sábado, 22 de janeiro de 2022

O consumo de drogas leves como a marijuana é mesmo inofensivo?

Por Zarrin Caldwell.


Há alguns dias atrás li uma estatística surpreendente: o excesso de marijuana (“maconha”) no Oregon (Estados Unidos) provocou um aumento do consumo de drogas e poucos candidatos a emprego que conseguem passar num teste de despistagem de drogas!

E seguindo esta tendência, e para minha consternação, vários amigos e familiares que anteriormente evitavam qualquer envolvimento com drogas parecem agora apoiar o crescimento da indústria da cannabis. Afinal, tornou-se um negócio lucrativo e uma fonte de receita fiscal significativa.

Reconheço que há o argumento “não é pior que o álcool”, e entendo a complexidade dos prós e dos contras da legalização. Embora eu não tenha apoiado o uso recreativo de drogas, estas conversas fizeram-me pensar se eu não estaria a ser muito puritana. Orgulho-me de ter um sistema de valores forte, mas, numa era ultraliberal, eu sou frequentemente acusada de ser “antiquada”.

Assim, decidi procurar nas Escrituras Bahá'ís o que se diz sobre o assunto. Na realidade, alguns das expressões mais fortes das Escrituras Bahá'ís proíbem o uso de drogas, especialmente o ópio e o haxixe. Numa epístola, ‘Abdu'l-Bahá afirmou que: “o utilizador, o comprador e o vendedor [de ópio] estão todos privados da generosidade e graça de Deus”. (citado pela Casa Universal de Justiça no Livro Mais Sagrado, de Bahá'u'lláh)

Num outro excerto, este sobre haxixe – uma droga feita de resina da cannabis – 'Abdu'l-Bahá disse:

Em relação ao haxixe, você referiu que alguns persas se habituaram a usá-lo. Deus Gracioso! Este é o pior de todos os intoxicantes, e a sua proibição foi explicitamente revelada. A sua utilização causa a desintegração do pensamento e o completo entorpecimento da alma. Como poderia alguém procurar o fruto da árvore infernal e, ao comê-lo, ser levado a exemplificar as qualidades de um monstro? Como poderia alguém usar esta droga proibida e assim privar-se das bênçãos do Todo-Misericordioso? O álcool consome a mente e leva o homem a cometer actos absurdos, mas esse ópio, esse fruto podre da árvore infernal e esse haxixe perverso extinguem a mente, congelam o espírito, petrificam a alma, desperdiçam o corpo e deixam o homem frustrado e perdido. (Idem, pags. 238-239)

De acordo com o site addiction.com, o “Haxixe é um canabinoide, o que significa que é feito de cannabis ou da planta da marijuana. É um composto químico que produz os mesmos efeitos psicotrópicos da marijuana.” O ingrediente activo do haxixe e da marijuana é o tetrahidrocanabinol, também conhecido como THC.

Embora os ensinamentos Bahá'ís exijam que os Bahá'ís se abstenham dessas e de outras drogas viciantes similares, o seu uso não é necessariamente proibido quando prescrito por um médico habilitado como parte de um plano de tratamento médico – para aliviar a dor, por exemplo.

No entanto, para o uso recreativo, duvido que muitos estejam realmente pensando nas consequências a longo prazo do uso livre de marijuana para todos, particularmente os impactos nos jovens e adultos jovens. Um resumo de um editorial de Maio de 2018 de Judithe Grisel no Washington Post, por exemplo, afirma o seguinte:

Os estudos mostram que os adolescentes que fumam marijuana regularmente têm actividade reduzida nos circuitos cerebrais críticos para perceber novas informações e tomar decisões; eles têm menos de 60% de probabilidade de concluir o ensino secundário, “têm um risco substancialmente maior de dependência de heroína e alcoolismo” e são sete vezes mais propensos a tentar o suicídio. Estudos recentes mostram até que o THC pode activar ou desactivar a expressão genética no epigenoma de um adolescente, colocando os filhos dos consumidores jovens “em risco acrescido de doença mental e dependência” anos antes de serem concebidos.

