domingo, 8 de fevereiro de 2026

Glenford E. Mitchell (1935–2026)


Glenford E. Mitchell, antigo membro da Casa Universal de Justiça, faleceu no passado dia 7 de fevereiro de 2026 em Decatur, Geórgia, Estados Unidos. Tinha 90 anos.

A Casa Universal de Justiça enviou a seguinte mensagem a todas as Assembleias Espirituais Nacionais.

* * *

O falecimento de Glenford E. Mitchell priva o mundo Bahá'í de um ilustre, realizado e profundamente espiritual servo de Bahá'u'lláh. Com corações pesarosos, lamentamos profundamente a perda do nosso querido ex-colega, recordando com pesar a sua profunda capacidade de discernimento e o seu invulgar bom senso, aliados a um domínio excepcional da linguagem — uma combinação de qualidades raras que respondeu a tantas exigências durante a sua actividade como membro da Casa Universal de Justiça. Este período, que se estendeu por mais de um quarto de século, coroou uma vida inteira de serviço e seguiu-se a catorze anos em que ocupou o cargo de Secretário da Assembleia Espiritual Nacional dos Estados Unidos. Durante a sua vida, os seus dons de carácter, competência e compreensão serviram-lhe bem como jornalista, autor e educador inspirador para jovens. Desde cedo, o seu coração e a sua mente foram galvanizados pelos escritos do amado Guardião e pela visão que estes encapsulavam de uma nova Ordem Mundial, baseada na justiça e funcionando segundo o princípio fundamental da unidade da humanidade. A esta visão luminosa, consagrada na Revelação de Bahá'u'lláh, ele dedicou toda a sua vida.

Apresentamos as nossas condolências à sua querida esposa, Bahia, e à sua filha, Tarissa, pela sua perda, e asseguramos-lhes as nossas súplicas para que a sua nobre alma receba um acolhimento jubiloso no reino eterno. Os amigos de todo o mundo são convidados a realizar reuniões memoriais dignas em sua honra, incluindo em todas as Casas de Adoração.

A Casa Universal de Justiça

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FONTE: Glenford E. Mitchell, 1935–2026 (BWNS)

sábado, 7 de fevereiro de 2026

De onde vem a Sabedoria dos Filósofos?

Por David Langness.


Alguma vez se perguntou de onde é que os filósofos obtiveram a sua sabedoria? Quando leio Aristóteles ou Sócrates, fico impressionado — as suas ideias ainda hoje parecem actuais e relevantes.

É claro que a cultura ocidental tem as suas raízes tradicionais naqueles grandes gregos, os filósofos da liberdade. Na maioria das descrições do crescimento e da evolução do pensamento ocidental, eles são as sementes que germinaram a planta que se tornou a árvore de toda a cultura. A sua sabedoria, percepção e profunda compreensão do espírito humano deram origem à forma como pensamos, como agimos uns com os outros e como vemos o mundo.

Por exemplo:

Considero mais corajoso aquele que supera os seus desejos do que aquele que conquista os seus inimigos; pois a vitória mais difícil é sobre si mesmo. (Aristóteles)

Aquele que é ofendido não deve retribuir a injúria, pois de modo algum pode ser correcto cometer uma injustiça; e não é correcto retribuir uma ofensa ou fazer mal a qualquer homem, por mais que tenhamos sofrido com ele. (Sócrates)

Em termos de pura compreensão da natureza humana, os antigos filósofos gregos — Platão, Sócrates, Aristóteles, Plínio, Galeno e outros — tiveram um enorme impacto na sua época, e até nos dias de hoje. Alguns afirmam que toda a estrutura da cultura ocidental foi construída com base nas suas percepções. O grande estudioso e filósofo contemporâneo Alfred North Whitehead afirmou: "A caracterização geral mais segura da tradição filosófica europeia é que ela consiste numa série de notas de rodapé de Platão".

Se traçarmos a influência histórica dos filósofos gregos clássicos, descobriremos que estes fizeram uma série notável de contribuições para a filosofia islâmica primitiva, depois para o Renascimento europeu e para o Iluminismo, e, por fim, para a nossa cultura moderna. Baseamos grande parte da nossa governação, da nossa ciência e do nosso modo de vida básico na filosofia grega clássica.

Então, de onde é que os antigos filósofos gregos obtiveram as suas ideias incríveis, férteis, profundamente sábias e duradouras? Eram inteiramente originais, embora poucas ideias o sejam? Ou os gregos incluíram no seu pensamento ideias de outros?

Muitos estudiosos do período chegaram à conclusão de que a base conceptual da filosofia grega era proveniente do Oriente. Um dos mais respeitados estudiosos modernos da área, Martin Litchfield West, de Oxford, escreveu um livro baseado numa extensa investigação sobre o tema, intitulado "A Face Oriental de Helicon: Elementos Asiáticos Ocidentais na Poesia e nos Mitos Gregos". O livro de West concluiu que houve uma longa e rica interacção entre as culturas grega e romana no período pré-cristão e os profetas e praticantes do judaísmo do Oriente:

O contacto com a cosmologia e a teologia orientais ajudou a libertar a imaginação dos primeiros filósofos gregos; deu-lhes certamente muitas ideias sugestivas…

Esta conclusão fascinante – que ainda é tema de intenso debate entre os historiadores – subverte uma boa parte do pensamento ocidental tradicional. E se os fundamentos e as raízes da cultura ocidental remontassem a um passado anterior aos gregos?

