sábado, 19 de setembro de 2026

Os 3 Princípios Fundamentais da Revelação Bahá'í

Por Nader Saiedi.


As Escrituras Sagradas de Bahá’u’lláh – que viveu entre 1817 e 1892 – prolongam-se de 1852, ano da fundação da Fé Bahá’í, até 1892, ano da Sua ascensão. São 40 anos de revelação.

Tanto a fé do Báb (1819-1850) – o profeta que preparou o caminho para a vinda de Bahá’u’lláh – como a fé de Bahá’u’lláh são caracterizadas por um oceano de revelações sem precedentes.

É por isso que as Escrituras Bahá’ís constituem quase uma biblioteca, em vez de um ou poucos livros.

Além disso, não há dúvidas históricas ou objectivas sobre a autenticidade destes textos. Os textos de Bahá'u'lláh, só por si, equivalem a cem livros, e os Bahá'ís possuem os originais. Estes textos abordam todos os tipos de questões, apresentando vários estilos. No entanto, apesar da incrível diversidade e pluralidade das Escrituras de Bahá’u’lláh, todos estes textos representam uma grandiosa ordem e unidade divina.

Dá ouvidos e escuta! Esta é a voz da Minha pena que se eleva perante místicos, depois sacerdotes, e depois reis e governantes. (Ishráqát, pag. 260)

Esta declaração de Bahá’u’lláh revela uma ordem e unidade únicas. Como Ele próprio observa, revelou os Seus textos em três etapas. A primeira etapa da Sua revelação foi dirigida aos místicos, a segunda aos sacerdotes e clérigos, e a terceira aos reis e governantes do mundo. Esta ordem não é fortuita. A estrutura lógica e dialética desta ordem é, por si só, mais um testemunho da unidade primordial, originalidade, novidade e pureza da consciência de Bahá’u’lláh.

Nesta reflexão, vamos explorar estas três etapas, o princípio correspondente anunciado por cada uma delas, bem como a ligação lógica e a unidade entre as três.

O princípio explicado na primeira etapa é a consciência mística; essa realidade é, em última análise, espiritual. A segunda etapa enfatiza a consciência histórica e estende esse dinamismo ao âmbito da religião e à palavra de Deus. O terceiro princípio, na etapa final da revelação de Bahá’u’lláh, enfatiza a consciência global e os seus dois requisitos: a unicidade da humanidade e a paz universal. Em conjunto, estes três princípios – místico, histórico e global – constituem uma unidade orgânica, e esta unidade define a singularidade da mensagem de Bahá’u’lláh.

1. A Consciência Mística

A primeira fase da revelação de Bahá’u’lláh, de 1852 a 1860, ocorreu durante grande parte do Seu exílio em Bagdade. Algumas das Suas principais obras desta fase – As Palavras Ocultas, Os Quatro Vales, A Ode da Pomba e Os Sete Vales – enfatizam a interpretação espiritual da realidade.

Segundo as Escrituras de Bahá’u’lláh, a realidade expressa, em última análise, diversas manifestações dos nomes e atributos divinos. Assim, todos os seres são espelhos sublimes nos quais a revelação divina se reflecte e se manifesta. Esta afirmação radical da sacralidade de todos os seres e da solidariedade e unidade cósmica de todas as coisas baseia-se na ideia de que a verdade última de todos os seres é a própria revelação divina que reside nos seus corações mais íntimos. A história é, portanto, uma viagem espiritual rumo à realização e ao desvendar desta revelação divina inerente e abrangente na vida dos seres humanos. N’As Palavras Ocultas de Bahá'u'lláh, lemos:

Ó Filho do Homem! Tu és o Meu domínio, e o Meu domínio não perece; porque receias perecer? És a Minha luz, e a Minha luz jamais se extinguirá; por que temes extinção? És a Minha glória, e a Minha glória não desvanece; és o Meu manto, e o Meu manto jamais se desgastará. Mantém-te, pois, no teu amor por Mim, para que possas encontrar-Me no reino da Glória. (As Palavras Ocultas, do árabe, #14)

O princípio da natureza espiritual de todos os seres distancia a mundividência Bahá’í de todas as visões materialistas do mundo e de todas as teorias sociais que desvinculam a ordem sociocultural dos valores espirituais e da orientação moral. Assim, segundo Bahá’u’lláh, um dos fundamentos mais importantes da ordem social é o compromisso da sociedade com os valores morais e espirituais.

