sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Apresentado o projecto para o Santuário de ‘Abdu’l-Bahá

A Casa Universal de Justiça apresentou hoje, a todas as Assembleias Espirituais Nacionais, o projecto da estrutura para o Santuário de ‘Abdu’l-Bahá.

Para os Bahá’ís, ‘Abdu’l-Bahá ocupa uma posição sem paralelo nos anais da história religiosa da humanidade. Na sua carta, a Casa de Justiça afirma que a estrutura delineada no projecto pretende “homenagear a posição única de ‘Abdu’l-Bahá” e “reflectir a Sua condição sublime e a Sua humildade”.

“Este deve ser diferente de qualquer outro edifício”, explicou Hossein Amanat, o arquitecto selecionado para esta iniciativa histórica. “Pretende manifestar o altruísmo, a sabedoria a abertura, a aceitação e a generosidade de ‘Abdu’l-Bahá para com todas as pessoas, materializar o Seu amor pelos jardins e pela natureza, e reflectir a Sua atitude progressista e virada para o futuro”.

Entretanto, foram divulgados várias imagens e um vídeo que permitem ver a estrutura central e o espaço envolvente.


“’Abdu’l-Bahá indicou o local onde deveria ser sepultado”, explicou o arq. Amanat. “Ele disse a um dos primeiros crentes que se alguma coisa Lhe acontecesse e Ele falecesse, queria ser sepultado sob os areais entre Haifa e Acre, um local que Ele descrevia como o caminho trilhado pelos bem-amados e pelos peregrinos”.

Numa oração escrita por ‘Abdu’l-Bahá – e recitada pelos visitantes no Seu túmulo – Ele expressa a seguinte súplica a Deus: “Torna-me como o pó no caminho dos Teus bem-amados”. O conceito desta oração foi um dos princípios organizadores do projecto.

“Considerando a essência destas palavras e pensando nas características de ‘Abdu’l-Bahá, hesitámos em conceber uma estrutura imponente como a Sua última morada. Os Seus desejos foram tidos em conta,” afirmou o arq. Amanat, “mas não de forma tão literal que a Sua posição não seja reverenciada e reconhecida. A Sua última morada deve ser nova e única, e diferente de qualquer outro edifício.”

Os visitantes poderão andar por um caminho concebido para facilitar as etapas de uma viagem meditativa em direcção ao Santuário, no centro do jardim.

“O interior do Santuário está projectado para ser um local de luz difusa e contemplação serena. O santuário estará localizado no centro deste espaço tranquilo, e um padrão de luz emanará do túmulo e envolverá todo o jardim, simbolizando o esplendor que ‘Abdu’l-Bahá trouxe aos povos do mundo,” acrescentou o arq. Amanat.

“’Abdu’l-Bahá era um Homem moderno. Ele foi o precursor do que era novo – as Sua palavras eram novas, os Ensinamentos do Seu Pai que Ele promulgava eram novos, e Ele chamava a humanidade para um novo conjunto de relações. Este edifício pretende reflectir isso.”

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FONTE: Design concept for the Shrine of ‘Abdu’l-Baha unveiled (BWNS)

sábado, 14 de setembro de 2019

Podemos juntar Espiritualidade e Artes Marciais?

Por Peter Gyulay.


Quando era criança via muitos filmes do Bruce Lee e desde logo me interessei por artes marciais; mas quando me tornei adulto tentei combinar esse interesse com a minha vida espiritual.

Ao início, isto pode parecer contraditório; no fundo a expressão “artes marciais” sugere algo “guerreiro” ou “militarista”. Assim, como é que isso pode coexistir com uma religião pacífica como a Fé Bahá’í?

Vou tentar explicar. Durante a minha infância, via muitos filmes de Kung Fu e depois imitava os movimentos no meu quarto. Só comecei verdadeiramente a praticar artes marciais quando estava na universidade, e mesmo assim foi com regularidade mínima. Nessa altura comecei a minha busca espiritual por Deus, e simultaneamente encontrei alguém que praticava Jeet Kune Do, a arte marcial praticada por Bruce Lee.