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam claramente que sim:

Em verdade, os filósofos não negaram o Ancião de Dias... Considerai Hipócrates, o médico. Foi um dos filósofos eminentes que acreditavam em Deus e reconheciam a Sua soberania. Depois dele, veio Sócrates, que, de facto, era sábio, talentoso e honrado. Praticava a abnegação, reprimia as inclinações por desejos egoístas, e afastava-se dos prazeres materiais. Retirou-se para as montanhas, onde morava numa caverna. Dissuadiu os homens de adorar ídolos e ensinou-lhes o caminho de Deus, o Senhor da Misericórdia, até que os ignorantes se levantaram contra ele. Prenderam-no e mataram-no na prisão. Assim te relata esta Pena veloz. Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um defensor excepcional, dedicado a ela. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele que se apercebeu de uma natureza única, temperada e abrangente nas coisas, que se assemelha muito ao espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Tem uma declaração especial sobre este importante tema…

Depois de Sócrates veio o divino Platão, que foi aluno do primeiro e ocupou a cátedra da filosofia como seu sucessor. Ele reconheceu a sua crença em Deus e nos Seus sinais que impregnam tudo o que foi e será. Depois veio Aristóteles, o célebre homem de conhecimento. Foi ele que descobriu o poder da matéria gasosa. Estes homens, que se destacam como líderes do povo e são preeminentes entre eles, reconheceram todos a sua crença no Ser imortal que detém nas Suas mãos as rédeas de todas as ciências. (Bahá’u’lláh, Epístola da Sabedoria, ¶28-¶29)

Os ensinamentos Bahá’ís elogiam os filósofos gregos clássicos em diversas ocasiões e realçam também que se inspiraram no Oriente. Sobre este tema, ‘Abdu’l-Bahá cita as histórias do Oriente:

Está registado nas histórias do oriente que Sócrates viajou para a Palestina e para a Síria e aí, com homens versados nas coisas de Deus, adquiriu certas verdades espirituais; que, ao regressar à Grécia, promulgou duas crenças: uma, a unidade de Deus, e a outra, a imortalidade da alma após a separação do corpo; que estes conceitos, tão estranhos ao seu pensamento, causaram grande comoção entre os Gregos, até que, por fim, o envenenaram e mataram.

E isso é autêntico; pois os gregos acreditavam em muitos deuses, e Sócrates estabeleceu o facto de que Deus é uno, o que obviamente entrava em conflito com as crenças gregas. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 54)

Devemos muito a Sócrates e à filosofia que nos legou, mas talvez esta dívida seja, na verdade, para com Abraão e Moisés, os verdadeiros fundadores das verdades espirituais em que baseamos as nossas civilizações.

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Texto original: Where Do Philosophers Get their Wisdom? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Morte, Funeral e Natureza Humana

Por David Langness.


Quando era criança, vi um filme antigo que me fez reflectir profundamente sobre a morte. Chamava-se "On Borrowed Time" (“Tempo Emprestado”), e apresentava uma nova versão de uma antiga fábula grega sobre a Morte presa numa árvore, incapaz de realizar o seu trabalho.

É necessário ver o filme para perceber todo o seu impacto, mas vou resumir: basicamente, para salvar o seu amado avô, um rapaz engana o Sr. Brink – também conhecido como Ceifador, Morte, Tânatos – fazendo-o subir a uma árvore que o aprisiona.

Consequentemente, em todo o lado, as pessoas param de morrer.

Alerta spoiler: o rapaz depressa percebe que a morte é uma parte essencial da vida e que impedi-la significa prolongar o sofrimento de milhões e atrasar o progresso do mundo – e de cada alma individual.

A morte, no fundo, é essencial para a vida. A vida depende da morte, desenhando um ciclo que se repete desde sempre.

Talvez este filme me tenha ajudado a conhecer a Fé Bahá’í, que descobri e comecei a investigar alguns anos mais tarde, na adolescência. Os ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre a vida e a morte tocaram-me profundamente assim que os ouvi:

  • A primeira vida, que pertence ao corpo elementar, terminará, como foi revelado por Deus: “Toda a alma provará a morte”. Mas a segunda vida, que provém do conhecimento de Deus, não conhece a morte...
  • Ó Filho da Mundanidade! Agradável é o reino do ser, se o alcançares; glorioso é o domínio da eternidade, se ultrapassares o mundo da mortalidade; doce é o êxtase sagrado se beberes do cálice místico… Se alcançares esta posição, serás libertado da destruição e da morte, do trabalho e do pecado.
  • ...a verdadeira vida não é a vida da carne, mas a vida do espírito. Pois a vida da carne é comum tanto aos homens como aos animais, enquanto a vida do espírito é possuída apenas pelos puros de coração que beberam do oceano da fé e provaram do fruto da certeza. Esta vida não conhece a morte, e esta existência é coroada pela imortalidade.

Percebi cedo, depois de atingir a idade adulta e de sofrer com a morte dos pais, dos avós e de uma querida irmã mais nova, que uma das maiores e mais importantes tarefas que temos de enfrentar nesta existência física passa por aceitar a realidade da morte.

