Por David Langness.
Quando ouve as palavras “refugiado” ou “migrante”, o que lhe vem imediatamente à cabeça? Pensa num imigrante pobre a atravessar a fronteira para outro país – ou pensa em Cristo?
Sim, a família de Cristo era constituída por refugiados e migrantes. Os seus pais, José e Maria, fugiram de Belém após o sonho de José sobre o decreto do Rei Herodes para matar todos os bebés do sexo masculino. Para salvar o seu filho recém-nascido, Jesus, fugiram para o Egipto como migrantes pobres.
Na verdade, muitos dos grandes profetas, mensageiros divinos e fundadores das religiões do mundo foram refugiados – exilados pobres que dependiam da bondade humana.
Pensemos nas enormes dificuldades que enfrentaram: abusados, torturados, exilados das suas terras natais, obrigados a vaguear por lugares estranhos sem apoio ou sustento, perseguidos, presos e até executados, os mensageiros de Deus sofreram como migrantes e refugiados.
Abraão, fugiu de uma grave fome na sua terra natal, Canaã, foi banido pelo rei, e migrou para o Egipto. Buda abandonou a sua vida na realeza e migrou para Rajagaha, onde se tornou mendigo, um homem sem-abrigo que pedia esmola nas ruas. Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá’í, foi exilado da Pérsia, a Sua terra natal, e passou décadas na prisão – tudo por ensinar a Sua nova fé.
Estes profetas e muitos outros, explicam os ensinamentos Bahá’ís, tornaram-se exilados, refugiados e migrantes. ‘Abdu’l-Bahá, filho e sucessor de Bahá’u’lláh, falou sobre esta realidade num discurso proferido na Igreja Unitária All Souls, na cidade de Nova Iorque, em 1912:
Moisés foi perseguido e expulso para o deserto, Abraão foi banido, Maomé refugiou-se em grutas, o Báb foi morto e Bahá’u’lláh foi exilado e preso durante quarenta anos. Mesmo assim, todos eles desejaram a comunhão e o amor entre os homens. Suportaram dificuldades, sofreram perseguição e morte por nossa causa, para que pudéssemos aprender a amar-nos uns aos outros e a estar unidos e a ser afetuosos, em vez de discordantes e em conflito. Basta destes longos séculos que trouxeram tantas adversidades e dificuldades ao mundo através do conflito e do ódio. Agora, neste século radioso, esforcemo-nos por fazer a vontade de Deus, para que sejamos resgatados destas trevas e possamos alcançar a iluminação ilimitada do céu, rejeitando a divisão e acolhendo a unidade divina da humanidade.
Será que as experiências de privação, perseguição e grandes dificuldades enquanto estrangeiros numa terra estranha contribuíram para que todos os profetas desenvolvessem uma enorme empatia pelos deslocados? Os ensinamentos Bahá’ís reflectem certamente este elevado nível de empatia. 'Abdu'l-Bahá disse: "Sede sempre bondosos com todos e um refúgio para aqueles que não têm abrigo". Num discurso proferido em Paris, acrescentou:
... esforçai-vos para que as vossas ações diárias sejam belas orações. Voltai-vos para Deus e procurai fazer sempre o que é certo e nobre. Valorizai os pobres, levantai os caídos, consolai os aflitos, curai os enfermos, tranquilizai os temerosos, resgatai os oprimidos, dai esperança aos desesperados, abrigai os desamparados!
Encontraremos estes mesmos nobres objectivos de amor e bondade universais repetidos nas Escrituras de todas as grandes religiões globais. Os seus ensinamentos exortam-nos a ver os exilados, os migrantes e os refugiados como seres humanos — não como outros, estrangeiros, estranhos ou intrusos, mas como almas semelhantes que precisam da nossa ajuda. Noutro discurso proferido perante uma plateia europeia em Paris, ‘Abdu’l-Bahá disse:
Que o convencionalismo não vos faça parecer frios e insensíveis ao conhecerem pessoas estrangeiras. Não as olheis como se suspeitassem que são malfeitores, ladrões e grosseiros. Considerai necessário ter muita cautela para não vos expor ao risco de conhecer pessoas eventualmente indesejáveis.
Peço-vos que não pensem apenas em vós próprios. Sede gentis com os estrangeiros, sejam eles da Turquia, do Japão, da Pérsia, da Rússia, da China ou de qualquer outro país do mundo.
Ajudai-os a sentirem-se em casa; procurai onde estão alojados, perguntai-lhes se podeis prestar algum serviço; tentai tornar as suas vidas um pouco mais felizes.
Desta forma, mesmo que, por vezes, aquilo que inicialmente suspeitava ser verdade, ainda assim fazei um esforço para ser gentil com eles — essa gentileza ajudá-lo-á a tornarem-se pessoas melhores.
Afinal, porque é que os estrangeiros devem ser tratados como estranhos?
Praticai o ensinamento de Bahá’u’lláh, o da bondade para com todas as nações. Não vos contenteis em demonstrar amizade apenas por palavras; deixai o vosso coração arder de amor e bondade por todos os que se cruzarem no vosso caminho.
Entre os Bahá’ís, toda a consulta sobre questões sociais complexas, como a imigração, começa com a identificação dos princípios espirituais envolvidos. Estes princípios espirituais universais — a unidade da raça humana; a consideração de toda a Terra como um só país; a bondade e a compaixão para com todos, independentemente dos seus costumes, credo ou cultura — impelem-nos a oferecer amor, serviço e abrigo aos exilados, aos sem-abrigo e aos imigrantes.
Quando vivemos de acordo com estes princípios, todos podemos fazer o nosso melhor para estender uma mão compreensiva àqueles que encontramos pessoalmente — mas e as políticas dos nossos países? Como podemos influenciar da melhor forma as políticas e práticas de imigração das nossas diversas nações para que estas comecem a reflectir uma realidade mais espiritual?
Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que podemos servir melhor os nossos países aplicando o princípio do federalismo ao mundo inteiro.
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Texto original: Baha’is and Immigration: How to Build a World Without Borders (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.



