terça-feira, 2 de junho de 2020

A Virgem Celestial



Uma perspectiva Bahá'í sobre o fenómeno de Fátima.
Tertúlia organizada pela Comunidade Bahá'í de Portimão.

sábado, 30 de maio de 2020

Pentecostes e o Espírito da Verdade

Por Maya Bohnhoff.


“A maioria dos Cristãos acredita que a profecia da vinda do Espírito da Verdade cumpriu-se quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos fazendo com até pessoas de terras diferentes compreendessem as suas palavras. Porque é que os Bahá'ís não acreditam que este evento cumpriu essa profecia?”

Esta questão surgiu durante um dos encontros Cult Nights realizador pelo pastor Dan, na nossa cidade. E porque eu tinha reflectido sobre este tema muito profundamente durante a minha busca espiritual, tentei responder a esta questão e explicar a profecia de Cristo sobre o Espírito da Verdade.

Eu cresci e fui educada a pensar como o pastor Dan - que o evento em que o Espírito Santo permitiu que os discípulos ensinassem pessoas de diferentes nações cumpriu as palavras de Cristo sobre a vinda do Espírito da Verdade. No entanto, quando me sentei e comparei os dois textos das Escrituras, o meu entendimento foi desafiado.

Este é o texto da profecia de Cristo:
Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da Verdade, ele guiar-vos-á a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele glorificar-se-á, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. (João 16:12-15)
Para contextualizar, Cristo (em João 16:7) identifica o Espírito da Verdade como um Consolador ou um Conselheiro – um título também usado em Isaías 9:6:
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.
Os teólogos Cristãos explicam que isto é uma profecia sobre a segunda vinda de Cristo e salientam que se refere a uma Pessoa e não a um espírito desencarnado. Cristo - o “Conselheiro” - refere-se ao Espírito da Verdade como “outro Consolador”.

Cristo profetiza que este Espírito da Verdade realizará algumas coisas:

  • Guia os crentes a toda a verdade
  • Fala em nome de Deus
  • Mostra-lhe eventos futuros (profecias)
  • Glorifica Cristo
  • Mostra os ensinamentos de Cristo aos crentes, explicando aquelas coisas que Ele disse que ainda não podiam suportar

Será que a descida do Espírito Santo no Pentecostes condiz com estes pontos acima mencionados? Vejamos um excerto do texto:
De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. (Actos 2:2-6)
O profeta Isaías, numa obra de Rafael
Isto não descreve qualquer das coisas que Cristo disse que o Espírito da Verdade faria, nem os discípulos relacionaram isto com essa profecia. Não existe aqui uma palavra profética, nem uma revelação de uma verdade plena.

Além disso, se o Espírito da Verdade é o Conselheiro referido em Isaías, Ele deve manifestar-se no segundo advento de Cristo. Claramente, a manifestação do Espírito Santo no Pentecostes nada teve a ver com governos, reinos, profecias ou uma outra revelação dos ensinamentos de Cristo.

Os escritos do Apóstolo Paulo deixam claro que ele não sentiu que os discípulos tivessem recebido qualquer dose de conhecimento mais vasto:
Porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado... Porque, agora, vemos como num espelho, obscuramente; então, veremos face a face. (1Coríntios 13:9-12)
Ele diz isto muito depois dos acontecimentos do Pentecostes. Claramente, Paulo não sentiu que lhes tivesse sido mostrada a verdade ou que tivessem visto as coisas que iriam acontecer.

Consideremos agora como os ensinamentos de Bahá’u’lláh, conforme exposto pelo Seu filho ‘Abdu’l-Bahá, abordam os aspectos essenciais da profecia de Cristo:
Surgiu o século em que o Espírito da Verdade pode revelar estas verdades à humanidade, proclamar o próprio Verbo, estabelecer as verdadeiras fundações da Cristandade e libertar as nações e os povos do cativeiro dos cerimoniais e imitações. A causa da discórdia, preconceito e animosidade será retirada e a base do amor e da amizade será estabelecida. Assim, todos vós deveis esforçar-vos de alma e coração para que a inimizade possa desaparecer totalmente e que a contenda e o ódio se desvaneçam completamente do mundo humano. Deveis escutar a advertência do Espírito da Verdade. Deveis seguir os exemplos e as pegadas de Jesus Cristo. Lede os Evangelhos… Vede como era Jesus Cristo, que até na cruz Ele orou pelos Seus opressores. Deveis seguir o Seu exemplo. (Promulgation of Universal Peace, p. 41)
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Texto original: Pentecost and the Spirit of Truth (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A Declaração do Báb: como uma Nova Revelação regenera a Humanidade


