quarta-feira, 20 de março de 2019

3 Coisas a Fazer para Acabar com o Terror



O recente massacre numa mesquita da Nova Zelândia – e todos os que o precederam – pretende separar-nos, criar desconfianças entre nós, criar mais ódio, dividir-nos enquanto seres humanos.

Como sabemos isso? São os terroristas que o dizem. No seu pretenso “manifesto”, o assassino da Nova Zelândia afirmou que matava pessoas inocentes para “incitar à violência, retaliação e fomentar a divisão”.

A palavra “terror” vem originalmente da palavra francesa terreur, que significa “terror, medo ou pavor”. É isso que os terroristas fazem: tentam provocar o medo, não apenas do futuro, mas também entre as pessoas. Eles querem que sintamos ódio, que fiquemos polarizados, que tenhamos medo dos outros, que vivamos em terror. Querem que fiquemos divididos e não unidos.

Então como pode uma pessoa sensata responder a estes actos hediondos? Como pode cada um de nós lidar com o ódio nesta dimensão? O que pode qualquer pessoa fazer?

Em momentos destes, quando desesperamos e nos sentimos desamparados, quando nos perguntamos como pode alguém perder a sua humanidade mais básica de forma tão completa, tendemos naturalmente a voltarmo-nos para a beleza, a espiritualidade e a clareza moral da fé. Os profetas e os fundadores das religiões encorajaram-nos a sanar as nossas divisões e a amar-nos uns aos outros – a trabalhar pela unidade, pela unicidade e pela paz:

Os Profetas de Deus devem ser considerados como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e dos seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXXIV)

…é evidente que os Profetas de Deus vieram para unir os filhos dos homens e não para os dispersar, para estabelecer a lei do amor e não da inimizade. Consequentemente, devemos pôr de parte todos os preconceitos – sejam religiosos, raciais, políticos ou patrióticos; devemos tornar-nos o motivo da unificação da raça humana. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 162-163)

Estas instruções vindas dos profundos tesouros espirituais da Fé Bahá’í dão-nos respostas claras às perguntas desagradáveis que o terrorismo levanta.

Em poucas palavras, estes ensinamentos pedem-nos que façamos três coisas vitais e muito específicas em resposta aos que semeiam ódio e divisão: ver todas as religiões como uma só; “por de parte todos os preconceitos”; e pessoalmente, ser “motivo da unificação da raça humana”.

Em primeiro lugar, os ensinamentos Bahá’ís dizem que devemos ver todos os profetas como médicos que trazem a cura para a doença da divisão. As suas mensagens não são hostis, nem rivalizam; pelo contrário, as suas mensagens são essencialmente a mesma – amar o próximo, aceitar o outro, ver amigos e não estranhos, adorar o mesmo Deus aceitando todas as pessoas como uma criação comum. A Fé Bahá’í enfatiza a unidade de todas as religiões, enfatizando as suas verdades essenciais e não as suas diferenças superficiais:

Todas estas divisões que vemos em todos os lados, todas estas disputas e confrontos, são causadas por homens que se agarram a rituais e aspectos aparentes, e esquecem a verdade simples e essencial. São as práticas visíveis que são diferentes; são elas que causam as disputas e as inimizades – mas a realidade é sempre a mesma e é uma só. A Realidade é a Verdade, e a verdade não tem divisão. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 120-121)

Em segundo lugar, os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que respondamos ao ódio e à divisão, trabalhando pessoalmente para derrotar e destruir os nossos próprios preconceitos. Todos temos preconceitos. Todas as pessoas formam opiniões e crenças baseadas nas suas experiências de vida, que frequentemente as leva a desenvolver medos, fobias e ódios. E esse trabalho espiritual interior – uma tarefa essencial e vitalícia de todo o Bahá’í, e dos crentes de qualquer religião – pede-nos que vejamos a luz do Criador nos olhos de todos os seres humanos que encontramos:

Não é próprio de um homem amaldiçoar outro; não é digno que um homem lance trevas sobre outro; não é adequado que um ser humano considere outro ser humano como maligno; pelo contrário, todos os humanos são servos de um único Deus; Deus é o Pai de todos; não há uma única excepção para esta lei. Não existem pessoas de Satanás; todos pertencem ao Misericordioso. Não existem trevas; tudo é luz. Todos são servos de Deus, e o homem deve amar a humanidade no seu coração. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 266)

Temos de reconhecer que não é uma tarefa fácil. Se queremos eliminar todo o ódio do mundo, parece correcto que comecemos por eliminá-lo dos nossos corações. Quando lhe foi pedido que resumisse os ensinamentos Bahá’ís, ‘Abdu’l-Bahá disse aos Bahá’ís:

… estabelecer a base do amor e da amizade, erguer a melodia do afecto e a unicidade do Reino da humanidade; transformar a tirania e a perseguição em amor e fidelidade; eliminar os rastos da carnificina; construir o edifício da reconciliação; dispersar as trevas das separação; difundir a luz da unidade; trocar o veneno da animosidade pelo mel do afecto carinhoso; destruir preconceitos religiosos, nacionais e sociais nos membros da humanidade; viver e agir com os outros como se fossem todos de uma raça, um país, uma religião e uma espécie. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 1, p. 5)

Em terceiro lugar, os ensinamentos Bahá’ís desafiam todas as pessoas a tornarem-se motivo de unificação da raça humana.

