sábado, 11 de abril de 2026

Nove Citações Bahá’ís que me Guiam e Inspiram

Por Ken MacNamara.

Ao longo dos meus anos como Bahá’í, houve nove citações das Escrituras Bahá’ís que se tornaram especialmente importantes para mim. Recorro a elas constantemente, pois dão-me inspiração, orientação e uma compreensão profunda.

Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í, assegura-nos que todas as palavras reveladas por Ele são de vital importância para promover a regeneração espiritual tanto a nível individual como social. Ele encorajou-nos a todos a "mergulhar no oceano das Minhas palavras, para que possais desvendar os seus segredos e descobrir todas as pérolas de sabedoria que jazem ocultas nas suas profundezas".

Os Bahá’ís acreditam que meditar sobre as Escrituras da Fé e fazer o possível para ajustar as nossas vidas aos seus ensinamentos contribuirá para o crescimento espiritual, o qual, por sua vez, pode gerar um sentido de confiança, felicidade e uma vida com mais propósito. À medida que os ensinamentos das três figuras centrais da Fé Bahá’í – o Báb, Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá – permeiam os corações e as mentes de cada vez mais pessoas, todo o planeta poderá transformar-se num mundo de paz, justiça, unidade e amor.

Assim, neste vasto oceano, há nove pérolas de sabedoria que têm para mim um significado especial.

O Propósito da Vida

As duas primeiras citações centram-se no propósito humano: o propósito da vida e o propósito da criação. Os filósofos - e, na verdade, qualquer pessoa pensante, tanto hoje como ao longo da história - têm refletido sobre estes assuntos. Bahá'u'lláh deixa absolutamente claro qual é o nosso propósito, como parte de uma breve oração que milhões de Bahá'ís recitam todos os dias: "Dou testemunho, ó meu Deus, que Tu me criaste para Te conhecer e Te adorar."

Esta é uma verdade profunda da revelação de Bahá’u’lláh.

As Escrituras Bahá’ís asseguram-nos que a razão de todas as Escrituras dos mensageiros anteriores de Deus, e de todo o sofrimento que suportaram, pode ser compreendida nesta verdade espiritual: que o propósito das nossas vidas mortais neste mundo físico é conhecer e amar o nosso Criador.

Relacionada com esta clara declaração de propósito, Bahá’u’lláh escreveu que tudo o que nos rodeia, desde o vasto universo a cada recurso do nosso planeta, até mesmo cada átomo existente, foi criado para apoiar este propósito final:

Tudo o que foi criado em todo o universo é apenas uma porta que conduz ao Seu conhecimento, um sinal da Sua soberania, uma revelação dos Seus nomes, um símbolo da Sua majestade, uma demonstração do Seu poder, um meio de acesso ao Seu caminho integro... (Gleanings, LXXXII)

Este conhecimento ajuda-me a ter um fascínio e compreensão mais profundos por tudo o que se encontra na natureza. Seja a contemplar o oceano, a admirar a vista deslumbrante de uma pradaria repleta de flores silvestres ou a observar esquilos a brincar no jardim; todas as maravilhas de cada fenómeno natural ajudam-me a apreciar melhor o nosso Criador.

Esta constatação leva-nos à questão seguinte: como viver uma vida com mais sentido para aproveitar ao máximo este conhecimento sobre o nosso propósito? Porque o conhecimento por si só não basta – as nossas acções devem estar em conformidade com esse conhecimento.

Quantas vezes sabemos a finalidade de algo, mas, intencionalmente ou por engano, utilizámo-lo de forma inadequada? Por exemplo, uma pessoa precisa de um martelo para pregar um prego. Em vez de atravessar o jardim até ao barracão das ferramentas para ir buscar o martelo, ela pega numa chave inglesa que está por perto e usa-a, resultando provavelmente numa chave inglesa partida e num prego não pregado! Neste caso, a finalidade era bem conhecida, mas as acções da pessoa não estavam de acordo com essa finalidade, provocando um resultado negativo.

Encontrar o Rumo da Vida

A Fé Bahá’í apresenta uma abundância de Escrituras que oferecem orientação na vida, auxiliando-nos no nosso caminho para melhor conhecer e amar o nosso Criador. Esta conhecida citação, que se encontra no livro místico de Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, dá-nos o conhecimento e a orientação essenciais para vivermos as nossas vidas: “O Meu primeiro conselho é este: possui um coração puro, bondoso e radiante, para que seja tua uma soberania antiga, imperecível e eterna.”

Esta citação indica não só a importância de adquirir as três virtudes da pureza, da bondade e da felicidade radiante, mas também revela a recompensa que recebemos ao desenvolver estas virtudes.

Esta bela citação de Bahá’u’lláh, dirigida aos verdadeiros buscadores espirituais, desenvolve a passagem anterior com mais detalhe sobre como podemos viver melhor as nossas vidas para cumprir o nosso propósito:

Esse buscador deve considerar a maledicência como um erro penoso, e manter-se distante do seu domínio, pois a maledicência apaga a luz do coração e extingue a vida da alma. Deve satisfazer-se com pouco e libertar-se de todo o desejo desmesurado. Deve apreciar a companhia daqueles que renunciaram ao mundo e considerar o evitar de pessoas orgulhosas e mundanas como um benefício precioso. Ao amanhecer de cada dia, deve comungar com Deus, e com toda a sua alma deve persistir na procura do Amado. Deve consumir todo o pensamento rebelde com a chama da Sua amorosa menção, e com a rapidez de um relâmpago passar por tudo salvo Ele. Deve socorrer os despojados e nunca sonegar o seu favor aos destituídos. Deve mostrar bondade aos animais, quanto mais ao seu semelhante, que está dotado com o poder da palavra. Não deve hesitar em oferecer a vida pelo seu Amado, nem permitir que a censura dos povos o afaste da Verdade. Não deve desejar para outros aquilo que não deseja para si próprio, nem prometer aquilo que não cumprirá. (Kitab-i-Iqan, ¶214)

Estes atributos espirituais, quando desenvolvidos e praticados, podem tornar a vida de qualquer pessoa mais feliz, mais plena e mais amorosa.

