele era, de facto, um pai amoroso, não só para a comunidade em Haifa, mas para a comunidade Bahá’í em todo o mundo.”

(…)

Thorton Chase, considerado o primeiro Bahá’í americano, encontrou-se com ‘Abdu’l-Bahá durante a sua peregrinação a Akká em 1907. Quando ‘Abdu’l-Bahá foi à Califórnia em 1912, Chase morreu antes da Sua chegada. Mas ‘Abdu’l-Bahá fez uma visita especial ao seu túmulo. Chase tinha escrito as seguintes palavras sobre o Mestre: 

Encontrei em ‘Abdu’l-Bahá um homem forte e poderoso… tão livre e imperturbado quanto um pai com a sua família ou um rapaz com os seus amigos. No entanto, cada movimento – os seus passos, as suas saudações, o sentar-se e levantar-se – eram a eloquência do poder, pleno de dignidade, liberdade e capacidade… ‘Abdu’l-Bahá é um homem distinto, de pensamento amplo e universal, estando acima do mundo e olhando-o na sua fraqueza e pobreza com um amor ilimitado e um desejo intenso de o levantar da sua miséria, consciencializá-lo das ricas dádivas de Deus, que tão abundantemente são oferecidas neste tempo maravilhoso, afastar as diferenças, juntar todos os homens, todos os povos, todas as religiões numa verdadeira humanidade e religião… Eles ergue-se, com braços abertos, o Mestre da Festa, chamando com uma voz clara e forte toda a humanidade: “Venham! Venham! Venham! Agora é o tempo! Agora é o Tempo aceite! Venham e bebam desta Água doce que jorra torrencialmente em todas as partes do mundo!” E, a cada peregrino esfomeado que chega… ele abraça-o junto ao seu peito com tanta sinceridade e entusiasmo de amor que preocupações mesquinhas, pensamentos e ambições mundanas desaparecem, e a pessoa fica em paz e alegria porque chegou ao lar e ali encontrou amor… Deseja-se que o abraço não termine, pois é jubilante e confortador. Na verdade, penso que nunca termina. Abre a porta do amor que nunca será fechada. O lar do amor está ali.

Sheikh Younis el-Khatib era um conhecido poeta e orador Muçulmano, e discursou no funeral de ‘Abdu’l-Bahá e na reunião de homenagem realizada 40 anos após o seu falecimento:

Ai de mim! Nesta tribulação, não há coração, apenas dores de angústia; todos os olhos estão cheios de lágrimas. Ai dos pobres, pois a bondade afastou-se deles, ai dos órfãos, pois o seu pai amoroso já não está com eles! (…) Basta dizer que ele deixou em cada coração a mais profunda impressão, em cada língua os mais maravilhosos elogios. E aquele que deixa uma recordação tão adorável, tão imperecível, de facto, não está morto.

Misteriosamente, a presença de ‘Abdu’l-Bahá no mundo ainda parece bastante tangível - ele é alguém com quem todos nos podemos relacionar, e Ele prometeu que sempre estaria connosco. Na verdade, Ele disse algo muito surpreendente: "Se os crentes ... estabelecerem, de forma adequada, união e harmonia em espírito, língua, coração e corpo, de repente eles encontrarão Abdu'l-Bahá entre eles."

Neste sentido, todos podemos afirmar que ‘Abdu’l-Bahá é uma espécie de figura paterna universal – sempre presente, sempre desejando elevar-nos, sempre a chamar-nos para um plano espiritual mais elevado.

NOTA: alguns dos relatos aqui partilhados foram extraídos da nova compilação de Robert Weinberg, Ambassador to Humanity: A Selection of Testimonials and Tributes to Abdu’l-Baha.

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Texto original: What If We All Had a Kind, Loving Father? (www.bahaiteachings.org)


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Anne Gordon Perry é doutorada em Estudos Estéticos e lecciona Humanidades, no Art Institute of Dallas. Com seu marido, Tim Perry, ela criou um documentário intitulado Luminous Journey: Abdu'l-Baha in America, 1912. O filme segue as viagens de ‘Abdu'l-Baha, nos Estados Unidos e Canadá durante oito meses, mostrando como ele deu às pessoas um vislumbre de um mundo de paz, unidade racial e igualdade de gênero.

sábado, 26 de junho de 2021

‘Abdu’l-Bahá: Uma Figura Paterna para a Humanidade

Por Anne Gordon Perry.


