quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Sócrates

Durante o mês de Agosto o grupo "O Rouxinol canta..." organiza o curso "A Fé Bahá'í e os Pensadores Gregos: um Diálogo através dos Séculos".

Este curso foca-se nos três grandes filósofos gregos - Sócrates, Platão e Aristóteles - identifica a proximidade/semelhança entre muitos dos seus ensinamentos e os ensinamentos Bahá'ís, e mostra que a Fé Bahá'í está muito próxima das nossas raízes culturais.

Link de acesso ao curso aqui.



sábado, 1 de agosto de 2026

‘Abdu’l-Bahá e os Socialistas de Montreal

Por Tony Michel.


Mais de quinhentas pessoas encheram o Coronation Hall de Montreal, a 3 de Setembro de 1912, para uma reunião do Clube Socialista de Montreal. Vieram ouvir ‘Abdu’l-Bahá falar sobre “A Felicidade Económica da Raça Humana”, escreveu o jornal Montreal Star, e “pareciam representar quase todas as nacionalidades do mundo”. O presidente da associação, Sr. H.A. Goulden, apresentou ‘Abdu’l-Bahá como “um grande mensageiro de amor e fraternidade do Oriente para o Ocidente”. Mahmud-i-Zarqani observou que Goulden disse à audiência que iriam ouvir falar de “os princípios da fraternidade, da prosperidade e da melhoria da condição dos pobres”.

Actualmente é difícil entender o período anterior ao moderno Estado-Providência, antes dos muitos Estados autoproclamados “socialistas” do século XX, antes da Revolução Bolchevique Russa de 1917. Não podemos ter a certeza exacta do significado da palavra “socialismo” para as quinhentas pessoas ali reunidas nesse dia, mas podemos presumir que partilhavam a crença de que o sistema económico de um Canadá recém-industrializado contribuía para o sofrimento dos pobres.

O jornal The Star referia-se ao evento como uma “reunião de socialistas”, e para Mahmud, eram o “Clube Socialista”. A Liga Socialista do Canadá, o Partido Socialista do Canadá e o Partido Social Democrata do Canadá estavam todos activos na cidade naquela época. Os trabalhadores canadianos estavam organizados em sindicatos desde a década de 1870, o que levou à criação do “Dia do Trabalhador” em 1872, como parte da campanha para reduzir a semana de trabalho para cinquenta e oito horas. Mas o socialismo no Canadá daquele tempo estava mal definido, não estando necessariamente associado ao movimento sindical, nem sequer à classe operária. Os seus líderes eram influenciados por ideias de fraternidade cristã, socialismo fabiano e talvez algumas ideias de Marx. O que ouviram de ‘Abdu’l-Bahá, segundo o The Star, foi um plano para ajudar cada indivíduo a desfrutar do “direito de viver com conforto e felicidade, participando no bem-estar geral”.

O discurso de ‘Abdu’l-Bahá começou com a afirmação de que os seres humanos não são criaturas solitárias, mas estão “sempre necessitados de cooperação e entreajuda”. Disse à assembleia que “Deus deseja que cada membro do corpo político viva com o máximo conforto e bem-estar”. A ausência deste constitui “uma falta de simetria no corpo político”.

O jornal The Star citou a caracterização de ‘Abdu’l-Bahá sobre os “egoístas” que dizem: “Vamos cuidar de nós. Os outros que morram, desde que eu esteja confortável, tudo está a correr bem”. “Esta atitude insensível”, disse, “deve-se à falta de controlo e à ausência de uma lei exequível”.

Abdu’l-Bahá identificou então propostas económicas que, segundo Ele, foram elaboradas pelo seu pai, Bahá’u’lláh, no final do século XIX. ‘Abdu’l-Bahá introduziu a ideia de um “armazém geral” para o qual todos os membros da sociedade contribuiriam com uma percentagem do seu rendimento “numa escala gradual”. ‘Abdu’l-Bahá sugeriu taxas de 0%, 10%, 20%, 25% e 50% desde os pobres até aos ricos. Os jornais referiam-se a este conceito como “dízimos” — o conceito de imposto sobre o rendimento só foi implementado no Canadá em 1917 como uma “medida temporária” para auxiliar o esforço de guerra. É claro que, no contexto de 1912, palavras como “dízimo” e “imposto” tinham conotações diferentes das de hoje e podem ser descrições imprecisas da mensagem de ‘Abdu’l-Bahá, especialmente por terem sido filtradas por uma reportagem jornalística.

O povo “elegeria administradores para a gestão do património público”, explicou ‘Abdu’l-Bahá, e deste “depósito geral” de fundos, provenientes de vários sectores da indústria — agricultura, recursos naturais, área fabril, imposto sobre as heranças — “os menos afortunados” “garantiriam a sua parte do bem-estar geral”.

Em 1912, um sistema de prestações sociais para os pobres como este não tinha equivalente nas Américas, e seriam necessárias décadas até que uma lei pudesse implementar esse tipo de programas no Canadá. Não se tratava de socialismo, pois não envolvia a propriedade colectiva dos meios de produção e, como observou o jornal The Star, “preservava as distinções sociais”. Além disso, esta não era, de todo, a totalidade dos muitos discursos de ‘Abdu’l-Bahá sobre economia. Na noite seguinte, voltaria a falar mais sobre as dimensões espirituais da economia. Mas, para a plateia daquela noite, estas ideias inovadoras geraram aplausos tão calorosos que, nas palavras de Mahmúd, “as paredes do edifício pareciam vibrar até aos alicerces”.