Esta orientação espiritual significa que devemos observar a realidade como uma unidade interligada, e não como um conjunto de objectos materiais, fragmentados e independentes. A verdade de tudo é a revelação divina, o que significa que todos os seres estão interligados e são um só. Contudo, essa mesma compreensão espiritual da existência implica também um princípio oposto. A consciência é sempre uma realidade única e individual. Por conseguinte, os seres humanos, como seres espirituais independentes, têm o dever de pensar por si próprios. A metafísica compatível com esta consciência mística – unidade na diversidade – apela a uma unificação cada vez maior do planeta e de todos os seus povos.

2. Consciência Histórica

Embora o primeiro princípio de Bahá’u’lláh isole a Sua mensagem de toda a mundividência materialista, o segundo princípio constitutivo da Sua mundividência diferencia-a de todas as formas religiosas de tradicionalismo.

Este segundo princípio é o princípio da consciência histórica ou da historicidade da vida. Na segunda fase da Sua revelação, entre 1860 e 1867, durante os últimos anos da Sua estadia em Bagdade e continuando durante o Seu exílio em Istambul e Adrianopolis, Bahá’u’lláh falou sobre assuntos relativos às Escrituras Sagradas.

Aqui, os sacerdotes e os eruditos de diversas crenças religiosas tornaram-se os destinatários directos dos Seus textos. Entre estas obras, destacam-se o Livro da Certeza e o Novo Livro Maravilhoso (Kitáb-i-Badí'). Esta concepção dinâmica é particularmente relevante para o âmbito da cultura e da sociedade humanas.

A realidade social é um fenómeno em constante evolução. Este dinamismo aplica-se não só ao âmbito das instituições culturais humanas, mas também ao âmbito da própria revelação da palavra divina. Os Bahá’ís denominam esta afirmação abrangente e radical da consciência histórica nas Escrituras de Bahá’u’lláh de “princípio da revelação progressiva”.

A cultura e a sociedade caracterizam-se por mudanças e transformações perpétuas, o que significa que a revelação da Vontade eterna de Deus se torna também algo histórico e dinâmico. Bahá'u'lláh vê, portanto, em todas as diversas religiões uma mesma verdade eterna. Esta Vontade divina criadora reflecte-se sob a forma de novas leis e doutrinas, em diferentes épocas, de acordo com a fase de desenvolvimento da humanidade e as necessidades específicas de cada povo nessa fase particular de desenvolvimento. Assim, para Bahá’u’lláh, todos os profetas de Deus representam uma mesma realidade eterna, que aparece em diferentes épocas na forma de pessoas diferentes e historicamente específicas, com leis diferentes, conforme exigido pelo desenvolvimento material e espiritual da sociedade naquela fase da evolução da humanidade. Por outras palavras, a mensagem deste segundo princípio é a unidade na diversidade de todas as religiões.

O Médico Omnisciente tem o Seu dedo no pulso da humanidade. Ele percebe a doença e, na Sua sabedoria infalível, prescreve o remédio. Cada era tem o seu próprio problema, e cada alma a sua aspiração particular. O remédio que o mundo necessita nas suas aflições actuais nunca poderá ser o mesmo exigido numa era posterior. Preocupai-vos impacientemente com as necessidades da era em que viveis e concentrai as vossas deliberações nas suas exigências e nos seus requisitos. (Bahá’u’lláh, Gleanings ,CVI)

Embora a consciência histórica esteja presente nos sistemas filosóficos de vários pensadores, como Hegel e Marx, o princípio de Bahá’u’lláh é qualitativamente diferente. Em primeiro lugar, esta dinâmica histórica nunca termina num estado histórico final. Assim, para Bahá’u’lláh, mesmo a verdade da Sua própria revelação é relativa à fase actual de desenvolvimento da humanidade e, por isso, a Sua revelação não é a última revelação divina. A revelação divina, pelo contrário, é eterna e perpétua. Em segundo lugar, Bahá’u’lláh aplica esta lógica histórica não só ao âmbito da cultura humana, mas também ao âmbito da revelação da palavra divina.

