sábado, 12 de janeiro de 2019

Bahá’u’lláh recebe o primeiro Cristão

Por Christopher Buck e Joshua Hall.


No artigo anterior falámos de Faris, o médico sírio que se tornou o primeiro Bahá’í de origem cristã, em 1868.

Também referimos o conhecido escritor e historiador Bahá’í, Nabil-i A’zam, ou Nabil-i Zarandi (1831–1892), que ‘Abdu’l-Bahá elogiou nos seguintes termos:
Este homem distinto era erudito, sábio e tinha um discurso eloquente. O seu génio nato era pura inspiração, o seu dom poético era como um fluxo de cristal. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, p. 35)
O relato de Nabil sobre a decisão de Faris em tornar-se Bahá’í prossegue da seguinte forma:
Em resposta às nossas petições, havia uma Epístola, em caligrafia de Revelação [a escrita rápida que Mirza Aqa Jan registava à medida que Bahá’u’lláh falava], uma Carta do Mais Grandioso Ramo, e um papel com nuql [rebuçado] de amêndoas... Na Epístola, Faris,o médico, era particularmente elogiado.
Um dos presentes escreveu:
Várias vezes testemunhei evidências de um poder que nunca conseguirei esquecer. E assim aconteceu hoje. O navio estava em movimento, quando vimos um barco ao longe. O capitão parou o navio, e este jovem relojoeiro chegou até nós, e gritou pelo meu nome. Aproximámo-nos e ele deu-nos o teu envelope. Todos os olhares estavam sobre nós, os exilados. No entanto, ninguém questionou a acção do capitão. (Nabil-i A’zam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, The King of Glory, p. 268)
E agora a narrativa completa de Bahá’u’lláh, escrita pouco depois da Sua chegada a Akká:
Em nome de Deus, o Eterno, o Imutável.

Ó tu que colocaste o teu olhar sobre o semblante divino, dando ouvidos à voz d’Aquele que sofreu o encarceramento várias vezes no caminho de Deus, o teu Senhor e Senhor dos mundos. Sabe, pois, que a Beleza Antiga partiu da Terra do Mistério devido àquilo que as mãos dos opressores forjaram. Anteriormente, Ele caminhara na terra, revelando a cada momento os versículos que arrebataram o povo ao Concurso no Alto, e expondo provas que fizeram desfalecer os anjos próximos de Deus.

Por Deus, as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente, e isto, em verdade, é uma graça abundante. Ao perceber estas fragrâncias, o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus, o Rei, o Omnipotente, o Belíssimo. Sob todas as condições, colocámos sob cada pedra, pérolas de palavras perspícuas e jóias de explicação; em breve, levantar-se-á Aquele que proclamará perante todas as pedras: “Ele é, em verdade, o Bem-Amado dos Mundos!”

Os dias passaram até que chegámos à beira-mar. Quando o Mais Grandioso oceano embarcou na Arca, os habitantes do Mais Alto Paraíso gritaram o nome de Deus, por Cuja ordem foi posta em movimento e dirigiram-se à Arca dizendo: “Bem-Aventurada sejas, pois Aquele que é a Esperança dos Mundos pôs os pés sobre ti”.

Seguidamente, a Arca começou a navegar sobre o mar, e ouvimos de cada uma das suas gotas aquilo que nenhum homem consegue ouvir, e o teu Senhor conhece bem a verdade daquilo que digo. Quando chegámos a uma das cidades da terra, percebemos-lhe a fragrância do Todo-Misericordioso, e assim que inalámos as brisas da santidade que dali sopravam, o mar acalmou-se e a Arca parou sobre ele. No entanto, por Deus, as ondas deste mar não ficarão calmas para sempre.

Perante o Rosto Divino veio um de entre a comunidade de Cristo com uma eloquente missiva em mão. Ao quebrar o selo, percebemos os perfumes de santidade daquele que se incendiou com o fogo do amor pelo teu Senhor, o Todo-Misericordioso. Tão arrebatado estava pelos êxtases da Revelação, que ele se separou de todas as coisas e segurou-se firmemente ao cordão que estava suspenso entre o céu e a terra. Lemos as palavras da sua missiva, e quem desejar, poderá lê-las para que possa observar como os dedos do poder do teu Senhor, o Mais Exaltado, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, podem voltar os corações dos homens para Ele.

Que bom seria se tivesses estado perante Nós e escutado o Jovem a recitar aquela missiva na entoação de Deus, o Omnipotente, o Todo-Poderoso, o Sapientíssimo! Desta forma, Deus cria o que deseja como sinal do Seu poder; mas as pessoas, envoltas nos véus do ego estão entre os desatentos. Por Deus! A criação desse homem é maior aos olhos de Deus do que a criação dos céus e da terra. Quando leres a sua missiva, exclama: “Exaltado seja Deus, que desperta quem Ele deseja no Seu poder; Ele, em verdade, é o Revivificador dos Mundos!” (tradução provisória de Joshua Hall)
Esta notável epístola de Bahá’u’lláh começa por se dirigir ao destinatário, Rad’ar-Ruh (ou “Espírito Contente”, um nome dado a Mulla Muhammad-Rida-yi Manshadi por Bahá’u’lláh)

Provavelmente, naquele tempo, não houve contacto directo com o próprio Faris Effendi, mas esta epístola de Bahá’u’lláh (a “Beleza Antiga”) refere os seus múltiplos encarceramentos no passado e o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í. A caminho de um novo encarceramento, Bahá’u’lláh continuou a revelar escrituras de sabedoria divina, agitando as almas dos ouvintes receptivos.

