sábado, 15 de junho de 2019

Normalizar a Menstruação é Promover a Igualdade

Por Nadia Kardan.


Quando tinha 11 anos, estava na escola e fiquei pela primeira vez com o período durante as aulas. Era a segunda vez que tinha o período e apesar da idade e a experiência estarem a confirmar o que a minha mãe me tinha dito (“Todas as mulheres no mundo têm o período”) eu sentia-me humilhada ao ponto de ficar momentaneamente traumatizada. Os rapazes fizeram troça de mim durante semanas e eu fiz tudo o que pude para esquecer aquilo. Desde então, sempre que tinha o período, nada era mais importante do que garantir que não me sujava. Todos os meus pensamentos, ansiedades e preocupações durante esses dias do mês centravam-se na quantidade de pensos e tampões que tinha na minha bolsa e nas oportunidades que tinha para ir à casa de banho.

Não demorou muito até perceber que isto era uma preocupação partilhada pelas minhas amigas. Durante os nossos dias na escola passávamos sub-repticiamente umas às outras pensos e tampões dentro de sacos castanhos – para que ninguém visse – ou através das mangas da camisa de cada uma como se se tratasse de contrabando em vez de produtos essenciais para a nossa saúde e bem-estar. Não falávamos sobre os períodos salvo através de sussurros e usávamos eufemismos como “o nosso amigo do sul” se era necessário falar em público ou em voz alta. As personagens na televisão nunca falavam sobre os seus períodos; nos filmes ninguém parecia afectado com isso. As modelos e as vedetas estavam sempre lindas e nunca perturbadas com dores, enxaquecas ou vómitos; por isso, mantínhamos um sorriso no rosto, excepto quando nos queixávamos umas às outras, em casa, nos nossos pijamas a ver televisão, aceitando o silêncio e o secretismo como a atitude normal das mulheres menstruadas.

Sempre fui apaixonada pela minha religião e espiritualidade; falo frequentemente da forma como a Fé Bahá’í defende os direitos das mulheres, mas nunca vi como a minha humilhação ou secretismo sobre o meu período tivesse alguma relação como o princípio da igualdade de género. Quando era adolescente, li o Kitab-i-Aqdas (o Livro Mais Sagrado) que uma professora Bahá’í me tinha oferecido. Encontrei as seguintes palavras:
Deus, de igual modo, como uma dádiva da Sua presença, aboliu o conceito de “impureza”, com o qual diversas coisas e pessoas foram consideradas impuras. Ele, certamente, é o Que Sempre Perdoa, o Mais Generoso. Em verdade, todas as coisas criadas foram imersas no mar da purificação quando, no primeiro dia de Ridvan, derramámos sobre toda a criação os esplendores dos Nossos mais excelsos Nomes e dos Nossos mais enaltecidos Atributos. (Bahá’u’lláh, The Kitab-i-Aqdas, ¶75)
E a nota nº 20 do Kitab-i-Aqdas confirmou:
Em algumas Dispensações religiosas anteriores, as mulheres nas suas regras eram consideradas ritualmente impuras e era-lhes proibido que observassem os deveres da oração e jejum. O conceito de impureza ritual foi abolido por Bahá’u’lláh.
Este excerto despertou a minha curiosidade e comecei a ler e a aprender mais: o conceito de menstruação como algo “impuro” era quase universal, afectava a auto-estima de uma aluna da escola secundária num subúrbio de New Jersey, que se sentia humilhada pela realidade do seu próprio corpo, e desenvolvimento educacional de praticamente todas as meninas no Médio Oriente, África Sub-Sahariana e Sudeste Asiático. Já não se trata apenas de ficar envergonhada por uma mancha de sangue; as meninas em vários pontos do globo sofrem de isolamento físico durante o ciclo menstrual e ficam em casa porque não têm acesso aos produtos de higiene necessários para fazer uma vida minimamente normal. Obter pensos e tampões é frequentemente impossível para meninas e mulheres em zonas rurais, onde os períodos são assunto tabu e a falar disso significa o ostracismo social.