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Texto original: ‘Abdu’l-Bahá and Montreal’s Socialists (239 Days in America)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Declaração conjunta de deputados do Parlamento Europeu e dos Parlamentos Nacionais Europeus sobre a situação das minorias religiosas e de crença no Egipto

Bruxelas, 29 de Julho de 2026

Nós, membros do Parlamento Europeu e dos Parlamentos Nacionais Europeus, manifestamos a nossa profunda preocupação com a situação dos direitos humanos no Egipto, particularmente no que diz respeito à liberdade de religião ou de crença.

Saudamos as recentes medidas legislativas tomadas pelo governo egípcio para regulamentar as leis de estatuto pessoal da comunidade cristã copta e esperamos ver a lei aprovada. Ao mesmo tempo, continuamos profundamente preocupados com a violência sectária recorrente, a discriminação na educação e a exibição de símbolos religiosos (por exemplo, a não utilização do véu), bem como o assédio de género – tudo isto demonstrando deficiências na responsabilização e na protecção efectiva.

Continuamos profundamente preocupados com o tratamento dado aos bahá’ís, que enfrentam uma ampla discriminação e perseguição apoiadas pelo Estado. Isto inclui a negação sistemática de direitos humanos básicos, como a recusa contínua em reconhecer os casamentos bahá’ís, deixando as crianças bahá’ís sem estatuto legal e negando-lhes o direito à cidadania, à residência e à educação. Os bahá'ís também têm os seus direitos fúnebres negados, sendo privados dos "seus direitos tanto na vida como na morte". Além disso, os bahá’ís são sujeitos a vigilâncias frequentes e a interrogatórios que violam as liberdades de religião ou de crença e de reunião e associação pacíficas.

Embora a Constituição egípcia garanta o direito à liberdade de crença, lacunas persistentes na sua implementação deixam várias minorias religiosas, reconhecidas ou não, sem protecção legal ou igualdade de acesso aos direitos fundamentais. Reafirmamos que a liberdade de religião ou de crença é um direito humano universal, consagrado no direito internacional e protegido por instrumentos de que o Egipto é signatário e aos quais está legalmente vinculado.

Exortamos as autoridades egípcias a respeitarem integralmente o direito à liberdade de religião ou de crença, em conformidade com a Constituição do Egipto, os seus compromissos perante o direito internacional e as condições prévias de direitos humanos ligadas ao Pacote de Assistência Macrofinanceira UE-Egipto. Instamos ainda o Egipto a assegurar que todas as minorias religiosas e de crença, incluindo as comunidades não reconhecidas e qualquer indivíduo, possam manifestar, mudar ou adoptar livremente a sua religião ou crença, individual e coletivamente, sem discriminação, assédio ou impedimento.

Os 115 signatários que endossam a declaração incluem membros do Parlamento Europeu (eurodeputados) e membros de parlamentos nacionais de toda a Europa.

