sábado, 27 de fevereiro de 2021

Um Falso Profeta?

Por Maya Bohnhoff.


Uma questão que costumo ouvir de Cristãos – e que eu coloquei a mim própria antes de conhecer mais profundamente Bahá’u’lláh e os Seus ensinamentos – é esta:

"Como responde à acusação de que Bahá’u’lláh é um falso profeta?"

A questão foi colocada de forma diplomática pelo pastor da minha cidade (a quem vou chamar Dan) num encontro inter-religioso. Encontrei a resposta a esta pergunta no seguinte excerto do evangelho de Mateus:

Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas. Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela. 

Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis. (Mateus 7:12-20)

Jesus fala de “frutos” que servem como traço distintivo entre um verdadeiro e um falso profeta. Que tipo de frutos mostraria um verdadeiro profeta além de defender a “Regra de Ouro” e apelar a que todos fizessem o mesmo? O Apóstolo Paulo esclarece este assunto na sua dissertação sobre o amor:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. (1Cor 13:1-3)

Estas afirmações colocam o amor acima da fé, acima de todos os milagres, acima de todas as doutrinas. Mas ainda indica o valor desses “frutos”: profecia, conhecimento, fé, caridade, generosidade, sacrifício... e, acima de tudo, o amor

Jesus afirma que os frutos bons não podem nascer numa árvore má, e pergunta: "Se Satanás expele a Satanás, dividido está contra si mesmo; como, pois, subsistirá o seu reino?" (Mt 12:26) Depois, Ele reitera no versículo 31 que a árvore é conhecida pelos seus frutos. Se não fossemos capazes de julgar alguém pelos seus frutos, porque iria o Senhor de toda a humanidade dizer-nos que somos capazes de o fazer?

Podemos usar o critério dado pelo próprio Cristo, para julgar os frutos da árvore de Bahá’u’lláh. Podemos ler por nós próprios as várias formas como Bahá’u’lláh ensina o mesmo conjunto de virtudes que Cristo ensinou. Ele também dá prioridade ao amor:

O propósito fundamental que anima a Fé de Deus e a Sua Religião é a salvaguarda dos interesses e a promoção da unidade da raça humana, o fomentar do espírito de amor e camaradagem entre os homens. (SEB, CX)

O amor e a unidade são os ensinamentos nucleares de Bahá’u’lláh. Ele não só proclama a verdade de Cristo e reitera os Seus ensinamentos, mas também O glorifica em várias ocasiões:

Sabe que quando o Filho do Homem entregou o Seu espírito a Deus, toda a criação chorou num grande pranto. Ao sacrificar-Se, porém, uma nova capacidade infundiu-se em todas as coisas criadas. As suas evidências, como se testemunha em todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de ti. A sabedoria mais vasta que os sábios pronunciaram, o conhecimento mais profundo que qualquer mente explicou, as artes que as mãos mais hábeis produziram, a influência exercida pelo mais poderoso dos governantes, são apenas manifestações do poder vivificador libertado pelo Seu Espírito transcendente, omnipresente e resplandecente. 

Testemunhamos que quando Ele veio ao mundo, Ele derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas. (SEB, XXXVI)

Milhões de pessoas em todo o mundo, de todas as origens étnicas, sociais e nacionais seguem Bahá’u’lláh e intitulam-se Bahá'ís. E os Bahá’ís reverenciam Cristo e todos os fundadores das grandes religiões mundiais, acreditando que estes Manifestantes de Deus ensinaram a mesma verdade essencial sobre o amor.

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Texto original: False Prophet? (www.bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

A Fé Bahá'í e a doutrina da Igreja

Por Maya Bohnhoff.


Uma das perguntas mais invulgares a que respondi, vinda de um pastor de uma igreja evangélica Protestante foi esta: “Os Bahá’ís aceitam a doutrina da Igreja conforme definida pelos Concílios da Igreja?”

Pareceu-que que era uma pergunta estranha, porque a igreja onde me encontrava há muito se afastara da orientação dos Concílios Ortodoxos e Católicos. Mas ainda assim, o pastor Dan apresentou um resumo histórico desses concílios, numa tentativa de mostrar que a Fé Bahá'í não extraiu os seus ensinamentos desses Concílios.

