sábado, 15 de maio de 2021

Quando Constantino se converteu ao Cristianismo

Por Tom Tai-Seale.


O mundo mudou quando Constantino (272-337 d.C.), o Imperador Romano, se tornou cristão. Mas ele converteu-se?

Sob a sua autoridade - que se iniciou começou três séculos após a vida de Cristo - Constantino acabou com a perseguição aos Cristãos; ofereceu apoio imperial à igreja; financiou grandes projetos de construções cristãs; e tentou unir os teólogos da Igreja que pregavam "desavenças ...", como ele escreveu, "sobre assuntos pequenos e muito triviais." Infelizmente, essas “questões triviais” – aquilo a que agora chamamos de controvérsia ariana - acabariam por envolver um continente inteiro e destruir milhares de vidas.

A controvérsia ariana provocou um dos primeiros grandes cismas no Cristianismo. Envolveu uma série de argumentos teológicos que surgiram entre Ário (um sacerdote que enfatizou as diferenças entre Deus e Cristo) e Atanásio de Alexandria (que acreditava na doutrina da trindade, que Deus o pai era totalmente "personificado" por "Deus filho"). Essa doutrina trinitária, que é hoje a doutrina oficial da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa Oriental, gerou muita confusão entre os cristãos da época e, por fim, foi motivo de perseguição e conflito violento.

A doutrina da trindade é explicada metaforicamente pelos ensinamentos Bahá'ís, como podemos ler no livro "Respostas a Algumas Perguntas" por ‘Abdu'l-Bahá, o filho e sucessor de Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá'í:

...a realidade de Cristo era um espelho límpido onde o Sol da Verdade – isto é, a Essência divina – apareceu e brilhou com perfeições e atributos infinitos. Não é que o Sol da Verdade, que é a Essência da Divindade, alguma vez se tenha dividido ou multiplicado – porque permanece uno – mas tornou-se manifesto no espelho. É por isso que Cristo disse “O Pai está no Filho”, significando que aquele Sol está manifesto e visível neste espelho… (SAQ 27:7-9)

O imperador Constantino tentou unir as opiniões divergentes de arianos e trinitários para que se pudesse definir uma versão oficialmente aprovada do Cristianismo em todo o Império Romano. Ele ordenou que se realizasse o Primeiro Concílio de Niceia onde foi aprovada uma doutrina oficial – o Credo Niceno – que tem prevalecido desde então.

Um Militar feito Imperador


Constantino foi um governante romano, filho do imperador Constâncio; desde cedo desejou tornar-se imperador. Sendo um soldado criado segundo a mentalidade combativa do seu pai, lutou para se impor aos inimigos em batalhas por todo o império para atingir o seu objectivo. Em 306, usando a intriga política, tornou-se vice-imperador - um César - do império ocidental, e mais tarde proclamou-se “Imperador Augusto” embora já houvesse dois imperadores titulares.

Numa jogada política em 311, ofereceu a sua meia-irmã em casamento ao Imperador do Ocidente (Licínio) e enfrentou Maxêncio, um dos grandes inimigos de Licínio. Maxêncio ambicionava tornar-se imperador, pois era filho do imperador ocidental que governou antes do pai de Constantino. Constantino derrotou Maxêncio (já bastante enfraquecido) na famosa batalha da Ponte Mílvia (312 d.C.). Nesse mesmo ano, entrou em Roma e ter-se-á convertido ao Cristianismo.

A sinceridade da conversão de Constantino há muito que é debatida entre os investigadores. Não há nada de santidade na forma como ele se tornou imperador; a sua conversão ao Cristianismo não mudou os aspectos essenciais do seu comportamento político, nem o impediu de continuar ou iniciar novas guerras. Em 313, Licínio tornou-se imperador do Oriente, enquanto Constantino era aclamado Imperador do Ocidente. Inicialmente os dois imperadores mantinham boas relações e ambos assinaram o Édito de Milão que dava protecção legal aos Cristãos.