O ano de 2021 é um ano especial para os Bahá'ís, pois celebramos e homenageamos a vida de ‘Abdu'l-Bahá ao evocar o centésimo aniversário do Seu falecimento.

Filho de Bahá’u’lláh – o profeta fundador da Fé Bahá’í – ‘Abdu’l-Bahá ocupa um lugar único na história da religião, situado entre o humano e o profeta de Deus. Nas palavras de Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í e neto de ‘Abdu’l-Bahá:

…na pessoa de ‘Abdu’l-Bahá, as características incompatíveis da natureza humana e perfeição e conhecimento sobre-humano estavam unidas e completamente harmonizadas.

‘Abdu’l-Bahá nasceu em Teerão (Irão), em 23 de Maio de 1844, naquele preciso momento em que se iniciava uma nova era de evolução social e espiritual do mundo. No mesmo dia em que o Báb – o precursor e arauto de Bahá’u’lláh – anunciou a Sua própria revelação, ‘Abdu’l-Bahá nasceu neste mundo. Ao longo da Sua vida, Ele personificaria os mais elevados ensinamentos e aspirações da revelação Bahá’í, tornando-se não só o líder da Fé, mas também o Seu verdadeiro exemplo. O Seu nome próprio era Abbas; mas mais tarde tornar-se-ia conhecido como ‘Abdu’l-Bahá, um título que significa “servo da glória”.

A relação que Ele tinha com o Seu Pai, Bahá’u’lláh, não era a típica relação pai-filho. Com seis anos, Ele foi a primeira pessoa a reconhecer a condição do Seu Pai, e assim pode ser considerado o primeiro Bahá’í. Munirih Khanum, a esposa de 'Abdu'l-Bahá, descreveu como isto aconteceu, quando Ele:

…percebeu que o Seu próprio amado Pai era Aquele que deveria educar a humanidade com conceitos universais, abolindo preconceitos, contruindo a unidade e a mais Grandiosa Paz num mundo perturbado, estabelecendo o Reino de Deus nesta terra triste, transformando novamente a religião numa fonte curadora de todos os males do mundo, Ele percebeu porque é que o Manifestante suscitara novamente o ódio dos homens perversos e a perseguição maligna.

Depois, prossegue ela, ‘Abdu’l-Bahá “… consagrou-Se, de corpo e alma, ao trabalho sagrado da causa Bahá’í, divulgando no exterior a nova mensagem de Amor e Justiça.

Exilado e aprisionado com a família, sofrendo aflições durante muitos anos devido ao exílio de Bahá’u’lláh, e educado apenas dentro dos limites que as circunstâncias permitiam, Ele foi finalmente libertado após 56 anos na prisão e foi-Lhe permitido receber visitas em Akká, uma cidade prisão na Terra Santa, para onde tinha sido desterrado.

Após o falecimento de Bahá’u’lláh em 1892, ‘Abdu’l-Bahá herdou a função de liderança para os Bahá’ís do mundo, demonstrando capacidade e percepção notáveis. A Casa Universal de Justiça – a instituição eleita que governa os Bahá’ís do mundo – escreve:

Com o ocaso do Sol de Bahá, a Lua da Sua Aliança ergueu-se reflectindo a sua glória, e afastando as trevas de uma noite de desespero e iluminando o caminho da unidade para toda a humanidade. Na plenitude do seu esplendor estava a figura magnética de ‘Abdu’l-Bahá, o Filho amado que Bahá’u’lláh designou como Intérprete da Sua Palavra e Executor da Sua autoridade, e Que Ele nomeou como Centro da Sua Aliança, um papel sem paralelo na história da religião.

