sábado, 5 de setembro de 2026

Uma Perspectiva Bahá'í sobre Aristóteles

O vídeo da minha apresentação sobre Aristóteles, que Bahá'u'lláh referiu como “o célebre homem de conhecimento”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Escrever um Testamento Bahá’í

Por Collis Ta'eed.


Pode parecer um pouco mórbido pensar sobre escrever um testamento, mas acontece que se trata de algo que todo o crente Bahá’í deve fazer durante a sua vida. Descobri isso recentemente quando o nascimento do meu primeiro filho me inspirou a pensar mais sobre o futuro do que era normal. Na verdade, descobri que escrever um testamento é uma lei do Kitab-i-Aqdas.

É bom também, porque, aparentemente, aqui na Austrália, em algumas circunstâncias quando não se tem um testamento, todos os bens são entregues ao estado!

Uma vez que um testamento é um documento legal, é importante lembrar se deve procurar algum aconselhamento jurídico adequado antes de escrever um. É possível encontrar modelos de testamentos, mas para mim foi bom ter alguém qualificado para fazer o trabalho, em vez de ficar perdido e confuso no meio de tudo isso.

Testamentos Bahá’ís

Não há instruções específicas sobre o conteúdo dos testamentos Bahá’ís, mas há uma instrução para o embelezar. No Kitab-i-Aqdas, Bahá'u'lláh afirma que:

O testador deve iniciar este documento com o adorno do Mais Grandioso Nome, dando ali testemunho da Unidade de Deus no Amanhecer da Sua Revelação, e mencionar, como desejar, o que é digno de louvor, para que seja um testemunho para ele nos reinos da Revelação e da Criação e um tesouro com o Senhor, o Protector Supremo, o Fiel. (Kitab-i-Aqdas)


Assim, no início do seu testamento, deve estar o Mais Grandioso Nome, isso pode ser escrito de três maneiras: 'Yá Bahá'u'l-Abhá', 'Ó Glória do Mais Glorioso', ou com uma caligrafia semelhante à que se encontra na foto do tecto da Casa de Adoração Bahá’í em Wilmette.

Depois disso, tal como diz a citação, deve haver um testemunho de fé. Não há uma linguagem específica e cabe a cada uma de nós, como Bahá’í, expressar-se da maneira que considerar adequada.

Além de embelezar o testamento, há muitas outras considerações importantes a ter em mente, incluindo:

1. Instruções sobre o Funeral

Os Bahá’ís têm instruções específicas para serem sepultados; por exemplo, não devem ser cremados. Devemos garantir que os nossos familiares e amigos conhecem estas disposições; e um testamento é um bom lugar para as escrever.

2. Pagamento de Huquq'u'llah

O Huquq'u'llah é uma responsabilidade individual; a melhor forma de a gerir é fazê-lo continuamente ao longo da vida. No entanto, podemos querer definir o pagamento do Huquq'u'llah no nosso último ano. A forma de organizar isso precisa de alguma reflexão, pois é importante termos a certeza que o executor do testamento consegue perceber o que pagar e como pagar. Talvez seja aconselhável consultar com o responsável pelo Huqúqu'lláh da sua área.

3. Legado para as Instituições Bahá'ís

Como Bahá’ís, podemos escolher deixar alguns dos seus bens a uma instituição ou fundo Bahá’í. Quem possui um objecto ou propriedade valiosa, pode querer entregá-la a uma instituição; o executor do testamento irá vender o objecto ou a propriedade e entregará o produto da venda à instituição. Além disso, também devemos enviar uma cópia do testamento para o Centro Nacional Bahá’í para que eles tenham um registo dos seus planos.

Em última análise, elaborar um testamento Bahá’í é uma obrigação para todos os Bahá’ís e algo que não tem de ser demasiado oneroso e mórbido. Depois de estar feito, é possível actualizá-lo periodicamente conforme seja necessário; mas também podemos deixá-lo como está, com a tranquilidade de que tudo ficará no seu lugar!

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Texto original: Writing a Baha’i Will

sábado, 29 de agosto de 2026

Haverá na história uma força sobre-humana?

Por David Langness.