Quando pensamos nos “Pais da Igreja” e na série de concílios eu deram forma à doutrina Cristã, penso que devemos analisar cuidadosamente as páginas da história para ver o quão fielmente esses religiosos aderiram à nova aliança que Cristo estabeleceu com os Seus discípulos - “Amai-vos uns aos outros”. A doutrina formal da Trindade, para citar apenas um exemplo, foi preparada com os fogos do ódio e da intolerância. Depois de definir que Cristo tinha simultaneamente uma natureza humana e uma natureza divina, a questão de pormenor sobre se Ele tinha uma ou duas vontades foi o suficiente para causar dor, sofrimento e guerra entre os Cristãos.

A minha convicção pessoal? Segundo as minhas leituras das Escrituras e de história, quando o Cristianismo se dividiu em grupos que criaram o ódio institucionalizado entre si, esses grupos já se tinham afastado do conselho de Cristo, para que se amassem uns aos outros.

Também houve um momento na história em que a maioria dos Protestantes deixaram de aceitar os líderes das igrejas Católica e Ortodoxas como sendo doutrinariamente correctas. Não sei quais os critérios usados para determinar o momento exacto de ruptura na história; mas para mim é claro que a Aliança de Cristo, conforme definida no Evangelho de João, tinha sido violada. Os Cristãos tinham substituído o “amor sincero pelos irmãos” pela preocupação com a interpretação da doutrina (A cruz deve ter um, dois ou três braços? Cristo era uma vontade, ou essência, ou energia com o Pai? É a fé, a graça ou as obras, ou todas as três que salvam uma pessoa?) e atribuíram maior importância aos “sacramentos” e ao rigor doutrinário do que às virtudes Cristãs, como o amor ou a caridade.

Se, tal como Cristo disse, as Suas palavras servem como critério pelo qual o crente – ou num contexto mais amplo, o corpo dos crentes – é julgado, então a que palavras é que Ele se refere, senão aquelas na Sua mensagem final aos Seus discípulos amados?

Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando… Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros. (João, 15:14,17)

Assim, expliquei ao Pastor Dan que os Bahá’ís não aceitam a doutrina da igreja conforme definida pelos vários concílios; pelo contrário, aceitamos a Palavras de Deus revelada. Os Bahá’ís não têm dogmas, nem rituais, nem clero; e, na verdade, acreditam que os ensinamentos de Bahá'u'lláh constituem uma nova aliança entre Deus e a humanidade. Esta é a mesma aliança que foi feita no passado por Mensageiros tão diferentes como Krishna e Cristo:

Eu sou o Caminho e o Mestre que ensina em silêncio; o teu amigo e o teu abrigo e a tua morada da paz. Eu sou o princípio, o meio e o fim de todas as coisas; a sua semente de Eternidade e seu Tesouro supremo. (Krishna, Bhagavad Gita 9:16-18) 

Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto. (João 14:6-7)

E em jeito de conclusão, lembro umas palavras de Bahá'u'lláh:

...Ele manifestou aos homens as Estrelas da Sua orientação Divina, os Símbolos da Sua unidade divina, e decretou que o conhecimento destes Seres santificados fosse idêntico ao conhecimento do Seu próprio Ser. Quem os reconheceu, reconheceu Deus. Quem deu ouvidos aos Seus chamamentos, deu ouvidos à voz de Deus, e quem testemunhou a verdade das Suas revelações, testemunhou a verdade do próprio Deus… Cada um deles é o Caminho de Deus que liga este mundo aos reinos do alto… Eles são os Manifestantes de Deus entre os homens, as evidências da Sua Verdade, os sinais da Sua glória. (Gleanings from the Writings of Baha'u'llah, XXI)

Bahá’u’lláh refere a Aliança entre o Mensageiro divino e os crentes como o “pivot da unicidade da humanidade”. Numa época em que a desunião entre diferentes segmentos da sociedade pode provocar um tormento indescritível, a destruição dos inocentes e a fragmentação da sociedade global, os Bahá'ís trabalham pela unidade.

