sábado, 10 de abril de 2021

A Virgem Celestial: um Símbolo da Divindade das Mulheres

Por Kathy Roman.


Ao longo da história religiosa, Deus conferiu a condição de profeta revelando-Se aos Seus mensageiros divinos através de vários símbolos espirituais.

Moisés recebeu a Sua revelação através da sarça ardente. Mais tarde, Jesus viu o espírito de Deus descendo na forma de uma pomba que pousou n’Ele. Buda recebeu a Sua revelação quando estava em meditação profunda sob a árvore de Bodhi. O anjo Gabriel visitou Muhammad, revelando-Lhe o princípio do que se tornaria o Alcorão. Mais recentemente, Bahá'u'lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá'í, recebeu a Sua revelação da "Virgem Celestial" - um símbolo do princípio feminino divino e um símbolo importante da nova era mais feminina da humanidade, prometida pelos ensinamentos Bahá'ís.

Na Sua “Epístola do Templo”, Bahá’u’lláh descreve a Sua visão:

Enquanto submerso em aflições, ouvi a mais maravilhosa, a mais doce voz, chamando acima da Minha cabeça. Ao virar a Minha face, vi uma Virgem - a personificação da lembrança do nome do Meu Senhor – suspensa no ar perante Mim. Ela estava tão feliz na sua alma que o seu semblante brilhava com o adorno da complacência de Deus, e a sua face incandescia com o brilho do Todo-Misericordioso. 

Entre a Terra e o Céu, ela fazia um chamamento que cativava os corações e as mentes dos homens. Ela passou a todo o Meu ser as boas-novas que regozijaram a Minha alma e as almas dos honrados servos de Deus. Apontando para a Minha cabeça, dirigiu-se a todos os que estão no céu e todos os que estão na terra, dizendo: "Por Deus! Este é o mais amado dos mundos, mas ainda não o compreendeis! Ele é a Beleza de Deus entre vós, e o poder da Sua soberania entre vós, se apenas o entendessem.“ (Bahá'u'lláh, Summons of the Lord of Hosts [Tablet of the Temple], ¶6)

Essas revelações espirituais, quando localizadas ao longo do tempo, surgem sequencialmente num padrão claro de ascendência. A sarça ardente referia-se ao reino vegetal, Cristo ao reino animal e Muhammad representava o reino mortal. Finalmente, a Virgem Celestial representa o culminar da condição humana no feminino divino.

Este simbolismo predominante exemplifica a posição exaltada das mulheres na sua forma mais elevada – como intermediária sagrada entre o Criador e o Mensageiro da revelação de Deus. Com esta poderosa afirmação da divindade, entramos numa nova dispensação que eleva e elogia as qualidades femininas em vez de as classificar como secundárias.

Na revelação Bahá’í, as mulheres ocupam o seu lugar de direito ao lado dos homens e também ajudarão a construir uma nova era de esclarecimento, tal como 'Abdu'l-Bahá, filho e sucessor de Bahá'u'lláh, repetidamente disse em várias palestras e textos:

O mundo no passado foi governado pela força e o homem tem dominado a mulher devido às suas qualidades de maior força e agressividade, tanto do corpo como da mente. Mas o equilíbrio já está a mudar; a força está a perder o seu domínio, e o estado de alerta mental, a intuição e as qualidades espirituais de amor e serviço, em que a mulher é forte, estão a ganhar ascendência. Consequentemente, a nova era será uma época menos masculina e mais permeada com os ideais femininos, ou, para falar mais precisamente, será uma época em que os elementos masculinos e femininos da civilização estarão mais equilibrados. 

A mulher é, de facto, de maior importância para a família. Ela tem o maior fardo e mais trabalho. Vejam os mundos vegetal e animal. A palmeira que tem frutos é a árvore mais valorizada pelo criador de tâmaras. O árabe sabe que para uma longa jornada a égua tem o maior fôlego. Devido à sua maior força e ferocidade, o caçador teme mais a leoa do que o leão.