Adoro filosofia — eleva a mente, conduz a pensamentos nobres e alimenta a chama da curiosidade.

Se quisermos saber mais sobre filosofia, no entanto, podemos facilmente dedicar-lhe a vida inteira. Só a leitura dos filósofos gregos antigos e a tentativa de compreender a sua sabedoria podem levar várias décadas de estudo a tempo inteiro, para não falar da tentativa de absorver e compreender as grandes obras filosóficas que surgiram do budismo, do judaísmo, do cristianismo, do islamismo e de muitas outras tradições. Os filósofos modernos também têm muito para oferecer — na verdade, precisaríamos de várias vidas de trabalho sério para absorver tudo o que é filosófico. Assim, aqui está uma forma que descobri para tornar a filosofia um pouco mais acessível: dê uma vista de olhos aos sites e publicações relacionados com a filosofia das principais universidades do mundo.

Oxford, Harvard, Stanford e muitos outros centros académicos de renome dedicaram-se a compreender o percurso da filosofia humana e a explicá-lo de forma acessível e racional. Um dos meus sites favoritos, por exemplo, é a Stanford Encyclopedia of Philosophy. Aprendi muito com este site em particular e costumo recomendá-lo a outros entusiastas da filosofia. No entanto, no outro dia, enquanto lia algo neste site, deparei-me com um texto com o qual discordei imediata e veementemente, escrito por um historiador marxista:

A história consiste em acções humanas dentro de instituições e estruturas corporizadas por seres humanos. Não existe nenhuma força sobre-humana na história. Não existe significado ou progresso sobre-humano na história; existe apenas uma série de eventos e processos impulsionados por processos causais concretos e acções individuais. (Philosophy of History, Stanford Encyclopedia of Philosophy 2016)

Como Bahá’í, discordo profundamente, pois acredito que o Criador desempenhou, e continua a desempenhar, um papel fundamental na história da humanidade. Você concorda?

Praticamente qualquer pessoa com convicções religiosas, místicas ou espirituais provavelmente sente o mesmo. Por conseguinte, é-me difícil imaginar como é que alguém familiarizado com a longa trajectória da investigação filosófica pode descartar completamente qualquer "acção sobre-humana" em toda a extensão da história humana. Na verdade, quando li esta ideia, achei-a extremamente egocêntrica.

Para acreditar nesta premissa, suspeito que seria necessário atribuir o fundamento de todas as religiões a um único ser humano meramente iludido ou desequilibrado, que teria estabelecido uma religião que enganou milhões de pessoas ao longo dos milénios seguintes. Será que Cristo, por exemplo, através da força da Sua personalidade ou do Seu carisma, simplesmente induziu em erro milhares de milhões de seguidores que se tornaram cristãos — e será que não tiveram qualquer impacto na história? Como seria isso possível?

Mas não me interpretem mal — não estou a defender que Deus controla todos os aspetos da história da humanidade. Nós, humanos, também precisamos de assumir a nossa responsabilidade. Realisticamente, sabemos que uma das forças mais poderosas da história da humanidade — a religião — nem sempre produziu resultados positivos. Aliás, as instituições religiosas em decadência produziram alguns dos piores resultados imagináveis:

As religiões do passado entraram em decadência por causa de líderes ávidos de poder que, com o passar do tempo, se apropriaram de todos os direitos e poderes para si próprios e desprezaram o resto dos seus correligionários, considerando-os ignorantes e privados do conhecimento de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 180)

Aquilo que deveria ser propício à vida tornou-se causa de morte; aquilo que deveria ser evidência de conhecimento é agora prova de ignorância; aquilo que era factor na sublimidade da natureza humana revelou-se a sua degradação. Por conseguinte, o domínio do religioso estreitou-se e obscureceu-se gradualmente, e a esfera do materialista ampliou-se e avançou; pois o religioso agarrou-se à imitação e à falsificação, negligenciando e descartando a santidade e a realidade sagrada da religião. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 179)