Na verdade, os Bahá'ís acreditam que a unidade internacional, religiosa e racial caracteriza esta fase de amadurecimento da humanidade. Convidamos todas as pessoas, de qualquer segmento social ou sistema de crenças, a analisar a mensagem de Bahá’u’lláh, a colocar questões tal como fez o Pastor Dan e a decidir por si próprias sobre a verdade dos ensinamentos Bahá’ís.

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Texto original: Baha'i and Church Doctrine (bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Os mortos vão ressuscitar?

Por Maya Bohnhoff.


Na igreja da nossa cidade, realizaram-se uma série de encontros para conhecer a Fé Bahá’í. Num desses encontros, o Pastor Dan levantou a questão da ressurreição:

A Fé Bahá’í acredita numa Ressurreição física?

O Apóstolo Paulo aborda este assunto na primeira epístola aos Coríntios (cap. 15). Os teólogos usam esta carta como a base de uma doutrina que proclama que sem uma ressurreição física do corpo humano, a fé Cristã é vã.

Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então, Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé. (1Cor 15:12-14)

Paulo apresenta uma descrição do significado da “ressurreição” em 1 Coríntios 15:35-55. Ele escreve:

Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que corpo vêm? Insensato! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer; e, quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mas o simples grão, como de trigo ou de qualquer outra semente. Mas Deus lhe dá corpo como lhe aprouve dar e a cada uma das sementes, o seu corpo apropriado. Nem toda carne é a mesma; porém uma é a carne dos homens, outra, a dos animais, outra, a das aves, e outra, a dos peixes. Também há corpos celestiais e corpos terrestres; e, sem dúvida, uma é a glória dos celestiais, e outra, a dos terrestres. Uma é a glória do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas; porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor. Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual. Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. 

Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade. E, quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

Aqui Paulo descreve a ressurreição como espiritual e não como física. Ele diz claramente que o “corpo” ressuscitado não é o corpo físico; que é “enterrado” e que o “corpo físico” é seguido por um “corpo espiritual”. Ele deixa claro que este corpo espiritual não é semelhante em nada ao corpo físico; e usa duas metáforas para destacar esta ideia: a semente apodrecida e a planta, e a diferença entre a lua e o sol.

A lua é um corpo inerte que não tem brilho próprio; apenas pode reflectir a luz que recebe – uma metáfora adequada para descrever a condição humana. O sol é feito de matéria diferente e tem o seu próprio brilho. “Assim acontecerá também com a ressurreição dos mortos”, diz Paulo. “Enterra-se um simples corpo físico e aparece depois um corpo espiritual”.

A ressurreição de Cristo é, evidentemente, um protótipo da ressurreição da alma humana. A Sua vitória sobre a morte ilustra o potencial de um crente: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda.” (1 Cor 15:23) Daqui depreende-se que a ressurreição de Cristo foi espiritual, e também assim deve ser a nossa. Paulo proclama esta noção quando compara e contrasta o “primeiro Adão” (uma “alma vivente”) com o “último Adão” (Cristo), que ele diz ser o espírito vivificante.



Além disso, Paulo afirma enfaticamente que a “a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”. Aqui ele cita as palavras de Jesus a Nicodemos. Lembremo-nos do contexto dessas palavras originais. Jesus diz a Nicodemos que ele deve nascer de novo – não da carne, mas do espírito. Afinal, qual é a mensagem de Cristo sobre a verdadeira vida? É a vida do corpo ou a vida do espírito?

Penso que isto dá luz ao “mistério” que Paulo fala nos versículos anteriores – que nem todos “dormirão” (isto é, morrem) mas serão transformados. Se esta transformação significa uma transformação ou renascimento espiritual, então tudo isto faz sentido, pois é algo que acontece àqueles que estão fisicamente vivos, mas espiritualmente mortos.

Claramente, Paulo não está a pregar uma ressurreição física de Jesus ou nossa; ele prega uma ressurreição espiritual para os crentes, pedindo-lhes que tenham fé, e conclui: “Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

Isto parece consistente com aquilo que Cristo nos diz: “as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (João 6:63).