3. Consciência Global

A unidade do primeiro e do segundo princípios implica o terceiro princípio da mundividência Bahá’í. Os dois primeiros princípios, em conjunto, declaram a necessidade da renovação da ordem espiritual nesta fase de amadurecimento da humanidade, de forma que estejam em consonância com o desafio fundamental do desenvolvimento histórico nesta era.

O terceiro princípio da mundividência Bahá’í é o princípio da unicidade da humanidade e o imperativo da paz universal. De acordo com esta visão Bahá’í do futuro do mundo, uma solução eficaz e justa para os diversos problemas da humanidade nesta fase do seu desenvolvimento exige a adopção de uma consciência global baseada na premissa fundamental da unidade essencial de toda a raça humana.

Esta abordagem global não é simplesmente um culto do amor fraterno ou uma fantasia utópica. Enfatizado nas Suas cartas aos governantes do mundo em 1867-1868 e elaborado ao longo da sua vida, o terceiro princípio de Bahá’u’lláh apela ao surgimento de uma nova cultura de paz e unidade, de uma nova estrutura internacional consultiva e democrática e de novas instituições sociais consultivas e justas. Os ensinamentos de Bahá’u’lláh visam criar uma ordem social definida pelo princípio da unidade na diversidade.

Este é, de facto, um homem que, hoje, se dedica ao serviço de toda a raça humana. Diz o Grande Ser: Bem-aventurado e feliz é aquele que se levanta para promover os melhores interesses dos povos e raças da terra... Que não se vanglorie quem ama o seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo inteiro. A terra é um só país, e a humanidade os seus cidadãos. (Bahá’u’lláh, Gleanings, CXVII)

Qualquer pessoa pode perceber a notável natureza dialética destas três etapas. A primeira etapa enfatiza a unidade abstrata e mística da humanidade. A segunda etapa nega essa abstração e afirma a diversidade histórica e a natureza dinâmica do espírito. A terceira etapa afirma a unidade concreta e historicamente específica da humanidade.

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Texto original: The 3 Main Principles of the Baha’i Revelation (www.bahaiteachings.org)

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Nader Saiedi é professor de Estudos Bahá’ís na UCLA (Los Angeles, EUA). É autor de diversos livros, incluindo Logos and Civilization: Spirit, History and Order in the Writings of Baha’u’llah; e Gate of the Heart: Understanding the Writings of the Bab. Nasceu em Teerão (Irão) e tem um mestrado em economia pela Universidade Pahlavi (Shiraz) e doutoramento em sociologia pela Universidade de Wisconsin.

sábado, 12 de setembro de 2026

Procurar Deus na Natureza

Por Tom Tai-Seale.


Onde devemos procurar Deus? De certa forma, a resposta é: em qualquer lugar.

Na sua obra "Da Verdadeira Religião" (De vera religione), Santo Agostinho reconheceu claramente que há vestígios de Deus em tudo. Como poderia ser diferente, se Deus é o Criador de tudo? O Antigo Testamento proclama: "Toda a terra está cheia da sua glória" (Isaías 6:3). O Novo Testamento anuncia que Deus pode ser "compreendido pelas coisas criadas" (Romanos 1:20). Da mesma forma, o Alcorão declara: "A Deus pertencem o Oriente e o Ocidente; para onde quer que vos volteis, aí está a face de Deus; Deus é Omnipresente, Omnisciente" (2:109). E o Bhagavad Gita afirma: "O Senhor está em todo o lado e é sempre perfeito" (6:37).

As primeiras religiões começaram provavelmente com o reconhecimento de que havia uma força vital (Deus) em tudo. Esta ideia, chamada panteísmo, contém um elemento de profunda verdade. Não é uma conquista pequena ver Deus em tudo. As Escrituras Bahá'ís explicam:

A existência realiza-se e torna-se possível pela graça de Deus, tal como o raio ou a chama que emana desta lâmpada se realiza pela graça da lâmpada de onde é originária. Da mesma forma, todos os fenómenos se realizam pela graça divina, e a explicação da verdadeira afirmação e princípio panteísta é que os fenómenos do universo encontram realização através do único poder que anima e domina todas as coisas; e todas as coisas são apenas manifestações da sua energia e graça. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 286)

Embora a maioria das novas religiões rejeite o panteísmo, porque Deus não está "dentro" nem "fora" de nada, todas as grandes religiões ensinam que tudo emana da vontade de Deus.

