sábado, 26 de novembro de 2022

O que podemos fazer sobre a crescente ameaça nuclear?

Por Rodney Richards.


A história conhecida da humanidade abrange cerca de cinco a seis mil anos, e a nossa pré-história abrange mais de três milhões de anos. Estivemos em guerra durante a maior parte desse tempo. Será que, agora, podemos parar?

Os períodos passados de paz, infelizmente, serviram apenas como anomalias relativamente breves entre períodos prolongados de guerra, conquista e escravidão. Normalmente, a paz tem sido episódica e regional, por vezes apenas numa aldeia ou cidade, ou numa pequena região de terra. Enquanto isso, os países invadem e defendem-se quase constantemente, pelo menos em algum lugar do mundo.

Hoje, uma guerra destrutiva entre a Rússia e a Ucrânia faz tremer o mundo. Afinal, a Rússia é uma potência nuclear.

Existe uma força oculta, destrutiva e letal

Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í, escreveu estas palavras pouco antes de falecer, em 1892:

Coisas estranhas e espantosas existem na terra, mas estão ocultas da mente e da compreensão dos homens. Essas coisas são capazes de mudar toda a atmosfera da terra e sua contaminação mostrar-se-ia letal. (Kalimát-i-Firdawsíyyih, “Palavras do Paraíso”)

Com o surgimento das armas nucleares, mais de meio século depois, e com o primeiro uso de bombas atómicas em Agosto de 1945, começou a corrida para desenvolver cada vez mais desses terríveis aparelhos apocalípticos. Hoje, nove países (que se saiba!) possuem essas armas de destruição em massa, e vários outros desejam tê-las.

Destruição Mútua Garantida


Mas desde 1945, nenhuma arma nuclear foi usada na guerra. Em vez disso, confiamos numa política de dissuasão: o chamado “Destruição Mútua Garantida” (em inglês é referido como “MAD” - “Mutual Assured Destruction”). Esta política descreve adequadamente o absurdo e a loucura da criação de armas que podem contaminar letalmente e destruir a raça humana. MAD (que em inglês também significa “louco”) diz-nos que não importa quem comece uma guerra nuclear, todos sofrerão as consequências. No entanto, MAD é apenas um obstáculo psicológico, com pouca ou nenhuma influência sobre os caprichos de líderes desequilibrados ou sedentos de poder, indiferentes às consequências.

Hoje, existem mais de 13.000 ogivas nucleares, em terra, em submarinos nucleares nos oceanos e talvez até no espaço. Neste momento, a Coreia do Norte está a testar os seus sistemas de lançamento de mísseis para armas nucleares.

Líderes políticos e militares e muitos outros acreditam que ter armas nucleares como um temível meio de retaliação constitui uma protecção contra agressões armadas. Mas será mesmo assim? Ou deveria o medo da utilização dessas armas - hoje mil vezes mais poderosas do que as bombas usadas para destruir duas cidades japonesas em 1945 - fazer com que todos nós tenhamos pavor dessa tão terrível aniquilação? E se temos medo, porque não abolimos essas armas?

Em 1936, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, escreveu:

Os acontecimentos impetuosos e violentos que, nos últimos anos, levaram quase ao ponto de colapso total da estrutura política e económica da sociedade são muito numerosos e complexos… para se chegar a uma avaliação adequada do seu carácter. Nem essas tribulações, por muito dolorosas que tenham sido, parecem ter atingido o seu clímax e exercido toda a força do seu poder destruidor. O mundo inteiro, independentemente da perspectiva e forma como o examinamos, oferece-nos o espetáculo triste e lamentável de um vasto organismo, enfraquecido e moribundo, que está a ser dilacerado politicamente e estrangulado economicamente por forças que deixou de controlar ou compreender.

Três anos mais tarde, os exércitos de Adolfo Hitler invadiram a pacífica Polónia, iniciando uma batalha mundial contra ditaduras expansionistas. Foram cometidas atrocidades com novas máquinas de matar. A própria sobrevivência de todos os judeus, e outros grupos sociais, foi comprometida. Hoje, divisões políticas, propaganda e agressão, combinadas com um poder de fogo incalculável, ameaçam toda a vida pacífica neste planeta. A paz na maioria dos lugares pode ser a ausência de guerra total, mas a ameaça da guerra paira sobre cada cabeça humana.