Esse enorme empreendimento pode por vezes parecer-se com escalar uma grande montanha. Vivemos em culturas que separam as pessoas por raça, religião, classe social e nacionalidade. Vivemos em bairros diferentes, raramente socializamos, construímos muros entre nós. Então como é que uma pessoa, num mundo onde as forças da divisão e do ódio parecem tão universais, pode ser motivo de unidade para todos os povos?

Apenas nos tornamos motivo de unificação quando nos juntamos a outros para fazer isso acontecer.

Assim, podemos perguntar-nos: quando foi que estive com um grupo diferente para planear ou fazer algo unificador? As minhas redes sociais – as verdadeiras, não as virtuais – incluem pessoas de diferentes raças, origens religiosas e classes sociais? Quando foi que eu saí das minhas rotinas para me encontrar com pessoas com as quais não tenho muito em comum? Consegui chegar a alguém diferente, apenas para mostrar que quero atravessar as barreiras que nos separam? Que coisas fiz que motivassem a unidade?

Amai todas as religiões e todas as raças com um amor que seja verdadeiro e sincero, e mostrai esse amor através de actos e não apenas através da língua, porque esta última não tem importância, pois a maioria dos homens, nas palavras, é bem-intencionada; mas as acções são melhores. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 69)

Se as suas respostas àquelas perguntas não o satisfazem, e não sabe como se tornar um motivo de unidade, pense no que pode mudar na sua vida e como pode reorganizar-se para criar uma comunidade que apoia a pratica os valores do amor e da unidade. A comunidade Bahá’í recebe todos os que se quiserem juntar e ser motivo de unificação da raça humana.

Quando se faz parte desse movimento – o maior, o mais global movimento social alguma vez imaginado e realizado – trabalha-se a todo o momento para derrotar o ódio e o preconceito divisivo que alimenta o terrorismo.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

A fonte de toda a glória...


sábado, 16 de março de 2019

O que nos disseram todos os Profetas sobre Deus?

Por Maya Bohnhoff.


As escrituras antigas e recentes dizem-nos que, porque Deus é espírito, Ele delega a professores humanos – tal como Cristo e Bahá’u’lláh disseram – a tarefa de manifestar os Seus “nomes”, as Suas qualidades ou atributos, para a humanidade:
Sabei que Deus – exaltado e glorificado seja – de modo algum manifesta a Sua Essência e Realidade. Desde os tempos imemoriais Ele tem estado velado na eternidade da Sua Essência e oculto na infinidade do Seu próprio Ser. E quando Ele pretendeu manifestar a Sua beleza no reino dos nomes e revelar a Sua glória no reino dos atributos, Ele trouxe os Seus Profetas do plano invisível para o visível… (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, p. 35)
Milhares de anos antes, Krishna explicou este papel: “Pois eu sou a morada de Brahman (Deus), a fonte constante de vida eterna. A lei da rectidão é a minha lei; e a minha alegria é a alegria eterna”. (Bhagavad Gita 14: 27)

A Torá salienta a singularidade desta relação entre Deus e o mensageiro:
Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, em visão a ele me farei conhecer, ou em sonhos falarei com ele. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, e de vista, e não por figuras; pois ele vê a semelhança do Senhor (Números, 12:6-8)

“Assim”, explicou Buda, “o Tathagata (O Justo) conhece o caminho recto que conduz à união com Brahman (Deus). Ele conhece-o como quem entrou no mundo do Brahman e nasceu nele. Não pode haver dúvida no Tathagata.” (Digha-nikaya 9:35)
Cristo referia-se à Torá quando disse:
Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. (João 6:45-46)
Então o que é que estes mensageiros nos dizem sobre este ser de quem dizem ser representantes?

