sábado, 31 de agosto de 2019

Deus odeia alguém?

Por Maya Bohnhoff.


Encontrei um blog que afirma que Deus odeia alguns grupos de pessoas, e por esse motivo os crentes em Deus – especialmente, os Cristãos – também os devem odiar.

O blog, de um grupo que se intitula Cristão, apresenta citações bíblicas para defender os seus pontos de vista. O que me surpreendeu é que apenas uma dessas citações é dos Evangelhos e nenhuma menciona as palavras de Cristo. E mesmo as referências do Antigo Testamento dificilmente são compatíveis com este mandamento:
Não fiques com ódio ao teu próximo, mas repreende-o, se for preciso, para não seres cúmplice do seu pecado. Não tenhas sentimentos de vingança ou de rancor para com o teu próximo; mas ama o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor! (Levítico 19: 17-18)

Quem é o “próximo”?

Um especialista em lei Judaica colocou esta famosa questão a Jesus. E Ele respondeu:
«Ia um homem a descer de Jerusalém para Jericó. Caíram sobre ele uns ladrões que lhe roubaram roupa e tudo, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o quase morto. Por casualidade, descia um sacerdote por aquele caminho. Quando viu o homem passou pelo outro lado. Também por lá passou igualmente um levita que, ao vê-lo, se desviou. Entretanto, um samaritano que ia de viagem passou junto dele e, ao vê-lo, sentiu compaixão. Aproximou-se, tratou-lhe os ferimentos com azeite e vinho e pôs-lhe ligaduras… levou-o para uma pensão e tratou dele... Qual dos três te parece que foi o próximo do homem assaltado pelos ladrões?»

E ele respondeu: «O que teve compaixão dele.»

Jesus concluiu: «Então vai e faz o mesmo.» (Lucas 10:30-37)
O contexto desta afirmação é fundamental, porque o que levou o especialista em lei Judaica a perguntar sobre a identidade do próximo foi a resposta de Cristo a outra pergunta: “O que devo fazer para herdar a vida eterna?

Numa linguagem clara e sem ambiguidades, Cristo explicou que alcançar a vida eterna depende da forma como tratamos aquelas pessoas por quem sentimos desprezo.

A sua escolha de um Samaritano como modelo de bom comportamento elimina qualquer dúvida sobre o seu significado. No tempo de Jesus, Samaritanos e Judeus viam-se mutuamente como pecadores e hereges, cada um praticando a sua versão do Judaísmo. Segundo a lei religiosa, estava proibidos de qualquer relacionamento entre si, e por isso os contactos de Cristo com Samaritanos provocaram enorme indignação.

Cristo ignorou os pecados dos Samaritanos, tal como o Samaritano ignorou o que lhe tinham ensinado sobre as heresias ou pecados inerentes aos Judeus. E assim, o Samaritano ajudou o Judeu e tratou dele.

A conclusão é inevitável: um crente deve amar e cuidar até daqueles que lhe foi dito para desprezar. Cristo pediu a quem O escutava que mostrassem amor e compaixão aos seus próximos, sem se importarem se eram, ou não, pecadores. Além disso Cristo avisou fortemente para que evitassem julgar os pecados dos outros:
«Digo a todos os que me estão a ouvir: amem os vossos inimigos e façam bem a quem vos odeia. Abençoem quem vos amaldiçoa e orem por aqueles que vos tratam mal... Dá a quem te pedir... Façam aos outros como desejam que os outros vos façam… Sejam misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso.

Não julguem e não serão julgados. Não condenem e não serão condenados. Perdoem e serão perdoados... Pois a medida que usarem para os outros será usada também para convosco. (Lucas 6:27-38)

Será que algum de nós se sente confortável com esta última frase?

Vejamos as últimas palavras de Cristo aos Seus discípulos antes de ser crucificado. Ele não prega uma doutrina ou enuncia uma lista de pecados pelos quais devemos odiar alguém. Ele diz aos Seus discípulos o que devem fazer para permanecerem ligados a Ele e a Deus: obedecer ao Seu mandamento. E depois dá-lhes o mandamento: “amai-vos uns aos outros.” (João 15: 12, 17)

Isto é tão importante para Cristo que desde a ceia da Páscoa até ao momento em que é preso por soldados romanos, Ele repete-o várias vezes.