Infelizmente, o fundamento da realidade desapareceu e surgiram imitações, costumes e cerimónias que são a base da discórdia, a causa da obstinação, os meios da guerra e da luta. Perdeu-se o propósito original do aparecimento dos Santos Manifestantes e do estabelecimento dos ensinamentos divinos... Quando considerares a verdade ou a realidade, verás que estas antigas e decadentes limitações da religião se tornam a causa do derramamento de sangue entre os povos e as nações. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 5, p. 135)

Sabemos, portanto, que os seres humanos, como indica a Stanford Encyclopedia of Philosophy, possuem de facto uma significativa capacidade de agir e influenciar o mundo. Podemos assumir a responsabilidade pelo muito bom e pelo muito mau. Contudo, o facto de os humanos possuírem livre-arbítrio não elimina Deus da equação, segundo os ensinamentos Bahá’ís:

...cada vez que os Profetas de Deus iluminaram o mundo com o brilho esplendoroso do Sol do conhecimento Divino, eles, invariavelmente, convocaram os seus povos a abraçar a luz de Deus através dos meios que melhor satisfizessem as exigências do tempo em que apareceram. Assim eles puderam dissipar as trevas da ignorância e derramar sobre o mundo a glória do Seu próprio conhecimento. É para a mais íntima essência desses Profetas, portanto, que a visão de todo homem de discernimento se deve dirigir, pois o seu único e exclusivo propósito sempre foi guiar os errantes e dar paz aos aflitos... (Bahá’u’lláh, Gleanings, XXXIV)

A maioria dos historiadores entende que toda a nova civilização nasce de uma nova religião e que cada nova religião surge porque aparece um novo profeta ou mensageiro de Deus, trazendo essa nova religião para a humanidade. Os ensinamentos Bahá’ís baseiam toda a sua teoria da história neste processo evidente.

No próximo artigo desta série, na nossa busca para compreender as forças maiores que impulsionam a história da humanidade, analisaremos como determinar se algum dos grandes sábios, filósofos e mestres foi, na realidade, um profeta de Deus.

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Texto original: Does History Have Any Super-Human Agency? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Aristóteles

Na próxima 6ª feira (28-Agosto), teremos a 3ª sessão do curso "A Fé Bahá'í e os Pensadores Gregos: um Diálogo através dos Séculos".

Nesta sessão vamos ver os principais momentos da vida de Aristóteles e explorar os paralelismos entre os seus ensinamentos e os ensinamentos Bahá'ís.

Link de acesso directo aqui.



sábado, 22 de agosto de 2026

A peça de teatro que fez Tolstói olhar para a Fé Bahá’í

Por Peter Terry.


Como é que o grande escritor russo Lev Tolstói ouviu falar pela primeira vez dos ensinamentos Bahá’ís?

Para responder a esta questão, vamos analisar a vida e a obra de uma autora e dramaturga praticamente esquecida do final do século XIX e início do século XX, que procurou traduzir o “espírito e os ensinamentos” Bahá’ís nas suas obras de ficção e teatro.

A escritora russa de origem judaica, Beyle (Berta) Friedberg (1864-1944), filha de Abraham Shalom Friedberg (1838-1902), um prolífico autor em língua hebraica, nasceu em Grodno, na Rússia (actual Bielorrússia). Quando tinha 19 anos, o seu pai mudou-se para São Petersburgo, uma das capitais da arte e da literatura russas. Ela acompanhou-o, imergindo-se nos círculos literários judaicos.

O pai de Beyle Friedberg, Abraham, foi obrigado a mudar-se para Varsóvia em 1886, mas Beyle permaneceu em São Petersburgo, tendo casado em 1886 com Mordechai Spector (1859-1925) em 1886. Eram uma família artística e literária, sendo o seu marido um autor judeu tão eminente em língua iídiche como o seu pai era em hebraico.

Ainda jovem, Beyle parece ter adotado o pseudónimo Isabella Grinevskaya por volta dos vinte anos, e sob esse pseudónimo publicou os seus primeiros romances.

Beyle Friedberg (Isabella Grinevskaya)
Em “Hausfreund” (“Amigo da Casa”) e na “Jüdische Bibliothek” (“Biblioteca Judaica”), ela apontava didaticamente os perigos da educação superficial e ridicularizava a ideia de assimilação.

