sábado, 25 de junho de 2022

O que significa "Nova Ordem Mundial"?

Por Rebecca Sherry Eshraghi.


Quando procuramos na internet a expressão “Nova Ordem Mundial”, a Wikipedia aparece geralmente em primeiro – e este termo aparece seguido das palavras “teoria da conspiração” entre parêntesis.

A página da Wikipedia descreve este significado específico de uma nova ordem mundial como:

O tema comum nas teorias da conspiração sobre uma Nova Ordem Mundial é que uma elite poderosa secreta com uma agenda globalista está a conspirar para conseguir governar o mundo através de um governo mundial autoritário.

Os Bahá'ís também costumam usar a expressão "nova ordem mundial" - mas com um significado, propósito e intenção completamente diferentes daquilo que está descrito na Wikipedia descreve inicialmente. E se continuarmos a procurar na internet, encontramos uma outra página da Wikipedia que define esta expressão de uma forma completamente diferente:

A expressão “nova ordem mundial” refere-se a um novo período da história onde ocorrem mudanças dramáticas no pensamento político mundial e no equilíbrio de poder nas relações internacionais. Apesar das diversas interpretações desta expressão, ela está associada principalmente à noção ideológica de governação mundial apenas no sentido de novos esforços coletivos para identificar, entender ou resolver problemas globais que estão acima da capacidade de resolução de cada estado-nação.

Para os Bahá'ís, a nova ordem mundial significa um esforço positivo, democrático e unificador, mas não um meio de controle ou poder autoritário. De facto, o conceito de nova ordem mundial remonta à revelação de Bahá'u'lláh, no século XIX, quando Ele proclamou:

Em breve, a ordem actual será recolhida, e uma nova se estenderá no seu lugar… Aproxima-se o dia em que teremos recolhido o mundo e tudo o que há nele e estendido uma nova ordem… (citado em The Promised Day is Come, p.17)

A primeira vez que ouvi a expressão “nova ordem mundial” ser usada fora da comunidade Bahá'í foi em 1991, pelo presidente americano George Bush – e depois tenho ouvido regularmente outros líderes políticos e económicos usar esta expressão ao longo dos anos. De alguma forma, parece que os dirigentes mundiais estão a fazer esforços para criar uma nova ordem mundial, mas alguns não confiam na sua agenda.

Por outro lado, a comunidade Bahá'í possui uma ordem administrativa mundial bem organizada, instituída pelo próprio Bahá'u'lláh e aperfeiçoada pelo Seu filho 'Abdu'l-Bahá e, posteriormente, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í. Esta ordem tem por objectivo servir toda a humanidade e unir o mundo em paz. Porque é que os Bahá'ís gastam os seus esforços desta maneira? Porque Bahá'u'lláh proclamou: "O bem-estar da humanidade, a sua paz e a segurança, são inatingíveis a menos que a sua unidade seja firmemente estabelecida".

Se olharmos para os desenvolvimentos no mundo nas últimas décadas, percebemos que a globalização se tornou cada vez mais inevitável. Nenhuma nação ou povo é completamente independente; e o que quer que aconteça numa parte do mundo afecta outras partes. Todos na Terra estão ligados globalmente, através do comércio e viagens internacionais, das migrações, dos direitos humanos, dos intercâmbios culturais, da música, do cinema, da comunicação social e das telecomunicações, dos avanços na ciência e tecnologia, e do crescente reconhecimento da unidade do meio ambiente do mundo.

Assim, se mais globalização é inevitável, então a humanidade obviamente exigirá uma nova ordem mundial para sua própria governação, para resolver os problemas globais e encontrar um caminho para a paz universal. Com uma nova ordem mundial, poderíamos evitar o caos e a turbulência resultantes dos vários problemas que hoje testemunhamos: disputas sobre fronteiras territoriais, aumento do nacionalismo, racismo, extremismo religioso, ganância empresarial, política partidária e guerras em curso.