A mulher tem maior coragem moral do que o homem; ela também tem dons especiais que lhe permitem dominar em momentos de perigo e crise.

Aquela Virgem Celestial, também conhecida nas escrituras Bahá'ís como a "donzela de olhos negros", representa uma metáfora feminina que personifica a verdade e realidade espiritual de Bahá’u’lláh - e expressa o início de uma jornada fascinante para entender aquilo que Bahá’u’lláh designou como chamou as mulheres de “brilho radiante” e a posição exaltada das mulheres.

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Texto original: The Maid of Heaven: A Symbol of the Divinity of Women (www.bahaiteachings.org)


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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

O Maior Milagre da Ressurreição

Por Tom Tai-Seale.


Para muitos Cristãos que foram educados com a ideia da ressurreição como verdade literal, uma interpretação simbólica pode parecer difícil de aceitar. Mas as explicações alegóricas não são novas. Elas são tão antigas quanto o apologista cristão do segundo século, Orígenes e a sua obra De Principiis. Revendo o seu trabalho, um investigador cristão escreveu:

Orígenes estava convencido que os símbolos da escatologia cristã original - céu, inferno, ressurreição, a Segunda Vinda de Cristo - não deveriam ser rejeitados apenas porque os crentes literalistas os entendiam de uma forma crua e prosaica ... (Ele) criticava a noção de que a ressurreição do corpo significa uma ressuscitação literal desta estrutura física actual. (Chadwick, p. 106)

Muitos investigadores modernos concordam. Um bispo da Igreja de Inglaterra escreveu sobre a ressurreição:

Dos resumos que apresentámos, é difícil evitar a conclusão de que estamos no domínio do romance religioso, e não da história religiosa. Os primeiros cristãos estavam convencidos de que o Espírito do Senhor Jesus estava com eles. Para sua grande alegria, a Sua paz repousou sobre eles. A Sua orientação contínua era a sua crença fundamental. Eles receberam essa orientação quando tiveram de ser tomadas decisões críticas. Sentiram que o próprio Senhor estava presente nas suas reuniões e, particularmente, na "partilha o pão". Como é que Ele estava assim presente e activo? Ele obviamente devia estar vivo. Mas, se estava vivo, Ele devia ter ressuscitado dos mortos. As histórias do túmulo vazio e das aparições após a ressurreição são tentativas para explicar como Ele ressuscitou para a vida eterna; tentativas para fundamentar a certeza espiritual através de factos materiais. A convicção religiosa deu início à história: a actividade da fé, com uma seriedade impressionante, acrescentou detalhes. (The Rise of Christianity, p. 170, citado em Ferraby’s All Things Made New, p. 178.)

Um outro bispo, o Dr. David Jenkins de Durham, concorda. Para ele, a explicação racional do túmulo vazio significa que os discípulos roubaram o corpo. Michael Goulder, Professor de Teologia na Universidade de Birmingham, escreve sobre a experiência de ressurreição de Pedro:

Na manhã do domingo de Páscoa, Pedro chegou ao mesmo tipo de resolução, uma experiência de conversão em forma de visão. Surgiu-lhe a incrível "verdade" para resolver todos os seus problemas: Jesus afinal não estava morto; tinha ressuscitou; tinha sido levado para a direita de Deus, no céu; e em breve voltaria para estabelecer o seu reino poderoso. A experiência de Pedro foi imediatamente contada aos outros, e tão grande é o poder da histeria numa pequena comunidade que, à noite, à luz de velas, com o medo da prisão ainda bem presente e com a esperança da resolução nascendo também neles, parecia que o Senhor entrava pela porta trancada, vinha até eles e ia-se novamente embora... Para os primeiros cristãos, essas visões de conversão pareciam claramente ser milagres. Jesus estava vivo, pois eles tinham-no visto; Deus justificava Jesus como seu Filho. As primeiras tradições eram todas na forma: "Ele foi visto ..." Meio século depois, Lucas e João adicionaram histórias que enfatizam a sua materialidade: como os discípulos comeram com ele e os incrédulos tocaram nele. (The Myth of God Incarnate, edited by John Hick. pp. 59-60)