Não demorou muito para que Constantino e Licínio se desentendessem e se envolvessem em batalhas por todo o império; Constantino alcançou a vitória final na batalha final em Crisópolis, no lado asiático do Bósforo, em 324. Constantino prometeu segurança e protecção a Licínio, mas no ano seguinte matou-o, juntamente com o filho (sobrinho de Constantino). Constantino tornou-se assim o único governante do Império Romano - Oriente e Ocidente. Mas ainda iria enfrentar sérias provações. Em 326 matou o seu filho mais velho, Crispo, acusando-o falsamente de imoralidade; depois matou a sua segunda esposa, Fausta, culpando-a de o ter incitado contra Crispo. As vidas dos imperadores romanos sempre estiveram cheias de intrigas, batalhas e chacinas; e também usaram a força nos assuntos religiosos, em total violação dos ensinamentos de Cristo.

Esta “conquista” governamental da teologia e da prática cristãs resultou num casamento profano entre governantes e poder papal que acabou por levar a guerras terríveis onde se invocava o nome de Cristo, conforme explicado por 'Abdu'l-Bahá no seu livro “O Segredo da Civilização Divina”:

...no final do século V da Hégira, o Papa, ou o Chefe da Cristandade, levantou um grande protesto e clamor pelo facto dos lugares sagrados para os cristãos, tais como Jerusalém, Belém e Nazaré, terem caído sob domínio Muçulmano, e incitou os reis e plebeus da Europa a empreender o que ele considerou uma guerra santa. O seu clamor apaixonado tornou-se tão audível que todos os países da Europa responderam, e reis cruzados, encabeçando inumeráveis exércitos, atravessaram o Mar de Marmara e tomaram o seu caminho no continente Asiático. Naqueles tempos, os califas fatímidas governavam o Egito e alguns países do Ocidente, e a maior parte do tempo os reis da Síria, isto é, os seljúcidas, também estavam sob o seu domínio. Em resumo, os reis do Ocidente, com os seus incontáveis exércitos, lançaram-se sobre a Síria e o Egito, e houve guerra ininterrupta entre os soberanos sírios e aqueles da Europa durante duzentos e três anos. Os reforços estavam sempre a chegar da Europa, e repetidas vezes os soberanos ocidentais atacaram e tomaram todos os castelos na Síria e, muitas vezes, os reis do Islão libertaram-nos das suas mãos. Por fim, Saladino, no ano 693 A.H., expulsou os reis europeus e os seus exércitos do Egipto e da costa síria. Definitivamente vencidos, eles regressaram à Europa. No decorrer destas guerras das Cruzadas, milhões de seres humanos pereceram.

Podemos acabar com este tipo de violência relacionada com a religião, afirma a mensagem central dos ensinamentos Bahá’ís, assim que reconhecermos e agirmos de acordo com o princípio de Bahá'u'lláh da unidade essencial de todas as crenças.

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Texto Original: When Constantine Converted to Christianity (www.bahaiteachings.org)


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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 8 de maio de 2021

Podemos comunicar com pessoas que já faleceram?

Por Kathy Roman.


Entre este mundo da existência e o mundo seguinte, existe um véu. Podemos atravessá-lo?

Quando dormimos, não abandonamos os nossos corpos, mas certamente entramos numa realidade diferente - o mundo dos sonhos. Este novo reino do ser - dizem os ensinamentos Bahá'ís - é uma das provas da presença de Deus e um exemplo da existência de domínios invisíveis:

Aqueles que passaram pela morte possuem o seu próprio campo de acção. Ele não está afastado do nosso; o seu trabalho, o trabalho do Reino, é o nosso; mas está santificado acima daquilo a que chamamos 'tempo e espaço'. Para nós o tempo é medido pelo sol. Quando não existem nascer e pôr-do-sol, esse tipo de tempo não existe para o homem. Aqueles que ascenderam possuem atributos diferentes daqueles que ainda permanecem na terra; no entanto, não existe uma verdadeira separação. (‘Abdu’l-Bahá in London, p.90)

As Escrituras Bahá'ís explicam que as nossas orações alcançam os nossos entes queridos no mundo vindouro – e que quando sonhamos é possível conversar com aqueles que já faleceram.