Isto também se reflecte nas palavras de Bahá’u’lláh sobre o assunto, que partilhei no grupo de fiéis da igreja do Pastor Dan:

A natureza da alma após a morte nunca poderá ser descrita, não é conhecida, nem é permissível revelar todo o seu carácter aos olhos do homem… O mundo do além é tão diferente deste mundo, quanto este mundo é diferente daquele mundo da criança que ainda está no ventre materno. Quando a alma atinge a Presença de Deus, assumirá a forma que melhor convenha à sua imortalidade e seja digna da sua habitação celestial. (SEB, LXXXI)

Seria surpreendente ouvir que os meus amigos Cristãos concordam que não existe diferenças entre as palavras de Paulo e as palavras de Bahá’u’lláh? A alma permanece indescritível – uma essência espiritual, não física.

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Texto original: Won’t the Dead Rise Again? (bahaiteachings.org)
 
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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Respostas a Algumas Perguntas - Uma Introdução aos Ensinamentos Bahá'ís

O livro RESPOSTAS A ALGUMAS PERGUNTAS é geralmente utilizado para apresentar a Fé Bahá'í. Neste livro, 'Abdu'l-Bahá aborda - com uma linguagem clara e profunda - uma grande diversidade de temas espirituais, religiosos, filosóficos, sociais e científicos.

Nesta sessão é apresentada uma breve biografia de Laura Clifford Barney (que compilou as respostas que deram origem ao livro) e abordam-se os principais temas do livro.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

O Futuro da Nossa Eternidade

Por David Langness.


Ó FILHO DO ESPÍRITO!
Nobre eu te criei, mas tu tens-te rebaixado. Ergue-te, pois, para aquilo que foste criado. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #22)

O belíssimo conceito da nobreza humana surge em repetidas ocasiões nos ensinamentos Bahá’ís:

…todas as coisas, na sua mais íntima realidade, testemunham a revelação dos nomes e atributos de Deus dentro de si próprias. Cada uma, de acordo com a sua capacidade, mostra e expressa o conhecimento de Deus. Tão poderosa e universal é esta revelação, que envolveu todas as coisas, visíveis e invisíveis… O homem, a mais nobre e perfeita de todas as coisas criadas, superou-as a todas na intensidade desta revelação e é uma expressão plena da sua glória. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶109)

Ao contrário de algumas tradições e dogmas, os ensinamentos Bahá’ís não consideram os seres humanos como inerentemente pecadores, perversos ou imorais. Os ensinamentos Bahá’ís não dizem que o ser humano tenha caído em desgraça em tempos passados. E os Bahá’ís rejeitam conceitos como pecado original e culpa colectiva. Os Bahá’ís rejeitam categoricamente a ideia de que os seres humanos sejam naturalmente maldosos ou malignos.

Pelo contrário, tal como indicado nesta Palavra Oculta de Bahá’u’lláh, os Bahá’ís acreditam que Deus criou os humanos como criaturas nobres, inerentemente espirituais e com um enorme potencial de bondade.

Os ensinamentos Bahá'ís dizem que cada um de nós tem uma natureza dupla. Nesta natureza há uma tendência proveniente do mundo material, onde se afirmam os nossos instintos animais naturais dos nossos corpos, e as nossas origens como mamíferos. E existe uma outra tendência que vem do reino espiritual; com o seu desenvolvimento, podemos despertar o nosso potencial interior e os nossos instintos superiores – amor, felicidade eterna, bondade, paciência, esperança, fé, etc.

Necessitamos destes dois poderes para nos realizarmos neste mundo, dizem-nos as Escrituras Bahá’ís. E é óbvio que esta existência material pode influenciar negativamente o nosso carácter, permitindo uma predominância da nossa natureza inferior, e a supressão da natureza espiritual superior. A nossa natureza inferior sempre aspira aos prazeres materiais e aos confortos deste mundo; e a nossa natureza espiritual deseja os benefícios intangíveis e mais elevados do amor, do altruísmo, e da unidade com os outros. Os Bahá’ís acreditam que em cada pessoa se enfrentam constantemente estas duas forças. A ascendência da nossa natureza espiritual, diz-nos Bahá’u’lláh, define o nosso propósito aqui na terra:

Os Profetas e Eleitos foram todos incumbidos pelo Deus Uno e Verdadeiro, magnificada seja a Sua glória, de nutrir as árvores da existência humana com as águas vivificadoras da rectidão e da compreensão, para ali possa surgir o que Deus depositou no mais íntimo dos seus seres. Como bem pode ser observado, cada árvore produz um certo fruto, e uma árvore estéril só serve para o fogo. O objetivo desses Educadores, em tudo o que disseram e ensinaram, foi preservar a excelsa posição do homem. (Kitab-i-Aqdas, Perguntas e Respostas, #106)

Esta Palavra Oculta, ao contrastar a nobreza e o rebaixamento, resume o dilema humano. Se desenvolvemos o nosso lado espiritual, aproximamo-nos de Deus. Se vivemos apenas para os aspectos físicos do mundo, corremos o risco de atrofiar o nosso crescimento espiritual. Se desejamos apenas as coisas materiais, caímos na ganância, na crueldade, na injustiça – tudo produtos da nossa natureza inferior. Se vivemos para os objectivos mais elevados da vida, podemos gradualmente expor a nossa natureza divina, mostrando amor, misericórdia, verdade e justiça. Todas as qualidades nobres e bons hábitos pertencem à natureza espiritual do ser humano, e todas as nossas infelicidades, imperfeições, pecados e actos maldosos pertencem à nossa natureza material. Cada um de nós tem o poder, a liberdade de escolha e o de constante de decidir que caminho quer seguir.

Este conceito que é transversal aos ensinamentos Bahá’ís, reflecte-se nos ensinamentos centrais do Budismo sobre as Quatro Nobres Verdades, que circulam em torno da ideia de dukkha, ou sofrimento humano. Os ensinamentos Budistas, tal como os ensinamentos Bahá’ís, salientam que a existência humana implica sempre sofrimento; e que o único verdadeiro remédio para o inevitável sofrimento nesta vida material é o desenvolvimento da nobreza espiritual. Devido à constante instabilidade de toda a alegria material, Buda e Bahá’u’lláh dizem-nos que o caminho do esclarecimento envolve a ascensão em direcção ao nosso verdadeiro destino espiritual.

Este conselho espiritual profundo - que é apresentado por todas as religiões – sugere que devemos ter uma vida que eleve as nossas almas, em vez de nos rebaixarmos, focando-nos apenas na vida apenas material. Se a nossa natureza espiritual é dominante, podemos ascender à luz; se a nossa natureza material é dominante, se rejeitamos as nossas almas, se ignoramos os mensageiros de Deus e permitimos que os nossos desejos mais baixos nos conquistem, então podemos cair nas trevas.

O desenvolvimento da nossa natureza material tem uma data limite de validade; mas o desenvolvimento da nossa natureza espiritual não tem limite temporal. Podemos continuar a progredir, aprender e a crescer espiritualmente ao longo da eternidade – e as Escrituras Bahá’ís pedem-nos que esforcemos para conseguir um desenvolvimento espiritual interminável. Quando trabalhamos para aumentar a nossa sensibilidade espiritual, para desenvolver as nossas almas e alargar os nossos horizontes espirituais, promovemos a nossa existência eterna e investimos no futuro da nossa eternidade.

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Texto original: The Future of Our Forever (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Um Sopro do Espírito de Deus

Por David Langness.


Ó FILHO DA VISÃO MARAVILHOSA!
Insuflei em ti um sopro do Meu próprio Espírito, para que Me pudesses amar. Porque Me abandonaste e procuraste outro bem-amado que não Eu? 

Ó FILHO DO ESPÍRITO!
A Minha exigência sobre ti é grande; não pode ser esquecida. A Minha graça para ti é abundante; não pode ser velada. O Meu amor fez em ti o seu lar; não pode ser ocultado. A Minha luz está manifesta para ti; não se pode obscurecer. 

Ó FILHO DO HOMEM!
Sobre a árvore da glória radiante, coloquei os frutos selectos para ti; porque te afastaste e te contentaste com o que é menos bom? Regressa, pois, ao que é melhor para ti no reino do alto. (Baha’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #19, #20, #21)

O grande cientista Albert Einstein era frequentemente questionado, nas suas palestras públicas, sobre a existência de Deus. Para isso ele tinha uma resposta intrigante: “Se vejo uma torrada, sei que há uma torradeira algures”.