Depois de praticar Jeet Kune Do informalmente durante um ou dois anos, a minha identidade pacifista começou a questionar se as artes marciais eram compatíveis com a vida espiritual. Pensei que estava essencialmente a aprender a agredir pessoas; a violência estava cada vez mais presente na minha cabeça. E por isso, deixei de treinar.

Quase vinte anos depois, o meu filho e a minha mulher inscreveram-se numa escola de Karaté. O meu filho gostou muito, mas a minha mulher não gostou. Como não queríamos perder as aulas que já tínhamos pago, decidi usá-las eu próprio, e a minha afinidade com as artes marciais renasceu.

Adorava vestir o meu karategi (uniforme) branco. Sentia-me tranquilo e minimalista. Mas apesar de vestir um traje de monge, ainda estava a aprender a agredir pessoas, e assim, aquelas questões dos 20 anos anteriores surgiram novamente. Isto fez-me procurar o que diziam os ensinamentos Bahá’ís sobre artes marciais, e em particular sobre a auto-defesa.

Para começar, os ensinamentos Bahá’ís proíbem que os Bahá’ís matem outras pessoas, mesmo em auto-defesa: “Sabei que é melhor para vós ser morto no caminho da Sua complacência do que matar.” (Baha’u’llah, The Summons of the Lord of Hosts, p. 111)

Os ensinamentos Bahá’ís explicam que os Bahá’ís não são puros pacifistas – que um Bahá’í tem o direito de se defender, e a defender outros, quando confrontados com violência. No entanto, quando os Bahá´ís são atacados devido às suas convicções, tal como acontece em países como o Irão e o Iémen, não devem retaliar: “Um ataque religioso organizado contra Bahá’ís não deve degenerar em qualquer tipo de guerra” (Carta da Casa Universal de Justiça, 1969-05-26). E o texto prossegue:
Uma Epístola ainda não traduzida de ‘Abdu’l-Bahá, porém, salienta que em caso de ataque… um Bahá’í não se deve entregar, mas deve, tanto quanto as circunstâncias permitirem, tentar defender-se, e posteriormente apresentar uma queixa junto das autoridades. (Idem)
Para mim isto significa simplesmente que, se não for possível chamar a polícia no momento de um ataque, os Bahá’ís têm o direito de se defender.

Isto sugere que, do ponto de vista Bahá’í, é perfeitamente permissível a uma pessoa defender-se quando é atacada. No entanto, a Casa Universal de Justiça explica também:
O assunto é basicamente uma questão de consciência, e em cada caso o Bahá’í envolvido deve fazer o seu juízo e determinar quando é que deve parar a sua auto-defesa para que o seu acto não degenere em retaliação. (Idem)
Uma vez que a auto-defesa é essencialmente uma questão de consciência, tal como muitos outros aspectos da vida Bahá’í, e a nossa consciência deve ser guiada pela Palavra de Deus, questionei-me como é que as palavras de Bahá’u’lláh abordam este assunto.
Sois frutos de uma só árvore e folhas de um único ramo. Tratai-vos uns aos outros com o maior amor e harmonia, com amizade e camaradagem. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Isto significa, obviamente, que os Bahá’ís não atacam outras pessoas, e se os outros se tornam hostis para connosco, tentamos resolver as coisas pacificamente. A nossa primeira defesa são as palavras. Devemos tentar verbalmente diminuir a intensidade dos problemas para que não ocorra confrontação física. Mas se amamos verdadeiramente os outros, poderemos pensar que não queremos agredir os outros, mesmo em auto-defesa. No entanto, também nos devemos lembrar que o amor deve estar associado à justiça. Bahá’u’lláh escreveu: “Nenhuma luz se compara à luz da justiça”. (Epistle to the Son of the Wolf, p. 28)

Apesar de nos amarmos uns aos outros, também defendemos o princípio da justiça. Se alguém me ataca de forma insensata e se essa acção é injusta, então eu tenho motivos para me defender. Mas mais digno do que defender-me a mim próprio, é defender os outros. Bahá’u’lláh advertiu todos os Seus seguidores para se esforçarem sempre a serem “apoiante e defensor da vítima da opressão” (Gleanings From the Writings of Baha’u’llah, CXXX)

Para mim, defender as vítimas da injustiça representa o principal mérito das artes marciais: proteger os outros. Se por um lado é perfeitamente permissível que nos defendamos, é ainda mais digno que protejamos outros de serem atacados por um agressor.

