sábado, 31 de outubro de 2026

Qual a diferença entre um profeta e um filósofo?

Por David Langness.


Quando ouvi falar pela primeira vez de Sócrates e Aristóteles, perguntei-me: qual a é diferença entre um profeta e um filósofo?

Já alguma vez pensou nesta questão? Quer dizer, tal como os profetas, os filósofos mais eruditos do mundo trazem à humanidade uma sabedoria profunda e perspicaz. Os seus ensinamentos perduram por milhares de anos. Têm impactos duradouros no nosso pensamento, na nossa visão do mundo e até nas nossas estruturas governamentais. Transmitimos os seus ensinamentos aos nossos filhos e nomeamos escolas de pensamento e orientações educativas inteiras em sua homenagem. O Método Socrático — a forma como ensinamos praticamente todos os advogados — é apenas um exemplo entre centenas.

Mas nós não veneramos os filósofos.

Veneramos os profetas. Seguimos as suas crenças. Construímos locais de culto para os venerar e honrar. Moldamos as nossas vidas segundo o exemplo deles. Lemos os seus textos constantemente. Oramos para nos tornarmos como eles. Não só transmitimos os seus ensinamentos aos nossos filhos, como também os incentivamos a seguir os seus exemplos morais.

Os ensinamentos Bahá’ís fazem uma distinção muito interessante entre profetas e filósofos:

Alguns homens e mulheres vangloriam-se dos seus pensamentos elevados, mas se esses pensamentos nunca atingirem o plano da acção, permanecem inúteis: o poder do pensamento depende da sua manifestação em actos. O pensamento de um filósofo pode, contudo, no mundo do progresso e da evolução, traduzir-se em acções de outras pessoas, mesmo quando elas próprias são incapazes ou estão relutantes em demonstrar os seus grandes ideais nas suas próprias vidas. A esta classe pertence a maioria dos filósofos, cujos ensinamentos estão muito acima das suas acções. Esta é a diferença entre os filósofos que são Mestres Espirituais e os que são meros filósofos: o Mestre Espiritual é o primeiro a seguir os Seus próprios ensinamentos; Ele traz para o mundo da acção as Suas concepções e ideais espirituais. Os seus pensamentos Divinos manifestam-se no mundo. O seu pensamento é Ele mesmo, do qual é inseparável. Quando encontramos um filósofo a enfatizar a importância e a grandeza da justiça, e depois a encorajar um monarca ganancioso na sua opressão e tirania, rapidamente percebemos que ele pertence à primeira classe: pois tem pensamentos celestiais e não pratica as correspondentes virtudes celestiais.

Este estado é impossível com os filósofos espirituais, pois expressam sempre os seus pensamentos elevados e nobres em ações. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pags. 18-19)

Referindo-se aos profetas de Deus, 'Abdu'l-Bahá diz algo notável: "O Seu pensamento é Ele próprio, do qual é inseparável". Na vida de um verdadeiro profeta, o pensamento e a açcão estão unidos.

Todos nós temos pensamentos elevados. Não seria maravilhoso se pudéssemos viver sempre de acordo com estes pensamentos? Todos nós temos nobreza e ideais elevados dentro de nós. Consegue imaginar como seria o mundo se todos nós demonstrássemos estes nobres ideais no nosso dia a dia?

É por isso que respeitamos, reverenciamos, adoramos e veneramos os profetas de Deus — porque eles exemplificam a nobreza de Deus em acção. Servem como os melhores exemplos imagináveis daquilo a que um ser humano pode aspirar e em que se pode tornar. Exemplificam o amor, a bondade e a compaixão. São, de facto, os seus melhores pensamentos. Quando Cristo ofereceu a outra face; quando Moisés libertou o seu povo da escravidão; quando Buda se desapegou das suas riquezas; quando Bahá'u'lláh foi preso pelos seus princípios progressistas e elevados ideais, eles inspiraram, estimularam e motivaram todos nós a sermos melhores seres humanos.

É evidente, portanto, que as provas da validade e inspiração de um Profeta de Deus são os feitos benéficos e a grandeza que d’Ele emanam. Se Ele se mostrar um instrumento na elevação e no aperfeiçoamento da humanidade, é, sem dúvida, um Mensageiro legítimo e divino. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 366)

Os Bahá’ís acreditam que estes mensageiros celestiais, os maiores educadores da humanidade, servem de canais entre Deus e o ser humano:

Vejamos por um momento a condição dos judeus. Quando estavam no Egipto, eram cativos; eram pobres; eram prisioneiros nas mãos do Faraó; eram ignorados; eram um povo dependente, rodeado de todo o tipo de problemas e adversidades; o povo desprezava-os; eram considerados párias. Então veio Moisés. Ele reuniu-os; inspirou-lhes o poder da unidade; deu-lhes nova vida; ensinou-lhes as leis de Deus, incentivando-os na moral e nas virtudes da humanidade; libertou-os das mãos do Faraó; livrou-os do cativeiro; educou-os, preparou-os e conduziu-os da terra das trevas para o santo dos santos da luz. O seu poder aumentou; sua majestade tornou-se resplandecente; a sua fama espalhou-se por todo o mundo, até que conseguiram fundar o reino de Salomão. Na filosofia e na arte, alcançaram uma grandeza tal que os filósofos da Grécia e de Roma viajaram longas distâncias para aprender com eles. Será possível afirmar que venerar e respeitar estas almas equivale à adoração de ídolos? Devemos respeitar Moisés porque ele realizou uma obra que mais ninguém conseguiu fazer. É um facto evidente que Sua Santidade Moisés foi um canal entre Deus e o homem. Nenhuma outra prova é necessária para tal. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 2, pag. 6-7)

Esta é a diferença entre um filósofo e um profeta: um filósofo pode mudar a opinião de outros seres humanos, mas um verdadeiro profeta muda o mundo.

Os filósofos também são professores, mas tudo o que podiam fazer era ensinar-se a si próprios e a algumas almas. Mas os profetas de Deus ensinaram o mundo inteiro. Instruíram todos os filhos dos homens em moral e ética. – Idem, p. 8.

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Texto original: What’s the Difference Between a Prophet and a Philosopher? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 24 de outubro de 2026

Se eu tenho uma alma, onde está ela?