Nos países sub-desenvolvidos a relação entre o período e a educação das meninas é inegável: segundo o site www.her-turn.org, num relatório das Nações Unidas datado de 20 de Maio de 2016, “no Nepal e no Afeganistão, 30 por cento das meninas afirmavam faltar às aulas quando tinham o período”. No Afeganistão, a taxa de alfabetização dos homens é o dobro das mulheres. No Nepal, cerca de 76% dos homens são alfabetizados e nas mulheres esse valor é apenas 55%.

Conhecendo o quão clara e intensamente a puberdade afecta o progresso escolar das mulheres, é importante recordar as palavras de ‘Abdu’l-Bahá:
A educação da menina é hoje mais importante do que a do rapaz, pois ela é a mãe da futura raça … (‘Abdu’l-Bahá, 'Abdu’l-Bahá in London, p. 91)
O conselho de ‘Abdu’l-Bahá é que as meninas sejam educadas e que a sua educação tenha prioridade em relação à do irmão ou irmãos. Como podemos permitir que as meninas deixem de ir à escola porque têm vergonha ou receio de falar sobre períodos?

O tabu da menstruação não está relacionado com comportamento ou decência. Evitar ou ignorar conversas sobre menstruação, esconder produtos de higiene menstrual, taxá-los como produtos de luxo (como acontece em alguns locais dos EUA) e envergonhar mulheres porque sangram ou falam dos seus períodos, apenas perpetua o estigma. Tudo isto alimenta nas meninas inseguranças sobre os seus corpos e condiciona as suas capacidades para pedir ajuda ou procurar a sua própria normalidade. ensinamentos Bahá’ís e a igualdade de direitos entre homens e mulheres.
Além disso limita a capacidade dos homens para desenvolver compreensão pelas suas parceiras que realizam as mesmas tarefas que eles enquanto perdem sangue e sentem os efeitos secundários, como fadiga, dores e até enxaquecas debilitantes. Perpetuar o estigma da menstruação limita o desenvolvimento de meninas e mulheres no mundo, e está em contradição com os

Hoje sou professora do 6º ano na cidade de Nova Iorque. Todos os anos, quando apresento a casa de banho das meninas aos novos alunos, mostro-lhes como usar correctamente os produtos de higiene menstrual. Digo-lhe que podem tirar um penso se não tiverem um consigo. Quando eles riem e gracejam porque dizem que é estranho falar sobre o assunto, digo-lhes que eu própria, a Profª Kardan, informo os professores homens que estou com o período, porque eles precisam de saber que não estou a fugir ao trabalho quando lhes peço que me substituam nas aulas para eu poder ir à casa de banho de duas em duas horas.

Todos os anos, as minhas alunas se sentem suficientemente confortáveis para me dizerem se estão com o período ou se necessitam de mudar de calças. Sentem-se suficientemente confortáveis para chamar por mim ao serem apanhadas de surpresa pelo período quando estão na casa de banho e precisam de um penso. Não se envergonham quando percebem que há sangue na sua cadeira – como aconteceu comigo quando estava no 6º ano – porque têm uma professora que lhes diz que elas são humanas e que o período faz parte daquilo que as torna humanas.

Lutar pela igualdade entre homens e mulheres é mais do que fazer leis; é fazer com que as meninas sintam a si próprias, na sua mais elementar e verdadeira biologia, e não tenham vergonha disso. A nossa Fé transformou isto em lei; é tempo de agirmos sobre isto.

Se desejar explorar mais sobre este assunto, aqui ficam alguns links (em inglês) que podem ser úteis:

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Texto original: Normalizing Menstruation Promotes Equality. Period. (www.bahaiblog.net)

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Nadia Kardan vive em Nova Iorque e é escritora, professora e activista feminista. Além de dar aulas e estar a escrever um romance, também organiza encontros devocionais sobre o tema “Feminismo e Espiritualidade” com o objectivo de aprofundar os participantes nas soluções espirituais para a igualdade de género.

sábado, 8 de junho de 2019

Jesus predisse Maomé?

Por Peter Terry.