Todo o ser humano enfrenta essa mesma luta existencial.

A perda de um ente querido pode atingir-nos com muita, muita força. Sofremos, lamentamos e choramos, e a nossa dor pode dominar-nos. Descobri, na minha própria vida, que ajuda poder recordar e ter uma recordação física da presença deste ente querido – um lugar a visitar, onde a memória e a meditação possam evocar o espírito da pessoa que partiu.

O luto é, na verdade, apenas o amor expresso na ausência do ente querido, e por essa razão os ensinamentos Bahá’ís recomendam o enterro. 'Abdu'l-Bahá, numa carta que escreveu a Laura Clifford Barney sobre o enterro versus a cremação, disse:

… embora a alma humana tenha cortado a sua ligação com o corpo, os amigos e os entes queridos continuam veementemente apegados ao que resta, e não suportam vê-lo destruído instantaneamente. Não conseguem, por exemplo, ver o rosto do defunto apagado e espalhado, embora uma fotografia seja apenas a sua sombra e, no final, também deva desaparecer. Na medida do possível, protegem qualquer vestígio que lhes reste, seja um fragmento de barro, uma árvore ou uma pedra. Quão mais prezam a sua forma terrena! Nunca o coração pode aceitar contemplar o corpo querido de um amigo, de um pai, de uma mãe, de um irmão, de um filho, e vê-lo desfazer-se instantaneamente em nada — e esta é uma exigência do amor.

Porque guardamos as fotografias, vídeos e cartas dos nossos familiares falecidos? Guardamo-los porque nos recordam o amor que sentimos por eles.

Como sugere o antigo filme sobre o Sr. Brink, todos nós vivemos num tempo emprestado, as nossas vidas afastam-se constantemente do nosso primeiro nascimento e aproximam-se cada vez mais do segundo. Podemos ajudar-nos a nós próprios e às pessoas que amamos reconhecendo este facto e preparando-nos para a sua chegada inevitável. Parte desta preparação passa por planear dois eventos, respondendo a estas questões: Qual a melhor forma de desenvolver o meu espírito enquanto ainda estou aqui neste plano de existência material? E o que quero fazer com o meu corpo quando ele terminar a sua função?

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Texto original: Death, Burial, and Human Nature (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Um Profeta, Muitas Revelações

Por David Langness.

Os Profetas de Deus foram enviados, os Livros Sagrados foram escritos, para que o homem possa ser libertado. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 178)

Se fizer uma longa caminhada pela história do passado da humanidade, encontrá-la-á repleta de mestres espirituais, profetas divinos e mensageiros celestiais.

Cada época e cultura tem um poeta sagrado, um profeta de um futuro mais espiritual, um portador da luz que chama as pessoas para um propósito mais elevado, que brilha nos céus da consciência humana como um sol brilhante, que conduz e guia as almas humanas à paz, ao amor, à bondade e ao serviço altruísta à humanidade:

… os homens sempre foram ensinados e guiados pelos Profetas de Deus. Os Profetas de Deus são os Mediadores de Deus. Todos os Profetas e Mensageiros provêm de um único Espírito Santo e trazem a Mensagem de Deus, adequada à era em que surgem. A Luz Única está neles e eles são apenas Um entre si. (‘Abdu’l-Bahá in London, p. 23)

Mais do que qualquer outra mensagem, esta representa o princípio central da Fé Bahá’í — que todas as religiões são uma só. Os Bahá’ís acreditam que o Criador tem dado à humanidade um ensinamento espiritual contínuo ao longo do tempo, que constitui um sistema interligado de crença e verdade. Os Bahá’ís acreditam que este sistema único, trazido por profetas e mensageiros com nomes diferentes, de diferentes lugares e em diferentes épocas da história, tem uma única Fonte.

Esta visão da história humana, apresentada nas Escrituras Bahá’ís, enfatiza a unidade dos fundadores das religiões do mundo e o seu profundo impacto na humanidade:

É claro e evidente para ti que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, Que surgem vestidos com diferentes trajes. Se observares com olhos que discernem, contemplá-los-ás habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo o mesmo discurso e proclamando a mesma Fé. Assim é a unidade dessas Essências do Ser, aqueles Luminares de esplendor infinito e imensurável. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶162)

E se, perguntam os ensinamentos Bahá'ís, todos estes profetas de Deus forem "apenas Um entre si?" E se os mensageiros de que temos ouvido falar ao longo dos séculos — Abraão, Krishna, Buda, Moisés, Jesus, Maomé e agora Bahá’u’lláh, o profeta da Fé Bahá’í e o mais recente fundador de uma religião global — forem um e o mesmo?