Por David Langness.

Sabe, em verdade, que a alma é um sinal de Deus, uma jóia celestial cuja realidade os mais eruditos dos homens não conseguiram compreender, e cujo mistério nenhuma mente, por muito perspicaz que seja, pode esperar alguma vez desvendar. (Bahá’u’lláh, Gleanings, LXXXII)

Sócrates e o seu aluno Platão acreditavam que a alma humana tinha três partes: logos, thymos e eros. Acreditavam também que cada parte da alma tinha um lugar específico no corpo. O logos — a mente ou a razão — existia na cabeça; thymos — a emoção — existia no peito; eros — o desejo ou o apetite — existia no estômago.

A sua filosofia, denominada alma platónica, deu início a uma série de especulações sobre a sua localização.

Durante séculos, as pessoas interrogaram-se sobre a localização exacta da alma entre os órgãos humanos. Estaria em alguma parte do cérebro? Residiria no coração? Estaria encaixada algures entre o fígado e o baço? Os ateus negam a existência da alma porque não a conseguimos encontrar nem medir fisicamente em nenhum lugar do corpo.

Os primeiros médicos e anatomistas procuraram a alma nos cadáveres, mas, claro, nunca a encontraram. No início do século XX, um médico norte-americano chamado Duncan MacDougall realizou experiências em que pesava doentes moribundos para tentar determinar o peso exato da alma que partia no momento da morte. Determinou que a alma "pesava três quartos de onça", ou 21 gramas. As suas descobertas foram posteriormente comprovadas como totalmente não-científicas, mas a ideia em si persistiu, e hoje muitos artistas, escritores e músicos utilizam a expressão "21 gramas" para designar o espírito humano.

Os Bahá’ís acreditam que a alma não possui existência física — nem massa, nem peso. Em vez disso, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a alma é uma única realidade invisível, não composta por vários elementos e, portanto, não sujeita à decomposição:

A alma é eterna e imortal

Os materialistas dizem: “Onde está a alma? O que é ela? Não podemos vê-la, nem tocá-la”.

Eis como devemos responder-lhes: Por mais que o mineral evolua, não consegue compreender o mundo vegetal. Ora, esta falta de compreensão não prova a inexistência de um vegetal!

E por mais que a planta possa evoluir, será incapaz de compreender o mundo animal; essa ignorância não prova que o animal não exista!

O animal, por mais desenvolvido que seja, não consegue imaginar a inteligência humana, nem compreender a natureza da sua alma. Mas, mais uma vez, isto não prova que o homem seja desprovido de intelecto ou de alma. Demonstra apenas que uma forma de existência é incapaz de compreender outra forma que lhe é superior.

Esta flor pode desconhecer a existência de um ser como o homem, mas esse desconhecimento não impede a existência da humanidade.

Da mesma forma, se os materialistas não acreditam na existência da alma, a sua descrença não prova que não exista um reino como o mundo espiritual. A própria existência da inteligência humana prova a sua imortalidade; além disso, a escuridão prova a presença da luz, pois sem luz não haveria sombra. A pobreza prova a existência de riqueza, pois, sem riqueza, como poderíamos medir a pobreza? A ignorância prova que o conhecimento existe, pois sem conhecimento como poderia haver ignorância?

Portanto, a ideia de mortalidade pressupõe a existência da imortalidade – pois se não existisse Vida Eterna, não haveria forma de medir a vida neste mundo!

Se o espírito não fosse imortal, como poderiam os Manifestantes de Deus suportar tão terríveis provações?

Porque é que Cristo Jesus sofreu a morte terrível na cruz?

Por que razão Muhammad suportou perseguições?

Porque é que o Báb fez o sacrifício supremo e porque é que Bahá’u’lláh passou anos da Sua vida na prisão?

Porquê tanto sofrimento, senão para provar a vida eterna do espírito?

Cristo sofreu, aceitou todas as Suas provações por causa da imortalidade do Seu espírito. Se alguém reflectir, compreenderá o significado espiritual da lei do progresso; como tudo se move do inferior para o superior.

Só um homem sem inteligência, depois de considerar estas coisas, pode imaginar que o grande projecto da criação deixe subitamente de progredir, que a evolução chegue a um fim tão inadequado!

Os materialistas que raciocinam desta forma e afirmam que somos incapazes de ver o mundo espiritual ou de perceber as bênçãos de Deus são, certamente, como os animais que não têm entendimento; têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem. E esta falta de visão e de audição não é prova de nada, a não ser da sua própria incapacidade; deles se lê no Alcorão: “São homens cegos e surdos ao Espírito”. Não usam este grande dom de Deus, o poder do entendimento, pelo qual podiam ver com os olhos do espírito, ouvir com ouvidos espirituais e também compreender com um coração divinamente iluminado.

A incapacidade da mente materialista em compreender a ideia da Vida Eterna não prova a inexistência dessa vida.

A compreensão dessa outra vida depende do nosso nascimento espiritual!

A minha oração por vós é que as vossas faculdades e aspirações espirituais aumentem diariamente, e que nunca permitam que os sentidos materiais obscureçam os vossos olhos das glórias da Iluminação Celestial. ('Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 93-95)

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Texto original: If I Have a Soul — Where is It? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

O que tornou o Ocidente excepcional

Artigo de Fareed Zakaria publicado no Washington Post.

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Num discurso muito bem elaborado na semana passada, proferido tendo como pano de fundo a magnífica Acrópole de Atenas, o Secretário de Estado Marco Rubio exortou o Ocidente a redescobrir o que o torna excepcional. Descreveu as qualidades que definem a civilização ocidental como o fogo da paixão, a força, a coragem e o orgulho, e enalteceu a sua ambição, o nacionalismo e a busca incessante da excelência. Alertou, no entanto, que o Ocidente se envergonhou precisamente daquilo que o tornou grandioso.

Rubio tem razão ao afirmar que o Ocidente por vezes perdeu a confiança nas suas próprias tradições e ideais, e não deveria. Mas o próprio Rubio parece profundamente confuso sobre o que tornou o Ocidente excecional.