No ano passado vi um vídeo horrível na BBC World News onde um homem esfaqueava repetidamente uma mulher em público. Ninguém interveio. Claramente, a coisa certa a fazer era intervir e impedir que isto acontecesse. Mas colocarmo-nos em perigo para defender os outros exige uma certa medida de desprendimento. “Bem-aventurado aquele que prefere o seu irmão antes de si próprio”. (Tablets of Baha’u’llah, p. 71)

Se eu prefiro os outros antes de mim próprio, então não hesitarei em pôr a minha vida em risco para salvar a vida de outra pessoa.

Preferir os outros a nós próprios significa cuidar dos que estão ao nosso redor. Assim, quando vemos alguém a ser atacado, não vamos pensar apenas na nossa própria segurança e fugir; vamos intervir e defender essa pessoa.

Mas defendermo-nos e protegermo-nos também é vital. Mesmo que eu não considere a minha própria vida como a mais importante, a minha família e os meus amigos certamente valorizam-na. Eles querem que eu continue vivo. E além disso, considerando o meu filho, ele precisa que eu continue vivo; ele precisa de mim para comer, para ter um lar, para ter amor. Tenho para com ele a responsabilidade de me proteger. Este valor, ensinado na antiga China, afirma que se agirmos com consciência social, protegeremos a nossa própria saúde e segurança pois fazemos parte de uma rede social de apoio mútuo.

Claro que, se preferimos verdadeiramente os outros a nós próprios, também preferimos ao agressor a nós próprios. Mas isso não significa que devemos deixar uma pessoa agredir-nos ou matar-nos. Por respeito ao agressor, devemos primeiramente tentar dialogar com ele/ela. Se, no entanto, o agressor não quer dialogar e continua a tentar agredir-nos, então devemos defender-nos.

Outro aspecto a lembrar é a dimensão interior das artes marciais. Talvez já tenham reparado que o nome de muitas artes marciais termina em “do”: judo, taekwondo, aikido, hapkido, karate-do. Porque é que lhe chamamos apenas Karaté? Porque esse é o termo ocidentalizado. E o que significa “do”? Isto vem da palavra chinesa Tao, que neste caso significa um “caminho” e muito concretamente, um “caminho interior”. Tradicionalmente, quando alguém aprende artes marciais, aprende estas duas coisas: aprende a técnica de combate e aprende a dominar o seu próprio ego com essa técnica.

E como provavelmente sabem, este segundo objectivo é um dos propósitos fundamentais da Fé Bahá’í. Bahá’u’lláh recorda-nos:
…decidi-vos a alcançar a vitória sobre os vossos próprios egos, para que porventura toda a terra se possa libertar e santificar da sua servidão aos deuses das suas fantasias fúteis. (Gleanings From the Writings of Baha’u’llah, XLIII) 
Nos ensinamentos Bahá’ís, a oração, a meditação e o serviço – entre outras coisas – funcionam como caminhos para purificarmos o nosso ser interior. Mas porque temos justificação para nos defendermos a nós e aos outros, depreende-se que podemos optar por aprender artes marciais e utilizá-las como meios para aperfeiçoamento pessoal, desenvolvendo disciplina, clareza, coragem e desprendimento.

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Texto original: Martial Arts and Spirituality: Can They Be Combined? (www.bahaiteachings.org)

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Peter Gyulay é escritor, músico e educador da Austrália. Interessa-se pela exploração dos aspectos mais profundos da vida. Tem um site com a sua escrita e música e um blog chamado The nooks and crannies of existence.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Bezerros, Hambúrgueres e Incêndios na Amazónia

Por David Langness.