Os ensinamentos Bahá’ís dizem que quando surge uma nova religião, esta muda e regenera todo o mundo.
Em resumo, o mundo moral e ético e do mundo da regeneração espiritual estão dependentes daquele centro celestial de iluminação. Este irradia a luz da religião, concede a vida do espírito, imbui a humanidade com virtudes modelo e confere esplendores eternos. Este Sol da Realidade, este centro de fulgor, é o profeta ou Manifestante de Deus. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 94)
A Fé Bahá’í surgiu devido a dois profetas de Deus: Bahá’u’lláh, o fundador, e o Báb, o arauto que anunciou a nova revelação na primavera de 1844. O Báb – que em português significa Porta – afirmou que vinha abrir a porta para “Aquele que Deus tornará manifesto”, um mensageiro divino que viria unir o mundo e os seus povos.

A revelação do Báb durou seis anos e seis semanas. Em 9 de Julho de 1850, o Báb foi morto por um pelotão de fuzilamento, segundo instruções do governo e do clero dominante que temiam o poder tremendo da Sua mensagem, o crescimento rápido da sua Fé e a devoção demonstrada por dezenas de milhares de seguidores.

Anualmente, neste dia 23 de Maio, os Bahá'ís celebram a Declaração do Báb. Este é o pretexto para vermos com um pouco mais de detalhe quem foi o Báb.

Siyyid Ali Muhammad nasceu em Shiraz, na Pérsia em Outubro de 1819. Nascido numa família de comerciantes, educado por um tio materno devido à morte prematura do seu pai em 1826, e conhecido desde a sua infância pela sua sabedoria, inteligência e humildade, o Báb iniciou um movimento religioso revolucionário sem paralelo na história da humanidade.

No dia 23 de Maio de 1844, Siyyid Ali Muhammad declarou a sua missão como o Báb – aquele que abriria caminho para o aparecimento de Bahá’u’lláh – a um pesquisador espiritual fervoroso chamado Mullá Hussayn. Os Bahá'ís acreditam que nesse dia começou uma nova era religiosa, uma renovação da promessa eterna da própria religião.

Num curto espaço de tempo, milhares de pessoas tornaram-se seguidores do Báb, facto que perturbou as práticas corruptas do clero persa, destruiu a tradição ao abolir as leis do passado e declarar que tinha vindo para preparar o caminho de outro Mensageiro de Deus – o Prometido de Todos os Tempos, que fundaria uma religião mundial e unificadora.