Mario AMORIM LOPES, MP, Portugal
Marc ANGEL, MPE, Luxemburgo
Sibel ARSLAN, MP, Suíça
Martina BAJO HOLEČKOVÁ, MP, Eslováquia
Léa BALAGE EL MARIKY, MP, França
Marie-Noëlle BATTISTEL, MP, França
Petra BAYR, MP, Áustria
Rudi BERLI, MP, Suíça
Michael BERNHARD, MP, Áustria
Irena BIHARIOVA, MP, Eslováquia
Mickaël BOULOUX, MP, França
Henrike BRANDSTÖTTER, MP, Áustria
Helmut BRANSTÄTTER, MPE, Áustria
Gudrun BRUNEGÅRD, MP, Suécia
Johan BÜSER, MP, Suécia
Marián ČAUČÍK, MP, Eslováquia
Don CEDER, MP, Países Baixos
Dr Ellie CHOWNS, MP, Reino Unido
Veronika CIFROVÁ OSTRIHOŇOVÁ, MPE, Eslováquia
Per CLAUSEN, MPE, Dinamarca
Angélique DA TERESA, MP, Portugal
Alain DAVID, MP, França
The Rt Hon the Lord DHOLAKIA OBE DL, Reino Unido
Mag. Meri DISOKI, MP, Áustria
Pedro DOS SANTOS FRAZÃO, MP, Portugal
Ondrej DOSTÁL, MP, Eslováquia
Sebastian EVERDING, MPE, Alemanha
Laurence FEHLMANN RIELLE, MP, Suíça
Luisa GARCÍA GURRUTXAGA, MP, Espanha
Océane GODARD, MP, França
Dr Elisabeth GÖTZE, MP, Áustria
Dan HARDY, MP, Luxemburgo
Hannes HEIDE, MPE, Áustria
Martin HOJSIK, MPE, Eslováquia
Ján HORECKÝ, MP, Eslováquia
Yannick JADOT, MP, França
Igor JANCKULÍK, MP, Eslováquia
Gurinder Singh JOSAN, MP, Reino Unido
Beata JURIK, MP, Eslováquia
Janos JUVAN, MP, Áustria
Fernand KARTHEISER, MPE, Luxemburgo
Lubica KARVASOVA, MPE, Eslováquia
Kadir KASIRGA, MP, Suécia
Dana KLEINERT, MP, Eslováquia
Monika KOLEJÁKOVÁ, MP, Eslováquia
Maria KOLÍKOVÁ, MP, Eslováquia
Ingrid KOSOVÁ, MP, Eslováquia-
Rastislav KRÁTKY, MP, Eslováquia
Juraj KRÚPA, MP, Eslováquia
Sen. Françasca LA MARCA, Itália
Robert LAIMER, MP, Áustria
Vladimír LEDECKÝ, MP, Eslováquia
Michel LEMAIRE, MP, Luxemburgo
Miriam LEXMANN, MPE, Eslováquia
Min LI MARTI, MP, Suíça
Reinhold LOPATKA, MPE, Áustria
José LOSADA FERNANDEZ, MP, Espanha
Max LUCKS, MP, Alemanha
Darina LUŠČÍKOVÁ, MP, Eslováquia
Nicole MAES, MP, Países Baixos
František MAJERSKÝ, MP, Eslováquia
Milan MAJERSKÝ, MP, Eslováquia
Vladimíra MARCINKOVÁ, MP, Eslováquia
Eric MARTINEAU, MP, França
Sigrid MAURER, MP, Áustria
František MIKLOŠKO, MP, Eslováquia
Fabian MOLINA, MP, Suíça
Louise MOREL, MP, França
Isabel MORENO FERNANDEZ, MP, Espanha
Begoña NASARRE OLIVA, MP, Espanha
Natália NASH, MP, Eslováquia
Barbara NEẞLER, MP, Áustria
Paulo NEVES, MP, Portugal
Brendan O'HARA, MP, Reino Unido
Ludovit ODOR, MPE, Eslováquia
Gabriel PAĽA, MP, Eslováquia
Nikos PAPANDREOU, MPE, Grécia
Nicolás PASCUAL DE LA PARTE, MPE, Espanha
Simona PETRÍK, MP, Eslováquia
Christine PIRES BEAUNE, MP, França
Lucia PLAVÁKOVÁ, MP, Eslováquia
Filiz POLAT, MP, Alemanha
Reinis POZŅAKS, MPE, Letónia
Agnes PRAMMER, MP, Áustria
Ondrej PROSTREDNÍK, MP, Eslováquia
Jon PULT, MP, Suíça
Bert-Jan RUISSEN, MPE, Países Baixos
Michal SABO, MP, Eslováquia
Jordi SALVADOR I DUCH, MP, Espanha
Rodrigo SARAIVA, MP, Portugal
Ralph SCHALLMEINER, MP, Áustria
Ulle SCHAUWS, MP, Alemanha
Alexandra SCHOOS, MP, Luxemburgo
Alois SCHROLL, MP, Áustria
Branislav ŠKRIPEK, MP, Eslováquia
João SOARES, MP, Portugal
Malika SOREL, MPE, França
Sen. Luigi SPAGNOLLI, Itália
Peter STACHURA, MP, Eslováquia
Davor Ivo STIER, MPE, Croácia
Chris STOFFER, MP, Países Baixos
Håkan SVENNELING, MP, Suécia
Jorge Miguel TEIXEIRA, MP, Portugal
Matej TONIN, MPE, Eslovénia
Michal TRUBAN, MP, Eslováquia
Jean TSCHOPP, MP, Suíça
Andrea TURČANOVÁ, MP, Eslováquia
Sebastian TYNKKYNEN, MPE, Finlândia
Marián VISKUPIČ, MP, Eslováquia
Erich VONTOBEL, MP, Suíça
Tom WEIDIG, MP, Luxemburgo
Baroness WHITAKER, Reino Unido
Pia Maria WIENINGER, MP, Áustria
Michal WIEZIK, MPE, Eslováquia
Lucia YAR, MPE, Eslováquia

Mãe da Lembrança, Mãe dos Fiéis,...

Palavras d'O Báb dirigidas à Sua própria Mãe.



sábado, 25 de julho de 2026

O Pão, o Vinho e o Significado da Metáfora

Por John Hatcher.

O que acontece quando não percebemos as metáforas na religião?

Um exemplo dos resultados desastrosos de não reconhecer o processo metafórico presente na natureza dos mensageiros de Deus está evidente nas amplas consequências da votação realizada no Concílio de Niceia em 325 d.C. Os seguidores de Atanásio, um teólogo e eclesiástico egípcio, afirmavam que Cristo e Deus eram a mesma essência. Os seguidores de Ário, um sacerdote cristão de Alexandria, acreditavam que Cristo era essencialmente inferior a Deus e fora enviado para cumprir a vontade divina.

Após um debate aceso, foi realizada uma votação — e Ário perdeu.

A instituição da igreja aprovou a teologia de Atanásio, condenou como heresia as ideias de Ário e, efectivamente, separou-se para sempre dos ensinamentos fundamentais de Cristo. Como Muhammad afirmou aos cristãos trezentos anos mais tarde, equiparar Cristo a Deus é acrescentar deuses a Deus — em suma, acreditar em mais do que um Deus, como faziam os idólatras do tempo de Muhammad.