Krishna falou bastante sobre isto no Bhagavad Gita, abordando primeiramente a natureza incognoscível do Espírito Supremo:
Mas para lá desta criação visível e invisível, existe um Eterno invisível e superior; e quando todas as coisas falecerem, este permanecerá para todo o sempre. Este invisível é chamado o Perpétuo e é o Fim supremo mais elevado. E aqueles que O atingem, nunca regressam. Esta é a Minha morada suprema. Este Espírito Supremo, Arjuna, é alcançado por um amor sempre vivo. Nele todas as coisas têm a sua vida, e Dele todas as coisas vieram. (Bhagavad Gita 8:20-22)
Seguidamente, ele fala da relação desse Ser com o universo:
Todo o universo visível vem do meu Ser invisível. Todos os seres encontram apoio em mim, mas Eu não Me apoio neles, e, na verdade, eles não se apoiam em Mim. Considera o meu mistério sagrado: Eu sou a fonte de todos os seres, Eu apoio todos mas não Me apoio neles. (Bhagavad Gita 9:4)
Como escritora, “compreendo” perfeitamente o que Krishna que dizer. Posso não compreender Deus directamente, mas compreendo o que é estar e não estar nas minhas criações. Aqui fica a minha perspectiva: Eu estou nos livros que escrevo e nas personagens que crio, mas não na minha totalidade. Eles são reflexos do meu intelecto; sem mim, não existiriam, mas eu não estou ligada a eles pelas leis do universo que criei. Porque é que haveríamos de imaginar que Deus está limitado pelas leis do universo que Ele criou?

Penso que isto é um erro fundamental que fazemos quando pensamos em Deus como sendo um ser como nós, limitado pelas leis da física. Isto faz com que pessoas inteligentes coloquem questões simplistas do tipo “Quem criou Deus?” ou “Será que Deus consegue criar uma pedra tão pesada que Ele próprio não consiga levantar?”.

Isso seria como se uma das personagens dos meus livros perguntasse “Quem escreveu a Autora?” ou “Será que a Autora consegue escrever sobre uma pedra imaginária que ela própria não consegue levantar?” Este tipo de questões é insignificante porque eu não fui criada da mesma forma que elas. As suas vidas estão limitadas pelas palavras do livro, enquanto a minha vida não tem essa limitação. Eu existia antes delas e continuarei a existir quando terminar de escrever o livro.

As questões também são insignificantes porque partem de um pressuposto sobre a dimensão em que vive o Criador/autor. Mesmo na dimensão dos meus mundos imaginários com as suas pedras imaginárias, o conceito de levantar fisicamente um objecto não tem qualquer sentido, pois o mundo em que actuam as minhas personagens é uma realidade intelectual e não uma realidade física.

Compreendo o que isso significa para as personagens e mundos que criei para existirem como realidades intelectuais sem existirem no mundo material. Isto é outra coisa que as escrituras têm afirmado repetidamente: as realidades intelectuais e espirituais precedem a realidade material, e não o inverso.

E por isso, Bahá’u’lláh afirmou:
Velado no Meu Ser imemorial e na eternidade antiga da Minha Essência, conheci o Meu amor por ti; por isso, criei-te, gravei em ti a Minha imagem e revelei-te a Minha beleza. (As Palavras Ocultas, do árabe, #3)

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Texto original: What Have All the Prophets Told Us About God? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 9 de março de 2019

Quem é Deus? O que é Deus?

Por Maya Bohnhoff.


Certamente já ouviram esta pergunta: “Será que Deus consegue criar uma pedra tão pesada que Ele próprio não consiga levantar?”. O objectivo é refutar o argumento de um Deus omnipotente.

Aqui a linha de raciocínio é a seguinte: “Se Deus é todo-poderoso, então deve ser capaz de criar de criar uma pedra que Ele próprio não consegue levantar. Se Ele não consegue criar essa pedra, então não é todo-poderoso. Se Ele não consegue levantá-la, então não é todo-poderoso. Portanto, não existe um Deus omnipotente.”

Este raciocínio baseia-se em suposições sobre Deus e os seres humanos. Primeiro temos a suposição de que Deus é uma criatura como nós, para quem a actividade física de levantar objectos é aplicável e tem significado. E depois temos a suposição de que os humanos podem compreender o conceito de omnipotência tal como se aplica a Deus.

Fui criada com uma noção claramente Cristã sobre Deus, moldada pela insistência dos meus pais de que devia olhar para a vida e palavras de Cristo para compreender este Grande Conceito. Consequentemente, cheguei à conclusão que Cristo era um reflexo da glória de Deus num espelho, tal como dizia a metáfora usada pelo Apóstolo Paulo. No entanto, eu percebia que alguma doutrina Cristã conceptualizava Deus como uma espécie de super-humano – um ser que podia ser material ou espiritual conforme desejasse.

Recentemente, quando fiz uma apresentação sobre a natureza progressiva da revelação divina, um amigo da China expressou as suas dificuldades com a questão “Quem é Deus?”. Vindo de uma sociedade completamente secular onde é a estranha a noção de um ser supremo que se pode referir como “alguém”, a sua questão era “o que é Deus?”

A sua questão fez-me reflectir: o que dizem, verdadeiramente, as escrituras sagradas sobre a natureza de Deus?