Como podemos fazer isto parar?


Individualmente, se o crime não compensa, se formos multados ou punidos por mau comportamento, geralmente paramos. Politicamente, pode significar obter ou perder votos para uma determinada ideologia. Para os negócios, o balanço de contas costuma ditar comportamentos e afectação de recursos. O governo tem o trabalho mais difícil, fornecendo serviços sem receita directa porque uma parte da população precisa deles e não pode pagá-los. É o caso da educação que afirmamos universalmente como uma responsabilidade do estado, independentemente do rendimento individual. Os impostos pagam serviços que não geram lucros em dinheiro, mas são necessários para o bem-estar da nação.

Tudo isso mostra que, enquanto seres humanos, trabalhamos principalmente numa base na recompensa/punição, tal como Bahá’u’lláh escreveu: “Aquilo que educa o mundo é a Justiça, pois ela apoia-se em dois pilares, recompensa e punição. Esses dois pilares são as fontes de vida para o mundo.”

Esta formulação moral essencial está presente em toda a estrutura humana. Todas as tomadas de decisão racionais avaliam os prós e os contras, não apenas de forma prática, mas também moral. Então, como recompensamos a não proliferação e dissuadimos novas aquisições? Obviamente, o brutal poder destrutivo das armas nucleares não impede que certos líderes confiem nelas como ameaças ou na sua possível utilização, como vimos recentemente. Devemos impedir a sua utilização antes que seja tarde demais, e a destruição mútua garantida se torne uma realidade. Esse tipo de desarmamento poderia acontecer se encontrássemos maneiras de decretar uma proibição global sobre a posse e o desenvolvimento de armas nucleares.

Mas hoje não existe nenhuma instituição ou grupo de líderes que tenha qualquer influência real sobre as nove nações que possuem armas nucleares. A doutrina da soberania nacional é um obstáculo – não apenas ao desarmamento, mas também à sobrevivência da nossa espécie. Isso significa que, para sobreviver, devemos criar um modelo, e desenvolver uma mudança substancial na actual estrutura governação mundial.

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Texto original: What Can We Do About the Growing Nuclear Threat? (www.bahaiteachings.org)


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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 19 de novembro de 2022

Uma Morte Jubilosa

Por David Langness.
 

Ó FILHO DO SUPREMO!
Fiz da morte uma mensageira de alegria para ti. Porque te lamentas? Fiz a luz para derramar sobre ti o seu esplendor? Porque te ocultas dela?

Ó FILHO DO ESPÍRITO!
Com as alegras novas de luz, Eu te saúdo; regozija-te! À corte da santidade, Eu te chamo; permanece aí para que possas viver em paz para sempre.

Ó FILHO DO ESPÍRITO!
O espírito da santidade leva-te as boas-novas da reunião; porque te lamentas? O espírito do poder confirma-te na Sua causa; porque te ocultas? A luz do Seu semblante guia-te; como podes perder-te? (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #32, #33, #34)

Todos temos uma vida e uma morte.

O meu querido amigo Truitt White alcançou a sua morte há algumas semanas. Tivemos um serviço religioso em sua memoria no Centro Bahá'í de Los Angeles. Truitt era relativamente jovem, mas tinha vivido muita coisa na sua vida neste mundo material. Como Bahá'í, Truitt foi o exemplo do que 'Abdu'l-Bahá quis dizer quando incitou todas as pessoas a tornarem-se "cidadãos do mundo" - ele viveu em muitos lugares diferentes do mundo e valorizou esses lugares com o seu sorriso radiante, os seus modos gentis e o seu belo carácter.

Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever o Truitt, acho que seria doçura. E não me refiro àquele adoçante artificial – o Truitt era verdadeira e naturalmente doce. Ele tinha um aspecto amoroso, se é que percebem o que quero dizer. Quando se conhecia o Truitt, o brilho nos seus olhos dizia-nos que ele amava a humanidade. Ele tinha um sorriso fácil, adorava uma boa piada e entusiasmava-se quando alguém levantava o tema da espiritualidade.