Mas, embora a generosidade de Deus sustente e crie tudo, a medida da divindade refletida em cada coisa está condicionada pela sua capacidade, dignidade e mérito intrínseco. Os minerais refletem a glória de Deus na medida da sua capacidade. As plantas e os animais reflectem os atributos de Deus de acordo com as suas diversas capacidades; e as pessoas reflectem ainda mais o esplendor de Deus. Mas existem reinos acima do nosso, onde ainda mais da glória de Deus se pode reflectir, e estes devem ser tão misteriosos para nós como nós somos para os animais, ou os animais para as plantas. Então, onde devemos procurar para encontrar Deus?

Toda as grandes religiões nos pedem que comecemos por olhar para a própria criação.

Qualquer pessoa que já tenha passado algum tempo perto do oceano, numa floresta imponente ou numa montanha acidentada, experimentou a admiração e a beleza que Deus infundiu na natureza. Como a nossa humanidade é fundamentalmente espiritual, e como a própria natureza humana provém das nossas origens na Terra, as nossas almas gravitam no mundo natural.

Talvez seja por isso que muitas vezes nos sentimos tão carentes da natureza e da sua beleza – a maioria de nós vive em ambientes urbanos ou suburbanos onde o mundo natural foi subjugado, pavimentado e domesticado. Organizamos as nossas vidas de forma que, muitas vezes, incluam muito pouco da criação de Deus. Nas nossas cidades, à noite, mal conseguimos ver o vasto céu estrelado por cima de nós. Muitos de nós não experimentamos nada além do ambiente construído à nossa volta todos os dias, com casas, centros comerciais, estradas e arranha-céus a obscurecer o solo fértil onde as coisas costumavam crescer livremente. Os nossos filhos têm aquilo a que os cientistas começaram recentemente a chamar de “perturbação de défice de natureza”, a grave falta de qualquer ligação com o ambiente natural orgânico. E todo este cimento, asfalto, aço e vidro pode privar-nos de algo ainda mais importante – a nossa crença num Criador.

Aqueles que estudam a história da religião comparada descobriram que as populações urbanas têm uma probabilidade muito menor de se identificarem com um determinado sistema de crenças ou filiação religiosa do que as populações rurais. Os investigadores costumavam acreditar que estas diferenças podiam ser atribuídas a diferenças educacionais – mas mesmo quando o nível de escolaridade é igual, as pessoas que vivem mais perto da terra e do ambiente natural tendem a ter uma crença mais forte e activa numa Força Criadora no universo.

Portanto, o primeiro lugar para procurar Deus é lá fora. Vá a algum lugar onde possa realmente sentir e compreender o mundo natural, e refletir e meditar sobre quem o criou.

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Texto Original: Looking For God in Nature (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 5 de setembro de 2026

Uma Perspectiva Bahá'í sobre Aristóteles

O vídeo da minha apresentação sobre Aristóteles, que Bahá'u'lláh referiu como “o célebre homem de conhecimento”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Escrever um Testamento Bahá’í

Por Collis Ta'eed.


Pode parecer um pouco mórbido pensar sobre escrever um testamento, mas acontece que se trata de algo que todo o crente Bahá’í deve fazer durante a sua vida. Descobri isso recentemente quando o nascimento do meu primeiro filho me inspirou a pensar mais sobre o futuro do que era normal. Na verdade, descobri que escrever um testamento é uma lei do Kitab-i-Aqdas.

É bom também, porque, aparentemente, aqui na Austrália, em algumas circunstâncias quando não se tem um testamento, todos os bens são entregues ao estado!

Uma vez que um testamento é um documento legal, é importante lembrar se deve procurar algum aconselhamento jurídico adequado antes de escrever um. É possível encontrar modelos de testamentos, mas para mim foi bom ter alguém qualificado para fazer o trabalho, em vez de ficar perdido e confuso no meio de tudo isso.