Por outras palavras, se não queremos mais uma geração de viciados, podemos começar por ajudar os jovens a decidir não usar drogas. Incentivar os jovens a experimentar substâncias que alteram a mente pode levá-los por um caminho sem regresso, especialmente para aqueles que têm uma predisposição genética para se tornarem viciados. Como se afirmava num artigo de 2017 no BahaiTeachings.org sobre vícios em opioides, 90% de todos os vícios em drogas começam na adolescência.

Os esforços de prevenção são críticos. Eu cresci na Fé Bahá'í e fui ensinada a evitar esse caminho a todo o custo. Além das diretrizes mencionadas acima, os meus pais deram-me um bom exemplo e ter-me-iam matado (figurativamente falando) se eu tivesse começado a usar drogas. Não tenho filhos, mas penso que muitos jovens de hoje estão a crescer com mensagens diferentes - que reflectem as atitudes negligentes da comunicação social sobre o uso de drogas - e vendo os seus pais a abusar do álcool, a tomar opioides (agora em proporções epidémicas nos EUA) ou fumar marijuana. Isso pode-se tornar o único caminho que eles conhecem.

Circunstâncias difíceis ou eventos traumáticos da vida podem colocar alguns jovens nesse caminho. Mas, se eles têm modelos fortes ou, mais fundamentalmente, um propósito maior na vida, é menos provável que procurem o mundo das drogas para fugir à realidade:

Todos os homens foram criados para levar avante uma civilização em constante progresso. O Omnipotente dá-Me testemunho: agir como os animais do campo é indigno do homem. As virtudes que se adequam à sua dignidade são a paciência, a misericórdia, a compaixão e a benevolência para com todos os povos e famílias da terra. (Bahá'u'lláh, Gleanings, CIX)

Por outras palavras, estamos destinados a coisas muito maiores do que o consumo de drogas e entretenimento irracional. Muitas pessoas percebem que as drogas nunca saciarão a sua sede mais profunda – e anseios por conexão, amor e significado – que podem estar ausentes nas suas vidas. As Escrituras Bahá'ís apelam repetidamente à humanidade para recuperar essa herança espiritual perdida:

Inebriai-vos com o vinho do amor de Deus, e não com aquilo que enfraquece as vossas mentes, ó vós que O adorais. (Bahá'u'lláh, citado por Shoghi Effendi em The Advent of Divine Justice, p. 33)

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Texto original: Are Habit Forming Drugs like Marijuana Really Harmless? (www.bahaiteachings.org)


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Zarrín Caldwell é uma Bahá’í residente no Arizona (EUA). Tem trabalhado para diversas uma variedade de organizações internacionais sem fins lucrativos, em cargos de comunicação e gestão de programas. A sua experiência profissional centra-se nas organizações multilaterais, relações inter-religiosas, construção da paz e educação internacional. Tem viajado por muitos países e considera-se uma cidadã do mundo.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Religião e Política: uma perspectiva Bahá'í

Por David Langness.


 Os Bahá’ís acreditam que religião e política não combinam bem.

Os ensinamentos Bahá’ís descrevem claramente a religião e a política como duas esferas separadas da actividade humana:

A religião preocupa-se com as coisas do espírito, a política com as coisas do mundo. A religião tem que trabalhar com o mundo do pensamento, enquanto o campo da política se foca no mundo das condições externas. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 132)

'Abdu'l-Bahá falou muitas vezes sobre o contraste entre a actividade política e espiritual, mas a sua palestra sobre o assunto em Paris, em 1911, apresentou definitivamente o ideal Bahá’í de separação de religião e política de uma nova maneira - focada no amor:

Devemos encontrar um meio de espalhar o amor entre os filhos da humanidade. O amor é ilimitado, imenso, infinito! As coisas materiais são limitadas, circunscritas, finitas. Não se pode exprimir apropriadamente amor infinito com meios limitados.

O perfeito amor necessita de um instrumento altruísta, absolutamente livre de todo o tipo de grilhões. O amor da família é limitado; o laço da consanguinidade não é a mais forte das ligações. Frequentemente, os membros da mesma família discordam, e chegam a odiar-se uns aos outros.

O amor à pátria é finito; amar um país e provocar ódio aos outros não é amor perfeito! Os compatriotas também não estão livres de disputas entre si.