Consideremos as qualidades que ele enaltece: coragem, força, ambição e orgulho. Genghis Khan possuía todas estas qualidades em abundância. O mesmo acontecia com os imperadores persas, os czares russos e os governantes da China imperial. Toda a grande civilização celebrou os seus guerreiros, glorificou as suas conquistas e acreditou na sua própria superioridade.

O que realmente distingue a civilização ocidental não é o seu poderio militar ou orgulho nacional, mas sim as suas tradições intelectuais e políticas. Da filosofia grega e do direito romano, passando pelo cristianismo, pela revolução científica e pelo Iluminismo, o Ocidente desenvolveu um conjunto de ideias que desafiaram o exercício arbitrário do poder.

A razão, a investigação científica, a liberdade individual, a democracia, o Estado de direito e os direitos humanos universais tornaram-se centrais para a civilização ocidental e diferenciaram-na das demais.

Outras culturas possuem tradições de moralidade, justiça e dignidade humana. Mas, no Ocidente, estas ideias evoluíram para proposições políticas revolucionárias, segundo as quais todo o ser humano possui determinados direitos simplesmente por ser humano, os governos existem para garantir esses direitos e nenhum governante ou tradição está acima de qualquer escrutínio.

A característica mais radical destas ideias, em parte inspiradas pelo Cristianismo, era a sua universalidade. Aplicavam-se não apenas aos ocidentais, mas, em princípio, a todos.

Consideremos a escravatura. O Ocidente praticou a escravatura numa escala vasta e brutal, tal como praticamente todas as grandes civilizações da história. Mas o Ocidente produziu também um poderoso movimento abolicionista, baseado nas crenças cristãs, nos ideais iluministas e nas lutas dos próprios escravizados. As sociedades ocidentais desenvolveram princípios que podiam ser utilizados para condenar a sua própria conduta.

Da mesma forma, durante séculos, as sociedades ocidentais trataram as mulheres e as minorias religiosas e raciais como cidadãos de segunda, tal como a maioria das outras civilizações. Mas as ideias ocidentais sobre a igualdade e os direitos individuais ajudaram a gerar movimentos pelo sufrágio feminino, pela tolerância religiosa e pelos direitos civis.

Estes movimentos não rejeitaram os mais elevados ideais do Ocidente. Exigiram que o Ocidente estivesse à altura deles.

Martin Luther King Jr. apelou à ideia da Declaração da Independência de que todos os homens são criados iguais precisamente porque a sua promessa era universal, mesmo que a sociedade americana a tivesse traído vezes sem conta.

Isto também se aplica ao imperialismo. Quase todas as grandes potências procuraram expandir o seu domínio. O Ocidente obteve um sucesso extraordinário neste sentido, e é admirável o seu enorme alcance. Mas as sociedades ocidentais acabaram também por reconhecer os direitos dos povos colonizados e por questionar a moralidade da conquista e a brutalidade do domínio colonial.

Esta capacidade de autocrítica não é uma fraqueza. É uma das maiores forças do Ocidente: a capacidade de se obrigar a viver de acordo com os seus próprios ideais. Faz também parte do uso incansável da razão que levou o Ocidente a liderar o mundo na ciência e nas descobertas. E isso leva-nos talvez ao ponto mais importante que Rubio deixa passar.

A extraordinária influência do Ocidente sobre o mundo moderno não provém simplesmente da conquista militar ou do domínio económico. Provém da atracção intelectual das suas ideias.

O poder ocidental era frequentemente alvo de ressentimento, resistência e, por fim, expulsão. Contudo, os ideais associados ao Ocidente perduraram porque pessoas de todo o mundo podiam reivindicá-los como seus. Os britânicos governaram a Índia durante quase dois séculos, muitas vezes através da exploração, repressão e violência. Apesar disso, quando os indianos conquistaram a sua independência, não descartaram a democracia parlamentar, o governo constitucional, um poder judicial independente ou o Estado de direito.

Adoptaram estas instituições, adaptaram-nas e combinaram-nas com as suas próprias tradições. A Índia adoptou o sufrágio universal desde o nascimento da sua república, um compromisso extraordinário com a igualdade política num país pobre e em grande parte analfabeto. Este é o notável poder da formulação de ideias universais pelo Ocidente. Qualquer pessoa pode adotá-las e obter poder através delas.

Marco Rubio tem razão ao afirmar que o Ocidente deve orgulhar-se da sua história e das suas conquistas. Mas, embora os aspectos que Rubio sublinha — a força, a coragem e a glória nacional — tenham de facto tornado o Ocidente poderoso, não foram eles que o transformaram.

A sua realização mais duradoura não foi a de conquistar territórios, construir exércitos e monumentos poderosos, ou gerar riqueza. O Império Otomano fez tudo isso. O que tornou o Ocidente excepcional foi a sua capacidade de transcender as noções limitadoras da tribo, da nação e do império para desenvolver ideias sobre a liberdade, a igualdade e a dignidade humana que pudessem dialogar com todas as pessoas, em todo o lado.

O Ocidente conquistou grande parte do mundo pela força, mas transformou o mundo através das ideias. Gostaria que o Secretário de Estado dos EUA celebrasse estas ideias e que este governo estivesse à altura delas.

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Texto original: Marco Rubio misunderstands what makes the West great (Washington Post)

sábado, 17 de outubro de 2026

As Três Características de um Verdadeiro Profeta

Por David Langness.


Que critérios utilizamos para determinar a validade de um profeta de Deus?

Ao reflectir sobre isto, a maioria de nós perceberá que esta decisão pode afectar toda a sua vida e a também vida dos seus descendentes. Se encontrar um mensageiro ou mestre que traga realmente uma nova mensagem divina à humanidade, e a aceitar e tentar segui-la, essa decisão poderá ter grandes impactos positivos ao longo desta vida — e da próxima — não só para si pessoalmente, mas para todas as gerações seguintes.

Se rejeitar esta mensagem, poderá perder a orientação e a sabedoria espiritual de que todos necessitamos para viver uma vida feliz e plena. Por outro lado, rejeitar a mensagem de um falso profeta pode também evitar muita dor e sofrimento.