Outro académico Cristão, James Mackey, concorda e apresenta uma explicação sobre o significado da pregação da ressurreição:

Assim, o papel da pregação da ressurreição, o papel das histórias sobre a ressurreição é registar - em termos "mitológicos" - esse facto conhecido da pregação e manter a fé dos seus seguidores. (Jesus the Man and the Myth, SCM Press, 1979, p.89)

Estes entendimentos sofisticados e metafóricos sobre a ressurreição estão claramente dentro da faixa do pensamento cristão moderno aceite sobre o assunto. Sabemos agora que a ressurreição foi e é um evento psicológico. A ressurreição física, como se acreditava popularmente, nunca aconteceu.

Isto leva-nos a esta importante conclusão - a ressurreição psicológica representa verdadeiramente o maior milagre, e é isso que opera no Cristianismo desde os dias da crucificação de Jesus. Isto torna o encontro existencial com a realidade espiritual de Jesus, o Senhor vivo, o facto mais importante da ressurreição - não é o encontro um corpo físico. Este milagre é maior porque é imanente, eterno e universal; pode acontecer com todos nós e não requer o corpo físico de Jesus.

Na verdade, como já puderam ler noutros artigos, os Bahá'ís acreditam que a ressurreição se refere à fé que os discípulos descobriram alguns dias após a morte de Jesus. Todo o Cristianismo depende desta fé, que nos dá a consciência de que o Senhor não morreu:

Quanto à luz que testemunhas: não é uma luz terrestre (um fenómeno captado pelos sentidos); pelo contrário, é uma luz celestial. Não pode ser visto pelo olhar; pelo contrário, é percebida pelo percepção.
Quanto à ressurreição do corpo de Cristo três dias após a Sua partida: isto significa que os ensinamentos divinos e a religião espiritual de Sua Santidade Cristo, que constituem o Seu corpo espiritual, que está vivo e é perpétuo para sempre. Por “três dias” da Sua morte pretende-se dizer que após o grande martírio, a percepção dos ensinamentos divinos e a difusão da lei espiritual abrandaram devido à crucificação de Cristo, pois os discípulos ficaram um pouco perturbados com a violência dos testes divinos. Mas quando eles se tornaram firmes, aquele espírito divino ressuscitou e aquele corpo – que significa a palavra divina – ergueu-se. (‘Abdu’l-Bahá, Tablets of ‘Abdu’l-Bahá v1, p. 192)

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Texto Original: The Greatest Miracle of the Resurrection (www.bahaiteachings.org)


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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 27 de março de 2021

O que disse Jesus sobre a Ressurreição?

Por Tom Tai-Seale.


Sabe tu, em verdade, que o propósito subjacente a todos estes termos simbólicos e alusões abstrusas que emanam da Causa sagrada dos Reveladores de Deus tem sido testar e provar os povos do mundo, para que a terra dos corações puros e iluminados se distinga do solo árido e perecível. Desde os tempos imemoriais esse tem sido o caminho de Deus entre as Suas criaturas e disto dão testemunho os registos dos livros sagrados. (Kitab-i-Iqan, ¶53)

Com estas palavras de Bahá’u’lláh em mente, vamos analisar o que o próprio Jesus disse sobre a ressurreição.

Em Marcos (12:18ss), Jesus disse aos saduceus que não acreditavam na ressurreição, que Abraão, Isaac e Jacob ainda estavam vivos no tempo de Moisés. Ele explicou que - porque Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos - quando Deus se identificou a Moisés como o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, isso significava que essas almas ainda estavam vivas. Daqui depreendemos que, para Jesus a palavra “ressurreição” refere-se à vida no mundo vindouro.