Com esta metáfora caseira, Einstein admitia que não podemos ver o nosso Criador, mas que toda a criação tem em si mesma um testemunho da realidade de Deus. Os Bahá’ís – de forma espiritual e científica - acreditam em Deus como uma Essência incognoscível:

Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser Divino, está imensamente exaltado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. Longe esteja da Sua glória que a língua humana celebre adequadamente o Seu louvor, ou que o coração humano compreenda o Seu insondável mistério. Ele está, e sempre esteve, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade eternamente oculto da vista dos homens. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶104)

E nestas três místicas Palavras Ocultas de Bahá’u’lláh ficamos a saber que a luz de Deus vive em cada ser humano; que cada um de nós tem, bem dentro de si, o amor, o espírito e a graça do Criador.

Esta maravilhosa declaração transmite uma série de mensagens poderosas. Bahá’u’lláh diz-nos nas Palavra Ocultas que o amor de Deus encheu todos os nossos seres; que Deus “colocou os frutos selectos” “sobre a árvore da glória radiante” para cada um de nós; que a maior exigência do Criador nos nossos corações “não pode ser esquecida”.

Talvez isso explique porque é que os seres humanos enquanto espécie sempre se sentiram atraídos por uma fé constante em algo que estava para lá do reino dos sentidos. Sabemos que a vasta maioria dos povos do mundo acredita num Ser Supremo, e apesar dos seus esforços, os cientistas ainda não perceberam porquê.

Estas três Palavras Ocultas dizem-nos porquê. Quando um artista cria uma escultura, uma pintura, uma canção ou um livro, o artista põe algo de si nessa obra de arte. Na grande arte, a essência do artista reflete-se na sua criação. Da mesma forma, lembra-nos Bahá’u’lláh, cada ser humano é uma obra de arte feita e insuflada com vida pelo Grande Artista:

O propósito de Deus ao criar o homem sempre foi, e sempre será, permitir-lhe conhecer o seu Criador e alcançar a Sua Presença. Deste propósito excelso, deste objectivo supremo, dão testemunho inequívoco todos os livros celestiais e todas as poderosas Escrituras divinamente reveladas. Quem tiver reconhecido a aurora da orientação divina e entrado na Sua santa corte, ter-se-á aproximado de Deus e alcançado a Sua Presença, uma Presença que é o verdadeiro Paraíso, e do qual as mais sublimes mansões celestiais são apenas um símbolo. (Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, XXIX)

Numa linguagem elevada e profundamente metafórica, Bahá’u’lláh diz-nos que aqueles que reconhecem “a aurora da orientação divina” – o Profeta de Deus – terá alcançado o verdadeiro paraíso da alma que estas três Palavras Ocultas referem. Apesar de sabermos que o Ser Supremo está para lá da nossa compreensão – no fundo, como pode uma pintura compreender o pintor – neste texto Bahá’u’lláh identifica os intermediários de Deus, os Manifestantes e Profetas que fundaram as grandes religiões, e pede-nos que nos voltemos para as Suas mensagens de esperança, fé e amor.

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Texto original: A Breath of God’s Spirit (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Encontrar contentamento na vida

Por David Langness.


Ó FILHO DA LUZ!
Esquece-te de tudo, menos de Mim, e comunga com o Meu espírito. Esta é a essência do Meu mandamento; portanto, volta-te para ele.

Ó FILHO DO HOMEM!
Contenta-te Comigo e não procures outro auxílio, pois nunca ninguém, salvo Eu, te será suficiente.

Ó FILHO DO ESPÍRITO!
Não Me peças o que não te desejamos; assim, contenta-te com o que decretámos para teu bem, pois isto é o que te beneficia, se com isso te contentares. (Bahá'u'lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #16, #17, #18)

Estas três Palavras Ocultas expressam o âmago dos conselhos de Deus para a humanidade.

Esquecer tudo salvo Deus, ficar satisfeito apenas com Deus, e comungar com o Seu espírito é o que Bahá’u’lláh nos pede. Esta advertência e conselho - tão antigo quanto a história e afirmado novamente nos ensinamentos Bahá’ís - pode trazer-nos paz, satisfação e felicidade. Pode levar-nos ao nosso próprio desejo íntimo e inescrutável de fusão com o eterno.