Em 1894, quando Beyle/Isabella completou trinta anos, publicou outro romance, desta vez por uma editora de Varsóvia, na Polónia. Ela e o marido, Mordechai, mudaram-se para Odessa, na Rússia, na década de 1890, e foi aparentemente nesta altura que começou a escrever em russo. Embora não haja data registada para o divórcio do casal, o marido voltou a casar em 1920 e mudou-se para Nova Iorque em 1921, pelo que, nessa altura, já não estavam casados.

Em 1903, Beyle/Isabella parece ter regressado a São Petersburgo. Nessa altura, ela já tinha escrito e publicado uma peça baseada na vida de Siyyid Ali Muhammad Shirazi, conhecido desde então como "O Báb", o fundador da religião Bábí e o arauto e precursor de Bahá'u'lláh e da Fé Bahá'í.

No ano seguinte, em 1904, a peça de Isabella Grinevskaya foi apresentada em palco. (Foi também repetida em 1916-17). Tolstói leu a peça e reagiu fortemente:

O Conde Tolstói conheceu os ensinamentos Bahá’ís através da literatura… Ouviu falar pela primeira vez do Movimento Bahá’í em Maio de 1903, quando a Sra. Isabel Grinevsky apresentou em Leninegrado (a antiga capital da Rússia, então chamada São Petersburgo) um grande drama chamado Báb; era em verso e narrava a história iluminada do Precursor do Movimento Bahá’í, um jovem chamado Báb, e dos seus discípulos, conhecidos por Letras dos Viventes; as cenas passavam-se na Pérsia. Este drama foi apresentado num dos principais teatros de São Petersburgo, em janeiro de 1904, e teve uma recepção notável. Alguns críticos foram bastante elogiosos. Por exemplo, o poeta Fiedler (que posteriormente traduziu o drama para alemão) disse: “Recebemos dos cinco atos do drama poético Bab mais informações sobre o Movimento Bahá’í do que das profundas pesquisas científicas do Professor Edward G. Browne, de Gobineau e de cientistas e historiadores russos…”. Raramente a fama de uma peça precedeu a sua representação como aconteceu com a da Sra. Grinevsky. (Valentin Bulgakov, secretário do Conde Lev Tolstói, numa entrevista de 1927 a Martha L. Root, Star of the West, Volume 10, pag. 302)

Tolstói trocou então correspondência com Isabella e enviou também a sua carta aos meios de comunicação russos:

O Conde Tolstói leu o drama Bab com grande interesse e enviou uma carta à Sra. Grinevsky elogiando o seu trabalho e dizendo-lhe que simpatizava com os ensinamentos do Movimento Bahá’í. A sua carta foi publicada na imprensa russa.

Seguidamente, o Conde Tolstói leu um opúsculo do Sr. Arakewian que descrevia com mais pormenor a história dos primeiros seguidores do Báb e apresentava um breve relato dos ensinamentos. Estudou-o com grande interesse… O coração e a alma do Conde Tolstoi estavam em todos os movimentos universais, como o Movimento Bahá’í, que visam a unidade de toda a humanidade. (Idem, pags. 303-304)

A arte fala à alma de formas que o intelecto não consegue, e os Bahá’ís acreditam que a Fé Bahá’í se espalhará rapidamente:

… quando o seu espírito e os seus ensinamentos forem apresentados no palco ou na arte e literatura como um todo. A arte pode despertar estes nobres sentimentos de forma mais eficaz do que a racionalização fria, especialmente entre as grandes massas do povo. (carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um crente individual, 10 de Outubro de 1932)

No início do século XX, muito antes de o cinema e a televisão se tornarem tão proeminentes, ‘Abdu’l-Bahá previu que a forma dramática iria sofrer um ressurgimento:

O teatro é de primordial importância. Foi uma grande ferramenta educativa no passado e voltará a sê-lo. (‘Abdu’l-Bahá in London, p. 93)

Os ensinamentos Bahá’ís exaltam também o poder da música, e a peça de Grinevskaya sobre o Báb incorporou uma bela partitura. O compositor arménio Grikor Mirzaian Suni (1856-1939) vivia em São Petersburgo nessa época, e estudou com Rimsky-Korsakov, Glazunov e Lyadov. Suni compôs a música para a peça de Isabella, após vencer um concurso, mas o seu triunfo artístico revelou-se efémero:

Em 1904, participou num concurso de música baseado no poema dramático "Bab", de Isabella Grinevskaya, que retrata a vida persa, e, entre mais de trinta musicólogos concorrentes, Suni ganhou o primeiro prémio. Em dez dias, a obra teve doze apresentações, após as quais o governo proibiu quaisquer outras apresentações e confiscou o texto, juntamente com 18 peças musicais. (The Sun Project Music Preservation)

Em 1910, Beyle/Isabella mudou-se para Constantinopla e, entre 1910 e 1911, visitou ‘Abdu’l-Bahá no Egipto. Talvez já em 1903, e certamente nessa altura, Beyle se considerava e era considerada uma Bahá'í.

Durante estes últimos anos, ela escreveu um ensaio sobre o seu encontro com ‘Abdu’l-Bahá e uma peça sobre Bahá’u’lláh. Manteve também correspondência com intelectuais russos e Bahá’ís do Oriente e do Ocidente, viajando para França, Azerbaijão e Egipto. Faleceu em Constantinopla em 1944.

Beyle foi a primeira escritora a escrever uma obra dramática baseada na vida do Báb, que causou sensação internacional na sua estreia – e talvez tenha um impacto ainda maior quando for novamente encenada.

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Texto original: What Happens When Tolstoy Reviews Your Play (www.bahaiteachings.org)

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Peter Terry é um académico independente, músico e professor. É autor dos livros A Prophet in Modern Times (uma biografia do Bab), In His Own Words (uma biografia de Baha'u'llah), Proofs of the Prophets (uma compilação e comentário sobre as 40 provas da condição de Profeta), Proofs of the Prophets: Lord Krishna e Proofs of the Prophets: Baha'u'llah.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

domingo, 16 de agosto de 2026

O Significado Espiritual e o Simbolismo dos Falcões

Por Radiance Talley.


Em muitos aspectos, os sentidos e as capacidades físicas de um falcão são muito mais impressionantes do que os nossos.

Pesando quase um quilo, esta ave pode atingir velocidades superiores à da maioria dos aviões de pequeno porte e é o animal mais rápido que existe. A sua visão binocular é também oito vezes melhor do que a dos humanos, e consegue suportar uma força gravitacional comparável a 25 vezes a força da gravidade que actua sobre o corpo humano.

Admiradas pela sua extraordinária velocidade, visão e força, estas aves inspiram muito mais do que apenas mascotes de clubes desportivos e personagens de super-heróis. Os falcões simbolizam também aquelas almas santas e espiritualmente fortes que dedicam as suas vidas a difundir as mensagens unificadoras da Fé Bahá’í.

Falcões: Símbolos de Almas Espirituais

Áqá ‘Alíy-i-Qazvíní foi um dos primeiros seguidores do Báb (o precursor de Bahá’u’lláh) e de Bahá’u’lláh (o profeta fundador da Fé Bahá’í).

O filho de Bahá’u’lláh, ‘Abdu’l-Bahá, disse:

Era um excelente amigo e companheiro, alegre, encantador; amado por Bahá'u'lláh, respeitado pelos amigos, desprendido do mundo, confiante em Deus. Não havia nele inconstância, a sua condição interior era sempre a mesma: estável, constante, firmemente enraizado como as montanhas.

Era muito paciente e sereno apesar do sofrimento que suportou por divulgar a Fé Bahá’í, e ensinamentos como a investigação independente da verdade, a abolição de todas as formas de preconceito, a harmonia entre a ciência e a religião e a igualdade entre homens e mulheres.

Uma vez, quando estava na sua casa em Qazvín, no Irão, "foi raptado por pessoas malvadas que o espancaram tão brutalmente na cabeça que os efeitos se mantiveram ele até à hora da sua morte".

