Por David Langness.
Por que razão, perguntou uma vez uma professora numa aula da minha da faculdade, os seres humanos têm rituais, funerais e cerimónias quando as pessoas morrem? Porque damos tanta importância ao enterro do corpo humano?
A turma pareceu perplexa com a pergunta, até que uma aluna de antropologia respondeu com outra pergunta: "Bem... porque é que os elefantes e os chimpanzés enterram os seus mortos?"
Esta troca de ideias fez com que todos os alunos repensassem a morte. Se alguns mamíferos superiores têm o instinto, a emoção ou o respeito de enterrar os seus mortos, porque não o teriam os humanos?
Na verdade, o Homo Sapiens realiza funerais há muito tempo, mesmo antes de termos surgido como humanos modernos. Temos evidências significativas de funerais neandertais de há mais de cem mil anos. O sepultamento é um dos costumes humanos mais difundidos, presente em todas as culturas desde os primórdios da nossa história.
Aquelas culturas primitivas pareciam compreender que os nossos corpos provêm da Mãe Terra e a ela regressam. Reconheciam também claramente a dignidade do corpo humano e entendiam que o enterro era um sinal de respeito pelo seu espírito. O grande ciclo da vida e da morte, assinalado com este regresso às nossas origens, está presente em todos os povos desde o princípio dos tempos.
Da mesma forma, os ensinamentos Bahá'ís afirmam que os nossos espíritos regressam às suas origens: "Eu vim de Deus e a Ele regresso, desprendido de tudo, excepto d'Ele, segurando-me firmemente ao Seu Nome, o Misericordioso, o Compassivo."
Esta frase simples, uma citação do Livro Mais Sagrado de Bahá'u'lláh, está inscrita nos anéis funerários Bahá'ís. Quando um Bahá'í morre, um destes anéis é colocado no seu dedo antes do enterro. Serve como lembrar aos vivos o destino de todas as nossas almas.
Também é um testemunho da fé de quem o usa e honra a forma física dessa pessoa, cujo “… corpo, embora agora pó, foi outrora exaltado pela alma imortal do homem!” O Guardião da Fé Bahá’í, Shoghi Effendi, escreveu esta frase numa carta a uma jovem Bahá’í chamada Sally Sanor, em 1944.
Assim, qual a melhor forma de preservarmos a dignidade e a nobreza de cada ser humano quando este abandona este plano terreno? Os ensinamentos Bahá’ís recomendam um funeral rápido e simples, sem embalsamamento ou outros conservantes artificiais; e um serviço fúnebre digno, mas humilde, que inclua orações.
Todos desejamos uma vida plena de sentido, culminando numa morte também plena de sentido. O falecimento de cada pessoa merece ser reconhecido. Como sociedade atenciosa e espiritual, precisamos de encorajar a aceitação da morte como parte do ciclo natural da vida, um ciclo que traz beleza e significado a este segundo nascimento no reino espiritual.
Preservar esta dignidade e comemorar o lugar de cada indivíduo no ciclo da vida exige um funeral solene e sublime, não apenas uma cremação rápida, como salientou ‘Abdu’l-Bahá:
Se a desintegração [do corpo] for rápida, isso provocará uma sobreposição e um abrandamento na cadeia de transferências, e esta descontinuidade prejudicará as relações universais dentro da cadeia das coisas criadas.
Por exemplo, este corpo humano elementar surgiu dos mundos mineral, vegetal e animal, e após a sua morte será completamente transformado em organismos animais microscópicos; e de acordo com a ordem divina e as forças motrizes da natureza, estas minúsculas criaturas terão um efeito sobre a vida do universo e assumirão outras formas.
Ora, se entregarmos este corpo às chamas, ele passará imediatamente para o reino mineral e será impedido de seguir o seu caminho natural através da cadeia de todas as coisas criadas.
O corpo elementar, após a morte e a sua libertação da vida composta, transformar-se-á em componentes separados e em minúsculos animais; e mesmo que agora esteja privado da sua vida composta na forma humana, a vida animal ainda estará presente nele, e ele não estará totalmente desprovido de vida. Se, no entanto, for queimado, transformar-se-á em cinzas e minerais, e uma vez transformado em mineral, deverá inexoravelmente seguir em direcção ao reino vegetal, para depois ascender ao mundo animal. Isto é o que se descreve como um salto. (‘Abdu’l-Bahá, The Wisdom of Burying the Dead.)
A cremação e outras formas semelhantes de "preceitos" rápidos com os falecidos interrompem os processos naturais do nosso ambiente, disse 'Abdu'l-Bahá numa carta de 1920 à cantora e compositora Bahá'í Shahnaz Waite:
O corpo do homem, que se formou gradualmente, deve igualmente decompor-se gradualmente. Isto está de acordo com a ordem real e natural e com a Lei Divina. Se fosse melhor que fosse queimado após a morte, na sua própria criação teria sido planeado que o corpo se incendiasse automaticamente após a morte, fosse consumido e transformado em cinzas. Mas a ordem divina, formulada pelo preceito celestial, é que após a morte este corpo seja transferido de um estágio para outro, diferente do anterior, de modo que, de acordo com as relações existentes no mundo, possa gradualmente combinar-se e misturar-se com outros elementos, passando assim por etapas até chegar ao reino vegetal, transformando-se em plantas e flores, desenvolvendo-se em árvores do mais alto paraíso, tornando-se perfumado e alcançando a beleza da cor.
A cremação impede rapidamente a realização destas transformações, pois os elementos decompõem-se tão rapidamente que a transformação para estas várias fases é interrompida. (Star of the West, Volume XI, No. 19, page 317)
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Texto original: Respecting the Dignity of the Body After Death (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.