Isto sugere algum tipo de reencarnação? Não, dizem os ensinamentos Bahá'ís. Em vez disso, sugere uma ligação essencial e mística entre estes mensageiros divinos, um laço de unidade que existe porque todos eles refletem a mesma luz da mesma fonte:

Se és um dos habitantes desta cidade no oceano da unidade divina, verás todos os Profetas e Mensageiros de Deus como uma só alma e um só corpo, como uma só luz e um só espírito, de tal modo que o primeiro entre eles será o último e o último será o primeiro. Pois todos eles Se ergueram para proclamar a Sua Causa e estabeleceram as leis da sabedoria divina. São, todos eles, os Manifestantes do Seu Ser, os Repositórios do Seu poder, os Tesouros da Sua Revelação, os Alvoreceres do Seu esplendor e as Auroras da Sua luz. Através deles manifestam-se os sinais de santidade nas realidades de todas as coisas e os símbolos de unidade nas essências de todos os seres. Através deles revelam-se os elementos da glorificação nas realidades celestiais e os expoentes do louvor nas essências eternas. Deles procedeu toda a criação e a eles regressará tudo o que foi mencionado. E uma vez que nos seus Seres mais íntimos são os mesmos Luminares e os mesmos Mistérios, deves ver as suas condições exteriores sob a mesma luz, para que os possas reconhecer todos como um Ser, ou melhor, encontrá-los unidos nas Suas palavras, discurso e expressão. (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, pp. 32-34)

Se o mundo pudesse começar a compreender os fundadores de todas as religiões como um só ser, cessariam imediatamente o conflito, a dor e a miséria causados pelas disputas religiosas. Unir-se-iam as crenças, unir-se-iam os povos e forjar-se-iam novos laços entre as nações. Permitir-se-ia que todos nós víssemos a comunhão nas nossas causas e as verdades partilhadas subjacentes nas nossas esperanças mais profundas.

Também nos permitiria ver a história humana como um único e grande processo de revelação progressiva:

Entre as dádivas de Deus está a revelação. Portanto, a revelação é progressiva e contínua. Ela nunca termina. É necessário que a realidade da Divindade, com todas as suas perfeições e atributos, resplandeça no mundo humano. A realidade da Divindade é como um oceano ilimitado. A revelação pode ser comparada à chuva. Consegue imaginar o parar da chuva? Sempre à face da Terra, algures, a chuva está a cair. Em resumo, o mundo da existência é progressivo. Está sujeito a desenvolvimento e crescimento...

Portanto, Bahá’u’lláh apareceu do horizonte do Oriente e restabeleceu as fundações essenciais dos ensinamentos religiosos do mundo. As desgastadas crenças tradicionais vigentes entre os homens foram eliminadas. Fez com que existisse camaradagem e concórdia entre os representantes das diferentes confissões, pelo que o amor se manifestou entre as religiões em conflito. Criou uma condição de harmonia entre as seitas hostis e ergueu a bandeira da unidade do mundo humano. Estabeleceu os alicerces da paz internacional, fez com que os corações das nações se unissem e conferiu uma nova vida aos vários povos. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 377-379)

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Texto original: One Prophet, Many Revelations (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O que aconteceu aos Bahá’ís alemães durante o regime Nazi?

Por Caroline Fowler.


A Fé Bahá’í surgiu na Pérsia em meados do século XIX, mas rapidamente se espalhou pela Europa e a América do Norte. Na Alemanha, porém, os nazis tentaram impedi-la.

A implantação da Fé Bahá’í na Alemanha começou em 1905, quando um pequeno grupo de Bahá’ís vindo dos Estados Unidos se instalou no país.

Duas pessoas deste grupo inicial tinham origens alemãs: Edwin Fischer e Alma Knobloch. Edwin Fischer, dentista, emigrou da Alemanha para Nova Iorque em 1878, tornou-se Bahá’í e depois regressou a Estugarda. Entusiasta da Fé Bahá’í, Fischer falava dos ensinamentos Bahá’ís com frequência, incluindo aos seus pacientes. A outra Bahá’í alemã, Alma Knobloch, aceitou a Fé nos Estados Unidos em 1903 e chegou à Alemanha vinda da casa da sua família em Washington, D.C., em 1907. Pouco depois, alguns alemães começaram a converter-se à Fé Bahá’í, e em 1908, formou-se a primeira Assembleia Espiritual Local.

Cinco anos mais tarde, em 1913, ‘Abdu’l-Bahá, o líder da Fé e filho do fundador, Bahá’u’lláh, viajou para Estugarda, Esslingen e Bad Mergentheim, consolidando o lugar da religião na Alemanha.

Após a Primeira Guerra Mundial, a comunidade Bahá’í na Alemanha continuou a crescer, tornando-se mais activa e visível, como evidenciado pelo criação uma editora de livros Bahá’ís e pela realização de conferências nacionais. A Fé cresceu e espalhou-se, o que levou à eleição de Assembleias Espirituais Locais Bahá’ís em diversas cidades alemãs.

No entanto, esta dinâmica começaria a mudar em 1936, quando os estabelecimentos comerciais pertencentes a Bahá’ís em Estugarda foram vandalizados e os proprietários ameaçados, fazendo eco do preconceito do regime nazi contra os judeus – dado que muitos dos novos Bahá’ís alemães eram de origem judaica. Em 1937, o Reichsführer nazi das SS, Heinrich Himmler, um dos principais arquitectos do Holocausto, emitiu uma lei que proibia a Fé Bahá'í e todas as suas instituições devido às suas "tendências internacionalistas e pacifistas".

