Por Nader Saiedi.
As Escrituras Sagradas de Bahá’u’lláh – que viveu entre 1817 e 1892 – prolongam-se de 1852, ano da fundação da Fé Bahá’í, até 1892, ano da Sua ascensão. São 40 anos de revelação.
Tanto a fé do Báb (1819-1850) – o profeta que preparou o caminho para a vinda de Bahá’u’lláh – como a fé de Bahá’u’lláh são caracterizadas por um oceano de revelações sem precedentes.
É por isso que as Escrituras Bahá’ís constituem quase uma biblioteca, em vez de um ou poucos livros.
Além disso, não há dúvidas históricas ou objectivas sobre a autenticidade destes textos. Os textos de Bahá'u'lláh, só por si, equivalem a cem livros, e os Bahá'ís possuem os originais. Estes textos abordam todos os tipos de questões, apresentando vários estilos. No entanto, apesar da incrível diversidade e pluralidade das Escrituras de Bahá’u’lláh, todos estes textos representam uma grandiosa ordem e unidade divina.
Dá ouvidos e escuta! Esta é a voz da Minha pena que se eleva perante místicos, depois sacerdotes, e depois reis e governantes. (Ishráqát, pag. 260)
Esta declaração de Bahá’u’lláh revela uma ordem e unidade únicas. Como Ele próprio observa, revelou os Seus textos em três etapas. A primeira etapa da Sua revelação foi dirigida aos místicos, a segunda aos sacerdotes e clérigos, e a terceira aos reis e governantes do mundo. Esta ordem não é fortuita. A estrutura lógica e dialética desta ordem é, por si só, mais um testemunho da unidade primordial, originalidade, novidade e pureza da consciência de Bahá’u’lláh.
Nesta reflexão, vamos explorar estas três etapas, o princípio correspondente anunciado por cada uma delas, bem como a ligação lógica e a unidade entre as três.
O princípio explicado na primeira etapa é a consciência mística; essa realidade é, em última análise, espiritual. A segunda etapa enfatiza a consciência histórica e estende esse dinamismo ao âmbito da religião e à palavra de Deus. O terceiro princípio, na etapa final da revelação de Bahá’u’lláh, enfatiza a consciência global e os seus dois requisitos: a unicidade da humanidade e a paz universal. Em conjunto, estes três princípios – místico, histórico e global – constituem uma unidade orgânica, e esta unidade define a singularidade da mensagem de Bahá’u’lláh.
1. A Consciência Mística
A primeira fase da revelação de Bahá’u’lláh, de 1852 a 1860, ocorreu durante grande parte do Seu exílio em Bagdade. Algumas das Suas principais obras desta fase – As Palavras Ocultas, Os Quatro Vales, A Ode da Pomba e Os Sete Vales – enfatizam a interpretação espiritual da realidade.
Segundo as Escrituras de Bahá’u’lláh, a realidade expressa, em última análise, diversas manifestações dos nomes e atributos divinos. Assim, todos os seres são espelhos sublimes nos quais a revelação divina se reflecte e se manifesta. Esta afirmação radical da sacralidade de todos os seres e da solidariedade e unidade cósmica de todas as coisas baseia-se na ideia de que a verdade última de todos os seres é a própria revelação divina que reside nos seus corações mais íntimos. A história é, portanto, uma viagem espiritual rumo à realização e ao desvendar desta revelação divina inerente e abrangente na vida dos seres humanos. N’As Palavras Ocultas de Bahá'u'lláh, lemos:
Ó Filho do Homem! Tu és o Meu domínio, e o Meu domínio não perece; porque receias perecer? És a Minha luz, e a Minha luz jamais se extinguirá; por que temes extinção? És a Minha glória, e a Minha glória não desvanece; és o Meu manto, e o Meu manto jamais se desgastará. Mantém-te, pois, no teu amor por Mim, para que possas encontrar-Me no reino da Glória. (As Palavras Ocultas, do árabe, #14)
O princípio da natureza espiritual de todos os seres distancia a mundividência Bahá’í de todas as visões materialistas do mundo e de todas as teorias sociais que desvinculam a ordem sociocultural dos valores espirituais e da orientação moral. Assim, segundo Bahá’u’lláh, um dos fundamentos mais importantes da ordem social é o compromisso da sociedade com os valores morais e espirituais.
Esta orientação espiritual significa que devemos observar a realidade como uma unidade interligada, e não como um conjunto de objectos materiais, fragmentados e independentes. A verdade de tudo é a revelação divina, o que significa que todos os seres estão interligados e são um só. Contudo, essa mesma compreensão espiritual da existência implica também um princípio oposto. A consciência é sempre uma realidade única e individual. Por conseguinte, os seres humanos, como seres espirituais independentes, têm o dever de pensar por si próprios. A metafísica compatível com esta consciência mística – unidade na diversidade – apela a uma unificação cada vez maior do planeta e de todos os seus povos.
2. Consciência Histórica
Embora o primeiro princípio de Bahá’u’lláh isole a Sua mensagem de toda a mundividência materialista, o segundo princípio constitutivo da Sua mundividência diferencia-a de todas as formas religiosas de tradicionalismo.
Este segundo princípio é o princípio da consciência histórica ou da historicidade da vida. Na segunda fase da Sua revelação, entre 1860 e 1867, durante os últimos anos da Sua estadia em Bagdade e continuando durante o Seu exílio em Istambul e Adrianopolis, Bahá’u’lláh falou sobre assuntos relativos às Escrituras Sagradas.