Quantas vezes, e de quantas formas, deve Deus dizer-nos que o amor é a única coisa em que nos devemos focar se pretendemos “permanecer n’Ele”?

Cristo associou irrevogavelmente esta condição abençoada ao principal mandamento amar ao próximo. Ele revelou que o caminho para a vida eterna é amar aqueles que nos sentimos tentados a desprezar, e usou os Seus últimos momentos de vida para dizer aos Seus seguidores que devem seguir este mandamento acima dos outros – devem amar-se uns aos outros.

Os discípulos de Cristo compreenderam este mandamento. O apóstolo Paulo, que aprendeu a Fé com outros discípulos após a sua epifania, afirmou a importância deste mandamento de forma veemente:
Se eu for capaz de falar todas as línguas dos homens e dos anjos e não tiver amor, as minhas palavras são como o badalar de um sino ou o barulho de um chocalho... e se eu tiver uma fé capaz de transportar montanhas e não tiver amor, não valho nada... O amor é paciente e prestável. Não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal...
O amor é eterno. As profecias desaparecem; as línguas acabam-se; o conhecimento passa... Agora existem três coisas: fé, esperança e amor. Mas a mais importante é o amor. (1 Coríntios 12 1-13)
E a Epístola de João é ainda mais frontal: “Se alguém diz que ama a Deus, mas tem ódio ao seu irmão é um mentiroso.” (1 João 4:20)

Em última análise, só Deus conhece e pode julgar o coração e a alma de uma pessoa – e por isso todos devíamos estar gratos. Os ensinamentos Bahá'ís dizem-nos que no nosso primeiro dever para com as outras pessoas é amá-las:
Sabe, com certeza, que o Amor é o Segredo da Santa Dispensação de Deus… O amor é a luz amável no Céu, o sopro eterno do Espírito Santo que vivifica a alma humana. O amor é a causa de revelação de Deus ao homem, o elo vital inerente… à realidade das coisas. O amor é… o elo vivo que une Deus com o homem, que garante o progresso de toda a alma iluminada. O amor é a mais grandiosa lei… o espírito da vida no corpo adornado da humanidade, é quem estabelece a verdadeira civilização neste mundo mortal…

Ó bem-amados de Deus! Esforçai-vos por ser manifestações do amor de Deus, lâmpadas de orientação divina entre os povos da terra com a luz do amor e da concórdia (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #12)

-----------------------------------------------------------
Texto original: Does God Hate Anyone? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 17 de agosto de 2019

Só a Igualdade acaba com a Violência Doméstica

Por David Langness.

Nenhum marido Bahá’í deve alguma vez bater na sua mulher, ou sujeitá-la a qualquer forma de tratamento cruel; fazê-lo seria um abuso inaceitável da relação do casamento e contrário aos ensinamentos de Bahá'u'lláh. (Declaração sobre Violência contra Mulheres e Abuso Sexual, A Casa Universal de Justiça, 24 de Janeiro de 1993)
Quando trabalhava noutro país, a nossa filha reparou numa família que todas noites depois do trabalho regressava a casa. Via-os praticamente todos os dias e percebeu, após cumprimentar, sorrir e falar brevemente várias vezes com eles, que as duas crianças da família eram excepcionalmente educadas e bem-comportadas. Um dia elogiou a família pelo bom comportamento das crianças.

As vossas crianças são tão educadas”, disse ela aos pais.

Obrigado”, respondeu o pai agradado com o elogio. “Bato-lhes todas as noites. A minha mulher também.”

Aquela velha atitude, acreditem ou não, já tinha imperado em todo o mundo. Provavelmente já ouviram a expressão “poupar o chicote é estragar a criança”; mas alguma vez ouviram a expressão “the rule of thumb” (significa “regra de ouro” ou “regra prática”; literalmente significa “a regra do polegar”). Diz a tradição que esta expressão deriva da lei inglesa anterior a 1500, quando os maridos podiam legalmente bater nas mulheres com varas cuja espessura não fosse maior que o polegar do homem. Esse tipo de espancamento das mulheres, aceitável do ponto de vista legal e cultural, existiu durante milhares de anos. Só em 1982 é que a Comissão Americana para os Direitos Civis publicou um relatório pioneiro sobre abuso das esposas, intitulado “Under the Rule of Thumb” (“Sob a Regra do Polegar”).