O Truitt passou a vida a educar crianças e, quando o víamos em grandes grupos de crianças, sabíamos que eles também sentiam o seu espírito amoroso e doce. O serviço religioso em sua memoria comoveu-nos a todos. Várias centenas de pessoas estiveram presentes, e parecia as Nações Unidas. Compareceram pessoas de praticamente todos os grupos raciais, religiosos e étnicos que possamos imaginar. E eles não estavam apenas a marcar presença – eles choraram, cantaram e celebraram a vida maravilhosa do Truitt. Cantámos canções gospel e orações Bahá'ís. Rimos, conversámos, comemos, convivemos e conhecemos novos amigos num espírito de camaradagem afectuoso e generoso. E percebi, a meio do serviço religioso, que Truitt tinha deixado um legado de alegria no mundo. Os seus filhos e netos, tanto biológicos quanto espirituais, todos lamentavam a sua grande perda. Mas, ao mesmo tempo, eles também recordavam com carinho a felicidade de Truitt nesta vida e a sua entusiasta antecipação da alegria que o aguardava na próxima. Os seus amigos em todo o mundo lamentaram a sua ausência enquanto aplaudiam a sua presença. Orámos pelo progresso da sua alma luminosa na sua viagem para o grande destino místico que todos temos em comum.

O Truitt adorava as três citações referidas acima; são talvez das mais conhecidas e memorizadas entre todas as palavras de Bahá'u'lláh nas Palavras Ocultas, esse pequeno e poderoso livro de aforismos espirituais. A alegria que Truitt sentiu nesta vida, disse-me ele uma vez, só poderia aumentar no próximo mundo. O Truitt sabia, no fundo da sua alma, que a sua morte seria uma ponte para uma enorme felicidade e liberdade, para a corte da santidade.

Essa promessa – o âmago de toda a fé –assegura-nos simplesmente que esta existência não é o fim. Quando Bahá'u'lláh diz "Fiz da morte uma mensageira de alegria", isso dá-nos não apenas consolo, mas também esperança; não apenas conforto, mas também amor; não apenas um desejo, mas também uma promessa de reencontro, luz e alegria eterna.

Boa viagem, meu amigo.

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Texto original: A Joyful Death (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 12 de novembro de 2022

A diferença crítica entre Cristo e o Criador

Por Tom Tai-Seale.


Cresci numa família Cristã, e nada sabia sobre teologia Cristã, excepto que estava relacionada com um conceito misterioso chamado Trindade e que Jesus era de alguma forma a encarnação de Deus.

Quando me tornei adulto, porém, percebi que sabemos muito pouco sobre a natureza do Criador, e questionei-me se a afirmação de que Deus se fez carne tem algum sentido racional. Na verdade, essa afirmação parece demasiado greco-romana; é algo que saiu da cultura da época, e não dos ensinamentos reais de Cristo.

Os custos dessa crença na encarnação foram enormes: criou-se uma barreira insuperável para a maioria dos Judeus em relação ao Cristianismo; permitiu que os Cristãos acreditassem que eram moralmente superiores aos Judeus e, consequentemente, tratá-los (aos Judeus e a outros) de forma vergonhosa; criou uma análise teológica inútil, interminável e "fabricante de hereges" dentro do Cristianismo; e colocou os Cristãos em conflito com todos os Muçulmanos.

Isto não significa que Jesus fosse apenas um homem comum - não era. Ele foi um Eleito de Deus, um mensageiro divino com uma missão divina, qualidades divinas, palavras divinas e actos divinos. Mas isso não o tornava Deus; isso fê-Lo agente de Deus - Seu filho, se preferirem - embora não haja necessidade de afirmar esta filiação de forma física. Nem há necessidade de nos deixarmos enredar pela metafísica do que significa ser o único filho preexistente de Deus. O aspecto mais importante é o seguinte: Jesus foi agente de Deus de uma forma diferente de nós, e as pessoas foram chamadas a segui-Lo.