Infiéis são aqueles que dizem: “Deus é o Messias, Filho de Maria”; pois o Messias disse: “Ó filhos de Israel! Adorai a Deus, meu Senhor e vosso Senhor”. Quem associar outros deuses a Deus, Deus proibir-lhe-á o Paraíso, e a sua morada será o Fogo; e os ímpios não terão quem os ajude. (Alcorão 5:76)

O uso da metáfora é também a chave para perceber o significado dos actos físicos dos Mensageiros, os Manifestantes de Deus. Uma vez que nenhum dos profetas aspira à autoridade ou ao domínio material, qualquer expressão de poder material por parte deles tem, claramente, uma importância limitada. Ao curar os doentes, Cristo não estava a tentar livrar a terra das doenças nem a demonstrar uma técnica médica inovadora. 'Abdu'l-Bahá explica que os actos milagrosos dos Mensageiros de Deus têm como finalidade primordial a dramatização metafórica ou analógica de uma verdade espiritual:

Estes milagres exteriores não têm qualquer importância para os seguidores da verdade. Por exemplo, se um cego for curado, no fim perderá novamente a visão, pois morrerá e ficará privado de todos os seus sentidos e faculdades. Assim, curar um cego não tem importância duradoura, dado que a faculdade da visão se perderá inevitavelmente de novo. E se um corpo morto for ressuscitado, o que se ganha com isso, uma vez que voltará a morrer? O importante é conceder a verdadeira compreensão e a vida eterna, isto é, uma vida espiritual e divina…

Considere que Cristo considerou mortos aqueles que, no entanto, estavam exterior e fisicamente vivos; pois a verdadeira vida é a vida eterna e a verdadeira existência é a existência espiritual. Assim, se as Sagradas Escrituras falam da ressurreição dos mortos, o significado é que eles alcançaram a vida eterna; se dizem que um cego passou a ver, o significado dessa visão é a verdadeira compreensão; se dizem que um surdo passou a ouvir, o significado é que adquiriu um ouvido interior e alcançou a audição espiritual...

O nosso objectivo não é afirmar que os Manifestantes de Deus são incapazes de realizar milagres, pois isso, de facto, está dentro do Seu poder. Mas o que importa e tem importância aos Seus olhos é a visão interior, a audição espiritual e a vida eterna. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 114-115)

Existe também uma tentação óbvia, por parte dos seguidores dos Manifestantes de Deus, em adorá-Lo por causa daquilo que percebem como acções físicas impressionantes ou milagrosas. Ao fazê-lo, percebem-No como uma figura de poder temporal em vez de autoridade espiritual. É compreensivelmente mais fácil para alguns seguidores sentirem-se atraídos pelo veículo — as personalidades dos Manifestantes ou os actos literais que realizam — do que reconhecer a semelhança entre estes veículos e as forças e atributos espirituais que metaforizam para nós.

Um dos exemplos mais óbvios desta percepção errada, para além do apego quase inevitável à figura física do mensageiro, é o episódio em que Cristo multiplica os pães e os peixes. Depois de realizar o milagre de alimentar a multidão com apenas cinco pães de cevada e dois peixes, as pessoas convenceram-se subitamente de que Ele era um profeta. Quando Cristo percebeu que o queriam levar à força e fazê-Lo rei, fugiu para as montanhas. Explicou o motivo da Sua acção aos Seus discípulos no dia seguinte, quando O encontraram do outro lado do Mar da Galileia:

«Em verdade, em verdade vos digo: procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna e que o Filho do Homem vos dará; pois foi a Ele que Deus, o Pai, marcou com o seu selo». (Jo 6:26)

Quando as pessoas não conseguiram compreender o significado metafórico ou a importância intrínseca do acto de Cristo e quiseram tornar-se Seus seguidores por causa do milagre que Ele parecia ter feito, Ele ficou inconsolável e deixou-as. A importância que dava à compreensão do significado " intrínseco" das suas acções materiais é ainda mais evidente na paciência com que continuou a Sua explicação:

Os nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: «Deu-lhes a comer pão do céu». Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés que vos deu o pão do céu; o meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é o que desce do céu e dá a vida ao mundo». Disseram-lhe, então: «Senhor, dá-nos sempre esse pão!». Jesus replicou-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a mim jamais terá fome; quem acredita em mim jamais terá sede. (Jo 6:31-35)

Se pensarmos que Cristo se alonga na imagem do pão do céu, estamos enganados. Mesmo quando repete e amplia a metáfora, os judeus não compreendem a intenção metafórica das Suas acções ou das Suas palavras:

Eu sou o pão vivo que desceu do céu: se alguém comer deste pão, viverá para sempre. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo». Altercavam, então, os judeus entre si, dizendo: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?» (Jo 6:51-52)

Criados numa tradição religiosa legalista, muitos judeus tinham dificuldade em compreender ensinamentos transmitidos através de metáforas, embora os seus próprios ensinamentos e rituais tivessem origem na expressão simbólica ou metafórica de conceitos espirituais.

Assim, num sentido muito real, as acções e os métodos de ensino de Cristo visavam precisamente romper com o literalismo do seu público principal, o povo judeu. Ele ensinava-os a pensar “espiritualmente” ou metaforicamente, a perceber o significado intrínseco das Suas palavras e das Suas próprias Escrituras, bem como o significado subjacente às formas exteriores das suas práticas religiosas. Por exemplo, um dos actos simbólicos mais poderosos realizados por Cristo tornou-se para os cristãos o sacramento mais importante, o sacramento da Eucaristia.