Embora os Bahá’ís não se envolvam na política partidária, os ensinamentos Bahá’ís apelam assertivamente ao fim da guerra e à unidade de todas as nações, como declarou ‘Abdu’l-Bahá:

… o propósito do Manifestante de Deus e do alvorecer das luzes ilimitadas do Invisível é educar as almas dos homens e aperfeiçoar o carácter de cada ser humano – para que os indivíduos abençoados, que se libertaram das trevas do mundo animal, ascendam com as qualidades que são os adornos da realidade humana. … que os desprovidos recebam a sua parte do mar ilimitado, e os ignorantes se saciem na fonte viva do conhecimento; que os sedentos de sangue abandonem a sua selvajaria, e os que têm garras afiadas se tornem gentis e tolerantes, e os que amam a guerra procurem, em vez disso, a verdadeira conciliação; que os brutos, com as suas garras afiadas como navalhas, usufruam dos benefícios da paz duradoura; que os impuros aprendam que existe um reino de pureza, e os corruptos encontrem o caminho para os rios da santidade. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l‑Bahá, #2)

O decreto de Himmler lançou uma perseguição aos Bahá’ís – os nazis destruíram vários memoriais Bahá’ís, confiscaram ou destruíram todos os arquivos e a maioria dos livros particulares e, por fim, em 1939, começaram a prender membros da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís da Alemanha.

Em 1942, ocorreram múltiplas detenções, tendo alguns Bahá’ís alemães sido enviados para campos de concentração, onde acabaram por morrer. Os dirigentes Bahá’ís presos foram julgados em Darmstadt em 1944, com claros indícios de que o veredicto já estava pré-determinado. Apesar da forte defesa, o governo nazi considerou todos os seguidores culpados, aplicando-lhes multas elevadas e ordenando a dissolução de todas as actividades e convívios Bahá’ís.

A história da Fé Bahá’í na Alemanha, especialmente antes e durante a Segunda Guerra Mundial, é relativamente escassa, incluindo para os próprios Bahá’ís. O governo destruiu a maioria dos documentos administrativos, livros publicados e textos pessoais durante este período. No entanto, algumas histórias angustiantes e trágicas da perseguição aos Bahá’ís na Alemanha nazi estão hoje disponíveis através de cartas, relatos de testemunhas oculares, entrevistas e memórias. Ao estudar estes casos específicos de perseguição, incluindo prisões e assassinatos, podemos compreender o tratamento frequentemente negligenciado dado aos grupos religiosos minoritários sob o regime de Hitler.

O compromisso das vítimas com os princípios fundamentais da Fé Bahá’í e a sua recusa em afastarem-se das actividades Bahá’ís exemplificaram uma prática de dissidência fiel a um sistema que se opunha às suas crenças. Himmler e o regime nazi sentiram-se ameaçados por Bahá’ís que desejavam a paz e unidade internacional; mas, apesar da repressão e da crueldade, não conseguiram impedir a realização destes objectivos pelos Bahá’ís alemães.

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Texto original: What Happened to Germany’s Baha’is During the Nazi Regime? (www.bahaiteachings.org)

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Caroline Fowler é natural de Austin, Texas. Está a fazer um doutoramento em Neurociência Comportamental na Universidade de Baylor. Recentemente, licenciou-se pelo Austin College, após ter concluído a sua tese de honra em neurociência. A sua investigação futura irá explorar a relação entre o cérebro e o sistema imunitário, especificamente no que diz respeito à fadiga e à depressão relacionadas com o cancro. Embora seja uma apaixonada pela ciência, tem um profundo amor pela história, com particular ênfase na Europa de Leste e na Alemanha.

sábado, 10 de janeiro de 2026

O Argumento Ambiental contra a Cremação e o Embalsamamento

Por David Langness.


No debate entre a cremação/enterro, os ensinamentos Bahá’ís posicionam-se decisivamente a favor do enterro, por três razões principais: a protecção do ambiente, a natureza humana e a dignidade dos nossos corpos.

Neste artigo analisaremos a primeira destas razões e examinaremos os argumentos ambientais contra a cremação e o embalsamamento.

'Abdu'l-Bahá, em resposta a uma pergunta sobre cremação feita pela pioneira Bahá'í americana Laura Clifford Barney, escreveu:

No que diz respeito aos fenómenos universais, por mais que o intelecto humano se esforce por encontrar os procedimentos correctos ou o sistema perfeito, nunca poderá descobrir algo semelhante à criação divina e à sua ordem de transferências e trajectórias dentro da cadeia da vida. Pois as transferências, as composições, os encontros e dispersões de elementos, de partes constituintes e de substâncias, sucedem numa cadeia poderosa e impecável. Observai as leis universais reais e vede quão solidamente estabelecidas, seguras e fortes são.

Tal como a composição, a formação, o crescimento e o desenvolvimento do corpo físico ocorreram gradualmente, também a sua decomposição e dispersão devem ser graduais. (Additional Tablets, Extracts and Talks)

Esta cadeia da vida, como lhe chamou 'Abdu'l-Bahá, refere-se também à "grande cadeia do ser", ou em latim, à scala naturae ou "escada da natureza". O conceito surgiu originalmente com Platão e Aristóteles, e constitui a base científica para ordenar e classificar a matéria viva e não viva, desde os minerais e as plantas aos animais e aos seres humanos.