'Abdu'l-Bahá disse:

Maltratavam-no e atormentavam-no de muitas maneiras e achavam permissível infligir-lhe todo o tipo de crueldade; contudo, o seu único crime foi ter-se tornado crente, e o seu único pecado, ter amado a Deus. Como escreveu o poeta, em versos que ilustram a situação de Áqá ‘Alí:

        O falcão-real é atacado por corujas.
        Rasgam-lhe as asas, embora ele esteja livre de pecado.
        E escarneceram: 'Porque ainda te lembras
        daquele pulso real, daquele palácio em que estavas?'
        Ele é uma ave majestosa: este crime foi ele que o cometeu.
        Para além da beleza, qual foi o pecado de José?

O “falcão real” simboliza Áqá ‘Alí, um homem nobre e magnânimo, de grande coração, que não merecia o escárnio e os abusos das “corujas” – aquelas pessoas que tinham preconceitos contra os Bahá’ís e os agrediam. Mas, tal como o falcão, Áqá ‘Alí ,apesar de estar doente, manteve-se forte e com um sorriso no rosto, até ao dia da sua morte.

Outro dos primeiros Bahá’ís e falcão real que suportou um intenso sofrimento foi Jináb-i-Ismu’lláhu’l-Asdaq. Por partilharem abertamente os ensinamentos da Fé Bahá’í, Ismu’lláh e outros Bahá’ís foram cercados no Forte Tabarsí, no Irão, onde passaram dezoito dias sem comer e resistiram ao ataque dos canhões e outras armas.

Mais tarde, foi levado aos chefes de Mázindarán para ser morto quando, “Deus colocou no coração de um homem a vontade de o libertar da prisão a meio da noite e de o levar para um local onde estivesse seguro”, recordou Abdu’l-Bahá.

Apesar das provações traumáticas que enfrentou, Ismu’lláh manteve-se firme na sua fé e partilhou os princípios Bahá’ís de forma ainda mais ampla depois de ser libertado. 'Abdu'l-Bahá disse:

Era como um mar agitado, um falcão que voava alto. O seu semblante brilhava, a sua língua era eloquente, a sua força e firmeza impressionantes. Quando abria os lábios para ensinar, as provas jorravam; quando cantava ou orava, os seus olhos derramavam lágrimas como uma nuvem de primavera.

O seu rosto era luminoso, a sua vida espiritual, o seu conhecimento tanto adquirido como inato; e celestial era o seu ardor, o seu desprendimento do mundo, a sua justiça, a sua piedade e temor a Deus. …Era uma grande personalidade, perfeito em tudo.

O Falcão: Um Símbolo de Bahá'u'lláh

Estas almas consagradas não foram os primeiros falcões reais. Foram inspiradas pela luz de Bahá'u'lláh, que os Bahá'ís acreditam ser o mais recente mensageiro enviado por Deus.

Baha’u’llah escreveu:

Eu era um homem como os outros, adormecido no Meu leito, quando eis que as brisas do Todo-Glorioso foram sopradas sobre Mim, e Me deram a conhecer tudo o que existia. Isto não provem de Mim, mas daquele que é o Omnipotente, o Sapientíssimo. E Ele ordenou-Me que levantasse a Minha voz entre a terra e o céu, e por isso sucedeu-Me aquilo que fez fluir as lágrimas de todos os homens de compreensão. (Súriy-i-Haykal, ¶192)

Bahá'u'lláh sofreu 40 anos de prisão, tortura e exílio por anunciar o nascimento de uma nova revelação.

Em português, Bahá'u'lláh significa "A Glória de Deus", e os Bahá'ís acreditam que a Sua vinda é predita em muitas religiões do mundo.

Os textos Bahá’ís dizem:

Para Israel, Ele não era nem mais nem menos do que a encarnação do “Pai Eterno”, o “Senhor dos Exércitos” que desceu “com dez mil santos”; para a Cristandade, Cristo regressado "na Glória do Pai"; para o Islão xiita, o regresso do Imam Husayn; para o Islão sunita, a descida do “Espírito de Deus” (Jesus Cristo); para os Zoroastrianos, o prometido Shah-Bahram; para os Hindus, a reencarnação de Krishna; para os Budistas, o quinto Buda. (Shoghi Effendi, God Passes By, pag. 94)


 Bahá’u’lláh viveu uma vida de serviço à humanidade, procurando sempre auxiliar e amparar os pobres, os negligenciados e os oprimidos. Ele escreveu:

Eu animo o débil e revivifico o morto. Eu sou a Luz que guia e ilumina o caminho. Eu sou o Falcão real no braço do Omnipotente. Desdobro as asas caídas de cada pássaro ferido e faço-o levantar voo. (Tabernacle of Unity, 1.14)

Bahá'u'lláh faleceu aos 75 anos, em 1892.