Como uma das Suas últimas acções entre os Seus discípulos, Cristo empregou mais uma vez a metáfora ou o símbolo da nutrição ao falar da imagem do vinho e do pão na Última Ceia:

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei: isto é o meu corpo». Depois tomou um cálice, deu graças e deu-lho, dizendo: «Bebei todos dele, pois isto é o meu sangue da aliança, derramado por muitos para o perdão dos pecados. (Mt 26:26-28)

Neste caso, uma metáfora verbal não foi suficiente. Cristo fez com que os Seus próprios discípulos encenassem a metáfora. E, no entanto, apesar da clareza deste exercício de ensino, a igreja cristã do século XIII adoptou a doutrina da transubstanciação — a crença de que o vinho e o pão, quando benzidos pelo sacerdote, se transformam literalmente no sangue e no corpo de Cristo (embora existam variações na explicação desta doutrina).

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Texto original: The Bread, the Wine, and the Meaning of the Metaphor (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

sábado, 18 de julho de 2026

Depressão: um alerta para um despertar espiritual

Por Tom Tai-Seale.


Todos sabemos que a cultura ocidental contemporânea rejeitou amplamente a religião, apesar de, quando não deturpada ou vazia, a religião construir sociedades e confortar indivíduos.

É claro que a crença religiosa por vezes está errada e inspira acções incorrectas, geralmente devido a más interpretações e/ou zelo desmedido. Com o tempo, porém, as crenças falsas tendem a dissipar-se e perdem a sua capacidade de influenciar as acções, e os erros são geralmente reconhecidos e corrigidos.

Agora, porém, devo dizer-vos que a religião é muito mais do que apenas preceitos morais orientadores e belos desejos etéreos.

Embora noutros artigos eu tenha abordado o papel da verdadeira religião na construção e manutenção da sociedade, também é verdade que grande parte do poder da religião manifesta-se a nível individual e místico.

Vivenciei pessoalmente esse poder. À medida que me aproximava da pós-graduação, a minha educação espiritual tomou um rumo repentino e inesperado, e comecei a notar forças muito maiores na religião.

É claro que o percurso de cada um é diferente, e as experiências religiosas de uma pessoa podem parecer absurdas para outra, e isso é natural. Mas, como a religião pode causar efeitos individuais profundos, qualquer discussão sobre religião que os ignore é incompleta. Nestes tempos em que a luz da religião parece ter-se apagado em tantos lugares, ofereço a minha própria história como um pequeno exemplo do poder inspirador da religião.

Na faculdade, comecei a investigar seriamente as religiões. Eu não estava realmente à procura de me juntar a uma religião; apenas queria compreendê-las, ter mais conhecimento sobre o enorme impacto que a religião teve na humanidade. Investiguei desde o cristianismo carismático até pequenos cultos místicos com nomes estranhos que já não existem. Li Ouspensky, Gurdjieff e Krishnamurti. Participei na Koray Adventure, fui a encontros Hare Krishna, li livros sobre budismo, frequentei a Casa Quaker, participei na imposição de mãos cristã, visitei mosteiros cristãos e diversas igrejas.

Gradualmente, porém, um grupo começou a destacar-se para mim: os Bahá'ís. Têm uma história incomparável em drama e intensidade nos tempos modernos. A Fé Bahá’í possui vastas Escrituras Sagradas de beleza inigualável e intelecto sublime, uma mensagem progressista e oportuna, ensinamentos espirituais e sociais que fazem sentido racionalmente, líderes com carácter exemplar, uma diversidade global sem igual e membros imbuídos de bondade genuína. À medida que a sua singularidade se tornou clara para mim, passei a frequentar regularmente as reuniões Bahá’ís.

Por fim, atravessei um limiar, um ponto em que percebi que tinha um peso moral a zelar para responder às suas reivindicações – e decidi tornar-me Bahá’í. Nunca fui de me juntar a grupos, mas juntei-me.

Esta comunidade Bahá’í única, presente em todo o mundo, tornou-se então a base para o meu desenvolvimento espiritual contínuo e para o desenvolvimento da minha compreensão intelectual do plano de Deus. Os seus membros excepcionais tornaram-se também meus amigos, guias e mentores.

Quando decidi tornar-me Bahá'í, começaram a acontecer coisas extraordinárias. Logo no início da minha busca, enquanto lia as Escrituras Bahá'ís à noite, sentia frequentemente o meu quarto habitado por um ser que me "observava", por assim dizer, de um canto da sala. Não, não estava a consumir drogas, nem prescritas nem recreativas, nem esperava ou procurava uma visitação. O ser que sentia era majestoso, radiante, grande, poderoso e imanente – muito à semelhança dos grandes anjos que vemos em pinturas famosas. Não conseguia distinguir as suas feições (presumo que fosse um homem), apenas uma presença etérea. Mas ele estava ali, eu sentia-o, e preenchia o quarto com o que parecia ser uma santidade celestial.