Uma das mais antigas escrituras existentes que descobrimos é conhecido como O Livro Egípcio dos Mortos (e cuja tradução literal do título em egípcio é O Livro dos que Emergem para a Luz). Os textos das epístolas que constituem o livro remontam ao século XIV a.C. O seguinte texto data, aproximadamente, de 1250 a.C.:
Deus é um e único, e nenhum outro existe com Ele – Deus é o Uno, Aquele que fez todas as coisas – Deus é um espírito, um espírito oculto, o espírito dos espíritos, o grande espírito dos Egípcios, o espírito divino. Deus é desde o início…Ele existe desde a antiguidade, quando nada mais existia. Ele é o Pai dos princípios – Deus é o Eterno, Ele é perpétuo e infinito e perdura indefinidamente para sempre – Deus está oculto e nenhum homem conhece a Sua forma… O Seu nome é um mistério para os Seus filhos. Os Seus nomes são incontáveis, são múltiplos e ninguém sabe quantos são. (Papiro de Ani)
Além da noção de que os seres humanos não podem “ver” ou compreender Deus directamente, o Papiro de Ani mostra um aparente paradoxo: o “nome” de Deus é desconhecido, mas múltiplo. Segundo as escrituras – antigas e recentes – os nomes de Deus são as Suas qualidade, atributos e virtudes. Exemplos desses nomes são o Misericordioso, o Generoso, o Omnipotente, o Omnisciente, etc.

Um ensinamento essencial de Bahá’u’lláh – e de outros mensageiros divinos – é que Deus (ou o quer que queiramos chamar ao Criador) é incognoscível na sua essência. Deus é incognoscível pela simples razão que não é um ser como nós. O nosso intelecto é um reflexo do intelecto do Criador, mas apenas um reflexo. Deus é absoluto e independente; nós somos dependentes:
Mas para lá da Minha natureza visível, está o Meu espírito invisível. Este é a fonte da vida com a qual o universo começou. Todas as coisas têm vida nesta Vida, e Eu sou o princípio e o fim. Em todo este vasto universo não existe nada superior a Mim. (Krishna, Bhagavad Gita 7:5-7.)
O Buda referiu-se a este Espírito como o Absoluto e o Adorável, e descreveu a sua natureza da seguinte forma:
Existe, ó monges, o Não-nascido, o Não-formado, o Não-criado, o Não-composto; se não existisse, ó monges, este Não-nascido, este Não-formado, este Não-criado, este Não-composto, não haveria saída do mundo do nascido, do criado e do formado. (Udana 80-81.)
Cristo afirmou: “Deus é espírito e os seus adoradores devem adorar em espírito e em verdade” (João 4:24)

Isto levanta a questão: Como podemos conhecer Deus? A resposta é dada nas citações apresentadas anteriormente, mas Bahá’u’lláh responde directamente nas Suas escrituras:
... e porque não pode haver laço ou relação directa que ligue o Deus uno e verdadeiro com a Sua criação, e nenhuma semelhança pode existir entre o efémero e o Eterno, o contingente e o Absoluto, Ele ordenou que em todas as eras e dispensações uma Alma pura e imaculada se manifestasse nos reinos da terra e do céu. A este Ser subtil, misterioso e etéreo, Ele atribuiu uma dupla natureza: a física, pertencendo ao mundo da matéria, e a espiritual, que nasce da substância do Próprio Deus… Estas Essências do Desprendimento, estas Realidades resplandecentes, são canais da graça universal de Deus… Eles têm poder para usar a inspiração das Suas palavras, as efusões da Sua graça infalível e brisa santificadora da Sua revelação para purificar todo o coração ansioso e espírito receptivo das impureza e poeira das inquietações e limitações terrenas. Então, e apenas então, emergirá a Confiança de Deus, latente na realidade do homem… (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXVII)

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Texto original: Who—or What—is God? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 2 de março de 2019

O Argumento Moral para a Existência de Deus

Por David Langness.


No outro dia comprei algumas coisas numa loja, e paguei com uma nota de 20$. A menina da caixa deu-me o troco que meti no bolso sem verificar. Agradeci e saí, mas quando cheguei ao carro percebi que ela me tinha dado troco a mais - cerca de 35$. Aparentemente, pareceu-me, ela confundiu uma nota de 20$ com uma nota de 1$.

Isso já aconteceu consigo? O que fez?

Quando isso acontece, provavelmente todos nós pensamos primeiramente em guardar esse dinheiro a mais. Mas depois, normalmente, o nosso sentido moral interior entra em acção e começamos a perguntar-nos: "E se a menina caixa chegar descobrir que lhe falta dinheiro e tiver que desembolsar do seu próprio bolso? Eu se o patrão dela a acusar de roubo? E se ela perder o emprego?"

Em situações como esta, essas considerações morais interiores ocorrem a quase todos nós. Filósofos e teólogos sabem, há muitos séculos, que ao contrário de qualquer outra criatura, as pessoas normais têm uma consciência aparentemente natural, uma bússola moral interior. Essa moralidade leva-nos muitas vezes a ignorar os nossos próprios interesses e a agir desinteressadamente e moralmente no interesse dos outros. Esta qualidade espiritual, única nos seres humanos, levou muitos filósofos a concluir que a nossa consciência revela a existência de uma lei moral maior - e, portanto, um Legislador transcendente.