O amor à raça é limitado; há aqui alguma união, mas isso é insuficiente. O amor deve ser livre de fronteiras! Amar a nossa própria raça pode significar aversão a todas as outras; até pessoas da mesma raça, frequentemente, antipatizam uns com os outros.

O amor político está muito ligado ao ódio de um partido contra outro; este amor é muito limitado e incerto.

O amor da comunidade de interesses em servir é igualmente flutuante; muitas vezes surgem as competições, levando à inveja e, por fim, o ódio substitui o amor. Há alguns anos, a Turquia e a Itália mantinham um acordo político de amizade; hoje estão em guerra!

Todos estes laços de amor são imperfeitos. É claro que os laços materiais são insuficientes para expressarem adequadamente, o amor universal. O grande e generoso amor pela humanidade não está preso a nenhum desses laços imperfeitos e interesseiros; este é o único perfeito amor, possível a toda a humanidade, e somente será conseguido através do poder do Espírito Santo. Nenhuma força na terra pode realizar o amor universal. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 36)

Visto que a Fé Bahá'í ensina que o amor por toda a humanidade pode revigorar o mundo e levar à sua unidade, os Bahá’ís entendem que escolher um lado ou outro nas divisões políticas partidárias do nosso tempo só servirá para manter a fragmentação e desunião.

Isto não significa que os Bahá’ís evitem o envolvimento nas sociedades onde vivem. Na verdade, Bahá’u’lláh exorta os Bahá’ís a ser parte activa na sociedade civil, a trabalhar com entusiasmo e persistência na melhoria das suas aldeias, vilas e cidades:

Preocupai-vos veementemente com as necessidades da época em que viveis, e centrai as vossas deliberações nas suas exigências e requisitos (Baha’u’llah, The Proclamation of Baha’u’llah, p. 116)

É claro que os Bahá’ís votam nas eleições dos seus países; e votam na pessoa que consideram mais ética e mais capacitada para o cargo. Os Bahá’ís não votam segundo orientações partidárias, não se identificam com partidos políticos, nem aceitam cargos políticos, preferindo dedicar as suas energias ao crescimento espiritual da humanidade:

A política dedica-se às coisas materiais da vida. Os eruditos religiosos não devem invadir o campo da política; devem preocupar-se com a educação espiritual do povo; devem sempre dar bons conselhos aos homens, procurando servir Deus e a espécie humana; devem esforçar-se por despertar a ambição espiritual, alargar a compreensão e o conhecimento da humanidade, melhorar os costumes e incrementar o amor pela justiça. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 158)

Que, de boa vontade, se sujeitem a todo rei justo, e sejam bons cidadãos para com todo o governante generoso. Que obedeçam ao governo e não intervenham em questões políticas, mas antes, se dediquem ao aperfeiçoamento do carácter e da conduta, e fixem o seu olhar na Luz do mundo. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #236)

Esta relação única entre a Fé Bahá’í e as muitas nações e culturas onde ela está presente, significa que os Bahá’ís concentram os seus esforços na construção de uma nova comunidade global. O facciosismo partidário, como ‘Abdu’l-Bahá indica, nunca conseguirá construir a unidade entre todas as pessoas - apenas a fé no amor universal e na paz o conseguirá. Os Bahá'ís acreditam que o mundo entrou num período de transição de um conjunto de regras políticas para outro - que os velhos princípios divisivos da política partidária acabarão dando lugar a um novo corpo político, agora em processo de formação, que irá, em última análise, unificar as nações e os povos em conflito.

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Texto original: Religion and Politics: A Baha’i Perspective (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 8 de janeiro de 2022

Bahá’u’lláh afirmou ser superior a outros Profetas?

Por Rodney Richards.


Lutar pelos nossos valores e pelo nome com que nos identificamos como crentes, leva-nos a um dos piores erros humanos: acreditar que a nossa religião é a melhor, a mais verdadeira, ou a única maneira de conhecer e amar a Deus.