O relatório da Comissão indicava que o abusa conjugal, físico ou psicológico, era assustadoramente comum. O Fundo das Nações Unidas para a População afirma que uma em cada três mulheres experimenta ataques físicos ou sexuais durante a sua vida – e a maioria destes tem lugar, não com estranhos, mas na relação conjugal.

Apesar de tudo isto, só muito recentemente é que tribunais, governos e polícia começaram a considerar a violência conjugal e doméstica como actos criminosos. Na verdade, ainda há muitos países que consideram a violência conjugal, os crimes de honra, o casamento forçado de crianças, os crimes de dote e o feminicídio como questões familiares e vez de ofensas criminais e violações dos direitos humanos. Se o marido é “dono” da mulher, tal como muitos sistemas legais o definem, então a escravatura doméstica abre as portas à violência doméstica.

Em resposta a este facto tão comum, as Nações Unidas publicaram em 1993 o documento Estratégias de Combate à Violência Doméstica: Um Manual de Recursos. Ali declarava:
... um grande número de países permite... a aplicação, por parte do marido, de castigos físicos moderados à respectiva esposa. Mais uma vez, a maioria dos sistemas legais não criminaliza as circunstâncias em que uma mulher é forçada, contra a vontade, a ter relações sexuais com o marido... De facto, no caso da violência conjugal sobre a mulher, existe a crença generalizada de que esta provoca, tolera ou até aprecia uma certa dose de violência por parte do marido.
Para contrariar estas atitudes prevalecentes em tantos locais, as décadas de 1980 e de 1990 testemunharam um grande movimento global para conter a onda de violência doméstica contra mulheres e uma resolução internacional: a Declaração das Nações Unidas sobre Eliminação de Violência contra Mulheres. Afirma:
… a violência contra mulheres é uma manifestação das relações de poder historicamente desigual entre homens e mulheres, que levou à subjugação e discriminação das mulheres pelos homens, e impediu o pleno progresso das mulheres; essa violência contra as mulheres é um dos principais mecanismos sociais pelos quais as mulheres são forçadas a uma posição de subordinação em relação aos homens.
A comunidade Bahá’í tem apoiado activamente a resolução da ONU e continua a defender relações de poder iguais entre homens e mulheres.
... saiba-se mais uma vez que enquanto mulher e homem não reconhecerem e conseguirem a igualdade, o progresso social e político não será possível aqui ou em qualquer outro lugar. Pois o mundo da humanidade consiste em duas partes ou membros: uma é a mulher e a outra é o homem. Enquanto estes dois membros não tiverem força igual, não se poderá estabelecer a unicidade da humanidade, e a alegria e felicidade da humanidade não serão uma realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 76)
Enquanto estes dois... não tiverem força igual”, afirma 'Abdu'l-Bahá, “a alegria e felicidade da humanidade não serão uma realidade”. Há quase dois séculos que os ensinamentos Bahá'ís defendem relações de poder iguais a que se referem as Nações Unidas.

Vários estudos científicos provam que abusos sexuais, ataques sexuais e as violações são tipicamente cometidas por homens que libertam a sua raiva sobre as mulheres, motivados pelo desejo de dominar e controlar, e também pelo desejo do prazer sexual. Esta combinação de motivações revela algo profundamente desigual na relação de autoridade e domínio entre homens e mulheres em muitas sociedades. Quando os homens têm mais poder – não apenas força física, mas também poder político e social – o poder é muitas vezes usado contra as mulheres “para as manter no seu lugar”.

Porque saímos de uma era passada na história humana em que a força física imperava, e iniciámos uma nova era em que a força intelectual, moral e física prevalecerá, temos agora a possibilidade de tratar ambos os géneros com igualdade – e acabar com os ataques sexuais.

O que podemos fazer para impedir os ataques sexuais e a violência contra as mulheres? Podemos mudar a equação de poder subjacente, e nesse processo fazermos tudo o que for possível para que homens e mulheres – como dizem os ensinamentos Bahá’ís - tenham “força igual”.

-----------------------------
Texto original: Only Equality Stops Domestic Violence (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Chamado", "Chamamento" ou "Apelo"


O mais recente número do “Notícias Bahá'ís” chamou a minha atenção para um problema recorrente: o uso incorrecto da palavra “chamado”.