Immanuel Kant
Este argumento filosófico profundo e subtil sobre a existência de Deus foi inicialmente apresentado pelo grande filósofo Immanuel Kant, que escreveu que o objectivo final da humanidade inclui o alcançar da felicidade perfeita, que vem da virtude. Kant chamou a isto “o imperativo categórico”, o mandamento supremo sobre nossos poderes de raciocínio interior ao serviço de uma vida moral e virtuosa. E porque esta qualidade moral existe universalmente entre os seres humanos, Kant raciocinou que deve existir uma vida após a morte; e, consequentemente, Deus também deve existir. O caminho lógico de Kant é algo parecido com isto:

  • Os seres humanos têm impulsos morais naturais;
  • Essa a moralidade apenas pode vir de uma fonte superior de bem moral;
  • Portanto Deus existe.

O universalismo moral de Kant teve um impacto enorme nos nossos conceitos humanitários, políticos, sociais e jurídicos modernos de igualdade, justiça e direitos humanos. Outros filósofos seguiram e expandiram o raciocínio de Kant, concluindo que a existência da consciência humana significa que existem verdades morais objectivos - e que a fonte última dessas verdades deve ser Deus.

Vários filósofos modernos colocaram a mesma ideia de forma um pouco diferente: qualquer coisa que a nossa consciência e moralidade nos obrigam a fazer deve ser possível - e alcançar o bem perfeito da felicidade e da virtude moral só se torna possível se existir uma ordem moral natural.

Nos ensinamentos Bahá’ís, encontramos este argumento moral lógico sobre a existência de um Ser Supremo em diversos textos. O eixo principal da mensagem Bahá’í - que a realidade é fundamentalmente de natureza espiritual - vê o indivíduo como um ser espiritual, uma "alma racional", com capacidades morais e intelectuais inatas, inerentes e dadas por Deus:
Se examinarmos a história, observamos que o progresso humano tem sido maior no desenvolvimento de virtudes materiais. A civilização é o sinal e a evidência desse progresso. Por todo o mundo, a civilização material alcançou níveis e graus de eficiência verdadeiramente maravilhosos - isto é, os poderes exteriores e as virtudes do homem desenvolveram-se muito, mas as virtudes e ideais interiores foram, consequentemente, atrasadas e negligenciadas. Agora é o momento da história do mundo para nos esforçarmos e darmos um impulso ao avanço e desenvolvimento das forças interiores - isto é, temos de nos levantar para servir no mundo da moralidade, porque a moral humana precisa de ser reajustada. Também devemos prestar um serviço ao mundo da intelectualidade, para que as mentes dos homens possam aumentar em poder e tornar-se mais profundas na percepção, auxiliando o intelecto do homem a atingir a sua supremacia para que as virtudes ideais possam surgir. Antes de dar um passo nessa direcção, devemos ser capazes de provar a Divindade do ponto de vista da razão para que nenhuma dúvida ou objecção possa permanecer para o racionalista. Depois, devemos ser capazes de provar a existência da graça de Deus - aquela recompensa divina que envolve a humanidade e que é transcendente. Além disso, devemos demonstrar que o espírito do homem é imortal, que não está sujeito à desintegração e que inclui as virtudes da humanidade.

... As pessoas falam da Divindade, mas as ideias e crenças que têm sobre a Divindade são, na realidade, superstições. A Divindade é o esplendor do Sol da Realidade, a manifestação de virtudes espirituais e poderes ideais. As provas intelectuais da Divindade baseiam-se na observação e na evidência, que constituem um argumento definitivo, que prova logicamente a realidade da Divindade, o esplendor da misericórdia, a certeza da inspiração e da imortalidade do espírito. Esta é, na realidade, a ciência da Divindade. A divindade não é o que se encontra estabelecido nos dogmas e sermões da igreja. Normalmente, quando se menciona a palavra Divindade, esta é associada, na mente dos ouvintes, com certas fórmulas e doutrinas, apesar de significar essencialmente a sabedoria e o conhecimento de Deus, o esplendor do Sol da Verdade, a revelação da realidade e a filosofia divina. ('Abdu'l-Bahá, A Promulgação da Paz Universal, pp. 325-326)
Então, o que fiz eu com o meu troco em demasia? Avaliei com a minha própria consciência e, seguidamente, devolvi-o à menina da caixa, na loja. Ela olhou para mim com gratidão, disse-me que eu a tinha livrado de grandes problemas no trabalho. Saiu detrás do balcão e deu-me um abraço.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

O Problema dos Milagres

Por Christopher Buck.


As profecias muitas vezes predizem milagres. Esses sinais e maravilhas são descritos como prodígios, ou sinais divinos. No entanto, há um grande problema: os milagres são literais ou simbólicos?