Depois da minha mãe ter falecido, sonhava muitas vezes com ela. Numa ocasião, num sonho, encontrámo-nos e conversámos pessoalmente. Ela segurou a minha cara com as mãos e abraçou-me com muito amor. Pareceu tão real e vivo como qualquer coisa neste mundo físico. Eu percebia os seus sentimentos e ela sentia tudo no meu coração. Quando acordei, a memória do sonho era clara e evidente. Acredito que esses sonhos especiais são, na verdade, ligações com nossos entes queridos:

Na oração há uma mistura de estados, uma mistura de condições. Orai por eles, assim como eles oram por vós. Quando estais numa atitude receptiva, e sem que sabeis, eles são capazes de vos dar sugestões se estiverdes em dificuldades. Isto por vezes acontece ao dormir. Porém, não há qualquer relação relacionada com os sentidos! Aquilo que parece uma relação sensorial tem outra explicação.” O interpelador exclamou: "Mas eu ouvi uma voz!" 'Abdu'l-Bahá disse: “Sim, isto é possível; nós ouvimos vozes claramente nos sonhos. Não é com o ouvido físico que ouvis; os espíritos daqueles que faleceram estão livres do mundo dos sentidos e não utilizam meios físicos. Não é possível descrever estes grandes temas com palavras humanas; a linguagem humana é a linguagem das crianças, e a explicação humana muitas vezes desvia-nos do caminho. (‘Abdu’l-Bahá in London, p.90)

Você já teve um daqueles momentos em que a memória de um ente querido surge do nada? Talvez você veja uma borboleta e pense nele(a) porque ele(a) adorava borboletas. Ou quando a vossa música favorita toca na rádio, e desperta recordações. Lembre-se disto: esses podem ser momentos que você realmente partilha com essa pessoa querida através daquele véu ténue que nos separa. Envie-lhes bons pensamentos, uma pequena oração e guarde um tempo para sentir a sua presença.

Ontem foi dia 29 de Fevereiro. Foi um dia especial, porque era o dia de aniversário de Alex Rocco, um amigo da nossa família. Vivemos na mesma comunidade Bahá’í e partilhámos muito momentos felizes. “Bo” - como era conhecido pelos amigos – era um homem extraordinário e foi actor. Lembro-me do meu entusiasmo no dia que o Bo e a esposa nos levaram ao cinema para vê-lo no seu papel de Moe Green, no filme “O Padrinho” (“O Poderoso Chefão”, no Brasil). Posteriormente, o Bo participou noutros filmes e séries de televisão. Quando ganhou um Emmy pela participação numa série de TV, o Bo agradeceu a Bahá’u’lláh e aos Bahá’ís que assistiram à série em todo o mundo. Ainda hoje, o Bo é lembrado pelo seu papel no filme “O Padrinho”


Naquele ano bissexto (2020), estava na minha cozinha e lembrei-me do aniversário do Bo; pensei nele e no homem maravilhoso que ele tinha sido. Pensei para mim mesma: “Feliz Aniversário Bo”. Mas depois senti-me um pouco disparatada. Pensei: “Há tantas pessoas o mundo que gostavam dele e que hoje devem estar a pensar nele. Provavelmente não consegue ouvir-me”. Contei isto à minha filha Júlia e não voltei a pensar no assunto.

Depois saí para fazer várias coisas. Quando entrei no estacionamento de nosso mercado local, ouvi o som de uma música adorável. Quando abri a porta do meu carro, pude ouvir melhor a melodia; era assustadoramente bela e ecoava por todo o estacionamento. Senti um arrepio súbito no meu corpo. A música permaneceu profundamente na minha alma. Aquela melodia emocionante era incrivelmente familiar, mas eu não conseguia identificá-la. Tudo que eu sabia é que precisava descobrir de onde vinha. Imediatamente, vi um adolescente a tocar um acordeão diferente de todos os que eu já ouvira antes. Aproximei-me do jovem, procurando dinheiro na minha bolsa, enquanto ele olhava para mim e sorria. Coloquei o dinheiro no seu estojo do instrumento.