Testamentos Bahá’ís

Não há instruções específicas sobre o conteúdo dos testamentos Bahá’ís, mas há uma instrução para o embelezar. No Kitab-i-Aqdas, Bahá'u'lláh afirma que:

O testador deve iniciar este documento com o adorno do Mais Grandioso Nome, dando ali testemunho da Unidade de Deus no Amanhecer da Sua Revelação, e mencionar, como desejar, o que é digno de louvor, para que seja um testemunho para ele nos reinos da Revelação e da Criação e um tesouro com o Senhor, o Protector Supremo, o Fiel. (Kitab-i-Aqdas)


Assim, no início do seu testamento, deve estar o Mais Grandioso Nome, isso pode ser escrito de três maneiras: 'Yá Bahá'u'l-Abhá', 'Ó Glória do Mais Glorioso', ou com uma caligrafia semelhante à que se encontra na foto do tecto da Casa de Adoração Bahá’í em Wilmette.

Depois disso, tal como diz a citação, deve haver um testemunho de fé. Não há uma linguagem específica e cabe a cada uma de nós, como Bahá’í, expressar-se da maneira que considerar adequada.

Além de embelezar o testamento, há muitas outras considerações importantes a ter em mente, incluindo:

1. Instruções sobre o Funeral

Os Bahá’ís têm instruções específicas para serem sepultados; por exemplo, não devem ser cremados. Devemos garantir que os nossos familiares e amigos conhecem estas disposições; e um testamento é um bom lugar para as escrever.

2. Pagamento de Huquq'u'llah

O Huquq'u'llah é uma responsabilidade individual; a melhor forma de a gerir é fazê-lo continuamente ao longo da vida. No entanto, podemos querer definir o pagamento do Huquq'u'llah no nosso último ano. A forma de organizar isso precisa de alguma reflexão, pois é importante termos a certeza que o executor do testamento consegue perceber o que pagar e como pagar. Talvez seja aconselhável consultar com o responsável pelo Huqúqu'lláh da sua área.

3. Legado para as Instituições Bahá'ís

Como Bahá’ís, podemos escolher deixar alguns dos seus bens a uma instituição ou fundo Bahá’í. Quem possui um objecto ou propriedade valiosa, pode querer entregá-la a uma instituição; o executor do testamento irá vender o objecto ou a propriedade e entregará o produto da venda à instituição. Além disso, também devemos enviar uma cópia do testamento para o Centro Nacional Bahá’í para que eles tenham um registo dos seus planos.

Em última análise, elaborar um testamento Bahá’í é uma obrigação para todos os Bahá’ís e algo que não tem de ser demasiado oneroso e mórbido. Depois de estar feito, é possível actualizá-lo periodicamente conforme seja necessário; mas também podemos deixá-lo como está, com a tranquilidade de que tudo ficará no seu lugar!

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Texto original: Writing a Baha’i Will

sábado, 29 de agosto de 2026

Haverá na história uma força sobre-humana?

Por David Langness.


Adoro filosofia — eleva a mente, conduz a pensamentos nobres e alimenta a chama da curiosidade.

Se quisermos saber mais sobre filosofia, no entanto, podemos facilmente dedicar-lhe a vida inteira. Só a leitura dos filósofos gregos antigos e a tentativa de compreender a sua sabedoria podem levar várias décadas de estudo a tempo inteiro, para não falar da tentativa de absorver e compreender as grandes obras filosóficas que surgiram do budismo, do judaísmo, do cristianismo, do islamismo e de muitas outras tradições. Os filósofos modernos também têm muito para oferecer — na verdade, precisaríamos de várias vidas de trabalho sério para absorver tudo o que é filosófico. Assim, aqui está uma forma que descobri para tornar a filosofia um pouco mais acessível: dê uma vista de olhos aos sites e publicações relacionados com a filosofia das principais universidades do mundo.

Oxford, Harvard, Stanford e muitos outros centros académicos de renome dedicaram-se a compreender o percurso da filosofia humana e a explicá-lo de forma acessível e racional. Um dos meus sites favoritos, por exemplo, é a Stanford Encyclopedia of Philosophy. Aprendi muito com este site em particular e costumo recomendá-lo a outros entusiastas da filosofia. No entanto, no outro dia, enquanto lia algo neste site, deparei-me com um texto com o qual discordei imediata e veementemente, escrito por um historiador marxista:

A história consiste em acções humanas dentro de instituições e estruturas corporizadas por seres humanos. Não existe nenhuma força sobre-humana na história. Não existe significado ou progresso sobre-humano na história; existe apenas uma série de eventos e processos impulsionados por processos causais concretos e acções individuais. (Philosophy of History, Stanford Encyclopedia of Philosophy 2016)

Como Bahá’í, discordo profundamente, pois acredito que o Criador desempenhou, e continua a desempenhar, um papel fundamental na história da humanidade. Você concorda?