Esta é uma questão importante, porque a resposta faz toda a diferença. Porque um milagre real seria totalmente óbvio - tão óbvio que todos os que tivessem visto o milagre, acreditariam. Se você tivesse visto um milagre acontecer perante os seus olhos, que escolhas teria?

Mas... e se esse milagre não for assim tão óbvio? E se os milagres e as profecias contiverem um “código” simbólico que descreva futuros eventos espirituais? Se assim for, então as profecias nunca se poderão cumprir aos olhos de pessoas que esperam milagres exteriores.

Na perspectiva Bahá'í, os milagres interiores são muito mais importantes do que outros. Aqui, por "milagre", referimo-nos a algum tipo de profunda transformação física ou espiritual.

A crença popular é que os milagres são provas sobrenaturais de uma missão divina. Por outras palavras, um profeta ou mensageiro de Deus, deve realizar milagres. Mas... e se isso não for verdade?

Tendo isto em mente, vamos apresentar uma nova definição da palavra "milagre". Esta definição inclui a revelação de mensagens de Deus, que no passado foi descrita como um milagre. Por exemplo, os versículos do Alcorão são chamados "milagres" e também "versículos" - a mesma palavra em árabe descreve ambos.

Para aprofundar este novo significado de um milagre, vamos consultar um livro do Báb - o precursor de Bahá’u’lláh - chamado As Sete Provas, e aclamado como "a mais importante das obras polémicas do Bab" (Shoghi Effendi, God Passes By, p. 26). A "Primeira Prova" d’As Sete Provas nunca foi oficialmente traduzida e publicada como tradução autorizada. Agora, pela primeira vez, apresentamos as seguintes traduções provisórias (que, de acordo com a actual política Bahá’í, podem ser publicadas on-line, apesar de não estarem aprovadas oficialmente), das versões persa e árabe:
Se os versículos do Alcorão não eram maiores do que os milagres de todos os Profetas [que apareceram antes de Maomé], então, como é que os Livros deles foram revogados pelo Alcorão? Como é que o só o Alcorão perdurou? Isto, só por si, é uma prova forte e decisiva de que esta prova [o Alcorão] sempre foi - e continua a ser - maior do que a vara de Moisés e outros desses milagres físicos apresentados como provas [pelos Profetas do passado]. (The Bab, Seven Proofs, tradução provisória do persa por Omid Ghaemmaghami)
A "Primeira Prova" do Báb parece-me magistral na sua força lógica, irrefutável no seu argumento, carismática no seu tom e conteúdo, e poderosa pela força da sua surpreendente brevidade.

Fiquei estupefacto com esta passagem. Para mim, isto é um verdadeiro milagre, se um milagre é definido como um evento sobrenatural - não sobrenatural no sentido de suspender leis naturais, mas sobrenatural ao transmitir sabedoria divina na sua forma mais pura.

Na minha compreensão limitada desta lógica, o Báb usa o termo "milagres" de duas maneiras: (1) milagres físicos; e (2) livros sagrados, ou seja, as escrituras das religiões do mundo. Isto está em perfeita concordância com a tradicional compreensão islâmica de "milagres". O Alcorão é considerado um "milagre" porque o seu poder e singularidade não podem ser reproduzidos, o que significa que ninguém pode criar algo equivalente. A mesma lógica aplica-se às escrituras do Báb e de Bahá’u’lláh.

O contraste não podia ser mais profundo: apesar dos milagres físicos serem importantes no seu momento, a sua influência é fugaz e de curta duração - embora a memória desses milagres possa durar. Esses milagres são literalmente "incríveis", o que significa que só podem ser credíveis como uma questão de fé. Os cépticos, que exigem prova, não aceitam tais afirmações. Por outras palavras, os milagres não são verificáveis - excepto como uma questão de fé para aqueles que os testemunharam - e não podem ser reproduzidos.

O maior milagre - como indica a primeira prova do Báb - vem da revelação da Palavra de Deus, que influencia criativa e profundamente as mentes, os corações e as almas daqueles que se deixam tocar lendo-a ou escutando-a. Aqui, o efeito no ouvinte - ou no leitor - é poderoso, carismático, duradouro, verificável e reproduzível. Nesse sentido, a Palavra de Deus tem uma influência mais poderosa, milagrosa e duradoura do que qualquer milagre físico, narrado na Bíblia, no Alcorão, ou em qualquer outro texto sagrado.

Vejamos agora uma tradução da versão árabe dessa primeira prova:
Ninguém, salvo que Deus terá alguma vez o poder de revelar versículos como os de Furqan [o Alcorão]. Na verdade, haverá alguma coisa criada mais maravilhosa do que isto, se sois dos que reflectem nessa verdade? Decretámos um período para o povo do Furqan, desde o dia da sua revelação até este momento, até que todos soubessem com certeza que eles eram incapazes para produzir algo semelhante, para que, por ventura, quando ouvissem os versículos de Deus no Dia do Dia Revelação da Sua prova, eles acreditassem tal como o fizeram anteriormente. Ponderai como Deus fechou os seus véus, e como Ele não tem sido tão misericordioso com todos os povos da terra como foi com eles; e, no entanto, eles ignoram a Causa de Deus. Sempre que Deus deseja revelar um versículo, nenhuma fuga têm eles em matéria da sua fé.