Rapidamente, o Báb tornou-se uma figura popular:
Este Ser Ilustre ergueu-se com um tamanho poder que abalou as fundações das leis religiosas, costumes, atitudes, moral e hábitos da Pérsia, e instituiu uma nova lei, uma nova fé, uma nova religião. Embora os destacados homens de estado, a maioria do povo e os dirigentes religiosos se levantassem todos para O destruir e aniquilar, Ele enfrentou-os sozinho e pôs toda a Pérsia em movimento. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 30)
Vários historiadores investigaram a tremenda transformação social iniciada pelo Báb, e destacam frequentemente a perseguição violenta que a Sua mensagem suscitou:
O fogo da Sua eloquência, a maravilha das Suas escrituras vivas e inspiradas, a Sua sabedoria e conhecimento extraordinários, a Sua coragem e zelo enquanto reformador, despertaram o maior entusiasmo entre os Seus seguidores, mas incitou um equivalente grau de alarmismo e inimizade entre a ortodoxia Muçulmana. Os doutores Xiitas denunciaram-no veementemente, e persuadiram o governador de Fars, chamado Husayn Khan, um tirano fanático, a iniciar a supressão da nova heresia. Começaram então para o Báb uma longa série de detenções, deportações, interrogatórios em tribunal, flagelações e indignidades, que culminaram no Seu martírio, em 1850… Como consequência destas declarações do Báb, e da rapidez alarmante com que pessoas de todas as classes sociais, ricos e pobres, instruídos e ignorantes, respondiam avidamente aos Seus ensinamentos, os esforços de repressão tornaram-se cada vez mais implacáveis e determinados. Foram pilhados e destruídos lares. Foram raptadas mulheres. Em Teerão, Fars, Mazindaram e noutros locais foram mortos numerosos crentes. Muitos foram decapitados, enforcados, mortos com canhões, queimados ou decepados. Apesar de todos os esforços de repressão, porém, o movimento progrediu. (Dr. J.E. Esslemont, Baha’u’llah and the New Era, pp. 14-16)
Ao celebrar este aniversário especial do nascimento da Fé Bábi, 'Abdu'l-Bahá descreveu a Declaração do Báb e os sacrifícios feitos pelos Seus seguidores numa palestra proferida nos Estados Unidos, em 1912, por ocasião do aniversário da Declaração do Báb:
Neste dia, em 1844, o Báb foi enviado para apresentar e proclamar o Reino de Deus, anunciando as boas novas da vinda de Bahá’u’lláh e enfrentando a oposição de toda a nação persa. Alguns persas seguiram-No. E por isso sofreram as mais penosas dificuldades e severas tribulações. Resistiram a testes com poder maravilhoso e heroísmo sublime. Milhares foram laçados na prisão, punidos, perseguidos e martirizados. Os seus lares foram pilhados e destruídos, os seus bens foram confiscados. Sacrificaram as suas vidas voluntariamente e permaneceram inabaláveis na sua fé até ao fim. Estas almas maravilhosas são as lâmpadas de Deus, as estrelas da santidade que brilham gloriosamente no horizonte eterno da vontade de Deus. (The Promulgation of Universal Peace, p. 138)
Hoje, 23 de Maio, a comunidade Bahá’í celebra a declaração de um dos profetas fundadores da Fé Bahá’í. A mensagem do Báb e de Bahá’u’lláh espalhou-se pelo mundo apelando à unidade de todos os povos, culturas, nações e religiões.

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Traduzido e adaptado de: The Declaration of the Bab: A New Revelation Regenerates Humanity (www.bahaiteachings.org)

sábado, 16 de maio de 2020

Como Funciona uma Religião sem Clero

Por Joseph Roy Sheppherd.


Nas Suas Escrituras, Bahá’u’lláh exclui a criação de qualquer forma de sacerdócio ou clero entre os Seus seguidores.

Por este motivo, os Bahá’ís não têm padres, diáconos, vigários, bispos, clérigos, mulláhs, monges, monjas, rabinos, gurus, pastores, pregadores reverendos ou ministros. Para os Bahá’ís não existe uma categoria profissional de dirigentes da religião.

Em vez disso, existe os corpos dirigentes da Fé Bahá’í a nível local, nacional e internacional – que são eleitos democraticamente pelo corpo dos crentes. Este processo único não envolve candidaturas, campanhas eleitorais ou criação de listas ou facções. Em vez disso, as eleições Bahá’ís são celebradas numa atmosfera espiritual tranquila, onde todos votam em quem a sua consciência lhes indica, considerando:
... sem o menor traço de paixão ou preconceito, e independentemente de qualquer consideração material, os nomes daqueles que melhor combinam as qualidades indispensáveis de lealdade, devoção altruísta, uma mente bem treinada, uma capacidade reconhecida e uma experiência amadurecida. (Shoghi Effendi, Baha’i Administration)
Isto representa, obviamente, uma grande diferença em relação às práticas religiosas anteriores. A maioria das religiões do passado tem confiado em clérigos profissionais para liderar os seus seguidores, mas os Bahá’ís acreditam que esse tipo de liderança ungida - com todo o potencial que tem para criar confusão, corrupção e sectarismo – chegou definitivamente ao fim:
Ó congregação de sacerdotes!... Ponde de parte aquilo que possuís, mantende a vossa paz e dai ouvidos, depois, àquilo que a Língua da Grandeza e Majestade profere… 
Se vós, sumo-sacerdotes, descobrísseis o perfume do roseiral da compreensão, não procuraríeis outro salvo Ele, e reconheceríeis, nas Suas novas vestes, o Sapientíssimo, o Incomparável, e afastaríeis os vossos olhos do mundo e de todos os que o procuram, e erguer-vos-íeis para O auxiliar...
Este não é o dia em que os sumo-sacerdotes podem dominar e exercer a sua autoridade. (Baha'u'llah, The Proclamation of Baha’u’llah)
O clero – uma característica proeminente da história religiosa – teve um propósito quando a generalidade da população era analfabeta. Nesses tempos, este tipo de liderança religiosa tinham um papel social importante na educação espiritual das massas. Eles eram responsáveis por ensinar a religião, defender os seus princípios, e representar os seus interesses. Na sua função de professores, os líderes religiosos tornavam as palavras dos mensageiros de Deus acessível ao povo e respondiam a questões sobre os ensinamentos dos mensageiros de Deus, servindo como intermediários entre o profeta e o povo. Tem sido dada muita importância histórica a estas pessoas porque houve tempos em que, se não fosse o seu trabalho, a luz da religião ter-se-ia extinguido.