Então, como podemos corrigir este erro humano básico, que inevitavelmente leva a equívocos, conflitos religiosos e falsas comparações? Os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que libertemos conscientemente as nossas mentes e corações dos nossos preconceitos religiosos, e tratemos todas as pessoas com amor e bondade. Então, vamos esclarecer alguns equívocos comuns sobre a Fé Bahá’í:
  • que Bahá’u’lláh afirmou ser o mensageiro "supremo" de Deus para esta era;
  • que os ensinamentos de Bahá’u’lláh "substituem" os dos profetas e mensageiros anteriores, incluindo Muhammad, Cristo, Moisés, Buda e outros;
  • que os Bahá'ís acreditam que os ensinamentos desses profetas passados estão "desactualizados" e, portanto, não devem ser seguidos.
Essas interpretações incorrectas provocam atrito e confusão nas mentes das pessoas que tentam entender a mensagem de Bahá’u’lláh - e a mensagem dos profetas anteriores. Em primeiro lugar, sejamos claros: as escrituras Bahá’ís dizem claramente que os principais ensinamentos espirituais de todos os professores divinos são os mesmos, assim como sua fonte:

A Realidade das Religiões divinas é uma única, pois a Realidade é una e não pode ser dupla. Todos os Profetas estão unidos nas Suas mensagens, e inabaláveis. Eles são como o sol; nas diferentes estações, Eles aparecem em diferentes locais de alvorecer no horizonte. Por isso, cada Profeta passado deu as boas-novas sobre o futuro, e cada futuro aceitou o passado. (‘Abdu’l-Bahá, ‘Abdu’l-Bahá in London, p. 29)

Para lá da comparação e da distinção, os Bahá’ís acreditam que a missão básica de todas as religiões é sempre a mesma: regenerar os corações e as almas de cada ser humano no planeta. Os fundadores e profetas destas religiões surgiram em diferentes momentos da história e do desenvolvimento da humanidade para dar a necessária a orientação espiritual e social. Os meios e as palavras que Eles escolheram podem ter sido diferentes - mas todos Eles chamaram o povo para Deus, não para Eles próprios. Eles foram os primeiros a jurar obediência ao Criador e a renunciar a qualquer obediência a Si próprios acima da obediência a Deus.

Todos os mensageiros de Deus transmitiram verdades espirituais ao longo das suas vidas e ensinamentos. Todos Eles declararam que o Deus único é a fonte do Seu ser e inspiração. Eles reflectiram a beleza do Criador, agindo como espelhos perfeitos, reflectindo e transmitindo a luz divina para toda a humanidade. Esta é a Sua única realidade, a Sua condição comum.

Precisamos apenas de ler as Escrituras de todos os professores divinos para ver a Sua perfeita concordância. Por exemplo, Cristo disse: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua mente” (Mateus 22:37). De igual modo, Muhammad disse: "Nenhuma divindade, salvo Deus" (Alcorão 6: 106). Bahá’u’lláh repetiu estas palavras quando escreveu:

O que é digno de vós é o amor de Deus e o amor d'Aquele que é o Manifestante da Sua Essência, e a observação de qualquer coisa que Ele vos prescrever - se apenas o soubésseis. (Gleanings, CXXXIX)

Por outras palavras, o amor de Deus está no âmago da vida e do propósito dos seres humanos - e no âmago de cada religião.

Outro exemplo dessa continuidade e unidade – a Regra de Ouro – mostra que todos os mensageiros divinos nos ensinam a tratar os outros com igual amor e respeito. Na Bíblia, Cristo nos lembra de "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:39). No Alcorão, Muhammad adverte: "Paguem, ó filhos de Adão, como vocês gostariam de ser justos e sejam exatamente como gostariam de ter justiça!" (83: 1-6). Da mesma forma, Bahá’u’lláh advertiu: "Acautelai-vos para não vos preferires a vós próprios acima dos vossos próximos." (Gleanings, CXLVI).

Em determinados momentos da história humana, estes mensageiros de Deus actuaram como uma balança infalível, o caminho e a verdade, a fonte de luz e sabedoria para a qual todos se podiam voltar. Cada Mensageiro também alterou, manteve ou revogou as leis sociais das religiões anteriores. Isso é natural e necessário, porque a humanidade e as nossas condições sociais mudam com o tempo, assim como a nossa capacidade de resposta à mensagem de Deus. No entanto, as autoridades religiosas existentes lutaram contra essas mudanças e caluniaram, torturaram ou mataram os novos Mensageiros, provocando consternação, confusão e conflitos incalculáveis até hoje.