Os Aspectos Práticos da Vida

Para além destes atributos celestiais e espirituais, as Escrituras Bahá’ís incluem também uma riqueza de orientações sobre os aspetos práticos da vida. A revelação bahá’í aborda questões humanas universais referentes ao casamento, à educação dos filhos, à saúde, à higiene pessoal e à alimentação, bem como ao trabalho, à justiça social e à organização ideal da sociedade humana.

Para além destes atributos celestiais e espirituais, as Escrituras Bahá’ís incluem também uma riqueza de orientações sobre os aspectos práticos da vida. A revelação Bahá’í aborda questões humanas universais referentes ao casamento, à educação dos filhos, à saúde, à higiene pessoal e à alimentação, bem como ao trabalho, à justiça social e à organização ideal da sociedade humana.

Muitas vezes achei esta citação de Bahá'u'lláh inspiradora e útil durante os meus dias de trabalho e até mesmo agora, na reforma: "Dedicar-se a alguma profissão é altamente louvável, pois quando se está ocupado com o trabalho, é menos provável que a pessoa se detenha com os aspetos desagradáveis da vida."

Apesar de toda esta orientação, ninguém é perfeito, e cada um de nós, por vezes, falhará em viver de acordo com os padrões estabelecidos por Bahá’u’lláh. Embora não seja fácil, precisamos de reconhecer este facto, admitir as nossas fraquezas e esforçar-nos para as ultrapassar. Felizmente, os ensinamentos Bahá’ís asseguram-nos que, se tentarmos corrigir quaisquer acções indesejáveis, seremos perdoados. Esta citação de uma oração escrita por 'Abdu'l-Bahá capta este princípio:

Todos nós somos pecadores, e Tu és o Perdoador dos pecados, o Misericordioso, o Compassivo. Ó Senhor! Não olhes para as nossas falhas. Trata-nos segundo a Tua graça e bondade. As nossas falhas são muitas, mas o oceano do Teu perdão é infinito.

Por vezes, quando nos criticamos de forma excessiva ou reflectimos sobre as nossas vidas, as nossas falhas, erros e oportunidades perdidas, podemos sentir-nos cheios de arrependimento e culpa. Mas Deus é perdoador, misericordioso e compassivo para connosco, prometem os ensinamentos Bahá’ís.

Outra citação de uma oração Bahá’í assegura-nos que, em todos os aspectos da nossa vida, Deus está presente para nos ajudar, tanto nos bons como nos maus momentos:

Suplico-Te que me ajudes e me assistas em todos os momentos e em todas as circunstâncias, e peço ao céu da Tua graça que me concedas o Teu antigo favor. Tu és, em verdade, o Senhor da generosidade e o Soberano do reino da eternidade.

Da mesma forma, adoro estas palavras, que se encontram numa das orações mais conhecidas de Bahá’u’lláh: “Ó Deus! Não os abandones a si mesmos, mas guia os seus passos com a luz do Teu conhecimento e alegra os seus corações com o Teu amor. Em verdade, Tu és o seu Auxiliador e o seu Senhor.”

Estas palavras dos ensinamentos Bahá’ís oferecem-nos uma orientação infalível e a felicidade de saber que somos amados – que mais poderia alguém desejar? No meio do oceano de Escrituras que constituem a revelação Bahá’í, estas poucas citações curtas têm um significado especial para mim. Vêm-me frequentemente à mente, guiando-me pela vida com amor, compaixão e compreensão. Quando lê as Escrituras Bahá’ís, que passagens são as mais significativas para si?

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Texto original: Nine Baha’i Quotes I Turn to for Guidance and Inspiration (www.bahaiteachings.org)

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Ken McNamara é um agrónomo reformado que vive na Carolina do Norte (EUA).

sábado, 28 de março de 2026

Materialismo: o Verdadeiro Ópio das Massas

Por Aravindh Kaniappan.

Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, foi contundente na sua repreensão aos líderes religiosos do século XIX, que, segundo Ele, "impediam os povos" de alcançar a salvação.

Depois de ter sido repetidamente torturado, exilado e preso pelos clérigos do Seu tempo apenas por ensinar a Sua nova fé, Bahá'u'lláh escreveu:

Os líderes da religião, em todas as eras, impediram os seus povos de alcançar as praias da salvação eterna, pois tinham as rédeas da autoridade nas suas poderosas mãos. Alguns pelo desejo da liderança, outros querendo conhecimento e discernimento, foram a causa da privação do povo. (Kitab-i-Iqan, ¶15)

Ao longo dos últimos dois séculos, um movimento antirreligioso específico ganhou gradualmente força em muitas partes do mundo. Rejeitada devido à profunda ignorância, corrupção e depravação em que a religião organizada fora lançada pela conduta egoísta e ávida de poder dos seus supostos líderes, e libertada cada vez mais das amarras que a prendiam desde os primórdios da humanidade, graças aos crescentes níveis de literacia, educação, descobertas científicas pós-Renascimento e descentralização do poder, a humanidade em geral tem-se voltado, lenta mas seguramente, para uma abordagem de vida que tende a compartimentar os seus elementos espirituais e materiais em partes separadas.

Será que isso é bom?

A constante adulteração da orientação divina para fins políticos ao longo do último século apenas reforçou no mundo em que vivemos hoje, a percepção da religião como arcaica, desligada da realidade e que procura controlar os seus seguidores, mantendo-os na ignorância e com medo da condenação eterna.