Que todos nós nos esforcemos por nos tornarmos tão espiritualmente fortes e firmes como Áqá ‘Alí e Ismu’lláh, sabendo que Bahá’u’lláh, o Falcão Real, está a observar-nos, juntamente com os outros profetas de Deus, prontos a iluminar o nosso caminho e a guiar-nos na nossa viagem.

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Texto original: The Spiritual Meaning and Symbolism of Falcons (www.bahaiteachings.org)

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Radiance Talley é licenciada em comunicação pela Universidade de Maryland. Além da escrita, do desenho, e da comunicação em público, Radiance tem um profundo conhecimento da teoria da construção, técnicas de negociação, gestão de conflitos, comunicação organizacional e intercultural, antropologia e sociologia.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Platão

Hoje, 6ª feira, teremos a 2ª sessão do curso "A Fé Bahá'í e os Pensadores Gregos: um Diálogo através dos Séculos".

Nesta sessão vamos ver os principais momentos da vida de Platão e explorar os paralelismos entre os seus ensinamentos e os ensinamentos Bahá'ís.

Link de acesso directo aqui.



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Sócrates

 O vídeo da minha apresentação sobre Sócrates, que Bahá'u'lláh referiu como “o mais distinto entre todos os filósofos” .


sábado, 8 de agosto de 2026

Uma resposta Bahá'í a Platão

Por John Hatcher.


A explicação de Platão sobre a base da justiça no mundo material consiste em duas observações gerais.

Em primeiro lugar, Platão afirma a crença de que a realidade física corresponde à realidade espiritual e é um reflexo dela. Para Platão, esta correspondência não é um acidente ou uma qualidade fortuita da criação física, mas constitui a própria natureza e o propósito de todas as coisas criadas.

Em segundo lugar, Platão acreditava que o ser humano – ao confiar no seu eu superior – pode discernir as mensagens espirituais que a criação física tem para transmitir. Estas mensagens consistem nas qualidades espirituais, nas virtudes ou atributos abstractos, que existem num estado etéreo no reino espiritual, mas que são apresentadas ao ser humano sob formas concretas para que estas abstrações possam ser inicialmente percebidas e assimiladas.

De acordo com Platão, esta dupla estrutura é a base da justiça em todo o mundo físico. A justiça individual humana consiste na adequação, harmonia e integridade entre todas as nossas faculdades – cada faculdade ou pode funciona precisamente como foi concebido para funcionar. A mente governa o todo, e tudo o resto (incluindo as nossas paixões e desejos) assume uma relação de subordinação com aquilo que o eu “superior” decide ser para nós o melhor rumo de acção. Só quando estamos nesta condição “justa” é que somos capazes de nos tornarmos o melhor indivíduo que podemos ser.

A concepção de Platão sobre a educação espiritual contém semelhanças notáveis com o conceito Bahá’í do propósito divino da criação física. Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, cujas palavras os Bahá’ís aceitam como tendo autoridade escritural, afirma que "toda a coisa criada é um sinal da revelação de Deus". Afirma ainda que todo o ser humano tem a capacidade de reconhecer a marca do Criador na própria criação.

Ele dotou cada alma com a capacidade de reconhecer os sinais de Deus. De que outra forma, como poderia Ele ter cumprido o Seu testemunho para com os homens, se sois daqueles que meditam na Sua Causa nos vossos corações? Ele nunca tratará ninguém injustamente, nem imporá a uma alma uma tarefa superior às suas forças. (Gleanings, LII)

Contudo, por mais gratificante e influente que a obra de Platão tenha sido ao longo dos séculos, ela permanece incompleta na sua resposta à questão do propósito da realidade física. Como justifica Platão a necessidade dos seres humanos passarem por experiências físicas para obterem conhecimento da realidade, sobretudo se – como afirma Sócrates – a nossa alma sobrevive após a morte do corpo?

