sábado, 10 de setembro de 2022

Charlie Chaplin, o Grande Ditador e a Liberdade Humana

Por Rodney Richards.


Os filmes, agora omnipresentes nas salas de cinema, nas TVs, nos computadores e nos telefones, eram desconhecidos antes de 1895. Essa invenção mudou literalmente o mundo em pouco mais de um século.

É extraordinário o que nós, seres humanos, podemos descobrir e criar. Numa ocasião, 'Abdu'l-Bahá explicou:

Assim, o telégrafo, a fotografia, o fonógrafo – todas essas grandes invenções e engenhos já foram mistérios ocultos que a realidade humana descobriu e trouxe do invisível para o reino visível. Houve até um tempo em que este pedaço de ferro diante de você, e de facto todo o mineral, era um mistério oculto. A realidade humana descobriu este minério e forjou o seu metal nesta forma acabada. O mesmo é verdade para todas as outras descobertas e invenções do homem, que são incontáveis. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. 48)

Com a exibição pública e comercial de curtas-metragens dos irmãos Lumière em Paris, em 22 de Março de 1895, surgiram as projeções cinematográficas.

Desde então, o seu efeito sobre crianças, jovens e adultos só pode ser descrito como gigantesco. Sem estarmos limitados às nossas próprias culturas e países, podemos agora ver o mundo inteiro, diariamente, em filmes, programas de TV, vídeos nas redes sociais, no YouTube e noutras plataformas.

Numa noite recente, após um dia de trabalho no jardim, vi o filme Chaplin (um filme de 1992) com Robert Downey Jr. no papel de Charlie Chaplin - ou Sir Charles Spencer Chaplin Jr. KBE - um dos grandes pioneiros da primeira explosão cinematográfica. Inicialmente, pensei no filme como uma biografia adaptada por Hollywood sobre a conhecida fama de Chaplin como actor cómico em filmes mudos da década de 1920. Mal sabia eu, enquanto via Downey e outras estrelas, incluindo Anthony Hopkins, que Chaplin criou o seu próprio estúdio de cinema; escreveu, editou, dirigiu e compôs música para mais de 80 filmes; foi co-fundador da United Artists; foi cavaleiro do império britânico; e escreveu, dirigiu, compôs e participou num dos filmes mais importantes alguma vez feitos.

Esse filme satírico, O Grande Ditador, de 1940, foi mais do que uma comédia, tendo abordado todo o tema do autoritarismo ao satirizar o fascismo, a ditadura, o antissemitismo e os nazis. Nesse filme, Chaplin interpretou duas personagens – o protagonista do filme, um barbeiro judeu do gueto; e o vilão Adenoid Hynkel, um ditador como Adolf Hitler. O Grande Ditador começou a ser filmado em Setembro de 1939, seis dias após a invasão da Polónia por Hitler.

Perto do final do filme, o humilde barbeiro judeu, que nunca falou em público, é confundido com o ditador assassino Hynkel. No seu discurso culminante perante uma grande multidão, representando o ditador, ele anuncia que mudou de ideias e faz um discurso apaixonado pela unidade da humanidade, pela boa vontade, pela liberdade e pela democracia.

O filme que vi mostrava apenas um excerto daquele famoso discurso; mas depois quis ouvir o discurso completo de Chaplin como personagem do filme “O Grande Ditador”. Encontrei no YouTube. Ainda hoje é actual, especialmente quando o mundo produziu tantas figuras ditatoriais e ainda existe uma luta entre o autoritarismo e a liberdade.


Quando foi lançado, nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial, o New York Times descreveu “O Grande Ditador” como “uma realização verdadeiramente soberba de um artista verdadeiramente grande” e “talvez o filme mais significativo alguma vez produzido”. Chaplin deu instruções para que o filme fosse enviado para Hitler, e uma testemunha confirmou que ele o viu.

Como Bahá'í e cidadão do mundo, considero o monólogo de Chaplin inspirador, especialmente estas duas frases: "Queremos viver pela felicidade um do outro - não pela miséria um do outro"; e: “Gostaria de ajudar todos... Judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim."

Isto fez-me lembrar um excerto de uma carta de 1974 da Casa Universal de Justiça, o corpo de dirigente global eleito dos Bahá'ís do mundo:

... não devemos permitir-nos esquecer o contínuo e aterrador fardo de sofrimento sob o qual milhões de seres humanos estão sempre a padecer - um fardo que eles suportam século após século, e que é a missão de Bahá'u'lláh finalmente levantá-los.