Actualmente, eles dizem que isto (o Alcorão) é, em verdade, de Deus, a Ajuda no Perigo, o Que Subsiste por Si próprio, mas se dissessem que esses versículos não são de Deus, eles negariam a Palavra de Deus que receberam antigamente no Furqan. Pois ninguém, excepto Deus, tem o poder de revelar nem que seja um único versículo; estivestes certos disto, cada um e todos, nos tempos passados. (The Bab, Seven Proofs, tradução provisória do árabe por Joshua Hall)
Aqui, compreendi que o Bab se refere exteriormente ao Alcorão, mas interiormente à Sua própria revelação – e ao poder fortalecedor e milagroso da Palavra de Deus.

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Texto original: The Problem with Miracles (www.bahaiteachings.org)


Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

A Epístola Mais Sagrada de Bahá’u’lláh – aos Cristãos

Por Christopher Buck.


“Abri as portas dos vossos corações. Aquele que é o Espírito, em verdade, está diante deles”. Isto não parece que Jesus está a bater à porta do seu coração?

Mas estas palavras são de Bahá’u’lláh, que - acreditam os Bahá’ís - foi predito por Jesus.

O leitor talvez já tenha ouvido sobre o Livro Mais Sagrado (Kitab-i-Aqdas, em árabe) de Bahá’u’lláh que, tal como o título indica, é o livro mais importante das escrituras Bahá’ís. Mas sabia que também existe uma “Epístola Mais Sagrada” (Lawḥ-i-Aqdas)? Esta importante epístola é conhecida entre os Bahá’ís do Ocidente como “Epístola aos Cristãos”. A citação anterior foi retirada dessa epístola.

Existem fortes indícios de que Bahá’u’lláh revelou a Epístola Mais Sagrada para o médico sírio Cristão Faris Effendi, que, como sabemos, foi o primeiro Cristão a declarar a sua fé em Bahá’u’lláh, em Agosto de 1868, quando estava na prisão em Alexandria. Faris tinha conhecido a Fé Bahá’í através de outro companheiro de prisão, Nabil-i A’zam, um dos dezanove Apóstolos de Bahá’u’lláh e famoso historiador Bahá’í. As evidências de que a Epístola Mais Sagrada tenha sido revelada para Faris são fortes, mas não são conclusivas. Não obstante, o académico Bahá’í, Stephen Lambden, apresentou fortes argumentos que sustentam que, de facto, Bahá’u’lláh revelou a Epístola Mais Sagrada para Faris, o médico.

A Epístola Mais Sagrada inicia-se com as seguintes palavras:
Esta é a Epístola Mais Sagrada que foi enviada do reino santo para aquele que voltou a sua face para o Objecto de adoração do mundo, Aquele que desceu do céu da eternidade, investido com glória transcendente.

Em nome do Senhor, o Senhor de grande glória.

Esta é uma Epístola da nossa Presença para aquele a quem os véus dos nomes não conseguiram afastar de Deus, o Criador da terra e do céu, para que os seus olhos se possam alegrar nos dias do seu Senhor, o Auxílio no Perigo, o Que Subsiste por Si Próprio. (Bahá’u’lláh, Tablets of Bahá’u’lláh, p. 9)
A frase de abertura refere-se a uma pessoa em particular, que apesar de conhecida, não é referida pelo nome. O destinatário era obviamente um Cristão.

Seguidamente, Bahá’u’lláh dirige-se aos Cristãos colectivamente - “Diz, ó seguidores do Filho!” - e repreende-os por se terem “afastado d’Ele [Bahá’u’lláh] e permanecido mergulhados na negligência” (Idem)

É difícil determinar se esta afirmação é retórica, hiperbólica ou literal. Era literalmente verdade, num determinado momento, em que apenas um pequeno grupo de Cristãos – e possivelmente apenas Faris, o médico – tinham reconhecido Bahá’u’lláh como aquele que Cristo tinha predito.

Na Sua epístola aos Cristãos, Bahá’u’lláh refere-Se especificamente ao Livro de Isaías e também a profecias de outras escrituras. Depois Bahá’u’lláh destaca os líderes religiosos como principais responsáveis por manterem a situação dos seus seguidores, que os impedia de compreender - quanto mais aceitar - qualquer anúncio de uma nova revelação, tal como Bahá’u’lláh fizera.