Na semana passada comi um hambúrguer num restaurante fast-food. Isto pode parecer completamente trivial e irrelevante, mas há 40 anos que não comia um hambúrguer. E explico porquê.

Deixei de comer carne vermelha quando tinha 20 anos, por dois motivos. Primeiro, quando eu era criança convivia com gado e gostava de vacas. Cresci numa comunidade agrícola e apesar da minha família não criar gado, muitas outras faziam-no. Uma amiga minha criou um bezerro para um projecto de uma organização juvenil. Eu conhecia aquele bezerro; chamava-se “Decaf” (...)

O Decaf gostava de correr e saltar no prado, lambia a mão da minha amiga quando ela o alimentava e a dava-nos empurrões quando lhe fazíamos festas naquele pêlo espesso. O Decaf tinha olhos castanhos grandes e expressivos, e a minha amiga dizia que gostava de ter umas pestanas iguais. Aquele pequeno bezerro parecia ter uma personalidade amigável. Um dia, depois do Decaf ter sido vendido num leilão de gado, comi um bife e tive a sensação terrível de que poderia estar a comer aquele mesmo animal.

O segundo motivo baseia-se nos ensinamentos Bahá'ís, onde se descreve a resposta de ‘Abdu’l-Bahá à pergunta: “Qual será a alimentação do futuro?”
Frutas e cereais. Virá o tempo em que já não se comerá carne. A ciência está ainda na sua infância, mas já demonstrou que a nossa dieta natural é aquilo que nasce do solo. As pessoas desenvolver-se-ão gradualmente até à condição desta alimentação natural. (‘Abdu’l-Bahá, citado por Julia M. Grundy em Ten Days in the Light of Akka, pag. 8-9)
Isto pareceu-me sensato. E ao recordar-me da minha amizade de infância com o bezerro Decaf, decidi deixar de comer carne. Durante quatro décadas, mantive-me fiel a essa decisão. Mas que fique claro: não estou com isto a afirmar qualquer espécie de superioridade moral. Quando tomei a minha decisão, isso nada teve a ver com o bem-estar do mundo. Não tinha qualquer conhecimento sobre alterações climáticas e via a minha decisão como plenamente pessoal, ditada apenas pelos meus sentimentos e pela minha Fé.

Mas voltemos ao hambúrguer. Uma rede de restaurantes fast-food nos Estados Unidos começou recentemente a publicitar um novo hambúrguer com uma espécie de carne baseada em vegetais, e eu decido experimentá-lo. Supostamente, afirmava a publicidade, tinha um sabor igual à carne, mas não tinha ingredientes animais. E para minha surpresa, tinha o mesmo sabor que os hambúrgueres que eu comia em criança: deliciosos! E, no entanto, nenhum Decaf sofreu para fazer este hambúrguer. Era uma dupla vitória para mim e para o bezerro. Comi aquele hambúrguer com prazer. E com mostarda também.

Tudo isto poderia parecer disparatado e inconsequente, mas ao ler as notícias sobre os incêndios devastadores na Amazónia – e dos fogos deliberadamente ateados noutros países do mundo como Angola e a República Democrática do Congo – lembrei-me de uma coisa. Tipicamente, estes incêndios trágicos representam a destruição de uma floresta densa e a sua substituição por pastagens lucrativas para criação de gado, forçando a deslocação de populações indígenas e suas culturas, e também privando-nos gradualmente a todos do bioma que precisamos para viver. O carbono libertado na atmosfera por estes incêndios retém o calor do sol, tornando o ar mais quente, favorecendo mais incêndios, criando assim um tremendo ciclo vicioso.

No fundo, estamos a trocar o clima da Terra, a nossa atmosfera e o futuro da humanidade por hambúrgueres fast-food - feitos de carne de gado criado em pastagens onde antes existiam florestas tropicais, que se tornaram a principal fonte da carne vendida nas redes de fast-food nos países desenvolvidos.