Obrigado - disse ele.

Você toca muito bem! Qual era o nome dessa música que estava a tocar? - perguntei.

É o tema do filme “O Padrinho” - respondeu.

Enquanto voltava para casa, aquela música forte continuava na minha cabeça. Assim que cheguei, contei à minha filha Júlia sobre a música que ouvira e o adolescente que a tocava. Com os olhos a brilhar, ela disse: “Mãe! Isso era o Bo! Ele ouviu-te e agradeceu os teus votos de aniversário com a música do seu filme”.

Fiquei com o coração a transbordar de alegria; não podia negar aquela ligação. Sabia que a magia era real:

As dádivas de Deus que se manifestam em toda a vida perceptível estão por vezes ocultas pelos véus da visão mental e mortal que tornam o homem espiritualmente cego e incapaz; mas quando essas películas forem retiradas e os véus forem rasgados, os grandes sinais de Deus tornar-se-ão visíveis e ele testemunhará a luz eterna espalhada pelo mundo. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace)

Esses véus existentes entre este mundo e o próximo impedem-nos de ver e ouvir nossos entes queridos; eles observam-nos, oram por nós e animam-nos. Eles estão disponíveis para nos dar orientação. Portanto, envie-lhes os seus votos afectuosos com frequência. Ore por eles, reconheça os sinais do seu amor e preste atenção aos seus sonhos. Se você fizer uma pausa, abrir o seu coração e ouvir em silêncio, você poderá ouvi-los a responder.

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Texto original: Can We Communicate with Our Loved Ones Who Have Passed On? (www.bahaiteachings.org)


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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Celebrar o Décimo Segundo Dia de Ridvan


Hoje, o último dia do Festival de Ridvan, os Bahá’ís celebram a fundação da sua religião.

Foi em 2 de Maio de 1863 que Bahá’u’lláh, o Profeta fundador da Fé Bahá’í, saiu de Bagdade rumo a um novo exílio e a um futuro incerto. Mas este evento não é recordado com tristeza pelos Bahá’ís; pelo contrário, é celebrado como um dos momentos altos do calendário Bahá’í: é o chamado Décimo Segundo Dia de Ridvan.

O Festival de Ridvan celebra a estadia de Bahá’u’lláh durante doze dias no Jardim de Ridvan, nos arredores de Bagdade; eram os dias que antecediam a Sua viagem para o segundo exílio, desta vez em Constantinopla (capital do Império Otomano). Esta comemoração do Ridvan (que significa “Paraíso”) como um festival de renovação e paz, assinala o surgimento da Fé Bahá’í e celebra a primeira lei dessa nova revelação: a advertência de Bahá’u’lláh à humanidade para que cesse todas as guerras:

Este é o Dia em que os mais excelentes favores de Deus foram derramados sobre os homens, o Dia em que a Sua graça mais poderosa se infundiu em todas as coisas criadas. Incumbe a todos os povos do mundo reconciliar as suas diferenças e, com paz e união perfeitas, abrigar-se sob a sombra da Árvore do Seu cuidado e benevolência. (Baha'u'llah, Gleanings, IV)

Bahá’u’lláh acabou por sofrer quarenta anos de exílio, encarceramento e tortura devido aos Seus ensinamentos pacíficos e progressistas.

Durante dez anos, a influência de Bahá’u’lláh cresceu em toda a região e um número cada vez maior de pessoas eram atraídas pelos Seus ensinamentos. No início de 1863, o governo persa começou a pressionar o governador de Bagdade para O extraditar de volta para a Pérsia. Mas em vez disso, Bahá’u’lláh recebeu uma ordem de transferência para a capital do Império Otomano, Constantinopla (actual Istambul).