Apesar das tentativas de oposição ao seu progresso, as grandes religiões persistem. A prova da divindade de um Mensageiro está nos Seus frutos, na compaixão amorosa e nos novos sistemas de justiça e governação promulgados pelos Seus seguidores. Eles e os Seus seguidores podem ser condenados à morte, mas o que a humanidade não percebe totalmente é que Deus tem um plano - uma sequência contínua de Mensageiros, cada um trazendo novos ensinamentos para revitalizar e despertar a humanidade. Os Seus ensinamentos afirmam e aperfeiçoam os preceitos do Mensageiro anterior. O facto de Eles parecerem estar em contradição entre si revela apenas a nossa compreensão limitada e má interpretação das Suas missões.

Então, qual é a posição de Bahá’u’lláh, que os Bahá’ís reverenciam como o mais recente de uma longa linha de profetas e mensageiros? De acordo com a Casa Universal de Justiça, Bahá’u’lláh é "o Prometido de todas as eras", "o Alvorecer do Dia de Deus, o Dia em que os mais excelentes favores de Deus foram derramados sobre os homens.” (A Casa Universal de Justiça, Carta aos Bahá’ís do Mundo, abril de 1992)

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a posição de Bahá’u’lláh culmina e completa todas as revelações religiosas do passado. Mas Bahá'u'lláh também inaugurou um novo ciclo de revelação, que não termina com o Seu aparecimento. Os ensinamentos Bahá’ís dizem que este processo de revelação progressiva continuará enquanto a espécie humana existir - e que a humanidade continuará a receber a mensagem de Deus:

Bahá'u'lláh delineou o círculo da unidade; Ele fez um plano para a união de todos os povos e para a reunião de todos sob a proteção da tenda da unidade universal. Esta é a obra da Generosidade Divina e todos nós devemos esforçar-nos, de corpo e alma, até que tenhamos a realidade da unidade entre nós e, assim trabalhando, a força ser-nos-á concedida. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 55.)

Tal como os Seus antecessores divinos, Bahá’u’lláh chama os seres humanos à sua mais alta expressão de nobreza e unidade com seus semelhantes. A Sua posição e ensinamentos distintos inauguram uma nova era de paz e justiça global. “Construir de novo todo o mundo” é a declaração e o desafio da missão de Bahá’u’lláh.

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Texto original: Did Baha’u’llah Claim to Be Greater than Other Prophets? (www.bahaiteachings.org)


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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia), tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 18 de dezembro de 2021

O que significam os Símbolos Bahá’ís?

Por Maya Bohnhoff.


Uma das nossas alunas notou que alguns dos Bahá’ís que ela conhecia usavam objectos com uma estrela de nove pontas ou outros símbolos Bahá’ís.

Pergunta: Existe algum significado nestes símbolos, semelhante à cruz que lembra aos Cristãos que Jesus morreu para sua salvação, ou a Estrela de David representa os ensinamentos do Judaísmo?

Os Bahá’ís adoptaram informalmente a estrela de nove pontas como um símbolo, por vários motivos. A palavra “Baha” (“Glória”, em árabe) corresponde ao número nove no sistema árabe que atribui valores numéricos às letras (o chamado de sistema Abjad). Além disso, nove anos depois do anúncio do Báb, Bahá’u’lláh recebeu a Sua revelação numa masmorra em Teerão (o Poço Negro, ou Siyah-Chal). O número nove também simboliza abrangência e culminação, simplesmente porque é o maior número com um único dígito. Os templos Bahá’ís também têm nove lados, o que simboliza o facto de que todos são bem-vindos para entrar e orar, independentemente da sua proveniência religiosa.

A estrela de nove pontas também costuma ser usada nas lápides onde os Bahá’ís estão sepultados, mas é possível encontrar este símbolo usado de diferentes formas na comunidade Bahá’ís. Esta estrela simboliza o propósito essencial dos ensinamentos Bahá’ís - criar um mundo, unido sob Deus.