Praticamente qualquer pessoa com convicções religiosas, místicas ou espirituais provavelmente sente o mesmo. Por conseguinte, é-me difícil imaginar como é que alguém familiarizado com a longa trajectória da investigação filosófica pode descartar completamente qualquer "acção sobre-humana" em toda a extensão da história humana. Na verdade, quando li esta ideia, achei-a extremamente egocêntrica.

Para acreditar nesta premissa, suspeito que seria necessário atribuir o fundamento de todas as religiões a um único ser humano meramente iludido ou desequilibrado, que teria estabelecido uma religião que enganou milhões de pessoas ao longo dos milénios seguintes. Será que Cristo, por exemplo, através da força da Sua personalidade ou do Seu carisma, simplesmente induziu em erro milhares de milhões de seguidores que se tornaram cristãos — e será que não tiveram qualquer impacto na história? Como seria isso possível?

Mas não me interpretem mal — não estou a defender que Deus controla todos os aspetos da história da humanidade. Nós, humanos, também precisamos de assumir a nossa responsabilidade. Realisticamente, sabemos que uma das forças mais poderosas da história da humanidade — a religião — nem sempre produziu resultados positivos. Aliás, as instituições religiosas em decadência produziram alguns dos piores resultados imagináveis:

As religiões do passado entraram em decadência por causa de líderes ávidos de poder que, com o passar do tempo, se apropriaram de todos os direitos e poderes para si próprios e desprezaram o resto dos seus correligionários, considerando-os ignorantes e privados do conhecimento de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 180)

Aquilo que deveria ser propício à vida tornou-se causa de morte; aquilo que deveria ser evidência de conhecimento é agora prova de ignorância; aquilo que era factor na sublimidade da natureza humana revelou-se a sua degradação. Por conseguinte, o domínio do religioso estreitou-se e obscureceu-se gradualmente, e a esfera do materialista ampliou-se e avançou; pois o religioso agarrou-se à imitação e à falsificação, negligenciando e descartando a santidade e a realidade sagrada da religião. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 179)

Infelizmente, o fundamento da realidade desapareceu e surgiram imitações, costumes e cerimónias que são a base da discórdia, a causa da obstinação, os meios da guerra e da luta. Perdeu-se o propósito original do aparecimento dos Santos Manifestantes e do estabelecimento dos ensinamentos divinos... Quando considerares a verdade ou a realidade, verás que estas antigas e decadentes limitações da religião se tornam a causa do derramamento de sangue entre os povos e as nações. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 5, p. 135)

Sabemos, portanto, que os seres humanos, como indica a Stanford Encyclopedia of Philosophy, possuem de facto uma significativa capacidade de agir e influenciar o mundo. Podemos assumir a responsabilidade pelo muito bom e pelo muito mau. Contudo, o facto de os humanos possuírem livre-arbítrio não elimina Deus da equação, segundo os ensinamentos Bahá’ís:

...cada vez que os Profetas de Deus iluminaram o mundo com o brilho esplendoroso do Sol do conhecimento Divino, eles, invariavelmente, convocaram os seus povos a abraçar a luz de Deus através dos meios que melhor satisfizessem as exigências do tempo em que apareceram. Assim eles puderam dissipar as trevas da ignorância e derramar sobre o mundo a glória do Seu próprio conhecimento. É para a mais íntima essência desses Profetas, portanto, que a visão de todo homem de discernimento se deve dirigir, pois o seu único e exclusivo propósito sempre foi guiar os errantes e dar paz aos aflitos... (Bahá’u’lláh, Gleanings, XXXIV)

A maioria dos historiadores entende que toda a nova civilização nasce de uma nova religião e que cada nova religião surge porque aparece um novo profeta ou mensageiro de Deus, trazendo essa nova religião para a humanidade. Os ensinamentos Bahá’ís baseiam toda a sua teoria da história neste processo evidente.