A força motriz por detrás do surgimento e da sustentação contínua deste movimento materialista anti-religioso pode ser facilmente compreendida. Mas será que alguma vez levou a humanidade ao extremo oposto, onde o elemento material e secular da vida, dissociado do outro, fica privado da influência redentora e moderadora do espírito, fazendo do materialismo uma faceta cada vez mais dominante da existência humana?

Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, escreveu:

É este mesmo materialismo cancerígeno, nascido originalmente na Europa, levado ao extremo no continente norte-americano, contaminando os povos e as nações asiáticas, estendendo os seus sinistros tentáculos até às fronteiras de África e agora invadindo o seu próprio coração, que Bahá’u’lláh denunciou numa linguagem inequívoca e enfática nas Suas Escrituras, comparando-o a uma chama devoradora e considerando-o como o principal factor no precipitar de terríveis provações e crises que abalam o mundo... (Citadel of Faith, p.125)

Muitas pessoas lamentam hoje o facto de o materialismo se ter tornado uma faceta tão dominante da vida moderna, mas cancerígena? Contaminadora? Uma chama devoradora? Será mesmo assim tão mau? Gostaria de dizer, por experiência própria, que sim. Nascido e criado numa família de classe média, eu e os meus irmãos nunca sentimos falta de necessidades básicas para viver – mas certamente não tínhamos uma vida de luxo ou de excessos. Por ter nascido e sido criado numa família Bahá’í, sentia-me bastante feliz com este tipo de vida relativamente modesta, lembrando-me sempre da advertência de Bahá’u’lláh: “Ó Filho do Ser! Não te ocupes com este mundo, pois com fogo provamos o ouro e com ouro provamos os Nossos servos.”

No início da minha juventude, fui para a universidade, estudei engenharia, arranjei um emprego e comecei a ganhar dinheiro. A minha carreira evoluiu à medida que subia na hierarquia da empresa. Continuei a contribuir voluntariamente para o Fundo Bahá’í e a tentar ajudar os outros sempre que possível através de donativos e assistência financeira pessoal, mas o meu estilo de vida estava definitivamente a tornar-se cada vez mais confortável – aliás, muito mais do que confortável – e dei por mim a adquirir muitos bens materiais. Embora tentasse manter-me envolvido nas actividades da comunidade Bahá’í, o trabalho estava a consumir cada vez mais tempo e a definir cada vez mais quem eu era.

Até que um dia, alguém me fez uma pergunta inocente, algo que já me tinham feito muitas vezes: "Onde te vês daqui a 10 anos?" Ao que dei a minha resposta padrão, a mesma que já tinha dado inúmeras vezes: "Administrador de uma multinacional". Mas veio uma pergunta seguinte, e esta surpreendeu-me verdadeiramente: "E isso vai fazer-te feliz?"

Nesse momento, percebi que esta droga invisível e viciante do materialismo me tinha aprisionado firmemente nos seus "sinistros tentáculos", sem que eu me apercebesse! Eu era como um hamster na roda, a correr sem parar, sem saber ao certo porquê, mas tão drogado que não conseguia parar para pensar. Eu deveria ter aprendido a lição, com as advertências desde a mais tenra idade sobre o efeito debilitante do materialismo. Tentei perceber onde é que tudo tinha corrido mal, e o que descobri foi verdadeiramente assustador.

Somos bombardeados diariamente, a toda hora, a cada instante, com a narrativa de que o propósito da vida é progredir materialmente e adquirir cada vez mais bens, riqueza, conforto e estatuto. Dizem-nos que as pessoas que "chegaram lá" são os ricos e famosos, os ícones do desporto, as estrelas de cinema. Garantem-nos que a busca da felicidade deve ser feita através de empregos e negócios maiores e mais bem remunerados. Convencem-nos de que precisamos de investir nas empresas que oferecem o maior lucro, porque isso leva ao enriquecimento pessoal, essencial para uma vida plena. Somos doutrinados para acreditar que o único caminho para o progresso nacional é o nosso país explorar ao máximo os seus próprios recursos naturais (e, se possível, os de outros) e garantir que os cidadãos do nosso país vivem o mais prosperamente possível. Poucos, porém, levam esta linha de raciocínio à próxima questão lógica: E as outras pessoas?

Mesmo quando não se trata explicitamente de dinheiro, somos levados a crer que fazer o que "nos faz felizes" (leia-se: bens mais caros, férias de luxo, desportos radicais, cuidados de beleza, "soltar-se") é indispensável para levar uma vida plena.

Esta narrativa sedutora e bem elaborada, embora aparente reconheça a faceta espiritual do ser humano, nega quase completamente essa mesma faceta no modo de vida que defende. Alimenta-se de si própria e cresce como uma hidra. Encontra vítimas voluntárias, involuntárias e, muitas vezes, inconscientes em todas as camadas da sociedade. Age sobre nós de forma insidiosa, e muitos vão para o túmulo sem sequer se aperceberem de que vaguearam pela vida numa névoa induzida por drogas, acreditando ser real o que era apenas uma miragem temporária. Bahá'u'lláh advertiu:

Os dias da vossa vida estão quase concluídos, ó povo, e o vosso fim aproxima-se rapidamente. Deixai, pois, de lado as coisas que planeastes e às quais vos apegastes, e segurai-vos firmemente aos preceitos de Deus, para que talvez alcanceis o que Ele planeou para vós e sejais dos que seguem o caminho íntegro. Não vos deleiteis com as coisas do mundo e os seus adornos vãos, nem depositeis nelas a vossa esperança. Confiai na lembrança de Deus, o Mais Enaltecido, o Mais Grandioso. Ele, em breve, reduzirá a nada tudo o que possuís. (Gleanings, LXVI)

Na minha opinião, o materialismo é, de facto, o maior ópio que existe no mundo actual. Suga as nossas almas e destrói as nossas civilizações, à medida que indivíduos, empresas e nações competem entre si para tentar acumular para si uma parcela cada vez maior de bens materiais e recursos. Amaldiçoa o nosso planeta ao extrair cada vez mais recursos, produzir cada vez mais bens materiais desnecessários e gerar cada vez mais lixo, poluição e carbono. Esta corrida materialista mantém-nos num estado constante de entorpecimento, impedindo-nos de encarar os verdadeiros anseios e desejos das nossas almas.