Nestes tempos, porém, em que o nível geral da educação subiu ao ponto de todos os indivíduos poderem ler, reflectir e tentar compreender por si próprios as palavras de Deus, os Bahá’ís acreditam que já não há necessidade desta função religiosa. Perpetuar o clero significaria substituir as opiniões dos indivíduos pela autoridade da palavra escrita de Deus, que Bahá’u’lláh proclamou novamente a todo o mundo:
Entre estes ensinamentos está a investigação independente da realidade para que o mundo da humanidade se possa salvar das trevas da imitação e alcançar a verdade; que possam rasgar e deitar fora essas vestes esfarrapadas e desgastadas de há 1000 anos atrás e possam vestir a túnica feita com a maior pureza e santidade no tear da realidade. (‘Abdu’l-Bahá, Tablet to the Hague)
Apesar de não existirem líderes religiosos profissionais na Fé Bahá’í, esta possui uma estrutura administrativa altamente organizada - que se baseia num modelo democrático com orientação espiritual.

Quando Bahá’u’lláh proclamou a Sua nova Fé, Ele estabeleceu um sistema de administração moderno que entrega a autoridade para administrar, adjudicar, e legislar sobre os assuntos da religião nas mãos de instituições eleitas, que têm uma natureza consultiva. Estes corpos administrativos funcionam a nível local, nacional e internacional. Esta estrutura localizada e universal permite que a Fé Bahá’í – antevista por Bahá’u’lláh como uma comunidade orgânica, dinâmica e em constante crescimento – cresça e responda às necessidades avançadas dos nossos tempos.

A competência e o foco essencial da intervenção destas instituições Bahá’ís evoluirá naturalmente à medida que crescer a força numérica dos aderentes desta religião mundial. Actualmente, estas instituições são constituídas por nove pessoas eleitas. A cada cinco anos é realizada uma convenção internacional para eleger a Casa Universal de Justiça, o corpo administrativo global da Fé Bahá’í. Este organismo global da Fé Bahá’í tem a responsabilidade de guiar o seu progresso e desenvolvimento. A Casa Universal de Justiça está sedeada no Centro Mundial Bahá’í no Monte Carmelo, em Israel.

Além destes corpos administrativos, Bahá’u’lláh definiu instituições nomeadas cuja função era actuar como conselheiros experientes para as instituições eleitas. A responsabilidade de dar a conhecer a mensagem de Bahá’u’lláh às outras pessoas está nas mãos de todos os Bahá’ís. Cada Bahá’í estuda as Escrituras de Bahá'u'lláh por si próprio, e tanto quanto for capaz, reflecte esses ensinamentos na sua vida diária, de forma que possam descrever e demonstrar os princípios da Fé Bahá’í. Cada Bahá’í, de certa forma, oferece-se como um exemplo da sua fé em acção, tornando a sua Fé uma religião em que os actos falam mais alto que as palavras:
Ó Filho da Minha Serva! A orientação sempre foi dada por palavras, e agora é dada por acções. Cada um deve mostrar acções que sejam puras e santas, pois as palavras pertencem igualmente a todos, enquanto que essas acções pertencem apenas aos Nossos amados. Esforçai-vos, pois, com alma e coração para vos distinguirdes pelas vossas acções. Desta forma vos aconselhamos nesta epístola sagrada e resplandecente. (Baha’u’llah, The Hidden Words)