  • “O recente chamado da Casa Universal de Justiça...”
  • “…uma centena de pessoas – crentes e simpatizantes – respondeu ao chamado e participou na conferência...”

É óbvio que estas frases carecem de clareza e sentido. As instituições não fazem chamados; as instituições chamam, apelam, convocam; as pessoas podem sentir-se chamadas com esses chamamentos, apelos ou convocações.

A palavra “chamado” pretende caracterizar alguém que recebeu um convite ou uma convocação (“Porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”); também pode significar receber um nome ou designação (“Ele era chamado assim porque...”)

Por esse motivo, seria preferível usar palavras como “chamamento” ou “apelo”, que significam “convocação”, “invocação” ou “solicitação”. As frases acima referidas tornam-se mais claras se usarmos estas palavras:

  • “O recente apelo da Casa Universal de Justiça...”
  • “…uma centena de pessoas – crentes e simpatizantes – respondeu ao chamamento e participou na conferência...”

O mesmo se aplica à tradução portuguesa do livro Call to the Nations que foi traduzido para português como “Chamado às Nações”; o título mais correcto seria “Apelo às Nações” ou “Chamamento às Nações”.

domingo, 11 de agosto de 2019

"Escritos" ou "Escrituras"


É frequente encontrar na literatura Bahá’í, e em mensagens de instituições Bahá’ís (de Portugal e Brasil), a palavra “escritos” para designar os textos sagrados da Fé Bahá’í, revelados por Bahá’u’lláh, pelo Báb e também os textos de ‘Abdu’l-Bahá.

Na minha opinião, seria preferível usar a palavra “Escrituras” (com maiúscula), pois esta sugere imediatamente o carácter sagrado do texto. É uma forma de destacar a importância dos nossos textos sagrados e os distinguir de outros textos sem carácter sagrado. Parece-me fácil perceber que esta palavra “Escritura” não é aplicável a textos literários ou poéticos, sem carácter sagrado.

Já a palavra “escrito” ao ser aplicada aos textos sagrados Bahá’ís está a omitir o seu carácter sagrado, a reduzir a sua importância e tornando-os tão relevantes quanto outros textos produzidos autores literários.

Assim, sugiro que seja usada as expressões “Escrituras de Bahá'u'lláh” e “Escrituras do Báb” em vez de “escritos de Bahá'u'lláh” e “escritos do Báb”.

sábado, 10 de agosto de 2019

Como evoluem as nações?

Por Elaine McCreary.


No debate actual entre tradição cultural e mudança cultural, podemos questionar qual destas oferece maior benefício a um povo.

A tradição defende que transmite os valores de um povo de geração em geração, e com isso transporta a sua força espiritual para o futuro; a mudança cultural, por seu lado, declara que faz evoluir os valores de um povo em resposta às alterações das circunstâncias, por vezes drásticas, preservando assim a força espiritual de um povo para se adaptar.

Poderíamos resolver este debate atribuindo à tradição o papel de preservar os princípios eternos e atribuído à mudança a função de encontrar práticas adequadas às circunstâncias. Assim, ambas – tradição e mudança – podem dar o seu contributo para a força espiritual de uma nação.

O Conceito de Nação em Evolução

Mas... toda esta lógica anterior baseia-se num povo que permanece junto, apesar das condições ao seu redor poderem mudar. E se parte desse povo decidisse permanecer onde está e outra parte decidisse migrar? Esta tem sido a nossa experiência global nos séculos XX e XXI.

Fomes, guerras, epidemias e colapso económico levaram muitos milhões de pessoas a abandonar as suas terras e nações de origem. Para todos nós, em qualquer país que estejamos a viver – quer tenhamos chegado aqui devido a alguma tragédia ou oportunidade, ou vivido aqui desde tempos imemoriais – estamos hoje a criar uma nação que exige uma nova força espiritual. Que nova mística, ethos, visão, valores e objectivos identificarão a nossa nação e lhe darão força espiritual?