Sinto-me incrivelmente abençoado por ter finalmente tomado consciência desta ameaça, deste vício, e por, pelo menos, ter podido contemplar algumas medidas correctivas para me libertar das suas garras – mas lembro-me de que posso facilmente voltar a cair no seu domínio se não tentar, constante e diariamente, realinhar-me com o meu Criador e a Sua vontade para mim. Tal como nos aconselhou Bahá'u'lláh:

Vós sois como o pássaro que levanta voo, com toda a força das suas poderosas asas, com plena e alegre confiança, pela imensidão dos céus, até que, impelido a saciar a sua fome, se volta com saudade para a água e o barro da terra em baixo, e, preso na teia do seu desejo, se vê impotente para retomar o seu voo para os reinos de onde veio. Incapaz de se livrar do fardo que lhe pesa sobre as asas maculadas, este pássaro, até então habitante dos céus, é agora obrigado a procurar morada no pó. Por isso, ó Meus servos, não contamineis as vossas asas com o barro da rebeldia e dos desejos vãos… (Gleanings, CLIII)

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Texto original: Materialism: the Real Opiate of the Masses (www.bahaiteachings.org)

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Aravindh é engenheiro de formação e desempenha funções de executivo numa grande multinacional. Vive na Malásia, é apaixonado pela leitura, com particular interesse pela história, tanto antiga como moderna. Procura envolver-se ao máximo nas actividades da comunidade Bahá'í.

sábado, 21 de março de 2026

O Significado Espiritual da Primavera

Por Radiance Talley.


Todos os anos, por volta do equinócio da primavera, o mundo parece ganhar vida. Dependendo do local onde se vive no Hemisfério Norte, árvores e arbustos que antes estavam gelados e estéreis começam a brotar, a ter folhas, flores ou frutos. A erva fica mais verde, os animais que hibernaram aparecem de novo e os insectos que estavam enterrados eclodem dos seus ovos e emergem à superfície.

“Na primavera, há nuvens que trazem a preciosa chuva, brisas perfumadas com almíscar e zéfiros que dão vida; o ar é perfeitamente temperado, a chuva cai, o sol brilha, o vento fecundante agita as nuvens, o mundo renova-se e o sopro da vida aparece nas plantas, nos animais e nos homens”, disse ‘Abdu’l-Bahá, uma das figuras centrais da Fé Bahá’í. “Os seres terrenos passam de uma condição para outra.”

Se todo este renascimento e renovação acontece durante a primavera com todas as plantas e animais do mundo, que tipo de transformação espiritual está a acontecer com as pessoas?

A Importância da Primavera para a nossa Transformação Espiritual

Lembro-me muito bem do meu inverno durante o auge da pandemia de coronavírus…

Tal como muitos outras seres vivos, passei o inverno a hibernar e confinada dentro de casa — porque não tinha o mínimo interesse em sair à rua para o frio, a não ser que fosse necessário. Por isso, quando as nuvens se dissiparam e a temperatura finalmente atingiu os 21 graus Celsius, não resisti e saí algumas vezes para respirar fundo. Inspirei e expirei — o ar era tão doce que quase o sentia no paladar. Enquanto caminhava e absorvia o calor do sol, o meu corpo sentiu-se aliviado e a minha mente, tranquila. Eu sabia que o meu espírito estava a ser revigorado, assim como todos os outros.

‘Abdu’l-Bahá disse que é como se a Terra estivesse morta e sem vida durante o Inverno. Mas quando chega a primavera, "encontra um novo espírito e produz uma beleza, graça e frescura infinitas. Assim, a primavera é a causa de uma nova vida e infunde um novo espírito."

Senti que me estava a revitalizar com este novo espírito. É claro que esta regeneração espiritual não aconteceu pontualmente assim que o sol nasceu. Recuperei espiritualmente durante 19 dias, desde o início de Março até ao primeiro dia da primavera – o Ano Novo Bahá’í.

Durante estes 19 dias, os Bahá’ís jejuam — não comemos nem bebemos nada desde o nascer ao pôr do sol. Mas esta abstinência de alimentos é meramente simbólica e, como explicou Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, é “uma lembrança da abstinência de desejos egoístas e carnais”.

Ele escreveu ainda que o período de jejum é “essencialmente um período de meditação e oração, de recuperação espiritual, durante o qual o crente deve esforçar-se por fazer os reajustes necessários na sua vida interior e por renovar e revigorar as forças espirituais latentes na sua alma. O seu significado e propósito são, portanto, fundamentalmente de carácter espiritual”.

Todos os anos, em Março, dou prioridade à minha saúde espiritual e sintonizo-me com o meu espírito. Reflito sobre mim, defino quais os objetivos que quero alcançar no ano que se inicia e trabalho para me libertar de velhos hábitos indesejados. Agradeço a Deus as minhas bênçãos, peço perdão pelos meus erros e esforço-me por purificar o meu coração e a minha alma. Desta forma, quando saio da minha hibernação, sinto-me revigorada e transformada, tanto física como espiritualmente.

“Jesus Cristo disse: ‘É necessário nascer de novo’ para que a Vida divina possa brotar de novo dentro de vós”, disse 'Abdu’l-Bahá numa palestra em Bristol, Inglaterra, em 1911.