Há mais de 1400 anos, que os Muçulmanos acreditam que Jesus predisse a vinda de um mensageiro depois d’Ele , e que se chamaria Ahmad – uma referência inequívoca a Maomé:
E quando Jesus, o filho de Maria disse: ó filhos de Israel, em verdade eu sou o apóstolo de Deus que vos foi enviado, confirmando a lei que vos foi entregue antes de mim, e confirmando as boas novas de um apóstolo que virá depois de mim, e cujo nome será Ahmad. (Alcorão 61:6)
Entretanto, os Cristãos também têm negado que exista no Novo Testamento qualquer referência a Maomé; e a isso os Muçulmanos respondem dizendo que os Cristãos eliminaram do texto das profecias relevantes. Esta antiga controvérsia alargou o fosso existente entre os mundos Muçulmano e Cristão.

Foram feitas algumas tentativas para harmonizar o grego do “Consolador” prometido no Evangelho de João (14:16) e da Primeira Epístola de João (2:1) com a palavra árabe que melhor traduz esse termo. Mas a palavra grega “parakletos” (em português, paráclito) significa “advogado” enquanto que Ahmad significa “louvado”

A palavra grega mais próxima - periklytos - significa “muito louvado”. Esta explicação é apelativa para alguns Muçulmanos, convencidos pelas interpretações tradicionais de certos versículos do Alcorão de que as escrituras Cristãs foram falsificadas ou “perdidas” para impedir o reconhecimento de Maomé. Esta é uma afirmação absurda aos olhos dos Cristãos que nem serve para iniciar uma demonstração histórica natural de Maomé ser o sucessor e o regresso de Jesus.

No entanto, há uma palavra anteriormente ignorada que pode ser considerada uma ligação entre Cristianismo e Islão. Bahá’u’lláh escreveu:
... os povos Cristão e Judeu não compreenderam a intenção das palavras de Deus e as promessas que Ele lhes fez no Seu Livro, e por isso negaram a Sua Causa, afastaram-se dos Seus Profetas, e rejeitaram as Suas provas. (Baha’u’llah, Gems of Mysteries, p. 6)
E depois prossegue:
Irei agora relatar alguns excertos revelados nos Livros antigos e mencionar alguns dos sinais que anunciam o aparecimento das Manifestações de Deus na pessoa santificada dos Seus eleitos. (Idem, p.7)
Bahá’u’lláh cita primeiramente o Evangelho de Mateus dizendo: “Este é o texto que foi revelado anteriormente no primeiro evangelho, segundo Mateus, sobre os sinais que devem necessariamente anunciar o advento d’Aquele que virá depois d’Ele…” (idem)
Logo após a aflição daqueles dias, o Sol irá escurecer-se, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem e todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, com grande poder e glória. Ele enviará os seus anjos, com uma trombeta altissonante, para reunir os seus eleitos desde os quatro ventos, de um extremo ao outro do céu. (Mateus 24:29-31)
Bahá’u’lláh também cita o Evangelho de Lucas:
Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre os povos, aterrados com o bramido e a agitação do mar; os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai acontecer ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima. (Lc 21:25-28)
Estes dois excertos dos evangelhos predizem que o “Filho do homem” – interpretado pelos Cristãos como sendo o regresso de Jesus Cristo – regressará com “grande poder e glória”. Os termos gregos originais usados para “glória” nestas narrativas evangélicas significam “louvor, honra, glória, esplendor, reconhecimento”. Os tradutores e comentadores tradicionalmente traduziram a palavra no contexto em que se encontra em ambos os textos evangélicos como significando “glória”.

A palavra hebraica “kavod” tem sido frequentemente traduzida para grego como “doxis” e partilham o significado de “glória”. Também partilham o sentido de esplendor, honra, brilho – tudo isto são termos associados ao aparecimento do divino no deserto do Sinai a Moisés, e a alguns profetas, especialmente Ezequiel. Assim, “glória” ajusta-se ao significado grego destes versículos.