Quase todos as pessoas que lêem os livros sagrados das principais religiões do mundo conhecem os critérios tradicionais para identificar um profeta de Deus. Um verdadeiro profeta precisa de: a) cumprir as profecias das religiões anteriores; b) revelar um livro sagrado com leis, princípios e ensinamentos que orientem as acções da humanidade para o amor e a unidade; c) exemplificar plenamente essas acções na sua própria vida; e d) ter impacto suficiente no mundo para atrair um número significativo de seguidores e adeptos para estes novos ensinamentos. Por outras palavras, um verdadeiro profeta produz os "frutos" que a árvore da nova fé promete.

Pelos seus frutos os reconhecereis. (Mateus 7:16)

Os ensinamentos Bahá’ís dizem exactamente a mesma coisa: que só uma verdadeira árvore da vida produz frutos verdadeiros:

Esta é a sabedoria do aparecimento dos Profetas: educar a humanidade, para que este pedaço de carvão se transforme num diamante e esta árvore estéril seja enxertada e produza frutos da mais absoluta doçura e delicadeza. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 273)

Numa das Suas palestras nos Estados Unidos, em 1912, ‘Abdu’l-Bahá apresentou um resumo ainda mais sucinto das formas de identificar conclusivamente um educador divino, um profeta de Deus. Enumerou três critérios distintos:

A prova da validade de um Manifestante de Deus reside na difusão e poder da Sua Palavra, no desenvolvimento dos atributos celestiais nos corações e nas vidas dos Seus seguidores e na transmissão da educação divina à humanidade. Esta é a prova absoluta. O mundo é uma escola na qual devem existir Mestres da Palavra de Deus. A evidência da capacidade destes Mestres é a educação eficaz dos alunos que se formam. (The Promulgation of Universal Peace, p. 340)

Vamos então enumerar estes três critérios e ver se conseguimos demonstrar racional e historicamente a sua eficácia:

  • A difusão e a poder da sua palavra
  • O desenvolvimento de atributos celestiais nos corações e nas vidas dos seus seguidores
  • A transmissão da educação divina ao mundo da humanidade.

Vemos nesta breve lista, que ‘Abdu’l-Bahá omitiu qualquer referência a profecias ou milagres de qualquer tipo. Ele explicou que apoiarmo-nos em argumentos tradicionais deste tipo nunca convenceria uma mente racional e, por isso, concentrou-se em provas racionais, que qualquer pessoa imparcial pudesse compreender e aceitar.

Eis, dessa mesma palestra, a explicação racional de ‘Abdu’l-Bahá sobre a prova da missão divina de Cristo: 

O propósito e a missão dos santos Mensageiros divinos é a instrução e o progresso da humanidade, o desenvolvimento dos frutos divinos nos jardins dos corações humanos, o reflexo do esplendor celestial nos espelhos das almas humanas, o desenvolvimento da capacidade mental e o aumento da sensibilidade espiritual. Quando estes resultados e desenvolvimentos são testemunhados na humanidade, a função e a missão dos Manifestantes tornam-se inconfundíveis. Cristo, único e solitário, sem escolaridade ou educação formal, e instruído para trabalhar na oficina de um carpinteiro, apareceu no mundo na época em que a nação judaica se encontrava na sua maior humilhação. Este jovem radiante, sem riquezas, poder militar ou prestígio, resgatou os judeus que nele acreditaram da tirania e da degradação, elevando-os ao mais alto nível de desenvolvimento e glória. Pedro, o seu discípulo, era pescador. Através do poder de Cristo, Ele iluminou todos os horizontes do mundo. Além disso, diversos povos das nações grega, romana, egípcia e assíria estavam unidos em harmonia e concórdia; onde antes havia guerra e derramamento de sangue, agora manifestava-se a humildade e o amor, e os fundamentos da religião divina estavam estabelecidos, para nunca serem destruídos. Isto prova que Cristo foi um Mestre e Educador celestial para toda a humanidade, pois tais evidências são históricas e irrefutáveis, não baseadas na tradição ou em relatos circunstanciais. O poder da Sua Palavra em unir estas nações é tão claro e evidente como o sol ao meio-dia. Não há necessidade de mais demonstrações. (Idem, pags. 340-341)

Sabemos historicamente que a palavra de Cristo entrou nos corações e nas almas dos Seus seguidores. Sabemos também que estes primeiros cristãos desenvolveram atributos celestiais nas suas acções, como resultado dos ensinamentos de Jesus, que concedeu "educação divina ao mundo da humanidade". Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que só os profetas de Deus conseguem ajudar a humanidade a passar do progresso material para uma civilização divina.

Bahá’u’lláh ensina que a civilização material está incompleta, é insuficiente e que a civilização divina deve ser estabelecida. A civilização material diz respeito ao mundo da matéria ou dos corpos, mas a civilização divina é o domínio da ética e da moral. Enquanto o nível moral das nações não avançar e as virtudes humanas não atingirem um nível elevado, a felicidade da humanidade será impossível. Os filósofos fundaram a civilização material. Os profetas fundaram a civilização divina. Cristo foi o Fundador da civilização celestial. A humanidade recebe as dádivas da civilização material, bem como da civilização divina, dos profetas celestiais. A capacidade para alcançar um progresso extraordinário e louvável é concedida por Eles através do sopro do Espírito Santo, e a civilização celestial não seria possível de alcançar ou realizar de outra forma. Isto evidencia que a humanidade necessita de dádivas celestiais, e enquanto dádivas celestiais não forem recebidas, a felicidade eterna não poderá ser alcançada. (Idem, pag. 375)

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Texto original: The 3 Criteria of a True Prophet (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 3 de outubro de 2026

Os Bahá'ís e a Imigração: Como Construir um Mundo Sem Fronteiras

Por David Langness.


Quando ouve as palavras “refugiado” ou “migrante”, o que lhe vem imediatamente à cabeça? Pensa num imigrante pobre a atravessar a fronteira para outro país – ou pensa em Cristo?

Sim, a família de Cristo era constituída por refugiados e migrantes. Os seus pais, José e Maria, fugiram de Belém após o sonho de José sobre o decreto do Rei Herodes para matar todos os bebés do sexo masculino. Para salvar o seu filho recém-nascido, Jesus, fugiram para o Egipto como migrantes pobres.

Na verdade, muitos dos grandes profetas, mensageiros divinos e fundadores das religiões do mundo foram refugiados – exilados pobres que dependiam da bondade humana.