Também me lembrou muito uma das advertências de 'Abdu'l-Bahá ao mundo, numa palestra que Ele deu em Brooklyn, em 1912:

Considerem a grande diferença que existe entre a democracia moderna e as velhas formas de despotismo. Sob um governo autocrático, as opiniões dos homens não são livres e o desenvolvimento é sufocado, enquanto na democracia, porque o pensamento e a fala não são limitados, testemunha-se maior progresso.

Os contributos de Chaplin para a indústria cinematográfica com os seus múltiplos talentos foram um enorme sucesso, reconhecido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em 1972. O seu Prémio Honorário referiu “o efeito incalculável que ele teve ao tornar o cinema a forma de arte deste século.” No palco, aos 83 anos, Chaplin foi aplaudido de pé durante 12 minutos, a mais longa ovação da história da Academia. Faleceu cinco anos depois, na Suíça.

Obrigado, Sir Charles – Charlie para milhões e milhões – que nos deu não apenas risos e emoções, mas também ajudou a mostrar-nos o caminho para nos libertarmos da repressão e da guerra.

------------------------------------------------------------
Texto original: Charlie Chaplin, The Great Dictator, and Human Freedom (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia), tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 27 de agosto de 2022

Seguir um Caminho Espiritual nas Redes Sociais

Por Moneshia zu Eltz.


Quando há quatro meses criei a minha conta no Instagram, fi-lo com um objectivo espiritual.

Sou Bahá'í e tenho uma forte crença na unicidade da humanidade; estou super-interessada em perceber como é que as pessoas que se encontram online - independentemente da raça, da classe e do género - podem enriquecer nossa experiência colectiva de unidade.

Decidi entrar naquele mundo do Instagram com um objectivo: “… não se considerem uns aos outros como estranhos. Sois os frutos de uma só árvore e as folhas de um só ramo”. – Bahá'u'lláh (Tablets of Baha’u’llah, p. 164.)

O Instagram — devido à sua natureza global — parecia o lugar perfeito para reafirmar os ensinamentos de Bahá'u'lláh de unificar a humanidade numa causa universal.

Unirmo-nos com outros, através de um sentido de humanidade como “folhas de um só ramo e ondas de um mesmo mar”, parecia uma perspectiva atraente. Eu tinha usado ferramentas online para orientação e reuniões, mas nunca para me ligar com estranhos.

Uma ressalva, porém: as minhas filhas adolescentes responderam ao anúncio do meu projecto no Instagram com uma preocupação leve, mas genuína. “Mãe, isso é uma perda de tempo” avisaram elas. “Vais odiar aquilo!”, advertiram as duas. Sabendo o quanto eu não gostava do uso excessivo de tecnologia, elas eram notavelmente capazes de identificar os meus preconceitos.

No entanto, eu tinha uma missão: entender como usar as redes sociais como uma força para o bem, para atrair e reunir pessoas com ideias semelhantes em tópicos relacionados com empreendedorismo social, mudança social, práticas comerciais éticas e sustentabilidade. Nos textos Bahá'ís, Shoghi Effendi deixou claro que o princípio da unidade envolve muito mais do que apenas amor e tolerância; também exige uma mudança fundamental na estrutura da sociedade:

Que não haja equívocos. O princípio da Unicidade da Humanidade - o eixo em torno do qual giram os ensinamentos de Bahá’u’lláh – não é um mero acesso de sentimentalismo ignorante ou uma expressão esperança piedosa e vaga…

Representa a consumação da evolução humana – uma evolução que teve os seus começos no nascimento da vida familiar, o seu subsequente desenvolvimento no alcançar da solidariedade tribal, levando por seu lado à constituição da cidade-estado, e expandindo-se posteriormente na instituição de nações independentes e soberanas.

O princípio da Unicidade da Humanidade, conforme proclamado por Bahá’u’lláh, tem consigo nada mais nada menos que a afirmação solene de que o alcançar da fase final nesta evolução estupenda não é apenas necessário, mas também inevitável, que a sua realização se aproxima velozmente, e que nada salvo um poder oriundo de Deus pode conseguir estabelecê-lo. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 43)

Com mil milhões de utilizadores activos, o Instagram parecia um dos lugares mais inclusivos para testar como uma rede social poderia ajudar-nos a reorganizar as nossas sociedades – mas eu tive que começar do início. Eu não sabia o que era uma “história”, ou mesmo hashtags. Também percebi que tinha vários anos e uma geração de atraso, pois ao fim de 30 dias tinha apenas 200 seguidores; recorri aos especialistas para entender como atrair e interagir com estranhos que também queriam ser, na sua comunidade, agentes de mudança para um mundo melhor.