Aqui, os sacerdotes e os eruditos de diversas crenças religiosas tornaram-se os destinatários directos dos Seus textos. Entre estas obras, destacam-se o Livro da Certeza e o Novo Livro Maravilhoso (Kitáb-i-Badí'). Esta concepção dinâmica é particularmente relevante para o âmbito da cultura e da sociedade humanas.
A realidade social é um fenómeno em constante evolução. Este dinamismo aplica-se não só ao âmbito das instituições culturais humanas, mas também ao âmbito da própria revelação da palavra divina. Os Bahá’ís denominam esta afirmação abrangente e radical da consciência histórica nas Escrituras de Bahá’u’lláh de “princípio da revelação progressiva”.
A cultura e a sociedade caracterizam-se por mudanças e transformações perpétuas, o que significa que a revelação da Vontade eterna de Deus se torna também algo histórico e dinâmico. Bahá'u'lláh vê, portanto, em todas as diversas religiões uma mesma verdade eterna. Esta Vontade divina criadora reflecte-se sob a forma de novas leis e doutrinas, em diferentes épocas, de acordo com a fase de desenvolvimento da humanidade e as necessidades específicas de cada povo nessa fase particular de desenvolvimento. Assim, para Bahá’u’lláh, todos os profetas de Deus representam uma mesma realidade eterna, que aparece em diferentes épocas na forma de pessoas diferentes e historicamente específicas, com leis diferentes, conforme exigido pelo desenvolvimento material e espiritual da sociedade naquela fase da evolução da humanidade. Por outras palavras, a mensagem deste segundo princípio é a unidade na diversidade de todas as religiões.
O Médico Omnisciente tem o Seu dedo no pulso da humanidade. Ele percebe a doença e, na Sua sabedoria infalível, prescreve o remédio. Cada era tem o seu próprio problema, e cada alma a sua aspiração particular. O remédio que o mundo necessita nas suas aflições actuais nunca poderá ser o mesmo exigido numa era posterior. Preocupai-vos impacientemente com as necessidades da era em que viveis e concentrai as vossas deliberações nas suas exigências e nos seus requisitos. (Bahá’u’lláh, Gleanings ,CVI)
Embora a consciência histórica esteja presente nos sistemas filosóficos de vários pensadores, como Hegel e Marx, o princípio de Bahá’u’lláh é qualitativamente diferente. Em primeiro lugar, esta dinâmica histórica nunca termina num estado histórico final. Assim, para Bahá’u’lláh, mesmo a verdade da Sua própria revelação é relativa à fase actual de desenvolvimento da humanidade e, por isso, a Sua revelação não é a última revelação divina. A revelação divina, pelo contrário, é eterna e perpétua. Em segundo lugar, Bahá’u’lláh aplica esta lógica histórica não só ao âmbito da cultura humana, mas também ao âmbito da revelação da palavra divina.
3. Consciência Global
A unidade do primeiro e do segundo princípios implica o terceiro princípio da mundividência Bahá’í. Os dois primeiros princípios, em conjunto, declaram a necessidade da renovação da ordem espiritual nesta fase de amadurecimento da humanidade, de forma que estejam em consonância com o desafio fundamental do desenvolvimento histórico nesta era.
O terceiro princípio da mundividência Bahá’í é o princípio da unicidade da humanidade e o imperativo da paz universal. De acordo com esta visão Bahá’í do futuro do mundo, uma solução eficaz e justa para os diversos problemas da humanidade nesta fase do seu desenvolvimento exige a adopção de uma consciência global baseada na premissa fundamental da unidade essencial de toda a raça humana.
Esta abordagem global não é simplesmente um culto do amor fraterno ou uma fantasia utópica. Enfatizado nas Suas cartas aos governantes do mundo em 1867-1868 e elaborado ao longo da sua vida, o terceiro princípio de Bahá’u’lláh apela ao surgimento de uma nova cultura de paz e unidade, de uma nova estrutura internacional consultiva e democrática e de novas instituições sociais consultivas e justas. Os ensinamentos de Bahá’u’lláh visam criar uma ordem social definida pelo princípio da unidade na diversidade.
Este é, de facto, um homem que, hoje, se dedica ao serviço de toda a raça humana. Diz o Grande Ser: Bem-aventurado e feliz é aquele que se levanta para promover os melhores interesses dos povos e raças da terra... Que não se vanglorie quem ama o seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo inteiro. A terra é um só país, e a humanidade os seus cidadãos. (Bahá’u’lláh, Gleanings, CXVII)
Qualquer pessoa pode perceber a notável natureza dialética destas três etapas. A primeira etapa enfatiza a unidade abstrata e mística da humanidade. A segunda etapa nega essa abstração e afirma a diversidade histórica e a natureza dinâmica do espírito. A terceira etapa afirma a unidade concreta e historicamente específica da humanidade.
-----------------------------------------------------------
Texto original: The 3 Main Principles of the Baha’i Revelation (www.bahaiteachings.org)
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Nader Saiedi é professor de Estudos Bahá’ís na UCLA (Los Angeles, EUA). É autor de diversos livros, incluindo Logos and Civilization: Spirit, History and Order in the Writings of Baha’u’llah; e Gate of the Heart: Understanding the Writings of the Bab. Nasceu em Teerão (Irão) e tem um mestrado em economia pela Universidade Pahlavi (Shiraz) e doutoramento em sociologia pela Universidade de Wisconsin.