Os ensinamentos Bahá'ís sempre promoveram uma perspectiva global universal. Bahá'u'lláh escreveu:

Que a vossa visão seja de âmbito mundial e não limitada a vós próprios. (SEB, XLIII)

Que não se vanglorie quem ama o seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo inteiro. A terra é um só país, e a humanidade os seus cidadãos. (SEB, CXVII)

Sede como os dedos de uma mão, os membros de um único corpo. (PB, p.118)

Segundo as palavras de ‘Abdu’l-Bahá, no centro da versão Bahá'í da nova ordem mundial está o amor por todas as pessoas como uma família humana:

Em todas as Dispensações, a luz da Orientação Divina tem estado centrada num tema central... Nesta Revelação maravilhosa, neste século glorioso, a base da Fé de Deus e a característica distintiva da Sua Lei, é a consciência da unidade da humanidade. (citado em The Promised Day is Come, p. 119)

Quando falamos da visão de uma nova ordem mundial, é importante ter em mente que, se ela leva à unidade, paz, à justiça e à prosperidade global, e é guiada por princípios espirituais de amor e companheirismo, então todos devemos lutar por isso.

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Texto original: What Does the “New World Order” Mean? (www.bahaiteachings.org)


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Rebecca Sherry Eshraghi é uma Bahá'í que vive na Flórida. É casada e tem dois filhos. Cresceu na Alemanha num ambiente multicultural, onde obteve o seu diploma em Negócios Internacionais. Recentemente concluiu o doutoramento em Medicina Natural.

sábado, 18 de junho de 2022

Os Ensinamentos Bahá’ís e a Homossexualidade



Introdução
 
Os seres humanos pensam de formas diferentes. Têm valores e crenças distintas. Frequentemente, essas diferenças levam à contenda, ao conflito, à injustiça, ao sofrimento, à opressão e à instabilidade social.

Os Bahá'ís acreditam que toda a humanidade é uma só, sob a misericórdia de um Criador todo-amoroso. Ao enfatizar a dignidade espiritual e a liberdade essenciais de cada alma, Bahá'u'lláh afirma que "a fé de um homem não pode ser condicionada por ninguém, salvo por ele próprio". Assim, o nosso desafio é aprender a viver juntos, respeitando os diversos indivíduos e grupos, cada um com as suas próprias perspectivas sobre a realidade, enquanto cultivamos uma unidade na diversidade de pensamento e acção, através da qual o progresso e uma ordem social pacífica podem ser promovidos.

Hoje, em todo o mundo, de várias formas e em diferentes sociedades, a questão da homossexualidade é muitas vezes abordada de forma dicotómica, exigindo afirmação ou rejeição. É encarada como um jogo de soma zero, que exige que a sociedade assuma uma determinada posição, e considera aqueles que têm uma visão diferente como imorais ou intolerantes. Nós, Bahá’ís, não entramos nesse jogo, e consideramos o assunto como sendo mais complexo e tendo várias nuances. Não é correcto coagir ou forçar outras pessoas em matéria de crença. Todos devem ter direito a fazer as suas opções. Qualquer esforço para impor uma determinada perspectiva ou solução a uma parte da humanidade que não a aceita, provavelmente apenas conseguirá libertar forças que se opõem e resistem à mudança, prolongando assim o conflito, o sofrimento e a desordem.

No centro do desacordo está uma diferença de perspectiva sobre a estrutura da ética sexual. Historicamente, os sistemas de crenças religiosas em todas as culturas têm sido uma fonte primária de percepção e ordem moral. Os textos sagrados ou tradições contêm várias leis e advertências que, de uma forma ou de outra, redirecionam ou restringem comportamentos que surgem de inclinações e desejos que ocorrem naturalmente nos seres humanos. Nos séculos mais recentes, o pensamento ético sobre a sexualidade baseou-se frequentemente na perspectiva fornecida pela lei natural: a sexualidade humana estava ligada à procriação, um dos bens distintivos associados à união conjugal e expressão de um propósito humano inato e, consequentemente, o comportamento sexual apropriado foi considerado confinado aos comportamentos restritos ligados à reprodução. Algumas perspectivas contemporâneas desafiam essa perspectiva, sugerindo que uma estrutura de ética sexual deve estar baseada na psicologia humana, que enfatiza a aspiração e a realização pessoal. Nesta perspectiva, os valores mais importantes para a ética sexual não se devem focar em actos particulares, mas sim no consentimento e na garantia de que um indivíduo não se torna apenas objeto da acção de outro.