Para saber mais, perguntei a uma amiga que era influenciadora no Instagram, além das amigas das minhas filhas (de 16 a 21 anos) sobre como usar melhor aquela rede. Ambos responderam que exigia muito esforço, que publicavam com regularidade e seguiam outros que os seguiriam em troca. Vi alguns seminários de explicação sobre como construir uma presença, mas resisti ao desejo de pagar 350 dólares por um curso ou anúncios de patrocinadores.

Em vez disso, observei as imagens que os jovens Bahá'ís partilhavam e senti-me tocada pelo mundo alternativo e pelas perspectivas de amizade e beleza que elas expressavam, de acordo também com a orientação única de Bahá'u'lláh:

Exortamos-vos, ó povos do mundo, a observar aquilo que eleve a vossa condição… Doravante todos devem proferir aquilo que seja conveniente e correcto, e devem abster-se de difamar, maltratar e de tudo o que provoque a tristeza nos homens. Sublime é a condição do homem! (Bahá’u’lláh, Tablets of Bahá’u’lláh, pp. 219-220)

Dei por mim a prestar atenção diariamente a publicações com citações dos ensinamentos Bahá'ís pela beleza, humor e elevação que me proporcionavam. Da mesma forma, procurei citações de Rumi e Rudolf Steiner, e descobri que o trabalho de muitos fotógrafos e artistas também é especialmente espiritual. Segui os autores das citações e descobri que muitos eram treinadores/preparadores de vida ou de liderança.

Aos poucos percebi que o Instagram funcionava como um meio para partilhar ideias e também oferecer workshops, seminários de formação, treino e ideias sobre a vida, e como vivê-la. No entanto, quanto mais eu olhava, mais também encontrava pessoas lucrando financeiramente com as suas ideias de ofertas para “comprar seguidores” e “aprender a ser um influenciador”. Isso lembrou-me que ainda temos algum progresso pela frente.

Então, como podemos avançar em direção à unidade, acção colectiva e unidade da humanidade? Voltando novamente às Escrituras Bahá'ís, li o seguinte: "Tudo o que a língua do homem proferir, deve ser provado pelos seus actos ". ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 139) Claramente, existe pouca acção real online, não importa quão belas sejam as imagens ou os sentimentos. Além disso, mesmo tentando ser positiva, dada a grande quantidade de conteúdos e comentários partilhados, nem tudo parecia edificante para a condição humana. Fui obrigada a examinar que mesmo com o Word Swag e outras ferramentas para embelezar minhas publicações, o “ROI (Return of Investment) de Seguidores” no meu tempo foi negativo. A minha conclusão: não tenho certeza se o Instagram será capaz de mudar esse comportamento.

Seis meses depois, sem um aumento significativo nos resultados, decidi reorientar os meus esforços de novo no mundo real. Juntei-me a um círculo de estudos Bahá'ís para me tornar tutora, abri a nossa casa para um grupo de capacitação de pré-jovens, bem como outro curso Bahá'í sobre crescimento espiritual pessoal. Estou a reflectir sobre orações e o significado da vida e da morte sob uma perspectiva espiritual, e pretendo falar em breve numa conferência de inspiração Bahá'í sobre Ética nos Negócios. Além disso, como pode ver, estou a escrever textos para o site BahaiTeachings.org.

Estou grata por refletir, através da minha experiência nas redes sociais, sobre como as minhas acções na minha vida diária podem avançar – como posso ser franca e amorosa, analítica e respeitosa. No trabalho e com amigos, procuro expressar ideias com confiança, mas com modéstia, ser conhecedora, mas generosa, amigável e genuína. A minha experiência com as redes sociais ajudou-me a ser mais vigilante e aberta, empoderada e consciente sobre como gasto o meu tempo. Espero ver-vos num encontro devocional, um círculo de estudos Bahá'ís ou aqui mesmo online!

-----------------------------------------------------------
Texto original: Walking a Spiritual Path on Social Media (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Moneshia zu Eltz é uma profissional de investimentos. Actualmente, é mentora e consultora activa para empresas sociais. Formou-se em Economia no Smith College, embora os seus verdadeiros interesses fossem a literatura comparada e a religião comparada. Posteriormente completou um MBA na Wharton. Moneshia é de Nova Iorque, de origem indiana, e actualmente mora em Munique na Alemanha com 2 filhas adolescentes.

sábado, 20 de agosto de 2022

Os efeitos da violência em jogos de vídeos, filmes e programas de TV

Por Radiance Talley.