Outro elemento ausente na descrição da realidade feita por Platão é um Ser Divino, um Criador que auxilia a criação e os indivíduos nela presentes em cada etapa. Pois, embora o conceito de "o Bem" em Platão aluda claramente à sua crença monoteísta, ele nunca atribui a essa entidade suprema qualquer consciência, preocupação ou poder cognitivo. O Bem é descrito mais como a amálgama, o epítome ou a fonte de toda a virtude do que como um criador e coordenador intencional da realidade criada, que acompanha o progresso da sua criação mais importante: o ser humano.

Certamente, poderíamos considerar os atributos do Bem platónico como apropriados a um Deus supremo, mas sem algum sentido de preocupação intencional com a criação que emanou desta Essência; esta “fonte” da realidade parece amorfa e pouco convincente, ou pelo menos não demasiado íntima, amorosa ou digna de ser amada. É certo que Platão apresenta a ascensão da caverna da ignorância para a luz do conhecimento como resultado da atracção pelo Bem ou da influência espiritual que dele emana. Mas a Fonte mística da realidade de Platão não exerce qualquer esforço consciente para provocar a transformação do rei-filósofo, nem o Bem oferece qualquer auxílio explícito ao desenvolvimento da humanidade, a não ser indirectamente através da influência dos reis-filósofos que, pelo seu próprio esforço de iluminação, descem de novo à caverna da ignorância para ensinar sobre a realidade a quem quer que esteja disposto a ouvir as suas observações. Consequentemente, a viagem das trevas para a luz parece ser o resultado da percepção e determinação individuais destas almas especiais, e não o resultado de um plano divino de Deus.

Platão não pretendia que a sua obra fosse um estudo de teologia, mas o seu modelo de transformação humana ainda diverge do conceito de um Deus que está consciente, que se preocupa e intervém activamente nas nossas vidas individuais, bem como na história. Além disso, mesmo que interpretemos os indivíduos especializados de Platão – os reis-filósofos – como representações metafóricas dos profetas ou mensageiros de Deus, a analogia não explica as repetidas declarações dos profetas de que não agem pela sua própria autoridade, mas falam e agem consoante a orientação de Deus. Na prática, enquanto os reis-filósofos de Platão emergem da ignorância graças à sua própria voz interior, os profetas reconhecem claramente que o seu conhecimento é um dom de Deus, concedido a eles como um meio através do qual se poderiam tornar mensageiros divinos.

Em defesa do que Platão possa ter pretendido com a República – talvez a obra mais influente da filosofia ocidental – é certamente possível que, na sua própria mente, Platão, ou o seu mentor Sócrates, estivesse a aludir aos reis-filósofos como intermediários entre Deus e os seres humanos comuns, que necessitavam da assistência de um educador. De facto, talvez seja precisamente isso que Bahá’u’lláh quis dizer quando afirmou o seguinte sobre Sócrates e o pensamento socrático:

Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um ilustre campeão dedicado a isso. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele quem se apercebeu de uma natureza única, temperada e penetrante nas coisas, tendo a maior semelhança com o espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Ele tem uma declaração especial sobre este importante tema. Se perguntasses aos sábios mundanos desta geração sobre esta explicação, testemunharias a sua incapacidade para a entender. (Epístola da Sabedoria, ¶28)

A dedicação dos profetas de Deus à instrução da humanidade, mesmo à custa das suas próprias vidas, poderia certamente ser um paralelo alegoricamente interessante ao sofrimento e à rejeição que o rei-filósofo experimenta ao descer à caverna para conduzir outros do mundo das sombras e da ilusão para uma visão cada vez mais ampla da realidade. Mas só podemos conjecturar até que ponto Sócrates estava consciente ou se referia a este conceito teológico e a este processo de iluminação gradual da humanidade, tanto mais que as obras do seu aluno Platão contêm apenas a representação dramática das recordações de Sócrates e do pensamento socrático, e não as próprias palavras de Sócrates.

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Texto original: A Baha’i Response to Plato (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.