O modelo Bahá'í da ética sexual baseia-se nos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Para os Seus seguidores, os preceitos e conselhos que se encontram nesses ensinamentos representam “um sopro de vida para todas as coisas criadas”, “as lâmpadas” da “sabedoria e amorosa providência” de Deus, e assim devem ser observados, como Bahá'u'lláh exorta, “com alegria e satisfação, pois isto é melhor para vós, se apenas o soubésseis.” Este modelo afirma o valor do impulso sexual, rejeita o puritanismo sexual, mas reconhece a necessidade de expressão apropriada e de autocontrole. Está em contraste com os padrões permissivos da era contemporânea, que tendem a colocar a liberdade sexual acima de outros objetivos e valores. Bahá'u'lláh afirma que a família é a base da sociedade e da civilização, que o casamento é entre um homem e uma mulher "para que surja alguém que faça menção a Deus", e que as relações sexuais só são permitidas entre um casal unido pelo matrimónio. Estes ensinamentos estão expostos nas Escrituras de Bahá'u'lláh e nas declarações autorizadas de 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi. Eles não podem ser alterados pela Casa Universal de Justiça, o corpo governante da Fé Bahá'í.

Uma das verdades fundamentais da Fé Bahá'í é que a consciência não pode ser coagida. Todo ser humano tem direito à liberdade de consciência e de crença. Cada um é, em última análise, responsável perante Deus pelas suas escolhas. Assim, apesar das suas próprias convicções, os Bahá'ís são instados a serem tolerantes e respeitosos para com aqueles cujos pontos de vista diferem dos seus, a não julgar os outros de acordo com os padrões Bahá'ís e a não tentar impor esses padrões à sociedade. O preconceito de qualquer tipo é inteiramente contra o espírito da Fé; pois embutido no etos da comunidade Bahá'í está o reconhecimento de que “o amor é luz, não importa em que morada ele resida; e o ódio é escuridão, não importa onde faça o seu ninho.” Sejam crentes ou não, Bahá'u'lláh exorta todos os seres humanos a "atravessar este breve período de vida com sinceridade e justiça"; e a mostrar “paciência, misericórdia, compaixão e benevolência para com todos os povos e tribos da terra”.

Ao reconhecer livremente Bahá'u'lláh como o Manifestante de Deus - o Educador divino - para esta era, os Bahá'ís também escolhem livremente seguir os Seus ensinamentos, que acreditam poder despertar o potencial individual, promover o desenvolvimento de qualidades espirituais e contribuir para o bem-estar da sociedade. Assim, a verdadeira liberdade encontra-se no reconhecimento de que os seres humanos são seres espirituais que aspiram a um propósito mais elevado: ir além das compreensões meramente materiais da realidade, usando as capacidades da razão e da fé para enfrentar os desafios da vida.

Respostas a Perguntas Frequentes

Qual a perspectiva Bahá’í sobre a identidade?


A questão da identidade - o que é, e quem a define - vai ao cerne de como os ensinamentos Bahá'ís sobre a homossexualidade podem ser entendidos. Para aqueles que acreditam em Bahá'u'lláh, é a essência espiritual da pessoa, a alma humana, que constitui a sua verdadeira identidade; e o Manifestante de Deus é a fonte da verdade em cada época, é Ele que ilumina a nossa compreensão desta realidade e nos apresenta os ensinamentos que permitem que a alma se aproxime do seu Criador e alcance a verdadeira felicidade. Sobre este assunto, Bahá'u'lláh ensina que a alma não tem género, raça ou outras identidades relacionadas com características físicas. Trata-se de uma realidade espiritual que transcende todas essas distinções. Deste ponto de vista, os Bahá'ís entendem que a autonomia e o bem-estar dos seres humanos não são apenas definidos pelas leis e condicionalismos do mundo natural, mas também por uma existência espiritual objetiva. À medida que os seres humanos evoluem, compreendendo e aplicando as leis da física, também progridem assimilando conceitos e princípios espirituais nas suas vidas.

Em essência, os ensinamentos Bahá'ís apresentam um conceito de identidade humana onde as ambições interiores de cada pessoa estão alinhadas com os objetivos de uma realidade social justa, empática e criativa, propondo assim um sentido mais alargado de identidade humana, que defende a nobreza inata de todos, onde cada ser humano “nasce no mundo como uma esperança do todo”. Conforme proclamado por Bahá'u'lláh: "Deixai que a vossa visão seja de âmbito mundial, em vez de se confinar ao vosso próprio ser".