Bahá’u´lláh caracteriza a Sua revelação como tendo âmbito universal (“as brisas perfumadas da Revelação divina foram sopradas sobre as regiões do oriente e do ocidente”) e tendo poder para revivificar os espiritualmente mortos (“o osso decomposto despertou e ressuscitou, de acordo com a permissão de Deus”). Esta referência à ressurreição tem um significado espiritual, e não físico.

Depois Bahá’u’lláh usa metáforas como “pérolas” e “jóias” colocadas sob “cada pedra” (corações empedernidos). Seguidamente, Bahá’u’lláh compara o navio a vapor da Austrian-Lloyd à Arca de Noé, o que, na simbologia Bahá’í, representa a comunidade dos espiritualmente despertos – neste caso, os seguidores de Bahá’u’lláh.

O texto prossegue com a alusão a Alexandria (“uma das cidades da terra”). O “um de entre a comunidade de Cristo” que veio à presença de Bahá’u’lláh era Constantino, o relojoeiro, que trouxe “uma eloquente missiva em mão”, a carta de Faris Effendi para Bahá’u’lláh.

O texto da epístola de Bahá’u’lláh não distingue claramente entre Constantino e Faris. Num certo sentido, estes dois indivíduos aparecem juntos, cada um representando o outro. Alcançar a presença de Bahá’u’lláh e sentir a Sua majestade divina e o Seu poder carismático, teve um grande efeito em Constantino, que ficou agitado até às profundezas da sua alma com os “êxtases da Revelação”. Quanto à carta de Faris, Bahá’u’lláh afirma que “Quem desejar, pode lê-la”. Mas como? Ao anexar o conteúdo da carta ao final da Sua epístola, Bahá’u’lláh disponibiliza-a a todos nós. No próximo artigo desta série vamos ler a carta de Faris.

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Texto original: Baha’u’llah’s Welcome to the First Christian Baha’i (www.bahaiteachings.org)

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Joshua Hall é um Bahá’í que vive no Montana (EUA). Os seus interesses incluem linguística e estudo de religiões comparadas. Tem uma paixão especial pelo estudo e tradução de textos árabes das Escrituras Bahá’ís.
Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"Utterance": Palavra ou Elocução?


“Este é o dia em que o Pássaro da Elocução gorjeou a sua melodia sobre os ramos, em nome do seu Senhor, o Deus de Misericórdia.” (Bahá’u’lláh, Epístola ao Filho do Lobo)

A citação acima – colocada na primeira página do mais recente “Notícias Bahá’ís" – despertou a minha atenção pelo uso da expressão “Pássaro da Elocução”. O termo “Elocução” torna difícil de perceber o significado da frase. Para quem está habituado a fazer traduções das Escrituras Bahá’ís, é relativamente fácil perceber que houve dificuldade em traduzir a palavra “Utterance”.

A frase no texto fonte em inglês é: “This is the day on which the Bird of Utterance hath warbled its melody upon the branches, in the name of its Lord, the God of Mercy”.

A metáfora usada nesta frase (“Bird of Utterance”) parece-se ser uma alusão ao Manifestante de Deus (cujas palavras têm uma influência vivificadora e transformadora) e não apenas a uma figura com bela capacidade de expressão.

A palavra “utterance” no contexto religioso descreve muito mais do que uma capacidade retórica ou de expressão de pensamentos; trata-se, acima de tudo de proferir algo que é divinamente inspirado e que é capaz de transformar profundamente outras pessoas.

Também é importante notar que esta palavra (“utterance”) é usada na versão King James da Bíblia como significando palavra (ou expressão) inspirada por Deus ou pelo Espírito Santo. Nos mesmos versículos bíblicos da tradução de João Ferreira de Almeida, é usado o termo “Palavra”.

Por estes motivos, parece-me redutor traduzir “Bird of Utterance” por “Pássaro da Elocução”; seria mais adequado traduzir esta expressão como “Ave da Palavra” ou “Pássaro do Verbo” (“Verbo” significa palavra revelada, ou palavra criativa de Deus).

O que dizem os dicionários.