Tal como a maioria dos textos místicos nas Escrituras Bahá’ís, e como a maioria dos livros sagrados de todas as religiões, estes versículos não devem ser entendidos literalmente. Pelo contrário, eles falam numa forma poética, imaginativa e simbólica, chamando-nos para um nível mais elevado de entendimento e compreensão, apelando-nos a que tentemos captar o mistério da vida e nos esforcemos para conhecer o incognoscível. Apenas a linguagem do amor e da paixão podem expressar verdades tão profundamente. Os grandes poetas sabiam isto:

O verdadeiro amado é o teu princípio e o teu fim
Quando o encontrares,
não esperarás qualquer outra coisa. 
(Rumi)

Todas as fontes com o rio se fundem
E os rios com o oceano;
Os ventos, pelos ares, uns aos outros se unem
Com fragrante emoção;
Nada fica sozinho neste mundo;
Tudo, por fado antigo,
Entre si se mistura e se confunde:—
Porque não eu consigo?

Olha! As montanhas beijam o firmamento,
A onda, a onda enlaça;
Nenhuma flor-irmã tem valimento
Se o irmão não abraça;
A luz do Sol envolve a terra à roda,
Raios do luar beijam os mares: —
Mas toda esta ternura que me importa
Se tu não me beijares?
(Percy Bysshe Shelley, tradução de Herculano de Carvalho)

Os poetas falam de amor, os trovadores cantam o amor e os artistas tentam retratar o amor. Este instinto profundamente humano de unidade, contentamento e ligação leva-nos a passar as nossas vidas à procura dele. Todos temos este grande anseio do coração humano - não apenas pelo amor romântico, mas por uma fusão mais ampla e poderosa das nossas almas com o Criador.

Esse tema universal mostra que as formas superiores de arte tendem a concentrar-se na exploração do desejo primordial dos nossos corações pelo amor. Nessa grande arte - os sonetos de Shakespeare, a poesia mística de Rumi, Ibn Arabi e Hafiz, o melhor gospel e rock and roll e música tribal - o amor romântico torna-se uma metáfora, um símbolo do amor apaixonado entre a humanidade e o Divino.

E finalmente, o nosso destino colectivo chama-nos para esse encontro transcendente com o amor de Deus. Nas Palavras Ocultas de Bahá’u’lláh, este mesmo tema poético e místico está presente em vários momentos ao longo do livro. E no Livro da Certeza, Bahá’u’lláh insta-nos a olhar em frente, no decorrer das nossas vidas, para o nosso inevitável encontro com a realidade espiritual:

Ó meu irmão! Dai o passo do espírito, para que, rápido como um piscar de olhos, possais passar rapidamente pelos desertos do afastamento e da privação, e atinjas o Ridvan da reunião eterna, e com um folego comungar com os Espíritos celestiais. Pois com pés humanos nunca podereis esperar atravessar estas distâncias imensuráveis, nem atingir o vosso objectivo. Que a paz esteja sobre aquele a quem a luz guiou a toda a verdade, e que, em nome de Deus, se manteve no caminho da Sua causa, na praia do verdadeiro entendimento. (Baha’u’llah, The Kitab-i-Iqan, ¶44)

Os ensinamentos Bahá’ís dizem-nos que esta existência terrena nos prepara para uma vida eterna. Bahá’u’lláh diz-nos que se conseguimos encontrar contentamento e paz aqui, entraremos na próxima fase da nossa existência com consciência desenvolvida, espírito preparado e coração aberto:

A primeira vida, que pertence ao corpo elementar, acabará, conforme foi revelado por Deus: “Toda alma provará a morte.” Mas a segunda vida, que surge do conhecimento de Deus, não conhece morte alguma… Ó Meu irmão! Abandona os teus próprios desejos, volta a tua face para o teu Senhor, e não sigas os passos daqueles que tomam as suas inclinações corruptas como o seu deus, para que, talvez, encontres abrigo no âmago da existência, sob a sombra redentora d’Aquele que capacita todos os nomes e atributos. (Gems of Divine Mysteries, ¶65-¶66)

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Texto original: Finding Contentment in Life (www.bahaiteachings.org)

 
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.