Lembro-me de ter ficado perturbado, a princípio, com esta nova experiência e, embora não me sentisse ameaçado, achei melhor ignorá-la – mas ela regressou muitas vezes nas noites seguintes e, como me pareceu sagrada e radiante, aprendi a não ter medo e a desfrutar da sua presença. Seria tudo imaginação minha? Talvez – não há forma de provar o contrário. Contudo, não tenho nenhum desejo de inventar ou relatar histórias milagrosas. Estou apenas a partilhar o que me pareceu uma presença muito real e, dada a natureza das Escrituras, não posso descartar a possibilidade de existirem seres – anjos, por assim dizer – que possam, em certa medida, manifestar a sua presença entre nós. Talvez tenha sido isso que experimentei – quem sabe?

Dr. Stanwood Cobb
Seguiram-se outros acontecimentos notáveis . Após um ano de estudo dedicado, fui a uma escola Bahá’í e conheci um senhor, o Dr. Stanwood Cobb. Tinha 93 anos e era o orador principal da sessão noturna. Após a sua palestra, várias pessoas juntaram-se à sua volta, e eu também conversei com ele. A dado momento da conversa, ele disse-me diretamente: "Você é uma pessoa muito criativa, mas fica deprimido com frequência, não é?".

Lembro-me de ter ficado meio sem palavras e um pouco envergonhado, mas recordo-me de ter dito: "Não sei quanto à parte criativa, mas acho que se pode dizer que luto um pouco contra a depressão."

Isso foi um eufemismo. Naquela altura eu estava a passar por um momento muito difícil na minha vida. O meu pai estava envolvido em casos extraconjugais e abandonou a nossa família; a minha mãe sofria periodicamente de graves crises nervosas e tinha de ser hospitalizada ciclicamente durante meses. Além disso, os acontecimentos vertiginosos do final da década de 1960 e início da década de 1970, e a minha natureza sensível, conspiraram para garantir que, naquela altura, em 1974, me sentisse como se estivesse rodeado quase o tempo todo por uma densa nuvem. Precisava de três sessões de terapia por semana para combater a depressão e evitar pensamentos suicidas. Por isso, o comentário do Dr. Cobb surpreendeu-me verdadeiramente – especialmente porque eu sabia que a minha depressão não era geralmente visível para ninguém, muito menos para alguém que tinha acabado de conhecer e com quem tinha trocado apenas algumas palavras.

Então, o Dr. Cobb puxou-me para mais perto, levou a minha mão ao peito e disse: “Sabe, eu também costumava ficar deprimido com frequência”. Em seguida, contou-me uma história dos dias que passou na presença de ‘Abdu’l-Bahá — o grande exemplo da Fé Bahá’í: “Um dia, eu estava no meu quarto a tentar dormir à tarde — como as pessoas deprimidas costumam fazer. ‘Abdu’l-Bahá entrou sem avisar no meu quarto, caminhou até à minha cama, pegou na minha mão, segurou-a contra o peito durante um tempo que pareceu uma eternidade e, em seguida, devolveu-a, riu alto e disse em inglês (o Dr. Cobb não falava persa nem árabe): Pronto, não ficará mais deprimido’”. O Dr. Cobb sorriu e depois disse: “E sabe, desde então, nunca mais fiquei”.

Achei a história muito bonita e curiosa. Mas não compreendi a relação com ela até que, ao fim de uma semana, percebi que já não estava deprimido. Passou mais uma semana e eu parecia estar cada vez mais feliz e confiante. Mais uma semana passou e descobri que não só não precisava de terapia, como também me apercebi claramente dos erros de um dos terapeutas que consultava. Na semana seguinte, comecei a dar uma ajuda mais activa e eficaz do que a terapeuta aos participantes do meu grupo de terapia.

Por essa altura, comecei a reflectir sobre a noite em que conheci o Dr. Cobb e lhe estendi a mão. Lembrei-me então do brilho dos seus olhos e, de repente, tornou-se claro para mim que ele, ou melhor, ‘Abdu’l-Bahá, me tinha curado de uma depressão muito longa e profunda. Durante os sete anos seguintes, não tive qualquer vestígio de depressão – nem por um instante. Desde então, a depressão surge fugazmente em momentos de grande stress, mas nunca se prolonga por mais do que algumas horas, e os episódios ocorrem geralmente com anos de intervalo. O que recebi naquela noite de 1974 foi um presente mágico, inesperado, monumental e transformador que mudou profundamente a minha vida. Concluí que a religião tem o poder de alterar e curar as nossas vidas interiores.

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Texto Original: Depression: an Alarm Clock for Spiritual Awakening (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 11 de julho de 2026

A Nossa Realidade é o Nosso Pensamento

Por Rodney Richards.


Ao longo dos séculos, milhões de homens e mulheres tentaram responder a esta questão: O que nos torna humanos?

Todos os profetas de Deus nos deram uma resposta definitiva, apesar de a expressaram de diferentes formas. Consegue adivinhar qual é?

A resposta está relacionada com a antiga pergunta: "Quem sou eu?" e possui muitas variantes, tais como: "Qual é o meu propósito?", "Porque estou aqui?" e assim por diante.

Não é a marca da roupa que vestimos, nem a nossa origem, nem o nosso trabalho, nem a comida que nos alimenta, nem com quem nos relacionamos, nem sequer as escolas que frequentamos. De certa forma, não é nada material. No entanto, cada dia das nossas vidas contribui para quem somos e para a forma como nos tornamos quem somos.