Qualquer pessoa pode ser Bahá’í?

As portas da comunidade Bahá'í estão abertas a todos; isso aplica-se igualmente àqueles com orientação homossexual. No final da década de 1940, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, foi informado e questionado sobre a situação de um grupo de jovens com orientação homossexual que estavam profundamente interessados na Fé Bahá'í e alguns deles desejavam tornar-se Bahá'ís. Na sua resposta, ele aconselhou que os jovens “devem ser tratados como quaisquer outras pessoas que pretendem aderir à Fé Bahá'í e ser aceites nas mesmas condições”. Essa abordagem mantém-se até hoje. Associada à condição de membro da comunidade Bahá'í está a expectativa de que todos aqueles que aceitam Bahá'u'lláh como Manifestante de Deus farão um esforço sincero e persistente para alinhar a sua conduta com os Seus ensinamentos. Esta é a própria definição do que significa ser Bahá'í. Os crentes que experienciam um atracção pelo mesmo sexo escolhem livremente esse caminho de observar os “conselhos” de Deus, por amor à “Sua beleza”, pois isso realiza o propósito espiritual essencial da alma. Se alguém não deseja aderir formalmente à comunidade Bahá'í, ele ou ela ainda é bem-vindo para participar nas actividades Bahá'ís. É de salientar que em muitos locais em todo o mundo, aqueles que não são membros da comunidade desempenham um papel activo no enriquecimento de iniciativas devocionais, educativas e sociais inspiradas nos princípios Bahá'ís.

Que tipo de orientação é dada aos Bahá’ís que se esforçam por ter um comportamento de acordo com os padrões Bahá’ís?

Há uma diferença entre a atração por pessoas do mesmo sexo e a prática da homossexualidade. Quando uma pessoa reconhece Bahá'u'lláh como o Manifestante de Deus, então, como qualquer outro crente, ela esforça-se para seguir os Seus ensinamentos, independentemente dos desafios pessoais que possa enfrentar. Todos os crentes se esforçam de maneiras diferentes para viver uma vida Bahá'í, e não há razão para que o desafio da atracção por pessoas do mesmo sexo seja destacado dos outros. A vida apresenta desafios diferentes a cada alma, e o desafio que algumas almas têm com os ensinamentos Bahá'ís relativos à homossexualidade não é essencialmente diferente daquele que outras enfrentam ao tentar aceitar outros ensinamentos. Uma abordagem compreensiva à questão da homossexualidade tem certamente justificação e os esforços daqueles que têm orientação homossexual e se esforçam para viver uma vida Bahá'í são dignos de admiração. Eles são livres de participar no serviço à comunidade e devem saber que as instituições da Fé Bahá'í não se intrometem na vida privada dos crentes.

Os ensinamentos Bahá'ís sobre a homossexualidade estão de acordo com as descobertas da ciência?

Embora a ciência possa fornecer compreensão sobre o que é natural – isto é, o que aparece na natureza – ela não declara se um comportamento “natural” deve ou não ser expresso. A perspectiva estritamente material que considera a natureza como perfeita não é aceite pelos Bahá'ís. Existe uma distinção nos ensinamentos Bahá'ís entre aquilo que os seres humanos podem estar inclinados a fazer e aquilo que, em última análise, melhor representa o seu propósito espiritual. A compreensão Bahá'í da homossexualidade é, portanto, vista como uma questão de compreensão e acção moral, em vez de uma questão científica.

Os Bahá'ís acreditam que a homossexualidade é uma condição que possa ser alvo de uma intervenção médica?

A perspectiva da comunidade médica sobre a homossexualidade mudou significativamente ao longo dos anos. No entanto, a questão não é se a orientação sexual pode ser mudada, mas se, como Bahá'í, a pessoa se esforça para seguir os ensinamentos de Bahá'u'lláh. Cabe ao crente individual determinar se, nesse assunto, o aconselhamento ou alguma outra abordagem o pode ajudar.

Qual deve ser a atitude de um Bahá'í em relação a um filho que tem orientação homossexual?