Um relatório de 2002 do Departamento de Educação dos Estados Unidos e dos Serviços Secretos examinou 37 incidentes de tiroteios e ataques em escolas ocorridos entre 1974 e 2000 nos EUA e descobriu que “mais da metade dos agressores demonstraram algum interesse pela violência através de filmes, jogos de vídeo, livros e outros meios.”

Será isto uma coincidência? Ou poderá a exposição a conteúdos violentos durante a infância provocar comportamento violento mais tarde na vida? Quais serão os efeitos negativos de jogos de vídeo violentos, programas de televisão e filmes no cérebro e no comportamento?

A Prevalência da Violência em Jogos de Vídeo, Filmes e Programas de TV


Uma “vida santa, com as suas implicações de modéstia, pureza, comedimento, decência e mente limpa, envolve nada menos do que o exercício da moderação em tudo o que diz respeito ao vestuário, à linguagem, às diversões e todas as vocações artísticas e literárias”, escreveu Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í.

Infelizmente, o consumo de jogos de vídeo, filmes e programas de TV ultrapassou os limites da moderação para a maioria das pessoas e tornaram-se partes significativas da vida das crianças.

De acordo com um artigo publicado em 2007 no “Journal of Adolescent Health”, “as crianças nos Estados Unidos passam uma média de 3 a 4 horas por dia a ver televisão” e “mais de 60% dos programas contêm alguma violência, e cerca de 40% deles contêm violência elevada.”

Os jogos de vídeo também estão presentes em 83% dos lares com crianças, e “94% dos jogos classificados (pela indústria de jogos) como apropriados para adolescentes são descritos como contendo violência”. Crianças entre 8 e 10 anos gastam em média 65 minutos por dia com jogos de vídeo, e 8,5% das crianças de 8 a 18 anos sofrem de “distúrbio de jogo” – o vício em jogos de vídeo que agora está incluído na Classificação Internacional de Doenças.

'Abdu’l-Bahá, uma das figuras centrais da Fé Bahá'í, disse que “há perigo de que o passatempo degenere em perda de tempo. A perda de tempo não é aceitável na Causa de Deus.” Esse consumo excessivo de entretenimento não apenas tira o tempo de servir a humanidade e progredir espiritualmente, mas também pode perverter o carácter e o comportamento de uma pessoa.

Os Efeitos a Curto Prazo da Violência em Jogos, Filmes e Programas de TV


As experiências provaram que “a exposição à violência mediática aumenta imediatamente a probabilidade de comportamento agressivo em crianças e adultos no curto prazo”.

Quer fossem crianças do ensino pré-escolar ou do ensino fundamental, adolescentes ou adultos que estavam a ser testados, aqueles que assistiram a imagens violentas comportaram-se de forma mais agressiva e adoptaram crenças mais tolerantes à violência. Isso acontece devido ao estímulo, aumento da excitação emocional e mimetismo que ocorrem ao nível neurológico.

Os psicólogos Brad Bushman e Craig Anderson descobriram que os jogos de vídeo violentos estavam relacionados ao aumento de pensamentos agressivos, crenças, atitudes, comportamentos e excitação fisiológica e diminuição do “comportamento pró-social (de ajuda)”.

Os Efeitos a Longo Prazo da Violência em Jogos, Filmes e Programas de TV


Os estudos também mostraram que “a exposição habitual precoce à violência mediática na meia-infância proporciona um aumento da agressividade 1 ano, 3 anos, 10 anos, 15 anos e 22 anos depois na idade adulta, mesmo controlando a agressividade precoce”.

E as crianças que achavam a violência que assistiam era realista e se identificavam com o agressor que a infligia eram especialmente propensas a adoptar crenças e comportamentos mais agressivos devido à aprendizagem observacional que ocorria. Por exemplo, um acompanhamento de 15 anos com essas crianças, que estavam “no quartil superior em relação à violência no meio da infância”, descobriu que “11% dos homens haviam sido condenados por um crime (em comparação com 3% para outros homens), 42% “empurrou ou agarrou o seu cônjuge” no ano anterior (em comparação com 22% dos outros homens) e 69% “empurrou uma pessoa” quando ficou com raiva no ano anterior (em comparação com 50% de outros homens). Para as mulheres, 39% das espectadoras de elevada violência “atiraram algum objecto contra o seu cônjuge” no ano passado (em comparação com 17% das outras mulheres) e 17% “esmurraram, espancaram ou estrangularam” outro adulto quando estavam com raiva no ano passado (em comparação com 4% das outras mulheres).”