Pensemos nas enormes dificuldades que enfrentaram: abusados, torturados, exilados das suas terras natais, obrigados a vaguear por lugares estranhos sem apoio ou sustento, perseguidos, presos e até executados, os mensageiros de Deus sofreram como migrantes e refugiados.

Abraão, fugiu de uma grave fome na sua terra natal, Canaã, foi banido pelo rei, e migrou para o Egipto. Buda abandonou a sua vida na realeza e migrou para Rajagaha, onde se tornou mendigo, um homem sem-abrigo que pedia esmola nas ruas. Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá’í, foi exilado da Pérsia, a Sua terra natal, e passou décadas na prisão – tudo por ensinar a Sua nova fé.

Estes profetas e muitos outros, explicam os ensinamentos Bahá’ís, tornaram-se exilados, refugiados e migrantes. ‘Abdu’l-Bahá, filho e sucessor de Bahá’u’lláh, falou sobre esta realidade num discurso proferido na Igreja Unitária All Souls, na cidade de Nova Iorque, em 1912:

Moisés foi perseguido e expulso para o deserto, Abraão foi banido, Maomé refugiou-se em grutas, o Báb foi morto e Bahá’u’lláh foi exilado e preso durante quarenta anos. Mesmo assim, todos eles desejaram a comunhão e o amor entre os homens. Suportaram dificuldades, sofreram perseguição e morte por nossa causa, para que pudéssemos aprender a amar-nos uns aos outros e a estar unidos e a ser afetuosos, em vez de discordantes e em conflito. Basta destes longos séculos que trouxeram tantas adversidades e dificuldades ao mundo através do conflito e do ódio. Agora, neste século radioso, esforcemo-nos por fazer a vontade de Deus, para que sejamos resgatados destas trevas e possamos alcançar a iluminação ilimitada do céu, rejeitando a divisão e acolhendo a unidade divina da humanidade.

Será que as experiências de privação, perseguição e grandes dificuldades enquanto estrangeiros numa terra estranha contribuíram para que todos os profetas desenvolvessem uma enorme empatia pelos deslocados? Os ensinamentos Bahá’ís reflectem certamente este elevado nível de empatia. 'Abdu'l-Bahá disse: "Sede sempre bondosos com todos e um refúgio para aqueles que não têm abrigo". Num discurso proferido em Paris, acrescentou:

... esforçai-vos para que as vossas ações diárias sejam belas orações. Voltai-vos para Deus e procurai fazer sempre o que é certo e nobre. Valorizai os pobres, levantai os caídos, consolai os aflitos, curai os enfermos, tranquilizai os temerosos, resgatai os oprimidos, dai esperança aos desesperados, abrigai os desamparados!

Encontraremos estes mesmos nobres objectivos de amor e bondade universais repetidos nas Escrituras de todas as grandes religiões globais. Os seus ensinamentos exortam-nos a ver os exilados, os migrantes e os refugiados como seres humanos — não como outros, estrangeiros, estranhos ou intrusos, mas como almas semelhantes que precisam da nossa ajuda. Noutro discurso proferido perante uma plateia europeia em Paris, ‘Abdu’l-Bahá disse:

Que o convencionalismo não vos faça parecer frios e insensíveis ao conhecerem pessoas estrangeiras. Não as olheis como se suspeitassem que são malfeitores, ladrões e grosseiros. Considerai necessário ter muita cautela para não vos expor ao risco de conhecer pessoas eventualmente indesejáveis.

Peço-vos que não pensem apenas em vós próprios. Sede gentis com os estrangeiros, sejam eles da Turquia, do Japão, da Pérsia, da Rússia, da China ou de qualquer outro país do mundo.

Ajudai-os a sentirem-se em casa; procurai onde estão alojados, perguntai-lhes se podeis prestar algum serviço; tentai tornar as suas vidas um pouco mais felizes.

Desta forma, mesmo que, por vezes, aquilo que inicialmente suspeitava ser verdade, ainda assim fazei um esforço para ser gentil com eles — essa gentileza ajudá-lo-á a tornarem-se pessoas melhores.

Afinal, porque é que os estrangeiros devem ser tratados como estranhos?

Praticai o ensinamento de Bahá’u’lláh, o da bondade para com todas as nações. Não vos contenteis em demonstrar amizade apenas por palavras; deixai o vosso coração arder de amor e bondade por todos os que se cruzarem no vosso caminho.

Entre os Bahá’ís, toda a consulta sobre questões sociais complexas, como a imigração, começa com a identificação dos princípios espirituais envolvidos. Estes princípios espirituais universais — a unidade da raça humana; a consideração de toda a Terra como um só país; a bondade e a compaixão para com todos, independentemente dos seus costumes, credo ou cultura — impelem-nos a oferecer amor, serviço e abrigo aos exilados, aos sem-abrigo e aos imigrantes.

Quando vivemos de acordo com estes princípios, todos podemos fazer o nosso melhor para estender uma mão compreensiva àqueles que encontramos pessoalmente — mas e as políticas dos nossos países? Como podemos influenciar da melhor forma as políticas e práticas de imigração das nossas diversas nações para que estas comecem a reflectir uma realidade mais espiritual?

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que podemos servir melhor os nossos países aplicando o princípio do federalismo ao mundo inteiro.

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Texto original: Baha’is and Immigration: How to Build a World Without Borders (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 19 de setembro de 2026

Os 3 Princípios Fundamentais da Revelação Bahá'í

Por Nader Saiedi.


As Escrituras Sagradas de Bahá’u’lláh – que viveu entre 1817 e 1892 – prolongam-se de 1852, ano da fundação da Fé Bahá’í, até 1892, ano da Sua ascensão. São 40 anos de revelação.

Tanto a fé do Báb (1819-1850) – o profeta que preparou o caminho para a vinda de Bahá’u’lláh – como a fé de Bahá’u’lláh são caracterizadas por um oceano de revelações sem precedentes.

É por isso que as Escrituras Bahá’ís constituem quase uma biblioteca, em vez de um ou poucos livros.