Nessa situação, um pai ou uma mãe continuariam naturalmente a expressar amor profundo e constante para com o seu filho. Se o(a) filho(a) atingiu a idade da maturidade e não se considera Bahá'í, então a lei Bahá'í, obviamente, não se aplica ao filho(a). Os pais devem estar cientes de que os Bahá'ís são instruídos a respeitar aqueles cujos pontos de vista diferem dos seus, e eles não julgam os outros de acordo com os seus próprios padrões. Se o(a) filho(a) é Bahá'í, o pai e/ou a mãe irão certamente encorajar o(a) filho(a) a reflectir sobre os princípios discutidos anteriormente sobre identidade e o esforço de cada crente para seguir os ensinamentos do Manifestante de Deus.

O que deve fazer um Bahá'í com orientação homossexual se for alvo preconceito na comunidade Bahá'í?

Os ensinamentos Bahá'ís contêm a crença de que toda alma humana está indelevelmente marcada com a imagem de Deus; isso confere-lhe a derradeira dignidade que todas as pessoas desejam. Bahá'u'lláh apela aos Seus seguidores para que se concentrem e promovam a unidade no mundo: "aderi tenazmente àquilo que promova a amizade, a bondade e a unidade", e "sede como os dedos de uma mão, os membros de um único corpo." Para este fim, os Bahá'ís esforçam-se para manifestar “amor abrangente” e respeito por todos os membros da comunidade, para criar ambientes sociais de capacitação individual e desenvolvimento mútuo. Não há lugar para atitudes críticas e sobranceria. Portanto, considerar aqueles com orientação homossexual com preconceito ou desdém seria totalmente contra o espírito da Fé Bahá'í. Nos seus esforços para construir comunidades unidas, é inevitável que os Bahá'ís encontrem irmãos de fé cujo comportamento não esteja totalmente de acordo com os padrões da sua Causa. Ao enfrentar essas situações, muitas vezes podemos afectar positivamente os outros demonstrando paciência e tolerância. No entanto, se o comportamento prejudicial do membro da comunidade persistir e estiver a corroer a unidade, então as instituições Bahá'ís têm a responsabilidade de resolver o assunto.

Porque é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não existe nem é reconhecido na comunidade Bahá'í?

À luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh sobre casamento e conduta sexual, na comunidade Bahá’í não é possível reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ser um Bahá'í significa reconhecer que Bahá'u'lláh é a fonte divinamente inspirada da verdade para esta era. Seria uma contradição alguém afirmar que aceita Bahá'u'lláh, mas conscientemente rejeitar, desconsiderar ou contestar dos ensinamentos ou leis estabelecidas por Ele. Se um indivíduo casado com uma pessoa do mesmo sexo desejasse aderir formalmente à comunidade Bahá'í, seria sensato que essa pessoa, por si própria, resolvesse qualquer contradição fundamental antes de decidir se deve assumir o compromisso de se tornar Bahá'í. Nenhuma pressão seria exercida pela comunidade Bahá'í sobre qualquer pessoa nesta situação; é essa pessoa que deve escolher em oração o caminho a seguir. Embora possa não ser possível para algumas pessoas aderir formalmente à comunidade Bahá'ís, elas podem, se quiserem, continuar o seu estudo dos ensinamentos Bahá'ís e esforçar-se para colocá-los em prática nas suas vidas.

A comunidade Bahá'í tem alguma posição em relação ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo?

A Fé Bahá'í não assume uma posição em relação às práticas sexuais daqueles que não são membros da Comunidade. A comunidade Bahá'í não se considera como um grupo ou organização social que pretende estabelecer uma agenda social específica. A sua abordagem para efectuar mudanças sociais positivas evita o confronto e a disputa pelo poder; o seu objectivo é unir as pessoas na busca de princípios fundamentais e medidas significativas que possam levar à resolução justa dos problemas que afligem a sociedade. Como Bahá'u'lláh afirmou: "O progresso do mundo, o desenvolvimento das nações, a tranquilidade dos povos e a paz de todos os que habitam na terra estão entre os princípios e as leis de Deus". Ao trabalhar pela justiça social e bem-estar, os Bahá'ís distinguem entre as dimensões das questões públicas que estão de acordo com os ensinamentos Bahá'ís (que eles podem apoiar activamente) e aquelas que não estão (que eles não promovem, nem necessariamente se opõem). Em relação à questão da homossexualidade, os Bahá'ís esforçam-se para acabar com a discriminação e proteger os direitos humanos fundamentais de todas as pessoas, sem defender ou opor-se ao casamento civil.