A Grande Cadeia do Ser e a Hipótese Gaia

Nas palavras de ‘Abdu’l-Bahá, a grande cadeia do ser refere-se também à biologia evolutiva de toda a existência, à inter-relação de todos os seres e ao movimento e transmissão contínuos de elementos entre cada nível da vida. Numa palestra proferida em Paris, no início do século XX, ‘Abdu’l-Bahá elaborou – e, ao fazê-lo, propôs pela primeira vez – a " hipótese Gaia", o conceito de que a própria Terra manifesta vida:

Na criação física, a evolução ocorre de um grau de perfeição para outro. O mineral, com as suas perfeições minerais, passa para o vegetal; o vegetal, com as suas perfeições, passa para o mundo animal, e assim sucessivamente até ao da humanidade. Este mundo está repleto de aparentes contradições; em cada um destes reinos (mineral, vegetal e animal), a vida existe no seu grau; embora, comparada com a vida no homem, a Terra pareça morta, também vive e tem vida própria. (Paris Talks, p.66)

A hipótese Gaia, desenvolvida 60 anos mais tarde pelo pioneiro químico e ambientalista britânico James Lovelock e pela microbiologista evolucionista norte-americana Lynn Margulis, defende que os organismos vivos interagem constantemente com o meio inorgânico que os rodeia, formando um sistema sinérgico e auto-sustentável. Este sistema e o seu constante movimento de elementos perpetuam as condições para que a vida prospere no nosso planeta – o que significa que a própria Terra está viva.

Este sistema “poderoso”, como salientou 'Abdu'l-Bahá na sua resposta a Laura Clifford Barney, surge da ordem natural – o que significa que os corpos humanos, como parte integrante da criação física, devem poder regressar ao ecossistema de forma natural e gradual:

… a composição e a decomposição, o agrupamento, a dispersão e a deslocação de todas as criaturas devem ocorrer segundo a ordem natural, o governo divino e a grandiosa lei de Deus, para que nenhuma perturbação ou dano afecte as relações essenciais que emergem das realidades internas das coisas criadas. É por isso que, segundo a lei de Deus, nos é ordenado que sepultemos os mortos. (Additional Tablets, Extracts and Talks)

A cremação interrompe e anula violentamente estes processos naturais graduais, transformando imediatamente os corpos em dois subprodutos: as cinzas e a poluição atmosférica.

A revista National Geographic, num artigo de 2019 sobre os factos científicos da cremação, destacou que "a cremação requer muito combustível e resulta em milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano – o suficiente para que alguns ambientalistas estejam a tentar repensar o processo".

A cremação de um corpo – afinal, os seres humanos são formas de vida baseadas no carbono – acrescenta mais de 225 kg de CO² à atmosfera. No mundo ocidental, a cremação utiliza combustíveis fósseis para gerar o calor acima dos 650 °C necessário para queimar os corpos. A maioria das cremações no mundo, que ocorrem em países hindus como a Índia, utiliza a madeira como combustível, o que também contribui para a desflorestação e aumenta a pegada de carbono. Além disso, o calor intenso necessário para a cremação resulta na vaporização tóxica de mercúrio proveniente de obturações dentárias, tornando-se uma das principais fontes da crescente poluição atmosférica por mercúrio no mundo.

Porque é que os Bahá'ís não embalsamam

O embalsamamento dos corpos dos mortos antes do enterro é uma prática secular. Basicamente, o embalsamamento consiste em drenar o sangue e injetar substâncias químicas e conservantes, como o formaldeído, o glutaraldeído e o metanol, no sistema arterial do falecido, além de remover cirurgicamente os fluidos internos do corpo. Embora o embalsamamento não seja obrigatório por lei na grande maioria dos países, os agentes funerários sugerem frequentemente aos familiares enlutados que o falecido seja embalsamado, talvez porque algumas agências funerárias lucrem consideravelmente com o procedimento.

O embalsamamento atrasa o processo natural de decomposição, permitindo funerais com caixão aberto, onde o defunto pode ser visto. No entanto, após o sepultamento, os fluidos tóxicos provenientes do embalsamamento acabam por ser absorvidos pelo solo em redor da sepultura e podem contaminar o lençol freático. Por esta razão, o embalsamamento tem sido questionado do ponto de vista ambiental.

Os ensinamentos Bahá’ís proíbem o embalsamamento, a menos que seja exigido por lei, como explica esta carta de 1988 escrita em nome da Casa Universal de Justiça:

Bahá’u’lláh aconselhou que é preferível que o enterro ocorra o mais cedo possível após o falecimento. Quando as circunstâncias não permitam o sepultamento do corpo logo após a morte, ou quando há uma exigência da lei civil, o corpo poderá ser embalsamado, desde que o processo utilizado tenha o efeito de retardar temporariamente a decomposição natural por um curto período. Contudo, o corpo não deve ser submetido a um processo de embalsamamento que tenha o efeito de preservá-lo sem decomposição por um longo período; tais processos visam geralmente preservar o corpo indefinidamente.