Se pensarmos nisto, percebemos que é uma troca prejudicial.

Os especialistas em ciência climática identificaram a melhor coisa que podemos potencialmente fazer para evitar as piores consequências das alterações climáticas: mudar os nossos hábitos alimentares. Se todos nos alimentarmos nos níveis mais baixos da cadeia alimentar – o que significa adoptar uma alimentação essencialmente à base de vegetais, em vez de uma alimentação baseada no consumo diário de carne – podemos colectivamente ajudar a diminuir a quantidade de carbono na atmosfera, e salvar florestas e selvas que são sacrificadas devido ao nosso apetite voraz por hambúrgueres. Além, também disso ficaremos mais saudáveis, tal como ficarão mais felizes as criaturas como o Decaf.

Pensar nesta simples equação, ler e ver mais notícias sobre este assunto levaram-me a reflectir sobre a rapidez com que condenamos os outros pelos problemas do mundo. Quando acontecem tragédias globais, como os incêndios da Amazónia, tipicamente procuramos um alvo para culpar, apontando dedos acusadores na comunicação social e nas redes sociais, e criticamos fortemente essa pessoa, político, país ou empresa. Penso que se começarmos por olhar mais para nós próprios, poderemos chegar mais perto da raiz do problema:
Ó filho do homem! Se os teus olhos estão voltados para a misericórdia, renuncia às coisas que te são vantajosas, e segura-te àquilo que beneficia a humanidade. E se os teus olhos estão voltados para a justiça, escolhe para os teus próximos aquilo que escolhes para ti próprio. (Bahá’u’lláh, Epistle to the Son of the Wolf, pp. 29-30)
Assim, se o leitor está preocupado com os fogos que devastam as florestas do mundo e as consequências que terão posteriormente na humanidade e no planeta, siga o conselho de Bahá'u'lláh e segure-se “àquilo que beneficia a humanidade”.

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Texto original: Cows, Burgers, and the Fires in the Amazon (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 31 de agosto de 2019

Deus odeia alguém?

Por Maya Bohnhoff.


Encontrei um blog que afirma que Deus odeia alguns grupos de pessoas, e por esse motivo os crentes em Deus – especialmente, os Cristãos – também os devem odiar.

O blog, de um grupo que se intitula Cristão, apresenta citações bíblicas para defender os seus pontos de vista. O que me surpreendeu é que apenas uma dessas citações é dos Evangelhos e nenhuma menciona as palavras de Cristo. E mesmo as referências do Antigo Testamento dificilmente são compatíveis com este mandamento:
Não fiques com ódio ao teu próximo, mas repreende-o, se for preciso, para não seres cúmplice do seu pecado. Não tenhas sentimentos de vingança ou de rancor para com o teu próximo; mas ama o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor! (Levítico 19: 17-18)

Quem é o “próximo”?

Um especialista em lei Judaica colocou esta famosa questão a Jesus. E Ele respondeu:
«Ia um homem a descer de Jerusalém para Jericó. Caíram sobre ele uns ladrões que lhe roubaram roupa e tudo, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o quase morto. Por casualidade, descia um sacerdote por aquele caminho. Quando viu o homem passou pelo outro lado. Também por lá passou igualmente um levita que, ao vê-lo, se desviou. Entretanto, um samaritano que ia de viagem passou junto dele e, ao vê-lo, sentiu compaixão. Aproximou-se, tratou-lhe os ferimentos com azeite e vinho e pôs-lhe ligaduras… levou-o para uma pensão e tratou dele... Qual dos três te parece que foi o próximo do homem assaltado pelos ladrões?»

E ele respondeu: «O que teve compaixão dele.»

Jesus concluiu: «Então vai e faz o mesmo.» (Lucas 10:30-37)
O contexto desta afirmação é fundamental, porque o que levou o especialista em lei Judaica a perguntar sobre a identidade do próximo foi a resposta de Cristo a outra pergunta: “O que devo fazer para herdar a vida eterna?

Numa linguagem clara e sem ambiguidades, Cristo explicou que alcançar a vida eterna depende da forma como tratamos aquelas pessoas por quem sentimos desprezo.