Na natureza, as coisas mais complexas surgem porque a união beneficia os elementos envolvidos. Ao nível da sociedade humana, o estado-nação surge e mantém-se, essencialmente porque protege e ajuda todos os povos no interior das suas fronteiras. Mas reciprocamente, o próprio estado-nação beneficia com os talentos complementares de todos os seus povos. Esta é a relação de sinergia latente que deve ser desenvolvida entre indivíduos e o seu estado-nação.

Mas como pode uma nação alcançar um nível de desenvolvimento bem-sucedido se estiver a ser constantemente transformada por vagas de migrações?

Já em 1875, ‘Abdu’l-Bahá delineou um novo modelo de nação baseado na educação universal, que antecipava os posteriores movimentos europeus e americanos que defendiam a educação de adultos e a educação permanente. Anos mais tarde, dois documentos preparados por instituições Bahá’ís apresentaram uma imagem ampliada de desenvolvimento das nações: Liberdade e Direitos Individuais na Ordem Mundial de Bahá’u’lláh e A Visão da Unidade Racial: o Maior Desafio da América (The Vision of Race Unity: America’s Most Challenging Issue).

Nestes dois documentos, aparecem vários assuntos que nos ajudam a definir a influencia espiritual global de qualquer nação:
  • o processo de amadurecimento humano aplica-se a uma nação;
  • a reciprocidade entre indivíduos e a sua nação;
  • a necessidade de unidade racial e harmonia como benefício para a nação;
  • a contribuição única de cada nação para a comunidade mundial.
Vamos abordar apenas um destes assuntos: a forma como o amadurecimento das nações se assemelha ao amadurecimento das pessoas.

Comportamento das Nações: Adolescência, Maturidade e Senilidade

No caso das nações, a maturidade refere-se ao surgimento de sabedoria e padrões de nobreza, pacifismo e comportamento construtivo – algo difícil de imaginar quando as nações “entram em acção”.
Num período da história dominado por energia crescente – o espírito rebelde e actividade frenética da adolescência – é difícil identificar características distintivas de uma sociedade matura para a qual Bahá’u’lláh chama toda a humanidade. (A Casa Universal de Justiça, Individual Rights and Freedoms, p. 20)
Para os adolescentes (e nações adolescentes) a noção de moderação ou auto-controle pode parecer semelhante a controle externo, semelhante à detestável censura. O princípio de auto-controlo baseia-se no reconhecimento de que qualquer acção, incluindo as benéficas, podem ser prejudiciais se levadas a um extremo. Isto aplica-se a acções físicas, como exercício ou condução de viaturas, ou acções culturais, como linguagem e literatura, ou ao vestuário ou comportamento público.
Do ponto de vista Bahá’í, o exercício da liberdade de expressão deve necessariamente ser disciplinado por uma compreensão profunda sobre as dimensões positivas e negativas da liberdade, por um lado, e da expressão, por outro. (Idem, p. 22)
O subtil equilíbrio moral implícito nestas observações sobre liberdade de expressão é apenas uma das muitas instâncias de tensão criativa entre os valores que a sociedade deve assimilar à medida que amadurece. Como podemos reconciliar estas antigas tensões existentes entre os desejos dos indivíduos e as necessidades da sua cultura como um todo? Os Bahá’ís encontram o equilíbrio ao seguir o princípio de preferir o benefício superior quando o desejo do individuo e o bem-estar da sociedade entram em conflito.

---------------------------------- 
Texto Original: How Do Nations Evolve? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Elaine McCreary é uma professora que se tornou Bahá’í há 25 anos. Serviu no Centro Mundial Baha’i e vive no Canadá, onde é representante Bahá’í na equipa de capelanias multi-religiosa da Universidade de Victoria.

sábado, 3 de agosto de 2019

Como a Fé Bahá’í redefine a Religião

Por Ali Helmy.


A palavra “religião” possui diversas conotações e leva-nos a distintos níveis de entendimento de acordo com os seus múltiplos conceitos. Curiosamente, em vez de abolir a palavra religião, a Fé Bahá’í reformula-a completamente.

De facto, à luz das escrituras Bahá'ís – e aos olhos de milhões de Bahá'ís em todo o mundo que praticam a sua Fé – a própria religião está a ser sujeita a uma tremenda mudança de paradigma.

Para os Bahá’ís, a religião não é um sistema filosófico mecânico institucionalizado que dita um código de leis absolutas que devem ser seguidas arbitrariamente, ou um modo de pensamento antigo, rotinizado e limitado, que hoje se infiltra na nossa era moderna/pós-moderna.