Como seguidor dos ensinamentos Bahá’ís, tenho uma resposta que considero eficaz. Talvez esteja a imaginar que a resposta será a palavra "alma", para descrever o que nos diferencia dos animais enquanto seres humanos — mas isso seria demasiado simplista.

Mesmo acreditar que se tem uma alma nem sempre ajuda a responder às questões mais profundas que temos dentro de nós, especialmente quando se trata do nosso propósito neste mundo.

Por isso, recorro a esta citação de ‘Abdu’l-Bahá para me ajudar a compreender:

A realidade do homem é o seu pensamento, não no seu corpo material. A força do pensamento e a força animal são parceiras. Embora o homem faça parte da criação animal, possui um poder de pensamento superior ao de todos os outros seres criados. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 17-18)

Génesis, capítulo 1, versículo 28, também nos diz que:

Deus abençoou-os. E Deus disse-lhes: «Sede férteis e multiplicai-vos, enchei a terra e conquistai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os seres vivos que rastejam pela terra»

Como já referi em textos anteriores, um filósofo entre muitos, o francês René Descartes, disse algo semelhante em meados de 1600. Afirmou "cogito ergo sum", ou "Penso, logo existo", na sua obra Discurso sobre o Método e os Princípios da Filosofia. Descartes concluiu que, se duvidasse, então algo ou alguém deveria estar a duvidar; portanto, o próprio facto de duvidar provava a sua existência.

Descartes, entre outros, deu-nos a liberdade de nos questionarmos sem limites. Isto ajudou-o a refutar a realidade das coisas materiais e das percepções — como os sentidos humanos, uma vez que estes nos podem dar impressões falsas. Escreveu: "Assim, algo que eu pensava estar a ver com os meus olhos é, na verdade, apreendido unicamente pela faculdade do juízo que está na minha mente."

Descartes descartou as nossas percepções sensoriais como não fiáveis, tal como fazem os ensinamentos Bahá’ís:

Na Europa, eu disse aos filósofos e cientistas do materialismo que o critério dos sentidos não é fiável. Por exemplo, considere-se um espelho e as imagens nele reflectidas. Estas imagens não têm existência corpórea real. No entanto, se nunca tivesse visto um espelho, insistiria firmemente e acreditaria que são reais. O olho vê uma miragem no deserto como um lago de água, mas não há realidade nisso. Quando estamos no convés de um navio a vapor, a costa parece estar a mover-se, mas sabemos que a terra está parada e nós estamos a mover-nos. Acreditava-se que a Terra era fixa e o Sol girava à sua volta, mas embora isso pareça ser verdade, hoje sabemos que o contrário é verdade. Uma tocha giratória faz com que um círculo de fogo apareça diante dos olhos, mas percebemos que existe apenas um ponto de luz. Vemos uma sombra a mover-se no chão, mas não tem existência material, não tem substância… Em síntese, os sentidos são continuamente enganados e somos incapazes de separar o que é realidade do que não é. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 21)

Nascemos com cérebros poderosos, capazes de grandes deduções, pensamentos, ideias, planos e realizações. Ninguém contestaria que algures no nosso cérebro existe uma mente que torna tudo isto e muito mais possível. Os ensinamentos Bahá'ís chamam-lhe Alma Racional.

Tal como os animais, o homem possui as faculdades dos sentidos, está sujeito ao calor, ao frio, à fome, à sede, etc.; ao contrário dos animais, o homem possui uma alma racional, a inteligência humana. Esta inteligência humana é a intermediária entre o corpo e o espírito. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 96)

E por falar de pensamento, aqui fica mais um complemento à citação de ‘Abdu’l-Bahá acima referida:

Se o pensamento de um homem aspira constantemente a assuntos celestiais, então ele torna-se santo; se, por outro lado, o seu pensamento não se eleva, mas se dirige para baixo, centrando-se nas coisas deste mundo, torna-se cada vez mais material até atingir um estado pouco melhor do que o de um mero animal. (Idem, pags. 17-18)

Todos sabemos que somos mais do que meros animais, pois possuímos uma mente, uma alma racional, pensamentos, inteligência e espírito. Mas quando nos focamos apenas em coisas materiais e não em coisas espirituais e humanas, então os aspectos egoístas, como "Preciso de cuidar de mim" e "Estou demasiado ocupado para te ajudar", vêm ao de cima, e sabemos que o indivíduo e a sociedade sofrem.

Utilizando o raciocínio dedutivo, como sugeriu Descartes, faz sentido que o caminho para uma civilização pacífica seja o da cooperação, da partilha e da solidariedade. A maldade, a crueldade, a agressão e a subjugação nunca foram formas aceitáveis de promover o progresso da sociedade.

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Texto original: Our True Reality is Our Thought (www.bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 4 de julho de 2026

A Essência de Todos os Profetas: Uma Só e a Mesma

Por David Langness.


Se os fundadores e os profetas das grandes religiões do mundo são os primeiros mestres da raça humana, como é que conciliamos os seus ensinamentos aparentemente divergentes?

Pensadores, filósofos, teólogos, especialistas em ética e milhares de milhões de buscadores espirituais têm-se debatido com esta questão fundamental desde o início da história. Será que Deus nos enviou uma série de mensagens contraditórias apenas para que se enfrentassem aqui na Terra? Ou será que existe um fio condutor comum a todas as grandes religiões?