No próximo artigo desta série, na nossa busca para compreender as forças maiores que impulsionam a história da humanidade, analisaremos como determinar se algum dos grandes sábios, filósofos e mestres foi, na realidade, um profeta de Deus.

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Texto original: Does History Have Any Super-Human Agency? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Aristóteles

Na próxima 6ª feira (28-Agosto), teremos a 3ª sessão do curso "A Fé Bahá'í e os Pensadores Gregos: um Diálogo através dos Séculos".

Nesta sessão vamos ver os principais momentos da vida de Aristóteles e explorar os paralelismos entre os seus ensinamentos e os ensinamentos Bahá'ís.

Link de acesso directo aqui.



sábado, 22 de agosto de 2026

A peça de teatro que fez Tolstói olhar para a Fé Bahá’í

Por Peter Terry.


Como é que o grande escritor russo Lev Tolstói ouviu falar pela primeira vez dos ensinamentos Bahá’ís?

Para responder a esta questão, vamos analisar a vida e a obra de uma autora e dramaturga praticamente esquecida do final do século XIX e início do século XX, que procurou traduzir o “espírito e os ensinamentos” Bahá’ís nas suas obras de ficção e teatro.

A escritora russa de origem judaica, Beyle (Berta) Friedberg (1864-1944), filha de Abraham Shalom Friedberg (1838-1902), um prolífico autor em língua hebraica, nasceu em Grodno, na Rússia (actual Bielorrússia). Quando tinha 19 anos, o seu pai mudou-se para São Petersburgo, uma das capitais da arte e da literatura russas. Ela acompanhou-o, imergindo-se nos círculos literários judaicos.

O pai de Beyle Friedberg, Abraham, foi obrigado a mudar-se para Varsóvia em 1886, mas Beyle permaneceu em São Petersburgo, tendo casado em 1886 com Mordechai Spector (1859-1925) em 1886. Eram uma família artística e literária, sendo o seu marido um autor judeu tão eminente em língua iídiche como o seu pai era em hebraico.

Ainda jovem, Beyle parece ter adotado o pseudónimo Isabella Grinevskaya por volta dos vinte anos, e sob esse pseudónimo publicou os seus primeiros romances.

Beyle Friedberg (Isabella Grinevskaya)
Em “Hausfreund” (“Amigo da Casa”) e na “Jüdische Bibliothek” (“Biblioteca Judaica”), ela apontava didaticamente os perigos da educação superficial e ridicularizava a ideia de assimilação.

Em 1894, quando Beyle/Isabella completou trinta anos, publicou outro romance, desta vez por uma editora de Varsóvia, na Polónia. Ela e o marido, Mordechai, mudaram-se para Odessa, na Rússia, na década de 1890, e foi aparentemente nesta altura que começou a escrever em russo. Embora não haja data registada para o divórcio do casal, o marido voltou a casar em 1920 e mudou-se para Nova Iorque em 1921, pelo que, nessa altura, já não estavam casados.

Em 1903, Beyle/Isabella parece ter regressado a São Petersburgo. Nessa altura, ela já tinha escrito e publicado uma peça baseada na vida de Siyyid Ali Muhammad Shirazi, conhecido desde então como "O Báb", o fundador da religião Bábí e o arauto e precursor de Bahá'u'lláh e da Fé Bahá'í.

No ano seguinte, em 1904, a peça de Isabella Grinevskaya foi apresentada em palco. (Foi também repetida em 1916-17). Tolstói leu a peça e reagiu fortemente:

O Conde Tolstói conheceu os ensinamentos Bahá’ís através da literatura… Ouviu falar pela primeira vez do Movimento Bahá’í em Maio de 1903, quando a Sra. Isabel Grinevsky apresentou em Leninegrado (a antiga capital da Rússia, então chamada São Petersburgo) um grande drama chamado Báb; era em verso e narrava a história iluminada do Precursor do Movimento Bahá’í, um jovem chamado Báb, e dos seus discípulos, conhecidos por Letras dos Viventes; as cenas passavam-se na Pérsia. Este drama foi apresentado num dos principais teatros de São Petersburgo, em janeiro de 1904, e teve uma recepção notável. Alguns críticos foram bastante elogiosos. Por exemplo, o poeta Fiedler (que posteriormente traduziu o drama para alemão) disse: “Recebemos dos cinco atos do drama poético Bab mais informações sobre o Movimento Bahá’í do que das profundas pesquisas científicas do Professor Edward G. Browne, de Gobineau e de cientistas e historiadores russos…”. Raramente a fama de uma peça precedeu a sua representação como aconteceu com a da Sra. Grinevsky. (Valentin Bulgakov, secretário do Conde Lev Tolstói, numa entrevista de 1927 a Martha L. Root, Star of the West, Volume 10, pag. 302)