A sua escolha de um Samaritano como modelo de bom comportamento elimina qualquer dúvida sobre o seu significado. No tempo de Jesus, Samaritanos e Judeus viam-se mutuamente como pecadores e hereges, cada um praticando a sua versão do Judaísmo. Segundo a lei religiosa, estava proibidos de qualquer relacionamento entre si, e por isso os contactos de Cristo com Samaritanos provocaram enorme indignação.

Cristo ignorou os pecados dos Samaritanos, tal como o Samaritano ignorou o que lhe tinham ensinado sobre as heresias ou pecados inerentes aos Judeus. E assim, o Samaritano ajudou o Judeu e tratou dele.

A conclusão é inevitável: um crente deve amar e cuidar até daqueles que lhe foi dito para desprezar. Cristo pediu a quem O escutava que mostrassem amor e compaixão aos seus próximos, sem se importarem se eram, ou não, pecadores. Além disso Cristo avisou fortemente para que evitassem julgar os pecados dos outros:
«Digo a todos os que me estão a ouvir: amem os vossos inimigos e façam bem a quem vos odeia. Abençoem quem vos amaldiçoa e orem por aqueles que vos tratam mal... Dá a quem te pedir... Façam aos outros como desejam que os outros vos façam… Sejam misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso.

Não julguem e não serão julgados. Não condenem e não serão condenados. Perdoem e serão perdoados... Pois a medida que usarem para os outros será usada também para convosco. (Lucas 6:27-38)

Será que algum de nós se sente confortável com esta última frase?

Vejamos as últimas palavras de Cristo aos Seus discípulos antes de ser crucificado. Ele não prega uma doutrina ou enuncia uma lista de pecados pelos quais devemos odiar alguém. Ele diz aos Seus discípulos o que devem fazer para permanecerem ligados a Ele e a Deus: obedecer ao Seu mandamento. E depois dá-lhes o mandamento: “amai-vos uns aos outros.” (João 15: 12, 17)

Isto é tão importante para Cristo que desde a ceia da Páscoa até ao momento em que é preso por soldados romanos, Ele repete-o várias vezes.

Quantas vezes, e de quantas formas, deve Deus dizer-nos que o amor é a única coisa em que nos devemos focar se pretendemos “permanecer n’Ele”?

Cristo associou irrevogavelmente esta condição abençoada ao principal mandamento amar ao próximo. Ele revelou que o caminho para a vida eterna é amar aqueles que nos sentimos tentados a desprezar, e usou os Seus últimos momentos de vida para dizer aos Seus seguidores que devem seguir este mandamento acima dos outros – devem amar-se uns aos outros.

Os discípulos de Cristo compreenderam este mandamento. O apóstolo Paulo, que aprendeu a Fé com outros discípulos após a sua epifania, afirmou a importância deste mandamento de forma veemente:
Se eu for capaz de falar todas as línguas dos homens e dos anjos e não tiver amor, as minhas palavras são como o badalar de um sino ou o barulho de um chocalho... e se eu tiver uma fé capaz de transportar montanhas e não tiver amor, não valho nada... O amor é paciente e prestável. Não é invejoso. Não se envaidece nem é orgulhoso. O amor não tem maus modos nem é egoísta. Não se irrita nem pensa mal...
O amor é eterno. As profecias desaparecem; as línguas acabam-se; o conhecimento passa... Agora existem três coisas: fé, esperança e amor. Mas a mais importante é o amor. (1 Coríntios 12 1-13)
E a Epístola de João é ainda mais frontal: “Se alguém diz que ama a Deus, mas tem ódio ao seu irmão é um mentiroso.” (1 João 4:20)