Os ensinamentos Bahá’ís deixam isso claro. 'Abdu'l-Bahá escreveu:

... Os Bahá'ís dizem que a soberania de Cristo era uma soberania celestial, divina e eterna, e não uma soberania napoleónica que desaparece num curto espaço de tempo. Durante quase dois mil anos esta soberania de Cristo esteve estabelecida, e ainda persiste, e por toda a eternidade aquele Santo Ser será exaltado num trono eterno. (citado em Bahá’u’lláh and the New Era, pag. 6)

Mas alguns cristãos podem argumentar: E os milagres? Os milagres não provam que Jesus era Deus encarnado? Não!

Em primeiro lugar, nos tempos antigos, acreditava-se que muitas pessoas tinham feito milagres. Para perceber isso, basta ler Heródoto, que viveu quatrocentos anos antes de Cristo. Além disso, há milagres atribuídos, com ou sem razão, aos fundadores de todas as religiões e a muitos dos seus seguidores. Então, se acreditamos que a realização de milagres implica a existência de Deus encarnado, então, muitas pessoas teriam de ser Deus encarnado. Mas mesmo que uma pessoa fosse capacitada por Deus para fazer milagres, isso não a tornaria Deus. Significaria apenas que foi autorizada por Deus para fazer milagres. Assim, invocar os milagres para afirmar que uma pessoa foi Deus encarnado não é um argumento válido.

Na verdade, o Cristianismo teria ficado mais bem servido se os primeiros padres da igreja tivessem diminuído a sua obsessão em tentar explicar a realidade de Cristo, e simplesmente entendido Jesus como um agente divino portador da Palavra de Deus, e investido de uma majestade até então desconhecida. Ele não era apenas um homem, porque trouxe a Palavra de Deus e a Sua vida revelava uma santidade nunca vista; mas Ele não era o Criador do universo, embora tenha vindo dessa Fonte e tenha recebido autoridade para criar uma civilização.

Até mesmo o livro do Apocalipse tentou deixar clara a distinção crítica entre Jesus como homem e Deus. Quando o anjo, que era Jesus, anunciou que viria em breve (Ap 22: 7), João, recebendo a revelação, prostrou-se para adorar o anjo. O anjo, porém, repreendeu João dizendo: “Não faças isso! Eu estou ao serviço de Deus como tu e como os teus irmãos, os profetas, e como todos os que guardam as palavras deste livro. É a Deus que tu deves adorar."

Infelizmente, no Cristianismo, os padres da igreja não fizeram isso. Eles preocuparam-se com as definições obscuras e enfatizaram distinções cristológicas que até hoje desafiam a compreensão e a pertinência. Se eles se tivessem concentrado mais em promover uma vida cristã, talvez o mundo fosse um lugar melhor.

Erguer a maior estátua de Jesus do mundo ou a cruz mais alta do mundo - aparentemente a ocupação de muitos cristãos - não resolverá nenhum dos nossos problemas modernos. O objetivo do Cristianismo nunca foi a deificação de Jesus; era, e é, construir o reino de Deus na Terra, construir uma civilização celestial; não era construir ídolos gigantes.

Os ensinamentos Bahá’ís indicam que construir um reino espiritual aqui entre a humanidade sempre foi o objectivo de todos os profeta e todas as religiões. 'Abdu'l-Bahá escreveu:

Com um único propósito foram todos os Profetas, todos eles, enviados à Terra; foi por isto que Cristo Se manifestou; foi por isto que Bahá'u'lláh levantou o chamamento do Senhor: para que o mundo do homem se tornasse o mundo de Deus; para que este plano inferior se transformasse no Reino; esta escuridão, em luz; esta malvadez satânica, em todas as virtudes do céu - e a unidade, a fraternidade e o amor fossem conquistados em prol de toda a raça humana; para que ressurgisse a unidade orgânica e fossem destruídos os alicerces da discórdia, e assim a vida eterna e a graça eterna fossem a colheita da humanidade. (Selections From the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #15)

Assim, Cristo ou Buda ou Bahá’u’lláh trouxeram-nos a mensagem que nos permite construir o reino de Deus aqui na Terra; essa mensagem e o impulso sagrado por trás dela vieram diretamente do Ser Supremo.

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Texto Original: The Critical Distinction Between Christ and the Creator (www.bahaiteachings.org)


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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 5 de novembro de 2022

Déjà Vu: os sonhos preveem o futuro?

Por David Langness.