Em João (11:25), Jesus diz às irmãs de Lázaro que Ele é a ressurreição. É óbvio que Jesus ainda estava vivo; então o que podia significar isso? Talvez Jesus quisesse dizer que as pessoas podiam encontrar vida n’Ele; e/ou que Ele tinha a mesma identidade espiritual dos Profetas do passado e assim eles ressuscitavam n’Ele. Em qualquer dos casos, as palavras de Jesus sobre ressurreição nada tinham a ver com mortos que voltavam a viver.

Jesus também falou sobre o regresso do Filho do Homem (por exemplo, em Mateus 24). Seguindo a lógica anterior, esse novo surgimento do Filho do Homem também poderia ser considerado uma ressurreição, pois cada um deve ser a mesma coisa na sua essência; e cada um nascido da única substância de Deus.

Isso criou um enigma para os primeiros teólogos e clérigos cristãos. Depois de criar o mito da ressurreição física de Jesus, os criadores de mitos tiveram de deslindar uma forma de levar o Seu corpo de regresso ao céu.

A trabalho de base para isso já tinha sido iniciado na época em que as escrituras do Novo Testamento começaram a desenvolver-se. Acreditava-se que Elias tinha subido ao céu numa carruagem de fogo e um redemoinho (2 Reis 2:11) e a tradição rabínica dizia que três Profetas subiram vivos ao céu: Enoque, Moisés e Elias. Mais ou menos na mesma época em que os evangelhos estavam a ser escritos e transcritos, Claúdio Josefo também escreveu que na morte de Moisés: “uma nuvem apareceu de repente sobre ele e ele desapareceu num certo vale, embora tenha escrito nos livros sagrados que morreu, o que foi feito por medo, para que eles não se aventurassem a dizer que devido à sua extraordinária virtude ele foi até Deus.” Podemos ver aqui que o precedente literário tornou a ascensão física ao céu uma possibilidade naquela época, e é claro que as nuvens sempre serviram como um bom símbolo para qualquer coisa misteriosa.

Assim, os líderes da Cristandade determinaram que Jesus deveria ter subido aos céus numa nuvem. Esta ideia poderia ter funcionado numa época em que as pessoas acreditavam num céu físico – mas não funciona agora, porque sabemos que não existe um céu físico. Se existisse, poderíamos ver os seus habitantes com um telescópio? Também surgem outras questões quando consideramos a ressurreição como sendo física e depois se pretende que os corpos sejam enviados para o céu. Os corpos físicos têm dificuldade para respirar enquanto sobem para a estratosfera.

Estes problemas com interpretações literais na religião levam-nos a questionar o nosso nível de entendimento espiritual. Tal como Bahá’u’lláh escreve no Livro da Certeza, os Profetas e Mensageiros de Deus esperam que vejamos mais do que aquilo que é físico, material e óbvio. Eles esperam que vejamos uma realidade mais espiritual e mística; ver além daquilo que os nossos cinco sentidos podem perceber; ver com os olhos do espírito; alimentar as nossas almas numa “terra de corações puros e iluminados”.

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Texto Original: What Jesus Said About the Resurrection (www.bahaiteachings.org)


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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Explicar o Festival de Naw-Rúz

Por Christopher Buck.


O Festival de Naw-Rúz, um dos cinco festivais Bahá’ís anuais, marca o início do ano Bahá’í, no primeiro dia da primavera (no hemisfério norte).

Em 21 de Março de 2010, as Nações Unidas assinalaram o primeiro “Dia Internacional de Nowruz” (“Novo Dia”, em persa), um antigo festival de primavera de origem persa. Além disso, o Dia de Ano Novo do Zoroastrianismo, Naw-Rúz é comemorado há mais de 3000 anos, e é celebrado hoje por mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo como o início do ano novo.

O Naw-Rúz pode ser sagrado ou secular, dependendo do contexto. Para os Bahá’ís, o Naw-Rúz é sagrado, e tem consigo o simbolismo da renovação espiritual.