O primeiro exílio de Bahá’u’lláh, de Teerão (Pérsia) para Bagdade em 1852, e o segundo, de Bagdade para Constantinopla, seriam seguidos por outros dois exílios: em 1863, de Constantinopla para Adrianópolis (actual Edirne, na Turquia); e em 1868 para a colónia-prisão de Akka (Acre, na Palestina), onde Bahá’u’lláh passou o resto da Sua vida como prisioneiro.

As primeiras semanas da primavera de 1863 antes da breve estadia de Bahá’u’lláh no jardim Ridván tinham sido tragicamente dolorosas para os Seus amigos e família. Informados sobre a ordem de exílio do governo, que afastava Bahá’u’lláh de Bagdade e O separava da maioria deles para sempre, todos choravam e lamentavam. E no dia da partida, sentiram uma enorme tristeza e desespero. Cerca de 75 pessoas acompanharam Bahá’u’lláh naquela viagem de quatro meses até Constantinopla; mas um grande grupo de familiares, amigos e seguidores ficou para trás.

Um seguidor de Bahá’u’lláh, chamado Mirza Asadu’llah Kashani, testemunhou aqueles dias e escreveu este relato sobre a partida de Bahá’u’lláh de Bagdade, quando milhares de seguidores vieram despedir-se em lágrimas:

... no décimo segundo dia, à tarde, partiram sob a escolta de soldados turcos, para um destino desconhecido. Embora Bahá’u’lláh tivesse ordenado aos amigos que não os seguissem, eu estava muito relutante em deixá-lo afastar-se da minha vista e corri atrás deles durante três horas.
 
Ele viu-me, desceu do Seu cavalo, esperou por mim, e disse-me com Sua bela voz, cheia de amor e bondade, para voltar a Bagdade, e, com os amigos, começar o nosso trabalho, não lentamente, mas com energia: “Não te deixes vencer pela tristeza - estou a deixar os amigos que amo em Bagdade. Certamente enviar-lhes-ei notícias sobre o nosso bem-estar. Sê constante no teu serviço a Deus, que faz tudo o que lhe apraz. Vive na paz que te for permitida.”

Nós vimo-los desaparecer na escuridão com o coração apertado, pois os seus inimigos eram poderosos e cruéis! Chorando amargamente, voltamos as nossas faces para Bagdade, determinados a viver de acordo com o Seu mandamento.

Os Baha'is celebram o aniversário deste exílio porque a Declaração de Bahá’u’lláh marca o momento em que "as brisas do perdão sopraram sobre toda a criação". Nesse momento, segundo Bahá’u’lláh, "as portas do Reino foram abertas para vós, o chamamento de Deus fez-se ouvir, e as virtudes do mundo humano estão em processo de desenvolvimento.” Com esta acção reveladora - anunciando o advento de um novo ciclo de progresso humano, a unidade orgânica de toda a humanidade e o amanhecer de uma nova Fé mundial - Bahá’u’lláh transformou o momento trágico do Seu exílio num triunfo.

Actualmente, a véspera da partida de Bahá’u’lláh de Bagdade é comemorada todos os anos pelas comunidades Bahá’ís, não como um momento de tristeza ou dor, mas como um festival de grande alegria. O Décimo Segundo Dia de Ridván é uma demonstração do poder do Manifestante de Deus para criar o bem no meio do mal, trazer a luz para o lugar das trevas e alcançar a vitória numa aparente derrota.

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Traduzido e adaptado de: Exile and Exuberance: The 12th Day of Ridvan (www.bahaiteachings.org)

terça-feira, 27 de abril de 2021

Celebrar o Nono Dia de Ridván


Nesta altura do ano os Bahá’ís celebram um período de 12 dias conhecido como Ridvan (que em português significa “Paraíso”) – o momento em que Bahá’u’lláh declarou a Sua missão como fundador da Fé Bahá’í.