Todos nós temos alguma experiência de uma sensação, que nos ocorre ocasionalmente, em que aquilo que estamos a dizer ou a fazer, parece já ter sido dito e feito anteriormente, em tempos passados – de termos estado, há muito tempo, na presença dos mesmos rostos, objetos, e circunstâncias - de sabermos perfeitamente o que será dito seguidamente, como se de repente nos lembrássemos disso! – Charles Dickens

Em verdade, digo: a alma humana está elevada acima de toda a saída e todo o regresso. Está imóvel, mas eleva-se nos ares; move-se, mas está parada. É, em si, um testemunho que prova a existência, de um mundo que é contingente, assim como a realidade de um mundo que não tem princípio nem fim. Vê como o sonho que tiveste pode, após um intervalo de muitos anos, recriar-se diante dos teus olhos. Considera como é estranho o mistério do mundo que te apareceu no teu sonho. Pondera no teu coração a inescrutável sabedoria de Deus e medita sobre as suas múltiplas revelações... (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, LXXXII)

Eu tive minha primeira experiência de déjà-vu, um sonho reconstituído perante os meus olhos, quando eu tinha dez anos.

O meu sonho Déjà-Vu do Futuro.


O meu pai e eu tínhamos ido pescar, num distante lago de montanha, junto à fronteira do Canadá, no estado de Washington, um lugar onde nós nunca tínhamos ido antes. Chegámos perto do anoitecer e entrámos numa pequena loja e centro da guarda-florestal perto do lago para conseguir um local onde acampar durante a noite. Assim que passei na entrada do edifício, percebi – sabia com toda a certeza, sem qualquer dúvida — que já estivera ali antes. Tudo era conhecido. Eu sabia exatamente onde estaria a vitrine com material de pesca, a máquina dos refrigerantes e o pequeno fogão barrigudo antes de olhar. Eu sabia o que o homem atrás do balcão tinha vestido, e exactamente como ele inclinaria o seu chapéu azul desbotado para nos cumprimentar. Eu sabia como meu pai iria responder antes que ele falasse. Eu sabia que um labrador preto se levantaria perto do fogão quente e viria cumprimentar-me.

Enquanto eu estava ali com aquele amigável labrador preto que farejava a minha mão, espantado com aquela sensação avassaladora de precognição, lembrei-me do meu sonho de ir pescar com meu pai. Três anos atrás, quando tinha sete anos, eu sonhara vividamente com aquele lugar e guardei-o na minha mente com muitos detalhes. Lembrei-me do sonho e vi que correspondia à realidade. Assim que percebi que havia sonhado com esse momento anos antes, um arrepio percorreu a minha espinha. Eu sabia, de repente, que naquela estranha colisão entre o passado e o presente, eu tinha descoberto algo profundo. Desde aquele primeiro déjà-vu, tive mais alguns, mas sempre quando menos esperava, e sempre ocorrendo completamente de surpresa.

Quão comum é o Déjà-Vu?


Certamente conhecem alguém que já teve um desses tipos misteriosos de sonho de antecipação?

Aparentemente, a maioria de nós já teve esta experiência – na verdade, são bastante comuns. Sondagens em muitas culturas diferentes indicam que entre 66-96% das pessoas relatam ter pelo menos uma experiência de déjà-vu. Isso provavelmente não nos deveria parecer estranho, porque é tão universal. A expressão francesa déjà-vu significa simplesmente “já visto” e geralmente refere-se à forte sensação de que, de alguma forma, já vivemos ou sonhámos anteriormente com um acontecimento actual.

Essas experiências não são consideradas “paranormais” porque são muito comuns – acontecem com crianças e adultos em todos os tipos de sociedade e foram relatadas ao longo da história. Os neurocientistas propuseram muitas teorias sobre a experiência do déjà vu, mas nenhuma foi comprovada. Escritores e investigadores apresentaram explicações místicas.

O que significam estes sonhos sobre o futuro?