Sendo o primeiro dia do Ano Novo Bahá’í, o Naw-Rúz coincide com o equinócio da primavera no Hemisfério Norte, que normalmente ocorre em 21 de Março. No entanto, uma vez que Bahá’u’lláh ordenou que este festival fosse celebrado em qualquer dia em que o sol passa para a constelação de Áries - ou seja, o equinócio da primavera – o Naw-Rúz pode ocorrer em 19, 20, 21 ou 22 de Março, dependendo da hora exacta do equinócio.

As comunidades Bahá’ís costumam celebrar o Naw-Rúz com encontros que combinam momentos devocionais de oração e momentos de animada confraternização. O Guardião da Fé Bahá’í, Shoghi Effendi, disse "o Naw-Rúz é nosso Ano Novo, uma festa de hospitalidade e alegria". (Directives from the Guardian)

Os Bahá’ís de origem iraniana podem seguir algumas tradições associadas ao antigo festival persa, mas essas tradições culturais são distintas da prática religiosa. Para aumentar a alegria festiva, o Naw-Rúz, também é considerado o momento ideal para anúncios de acontecimentos importantes.

O Bab, o precursor e arauto de Bahá’u’lláh, criou um calendário - chamado Badi (que significa "Maravilhoso" e "Novo"). Consiste em 19 meses de 19 dias cada, com quatro dias intercalares (cinco em anos bissextos) para completar o ano solar. O único festival religioso instituído pelo Bab foi o Naw-Rúz. O Seu calendário assinala o primeiro dia do ano como Naw-Rúz, que o Báb especificamente destacou em homenagem a "Aquele que Deus tornará manifesto", cujo advento o Báb predisse:

Deus designou aquele mês como mês de Bahá, significando que nele estão o esplendor e a glória de todos os meses, e Ele escolheu-o para Aquele que Deus tornará manifesto. (O Báb, Persa Bayan 5: 3; tradução provisória de Saiedi, Gate of the Heart)

Porque este dia foi escolhido "para Aquele que Deus tornará manifesto", os Bahá’ís vêem o Naw-Rúz como profundamente simbólico. A sua celebração entre os seguidores do Báb apontava para aquela figura messiânica; e a missão do Báb era preparar o mundo para o advento iminente de Bahá’u’lláh. O Báb descreveu o Naw-Rúz como o Dia de Deus, no qual actos bons realizados nesse dia receberiam uma recompensa como se tivessem sido que todos os actos como se fossem realizados durante um ano inteiro.

Bahá’u’lláh manteve e adaptou várias das principais leis do Báb para serem observadas pelos Bahá'ís, decretando formalmente o Naw-Rúz como um festival para aqueles que observaram o período do jejum Bahá'í de 19 dias que precede o Naw-Rúz:

Ó Pena do Altíssimo! Diz: Ó povos do mundo! Ordenamos-vos jejuar durante um breve período e, no final, designámos para vós o Naw-Ruz como um festival. Assim, o Sol da Palavra brilhou sobre o horizonte do Livro, conforme decretado por Aquele que é o Senhor do princípio e do fim. (Bahá’u’lláh, The Most Holy Book)

Ao contrário dos outros dias sagrados Bahá’ís, que comemoram eventos importantes da história Bahá’í, o Naw-Rúz tem um significado religioso principalmente devido ao seu simbolismo de renovação. Sendo uma língua indo-europeia, o persa tem uma relação distante com o inglês, o que explica por que a palavra "naw" (pronuncia-se "nou") em persa é semelhante à palavra inglesa "new" (“novo”). Dessa forma, o Naw-Rúz não apenas anuncia o advento da primavera, mas também simboliza uma "primavera espiritual". A nível pessoal, o Festival de Naw-Rúz é um momento de renovação. Por ocasião do Naw-Ruz em 1906, ‘Abdu'l-Bahá, o sucessor de Bahá’u’lláh, escreveu aos Bahá’ís americanos dizendo, em parte:

É Ano Novo ... agora é o início de um ciclo de Realidade, um Novo Ciclo, uma Nova Era, um Novo Século, um Novo Tempo e um Novo Ano. ... Desejo que esta bênção apareça e se manifeste nos rostos e características dos crentes, para que eles também se tornem um novo povo, e ... possam fazer do mundo um novo mundo, a fim de que ... a espada seja transformada num ramo de oliveira; a centelha do ódio se torne a chama do amor de Deus ... todas as raças sejam uma só raça; e todos os hinos nacionais harmonizados numa única melodia. ('Abdu'l-Bahá, Tablets of 'Abdu'l-Bahá)

Desta forma, este antigo dia sagrado do Zoroastrismo e festival de primavera persa foi transformado num dia sagrado Bahá'í, que tem, como seu propósito incentivador, a criação de um novo mundo, no qual uma nova era de paz e prosperidade possa ser alcançada através dos princípios Bahá’ís universais da unidade na diversidade, proferidos por Bahá’u’lláh em 1890, ao receber a visita do orientalista de Cambridge Edward G. Browne:

Que todas as nações se tornem uma na fé e todos os homens sejam irmãos; que os laços de afecto e de unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos, que a diversidade de religião cesse e as diferenças entre raças sejam anuladas – que mal há nisso?... Porém, assim será; estes conflitos infrutíferos, estas guerras ruinosas passarão, e a "Grande Paz" virá. (The Proclamation of Baha’u’llah)

Os Bahá'ís vêem este "Novo Dia" como tendo transformado o equinócio da primavera numa celebração universal da unidade da humanidade.

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Texto original: The Baha’i Festival of Naw-Ruz, Explained (www.bahaiteachings.org)


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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 13 de março de 2021

O que fazer quando a nossa democracia vacila?

Por V. M. Gopaul.

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Hoje, podemos sentir as pressões de conflitos irrompendo por todos os lados. Como podemos impedir que as forças da corrupção, da injustiça e da desunião destruam a nossa democracia?

Embora reconheçam que a democracia não é necessariamente um sistema ideal, as Escrituras Bahá’ís elogiam-na fortemente como sistema de governação, afirmando: 

Sob um governo autocrático, as opiniões dos homens não são livres e o desenvolvimento é sufocado, enquanto que na democracia, porque o pensamento e o discurso não são reprimidos, testemunha-se o maior progresso. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 197.)

Também afirmam que a democracia “será capaz de a concretizar [a paz mundial] e o estandarte da concórdia internacional será desfraldado.

Durante anos, não participei em eleições. Olhando para trás, eu não acompanhava as questões cívicas a sério. Além disso, a apatia pode ter contribuído para o não cumprimento do meu dever cívico. Vivo no Canadá e, na última década, prestei muita atenção às políticas e ao rumo que gostaria que o país seguisse. E estando ciente do princípio Bahá’í de examinar o carácter de um candidato, e não considerar a política partidária, agora participo das eleições nacionais, provinciais e municipais.

A democracia como sistema de governação apareceu pela primeira vez no século V a.C. nas cidades-estado gregas, especialmente em Atenas; significa "governo do povo", uma ideia que contrasta com o governo da aristocracia. A democracia expandiu-se após a Segunda Guerra Mundial. Em 1950, havia apenas um punhado de países democráticos, mas em 2007 existiam 123 países com democracias eleitorais. Embora a democracia liberal tenha começado nos países ocidentais, ela tem-se espalhado pelo mundo. Hoje, a democracia está profundamente enraizada tanto nas ilhas Maurício, onde nasci, como no Canadá, onde moro.

Hoje, as eleições livres e justas tornaram-se a base da vida moderna - tanto que, muitas vezes as consideramos garantidas. Embora nossas democracias estejam longe de ser perfeitas, e a injustiça e a corrupção ainda prevaleçam em muitos sistemas eleitorais, há um foco maior nos cidadãos que participam activamente das escolhas para o seu país, protegendo os direitos humanos e tornando esses direitos iguais para todos.