Sede bondosos com todos os que vos rodeiam e servi uns aos outros; amai a justiça e sede verdadeiros em todas as vossas acções; orai sempre e vivei de tal maneira que a tristeza não vos alcance. Considerai as pessoas da vossa própria raça e as de outras raças como membros de um mesmo organismo; filhos do mesmo Pai; que a vossa conduta demonstre que sois, de facto, o povo de Deus. Então, as guerras e as disputas cessarão e a Grande Paz espalhar-se-á por todo o mundo. (‘Abdu’l-Bahá in London, p.83)

O Significado Espiritual da Primavera para a Humanidade

Os Bahá’ís acreditam que a paz mundial não é apenas uma esperança ingénua ou um desejo ilusório, mas antes algo inevitável. Compreendemos que o mundo atravessa tempos turbulentos e difíceis, mas, como escreveu Shoghi Effendi:

Encontramo-nos no limiar de uma era cujas convulsões anunciam tanto as dores da morte da velha ordem como as dores do nascimento da nova.

“Toda a Terra”, escreveu Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá’í, “está agora em estado de gravidez. Aproxima-se o dia em que ela terá gerado os seus frutos mais nobres, em que dela terão brotado as árvores mais sublimes, as flores mais encantadoras, as bênçãos mais celestiais.”

Tal como a Terra passa por diferentes estações e ciclos, os Bahá’ís acreditam que a humanidade passa por várias fases de desenvolvimento. E em cada fase, Deus envia Mensageiros (como Zoroastro, Buda, Krishna, Moisés, Jesus Cristo, Maomé, o Báb e Bahá’u’lláh) para revelar mais da Sua revelação à sociedade.

Neste momento, a humanidade encontra-se na sua turbulenta adolescência. Mas os Bahá'ís acreditam que depois da "impetuosidade da juventude e a sua veemência atingirem o auge", alcançaremos a maturidade e entraremos na fase adulta. Acreditamos que os ensinamentos revolucionários de Bahá’u’lláh — como a igualdade entre homens e mulheres, a harmonia entre a ciência e a religião, a eliminação dos extremos de riqueza e pobreza, a abolição de todas as formas de preconceito e a unicidade da humanidade — ajudarão a conduzir a humanidade rumo à maturidade.

Tal como ‘Abdu’l-Bahá escreveu:

Este tempo é a Era Prometida, a reunião da raça humana para o “Dia da Ressurreição”, e estamos agora no grande “Dia do Juízo Final”. Em breve, o mundo inteiro, como na primavera, mudará de trajes. A mudança de cor e a queda das folhas de outono já passaram; a aridez do inverno acabou. O novo ano surgiu e a primavera espiritual está próxima.

A terra negra está a transformar-se num jardim verdejante; os desertos e as montanhas estão repletos de flores vermelhas; das fronteiras das terras selvagens, as ervas altas erguem-se como vanguarda diante dos ciprestes e dos jasmins; enquanto os pássaros cantam entre os ramos de rosas como anjos nos mais altos céus, anunciando a boa nova da chegada daquela primavera espiritual, e a doce música das suas vozes faz com que a verdadeira essência de todas as coisas se mova e vibre.

Esta “primavera espiritual” é tão significativa e importante porque, como disse ‘Abdu’l-Bahá, é a “era do despertar espiritual”, onde “o mundo entrou no caminho do progresso, na arena do desenvolvimento, onde o poder do espírito supera o do corpo. Em breve, o espírito terá o domínio sobre o mundo da humanidade”.

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Texto original: The Spiritual Meaning and Significance of Spring (www.bahaiteachings.org

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Radiance Talley é licenciada em comunicação pela Universidade de Maryland. Além da escrita, do desenho, e da comunicação em público, Radiance tem um profundo conhecimento da teoria da construção, técnicas de negociação, gestão de conflitos, comunicação organizacional e intercultural, antropologia e sociologia.

sábado, 14 de março de 2026

Respeitar a Dignidade do Corpo Após a Morte

Por David Langness.


Por que razão, perguntou uma vez uma professora numa aula da minha da faculdade, os seres humanos têm rituais, funerais e cerimónias quando as pessoas morrem? Porque damos tanta importância ao enterro do corpo humano?

A turma pareceu perplexa com a pergunta, até que uma aluna de antropologia respondeu com outra pergunta: "Bem... porque é que os elefantes e os chimpanzés enterram os seus mortos?"

Esta troca de ideias fez com que todos os alunos repensassem a morte. Se alguns mamíferos superiores têm o instinto, a emoção ou o respeito de enterrar os seus mortos, porque não o teriam os humanos?

Na verdade, o Homo Sapiens realiza funerais há muito tempo, mesmo antes de termos surgido como humanos modernos. Temos evidências significativas de funerais neandertais de há mais de cem mil anos. O sepultamento é um dos costumes humanos mais difundidos, presente em todas as culturas desde os primórdios da nossa história.

Aquelas culturas primitivas pareciam compreender que os nossos corpos provêm da Mãe Terra e a ela regressam. Reconheciam também claramente a dignidade do corpo humano e entendiam que o enterro era um sinal de respeito pelo seu espírito. O grande ciclo da vida e da morte, assinalado com este regresso às nossas origens, está presente em todos os povos desde o princípio dos tempos.

Da mesma forma, os ensinamentos Bahá'ís afirmam que os nossos espíritos regressam às suas origens: "Eu vim de Deus e a Ele regresso, desprendido de tudo, excepto d'Ele, segurando-me firmemente ao Seu Nome, o Misericordioso, o Compassivo."

Esta frase simples, uma citação do Livro Mais Sagrado de Bahá'u'lláh, está inscrita nos anéis funerários Bahá'ís. Quando um Bahá'í morre, um destes anéis é colocado no seu dedo antes do enterro. Serve como lembrar aos vivos o destino de todas as nossas almas.