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FONTE: The Baha’i Teachings and Homosexuality (site oficial dos Bahá’ís dos EUA)

domingo, 12 de junho de 2022

Uma oração para Shoghi Effendi

Shoghi Effendi com 2 anos de idade

'Abdu'l-Bahá conferiu ao seu primeiro neto o nome “Shoghi” (aquele que anseia) mas ordenou a todos que acrescentassem o título “Effendi” [um título de respeito e cortesia] depois do nome. Até disse ao pai de Shoghi Effendi para não o tratar apenas por “Shoghi”. O próprio Mestre chamava-lhe Shoghi Effendi quando ele era apenas uma criança e escreveu esta oração que revela esperanças acalentadas sobre o futuro do Seu primeiro neto:

… Ó Deus! Este é um ramo nascido da árvore da Tua misericórdia. Com a Tua graça e bondade permite-lhe crescer e com as chuvas da Tua generosidade fá-lo tornar-se um ramo verdejante, desenvolto, florescente e frutuoso. Alegra os olhos dos seus pais, Tu Que dás o que desejas a quem Tu quiseres, e concede-lhe o nome Shoghi para que ele possa ansiar pelo Teu Reino e voar nos reinos do invisível!

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FONTE: Adib Taherzadeh, The Child of the Covenant, p. 269

sábado, 11 de junho de 2022

O que significa ter fé?

Por V. M. Gopaul.


A maioria de nós já ouviu estas frases motivadoras e encorajadoras em algum momento da vida: “Sê forte e tem fé. Mantém a tua fé. Não percas a fé”. Mas o que significam verdadeiramente estas frases?

O que torna a fé tão importante nas nossas vidas? E em que é que devemos realmente ter fé?

A fé, tal como o conhecimento, a esperança e o amor, é uma das bases da existência humana. Sem fé em nós próprios e sem um sentido de fé no futuro, a vida não vale muito.

Além destes tipos de fé, quando subimos ao nível mais elevado – a fé num Criador – poder acontecer uma metamorfose, semelhante à de uma lagarta que se transforma numa magnífica borboleta-monarca.

Mas é difícil ver uma alma segurar-se ao cordão da fé inabalável. As mudanças e os acontecimentos nas nossas vidas podem fazer-nos perder a fé – em nós próprios, no futuro, e em Deus. Como podemos controlar esse risco?

Os ensinamentos Bahá'ís abordam esta tema de forma directa – e começam por nos aconselhar a conhecermo-nos a nós próprios e a entendermos os “mistérios da existência” que se encontram dentro das nossas almas. Sobre o espírito da fé, ‘Abdu'l-Bahá disse:

... o íman da fé e do serviço é o poder do amor manifesto do espírito de fé. Permite atrair as virtudes divinas e experienciar a felicidade espiritual. A chave é uma vida de fé. Devemos esforçar-nos para nos conhecermos a nós próprios, pois dentro de cada um de nós encontram-se os mistérios da existência. Então, poderemos entrar no Reino revelado e sentir o calor curador do Sol da Realidade.

Vamos considerar dois dos aspectos importantes que esta citação menciona– atracção pelas virtudes divinas e felicidade espiritual; são ambos temas que passam regularmente pelas nossas vidas.

A Fé como Confiança


A Fé pode significar, no seu nível mais elementar, confiança numa pessoa ou numa coisa. A fidedignidade, conforme definida nas Escrituras Bahá'ís, é definitivamente uma virtude divina. No seu livro O Segredo da Civilização Divina, 'Abdu'l-Bahá incluiu-a entre os verdadeiros "atributos das pessoas de fé":

... os atributos das pessoas de fé são a justiça e a imparcialidade; a paciência, a compaixão e a generosidade; a consideração pelos outros; a franqueza, a fidedignidade e a lealdade; o amor e a bondade; a devoção, a determinação e a humanidade.

O que acontece quando essa fé e confiança não existem? A criança torna-se fica isolada, intimidada e sem muita esperança ou fé no futuro. Tal como o oxigênio e a água são essenciais para a existência física, o nosso bem-estar emocional depende da fé. Imaginem pais e filhos vivendo com pouca ou nenhuma fé entre si – essa família será certamente disfuncional e até se pode desintegrar. Também vemos efeitos semelhantes numa escala social maior, quando a confiança é escassa entre um qualquer grupo de pessoas ou numa qualquer nação.