O “símbolo da pedra do anel” é uma representação caligráfica da frase "Allah’u’Abhá", significa "Deus é o mais Glorioso" - mas também é algo que considero verdadeiramente adorável. Nele descreve-se graficamente a relação entre Deus, os Seus Manifestantes e o Ser Humano. A linha horizontal superior representa o mundo de Deus (o reino espiritual); a linha horizontal inferior o representa o nosso mundo; e a linha entre eles simboliza os Manifestantes de Deus (Cristo, Buda, Bahá’u’lláh, etc). A linha vertical que liga os três planos de existência representa o Espírito Santo. As duas estrelas no símbolo representam o Báb (que preparou o caminho para Bahá’u’lláh) e Bahá’u’lláh. Este magnífico símbolo lembra os Bahá’ís de que estamos ligados a Deus através do Espírito Santo e dos Manifestantes de Deus.

O terceiro destes símbolos, a que os Bahá’ís chamam "o Maior Nome", é uma caligrafia artística da frase árabe "Ya Bahá’u'l-Abhá" que significa "Ó glória do Todo-Glorioso". Podemos encontrar este símbolo pendurado na parede das casas dos Bahá’ís; foi desenhado pela primeira vez pelo famoso calígrafo Bahá’í do século XIX chamado Mishkin-Qalam (que foi um dos primeiros Bahá’ís). Representado na forma de uma arca ou barco, é uma metáfora da Fé de Deus através dos tempos protegendo os crentes da tempestade espiritual nesta vida terrena.

Todos esses símbolos representam ideias e conceitos de grande importância para os Bahá’ís: que Deus educa continuamente a humanidade através da revelação progressiva; que todas as religiões vêm de um único Criador; que a unidade da humanidade representa o objectivo espiritual mais elevado eda nossa época.

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Texto original: What Do the Baha’i Symbols Mean? (www.bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 11 de dezembro de 2021

O Simbolismo e o Significado Espiritual dos Rouxinóis

Por Radiance Talley.
 

Muitas pessoas cresceram apreciando a companhia dos seus gatos e dos seus cães e gatos; mas eu sempre me senti atraída pelos animais que encontro na natureza, como veados e pássaros.

Desde pequena que sinto fascínio pelos pássaros. A sua capacidade de voar sempre me encantou e o seu chilrear sossega-me e inspira-me. Lembro quando estava no início do ensino primário, caminhava até junto dos pássaros no meu jardim e dizia: “Piu piu!” e fingia que eles estavam a responder-me. Talvez fossem influências das histórias da Branca de Neve e a da Bela Adormecida.

E hoje, à medida que vou envelhecendo, percebo o quão universal e mística é a atração pelos pássaros. Existe um, em particular, que possui um encanto especial, graças ao seu canto doce e fascinante: o rouxinol.

O Encanto e o Simbolismo Poético dos Rouxinóis


Os rouxinóis são pequenas aves canoras nativas da Europa, Ásia e África. Os machos desta espécie geralmente cantam à noite para fazer uma serenata à sua potencial parceira. (…) Eles são literalmente cantores noturnos!

Embora a maioria das pessoas nunca tenha visto um rouxinol de perto, por serem muito tímidos e muitas vezes se esconderem nos arbustos, as suas melodias espontâneas são consideradas um dos sons mais bonitos da natureza. Eles podem produzir mais de 1000 sons diferentes, com uma ampla gama de assobios e gorjeios; poetas e escritores inspiraram-se nestes pássaros e usaram-nos como símbolos nas suas obras ao longo da história.

Por exemplo, os rouxinóis surgem na "Odisseia" de Homero, na "Ode a um Rouxinol" de John Keats e no "Soneto 102" de Shakespeare. No ensaio "Defesa da Poesia", o poeta do século XIX, Percy Bysshe Shelley escreveu:

Um Poeta é um rouxinol que se senta na escuridão e canta para alegrar a sua própria solidão com sons encantadores; os seus ouvintes são como homens hipnotizados pela melodia de um músico invisível, que se sentem comovidos e enternecidos, mas não sabem de onde nem porquê.

O rouxinol também é ave nacional da Ucrânia, Croácia e do Irão. Durante quase 1000 anos, o rouxinol foi um tema popular na literatura persa e muitas vezes simboliza o poeta, ou o amante, que anseia pelo objeto do seu afecto. A amada do rouxinol é geralmente descrita como uma rosa na poesia persa.