Além disso, não há dúvidas históricas ou objectivas sobre a autenticidade destes textos. Os textos de Bahá'u'lláh, só por si, equivalem a cem livros, e os Bahá'ís possuem os originais. Estes textos abordam todos os tipos de questões, apresentando vários estilos. No entanto, apesar da incrível diversidade e pluralidade das Escrituras de Bahá’u’lláh, todos estes textos representam uma grandiosa ordem e unidade divina.

Dá ouvidos e escuta! Esta é a voz da Minha pena que se eleva perante místicos, depois sacerdotes, e depois reis e governantes. (Ishráqát, pag. 260)

Esta declaração de Bahá’u’lláh revela uma ordem e unidade únicas. Como Ele próprio observa, revelou os Seus textos em três etapas. A primeira etapa da Sua revelação foi dirigida aos místicos, a segunda aos sacerdotes e clérigos, e a terceira aos reis e governantes do mundo. Esta ordem não é fortuita. A estrutura lógica e dialética desta ordem é, por si só, mais um testemunho da unidade primordial, originalidade, novidade e pureza da consciência de Bahá’u’lláh.

Nesta reflexão, vamos explorar estas três etapas, o princípio correspondente anunciado por cada uma delas, bem como a ligação lógica e a unidade entre as três.

O princípio explicado na primeira etapa é a consciência mística; essa realidade é, em última análise, espiritual. A segunda etapa enfatiza a consciência histórica e estende esse dinamismo ao âmbito da religião e à palavra de Deus. O terceiro princípio, na etapa final da revelação de Bahá’u’lláh, enfatiza a consciência global e os seus dois requisitos: a unicidade da humanidade e a paz universal. Em conjunto, estes três princípios – místico, histórico e global – constituem uma unidade orgânica, e esta unidade define a singularidade da mensagem de Bahá’u’lláh.

1. A Consciência Mística

A primeira fase da revelação de Bahá’u’lláh, de 1852 a 1860, ocorreu durante grande parte do Seu exílio em Bagdade. Algumas das Suas principais obras desta fase – As Palavras Ocultas, Os Quatro Vales, A Ode da Pomba e Os Sete Vales – enfatizam a interpretação espiritual da realidade.

Segundo as Escrituras de Bahá’u’lláh, a realidade expressa, em última análise, diversas manifestações dos nomes e atributos divinos. Assim, todos os seres são espelhos sublimes nos quais a revelação divina se reflecte e se manifesta. Esta afirmação radical da sacralidade de todos os seres e da solidariedade e unidade cósmica de todas as coisas baseia-se na ideia de que a verdade última de todos os seres é a própria revelação divina que reside nos seus corações mais íntimos. A história é, portanto, uma viagem espiritual rumo à realização e ao desvendar desta revelação divina inerente e abrangente na vida dos seres humanos. N’As Palavras Ocultas de Bahá'u'lláh, lemos:

Ó Filho do Homem! Tu és o Meu domínio, e o Meu domínio não perece; porque receias perecer? És a Minha luz, e a Minha luz jamais se extinguirá; por que temes extinção? És a Minha glória, e a Minha glória não desvanece; és o Meu manto, e o Meu manto jamais se desgastará. Mantém-te, pois, no teu amor por Mim, para que possas encontrar-Me no reino da Glória. (As Palavras Ocultas, do árabe, #14)

O princípio da natureza espiritual de todos os seres distancia a mundividência Bahá’í de todas as visões materialistas do mundo e de todas as teorias sociais que desvinculam a ordem sociocultural dos valores espirituais e da orientação moral. Assim, segundo Bahá’u’lláh, um dos fundamentos mais importantes da ordem social é o compromisso da sociedade com os valores morais e espirituais.

Esta orientação espiritual significa que devemos observar a realidade como uma unidade interligada, e não como um conjunto de objectos materiais, fragmentados e independentes. A verdade de tudo é a revelação divina, o que significa que todos os seres estão interligados e são um só. Contudo, essa mesma compreensão espiritual da existência implica também um princípio oposto. A consciência é sempre uma realidade única e individual. Por conseguinte, os seres humanos, como seres espirituais independentes, têm o dever de pensar por si próprios. A metafísica compatível com esta consciência mística – unidade na diversidade – apela a uma unificação cada vez maior do planeta e de todos os seus povos.

2. Consciência Histórica

Embora o primeiro princípio de Bahá’u’lláh isole a Sua mensagem de toda a mundividência materialista, o segundo princípio constitutivo da Sua mundividência diferencia-a de todas as formas religiosas de tradicionalismo.

Este segundo princípio é o princípio da consciência histórica ou da historicidade da vida. Na segunda fase da Sua revelação, entre 1860 e 1867, durante os últimos anos da Sua estadia em Bagdade e continuando durante o Seu exílio em Istambul e Adrianopolis, Bahá’u’lláh falou sobre assuntos relativos às Escrituras Sagradas.

Aqui, os sacerdotes e os eruditos de diversas crenças religiosas tornaram-se os destinatários directos dos Seus textos. Entre estas obras, destacam-se o Livro da Certeza e o Novo Livro Maravilhoso (Kitáb-i-Badí'). Esta concepção dinâmica é particularmente relevante para o âmbito da cultura e da sociedade humanas.

A realidade social é um fenómeno em constante evolução. Este dinamismo aplica-se não só ao âmbito das instituições culturais humanas, mas também ao âmbito da própria revelação da palavra divina. Os Bahá’ís denominam esta afirmação abrangente e radical da consciência histórica nas Escrituras de Bahá’u’lláh de “princípio da revelação progressiva”.

A cultura e a sociedade caracterizam-se por mudanças e transformações perpétuas, o que significa que a revelação da Vontade eterna de Deus se torna também algo histórico e dinâmico. Bahá'u'lláh vê, portanto, em todas as diversas religiões uma mesma verdade eterna. Esta Vontade divina criadora reflecte-se sob a forma de novas leis e doutrinas, em diferentes épocas, de acordo com a fase de desenvolvimento da humanidade e as necessidades específicas de cada povo nessa fase particular de desenvolvimento. Assim, para Bahá’u’lláh, todos os profetas de Deus representam uma mesma realidade eterna, que aparece em diferentes épocas na forma de pessoas diferentes e historicamente específicas, com leis diferentes, conforme exigido pelo desenvolvimento material e espiritual da sociedade naquela fase da evolução da humanidade. Por outras palavras, a mensagem deste segundo princípio é a unidade na diversidade de todas as religiões.