Mas porque existem outros significados, é tentador analisar como se poderiam relacionar com as profecias aparentemente não cumpridas sobre o aparecimento de Maomé. É esperado que o regresso de Jesus Cristo seja recebido com hinos de louvor pelos seus seguidores em toda a terra. A raíz da palavra árabe “Ahmad”-H-M-D mostra-nos que todas as palavras que derivam dessa raiz estão relacionadas com “louvor”. Isso inclui “Ahmad que significa “altamente louvado” e Maomé (Muhammad) que significa “digno de louvor”.

Será que os sábios Muçulmanos não estavam suficientemente familiarizados com as narrativas do texto grego original do evangelho para reconhecer que o prometido Ahmad do Alcorão e nome do seu profeta Maomé (Muhammad) estar ali, nas “nuvens do céu, com grande poder e glória”?

Será que os sábios Cristãos não quiseram destacar estas semelhanças entre a terminologia grega e árabe por temer que os seus correligionários pudessem abandonar o rebanho e aderir ao Islão? Quaisquer que tenham sido os obstáculos dos tempos passados, agora estamos num tempo de compreensão mútua para a humanidade por esse motivo todos temos boas razões para considerar novas formas de interpretar estas palavras antigas.

Se se pretende defender que Jesus previu o aparecimento de Maomé, isto pode ser o princípio para curar as feridas que separaram e criaram inimizades entre as duas maiores comunidades religiosas no planeta. Pode mesmo levar as pessoas a reconhecer a unicidade essencial de todos os profetas e das suas religiões, cumprindo as próprias palavras de Bahá’u’lláh:
Se fores dos habitantes desta cidade no interior do oceano da unidade divina, verás todos os Profetas e Mensageiros de Deus como uma só alma e um só corpo, como uma só luz e um só espírito, de tal forma que o primeiro entre eles será o último e o último será o primeiro. Pois todos eles se levantaram para proclamar a Sua Causa e estabeleceram as leis da sabedoria divina. Eles são – cada um, e todos – as Manifestações do Seu Ser, os Repositórios do Seu poder, os Tesouros da Sua Revelação, os Lugares de Alvorada do Seu esplendor e os Amanheceres da Sua luz. Através deles manifestaram-se os sinais da santidade nas realidades de todas as coisas e os sinais da unicidade nas essências de todos os seres. Através deles revelaram-se os elementos da glorificação nas realidades celestiais e os expoentes do louvor nas essências eternas. Deles proveio toda a criação e a eles regressará tudo o que foi mencionado. E porque nos seus mais íntimos Seres eles são os mesmos Luminares e os mesmos Mistérios, deverás ver as suas condições exteriores à mesma luz, para que possas reconhecê-Los a todos como um único Ser, ou melhor, vê-los unidos nas suas palavras, afirmações e expressões. (Baha’u’llah, Gems of Divine Mysteries, pp. 33-34)

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Texto original: Did Jesus Foretell Muhammad? (www.bahaiteachings.org)

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Peter Terry é um académico independente, músico e professor. É autor dos livros A Prophet in Modern Times (uma biografia do Bab), In His Own Words (uma biografia de Baha'u'llah), Proofs of the Prophets (uma compilação e comentário sobre as 40 provas da condição de Profeta), Proofs of the Prophets: Lord Krishna e Proofs of the Prophets: Baha'u'llah.

sábado, 1 de junho de 2019

Pelo fim da violência doméstica



Quem nasceu e cresceu numa família unida e amorosa? E quem sabe como é crescer numa família onde a violência é uma realidade permanente? Os Bahá’ís acreditam firmemente na unidade familiar; mas também sabem que ela não existe em todas as famílias:

A primeira e mais importante ligação é a ligação familiar, mas esta nem sempre prevalece, pois quantas vezes acontece haver divergências e diferenças nas famílias. (‘Abdu’l-Bahá, Baha’i Scriptures, p. 279)

A violência doméstica está no topo da lista dos crimes violentos na maioria dos países do mundo. A violência doméstica contra adultos ou crianças - dizem os especialistas - prejudica as economias nacionais, porque funciona como base para praticamente todos os problemas sociais: crime violento, pessoas a viver nas ruas, e uma geração futura de alcoólicos e viciados em drogas.