Em última análise, só Deus conhece e pode julgar o coração e a alma de uma pessoa – e por isso todos devíamos estar gratos. Os ensinamentos Bahá'ís dizem-nos que no nosso primeiro dever para com as outras pessoas é amá-las:
Sabe, com certeza, que o Amor é o Segredo da Santa Dispensação de Deus… O amor é a luz amável no Céu, o sopro eterno do Espírito Santo que vivifica a alma humana. O amor é a causa de revelação de Deus ao homem, o elo vital inerente… à realidade das coisas. O amor é… o elo vivo que une Deus com o homem, que garante o progresso de toda a alma iluminada. O amor é a mais grandiosa lei… o espírito da vida no corpo adornado da humanidade, é quem estabelece a verdadeira civilização neste mundo mortal…

Ó bem-amados de Deus! Esforçai-vos por ser manifestações do amor de Deus, lâmpadas de orientação divina entre os povos da terra com a luz do amor e da concórdia (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #12)

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Texto original: Does God Hate Anyone? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 17 de agosto de 2019

Só a Igualdade acaba com a Violência Doméstica

Por David Langness.

Nenhum marido Bahá’í deve alguma vez bater na sua mulher, ou sujeitá-la a qualquer forma de tratamento cruel; fazê-lo seria um abuso inaceitável da relação do casamento e contrário aos ensinamentos de Bahá'u'lláh. (Declaração sobre Violência contra Mulheres e Abuso Sexual, A Casa Universal de Justiça, 24 de Janeiro de 1993)
Quando trabalhava noutro país, a nossa filha reparou numa família que todas noites depois do trabalho regressava a casa. Via-os praticamente todos os dias e percebeu, após cumprimentar, sorrir e falar brevemente várias vezes com eles, que as duas crianças da família eram excepcionalmente educadas e bem-comportadas. Um dia elogiou a família pelo bom comportamento das crianças.

As vossas crianças são tão educadas”, disse ela aos pais.

Obrigado”, respondeu o pai agradado com o elogio. “Bato-lhes todas as noites. A minha mulher também.”

Aquela velha atitude, acreditem ou não, já tinha imperado em todo o mundo. Provavelmente já ouviram a expressão “poupar o chicote é estragar a criança”; mas alguma vez ouviram a expressão “the rule of thumb” (significa “regra de ouro” ou “regra prática”; literalmente significa “a regra do polegar”). Diz a tradição que esta expressão deriva da lei inglesa anterior a 1500, quando os maridos podiam legalmente bater nas mulheres com varas cuja espessura não fosse maior que o polegar do homem. Esse tipo de espancamento das mulheres, aceitável do ponto de vista legal e cultural, existiu durante milhares de anos. Só em 1982 é que a Comissão Americana para os Direitos Civis publicou um relatório pioneiro sobre abuso das esposas, intitulado “Under the Rule of Thumb” (“Sob a Regra do Polegar”).

O relatório da Comissão indicava que o abusa conjugal, físico ou psicológico, era assustadoramente comum. O Fundo das Nações Unidas para a População afirma que uma em cada três mulheres experimenta ataques físicos ou sexuais durante a sua vida – e a maioria destes tem lugar, não com estranhos, mas na relação conjugal.

Apesar de tudo isto, só muito recentemente é que tribunais, governos e polícia começaram a considerar a violência conjugal e doméstica como actos criminosos. Na verdade, ainda há muitos países que consideram a violência conjugal, os crimes de honra, o casamento forçado de crianças, os crimes de dote e o feminicídio como questões familiares e vez de ofensas criminais e violações dos direitos humanos. Se o marido é “dono” da mulher, tal como muitos sistemas legais o definem, então a escravatura doméstica abre as portas à violência doméstica.