O Médico Omnisciente tem o Seu dedo no pulso da humanidade. Ele percebe a doença e, na Sua sabedoria infalível, prescreve o remédio. Cada era tem o seu próprio problema, e cada alma a sua aspiração particular. O remédio que o mundo necessita nas suas aflições actuais nunca poderá ser o mesmo exigido numa era posterior. Preocupai-vos impacientemente com as necessidades da era em que viveis e concentrai as vossas deliberações nas suas exigências e nos seus requisitos. (Bahá’u’lláh, Gleanings ,CVI)

Embora a consciência histórica esteja presente nos sistemas filosóficos de vários pensadores, como Hegel e Marx, o princípio de Bahá’u’lláh é qualitativamente diferente. Em primeiro lugar, esta dinâmica histórica nunca termina num estado histórico final. Assim, para Bahá’u’lláh, mesmo a verdade da Sua própria revelação é relativa à fase actual de desenvolvimento da humanidade e, por isso, a Sua revelação não é a última revelação divina. A revelação divina, pelo contrário, é eterna e perpétua. Em segundo lugar, Bahá’u’lláh aplica esta lógica histórica não só ao âmbito da cultura humana, mas também ao âmbito da revelação da palavra divina.

3. Consciência Global

A unidade do primeiro e do segundo princípios implica o terceiro princípio da mundividência Bahá’í. Os dois primeiros princípios, em conjunto, declaram a necessidade da renovação da ordem espiritual nesta fase de amadurecimento da humanidade, de forma que estejam em consonância com o desafio fundamental do desenvolvimento histórico nesta era.

O terceiro princípio da mundividência Bahá’í é o princípio da unicidade da humanidade e o imperativo da paz universal. De acordo com esta visão Bahá’í do futuro do mundo, uma solução eficaz e justa para os diversos problemas da humanidade nesta fase do seu desenvolvimento exige a adopção de uma consciência global baseada na premissa fundamental da unidade essencial de toda a raça humana.

Esta abordagem global não é simplesmente um culto do amor fraterno ou uma fantasia utópica. Enfatizado nas Suas cartas aos governantes do mundo em 1867-1868 e elaborado ao longo da sua vida, o terceiro princípio de Bahá’u’lláh apela ao surgimento de uma nova cultura de paz e unidade, de uma nova estrutura internacional consultiva e democrática e de novas instituições sociais consultivas e justas. Os ensinamentos de Bahá’u’lláh visam criar uma ordem social definida pelo princípio da unidade na diversidade.

Este é, de facto, um homem que, hoje, se dedica ao serviço de toda a raça humana. Diz o Grande Ser: Bem-aventurado e feliz é aquele que se levanta para promover os melhores interesses dos povos e raças da terra... Que não se vanglorie quem ama o seu próprio país, mas sim, quem ama o mundo inteiro. A terra é um só país, e a humanidade os seus cidadãos. (Bahá’u’lláh, Gleanings, CXVII)

Qualquer pessoa pode perceber a notável natureza dialética destas três etapas. A primeira etapa enfatiza a unidade abstrata e mística da humanidade. A segunda etapa nega essa abstração e afirma a diversidade histórica e a natureza dinâmica do espírito. A terceira etapa afirma a unidade concreta e historicamente específica da humanidade.

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Texto original: The 3 Main Principles of the Baha’i Revelation (www.bahaiteachings.org)

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Nader Saiedi é professor de Estudos Bahá’ís na UCLA (Los Angeles, EUA). É autor de diversos livros, incluindo Logos and Civilization: Spirit, History and Order in the Writings of Baha’u’llah; e Gate of the Heart: Understanding the Writings of the Bab. Nasceu em Teerão (Irão) e tem um mestrado em economia pela Universidade Pahlavi (Shiraz) e doutoramento em sociologia pela Universidade de Wisconsin.

sábado, 12 de setembro de 2026

Procurar Deus na Natureza

Por Tom Tai-Seale.


Onde devemos procurar Deus? De certa forma, a resposta é: em qualquer lugar.

Na sua obra "Da Verdadeira Religião" (De vera religione), Santo Agostinho reconheceu claramente que há vestígios de Deus em tudo. Como poderia ser diferente, se Deus é o Criador de tudo? O Antigo Testamento proclama: "Toda a terra está cheia da sua glória" (Isaías 6:3). O Novo Testamento anuncia que Deus pode ser "compreendido pelas coisas criadas" (Romanos 1:20). Da mesma forma, o Alcorão declara: "A Deus pertencem o Oriente e o Ocidente; para onde quer que vos volteis, aí está a face de Deus; Deus é Omnipresente, Omnisciente" (2:109). E o Bhagavad Gita afirma: "O Senhor está em todo o lado e é sempre perfeito" (6:37).

As primeiras religiões começaram provavelmente com o reconhecimento de que havia uma força vital (Deus) em tudo. Esta ideia, chamada panteísmo, contém um elemento de profunda verdade. Não é uma conquista pequena ver Deus em tudo. As Escrituras Bahá'ís explicam:

A existência realiza-se e torna-se possível pela graça de Deus, tal como o raio ou a chama que emana desta lâmpada se realiza pela graça da lâmpada de onde é originária. Da mesma forma, todos os fenómenos se realizam pela graça divina, e a explicação da verdadeira afirmação e princípio panteísta é que os fenómenos do universo encontram realização através do único poder que anima e domina todas as coisas; e todas as coisas são apenas manifestações da sua energia e graça. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 286)

Embora a maioria das novas religiões rejeite o panteísmo, porque Deus não está "dentro" nem "fora" de nada, todas as grandes religiões ensinam que tudo emana da vontade de Deus.

Mas, embora a generosidade de Deus sustente e crie tudo, a medida da divindade refletida em cada coisa está condicionada pela sua capacidade, dignidade e mérito intrínseco. Os minerais refletem a glória de Deus na medida da sua capacidade. As plantas e os animais reflectem os atributos de Deus de acordo com as suas diversas capacidades; e as pessoas reflectem ainda mais o esplendor de Deus. Mas existem reinos acima do nosso, onde ainda mais da glória de Deus se pode reflectir, e estes devem ser tão misteriosos para nós como nós somos para os animais, ou os animais para as plantas. Então, onde devemos procurar para encontrar Deus?