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Texto original: How a Religion with No Clergy Works (www.bahaiteachings.org)

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Joseph Sheppherd faleceu 2015. Foi um antropólogo e arqueólogo linguístico e cultural. Viveu nos Estados Unidos, Reino Unido, Panamá, Colômbia e Eslováquia. Passou vários anos entre os povos das selvas dos Camarões e da Guiné Equatorial. Foi professor, escritor, escultor, artista gráfico, artesão e pintor. Publicou 10 livros onde abordou diversos temas, desde assuntos profissionais até aos temas Bahá'ís, passando pela poesia, ficção e literatura infantil.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Uma Oração pela Mãe de Bahá'u'lláh

A mais honrada, estimada e respeitada mãe.

Ele é Deus!

Louvado sejas, ó Senhor, Meu Deus. Esta é a Minha mãe que reconheceu a Tua unicidade, confessou a Tua unidade, alcançou a honra de encontrar os Teus Manifestantes nos Teus dias, atingiu a condição do reconhecimento e entrou no tabernáculo do Céu, pois ela amou-Te e amou o Teu Servo, e segurou-se firmemente ao cordão do Teu amor através dos Templos santificados da Tua Soberania.

Suplico-Te, pois, ó Meu Deus, que lhe concedas a honra de contemplar a Tua Beleza e lhe outorgues a dádiva da Tua presença. Dá-lhe, então, de beber do oceano da Tua misericórdia e do cálice do Teu perdão. Fá-la habitar, ó Meu Deus, nos recintos da Tua misericórdia no Céu da eternidade. Permite que ela escute as Tuas sagradas melodias para que possa retirar o véu da sua cabeça na sua ânsia por Te encontrar e percorrer os domínios da Tua proximidade e união.

Tu és, em verdade, poderoso sobre tudo o Que desejas, e Tu és, em verdade, o Forte, o Mais Luminoso.

- Bahá'u'lláh

(de uma tradução provisória aprovada pelo Centro Mundial Bahá’í para ser incluída no livro Leaves of the Twin Divine Trees, de Baharieh Rouhani-Ma'ani)

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FONTE: A Prayer for Baha’u’llah’s Mother (Bahá'í Prayers and Meditations)

sábado, 9 de maio de 2020

Um livro sobre a Epístola da Paciência

Por Christopher Buck e Foad Seddigh.


Nesta entrevista, Christopher Buck fala com o Dr. Foad Seddigh, o autor de um novo livro sobre a maravilhosa virtude da paciência.

P: Dr Seddigh, você escreveu um livro sobre a Epístola da Paciência, revelada por Bahá'u'lláh. O que o inspirou a realizar este projecto?

R: Este trabalho de Bahá'u'lláh é considerado como uma das Suas mais importantes epístolas. Bahá'u'lláh revelou a Epistola da Paciência num momento crítico, na véspera do Seu exílio de Bagdade para Istanbul. Esta saída de Bagdade assinala um novo capítulo na história da missão de Bahá'u'lláh. Este texto notável – revelado no mesmo dia em que Bahá'u'lláh declarou a Sua missão de forma aberta, ainda que em privado – é o único registo que temos das palavras exactas de Bahá'u'lláh nessa importante ocasião histórica, em 22 de Abril de 1863, o dia em que nasceu a Fé Bahá'í.

Todos estes ensinamentos, expressos de uma forma tão maravilhosa, inspiraram-me a estudar a Epístola da Paciência com o objectivo de a entender de forma mais profunda. Assim, fui preparando extensos apontamentos durante muito tempo. E por fim, tive a inspiração de me lançar num projecto de escrever este livro.

P: No Islão clássico existem os 99 “Maravilhosos Nomes de Deus”. O 99º nome de Deus, numa lista, é “o Paciente”. À luz disto, diria que “paciência é um atributo de Deus?

R: Os estudiosos Muçulmanos concordam com o número dos “Maravilhosos Nomes de Deus” – apesar dos atributos de Deus serem incontáveis. Nem todos aparecem no Alcorão, que menciona 85 destes nomes. Por exemplo: “A Deus pertencem os Nomes Mais Maravilhosos; assim, chama-O por eles” (Alcorão 7:180). Bahá'u'lláh refere os “Mais Maravilhosos Nomes” de Deus em dois parágrafos do Livro Mais Sagrado.