Os ensinamentos Bahá’ís abominam e proíbem todas as formas de violência familiar, e insistem na protecção dos direitos humanos, na santidade e protecção de todos os membros da família:

Segundo os ensinamentos de Bahá’u’lláh, a família, sendo uma unidade humana, deve ser educada segundo as regras da santidade. Todas as virtudes devem ser ensinadas na família. A integridade da ligação familiar deve ser constantemente considerada, e os direitos dos membros individuais não devem ser violados. Os direitos do filho, do pai, da mãe – nenhum destes deve ser restringido, nenhum deve ser irrestrito. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 168)

Os Bahá’ís consideram a violência na família como um assunto de direitos humanos, e acreditam que cada elemento da família tem direito absoluto a uma existência pacífica e não-violenta.

No entanto, algumas sociedades patriarcais apoiam (e aceitam) há muito tempo a violência doméstica, o que por vezes dá origem a sistemas sociais e legais que permitem aos homens controlar completamente as mulheres e as crianças, atribuindo aos homens um poder ilimitado para dominar, oprimir e até “ser proprietário” dos outros. Nessas culturas, a violência na família tornou-se parte integrante da vivência diária, e é aceite por todos como algo “normal” ou “aceitável”.

Muitos países ignoram ou desculpam a violência na família, em nome da religião ou da cultura, e insistem que a soberania absoluta dos homens que controlam a família é mais importante que a segurança ou sanidade dos seus membros individuais. E quando se elabora legislação, algumas culturas consideram a violência na família como um assunto privado e nunca uma ofensa punível. Em alguns países, a lei proíbe que um membro da família acuse ou denuncie outro, mesmo no caso dos actos mais graves e violentos. E nos países onde existem leis que proíbem a violência na família, é frequente ver autoridades que pouco fazem para aplicar essas leis; na verdade, a lei serve como último recurso para a vítima de abusos.

Os Bahá’ís - a nível individual e institucional – trabalham há muito tempo para construir um modelo eficiente de direitos humanos que permita criar famílias livres de violência. Trata-se de tentar conseguir uma grande mudança cultural e exigir a aplicação de convenções internacionais como a Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Mulheres e a Convenção dos Direitos da Criança. Isto também exigirá intervenções dos Estados para proteger mulheres e crianças contra abusos e impedir que esses crimes aconteçam. Dirigentes políticos e religiosos, educadores e agentes da lei devem ser sensibilizados e mobilizados para apoiar novos valores culturais de respeito mútuo em vez do domínio de um género sobre o outro.

Mas esta enorme crise global requer mais do que novas leis e a sua aplicação - requer o desenvolvimento de paz e unidade no mundo. Sabemos que uma sociedade violenta produz famílias violentas. Tal como uma família violenta afecta a sociedade em geral, uma sociedade violenta reforça e consolida o ambiente de violência familiar:

Considerai os efeitos nefastos da discórdia e dissensão numa família; depois pensem nos favores e bênçãos que descem sobre uma família quando existe unidade entre os seus vários membros. Que benefícios e bênçãos incalculáveis descerão sobre a grande família humana se a unidade e a fraternidade forem estabelecidas! Neste século em que os benefícios resultantes da unidade e os efeitos nefastos da discórdia são tão visíveis, os meios para contruir e alcançar a comunhão humana surgiram no mundo. Bahá’u’lláh proclamou e proporcionou a forma pela qual a hostilidade e a agressividade podem ser eliminadas do mundo humano. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 229)


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Texto original: Baha’isCall for Violence-Free Families (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 25 de maio de 2019

Onde está o Reino de Deus?

Por Greg Hodges.


Assim, com passos firmes podemos percorrer o Caminho da certeza, para que talvez a brisa que sopra dos prados da complacência de Deus nos possa trazer suavemente os doces aromas da aceitação divina, e nos faça, mortais efémeros que somos, alcançar o Reino da glória perpétua. (Bahá’u’lláh, The Book of Certitude, ¶146)
O conceito de Reino de Deus pode ser uma importante ponte de entendimento entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Bahá’u’lláh. As seguintes citações permitem-nos perceber o que Jesus queria dizer quando usava esta expressão:

O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no Evangelho. (Mc 1:15)

O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo; O qual é, realmente, a mais pequena de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos. (Mt 13: 31-32)

E em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte até que vejam o reino de Deus. (Lc 9:27)

Então o que é, e onde está, o Reino de Deus? As escrituras de Bahá’u’lláh esclarecem esta questão.