Os ensinamentos Bahá'ís dizem que esse tipo sonhos com réplicas da vida real podem indicar e indicam a existência de outro mundo além deste que nos é familiar:

Sabe tu que, em verdade, os mundos de Deus são incontáveis em número e infinitos em âmbito. Ninguém os pode contar ou compreender, salvo Deus, o Omnisciente, a Suprema Sabedoria. Considera o teu estado enquanto adormecido. Em verdade, digo, este fenómeno é o mais misterioso dos sinais de Deus entre os homens - fossem eles ponderá-lo nos seus corações. Considera como a coisa que viste no teu sonho se realiza plenamente após um espaço de tempo considerável. Se o mundo em que te encontraste no teu sonho fosse idêntico ao mundo em que vives, o evento ocorrido nesse sonho teria, necessariamente, de ter ocorrido neste mundo no mesmo momento. Se assim fosse, tu próprio terias dado testemunho disso.

Não sendo o caso, porém, deve-se necessariamente deduzir que o mundo em que vives é diferente e está separado daquele que vivenciaste no teu sonho. Este último mundo não tem princípio, nem fim. Seria verdade se argumentasses que este mesmo mundo, conforme decretado por Deus Todo-Glorioso e Omnipotente, esteja dentro do teu próprio ser, envolto dentro de ti. Seria igualmente verdade, afirmar que o teu espírito, tendo transcendido as limitações do sono e estando livre de toda ligação terrena, por acção de Deus, tivesse sido levado a atravessar um reino que jaz oculto na mais íntima realidade deste mundo.

Em verdade, digo: a criação de Deus abrange mundos além deste mundo e criaturas distintas destas criaturas. Em cada um desses mundos, Ele decretou coisas que ninguém pode sondar, senão Ele Próprio, o Perscrutador de Tudo, o Omnisciente. Medita sobre aquilo que te revelámos, a fim de que possas descobrir o desígnio de Deus, teu Senhor e o Senhor de todos os mundos. Nestas palavras, os mistérios da Sabedoria Divina foram entesourados. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, LXXIX)

Então, como sugere Bahá'u'lláh, vamos meditar sobre estes fenómenos durante minuto. O que podem significar?

Poderá o déjà-vu indicar que o tempo – tal como os físicos conhecem, um conceito flexível baseado na força gravitacional – é mais fluído e mutável do que pensamos? Poderá significar que as nossas mentes e espíritos podem, em alguns casos, de alguma forma ultrapassar o presente e ver o nosso futuro? Ou poderá significar que existem vários mundos, com a ligações ocasional entre eles que se revelam na nossa consciência? Não vou fingir que sei a resposta, mas sei que meu próprio déjà-vu e experiências com sonhos me convenceram de que existe uma realidade espiritual além da realidade quotidiana que os meus fracos poderes de percepção me permitem entender.

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Texto original: Déjà Vu: Do Dreams Predict the Future? (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 29 de outubro de 2022

Os Mitos do Inferno e da Condenação Eterna

Por David Langness.


Quando tinha doze anos abandonei a igreja Luterana e rejeitei qualquer Deus que enviasse as almas para um local de tortura eterna chamado inferno. Mais tarde, curioso e um pouco fascinado, tentei libertar a minha alma dessa ideia.

Depois, questionei-me: afinal, de onde veio este conceito de inferno?

Olhando para a história de Hades, percebi rapidamente que os meus antepassados vikings viam o Hel – palavra nórdica – como um deserto gelado e não um abismo em chamas.

Um bibliotecário simpático mostrou-me que a palavra inglesa contemporânea HELL (inferno) teve origem nesta palavra HEL - da antiga língua nórdica ou do proto-alemão. Outras línguas têm uma palavra semelhante, geralmente usada para descrever um lugar para onde ninguém quer ir. Os anglo-saxónicos usavam as antigas palavras HEL e HELL para referir o mundo dos mortos.

E à medida que investigava as histórias sobre o inferno, descobri algo que me surpreendeu e talvez vos surpreenda: o conceito de inferno está mais enraizado nas antigas tradições mitológicas do que nas religiões.