Esse tipo de fé confiante surge do conhecimento e da segurança, que é uma forma de amor – tudo elementos essenciais da construção emocional para a vida dos indivíduos, das famílias, das sociedades e do mundo. Quem se sujeitaria a um transplante de coração se soubesse que o cirurgião é incompetente? Um trabalhador da construção civil subiria a um andaime que soubesse ser inseguro? Obviamente que não! A fé tem que existir primeiro. Fé não significa apenas fé religiosa; a fé não se limita a consolidar relacionamentos – a fé é fundamental para a nossa sobrevivência.

Fé como Código de Ética e Crença no Divino


Em qualquer grupo de pessoas, um compromisso partilhado e a adesão a um conjunto comum de valores éticos ajudam a consolidar a confiança na integridade dos membros do grupo e na integridade do próprio grupo.

Os sistemas de crença religiosa, como a Fé Bahá'í, têm esse tipo de coerência baseada em valores éticos. Ser membro de uma comunidade religiosa unida e confiante pode proporcionar um sentimento de conforto e pertença, mas não inclui necessariamente uma consciência de Deus.

Esse tipo de fé, no entanto, pode expandir-se gradualmente para a crença numa existência que transcende aquilo que os sentidos físicos podem perceber, como a aceitação de um Criador que ninguém viu. A fé num Ser Supremo nasce de uma relação íntima entre a alma e essa realidade espiritual invisível. À medida que o relacionamento cresce, o mesmo acontece com os poderes interiores de cada um. De acordo com 'Abdu'l-Bahá, "O primeiro sinal de fé é o amor".

Nas relações humanas lidamos com faces visíveis; mas num compromisso divino viajamos para o desconhecido. Além disso, esta é uma viagem na qual devemos assumir responsabilidade pessoal. Os ensinamentos Bahá'ís dizem: "... a fé de qualquer homem não pode ser condicionada por ninguém, excepto por ele próprio". Por outras palavras, as nossas crenças exigem que sejamos responsáveis por cada acção que realizamos. Portanto, a fé requer confiança.

Considere a vida de uma pessoa invisual. Para ela, as tarefas que as pessoas com visão dão como certas tornam-se difíceis, até mesmo perigosas. Ao caminhar até casa de um vizinho, ela poderia colidir com objetos ou outras pessoas, tropeçar em desníveis na calçada, cair numas escadas ou até mesmo ficar em frente de um carro que se aproximasse. Felizmente, a pessoa invisual pode aprender a lidar com esses obstáculos de várias maneiras. Por exemplo, pode ter um cão-guia – mas não serve qualquer cão. Deve ser um cão que tenha sido cuidadosamente treinado, e depois ela deve aprender a trabalhar e confiar no seu novo amigo canino. A pessoa invisual aprende a confiar no seu cão-guia através da experiência: isso dá-lhe segurança ao longo do seu dia. Assim, o conhecimento leva à confiança, que depois se transforma em fé.

Esta metáfora descreve a nossa vida espiritual. Por vezes, a nossa visão interior fica ofuscada, obscurecida ou até é inexistente. Podemos ficar numa bifurcação na estrada, incapazes de ver claramente qual caminho a seguir, ou podemos ser chamados a realizar alguma tarefa sem saber exactamente para onde ela nos levará. Com fé e confiança na benevolência suprema do Criador, podemos avançar na vida, confiantes de que ela nos levará para onde mais precisamos de ir.

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Texto original: What Does It Mean to Have Faith? (www.bahaiteachings.org)


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Gopaul é especialista em software e bases de dados, tendo escrito vários livros para profissionais de TI. É casado, pai de duas crianças, e vive no Canadá. Para mais informação ver: www.vmgopaul.com.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