Em resposta a este facto tão comum, as Nações Unidas publicaram em 1993 o documento Estratégias de Combate à Violência Doméstica: Um Manual de Recursos. Ali declarava:
... um grande número de países permite... a aplicação, por parte do marido, de castigos físicos moderados à respectiva esposa. Mais uma vez, a maioria dos sistemas legais não criminaliza as circunstâncias em que uma mulher é forçada, contra a vontade, a ter relações sexuais com o marido... De facto, no caso da violência conjugal sobre a mulher, existe a crença generalizada de que esta provoca, tolera ou até aprecia uma certa dose de violência por parte do marido.
Para contrariar estas atitudes prevalecentes em tantos locais, as décadas de 1980 e de 1990 testemunharam um grande movimento global para conter a onda de violência doméstica contra mulheres e uma resolução internacional: a Declaração das Nações Unidas sobre Eliminação de Violência contra Mulheres. Afirma:
… a violência contra mulheres é uma manifestação das relações de poder historicamente desigual entre homens e mulheres, que levou à subjugação e discriminação das mulheres pelos homens, e impediu o pleno progresso das mulheres; essa violência contra as mulheres é um dos principais mecanismos sociais pelos quais as mulheres são forçadas a uma posição de subordinação em relação aos homens.
A comunidade Bahá’í tem apoiado activamente a resolução da ONU e continua a defender relações de poder iguais entre homens e mulheres.
... saiba-se mais uma vez que enquanto mulher e homem não reconhecerem e conseguirem a igualdade, o progresso social e político não será possível aqui ou em qualquer outro lugar. Pois o mundo da humanidade consiste em duas partes ou membros: uma é a mulher e a outra é o homem. Enquanto estes dois membros não tiverem força igual, não se poderá estabelecer a unicidade da humanidade, e a alegria e felicidade da humanidade não serão uma realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 76)
Enquanto estes dois... não tiverem força igual”, afirma 'Abdu'l-Bahá, “a alegria e felicidade da humanidade não serão uma realidade”. Há quase dois séculos que os ensinamentos Bahá'ís defendem relações de poder iguais a que se referem as Nações Unidas.

Vários estudos científicos provam que abusos sexuais, ataques sexuais e as violações são tipicamente cometidas por homens que libertam a sua raiva sobre as mulheres, motivados pelo desejo de dominar e controlar, e também pelo desejo do prazer sexual. Esta combinação de motivações revela algo profundamente desigual na relação de autoridade e domínio entre homens e mulheres em muitas sociedades. Quando os homens têm mais poder – não apenas força física, mas também poder político e social – o poder é muitas vezes usado contra as mulheres “para as manter no seu lugar”.

Porque saímos de uma era passada na história humana em que a força física imperava, e iniciámos uma nova era em que a força intelectual, moral e física prevalecerá, temos agora a possibilidade de tratar ambos os géneros com igualdade – e acabar com os ataques sexuais.

O que podemos fazer para impedir os ataques sexuais e a violência contra as mulheres? Podemos mudar a equação de poder subjacente, e nesse processo fazermos tudo o que for possível para que homens e mulheres – como dizem os ensinamentos Bahá’ís - tenham “força igual”.

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Texto original: Only Equality Stops Domestic Violence (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Chamado", "Chamamento" ou "Apelo"


O mais recente número do “Notícias Bahá'ís” chamou a minha atenção para um problema recorrente: o uso incorrecto da palavra “chamado”.

  • “O recente chamado da Casa Universal de Justiça...”
  • “…uma centena de pessoas – crentes e simpatizantes – respondeu ao chamado e participou na conferência...”

É óbvio que estas frases carecem de clareza e sentido. As instituições não fazem chamados; as instituições chamam, apelam, convocam; as pessoas podem sentir-se chamadas com esses chamamentos, apelos ou convocações.

A palavra “chamado” pretende caracterizar alguém que recebeu um convite ou uma convocação (“Porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”); também pode significar receber um nome ou designação (“Ele era chamado assim porque...”)

Por esse motivo, seria preferível usar palavras como “chamamento” ou “apelo”, que significam “convocação”, “invocação” ou “solicitação”. As frases acima referidas tornam-se mais claras se usarmos estas palavras:

  • “O recente apelo da Casa Universal de Justiça...”
  • “…uma centena de pessoas – crentes e simpatizantes – respondeu ao chamamento e participou na conferência...”

O mesmo se aplica à tradução portuguesa do livro Call to the Nations que foi traduzido para português como “Chamado às Nações”; o título mais correcto seria “Apelo às Nações” ou “Chamamento às Nações”.