Pelo contrário, os Bahá'ís entendem a religião como uma palavra que deve ser revista e revitalizada. Por isso, os ensinamentos Bahá'ís apresentam uma nova definição e um ponto de vista diferente. 'Abdu'l-Bahá definiu a religião como “a mais verdadeira filosofia” que constrói “a única civilização duradoura”:
…a menos que o carácter moral de uma nação seja educado, tal como o seu cérebro e talentos, a civilização não terá uma base sólida.

Porque a religião inculca a moralidade, ela é a mais verdadeira filosofia, e sobre ela se constrói a única civilização duradoura. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 31)
Claro que nenhum governo pode legislar sobre a moralidade. A autoridade civil apenas pode criar leis e controlar vícios externos e comportamentos criminosos. No entanto, as pessoas sempre encontram lacunas ou formas de contornar a lei, a menos que os seus valores morais interiores as impeçam de o fazer. A religião, ao contrário da mera governação, incute nas pessoas um sentido de moralidade - sobre o que está certo e o que está errado - e elimina as diferenças entre comportamento exterior e interior. Assim, os Bahá'ís acreditam que a religião é essencial para o desenvolvimento humano:
… entre os ensinamentos de Bahá'u'lláh está o de que a religião é um poderoso baluarte. Se o edifício da religião estremecer e vacilar, seguir-se-ão o tumulto e o caos, e a ordem das coisas será profundamente perturbada, pois no mundo da humanidade existem duas salvaguardas que protegem o homem da perversão. Uma é a lei que pune o criminoso; mas a lei apenas impede o crime manifesto e não o pecado oculto; mas a salvaguarda ideal, nomeadamente, a religião de Deus, impede tanto o crime manifesto como o oculto, forma o homem, ensina a conduta moral, encoraja a adopção de virtudes e é o poder que abrange tudo e assegura a felicidade do mundo da humanidade. Mas por religião pretende-se significar aquilo que é determinado pela investigação e não aquilo que se baseia na mera imitação, a base das Religiões divinas e não as imitações humanas. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of 'Abdu'l-Bahá, pp. 302-303)
Sim, os ensinamentos Bahá'ís dizem que as forças da religião - as forças da religião corrupta - têm dividido os povos e provocado guerras:
É verdade que existem indivíduos insensatos que nunca estudaram correctamente os fundamentos das religiões Divinas, que assumem como critério o comportamento de alguns religiosos hipócritas e medem todas as pessoas religiosas com essa bitola, e sobre isto concluíram que as religiões são um obstáculo ao progresso, um factor divisivo e causa da maldade e inimizade entre os povos. Nem sequer notaram que os princípios das religiões divinas dificilmente podem ser avaliados pelos actos daqueles que afirmam segui-las. Porque todas as coisas excelentes, por incomparáveis que sejam, podem ser desviadas para fins incorrectos. Uma lamparina acesa nas mãos de uma criança ignorante ou de um cego não dissipa a escuridão, nem ilumina a casa; pode incendiar a casa e o seu portador. Poderemos, num caso desses, culpar a lamparina? Não, pelo Senhor Deus! ('Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 71)
No entanto, os ensinamentos Bahá'ís também dizem que o declínio gradual da religião, que acontece em todas as Fés quando o seu poder espiritual começa a desvanecer, gera a posterior libertação de uma nova e revitalizadora Fé, no seu lugar:
Desde os dias de Adão até hoje, as religiões de Deus tornaram-se manifestas, uma após outra, e cada uma cumpriu a sua devida função, revivificou a humanidade e proporcionou educação e iluminação. Libertaram os povos das trevas do mundo da natureza e levaram-nos ao esplendor do Reino. À medida que cada sucessiva Fé e Lei era revelada, tornava-se uma árvore cheia de frutos e empenhava-se na felicidade da humanidade. No entanto, à medida que os anos passavam, envelhecia e deixava de florescer e gerar frutos; por isso, tinha de rejuvenescer novamente.