“Ó amantes de Deus!”, escreveu ‘Abdu’l-Bahá, “Neste ciclo do Deus Omnipotente, a violência e a força, a coacção e a opressão, são todas condenadas.”

Se condenamos a violência, não deveríamos condenar também os jogos e os espectáculos que a promovem? A exposição à violência de jogos de vídeo, filmes e programas de TV aumenta o risco de comportamento violento, tal como crescer um ambiente cheio de violência real. Neurocientistas e psicólogos entendem hoje que esses efeitos a longo prazo são resultado da aprendizagem observacional e da dessensibilização que ocorre automaticamente em crianças que testemunham essa violência.

De acordo com o Dr. L. Rowell Huesmann, “as crianças adquirem automaticamente modelos para os comportamentos que observam ao seu redor na vida real ou nos meios de comunicação, juntamente com reacções emocionais e cognições sociais que apoiam esses comportamentos. Os processos de comparação social também levam as crianças a procurar outras pessoas que se comportam de maneira agressiva semelhante nos meios de comunicação ou na vida real, levando a um processo de espiral descendente que aumenta o risco de comportamento violento”.

Permitir que crianças assistam a espectáculos violentos é um sério risco para a saúde pública. Conforme declarado no “Journal of Adolescent Health”, a correlação entre violência nos meios de comunicação e agressão é maior do que a correlação entre tabagismo passivo no trabalho e cancro de pulmão, exposição ao chumbo e níveis de QI em crianças, adesivos de nicotina e cessação do tabagismo, ingestão de cálcio e massa óssea, trabalhos de casa e desempenho académico, exposição ao amianto e cancro de laringe e auto-exames e extensão do cancro da mama.

O Dr. Rowell Huesmann afirmou: “Embora a criança já agressiva que assiste ou joga muitos jogos violentos possa tornar-se o jovem adulto mais agressivo, a investiçaão mostra que mesmo as crianças inicialmente não agressivas se tornam mais agressivas ao ver a violência nos meios de comunicação”.

E acrescentou: “Em resumo, a exposição à violência nos meios de comunicação eletrónicos aumenta o risco de crianças e adultos se comportarem de forma agressiva a curto prazo, e das crianças se comportarem agressivamente a longo prazo”.

É claro que, como qualquer ameaça à saúde pública, nem toda criança exposta à ameaça assimilará a doença. No entanto, isso não diminui a necessidade de abordar o risco. Se queremos que a próxima geração seja bondosa, generosa e inocente, não podemos continuar a bombardeá-la com conteúdos agressivos e perversos. 'Abdu'l-Bahá escreveu:

Toda criança é potencialmente a luz do mundo — e simultaneamente a sua escuridão; portanto, a questão da educação deve ser considerada como de importância primordial.

Desde a sua infância, a criança deve ser cuidada no seio do amor de Deus e nutrida no abraço do Seu conhecimento, para que possa irradiar luz, crescer em espiritualidade, encher-se de sabedoria e aprendizagem e assumir as características do anjo hospedeiro.

As crianças nascem puras – e indefesas. Eles precisam da orientação e protecção da sua família e comunidade. Vamos fazer um esforço para evitar que essas luzes puras entre nós sejam extintas pelas trevas ao seu redor.

-----------------------------------------------------------
Texto original: The Effects of Violence in Video Games, Movies, and TV Shows (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Radiance Talley é licenciada em comunicação pela Universidade de Maryland. Além da escrita, do desenho, e da comunicação em público, Radiance tem um profundo conhecimento da teoria da construção, técnicas de negociação, gestão de conflitos, comunicação organizacional e intercultural, antropologia e sociologia.

sábado, 13 de agosto de 2022

O que faria Cristo no lugar de Muhammad?

Por Tom Tai-Seale.


Se os exércitos romanos tivessem atacado os primeiros cristãos, com o objectivo de destruir cada um deles, o que teria feito Cristo? Teria “oferecido a outra face” ou defendido o Seu rebanho inocente?