Segundo a mitologia nórdica, quem morrida de doença ou de velhice ia para o HEL; por outro lado, quem morria de uma forma nobre, como os guerreiros numa batalha, conseguia a entrada no Valhalla, o grande salão dos eleitos. Assim, a expressão – “Go to Hell!” (“Vai para o Inferno!”) teve origem nos Vikings, que tinham a ideia assustadora de que a única morte honrosa era a morte em combate. Nos mitos nórdicos, um demónio feminino chamado Hel – a filha do impostor Loki – presidia a um local com o seu nome. O deus nórdico Odin nomeou-a para governar as grandes mansões de Hel num local do reino chamado Niflheim, um lugar gelado onde os mortos se alimentavam com rios de lágrimas.

Gradualmente, este conceito antigo de Hel tornou-se permanente, um verdadeiro lugar de condenação e sofrimento eternos foi incluído nas tradições das terras invadidas e conquistadas pelos Vikings, e espalhou-se amplamente. Posteriormente, com o decorrer do tempo, a mitologia pagã de Hel transferiu-se para a teologia Cristã e para o vocabulário da Europa cristianizada.

Claro que a tradição Judaico-Cristã já tinha o seu próprio inferno, originalmente chamado Geena ou Hinnom – um local histórico real que as pessoas temiam e evitavam. Aquilo que antes era uma lixeira que ardia constantemente, a Geena, pode ser hoje visitada em Israel, no sopé do monte Sião, num vale idílico perto da cidade velha de Jerusalém.

Nos tempos bíblicos, a lenda dizia que a Geena (o vale de Hinnom) supostamente abrigavam apóstatas e idólatras liderados pelos reis de Judá que tinham sacrificados os seus próprios filhos no fogo. Aquele lugar ficou conhecido em lendas e contos como o destino final dos condenados após a morte. As pessoas da época consideravam as fogueiras constantemente acesas da Geena /Hinnom muito piores do que a tradicional morada dos mortos, chamada Sheol na Bíblia hebraica, ou Hades na mitologia grega. Essa percepção pode ter surgido porque os corpos daqueles que cometeram suicídio, a quem era negado um enterro cristão pela igreja, muitas vezes eram cremados na lixeira da Geena. Com o tempo, todo o vale de Hinom/Geena ficou conhecido como uma lendária paisagem amaldiçoada do inferno, onde o fogo consumia as almas dos ímpios.

Então, em 1604, o rei da Inglaterra, sacerdotes e teólogos cristãos decidiram criar uma nova tradução da Bíblia. A versão King James, publicada pela primeira vez em 1611, tentava apresentar-se como uma Bíblia oficial; originalmente, era constituída por vários capítulos de muitas fontes diferentes em grego koiné, hebraico e aramaico. Apesar do facto do termo nunca aparecer nos textos originais do Antigo ou do Novo Testamento, os seis painéis de 47 homens que traduziram a Bíblia King James substituíram os nomes Geena, Sheol, Hinom, Hades e “a sepultura” por uma palavra anglo-saxônica agora popular: hell (inferno).

Na versão King James da Bíblia, a palavra inferno surge 54 vezes. Nos textos originais, essa palavra não existe.

Percebi, portanto, como surgiu o conceito.

Cristo usou a palavra Geena muitas vezes, descrevendo-a simbolicamente como o oposto da vida no reino de Deus, um lugar onde corpo e alma ardiam com um “fogo inextinguível” (Marcos 9:43). Claramente, Cristo referia-se à Geena – depósito de lixo e crematório de Jerusalém – de forma figurativa e não literal. Infelizmente, muitas pessoas têm entendido estas coisas literalmente.

Curiosamente, aprendi que Geena em árabe se traduz como Jahannam, e o Alcorão contém centenas de referências à Geena ou Jahannam, identificando-a como o inferno islâmico, um lugar metafórico onde os pecadores recebem a sua punição eterna. Também na tradição islâmica, o inferno gelado chamado Zamhareer apresenta uma visão de frio extremo, com tempestades de neve insuportáveis, neve sem fim e a perspectiva arrepiante de uma eternidade gelada e trémula. No Alcorão Zamhareer e Jahannam são, obviamente, símbolos, mas ainda hoje, os fundamentalistas os interpretam literalmente.