Também é um testemunho da fé de quem o usa e honra a forma física dessa pessoa, cujo “… corpo, embora agora pó, foi outrora exaltado pela alma imortal do homem!” O Guardião da Fé Bahá’í, Shoghi Effendi, escreveu esta frase numa carta a uma jovem Bahá’í chamada Sally Sanor, em 1944.

Assim, qual a melhor forma de preservarmos a dignidade e a nobreza de cada ser humano quando este abandona este plano terreno? Os ensinamentos Bahá’ís recomendam um funeral rápido e simples, sem embalsamamento ou outros conservantes artificiais; e um serviço fúnebre digno, mas humilde, que inclua orações.

Todos desejamos uma vida plena de sentido, culminando numa morte também plena de sentido. O falecimento de cada pessoa merece ser reconhecido. Como sociedade atenciosa e espiritual, precisamos de encorajar a aceitação da morte como parte do ciclo natural da vida, um ciclo que traz beleza e significado a este segundo nascimento no reino espiritual.

Preservar esta dignidade e comemorar o lugar de cada indivíduo no ciclo da vida exige um funeral solene e sublime, não apenas uma cremação rápida, como salientou ‘Abdu’l-Bahá:

Se a desintegração [do corpo] for rápida, isso provocará uma sobreposição e um abrandamento na cadeia de transferências, e esta descontinuidade prejudicará as relações universais dentro da cadeia das coisas criadas.

Por exemplo, este corpo humano elementar surgiu dos mundos mineral, vegetal e animal, e após a sua morte será completamente transformado em organismos animais microscópicos; e de acordo com a ordem divina e as forças motrizes da natureza, estas minúsculas criaturas terão um efeito sobre a vida do universo e assumirão outras formas.

Ora, se entregarmos este corpo às chamas, ele passará imediatamente para o reino mineral e será impedido de seguir o seu caminho natural através da cadeia de todas as coisas criadas.

O corpo elementar, após a morte e a sua libertação da vida composta, transformar-se-á em componentes separados e em minúsculos animais; e mesmo que agora esteja privado da sua vida composta na forma humana, a vida animal ainda estará presente nele, e ele não estará totalmente desprovido de vida. Se, no entanto, for queimado, transformar-se-á em cinzas e minerais, e uma vez transformado em mineral, deverá inexoravelmente seguir em direcção ao reino vegetal, para depois ascender ao mundo animal. Isto é o que se descreve como um salto. (‘Abdu’l-Bahá, The Wisdom of Burying the Dead.)

A cremação e outras formas semelhantes de "preceitos" rápidos com os falecidos interrompem os processos naturais do nosso ambiente, disse 'Abdu'l-Bahá numa carta de 1920 à cantora e compositora Bahá'í Shahnaz Waite:

O corpo do homem, que se formou gradualmente, deve igualmente decompor-se gradualmente. Isto está de acordo com a ordem real e natural e com a Lei Divina. Se fosse melhor que fosse queimado após a morte, na sua própria criação teria sido planeado que o corpo se incendiasse automaticamente após a morte, fosse consumido e transformado em cinzas. Mas a ordem divina, formulada pelo preceito celestial, é que após a morte este corpo seja transferido de um estágio para outro, diferente do anterior, de modo que, de acordo com as relações existentes no mundo, possa gradualmente combinar-se e misturar-se com outros elementos, passando assim por etapas até chegar ao reino vegetal, transformando-se em plantas e flores, desenvolvendo-se em árvores do mais alto paraíso, tornando-se perfumado e alcançando a beleza da cor.

A cremação impede rapidamente a realização destas transformações, pois os elementos decompõem-se tão rapidamente que a transformação para estas várias fases é interrompida. (Star of the West, Volume XI, No. 19, page 317)

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Texto original: Respecting the Dignity of the Body After Death (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Para além da comida: o verdadeiro propósito do jejum Bahá'í

Por Margaret Tash.

Há mais de 40 anos que sou Bahá'í, e ainda estou a aprender a desvendar o mistério do jejum Bahá’í de dezanove dias.

Esta prática espiritual anual, que os Bahá’ís iniciam nos começos de Março de cada ano, consiste em abster-se de alimentos e bebidas desde o nascer ao pôr do sol. Embora pareça simples à primeira vista, o jejum é algo muito profundo e complexo. As Escrituras Bahá'ís dizem:

Existem várias fases e etapas no Jejum, e incontáveis efeitos e benefícios estão ocultos nele. Felizes aqueles que os alcançam. (Bahá’u’lláh, citado em The Importance of Obligatory Prayer and Fasting)

Este jejum físico é um símbolo do jejum espiritual. Este jejum conduz à purificação da alma de todos os desejos egoístas, à aquisição de atributos espirituais, à atracção às brisas do Todo-Misericordioso e ao acender da chama do amor divino. (‘Abdu’l-Bahá, idem)

Eu sei que o verdadeiro propósito do jejum é obter estes benefícios espirituais intangíveis, e, no entanto, muitas vezes dou por mim a dar demasiada ênfase aos seus aspectos físicos. Normalmente, encaro o jejum com um misto de expectativa e ansiedade — expectativa porque sei que é uma enorme bênção, e ansiedade por pensar que não vou conseguir observá-lo de forma completa ou perfeita. Se me distrair um bocadinho, surge também a culpa.

Tenho aprendido que na raiz destas emoções está um hábito de pensamento que engana muitos de nós: uma “falsa dicotomia” ou “pensamento tudo ou nada”. Isto pode manifestar-se como “ou estás a jejuar… ou não estás”, ou “ou conseguiste jejuar o dia todo, ou falhaste”.