Além de ser conhecido como “O Mestre” e “O Mistério de Deus”, 'Abdu'l-Bahá também é referido como o “Mais Grandioso Ramo” por Bahá'u'lláh. Um dos primeiros Bahá’ís, Ḥaji Mirza Ḥaydar-Ali, registou as descrição e previsões que o próprio Bahá’u’lláh fez sobre ‘Abdu’l-Bahá:

No futuro ver-se-á como Ele, sozinho e sem ajuda, irá erguer o estandarte do Mais Grandioso Nome no centro do coração do mundo, com poder, autoridade e esplendor Divino. Ver-se-á como Ele reunirá os povos da terra sob a tenda da paz e concórdia. Em determinados momentos, são enviadas almas à terra pelo Deus Poderoso com aquilo que designamos o Poder do Grande Éter. E aqueles que possuem este poder podem fazer qualquer coisa; eles têm todo o poder… Jesus Cristo tinha esse poder. Por esse motivo, Ele não pode permanecer oculto. Este Poder etéreo ergueu-se e despertou o mundo. E agora olha para o Mestre, pois o Poder é Ele.

De muitas formas, ‘Abdu’l-Bahá exemplificou o que significa ser Bahá’í. Ao ler histórias sobre a Sua vida e o Seu impacto noutras pessoas, percebemos que Ele se tornou uma figura paterna para muitas pessoas no Seu tempo – e podemos vê-Lo como como figura paterna hoje em dia.

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Texto original: Abdu’l-Baha: A Father Figure for Humankind (www.bahaiteachings.org)


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Anne Gordon Perry é doutorada em Estudos Estéticos e lecciona Humanidades, no Art Institute of Dallas. Com seu marido, Tim Perry, ela criou um documentário intitulado Luminous Journey: Abdu'l-Baha in America, 1912. O filme segue as viagens de Abdu'l-Baha, nos Estados Unidos e Canadá durante oito meses, mostrando como ele deu às pessoas um vislumbre de um mundo de paz, unidade racial e igualdade de gênero.

sábado, 19 de junho de 2021

Cercar os pobres com ternura

Por David Langness.


Ó FILHO DO ESPÍRITO!
Não te vanglories acima do pobre, pois Eu guio-o no seu caminho, enquanto te vejo na tua condição perversa e te confundo para sempre. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #25)

Os ensinamentos Bahá’ís têm enorme simpatia, cuidado e preocupação com os pobres. Tal como o Budismo, o Cristianismo e todas as outras grandes religiões, a Fé Bahá’í acredita que os pobres merecem, precisam e beneficiam com o nosso amor e serviço.

O nosso mundo contemporâneo, especialmente algumas sociedades capitalistas, tem muitas formas para tratar os pobres com um desprezo, como se eles merecessem a sua situação. Bahá’u’lláh ensina exactamente o oposto:

Se encontrardes os humilhados ou os oprimidos, não vos afasteis desdenhosamente deles, pois o Rei da Glória sempre olha por eles e cerca-os com uma tal ternura que ninguém pode sondar, salvo aqueles que permitiram que as suas vontades e os seus desejos se fundissem na Vontade do vosso Senhor, o Misericordioso, o Sapientíssimo. Ó vós, os ricos na terra! Não fujais da face do pobre que jaz no pó; pelo contrário, criai amizade com ele e deixai-o contar a história das desgraças com que o insondável Decreto de Deus o afligiu. Pela retidão de Deus! Enquanto conviveres com ele, a Assembleia no alto estará a olhar por vós, a interceder por vós, a enaltecer os vossos nomes e a glorificar a vossa acção. (Gleanings from the Writings of Baha'u'llah, CXLV)

E também:

Sabei que os pobres são a responsabilidade de Deus entre vós. Acautelai-vos para não trair a Sua confiança, para não agir de forma injusta com eles, e que não sigais nos caminhos dos traiçoeiros. (The Proclamation of Baha'u'llah, p. 9)

Na verdade, na vida de Bahá'u'lláh vemos exemplos desse ensinamento. Nascido numa família nobre cujas raízes se estendiam às grandes dinastias do passado imperial da Pérsia, Bahá’u’lláh recusou uma função governamental – contrariando as expectativas dos Seus familiares. Em vez disso, quando jovem, Bahá’u’lláh decidiu dedicar as Suas energias a uma série de causas humanitárias, que no início da década de 1840 Lhe valeram ser conhecido na Pérsia como o "Pai dos Pobres". Vários parentes temiam que Bahá’u’lláh gastasse completamente os recursos da Sua família, com o Seu empenho no apoio e protecção aos pobres do Seu país.