Originalmente destinado a servir como uma metáfora - que representava um lugar sombrio e terrível onde os mortos não fazem nada e não têm consciência, e entendido como uma condição puramente espiritual que indicava o torpor da alma - o clero de diferentes religiões transformou lentamente a advertência do inferno simbólico em inferno real, como forma de assustar e controlar as pessoas. As crianças, os incultos e os supersticiosos, que constituíam a grande massa da população na época em que muitas das religiões antigas floresceram, compreendiam o terror absoluto que o conceito do inferno inspirava. Os líderes religiosos então usaram o medo do inferno para inicialmente impor as leis morais das suas religiões – e depois, à medida que as suas religiões e a sua autoridade declinaram, para impor os seus próprios fins.

Depois de descobrir toda esta história sobre o inferno, procurei um sistema de crenças que tivesse uma visão mais sofisticada da vida após a morte. Na minha busca, encontrei a Fé Bahá'í e descobri que os Bahá'ís acreditam que a ideia de inferno não representa um lugar, mas sim uma condição espiritual que pode nos afligir a qualquer hora e em qualquer lugar:

Pensai no amor e no bom companheirismo como as delícias do céu; pensai na hostilidade e no ódio como os tormentos do inferno. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #200)

Os Bahá'ís acreditam que o inferno simboliza simplesmente o afastamento de Deus e da realidade humana superior. As Escrituras Bahá'ís descrevem o céu como um estado de proximidade de Deus, e o inferno como uma condição de afastamento e distanciamento da nossa própria realidade espiritual:

A realidade subjacente a esta questão é que o espírito mau, Satanás, ou o que quer que seja interpretado como mal, refere-se à natureza inferior do homem. Esta natureza inferior é simbolizada de várias maneiras. No homem existem duas expressões. Uma é a expressão da natureza; a outra, a expressão do reino espiritual. O mundo da natureza é imperfeito. Olhai-o com clareza, pondo de lado todas as superstições e imaginações… Deus nunca criou um espírito mau; todas estas ideias e terminologias são símbolos que expressam a natureza meramente humana ou terrena do homem. É uma condição essencial do solo que dele germinem espinhos, cardos e árvores infrutíferas. Comparativamente, isto é mau; é simplesmente o mais baixo estado e o mais desprezível produto da natureza. ('Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 294)

Então, o inferno, como a maioria de nós já percebeu, pode acontecer aqui e agora na Terra – não precisamos esperar pela morte e tormento nalgum abismo subterrâneo de fogo. Todos nós já sentimos as várias formas que este tipo de tormento pode assumir: a profunda depressão do fracasso, a dor e o sofrimento que a perda do amor pode causar, as terríveis consequências que escolhas erradas muitas vezes criam, a aflição desesperada do vício, a sensação de que o mundo não contém nada além da dor. Pior ainda, o inferno pode significar que acumulamos continuamente todo esse ódio e hostilidade contra outros – e até contra nós próprios.

Os ensinamentos Bahá'ís oferecem à humanidade uma alternativa a esse inferno interior:

Nos Livros celestiais, é feita menção da imortalidade do espírito, que é a própria razão de ser das religiões divinas. Pois as recompensas e punições são de dois tipos – uma são recompensas e punições existenciais e a outra, recompensas e punições finais. O paraíso e o inferno existenciais podem ser encontrados em todos os mundos de Deus, seja neste mundo ou nos reinos celestiais do espírito, e conseguir essas recompensas é alcançar a vida eterna…

As recompensas existenciais consistem nas virtudes e perfeições que adornam a realidade humana… Através dessas recompensas ele renasce em espírito, é criado de novo e torna-se a manifestação do versículo do Evangelho que diz que os apóstolos “não nasceram do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” – isto é, eles foram libertados das características e qualidades animais que são inerentes à natureza humana, e adquiriram atributos divinos, que são a graça derramada de Deus…

Para essas almas, não há maior tormento do que estar excluído de Deus, e não há punição pior do que qualidades egoístas, atributos malignos, vileza de carácter e ser absorvido por desejos carnais. Quando essas almas são libertadas das trevas desses vícios pela luz da fé, quando são iluminadas pelos raios do Sol da Verdade e dotadas de todas as virtudes humanas, elas consideram-na a maior recompensa e vêem-na como o verdadeiro paraíso. (‘Abdu'l-Bahá, Resposta a Algumas Perguntas, cap. 60)

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Texto original: The Myths of Hell and Eternal Damnation (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.