Os ensinamentos Bahá’ís incentivam este tipo de pensamento? Certamente que não. Na verdade, incentivam-nos a evitar falsas dicotomias. Grande parte desta Fé baseia-se na intenção sincera — simplesmente em nos esforçarmos ao máximo para pôr em prática aquilo que Deus nos pede.

Assim, na minha opinião, quanto mais compassivos formos connosco próprios, simplesmente fazendo o melhor que podemos, mais seremos capazes de focar a nossa atenção naquilo que realmente importa — não a comida, mas sim desfrutar dos benefícios espirituais do jejum.

Aqui estão algumas acções doces e carinhosas que estou a aprender, e que nos podem ajudar a manter o foco na dimensão espiritual do jejum.

Preparação para o Jejum

Em primeiro lugar, certifique-se de que o jejum é fisicamente adequado para si. Como o propósito fundamental do jejum é espiritual, não há motivo para prejudicar a sua saúde. As pessoas com menos de 15 anos, maiores de 70 anos, grávidas, lactantes, em viagem ou doentes não necessitam de jejuar — assim como aquelas cujas condições médicas ou de trabalho exijam um esforço físico intenso que o torne prejudicial. Em caso de dúvida sobre a adequação do jejum para si, consulte um médico antes de tentar jejuar.

Se tiver condições para jejuar, um pouco de preparação prévia tornará os aspetos físicos mais fáceis de lidar. Afinal, somos seres humanos com corpos que precisam de ser alimentados. Uma alteração na rotina provoca ansiedade e oscilações nos níveis de açúcar no sangue. Cada um de nós é diferente, sem dúvida, por isso procure uma rotina mais adequada para si. Se desejar juntar-se a nós na observação do Jejum, contacte os Bahá'ís da sua região para obter mais informações e dicas de preparação.

Perseverança — e Foco no Positivo.

O jejum não é suposto ser fácil — pelo menos no aspecto fisico. No entanto, os benefícios e recompensas espirituais são poderosos, por isso seja compassivo consigo mesmo e concentre-se no positivo: no que está a ganhar. Como escreveu Bahá'u'lláh:

Embora exteriormente o jejum seja difícil e penoso, interiormente é abundância e tranquilidade. (Bahá’u’lláh, idem)

Aprendi outro conceito útil durante o Jejum: alguns novos hábitos desafiam-nos não por serem inerentemente difíceis, mas simplesmente por serem novos. Com o tempo, a nossa observância de leis espirituais como o Jejum torna-se mais fácil e notamos cada vez mais benefícios.

Jejuar — e Orar

Como o jejum tem um carácter fundamentalmente espiritual, a oração irá ajudar-nos a tirar o máximo partido dele.

Na oração, podemos pedir a Deus auxílio para quaisquer dificuldades. Esta preparação espiritual ajuda-nos a enfrentar os desafios que quase certamente surgirão. Orar de manhã cedo — antes ou depois do pequeno-almoço — é uma experiência única e maravilhosa. Muitos que não podem jejuar fisicamente acordam, ainda assim, para rezar ao amanhecer, aproveitando esta oportunidade especial para comungar com Deus nas primeiras horas do dia. As Escrituras Bahá’ís contêm belas orações reveladas especificamente para o Jejum. Aqui fica um excerto de uma delas:

Que refúgio existe para além de Ti, ó meu Senhor, para onde eu possa fugir, e onde haja um porto seguro para onde me possa dirigir? ... Não existe protetor além de Ti, nenhum lugar para onde fugir senão para Ti, nenhum refúgio a procurar senão em Ti. Faze-me provar, ó meu Senhor, a divina doçura da Tua lembrança e do Teu louvor. (Bahá’u’lláh, Bahá’í Prayers, p. 256)

Se isto alimentar o seu espírito, pode ler mais orações para o jejum em https://bahai.org.br/oracoes-bahai/

Construir uma Comunidade

Em vez de enfrentarmos sozinhos as dificuldades do jejum, podemos explorá-las com os amigos em conversas sinceras e profundas. Isto leva-nos a refletir sobre as nossas acções, o que nos pode ajudar a crescer. O jejum dá-nos a oportunidade de praticar um princípio fundamental para a construção de comunidades espirituais: o "acompanhamento", que significa apoiarmo-nos uns aos outros nos nossos esforços para servir Deus e a humanidade, e para viver uma vida espiritual:

Esta evolução na consciência colectiva é perceptível na crescente frequência com que a palavra “acompanhar” surge nas conversas… Assinala o fortalecimento significativo de uma cultura em que a aprendizagem é o modo de operação, um modo que fomenta a participação informada de cada vez mais pessoas num esforço conjunto para aplicar os ensinamentos de Bahá’u’lláh à construção de uma civilização divina. (A Casa Universal de Justiça, Mensagem dirigida aos Baha’is do mundo, Abril de 2010)

O jejum é uma ocasião natural para manter o contacto, estudar e reflectir em conjunto, e apoiarmo-nos mutuamente da forma que for necessária. Quando uma pessoa mais experiente é acompanhada por alguém que está a iniciar o jejum, a aprendizagem pode ser maximizada — ambos podem aprender lições valiosas um com o outro.

Dar no nosso melhor, um passo de cada vez

Embora beneficiemos do apoio e da aprendizagem mútua, o Jejum é também uma experiência profundamente pessoal e íntima, e a forma como é observado é, em última análise, uma questão entre o indivíduo e Deus. As Escrituras Bahá’ís pedem-nos simplesmente que façamos o nosso melhor e que deixemos os nossos corações serem fortalecidos e os nossos espíritos renovados ao cumprirmos esta lei espiritual. Ao darmos cada passo hesitante e imperfeito, podemos apoiar-nos uns aos outros nos nossos esforços e, claro, sabemos que Deus também está lá, à espera para nos estender a mão e nos guiar pelo resto do caminho.