A religião de Deus é uma única religião, mas deve ser sempre renovada. Moisés, por exemplo, foi enviado à humanidade e estabeleceu a Lei, e os Filhos de Israel, através da Lei Mosaica, libertaram-se da ignorância e foram iluminados; foram resgatados da sua degradação e alcançaram uma glória que não desvanece. No entanto, com o passar dos anos, esse brilho foi desaparecendo, esse esplendor desfez-se, aquele dia luminoso tornou-se noite; e quando essa noite era três vezes mais escura, surgiu a estrela do Messias, para que a glória iluminasse novamente o mundo.

O que queremos dizer é isto: a religião de Deus é apenas uma, e ela é a educadora da humanidade, mas, mesmo assim, tem de ser renovada. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of 'Abdu'l-Bahá, pp. 51-52)

----------------------------------
Texto Original: How the Baha’i Faith Reframes Religion (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Ali Helmy é um Baha’i residente na Jordânia. É estudante de arquitectura e tem uma enorme paixão pela arte e design.

sábado, 27 de julho de 2019

Como criar um futuro que valorize a feminilidade

Por Maya Mansour.


Todos os dias recebemos mensagens sobre como devemos condicionar os nossos corpos. Dizem-nos o que devemos vestir, como devemos andar, e até quanto espaço devemos ocupar. Frequentemente, estas mensagens não consideram o impacto espiritual de ter um corpo físico. As escrituras Bahá’ís explicam que o corpo humano é um recipiente material da nossa alma – uma entidade espiritual que não tem género ou atributos mundanos:
Os ensinamentos de Bahá'u'lláh também proclamam igualdade entre homem e mulher, pois Ele declarou que todos são servos de Deus e dotados de capacidade para obter de virtudes e dádivas. Todos são manifestações da misericórdia do Senhor. Na criação de Deus, não se obtêm distinções. Todos são Seus servos. Aos olhos de Deus não há género. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p.374)
Como seres humanos estamos dotados de uma identidade que é simultaneamente física e espiritual e estas duas facetas frequentemente interagem entre si. Para demonstrar a verdade espiritual de que homens e mulheres são iguais, os ensinamentos Bahá’ís comparam cada género, metaforicamente, com as asas de um pássaro: é impossível um pássaro voar com duas asas esquerdas ou com uma asa mais forte que outra. Quando ambas as asas trabalham em conjunto e se equilibram uma à outra, o pássaro pode voar livremente, livre da desigualdade.
O mundo da humanidade tem duas asas – uma é a mulher e outra o homem… Se uma asa estiver fraca, é impossível voar. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, p. 417)
Esta metáfora aborda claramente a posição relativa de mulheres e homens na sociedade – e ainda assim podemos alargar o seu significado e usá-la para explorar os nossos conceitos de masculinidade e feminilidade. As actuais construções de género – para dizer o mínimo – não nos são muito úteis. Por exemplo, as normas de género no Ocidente presumem rigidamente que um individuo é masculino ou feminino, a asa direita ou esquerda, ou um ou o outro.

Parece existir aqui um pressuposto de que o género da pessoa é definido apenas pela sua anatomia. Isto apresenta imediatamente um problema, pois independentemente do aspecto físico exterior, existem muitas formas de descrever um ser humano. Pessoas intersexuais sempre existiram e não vão desaparecer. Em vez de tentar classificar as pessoas segundo uma norma binária rigorosa, podemos aceitar o que a masculinidade e a feminilidade têm para oferecer:
O mundo no passado foi governado pela força e o homem tem dominado a mulher devido às suas qualidades de maior força e agressividade, tanto do corpo como da mente. Mas o equilíbrio já está a mudar; a força está a perder o seu domínio, e o estado de alerta mental, a intuição e as qualidades espirituais de amor e serviço, em que a mulher é forte, estão a ganhar ascendência. Consequentemente, a nova era será uma época menos masculina e mais permeada com os ideais femininos, ou, para falar mais precisamente, será uma época em que os elementos masculinos e femininos da civilização estarão mais equilibrados. ('Abdu'l-Bahá, citado em A Compilation on Women)
Apesar do equilíbrio da masculinidade/feminilidade ter estado inclinado para o lado masculino, os ensinamentos Bahá’ís indicam que isto irá mudar. No entanto, isto não pretende desconsiderar os contributos das pessoas que no passado personificaram e advogaram a feminilidade. A verdade espiritual de que todos são iguais é eterna. Podemos estudar as formas não-tradicionais de registar a história – como criação de imagens e as narrativas orais – e perceber que muitos contributos para a igualdade de género foram subestimados pelas narrativas históricas comuns. Isto dá-nos a perceber como nos temos de esforçar para criar hoje mais equilíbrio.