O Significado Espiritual dos Rouxinóis na Fé Bahá'í


O desejo do rouxinol pela rosa também é usado como metáfora na Fé Bahá’í. Numa palestra proferida por 'Abdu'l-Bahá, uma das figuras centrais da Fé Bahá’í, Ele disse:

Tal como uma mariposa, deve-se amar a luz, seja qual for a lâmpada onde ela brilhe; e como um rouxinol, deve-se estar apaixonado pela rosa, em qualquer jardim em que ela floresça.

O rouxinol simboliza aqueles que buscam a verdade e a rosa representa os ensinamentos divinos e a realidade espiritual. Ele explicou:

Deve-se procurar a graça múltipla de Deus, pesquisar os esplendores divinos e ficar extasiado e encantado com qualquer realidade em que eles se encontrem de forma clara e óbvia. Considere que, se os judeus não tivessem se agarrado ao horizonte de Moisés, mas tivessem fixado o seu olhar no Sol da Verdade, sem dúvida teriam visto aquele Sol brilhando na plenitude do seu esplendor divino naquele verdadeiro alvorecer que era Cristo.

Os Bahá’ís acreditam que Deus nunca abandonou a humanidade, mas que enviou professores divinos – também chamados Manifestantes de Deus – para ajudar no desenvolvimento espiritual da humanidade. Esses Manifestantes incluem Abraão, Zoroastro, Moisés, Buda, Krishna, Jesus Cristo, Muhammad e o Báb. Os Bahá’ís acreditam que o mensageiro divino para esta era é Bahá’u’lláh - que veio para unir toda a humanidade e fundou a Fé Bahá'í. Numa oração chamada "Epístola de Ahmad", Bahá’u’lláh escreveu:

Eis que o Rouxinol do Paraíso canta sobre os ramos da Árvore da Eternidade, com santas e suaves melodias, proclamando aos sinceros as boas novas de que Deus está próximo; chamando os crentes na Unidade Divina para a corte da Presença do Generoso; aos desprendidos, informando da mensagem revelada por Deus, o Rei, o Glorioso, o Incomparável; e aos que O amam, guiando ao lugar da santidade e a esta Beleza resplandecente.

Este "Rouxinol do Paraíso" é Bahá’u’lláh, cujas palavras doces e sagradas nos aproximam de Deus. Tanto os rouxinóis quanto o Rouxinol do Paraíso foram forçados a sofrer no século XIX devido às suas melodias poderosas.

Tal como os caçadores de pássaros capturaram cruelmente um grande número de rouxinóis para tentar "prender" as suas canções, Bahá’u’lláh suportou 40 anos de prisão, tortura e exílio por anunciar uma nova revelação divina. Embora os rouxinóis presos em gaiolas muitas vezes se matem atirando-se contra as grades da gaiola, as suas melodias nunca poderiam ser esquecidas. E a música mística de Bahá’u’lláh continua a espalhar-se, à medida que as Suas mensagens unificadoras são partilhadas em todo o mundo.

Noutros textos das Escrituras Bahá’ís, os rouxinóis simbolizam firmeza e encantamento espirituais. Numa oração pela juventude, ‘Abdu’l-Bahá escreveu:

Ó Tu, Senhor bondoso! Concede a confirmação celestial a esta filha do reino e ajuda-a graciosamente para que ela possa permanecer firme e constante na Tua Causa, e que ela possa, tal como um rouxinol do jardim de rosas dos mistérios, chilrear melodias nos ... tons mais maravilhosos, trazendo assim felicidade para todos.

Tal como uma doce melodia, uma palavra gentil e um tom de voz pacífico podem elevar o nosso espírito. Deus deseja que sejamos espiritualmente fortes, louvemos o que é divino e alegremos todos os corações através da beleza ao nosso redor - e dentro de nós.

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Texto original: The Symbolism and Spiritual Meaning of Nightingales (www.bahaiteachings.org)


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Radiance Talley é licenciada em comunicação pela Universidade de Maryland. Além da escrita, do desenho, e da comunicação em público, Radiance tem um profundo conhecimento da teoria da construção, técnicas de negociação, gestão de conflitos, comunicação organizacional e intercultural, antropologia e sociologia.