As leis Bahá’ís sobre o enterro exigem que os corpos dos defuntos sejam tratados com bondade e cuidado, dado que outrora foram os repositórios do espírito humano. Isto significa simplesmente lavar o corpo, envolvê-lo numa mortalha limpa de algodão ou seda e sepultá-lo na terra num caixão de madeira nobre, cristal ou pedra. O enterro deve ocorrer logo após a morte, recomendam os ensinamentos Bahá’ís, e a uma distância de até uma hora do local do falecimento, para evitar o transporte de corpos por longas distâncias. No enterro, os Bahá’ís costumam ler e recitar a oração de Bahá’u’lláh pelos mortos, que começa assim:

Ó meu Deus! Esta é a Tua serva e filha da Tua serva, que acreditou em Ti e nos Teus sinais, e voltou o seu rosto para Ti, totalmente desapegada de tudo, excepto de Ti. Tu és, em verdade, dentre os que mostram misericórdia, o mais misericordioso.

Trata-a, ó Tu que perdoas os pecados dos homens e ocultas as suas faltas, como convém ao céu da Tua generosidade e ao oceano da Tua graça. Concede-lhe admissão nos recintos da Tua misericórdia transcendente que existia antes da fundação da terra e do céu. Não há outro Deus além de Ti, o Sempre Clemente, o Mais Generoso.

(Se a pessoa falecida for um homem, a oração é: “Ó meu Deus! Este é o Teu servo e filho do Teu servo…”, etc.)

Composição e Decomposição: O Ciclo Natural da Vida

As leis funerárias Bahá’ís preconizam a simplicidade e a dignidade no tratamento da morte, pois o embalsamamento ou a cremação de corpos humanos interrompem e desviam o ciclo natural da vida. Quando os seres vivos morrem, decompõem-se naturalmente, transformando-se nos nutrientes necessários a outras formas de vida. Os Bahá’ís acreditam que este processo ambiental natural — o ciclo da vida e a inter-relação de todos os seres vivos — deve ser permitido que ocorra de acordo com a intenção de Deus e da natureza. Em Respostas a Algumas Perguntas, 'Abdu'l-Bahá disse:

Quanto às coisas criadas, a sua vida consiste na composição e a sua morte na decomposição. Mas a matéria e os elementos universais não podem ser completamente destruídos e aniquilados. Não, a sua aniquilação é meramente uma transformação. Por exemplo, quando um homem morre, o seu corpo transforma-se em pó, mas não se torna absolutamente inexistente: conserva uma existência mineral, mas ocorreu uma transformação, e essa composição foi submetida a decomposição. O mesmo acontece com a aniquilação de todos os outros seres; pois a existência não se torna absolutamente inexistente, e a absoluta inexistente não adquire existência. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. 53)

Este tipo de enterro compassivo e digno – que trata os nossos corpos como parte integrante e importante da teia da vida – faz sentido tanto do ponto de vista lógico como ecológico.

Ao observarmos belas árvores e plantas floridas a crescer nos cemitérios, podemos começar a reconhecer a grande beleza deste ciclo da vida e a compreender o seu significado ambiental e espiritual.

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Texto original: The Environmental Case Against Cremation and Embalming (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 3 de janeiro de 2026

O que a Cremação nos diz sobre a Morte

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá'ís referem-se à morte como uma "mensageira da alegria" – como o princípio de uma maravilhosa viagem rumo à vida eterna. 'Abdu'l-Bahá chegou mesmo a comparar a alma humana libertada a um pássaro que sai da gaiola:

Considerar que o espírito é aniquilado após a morte do corpo é imaginar que um pássaro preso numa gaiola morre quando se destrói a gaiola, apesar do pássaro nada ter a temer com a destruição da gaiola. Este corpo é como uma gaiola e o espírito é como o pássaro: vemos que este pássaro, liberto da sua gaiola pode voar livremente… não há maior paraíso para os pássaros agradecidos do que serem libertados da sua gaiola. (Some Answered Questions, newly revised edition, p. 262)

Com o passar dos anos, aprendi a aceitar e a acolher a morte, e, na verdade, agora aguardo pelo desmoronar da minha própria prisão. A morte virá no seu devido tempo, claro, e eu adoro estar vivo neste plano de existência, por isso não tenho pressa. Mas quando ela chegar, certamente, saciará a minha intensa curiosidade e expectativa sobre o que espera o meu ser interior na próxima fase da vida.

Mas, infelizmente, a nossa cultura cada vez mais parece encarar a morte de uma forma diferente. As pessoas não só a temem, como também desejam permanecer jovens para sempre; negam a existência da morte e apagam os seus vestígios eliminando completamente os corpos dos falecidos. O rápido aumento da cremação, segundo os especialistas, ilustra esta negação.

O jornal Washington Post noticiou recentemente, numa ampla investigação sobre o assunto, que "O que o impressionante aumento da cremação revela a mudança na concepção de morte nos Estados Unidos".

Os dados estatísticos comprovam esta conclusão. Nos Estados Unidos, mais pessoas do que nunca estão a optar pela cremação. Em 2020, o Washington Post noticiou que “56% dos americanos que morreram foram cremados, mais do dobro dos 27% registados duas décadas antes…” e que estas “percepções em rápida transformação sobre o destino dos corpos também levaram a mudanças na forma como homenageamos os nossos entes queridos — e refletem uma nação cada vez mais secular, transitória e, segundo alguns, com fobia da morte”.

Assim, nesta breve série de artigos sobre a nossa morte física, sinto-me obrigado a examinar esta tendência, a debater os seus méritos e deméritos, e a apresentar o melhor argumento possível, tendo em mente os ensinamentos Bahá’ís, em defesa do enterro dos nossos corpos em vez da cremação.