No entanto, existe algum debate sobre se “o Paciente” (as-Sabur, ou as-Sabir) faz parte dos 99 “Maravilhosos Nomes de Deus”. Em resumo, “Paciência” é um atributo de Deus, que se manifesta na natureza e no carácter dos Mensageiros de Deus.

P: É possível transformar a perfeição divina da “Paciência” em acções bondosas?

R: Evidentemente! Pode acontecer quando temos um desejo no coração de abarcar a perfeição divina da “Paciência” e quando, simultaneamente, fazemos um esforço concertado para a alcançar e para a incluir nas nossas acções e processos de decisão diários. Para o mundo beneficiar com a nossa paciência, necessitamos de trazê-la para a linha da frente e fazer esforços diários para a exemplificar nas nossas acções diárias.

P: Na Epístola da Paciência, o que é que Bahá'u'lláh ensina sobre a virtude da paciência?

R: Bahá'u'lláh dedica um quinto desta epístola fascinante a explicar a virtude da paciência. Em primeiro lugar, Ele apela aos crentes para que entrem na Cidade da Paciência, que tradicionalmente significa uma cidade fortificada, um local de protecção e segurança. Por outras palavras, quando se está nesse local, está-se protegido contra elementos indesejáveis. Neste contexto, a “Cidade da Paciência” é uma metáfora. Significa apenas que quando adquirimos a virtude da paciência, ficamos num ambiente espiritualmente seguro.

Depois, e com muito detalhe, Bahá'u'lláh descreve a vida do profeta Job, que demonstrou essa virtude de uma tal maneira que o nome de Job se tornou sinónimo de paciência. Bahá'u'lláh prossegue explicando os vários tipos de paciência e por fim afirma que a recompensa prometida por Deus aos que se adornam com o ornamento da paciência é ilimitada:
Além disso, sabei que por todas as boas acções é decretada uma recompensa limitada no Livro de Deus, com excepção da paciência. Este é a observação de Deus para Maomé, o Apóstolo de Deus: “Aqueles que perseveram pacientemente, em verdade, receberão uma recompensa imensurável.” (Bahá'u'lláh, Tablet of Patience, tradução provisória de Foad Seddigh)
P: Depois de estudar esta epístola, tem algum conselho para uma pessoa comum, sobre como melhorar e aprofundar a nossa capacidade de paciência – tanto no desenvolvimento do nosso carácter como para benefício dos outros?

R: Podemos reflectir aquilo que Bahá'u'lláh revelou na Epistola da Paciência e meditar profundamente neste atributo. Devemos estar constantemente conscientes sobre a paciência e aumentar a nossa compreensão sobre esta virtude. Tal como em todas as coisas, devemos trabalhar para melhorar, pouco a pouco, a nossa prática diária da paciência.

Nada se alcança imediatamente - em especial, a paciência. Precisamos de a trabalhar até a dominarmos. E devemos, em especial, seleccionar alguns aspectos da paciência que nos são mais pertinentes. E aqui está a ironia: é preciso paciência para aprofundar a nossa capacidade para ter cada vez mais paciência!

Por exemplo, nas nossas interacções diárias com amigos, vizinhos e colegas, podemos ficar impacientes ou reagir impulsivamente perante actos em situações desagradáveis de diversos graus. A virtude da paciência ajuda-nos a dar a resposta e atitude certas nessas situações. Ajuda-nos a ter a reacção adequada e ensina-nos a não reagir com base em impulsos, mas antes, a reflectir sobre a situação e depois a agir com sabedoria.

A paciência tem muitas facetas, dimensões e ramificações: a paciência no caminho de Deus e em suportar tribulações; paciência nas acções que devemos tomar e cujo resultado é incerto; paciência em relação aos nossos objectivos e ambições a longo-prazo; paciência no nosso relacionamento diário com os outros. Esta é apenas uma pequena lista de alguns aspectos da paciência. Cada um deles é necessário para desenvolver o nosso carácter e capacidade espiritual.

Vou aprofundar brevemente apenas um destes: ser pacientes com nós próprios. Cada um de nós vem a este mundo com diferentes qualidades e capacidades, que não são uma escolha pessoal. Por vezes, podemos sentir que devíamos ter recebido mais. Por exemplo, uma pessoa pode pensar que podia ter uma memória melhor, ser mais alto, etc. No entanto, nós não temos controlo sobre estas coisas. Na verdade, são-nos atribuídas, como se fossem uma oferta.