Ao aproximarmo-nos do Jejum com este espírito, teremos muito mais hipóteses de alcançar as suas diversas fases e talvez desvendar alguns dos seus mistérios durante este período único e maravilhoso. Como Bahá'u'lláh escreveu numa das Suas orações para o jejum:

Dotaste cada hora destes dias com uma virtude especial. (Prayers and Meditations of Baha’u’llah, p. 143)

Se desejar saber mais sobre o Jejum Bahá’í, consulte este site: https://www.bahai.org/pt/beliefs/life-spirit/devotion/fasting

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Texto original: Beyond Food: The Real Purpose of the Baha’i Fast (www.bahaiteachings.org)

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Margaret Tash é nutricionista. Sempre teve interesse em estudar o impacto das escolhas alimentares na nossa saúde e em procurar soluções para acabar com os efeitos devastadores da fome no mundo.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Será que eu tenho uma alma?

Por David Langness.

A crença consiste em aceitar as afirmações da alma; a descrença, em negá-las. (Ralph Waldo Emerson)

          A vida é real! A vida é séria!
          E o túmulo não é o seu fim,
          És pó e ao pó voltarás,
          Não falava da alma.
          (Henry Wadsworth Longfellow)

O homem não possui um corpo distinto da sua alma; pois aquilo a que chamamos corpo é uma porção da alma, percebida pelos cinco sentidos, as principais vias de acesso da alma nesta era. (William Blake)

Qual é a crença humana mais antiga, mais persistente e mais profunda? É a existência de uma alma imortal.

A maioria dos grandes poetas e filósofos acreditava profundamente na alma humana. E você?

Se pensa assim, saiba que não está sozinho. Muitos antropólogos teorizam que a ideia de alma remonta a mais de 200.000 anos, praticamente na mesma altura em que acreditam que a consciência humana começou a surgir. Assim que desenvolvemos linguagem, acreditam os antropólogos, os humanos começaram a expressar o conceito de alma por palavras.

Nessa altura da história humana primitiva, a nossa raça viveu uma explosão cultural, expressa na arte, no vestuário, na linguagem e nos primórdios da religião. Pintávamos grutas, ornamentávamo-nos com símbolos, decorávamos os nossos túmulos com figuras e representações religiosas e, claramente, começávamos a pensar de forma abstrata. Nessa fase do nosso desenvolvimento, tínhamos ultrapassado as necessidades de alimentação e abrigo e começado a utilizar o nosso tempo livre, os nossos impulsos criativos e a nossa capacidade intelectual inexplorada para transcender o meramente físico e começar a contemplar o espiritual.

Mas como surgiu a ideia de uma alma imortal, ou qualquer tipo de espiritualidade humana?

Provavelmente surgiu com o mistério da morte.

Ao contrário de qualquer animal, os seres humanos têm a capacidade de projectar as suas mentes para o futuro e contemplar a própria morte. Assim que soubemos que podíamos morrer, teorizaram os cientistas, começámos a compreender e a acreditar que alguma parte inata de nós continuava a existir. Este espírito ou alma imortal, exemplificado nas primeiras pinturas rupestres e nas inscrições simbólicas em túmulos, emergiu naturalmente da nossa própria descoberta da consciência e da autoconsciência.

Talvez isto explique porque é que todas as culturas, mesmo hoje, têm algum conceito de alma ou espírito que sobrevive ao corpo. Não importa de onde vêm, os seres humanos parecem compelidos a verem-se como algo mais do que a soma das suas partes biológicas.

Pesquisas recentes mostram que entre 65% e 80% da população mundial acredita na existência da alma. Independentemente da religião ou da ausência dela, a grande maioria de nós aceita que algo espiritual, alguma essência interior inata que todos possuímos, nos anima enquanto os nossos corpos vivem e continua a existir após a nossa morte.

Naturalmente, a Fé Bahá’í, assim como todas as outras grandes religiões globais, partilha esta crença:

Enquanto o corpo se transforma de uma condição para outra, a alma permanece imutável. Por exemplo, a forma jovem do corpo humano envelhece, mas a alma permanece a mesma; o corpo enfraquece, mas a alma não; o corpo sofre alguma deficiência ou paralisia, mas a alma permanece inalterada. Quantas vezes um membro pode ser amputado do corpo, mas a alma permanece a mesma, nunca se altera. Portanto, enquanto o corpo sofre alterações, a alma não muda. E, por ser imutável, a alma é imortal. Pois o ponto crucial da mortalidade é a mudança e a transformação.

No mundo dos sonhos, o corpo humano jaz indefeso, sem forças; os olhos não vêem, os ouvidos não ouvem e o corpo não se mexe. Mas a alma vê, ouve, viaja e resolve problemas. Assim sendo, torna-se evidente que, com a morte do corpo, a alma não morre; com o falecimento do corpo, a alma não perece; quando o corpo dorme, a alma não dorme, antes, compreende e descobre coisas; voa e viaja.

O corpo pode estar aqui, mas a alma pode estar presente no Oriente ou no Ocidente. Enquanto está no Ocidente, trata das coisas do Oriente e, no Oriente, descobre as coisas do Ocidente. Organiza e dirige os assuntos vitais das nações. Enquanto o corpo está num só lugar, a alma viaja por diferentes países e continentes. Em Espanha, por exemplo, descobre a América. Assim, o poder e a influência que pertencem à alma estão ausentes no corpo. O corpo não vê, mas a alma vê e explora. Portanto, a sua vida não depende do corpo. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 9, pp. 307-308)

Nesta breve série de artigos, vamos explorar o conceito de alma e colocar as questões que todos se colocam sobre o seu espírito interior: Como posso provar que ela existe? Onde está ela? O que significa ela para a minha vida aqui neste universo físico? O que significa ela para a minha vida depois da morte?

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Texto original: Do You Have a Soul? (www.bahaiteachings.org

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.