O Ridvan (pronuncia-se “riz-van”) celebra-se durante doze dias e é o momento mais sagrado e festivo de todo o calendário Bahá’í; mas em 1863, também foi um período de grande agitação na história Bahá’í. Este festival simboliza a transformação do sofrimento e da opressão em alegria; e é também uma celebração de uma nova primavera espiritual.

Três dos doze dias do Rivdan – o primeiro, o nono e o décimo-segundo – são feriados para os Bahá’ís, destinados a celebrar o significado especial da declaração de Bahá’u’lláh. As comunidades Bahá’ís assinalam estes três feriados especiais de diversas maneiras. Nestas celebrações há sempre orações, leituras das Escrituras Bahá’ís e evocações dos eventos ocorridos no Jardim de Ridvan, em 1863.

O que significa o Nono Dia de Ridvan?


No Nono Dia de Ridvan, os Bahá’ís e os seus amigos comemoram um evento profundamente simbólico na história Bahá’í.

Em 1863, Bahá’u’lláh estava exilado em Bagdade e foi forçado a mais um exílio – desta vez imposto pelo Sultão otomano. O local deste segundo exílio foi Constantinopla (a actual Istambul, na Turquia). Os governos persa e otomano, assim como o clero Muçulmano nos dois países, temiam a rápida disseminação dos ensinamentos de Bahá’u’lláh e do Seu antecessor, O Báb; as autoridades persas reagiram com uma violenta campanha de perseguição contra os seguidores desta nova fé progressista:

O Báb tinha sido martirizado em Tabriz; e Bahá'u'lláh, exilado para o Iraque em 1852, declarou-Se em Bagdade. O governo persa tinha decidido que, enquanto Ele permanecesse na Pérsia, a paz do país seria perturbada; por isso Ele foi exilado na esperança de que a Pérsia serenasse. O Seu exílio, no entanto, produziu o efeito contrário. Surgiu uma nova agitação, e a menção da Sua grandeza e influência espalhou-se por todo o país. A proclamação da Sua manifestação e missão foi feita em Bagdade. Ali, Ele reuniu os Seus amigos e falou-lhes de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 26)

Essa intensa perseguição aconteceu porque os ensinamentos de Bahá’u’lláh – paz, unidade mundial, a unicidade essencial de todas as religiões, a igualdade entre homens e mulheres, a eliminação de todos os preconceitos – ameaçavam severamente os dogmas e o poder do clero que controlava os governos tirânicos desses países. Os historiadores documentaram exaustivamente essas perseguições aos Bahá’ís, e a maioria das estimativas concorda que houve pelo menos 20.000 mortos – pessoas inocentes que foram mortas apenas devido às suas crenças.

Margens do Rio Tigre, em Bagdade
Margens do Rio Tigre, em Bagdade

Na primavera de 1863, enquanto era alvo de conspirações e perseguições, Bahá’u’lláh preparava-se para abandonar Bagdade. Ele e um pequeno número de seguidores mudaram-se temporariamente para um jardim na margem do rio Tigre. Este jardim verdejante tinha quatro avenidas, ladeadas por roseiras, que atraíam bandos de rouxinóis que cantavam intensamente todas as noites. Na primavera, o caudal do rio Tigre era muito grande, e as testemunhas diziam que a corrente do rio, a fragrância inebriante de milhares de rosas e as melodias dos pássaros "criavam uma atmosfera de beleza e encanto". Quando o rio Tigre subiu, o Jardim de Ridvan transformou-se numa ilha, isolando-o temporariamente.

Em 29 de Abril de 1963, as águas do rio recuaram e a família de Bahá’u’lláh atravessou as águas e juntou-se a Ele naquela ilha. Esse símbolo poderoso – reunificação e força do laço familiar, e por extensão a unidade de toda a família humana – está presente no significado do Nono Dia de Ridvan.