Quando os Meus Pais Morreram

Recentemente, num belo dia de primavera, durante uma longa viagem de carro, à saída da minha casa nas florestas do norte da Califórnia, fiquei com fome. Parei num pequeno restaurante de comida para levar no caminho, pedi algo para comer num balcão e sentei-me no carro para almoçar.

Enquanto comia, através do para-brisas, pude ver do outro lado da rua, uma casa antiga, grande e bem conservada, num bairro residencial, rodeada de árvores frondosas e jardins impecáveis. Nas traseiras da casa, reparei numa grande chaminé e pude ver ondas de calor a sair dela, o que me fez pensar: porque é que alguém acenderia uma lareira ou um aquecedor num dia tão quente e ensolarado?

Intrigado, interrompi o almoço, saí do carro e atravessei a rua para dar a volta até à frente daquela curiosa casa. Já não era uma residência, como obviamente fora um dia, e a placa na frente dizia "Lakeside Colonial Chapel Funeral and Cremation Services" (Serviços Funerários e de Cremação da Capela Colonial Lakeside). Assim que vi a placa, percebi o que provocava aquelas ondas de calor que saíam daquela chaminé. Voltei para o carro, sem fome, deitei fora o resto do meu almoço e fui-me embora.

Como veterano de guerra, não tenho aversão à morte, mas aquela pira crematória em chamas fez-me lembrar a dolorosa morte dos meus pais, alguns anos antes. Os meus pais foram cremados, e embora eu tenha tentado dissuadi-los enquanto eram vivos, ambos insistiram na cremação por ser a opção mais barata e simples.

Lamento a sua decisão, não porque eu e a minha família não possamos visitar os túmulos dos meus pais, ou porque eu queira que exista algures uma recordação física da sua presença terrena, mas porque temo que isso possa ter dificultado o progresso das suas almas na próxima vida.

A Transição entre esta Vida e a Próxima

Se acredita que as nossas vidas terminam com a morte, então incinerar o corpo sem vida pode parecer fazer sentido. Mas e se a vida não terminar quando o coração deixa de bater? E se a alma humana seguir para uma existência espiritual superior, como prometem todas as religiões e filosofias metafísicas? E se este processo for gradual, com os nossos espíritos a desprenderem-se lentamente dos nossos corpos?

E se a morte for realmente um segundo nascimento?

Se for esse o caso, e lembrando que o nosso primeiro nascimento, saindo do ventre da nossa mãe, não foi uma transição fácil, então não faria sentido que a passagem deste mundo material para a vida após a morte, no reino espiritual, representasse também uma passagem difícil para a alma?

Muitas pessoas que tiveram experiências de quase-morte — que foram declaradas clinicamente mortas e depois reanimadas, regressando à vida — relatam que a sua consciência permaneceu, mas que a separação do corpo físico não foi fácil nem rápida. Tendemos a pensar nos nossos corpos como o nosso "eu" — mas quando o eu e o corpo se separam no final da nossa existência material, obviamente aprendemos que não é bem assim. Não somos os nossos corpos — em vez disso, temos consciência humana, uma realidade eterna a que alguns chamam alma.

Assim, quando a porta para a liberdade se abre, o pássaro, habituado apenas àquele ambiente restrito e familiar, pode sentir-se inclinado a permanecer ali, confinado na sua gaiola – mas, na hora da morte, não temos essa escolha.


Assim que soltamos o nosso último suspiro – o momento fatídico que, mais cedo ou mais tarde, chegará para cada um de nós – as nossas almas iniciam a sua viagem para o outro mundo. Os ensinamentos de todas as grandes religiões asseguram-nos, desde sempre, que o nosso espírito mais íntimo é imortal, destinado a continuar numa existência contínua e eterna. Nas Suas Escrituras, Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá’í, fez a mesma promessa clara e explícita:

E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe decerto que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. (SEB, LXXXI)

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que todas as pessoas farão esta viagem espiritual para o outro mundo, e ali, o que fizermos neste mundo determinará a nossa vida eterna. Os Bahá’ís não acreditam na existência de um lugar chamado inferno ou purgatório, e compreendem que cada alma entrará inevitavelmente no paraíso da existência seguinte. 'Abdu'l-Bahá escreveu: "...as almas dos filhos do Reino, após a sua separação do corpo, ascendem ao reino da vida eterna."

Devido à natureza da morte e à viagem espiritual que ela implica para cada um de nós, os ensinamentos Bahá’ís convidam-nos a ter uma atenção mais afectuosa, cuidadosa e gradual pela viagem transcendente que os nossos espíritos empreendem quando os nossos corpos expiram. De facto, estes ensinamentos oferecem sábias orientações e instruções sobre como garantir a passagem mais tranquila e pacífica do reino físico para o espiritual. Têm também em conta algo que poucas pessoas consideram quando pensam na morte: o importante impacto do destino dos nossos corpos físicos na teia interdependente da vida, da natureza e do ambiente.

No próximo ensaio desta série, começaremos a examinar esta orientação e tentaremos compreender a sua sabedoria.

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Texto original: What Cremation Tells Us about Death (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.