Os ensinamentos Bahá'ís têm uma resposta fascinante para este cenário. 'Abdu'l-Bahá colocou essa importante questão no seu livro Respostas a Algumas Perguntas, e chegou a uma conclusão fascinante:

Devemos considerar com equidade o seguinte: Se o próprio Cristo tivesse sido colocado em circunstâncias semelhantes entre essas tribos bárbaras e sem lei; se durante treze anos Ele e os Seus discípulos suportassem pacientemente todo tipo de crueldade às suas mãos; se eles fossem forçados devido a essa opressão a abandonar a sua terra natal e ir para o deserto; e se essas tribos sem lei ainda continuassem a persegui-los com o objetivo de massacrar os homens, saquear os seus bens e raptar suas mulheres e filhos – como é que Cristo teria lidado com eles?

É claro que, 'Abdu'l-Bahá aqui está a referir-Se à perseguição e guerra genocida enfrentada não por Cristo, mas por Muhammad. Para aqueles que consideram o Islão uma “religião violenta”, os ensinamentos Bahá'ís perguntam: “O que teria feito Cristo na situação de Muhammad?” Na Sua resposta, 'Abdu'l-Bahá disse:

Se essa opressão fosse dirigida apenas a [Cristo], Ele tê-los-ia perdoado, e esse acto de perdão teria sido muito aceitável e louvável; mas se Ele tivesse visto que assassinos cruéis e sanguinários tinham a intenção de matar, pilhar e atormentar um grande número de almas indefesas e capturar mulheres e crianças, é certo que Ele teria defendido os oprimidos e detido a mão dos opressores.

Que objecção, pois, podemos levantar a Muhammad? (…) Se Cristo tivesse sido colocado em circunstâncias semelhantes, Ele sem dúvida teria libertado, através de um poder conquistador, aqueles homens, mulheres e crianças das garras daqueles lobos ferozes.

Claro, já conhecemos sabemos que a violência defensiva desse tipo, contra um inimigo implacável determinado a destruir, é comum na Bíblia e em toda a história humana.

Basta recordar a conquista judaica de Canaã, onde a Bíblia relata que em Hesbom os Judeus lutaram contra os Amorreus e após a batalha, Moisés diz (em Deuteronómio 2:34) aos combatentes Judeus que “tomamos todas as suas cidades e a cada uma destruímos com os seus homens, mulheres e crianças; não deixamos sobrevivente algum”. Este é o mesmo Deus que enviou Muhammad para lutar contra os idólatras de Meca que queriam aniquilar o Islão, mas desta vez a retribuição foi mais limitada: mulheres e crianças geralmente eram poupadas nos ataques muçulmanos.

Pode todo um povo ou um país oferecer a outra face?


Para começar: não há conselho de Jesus que diga aos líderes de comunidades de Fé que devam oferecer a outra face quando os seus inimigos tentam eliminar as suas comunidades. Essa regra só se aplica a indivíduos agreidos. Nenhum governante Cristão permitiu alguma vez que o seu povo fosse triturado pelo agressor; nem deveriam. Em vez disso, os governantes Cristãos, como todos os governantes, têm o dever de proteger os que estão sob os seus cuidados.

Hoje, na Ucrânia, estamos a ver isso a acontecer.

Pois foi precisamente isso que Muhammad fez. Na Arábia, Ele fez ataques preventivos contra Meca para proteger a sua comunidade contra os próximos ataques de um inimigo muito mais poderoso e implacável. Isso deve soar familiar para nós, mas não nos dá licença para realizar uma intervenção violenta sem mais nem menos. Quando não há profeta para nos guiar, a opção pela violência deve ser o último recurso e deve ser considerada à luz do argumento moral.

Os ensinamentos Bahá'ís também nos oferecem uma resposta a essa desconcertante pergunta moderna. Bahá'u'lláh apelou ao estabelecimento de uma comunidade mundial, concebida para criar um parlamento global democraticamente eleito com poderes para parar todas as guerras:

A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas. Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que a integram, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos. Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial. Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal.

Esta notável descrição surge no livro “A Ordem Mundial de Bahá’u’lláh”, um livro de Shoghi Effendi publicado em 1938, onde se delineia a visão Bahá’í do futuro pacífico do planeta. Nela, o Guardião da Fé Bahá’í estabelece claramente a arquitectura e a evolução de uma humanidade unida, antecipada por Bahá’u’lláh que virá pôr um fim à violência do passado.

----------------------------------
Texto Original: What Would Christ Have Done in Muhammad’s Situation? (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.