Bahá’u’lláh invoca tempos passados para definir um precedente histórico e padrões de advento profético seguidos de rejeição popular, como estando novamente em acção no momento actual. Tal como aconteceu no passado, também acontece no presente. Bahá’u’lláh adverte os Cristãos:
Ele lêem o Evangelho e, no entanto, recusam-se a reconhecer o Senhor Todo-Glorioso, não obstante Ele ter vindo com o poder do Seu domínio enaltecido, poderoso e gracioso. Nós, em verdade, viemos por vossa causa e suportámos as desgraças do mundo para vossa salvação. Fugis d’Aquele Que sacrificou a Sua vida para que pudésseis ser vivificados? Temei a Deus, ó seguidores do Espírito, e não sigais os passos dos sacerdotes que se perderam. (Idem, p. 10)
Bahá’u’lláh indica que Jesus, o Sinai e a “Sarça Ardente” proclamam que reconheceram o Seu advento:
Aquele que é o Desejado surgiu na Sua majestade transcendente. “Diz, Ei-lo! O Pai surgiu e aquilo que vos foi prometido no Reino, cumpriu-se! Esta é a Palavra que o Filho ocultou, quando Ele disse para os que o rodeavam “Não a podeis suportar agora”. E quando momento escolhido chegou e a Hora soou, o Verbo brilhou no horizonte da Vontade de Deus. (Idem, p. 11)
Significativamente, Bahá’u’lláh diz sobre Jesus: “Diz, em verdade, Ele testemunhou por Mim e Eu testemunhei por Ele. De facto, Ele não propôs outro que não Eu.” (Idem) Esta é, verdadeiramente, uma afirmação tremenda. Afasta-se das expectativas Cristãs sobre eventos cataclísmicos e apocalípticos que deveriam anunciar de forma inequívoca o regresso de Cristo.

A salvação que Bahá’u’lláh oferece não é a mesma que a do Cristianismo tradicional. Bahá’u’lláh proclama: “O Meu corpo suportou o encarceramento para que pudésseis libertar-vos do cativeiro do ego.” (Idem p.12) Notavelmente, isto nada tem a ver com a doutrina do pecado original – mas tem tudo a ver com transcendermos a nossa natureza inferior.

Note-se que a doutrina de Bahá’u’lláh sobre salvação é totalmente omissa sobre “nascer em pecado”.

A noção de salvação apresentada por Bahá’u’lláh é clara e desfaz a ilusão de que a ira de Deus deve, de alguma forma, ser acalmada – especialmente com o derradeiro “sangue do sacrifício” de Jesus Cristo na cruz, onde Jesus sofreu no nosso lugar. Aqui não existe esse tipo de doutrina salvífica.

Seguidamente, Bahá’u’lláh compara o Báb com João Baptista, por terem papeis históricos paralelos: “Diz, Não haveis escutado a Voz que Brada, clamando no deserto do Bayan [i.e., a revelação do Báb], trazendo-vos as boas novas da vinda do vosso Senhor, o Todo Misericordioso?” (Idem, p.12) Tal como João Baptista anunciou a vinda de Jesus Cristo, também o Báb anunciou o advento iminente de Bahá’u’lláh. Depois, Bahá’u’lláh apela ao médico Faris - e a todos os Cristãos - que anunciem o Seu advento:
Proclama, pois, a toda a humanidade as boas-novas desta poderosa e gloriosa Revelação. Aquele Que é o Espírito da Verdade veio para te guiar a toda a verdade. Ele não fala impelido pelo Seu próprio ser, mas a mando d’Aquele que é o Omnisciente, o Sapientíssimo.

Diz, este é Aquele Que glorificou o Filho e exaltou a Sua Causa. Ó povos da terra, rejeitai aquilo que possuis e segurai-vos firmemente àquilo que vos foi ordenado pelo Todo-Poderoso, Aquele que é o Portador da Confiança de Deus. (Idem)
A Epístola Mais Sagrada - a Epístola aos Cristãos - termina com uma série de bem-aventuranças, as últimas das quais dizem o seguinte:
Bem-aventurado o homem que se desprende de tudo salvo de Mim, que voa alto na atmosfera do Meu amor, que conseguiu ser admitido no Meu Reino, contemplou os Meus domínios de glória, sorveu as águas vivas da Minha bondade, saciou a sua sede no rio celestial da Minha amorosa providência, familiarizou-se com a Minha Causa, percebeu aquilo que ocultei no tesouro das Minhas Palavras, e brilhou no horizonte do conhecimento divino, empenhado no Meu louvor e glorificação (Idem, p.17)
Faris, o médico, é o antecessor espiritual dos Bahá’ís de origem Cristã (incluindo eu próprio). A evidências sugerem que Bahá’u’lláh revelou a Epístola Mais Sagrada para Faris. Seja como for, Faris foi o primeiro a responder e a cumprir a “Grande Comissão” de Bahá’u’lláh (ver paralelo com a “Grande Comissão” de Jesus, em Mateus 28:18-20).

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Texto original: Baha’u’llah’s Most Holy Tablet—to the Christians (www.bahaiteachings.org)

Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.