O sonho de Shoghi Effendi

Em 1907 ele [Shoghi Efendi] vivia com esta mesma ama, Hajar Khatun, que esteve sempre com ele desde a infância, na casa recém-construída de 'Abdu'l-Bahá, que se tornou a sua última casa e mais tarde a casa do Guardião. Foi aqui que Shoghi Effendi teve um sonho muito significativo, que ele me contou e que eu escrevi. Ele disse que quando tinha nove ou dez anos de idade, morava com a sua ama nesta casa e frequentava a escola em Haifa, sonhou que ele e outra criança, um colega árabe, estavam na sala em que 'Abdu'l-Bahá costumava receber os Seus convidados na casa de Akka, onde o Mestre morava e onde Shoghi Effendi nascera. O Báb entrou na sala e então apareceu um homem com um revólver e disparou contra o Báb; depois, ele disse para Shoghi Effendi "Agora é a tua vez" e começou a persegui-lo pela sala para disparar contra ele. Nesse momento, Shoghi Effendi acordou. Ele contou este sonho à sua ama, que lhe disse para o contar a Mirza Asadullah e pedir-lhe que o contasse ao Mestre, que respondeu, revelando a Shoghi Effendi esta Epístola. O estranho, disse Shoghi Effendi, é que isto aconteceu exatamente naquela época em que 'Abdu'l-Bahá corria um grande perigo e escreveu um dos Seus Testamentos, no qual designava Shoghi Effendi como Guardião.

Ele é Deus!

Meu Shoghi,

Este sonho é muito bom. Tem certeza de que alcançar a presença de Sua Santidade o Exaltado - que minha alma Lhe seja sacrificada - é uma prova de receber a graça de Deus e obter a Sua maior dádiva e favor supremo. O mesmo é verdade para o resto do sonho. É minha esperança que possas manifestar as efusões da Beleza de Abhá e crescer, dia a dia, em fé e conhecimento. À noite ora e suplica, e durante o dia faz o que te é pedido.

'Abdu'l-Bahá

(Ruhiyyih Khanum, The Priceless Pearl, p.16)

sábado, 4 de junho de 2022

Shoghi Effendi - um relato de Ella Goodall Cooper


Pelos sinais que Shoghi Effendi mostrava desde a mais tenra infância e pela sua natureza única, ele entrelaçava-se cada vez mais profundamente nas raízes do coração do Mestre. De facto, temos a sorte de possuir, de uma das primeiras crentes ocidentais, Ella Goodall Cooper, o relato de um encontro que ela testemunhou entre 'Abdu'l-Bahá e Shoghi Effendi, por ocasião da sua peregrinação em Março de 1899, no casa de Abdullah Pasha:

"Um dia... juntei-me às senhoras da Família na sala da Maior Folha Sagrada para o chá da manhã, o amado Mestre estava sentado no Seu canto favorito do divã onde, pela janela à Sua direita, podia olhar por cima dos muros e ver o Mediterrâneo azul ao longe. Ele estava ocupado a escrever Epístolas, e a paz tranquila da sala foi quebrada apenas pelo borbulhar do samovar, onde uma das jovens empregadas, sentada no chão à sua frente, estava a preparar o chá.

Pouco depois, o Mestre levantou os olhos da Sua escrita e com um sorriso e pediu a Ziyyih Khanum que entoasse uma oração. Quando ela terminou, uma pequena figura apareceu na porta de entrada, no lado oposto onde se encontrava 'Abdu'l-Bahá. Depois de tirar os sapatos, entrou na sala com os olhos focados no rosto do Mestre. 'Abdu'l-Bahá retribuiu o seu olhar com uma expressão tão amorosa de acolhimento que parecia acenar para que o pequeno se aproximasse Dele. Shoghi, aquele lindo rapazinho, com o seu rosto escultural, os seus olhos escuros e cheios de alma, caminhou lentamente em direção ao divã, como se o Mestre o puxasse com um fio invisível, até ficar bem perto Dele. Ao parar ali por um momento, 'Abdu'l-Bahá não lhe ofereceu um abraço, mas sentou-Se perfeitamente imóvel, apenas acenando com a cabeça duas ou três vezes, lenta e impressionantemente, como se dissesse - "Estás a ver? Este laço que nos liga não é apenas o de um avô físico, mas algo muito mais profundo e significativo." Enquanto observávamos sem respirar para ver o que ele faria, o rapazinho baixou-se e, pegando na borda do manto de 'Abdu'l-Bahá, tocou-o com reverência na sua testa, beijou-o e depois colocou-o suavemente no lugar, sem nunca desviar o olhar do rosto do adorado Mestre. No momento seguinte, ele virou-se e saiu a correr para brincar, como qualquer criança normal... Naquela época ele era o único neto de 'Abdu'l-Bahá... e, naturalmente, era de imenso interesse para os peregrinos."