Tradicionalmente no Cristianismo, o reino de Deus tem duas interpretações: uma considera-o como uma ordem política e social que num determinado momento se irá impor aos governos e facções que governam o mundo. Para alguns isto pode significar uma utopia socialista, uma teocracia Cristã, ou um cenário pós-apocalíptico em que Jesus assume o governo da Terra. Outra forma de pensar no Reino de Deus é entendendo que se trata de uma presença espiritual nas nossas almas que nos une ao Criador. Neste perspectiva, a forma como a sociedade funciona pode ser uma distração para a mais importante das nossas tarefas: a transformação das nossas almas.

O Livro da Certeza, um dos mais relevantes textos sagrados da Fé Bahá’í, apresenta uma visão sobre este tópico que engloba estas duas perspectivas. No Livro da Certeza, Bahá’u’lláh não apresenta o social e o espiritual, o interior e o exterior, o individual e o colectivo como estando em oposição entre si, mas antes como diferentes dimensões do plano de Deus para a humanidade.

A questão da soberania divina está presente ao longo de todo o Livro da Certeza. Apesar de expressões como “Reino de Deus” e a sua variante “Reino do Céu” não aparecerem com frequência no texto, Bahá’u’lláh ao descrever a forma como Deus governa e afirma o Seu domínio sobre o mundo, esclarece amplamente o significado a promessa de Jesus dobre o Reino de Deus. Apesar de ter sido proferida há muitos séculos atrás, esta promessa tem hoje uma enorme importância.

No Livro da Certeza, Bahá’u’lláh afirma que a soberania que Deus detém no Seu reino não se assemelha à soberania mundana e temporal exercida por dirigentes políticos. Bahá’u’lláh salienta que todos os Profetas de Deus foram perseguidos pelos seus inimigos, sentiram a apatia da população em geral, e até foram traídos por alguns dos que lhes eram mais próximos:
E agora pondera isto no teu coração: se soberania significasse a soberania terrena e o domínio mundano, se implicasse a sujeição e a lealdade aparente de todos os povos e famílias da terra – com a qual os Seus amados devem ser exaltados e viver em paz, e os Seus inimigos devem ser humilhados e atormentados – essa forma de soberania não seria verdadeira do Próprio Deus, a Fonte de todo o domínio, Cuja majestade e poder todas as coisas testemunham. (Bahá’u’lláh, The Book of Certitude, ¶133)
Em vez disso, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a soberania de Deus se refere ao poder criativo que envolve tudo o que existe na criação e reflecte Deus como Criador. Através deste poder criativo, Deus apresenta instrumentos adequados para orientação da humanidade; são os profetas de Deus: Jesus, Maomé, BudaBahá’u’lláh e outros. Como Criador transcendente e invisível do Universo, Deus está separado da sociedade humana. Mas falando através dos Seus profetas e mensageiros, Ele guia, dirige e participa nos eventos e assuntos que ligam as vidas individuais e colectivas dos seres humanos.

Cada um de nós tem capacidade para aceitar ou rejeitar voluntariamente a mensagem de Deus. Os profetas ao transmitir as palavras divinas à humanidade não usam a tremenda soberania irresistível de Deus para forçar as pessoas à submissão. Em vez disso, esses profetas são reis no espírito, e não reis na sociedade para quem se dirigem. Os que ouvem e lêem as palavras de Deus devem pô-la em prática por sua própria iniciativa, exemplificando-a nas suas próprias vidas, e num contexto social mais amplo isso poderá tornar-se um verdadeiro Reino de Deus:
E, no entanto, não é o objectivo de toda a Revelação efectuar uma transformação em todo o carácter da humanidade, uma transformação que se manifestará, exteriormente e interiormente, que afectará tanto a sua vida interior como as suas condições externas? Se o carácter da humanidade não mudasse, a inutilidade dos Manifestantes universais de Deus seria evidente. (Baha’u’llah, The Book of Certitude, ¶270)
Deus deixa que as pessoas construam e reflictam o Seu reino na Terra.