Mas a democracia é bem-sucedida através do funcionamento correcto das instituições, como o sistema judicial, a polícia e os direitos humanos - como a liberdade de expressão, igualdade racial e de género, liberdade de religião, de casamento, de educação e outras. Esses edifícios da modernidade são cruciais e a sua relevância não pode ser subestimada. Os activistas sociais em todo o mundo têm dedicado as suas vidas e os seus recursos à preservação da integridade desses pilares.

Os alarmes soam quando os políticos tentam destruir essas instituições para ganhar, ou manter, o poder. Algumas pessoas declaram guerra aos males da sociedade prometendo proteger os direitos dos trabalhadores, cobrar impostos às grandes empresas, garantir a segurança ou ajudar os pobres - mas muitas vezes, depois de obter a simpatia da maioria, surgem abusos. Segundo a Freedom House, “a partir de 2005, houve onze anos consecutivos em que os declínios nos direitos políticos e liberdades civis em todo o mundo superaram as melhorias, à medida que forças políticas populistas e nacionalistas ganharam terreno em toda a parte”.

Temos de reconhecer que as instituições sozinhas não podem construir democracias. São os valores fortes gravados na consciência das pessoas que fazem a verdadeira democracia acontecer.

O que protege a integridade destas instituições são os valores consagrados nas constituições de cada país. A lei fundamental de cada país é uma construção única que reflecte rumo nacional, histórico e cultural de cada país. Mas, de uma forma geral, as pessoas de todos os países têm valores e desejos comuns para si e para as suas famílias.

O sucesso da modernidade baseia-se em certos conceitos, como o respeito pelo Estado de Direito e pelos processos institucionais. Bahá’u’lláh, o fundador e profeta da Fé Bahá’í, escreveu a carta régia para instituições administrativas que Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, descreveu como "instituições necessárias apenas através das quais a integridade e unidade de Sua fé pode ser salvaguardada.”

Bahá’u’lláh decretou que os membros destas instituições fossem eleitos democraticamente e definiu muitas regras e directrizes rigorosas sobre como deveriam servir os assuntos de uma comunidade. Desta forma, a comunidade mais ampla pode vir a confiar e contar com as suas instituições para proteger os seus interesses, sabendo que as instituições são guiadas por valores espirituais. Então, afirmou Ele, as pessoas deveriam ter uma atitude de “lealdade, honestidade e veracidade” para com essas instituições.

Quando se estabelece a confiança nas autoridades, os resultados - sejam eleitorais ou judiciais - são respeitados e todos acatam as decisões, mesmo que parte da população não concorde. Esse tipo de respeito mostra a maturidade de um país. Apesar de antigamente as disputas pelo poder terem provocado guerras longas e sangrentas, estamos a começar a encontrar maneiras de resolver os conflitos. Apesar de estar longe de ser perfeito, isto é um sinal de uma nova consciência.

A Fé Bahá'í enfatiza que o funcionamento adequado das instituições, seja a nível local ou global, é essencial para alcançar o nosso glorioso futuro colectivo. As escrituras Bahá'ís afirmam que:

A humanidade deve manter-se no estado de companheirismo e amor, seguindo as instituições de Deus e afastando-se dos impulsos satânicos, pois as dádivas divinas trazem unidade e acordo, enquanto as tendências satânicas induzem ao ódio e à guerra. (‘Abdu’l-Bahá, Bahá’í World Faith, p.233)

Os “impulsos satânicos” referidos nesta frase referem-se aos desejos egoístas e oportunistas das pessoas que frequentemente levam ao sofrimento de outros.

Para fazer o meu papel, salvar o mundo dos oportunistas e defender o ideal de Bahá'u'lláh de "lealdade, honestidade e veracidade", fiz duas coisas: acabei com a minha apatia e votei no candidato que acreditava ser o melhor apto para o cargo. Nos últimos cinco anos, votei em todas as eleições municipais, provinciais e federais. Não pertenço a nenhum partido político; não voto em candidatos devido aos seus partidos políticos, mas sim devido ao seu carácter.