Tolstói trocou então correspondência com Isabella e enviou também a sua carta aos meios de comunicação russos:

O Conde Tolstói leu o drama Bab com grande interesse e enviou uma carta à Sra. Grinevsky elogiando o seu trabalho e dizendo-lhe que simpatizava com os ensinamentos do Movimento Bahá’í. A sua carta foi publicada na imprensa russa.

Seguidamente, o Conde Tolstói leu um opúsculo do Sr. Arakewian que descrevia com mais pormenor a história dos primeiros seguidores do Báb e apresentava um breve relato dos ensinamentos. Estudou-o com grande interesse… O coração e a alma do Conde Tolstoi estavam em todos os movimentos universais, como o Movimento Bahá’í, que visam a unidade de toda a humanidade. (Idem, pags. 303-304)

A arte fala à alma de formas que o intelecto não consegue, e os Bahá’ís acreditam que a Fé Bahá’í se espalhará rapidamente:

… quando o seu espírito e os seus ensinamentos forem apresentados no palco ou na arte e literatura como um todo. A arte pode despertar estes nobres sentimentos de forma mais eficaz do que a racionalização fria, especialmente entre as grandes massas do povo. (carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um crente individual, 10 de Outubro de 1932)

No início do século XX, muito antes de o cinema e a televisão se tornarem tão proeminentes, ‘Abdu’l-Bahá previu que a forma dramática iria sofrer um ressurgimento:

O teatro é de primordial importância. Foi uma grande ferramenta educativa no passado e voltará a sê-lo. (‘Abdu’l-Bahá in London, p. 93)

Os ensinamentos Bahá’ís exaltam também o poder da música, e a peça de Grinevskaya sobre o Báb incorporou uma bela partitura. O compositor arménio Grikor Mirzaian Suni (1856-1939) vivia em São Petersburgo nessa época, e estudou com Rimsky-Korsakov, Glazunov e Lyadov. Suni compôs a música para a peça de Isabella, após vencer um concurso, mas o seu triunfo artístico revelou-se efémero:

Em 1904, participou num concurso de música baseado no poema dramático "Bab", de Isabella Grinevskaya, que retrata a vida persa, e, entre mais de trinta musicólogos concorrentes, Suni ganhou o primeiro prémio. Em dez dias, a obra teve doze apresentações, após as quais o governo proibiu quaisquer outras apresentações e confiscou o texto, juntamente com 18 peças musicais. (The Sun Project Music Preservation)

Em 1910, Beyle/Isabella mudou-se para Constantinopla e, entre 1910 e 1911, visitou ‘Abdu’l-Bahá no Egipto. Talvez já em 1903, e certamente nessa altura, Beyle se considerava e era considerada uma Bahá'í.

Durante estes últimos anos, ela escreveu um ensaio sobre o seu encontro com ‘Abdu’l-Bahá e uma peça sobre Bahá’u’lláh. Manteve também correspondência com intelectuais russos e Bahá’ís do Oriente e do Ocidente, viajando para França, Azerbaijão e Egipto. Faleceu em Constantinopla em 1944.

Beyle foi a primeira escritora a escrever uma obra dramática baseada na vida do Báb, que causou sensação internacional na sua estreia – e talvez tenha um impacto ainda maior quando for novamente encenada.

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Texto original: What Happens When Tolstoy Reviews Your Play (www.bahaiteachings.org)

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Peter Terry é um académico independente, músico e professor. É autor dos livros A Prophet in Modern Times (uma biografia do Bab), In His Own Words (uma biografia de Baha'u'llah), Proofs of the Prophets (uma compilação e comentário sobre as 40 provas da condição de Profeta), Proofs of the Prophets: Lord Krishna e Proofs of the Prophets: Baha'u'llah.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026