O Livro da Certeza e outras Escrituras Bahá’ís apresentam uma visão do Reino de Deus que se refere à vida interior da alma e à ordem social que envolve todas as pessoas.

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Texto original: Where Can We Find the Kingdom of God? (www.bahaiteachings.org)

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Greg Hodges é um apaixonado pela combinação da mudança social com a renovação espiritual. Vive com a sua esposa no Maine (EUA).

sexta-feira, 24 de maio de 2019

“Versículo” ou “verso”?

Recentemente, a minha atenção caiu na seguinte tradução de um excerto das escrituras Bahá’ís:

Fosse Eu relatar todos os versos que foram revelados com relação a este tema glorioso, cansaríamos o leitor e desviar-Nos-íamos do Nosso propósito. O verso seguinte bastar-Nos-á… (Bahá’u’lláh, Jóias dos Mistérios Divinos)

A utilização da palavra “verso” (tradução literal de “verse”, no inglês) nesta tradução parece-me incorrecta e descontextualizada. Infelizmente, não é a primeira vez que detecto este erro numa tradução de escrituras Bahá’ís.

Na literatura religiosa em língua portuguesa, chamamos versículos às pequenas frases ou parágrafos que constituem um texto sagrado. O dicionário da Porto-Editora apresenta os seguintes significados para a palavra “versículo”:
  1. (RELIGIÃO) cada uma das divisões de um capítulo da Bíblia
  2. palavras extraídas da Escritura, seguidas de responso, que se rezam ou cantam nos ofícios divinos, verseto
  3. subdivisão de um artigo, parágrafo, etc.

A palavra “verso”, por seu lado, refere-se a textos poéticos, cujas linhas tradicionalmente obedecem a certas normas rítmicas.

Acrescente-se ainda que os dicionários Inglês-Português da Porto Editora e da Collins sugerem que a palavra “verse” – num contexto religioso – seja traduzido como “versículo”.

Penso que é óbvio para todos que, no texto acima traduzido, Bahá’u’lláh refere-Se a excertos das escrituras; por esse motivo, a tradução – respeitando a língua e cultura portuguesa, e mantendo-se fiel ao sentido original da tradução em inglês – deveria usar a palavra “versículo”.

sábado, 18 de maio de 2019

Porque é que os Bahá’ís não votam em função dos partidos políticos

Por Peter Gyulay.


Como é sabido, os Bahá’ís não participam na política partidária, nem em debates políticos:
Os assuntos religiosos não se devem misturar com a política, na actual situação do mundo, pois os seus interesses não são idênticos. A religião interessa-se por assuntos do coração, do espírito e da moral.

A política ocupa-se com as coisas materiais da vida. Os mestres da religião não devem invadir o campo da política; devem preocupar-se com a educação espiritual do povo; devem dar sempre bons conselhos aos homens, tentar servir Deus e a espécie humana; devem esforçar-se por tentar despertar uma ambição espiritual, e trabalhar para alargar a compreensão e conhecimento da humanidade, para melhorar a moral, e aumentar o amor pela justiça. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pags. 158-159)
Para os Bahá’ís, este princípio do não envolvimento na política partidária emerge do princípio básico da Fé Bahá’í: a unidade. Bahá’u’lláh escreveu: “Tão poderosa é a luz da humanidade que pode iluminar toda a terra.” (Epistle to the Son of the Wolf, p. 14)

Com este propósito, os Bahá’ís envolvem-se no desenvolvimento social através de um discurso colectivo em vez de apoiar facções.

Assim, os Bahá’ís que vivem em países democráticos participam nos processos eleitorais, votando para escolher quem os deve representar e liderar o seu país. Na verdade, ‘Abdu’l-Bahá afirmou que era importante que todos os cidadãos votassem:
… como o governo da América é uma forma republicana de governo, é necessário que todos os cidadãos participem na eleição dos seus dirigentes e participem nos assuntos da república. (Tablets of Abdu’l-Baha, Volume 2, p. 342)
Isto mostra que cada cidadão de um país democrático tem a importante responsabilidade de expressar a sua opinião através do seu voto.

Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, também afirmou que os Bahá’ís “… podem votar, se o puderem fazer, sem se identificar com um ou outro partido.” (Directives from the Guardian, pag. 81)

Então os Bahá’ís votam, mas não apoiam qualquer partido político. Como é que isso funciona?
Nenhum Bahá’í pode ser considerado republicano ou democrata. Ele é, acima de tudo, um apoiante dos princípios enunciados por Bahá’u’lláh, com os quais - estou firmemente convicto – nenhum programa partidário é completamente harmonioso… (Shoghi Effendi, dirigido à Assembleia Nacional dos Estados Unidos e Canadá, 26 de Janeiro de 1933: Baha’i News, No. 85, July, 1934, p. 2)
Claro que um partido político pode ter políticas que promovam alguns princípios Bahá’ís, mas haverá sempre outros aspectos que estarão em conflito. Os Bahá’ís não se querem filiar em qualquer grupo que rejeite qualquer dos princípios e ensinamentos da sua Fé.

Então como é possível aos Bahá’ís votar se não se envolvem na política partidária? A atitude dos Bahá’ís é de votar na pessoa e nas suas políticas, mas não no partido. Se as leis do país permitem, os Bahá’ís registam-se para votar e mantêm a sua independência.

Antes da eleição, cada Bahá’í que deseja votar, compara cuidadosa e conscienciosamente cada candidato, as suas políticas, o seu carácter e experiência, e depois escolhe a pessoa que acredita ser o líder mais competente. Isto significa que a sua preferência pode alternar entre candidatos de diferentes partidos, porque o Bahá’í não é seguidor fiel de qualquer partido ou dirigente partidário.

Apesar do processo eleitoral secular se realizar de forma diferente do processo eleitoral Bahá’í – onde não existem filiações políticas, candidaturas ou campanhas eleitorais – cada Bahá’í ao votar pode adoptar algumas das abordagens das eleições Bahá’ís, escolhendo as políticas que têm mais aspectos em comum com os princípios Bahá’ís: a promoção da unidade mundial, a igualdade entre homens e mulheres, o fim da discriminação racial e religiosa, a redução das diferenças entre ricos e pobres.

Mas apesar dos Bahá’ís decidirem individualmente em quem votar, eles esforçam-se por não se deixar levar por cultos de personalidade que varrem muitos países durante as campanhas eleitorais. Os Bahá’ís tentam fazer uma escolha ponderada e imparcial, ignorando as mensagens distorcidas tantas vezes transmitidas pela comunicação social.

Os Bahá’ís que decidem votar – apesar de escolherem o candidato que consideram mais adequado para o cargo – devem esforçar-se por se distanciar dos resultados. Os Bahá’ís respeitam a decisão da maioria; por esse motivo, não consideram que um líder recém-eleito foi uma escolha errada, nem criticam essa escolha. Os Bahá’ís respeitam o governo e abstêm-se de espalhar a discórdia com opiniões políticas negativas ou críticas públicas.

Os Bahá’ís obedecem aos governos, a menos que esses governos lhes exijam que violem princípios Bahá’ís fundamentais. Os Bahá’ís, por exemplo, nunca obedeceriam a uma ordem governamental que lhes exigisse que rejeitassem as suas crenças ou negassem os seus princípios. Nessas situações, os Bahá’ís têm a liberdade - e até a obrigação - de falar contra essas exigências e expor a verdade. E convém sempre lembrar que apesar dos Bahá’ís poderem participar na eleição de dirigentes que acreditam poder dar um contributo positivo, no fundo, dedicam as suas energias e esperanças aos princípios regeneradores da sua religião.

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Texto original: Why Baha’is Don’t Vote Based on Party (www.bahaiteachings.org)

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Peter Gyulay é escritor, músico e educador da Austrália. Interessa-se pela exploração dos aspectos mais profundos da vida. Tem um site com a sua escrita e música e um blog chamado The nooks and crannies of existence.