Devemos estar gratos por qualquer oferta que Deus nos faz – isso também faz parte da paciência. Devemos fazer o melhor uso possível daquilo que nos é oferecido. Se sentimos que estamos desfavorecidos, devemos olhar à nossa volta; há sempre gente ainda mais desfavorecida. Por isso, é necessária paciência. Devemos ser pacientes com nós próprios.

A virtude da paciência permite-nos olhar para a vida de uma perspectiva positiva, feliz, espiritualmente vibrante e consciente. Neste caso, cultivar a paciência depende grandemente da nossa confiança em Deus e da nossa submissão e aceitação da vontade de Deus.

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Texto original: New Teachings on the Virtue of Patience (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

Foad Seddigh é doutorado em engenharia aeronáutica pela Universidade de Oregon (Estados Unidos). Foi professor de engenharia mecânica em várias universidades durante várias décadas.

sábado, 2 de maio de 2020

Perguntas: um Mês Bahá’í e um Atributo Divino

Por Christopher Buck.


Recentemente, um amigo Baha'i colocou-me uma questão interessante: “O que significa o mês Bahá’í das «Perguntas»?”

Quando colocou a questão, ele não estava a pedir-me uma definição. Todos sabemos o que é uma pergunta. A sua questão focava-se no significado espiritual mais profundo das “Perguntas”, e se se trata, ou não, de um atributo de Deus, tal como os nomes dos outros 18 meses do calendário Bahá’í – Misericórdia, Luz, Esplendor, etc.

Mas a resposta não é simples – pelo contrário, é bem profunda. Então vamos contextualizar a sua questão sobre “Perguntas”.

O calendário Bahá’í foi criado originalmente pelo Báb, que o designou como calendário Badi, que significa “novo” ou “maravilhoso”. Dizer que este calendário é novo, inovador ou diferente seria um eufemismo. O calendário Badi baseia-se no calendário solar, tem 19 meses de 19 dias e ainda 4 dias intercalares (5 nos anos bissextos). Mais interessante: cada dia da semana, cada dia do mês, cada mês, cada ano, cada ciclo de anos tem nomes espirituais, normalmente entendidos como características essenciais, atributos, ou “Nomes de Deus”.

Isto não são simples nomes; na verdade, são atributos divinos. E aqui está um paradoxo: Deus, na Sua essência, transcende todos os nomes e atributos. Falando correctamente, estes nomes descrevem a forma como Deus Se manifesta no mundo da criação. Atributos e características do mais alto nível, estes nomes também são conhecidos como perfeições divinas. Numa criação perfeita, todas as coisas criadas reflectem uma ou mais destas perfeições. Mas isto ainda é mais verdade para o ser humano, que é o apogeu da criação. E é uma verdade muito mais forte para os profetas e fundadores das grandes religiões mundiais, os espelhos perfeitos de todos os nomes e atributos de Deus.

Estes “Nomes de Deus” – belos, poéticos e místicos – vêm de uma famosa oração matinal recitada durante o mês do jejum no Islão Xiita. Esta famosa oração é conhecida como Du’a’ al-Sahar (“Oração da Alvorada”) e referida também como Du’a’ al-Bahá (“Oração do Esplendor/Glória”). Bahá’u’lláh refere-a como the Lawh-i Baqa, a “Epístola da Eternidade”. Esta oração matinal contém o “Mais Grandioso Nome de Deus”, que os Bahá’ís reconhecem como Baha, e que significa “Esplendor” ou “Glória”. Na oração da alvorada existem vinte e dois nomes pelos quais o suplicante implora a Deus. O Báb escolheu dezanove destes para o calendário Badi. A primeira invocação desta fantástica oração afirma o seguinte:
Ó meu Deus!Imploro-Te pela Tua Baha [Glória] na sua maior grandiosidade [abha]pois todo o Teu Esplendor [baha] é verdadeiramente resplandecente [bahiyy].Eu, em verdade, ó meu Deus,Imploro-Te pela plenitude do Teu Esplendor[baha].(de uma tradução de Stephen Lambden)
Como disse anteriormente, Deus transcende nome e atributos. Por exemplo, muitas vezes dizemos “Deus é uno”. É verdade, mas Deus transcende a singularidade, tal como afirma o Báb: “Entre estas razões está o irrefutável testemunho do intelecto, de que nada existe para lá da Essência da Eternidade, e de Ele não possir qualquer atributo, seja qual for o significado, salvo a Sua própria Essência.” (tradução provisória de Nader Saiedi, Gate of the Heart, p. 194)