A maioria dos filósofos e teólogos contemporâneos vê o tema da fé como tendo dois polos opostos: o sincretismo ou o fundamentalismo. Sincretismo significa a combinação artificial de diferentes religiões; enquanto o fundamentalismo se refere à ideia de que apenas uma religião possui validade. De um ponto de vista moderno e sincrético, muitas religiões têm ensinamentos semelhantes, pelo que, para muitas pessoas, faz sentido misturar, fundir ou assimilar as suas práticas e crenças. De um ponto de vista tradicional e fundamentalista, porém, nenhuma fé possui verdade absoluta - excepto a religião ou seita específica do fundamentalista, que reivindica a exclusividade da verdade, permitindo apenas uma interpretação literal das escrituras.

Os ensinamentos Bahá’ís rejeitam ambas as abordagens, especialmente o dogma e o fanatismo associados ao fundamentalismo:

Este é também o ciclo da maturidade e da reforma na religião. As imitações dogmáticas de crenças ancestrais estão a desaparecer. Foram o eixo em torno do qual a religião girava, mas agora já não são frutíferas; pelo contrário, actualmente tornaram-se a causa da degradação e do declínio humanos. O fanatismo e a adesão dogmática a crenças antigas tornaram-se a fonte central e fundamental da animosidade entre os homens, o obstáculo ao progresso humano, a causa das guerras e dos conflitos, o destruidor da paz, da serenidade e do bem-estar no mundo. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 439)

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que o sincretismo artificial e imposto externamente, em última instância, deve ceder o lugar à consciência da verdadeira unidade e unicidade subjacentes a todas as verdadeiras religiões:

… Os Bahá’ís vêem na luta das diversas religiões para se aproximarem uma resposta à Vontade Divina para uma raça humana que está a entrar na sua maturidade colectiva… O diálogo inter-religioso, se quiser contribuir de forma significativa para a cura dos males que afligem uma humanidade desesperada, deve agora abordar honestamente e sem mais evasivas as implicações da verdade fundamental que deu origem ao movimento: que Deus é um e que, para além de toda a diversidade de expressão cultural e interpretação humana, a religião também é uma só. (The Universal House of Justice, April 2002, To the World’s Religious Leaders, p. 6)

Assim, os Bahá’ís acreditam que os profetas e fundadores das religiões do mundo trouxeram a mesma mensagem essencial:

Sabe com certeza que a essência de todos os Profetas de Deus é uma só e a mesma. A sua unidade é absoluta. Deus, o Criador, diz: Não há distinção alguma entre os Portadores da Minha Mensagem. Todos eles têm um só propósito; o seu segredo é o mesmo segredo. Preferir um em detrimento de outro, exaltar alguns acima dos outros, não é de modo algum permitido. Todo o verdadeiro Profeta considerou a Sua Mensagem como fundamentalmente a mesma que a Revelação de todos os outros Profetas que o precederam. (Baha’u’llah, Gleanings, XXXIV)

Se olharmos para além da “expressão cultural e da interpretação humana” da religião, como a Casa Universal de Justiça exorta todos a fazer, podemos começar a ver a verdade mais profunda e central da Fé:

A verdade é uma só em todas as religiões, e através dela pode-se alcançar a unidade do mundo.

Todos os povos têm uma crença fundamental em comum: sendo uma só, a verdade não pode ser dividida, e as diferenças que parecem existir entre as nações resultam apenas do seu apego ao preconceito. Se os homens procurassem a verdade, encontrariam a união. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 129)

Os Bahá’ís acreditam que as ideias e práticas divergentes que vemos nas diferentes religiões derivam da interpretação humana, gradualmente acrescentada aos ensinamentos originais dos mensageiros de Deus ao longo do tempo. Inicialmente puras e claras, estas mensagens — amor ao próximo, bondade, compaixão, humildade e um profundo reconhecimento do divino — estão presentes em todos os sistemas de crença legítimos. Mas, com o passar do tempo e a tomada de controlo pela interpretação humana, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a religião tende a degradar-se e a declinar.

Infelizmente, a humanidade está completamente imersa em imitações e irrealidades, apesar de a verdade da religião divina se manter sempre a mesma. As superstições obscureceram a realidade fundamental, o mundo está envolto em trevas e a luz da religião não se manifesta. Estas trevas propiciam a diferenças e dissensões; rituais e dogmas são muitos e variados; surgiu, portanto, a discórdia entre os sistemas religiosos, quando a religião deveria ser a unificação da humanidade. A verdadeira religião é a fonte do amor e da harmonia entre os homens, a causa do desenvolvimento de qualidades louváveis, mas as pessoas agarram-se à falsificação e à imitação, negligenciando a realidade que unifica, e assim ficam privadas do brilho da religião. Seguem superstições herdadas dos seus pais e antepassados. A tal ponto isso prevaleceu que afastaram a luz celestial da verdade divina e permanecem na escuridão das imitações e imaginações. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 179)

O único remédio para esse declínio - a renovação da religião - ocorre quando surge um novo mensageiro que ensina uma nova fé.

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Texto original: The Essence of All Prophets: One and the Same (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.