Toda as grandes religiões nos pedem que comecemos por olhar para a própria criação.

Qualquer pessoa que já tenha passado algum tempo perto do oceano, numa floresta imponente ou numa montanha acidentada, experimentou a admiração e a beleza que Deus infundiu na natureza. Como a nossa humanidade é fundamentalmente espiritual, e como a própria natureza humana provém das nossas origens na Terra, as nossas almas gravitam no mundo natural.

Talvez seja por isso que muitas vezes nos sentimos tão carentes da natureza e da sua beleza – a maioria de nós vive em ambientes urbanos ou suburbanos onde o mundo natural foi subjugado, pavimentado e domesticado. Organizamos as nossas vidas de forma que, muitas vezes, incluam muito pouco da criação de Deus. Nas nossas cidades, à noite, mal conseguimos ver o vasto céu estrelado por cima de nós. Muitos de nós não experimentamos nada além do ambiente construído à nossa volta todos os dias, com casas, centros comerciais, estradas e arranha-céus a obscurecer o solo fértil onde as coisas costumavam crescer livremente. Os nossos filhos têm aquilo a que os cientistas começaram recentemente a chamar de “perturbação de défice de natureza”, a grave falta de qualquer ligação com o ambiente natural orgânico. E todo este cimento, asfalto, aço e vidro pode privar-nos de algo ainda mais importante – a nossa crença num Criador.

Aqueles que estudam a história da religião comparada descobriram que as populações urbanas têm uma probabilidade muito menor de se identificarem com um determinado sistema de crenças ou filiação religiosa do que as populações rurais. Os investigadores costumavam acreditar que estas diferenças podiam ser atribuídas a diferenças educacionais – mas mesmo quando o nível de escolaridade é igual, as pessoas que vivem mais perto da terra e do ambiente natural tendem a ter uma crença mais forte e activa numa Força Criadora no universo.

Portanto, o primeiro lugar para procurar Deus é lá fora. Vá a algum lugar onde possa realmente sentir e compreender o mundo natural, e refletir e meditar sobre quem o criou.

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Texto Original: Looking For God in Nature (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 5 de setembro de 2026

Uma Perspectiva Bahá'í sobre Aristóteles

O vídeo da minha apresentação sobre Aristóteles, que Bahá'u'lláh referiu como “o célebre homem de conhecimento”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Escrever um Testamento Bahá’í

Por Collis Ta'eed.


Pode parecer um pouco mórbido pensar sobre escrever um testamento, mas acontece que se trata de algo que todo o crente Bahá’í deve fazer durante a sua vida. Descobri isso recentemente quando o nascimento do meu primeiro filho me inspirou a pensar mais sobre o futuro do que era normal. Na verdade, descobri que escrever um testamento é uma lei do Kitab-i-Aqdas.

É bom também, porque, aparentemente, aqui na Austrália, em algumas circunstâncias quando não se tem um testamento, todos os bens são entregues ao estado!

Uma vez que um testamento é um documento legal, é importante lembrar se deve procurar algum aconselhamento jurídico adequado antes de escrever um. É possível encontrar modelos de testamentos, mas para mim foi bom ter alguém qualificado para fazer o trabalho, em vez de ficar perdido e confuso no meio de tudo isso.

Testamentos Bahá’ís

Não há instruções específicas sobre o conteúdo dos testamentos Bahá’ís, mas há uma instrução para o embelezar. No Kitab-i-Aqdas, Bahá'u'lláh afirma que:

O testador deve iniciar este documento com o adorno do Mais Grandioso Nome, dando ali testemunho da Unidade de Deus no Amanhecer da Sua Revelação, e mencionar, como desejar, o que é digno de louvor, para que seja um testemunho para ele nos reinos da Revelação e da Criação e um tesouro com o Senhor, o Protector Supremo, o Fiel. (Kitab-i-Aqdas)


Assim, no início do seu testamento, deve estar o Mais Grandioso Nome, isso pode ser escrito de três maneiras: 'Yá Bahá'u'l-Abhá', 'Ó Glória do Mais Glorioso', ou com uma caligrafia semelhante à que se encontra na foto do tecto da Casa de Adoração Bahá’í em Wilmette.

Depois disso, tal como diz a citação, deve haver um testemunho de fé. Não há uma linguagem específica e cabe a cada uma de nós, como Bahá’í, expressar-se da maneira que considerar adequada.

Além de embelezar o testamento, há muitas outras considerações importantes a ter em mente, incluindo:

1. Instruções sobre o Funeral

Os Bahá’ís têm instruções específicas para serem sepultados; por exemplo, não devem ser cremados. Devemos garantir que os nossos familiares e amigos conhecem estas disposições; e um testamento é um bom lugar para as escrever.

2. Pagamento de Huquq'u'llah

O Huquq'u'llah é uma responsabilidade individual; a melhor forma de a gerir é fazê-lo continuamente ao longo da vida. No entanto, podemos querer definir o pagamento do Huquq'u'llah no nosso último ano. A forma de organizar isso precisa de alguma reflexão, pois é importante termos a certeza que o executor do testamento consegue perceber o que pagar e como pagar. Talvez seja aconselhável consultar com o responsável pelo Huqúqu'lláh da sua área.

3. Legado para as Instituições Bahá'ís

Como Bahá’ís, podemos escolher deixar alguns dos seus bens a uma instituição ou fundo Bahá’í. Quem possui um objecto ou propriedade valiosa, pode querer entregá-la a uma instituição; o executor do testamento irá vender o objecto ou a propriedade e entregará o produto da venda à instituição. Além disso, também devemos enviar uma cópia do testamento para o Centro Nacional Bahá’í para que eles tenham um registo dos seus planos.

Em última análise, elaborar um testamento Bahá’í é uma obrigação para todos os Bahá’ís e algo que não tem de ser demasiado oneroso e mórbido. Depois de estar feito, é possível actualizá-lo periodicamente conforme seja necessário; mas também podemos deixá-lo como está, com a tranquilidade de que tudo ficará no seu lugar!

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Texto original: Writing a Baha’i Will