Quando se trata da unidade da humanidade, é essencial construir as instituições certas. Inclusão, harmonia, justiça e prosperidade espalhar-se-ão lenta, mas inevitavelmente, pelo mundo.

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Texto original: What Do We Do When Our Democracy Falters? (www.bahaiteachings.org)


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Gopaul é especialista em software e bases de dados, tendo escrito vários livros para profissionais de TI. É casado, pai de duas crianças, e vive no Canadá. Para mais informação ver: www.vmgopaul.com.
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sábado, 6 de março de 2021

Sacrifício e Resurreição

Por Maya Bohnhoff.


Um dos temas mais relevantes quando conheci a Fé Bahá’í relacionava-se com o que Cristo ensinara e, consequentemente, o que poderia ser considerado como uma crença Cristã nuclear ou fundamental. Durante uma sessão do “Cult Night”, o Pastor Dan levantou a questão com que eu me tinha confrontado na minha investigação.

O Dan perguntou: “Os discípulos transmitiram, ou não, uma mensagem sobre a expiação pelo sangue e sobre a ressurreição?”

No Evangelho de Mateus (28: 16,20) lemos exactamente aquilo que os discípulos ensinaram às suas audiências – especificamente, “ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei”. O Evangelho diz apenas que os novos crentes devem amar Deus, acreditar n’Aquele que Ele enviou, obedecer aos Seus mandamentos – uma mensagem tão simples que até uma criança pode compreender.

O registo do trabalho missionário dos primeiros discípulos confirma isto. Em Actos 16:30-32, quando lhes é perguntado como pode ser salvo, os discípulos respondem ao carcereiro que ele deve “acreditar no Senhor Jesus Cristo”. E o versículo prossegue: “pregaram a palavra de Deus a ele”.

As escrituras dizem-nos repetidamente aquilo que os discípulos de Cristo ensinavam. Claro que falariam do sacrifício e ressurreição de Jesus. Faziam isto, segundo Pedro, “para que a vossa fé e esperança possa estar em Deus”.

Mas vejamos as implicações da salvação individual:

Assim, já que tendes a vossa vida purificada pela obediência à verdade que leva ao amor fraternal não fingido, amai uns aos outros de todo coração…. E essa é a palavra que vos foi evangelizada… Portanto, deixando toda maldade, todo engano, fingimento, inveja e toda difamação, desejai o puro leite espiritual, como bebés recém-nascidos, a fim de crescerdes por meio dele para a salvação… (1 Pedro 1: 22-25 e 2:1-3)

O crente purifica a sua alma ao seguir a verdade. Além disso, ele nasce de novo… através da palavra de Deus. E aqui, Pedro apresenta-nos uma metáfora para a Palavra – como leite para um recém-nascido. Os recém-nascidos não podem viver sem o leite das mães, e assim esta metáfora diz-nos que a alma humana não pode nascer de novo sem a palavra de Deus, e não pode viver sem ela. Sobre isto, as escrituras Bahá’ís dizem-nos:

… no reino espiritual da inteligência e do idealismo deve existir um centro de iluminação, e esse centro é a estrela eterna e sempre brilhante, a Palavra de Deus. As suas luzes são as luzes da realidade que brilham sobre a humanidade, iluminando o reino do pensamento e da moral, atribuindo dádivas do mundo divino ao homem. Estas luzes são o motivo da educação das almas e a fonte de iluminação dos corações, propagando com brilho resplandecente a mensagem das boas-novas do reino de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, Baha’i World Faith, p. 254)

Quando os discípulos falavam do sacrifício de Cristo e do derramamento do Seu precioso sangue, não era o Seu sangue, mas o “leite puro” da Sua palavra que ofereciam àqueles com quem falavam.

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Texto original: Sacrifice and Resurrection (www.bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.