Mas tudo isto mudaria em 1844, quando Bahá’u’lláh se tornou um dos principais apoiantes da recém-nascida Fé Bábi. Esse novo movimento revolucionário mudou o rumo da história da Pérsia. Alterou a vida de milhões de pessoas, desafiou abertamente a corrupta hierarquia islâmica - e resultou em quarenta anos de exílio, tortura e prisão ao próprio Bahá’u’lláh.

Hoje, em todo o mundo, a Fé Bahá’í coloca uma enorme ênfase na abordagem e resolução do problema da pobreza.

Em muitos aspectos, os Bahá’ís pensam na pobreza de forma diferente da maioria das pessoas. A pobreza material – falta de comida, água, trabalho, meios de subsistência básicos – pode ter um tremendo impacto negativo, e os Bahá’ís trabalham para diminuir e eliminar a pobreza material, trazendo os ensinamentos progressistas de Bahá’u’lláh para as suas vidas e para as vidas dos outros; e também aplicando os princípios Bahá’ís aos problemas mundiais.

Mas os ensinamentos descrevem a pobreza espiritual – a falta de alegria, felicidade, vida com sentido, alma radiante, e crença num Criador amoroso – como uma condição ainda mais dolorosa:

A essência da compreensão é testemunhar a própria pobreza, e submeter-se à vontade do Senhor, o Soberano, o Misericordioso, o Omnipotente...
A essência da caridade é para o servo relatar as bênçãos do seu Senhor, e dar graças a Ele em todos os momentos e sob todas as condições.
A essência da riqueza é o amor a Mim. Quem Me ama é o possuídor de todas as coisas, e quem não Me ama é, na verdade, um dos pobres e necessitados. Isto é o que o Dedo da Glória revelou… (Bahá'u'lláh, Baha'i World Faith, p. 141)

A pobreza espiritual - descrita aqui por Bahá’u’lláh como falta de amor – pode afectar todos nós. Talvez seja esse o significado das misteriosas palavras finais na frase das Palavras Ocultas, quando afirma (na perspectiva do Criador) que nos “confundirá para sempre”. Numa oração, Ele expressa a mesma ideia, dirigindo-Se a Deus e dizendo “confundirá a alma daquele que procura as coisas que são contrárias à Tua Vontade” (Prayers and Meditations by Baha'u'llah, CLXXVIII). Se seguirmos a vontade de Deus – amarmo-nos uns aos outros e amar toda a humanidade – as riquezas espirituais criadas pelo amor sustentar-nos-ão nesta vida e na vindoura. Bahá’u’lláh promete que a verdadeira riqueza da nossa vida interior, que podemos manter quando a nossa existência material termina, ficará connosco durante toda a eternidade.

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Texto original: Surround the Poor With (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 12 de junho de 2021

Bahá’ís e agnósticos concordam: não podemos compreender Deus

Por David Langness.
 

Ó FILHO DO HOMEM!
Não transgridas os teus limites, nem pretendas o que não é digno de ti. Prostra-te perante a face do teu Deus, o Senhor de grandeza e poder. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #23)

Ao longo dos tempos, os homens têm afirmado conhecer e compreender o Criador. Gurus, videntes e líderes religiosos têm afirmado que eles - e apenas eles - têm uma relação pessoal com Deus. No entanto, os ensinamentos Bahá'ís dizem claramente que uma verdadeira compreensão de Deus está fora do alcance da capacidade de qualquer ser humano, por muito profundo e perspicaz que seja:

Tudo o que os sábios e místicos têm dito ou escrito nunca ultrapassou, nem poderá jamais esperar ultrapassar as limitações às quais a mente finita do homem foi rigorosamente sujeita. Por muito elevados que sejam os cumes a que a mente do mais exaltado dos homens possa alcançar, por muito grandes que sejam as profundezas que o coração desprendido e compreensivo possa atingir, essa mente e esse coração nunca poderão transcender aquilo que é a criatura das suas próprias concepções e o produto dos seus próprios pensamentos. As meditações do mais profundo pensador, as devoções do mais consagrado dos santos, as mais altas expressões de louvor procedentes de pena ou língua humana, são apenas um reflexo daquilo que foi criado dentro deles próprios, através da revelação do Senhor, seu Deus. Quem reflectir sobre esta verdade no seu coração, admitirá facilmente que há certos limites que nenhum ser humano pode transgredir. Toda tentativa que, desde o princípio que não tem princípio, se tem feito para visualizar e conhecer a Deus, está limitada pelas exigências da Sua própria criação - criação essa, que Ele chamou à existência através da operação da Sua própria Vontade, para nenhum outro propósito, salvo o Seu próprio Ser. Incomensuravelmente exaltado está Ele acima das tentativas da mente humana para compreender a Sua Essência, ou da língua humana para descrever o Seu mistério. (Gleanings from the Writings of Baha'u'llah, CXLVIII)

Bahá’u’lláh diz-nos que as nossas mentes têm limitações que não as podemos ultrapassar. Tentar ultrapassar essas limitações apenas nos leva aos limites das nossas capacidades humanas - e não mais o que isso.

Este conceito poderoso e fascinante – a ideia de uma Essência incognoscível a que chamamos Deus – está presente em todos os ensinamentos Bahá’ís:

Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser Divino, está imensamente exaltado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. Longe esteja da Sua glória que a língua humana celebre adequadamente o Seu louvor, ou que o coração humano compreenda o Seu insondável mistério. Ele está, e sempre esteve, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade eternamente oculto da vista dos homens. (Bahá'u'lláh, The Book of Certitude, ¶104)

Quando pensamos em Deus, que imagem nos vem à mente? Muitas pessoas criaram uma imagem de Deus na sua imaginação e tendem a adorar essa imagem – mas todas as imaginações das nossas mentes finitas também devem ser finitas.

E, claro, alguns grupos religiosos adoram o seu próprio pensamento, as suas concepções imaginárias de um Ser Supremo. Alguns até descrevem Deus como uma pessoa zangada e sobrenatural no céu - mas essas concepções são apenas superstições. Talvez fosse isso o que Moisés quis dizer quando pediu aos Seus seguidores que não adorassem imagens esculpidas – que devemos ter cuidado com a tentativa de imaginar, definir ou quantificar algo que está muito além da nossa experiência ou imaginação.

Muitos ateus e agnósticos rejeitam qualquer representação simplista de Deus baseada na imaginação - e os Bahá'ís também. Na verdade, alguns estudiosos afirmam que a Fé Bahá'í está próxima daquilo que os agnósticos já percebem - que nenhum ser humano pode descrever ou compreender Deus. Os Bahá'ís acreditam forte e convictamente que toda a criação vem do Ser Supremo, mas que Deus permanece muito além do nosso pensamento e imaginação, sagrado e ilimitado para os nossos padrões, as nossas capacidades e as nossas percepções.

Todos os grandes filósofos se debateram com esse profundo enigma. Os Bahá'ís acreditam que nenhum ser humano conseguirá alguma vez superá-lo, e que a única maneira de conhecer Deus é através dos Profetas, dos Manifestantes, dos Fundadores das grandes religiões do mundo:

Os homens, em todos os tempos e sob todas as condições, têm necessidade de alguém que os possa exortar, guiar, instruir e ensinar. Por isso Ele tem enviado os Seus Mensageiros, os Seus Profetas e eleitos, a fim de dar a conhecer ao povo o desígnio divino subjacente à revelação de Livros e o aparecimento de Mensageiros, e para que cada um tomasse consciência da incumbência de Deus que está latente na realidade de cada alma. (Bahá’u’lláh, Epístola de Maqsud, ¶2)

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Texto original: Baha’is and Agnostics Agree – We Cannot Understand God (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.