Porque a singularidade é um conceito humano, tão abstracto quanto tal, trata-se de uma projecção da inteligência humana; ela é conceptualizada através de conceitos que permitem que a inteligência a compreenda. Por outras palavras, o mais elaborado dos pensamentos que tenhamos nunca poderá ultrapassar as nossas próprias limitações mentais. Nunca poderemos compreender Deus. O melhor que podemos fazer é perceber algumas das qualidades de Deus manifestadas na criação, e que aparecem de forma plena e perfeita nos profetas de Deus, tais como Moisés, Zoroastro, Buda, Jesus, Maomé, Deganawida (“o Pacificador”), o Báb e Bahá’u’lláh.

Muitos, se não todos, destes nomes de Deus são reconhecíveis, e até mesmo familiares – Sublimidade, Glória, Grandeza, Conhecimento e Beleza. Existem ainda outros atributos. É aqui que surge a questão sobre o mês e atributo das “perguntas”. Aqui fica o versículo da Du’a’ al-Sahar, ou Du’a’ al-Baháʾ:
Ó meu Deus!Imploro-Te pelas Tuas perguntas [masaʾil] que Te são mais conformes
Pois todas os Teus interesses [masa’il] são verdadeiramente amados.Eu, em verdade, ó meu Deus, imploro-Te pelo todo dos Teus assuntos [masaʾil].(traduzido por Stephen Lambden)
Como podemos ver neste versículo, a palavra árabe para “perguntas” – masa’il – também tem outros significados: “interesses” e “assuntos”. Alem de “perguntas”, Masa’il também significa “temas”, “problemas”, “pontos em questão” e “teses”. (Na lei islâmica, por exemplo, al-masāʾil al-fiqhiyya significa “questões de jurisprudência”. Masáʾil fi al-ttibb traduz-se como “Manual de Medicina”)

Sabemos que os atributos divinos podem tornar-se boas virtudes humanas. Por outras palavras, as qualidades divinas são a fórmula secreta no elixir da transformação espiritual Na alquimia do espírito, o cobre da fantasia satânica transforma-se no ouro das perfeições angélicas.

Assim, “perguntas” enquanto atributo de Deus é o interesse divino pelos assuntos humanos. “Perguntas” enquanto bom atributo é uma preocupação humana pelos assuntos humanos. Perguntas, num contexto Bahá’í, significa preocupação pelos outros e capacidade para questionar – e responder – sobre aquilo que os pode ajudar.

Os profetas são iguais, as suas revelações são distintas, as suas leis são progressivas - propondo verdades, oferecendo a salvação, concedendo graça, ensinando a harmonia, apresentando a libertação, influenciando a sociedade, desenvolvendo a civilização, promovendo a ciência, exigindo igualdade, enobrecendo o carácter, iluminando os indivíduos, mistificando a realidade, dando um propósito, aprofundando a identidade, enriquecendo a vida, conferindo ética aos actos, transmitindo visão, inspirando vontades , guiando decisões, referenciando a moral, fortalecendo as famílias, promovendo a caridade, mitigando o sofrimento, defendendo a justiça, advogando a paz, cultivando a reciprocidade, edificando a moralidade, encorajando iniciativas, recompensando a rectidão, exaltando a virtude, celebrando a espiritualidade, incentivando o zelo, prometendo a vida após a morte, garantindo a imortalidade, alargando horizontes, expondo mistérios, cultivando a reflexão, elevando a alegria e vitalizando a vida

No Seu calendário prático e místico, o Báb revelou os mais originais e profundos ensinamentos espirituais sobre a natureza e qualidades de Deus. Sem dúvida.

Alguma da informação neste artigo foi fornecida por Omid Ghaemmaghami.

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Texto original: The Baha’i Month, and Godly Attribute, of Questions (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.