Em Dezembro de 1902, a filha de Bahá’u’lláh, Bahiyyih Khanum foi entrevistada pelo advogado e escritor americano, Myron Phelps, e contou a experiência da sua família durante esse tempo no Ridvan, em 1863:

Quando nos chegou a notícia (do exílio de Bahá’u’lláh), da qual deduzimos que o meu pai ficaria novamente prisioneiro, ficámos consternados, temendo outra separação. Ele foi chamado a comparecer perante os magistrados…. Muitos dos seus seguidores tinham-se reunido em frente da nossa casa e assistiram à sua partida com muitas demonstrações de dor, sentindo que era possível que ele não voltasse. 

Os magistrados transmitiram uma grande tristeza ao meu pai; disseram que o respeitavam e amavam, que não tinham instigado a ordem [a ordem de exílio tinha vindo do sultão da Turquia], mas que não tinham poder para suspendê-la ou modificá-la e deveriam prosseguir com a sua aplicação.

Este relato foi como um toque de finados para os seus seguidores, que ainda estavam reunidos à volta da casa. No dia seguinte, eles enchiam de tal maneira a casa que não pudemos preparar-nos para a viagem... Então, como era a única maneira de acalmar os seus seguidores, [Bahá’u’lláh] levou toda a sua família para o jardim. Aqui montámos as nossas tendas... As tendas formavam, por assim dizer, uma pequena aldeia ...

 Muitos dos seguidores [de Bahá’u’lláh] decidiram também abandonar Bagdade e acompanhá-lo… Quando a caravana iniciou a sua marcha [no décimo segundo dia de Ridvan], a nossa comitiva tinha cerca de setenta e cinco pessoas. Todos os jovens e outros que sabiam montar, iam a cavalo… Íamos acompanhados por uma escolta militar. A viagem aconteceu em 1863, cerca de onze anos depois da nossa chegada a Bagdade. (relato para Myron Phelps em The Life and Teachings of Abbas Effendi, pp. 35-39)


Porque é que os Bahá’ís celebram o Ridvan


Então, como é que um momento tão triste e difícil - exílio, privações e prisão para Bahá’u’lláh, Sua família e Seus seguidores – se tornou um motivo de celebração? Os Bahá’ís celebram o Ridvan porque foi nessa ocasião que Bahá’u’lláh anunciou a Sua revelação e porque essa revelação anuncia "a ressurreição de toda a humanidade:

Levanta-te e proclama a toda a criação as boas-novas de que Aquele Que é o Todo-Misericordioso dirigiu os Seus passos para o Ridvan e ali entrou. Guia o povo, pois, ao jardim do encanto que Deus fez o Trono do Seu Paraíso. Escolhemos-te para seres a Nossa mais poderosa Trombeta, cujo toque assinalará a ressurreição de toda a humanidade.
Não olhes as criaturas de Deus, salvo com os olhos da bondade e da misericórdia, pois a Nossa amorosa Providência impregnou todas as coisas criadas e a Nossa graça envolveu a terra e os céus. (Gleanings from the Writings of Bahá’u’lláh, XIV)

Os Bahá’ís organizam diversos tipos de actividades para celebrar o Nono Dia de Ridvan; todas as celebrações destes dias fazem-nos recordar as palavras de ‘Abdu’l-Bahá:

O mundo inteiro nasce de novo, ressuscita. Sopram brisas suaves, refrescantes e perfumadas; as flores abrem-se; as árvores florescem, o ar é temperado e delicioso; quão agradáveis e belas se tornam as montanhas, os campos e os prados. Do mesmo modo, as dádivas espirituais e a primavera de Deus despertam o mundo da humanidade com novo ânimo e vida. Todas as virtudes assentes e latentes nos corações humanos são reveladas por aquela Realidade como flores e rebentos dos jardins divinos. É um dia de júbilo, um tempo de alegria, um período de crescimento espiritual. (de uma palestra de Abdu’l-Baha aos Baha’is de Washington, D.C. no primeiro Dia de Ridvan, 1912).

Convidamos, a si e a toda a sua família, a juntarem a nós nesta celebração do Nono Dia de Ridvan!

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Traduzido e adaptado de: The Ninth Day of the Baha’i Festival of Paradise (www.bahaiteachings.org)