As qualidades associadas com a feminilidade – como ser cuidadoso, compassivo e emotivo – são frequentemente desvalorizadas na sociedade moderna. Os cargos que exigem essas qualidades estão geralmente na faixa dos empregos mal pagos, como os professores e os assistentes sociais. A nossa escala de remunerações raramente valoriza o trabalho emocional – um trabalho que tipicamente cai nos ombros das mulheres. Um futuro que valorize os valores da feminilidade reconhecerá que ser compassivo e emocional é algo tão importante quanto ser lógico e metódico. Uma pessoa pode beneficiar ao perceber a força de ser assertivo; mas também beneficia quando percebe que deve recuar e ocupar menos espaço.

Um passo que qualquer pessoa pode dar em direcção a um futuro que encoraja a feminilidade é a auto-reflexão. Numa cultura que historicamente valoriza as pessoas que personificam a masculinidade, devemos reflectir activamente se desejamos quebrar o ciclo e reconhecer o quão profundamente enraizado se encontra o equilíbrio de poder. Fomentar uma dinâmica saudável entre a estas duas qualidades é algo diferente para todos nós. Quando pensamos em criar uma sociedade mais justa, penso que é importante para cada um de nós avaliar os traços que personificamos enquanto indivíduos e a forma como o ambiente em que nos inserimos contribui para os nossos valores pessoais.

Quando nos envolvemos nesta auto-reflexão individual sobre o que valorizamos em nós e nos outros, as instituições também se devem examinar a si próprias e esforçar-se por assumir simultaneamente qualidades masculinas e femininas. Ao garantir que a sua demografia está cada vez mais equilibrada, também devem procurar equilibrar qualidades femininas e masculinas. Por exemplo, as licenças de maternidade/paternidade devem ser iguais para ambos os progenitores. As desigualdades nestas licenças devem-se à pressão no crescimento da carreira profissional como forma de ganhar mais dinheiro para sustentar a família. Desta forma, o capitalismo tem desempenhado um grande papel na criação das desigualdades existentes, especialmente quando se cruza com a sociedade patriarcal. E como resultado temos menos qualidades femininas nos indivíduos, e nas decisões e políticas institucionais.

Mesmo um tema aparentemente neutro como a quantidade de horas de trabalho por dia pode reconhecer ou ignorar a qualidade feminina da compaixão. Quando se espera que os pais trabalhem muitas horas por dia, as suas interacções com os filhos reduzem-se às rotinas do acordar, levar à escola, jantar, preparar para ir dormir. No entanto, se as pessoas tiverem oportunidade de sair do trabalho a tempo de desenvolver uma relação de qualidade com as suas famílias, ou se lhes for oferecido apoio aos filhos no local de trabalho, eles tornar-se-ão mais ligados às suas famílias - e isso beneficia toda a gente. Isto representa uma mudança de foco da produtividade para a valorização do equilíbrio entre trabalho e família.

Por toda a parte estão a acontecer mudanças para criar um mundo que valoriza igualmente o que cada um pode oferecer. Desde a indústria médica ao mundo da arte, vemos pessoas que dão um passo atrás para que as vozes dos outros possam ser finalmente ouvidas. A feminilidade começa a ganhar espaço para influenciar as esferas do poder que há muito tempo são governadas pela masculinidade.

O que mais me entusiasma nesta mudança é o facto de qualquer pessoa poder fazer parte dela. Qualquer pessoa pode conversar com amigos e conhecidos para compreender mais profundamente as perspectivas dos outros. Qualquer pessoa pode avaliar as suas próprias noções de género e pensar se essas noções permitem ou inibem o melhoramento da sociedade. O futuro está a ser moldado por cada uma das acções que tomamos.

----------------------------------
Texto Original: How We Can Envision and Create a Future That Values Femininity (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Maya Mansour estudou artes no The Evergreen State College e os seus trabalhos têm sido publicados em várias plataformas, incluindo Ebony, SoulPancake, and the Journal of Critical Scholarship on Higher Education and Student Affairs.