Segundo o Dicionário de Português da Porto-Editora, “Elocução” pode ter os seguintes significados:
1.           forma da enunciação do pensamento através de palavras
2.           estilo
3.           parte da retórica que ensina a maneira de expressar os pensamentos com ordem e elegância

O Dicionário Inglês-Português da Porto-Editora apresenta as seguintes possibilidades para a tradução da palavra “Utterance
1.           expressão; enunciação
2.           pronúncia; dicção
to have a defective utterance
ter uma pronúncia defeituosa
3.           LINGUÍSTICA enunciado; elocução
4.           fala; expressão oral
5.           (moeda falsa) emissão

Note-se que este dicionário afirma que é possível traduzir a palavra “utterance” como “elocução”, mas num contexto de linguística.

Já a palavra “Utterance” surge no dicionário Merriam-Webster com os seguintes significados:
1 : something uttered; especially : an oral or written statement : a stated or published expression
2 : vocal expression : SPEECH
3 : power, style, or manner of speaking


Outras Traduções

É interessante notar que a tradução espanhola usa o termo “Expresión” e a tradução francesa usa o termo “parole”.

Este es el día en que el Ave de la Expresión ha gorjeado su melodía sobre las ramas, en el nombre de su Señor, el Dios de Misericordia.

C'est en ce jour que l'oiseau de la parole a chanté sa mélodie sur les branches, au nom de son Seigneur, le Dieu de miséricorde.


sábado, 5 de janeiro de 2019

O primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í

Por Christopher Buck.


Gostaria que conhecessem o Dr. Faris Effendi, um médico sírio que foi o primeiro Cristão a tornar-se Bahá’í.

A história de como o Dr. Effendi percebeu que Bahá’u’lláh era Aquele que Cristo tinha predito – em termos espirituais e simbólicos tinha cumprido as profecias – é muito interessante.

Em Agosto de 1868, Bahá’u’lláh era um prisioneiro do Império Otomano e foi exilado de Edirne (antes conhecida como Adrianópolis) para Gallipoli, e dali para a cidade-prisão de Akka (hoje “Acre” ou “Akko”) na Palestina (hoje Israel).

Na manhã de 21 de Agosto de 1868, Bahá’u’lláh e a Sua comitiva – todos eles prisioneiros – foram colocados a bordo de um navio a vapor da companhia Austrian-Lloyd. Os exilados – que seriam 72 segundo um relato – eram acompanhados por uma escolta militar constituída por dois oficiais e dez soldados.

A bordo do navio, Bahá’u’lláh, em tom de gracejo, disse para os Seus companheiros: “Não seria divertido se o navio se afundasse?” E apressou-Se a acrescentar – com total confiança e evidente presciência – esta garantia: “Mas não se afundará, mesmo que seja atingido por todas as ondas.”

Segundo um relato, inicialmente, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros não sabiam o seu destino. Todo o que lhes tinham dito é que iam ser levados para “uma prisão desconhecida, numa terra desconhecida”. (ver Hasan M. Balyuzi, Bahá’u’lláh: The King of Glory (Oxford: George Ronald, 1980), p. 264.) Mais tarde foi dito aos exilados que iam ser levados para Akka.

As condições a bordo do navio eram indescritíveis e posteriormente foram referidas como “onze dias de horror”. Com pouca comida, o convés sobre-lotado e espaço insuficiente até para dormir, a maioria dos exilados ficou “muito indisposta”. Um dos companheiros adoeceu e teve de ser levado para o hospital em Esmirna, onde faleceu. ‘Abdu’l-Bahá organizou-lhe um funeral simples.

Alguns dias mais tarde, na manhã de 27 de Agosto de 1868, o navio austríaco chegou ao porto de Alexandria. Ali, Bahá’u’lláh e os Seus companheiros foram transferidos para outro vapor austríaco.

Porto de Alexandria (Egipto) em meados do séc. XIX
Entretanto, sem que os exilados soubessem, Nabil-i A'ẓam – um dos dezanove Apóstolos de Bahá’u’lláh e famoso historiador Bahá’í – tinha ido ao Egipto apelar ao governador turco para que libertasse outros sete ou oito prisioneiros Bahá’ís que ali se encontravam detidos (ver Shoghi Effendi, God Passes By, p. 178). Ninguém, entre os Bahá’ís, sabia exactamente onde é que esses crentes se encontravam presos em Alexandria.

Quando o navio austríaco ancorou na baía de Alexandria, vários exilados Bahá’ís desembarcaram para ir comprar mantimentos. Por sorte, um dos exilados, Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir, passou perto da prisão. Nabil, reconheceu-o ao longe e gritou-lhe.

Nessa prisão, Nabil tinha conhecido um Cristão que tinha tentado “salvar” a sua alma, tentando convertê-lo ao Cristianismo. Mas, segundo Nabil, os papeis inverteram-se rapidamente. “O médico estava naquela prisão. Ele tentou converter-me à Fé Protestante. Tivemos longas conversas e ele tornou-se Bahá’í.” Tratava-se do Dr. Effendi, também conhecido como “Faris, o sírio”, que estava preso devido a grandes dívidas. Nabil registou a sua narrativa:
No octogésimo primeiro dia do meu sonho, do terraço da prisão, vi Aqa Muhammad-Ibrahim-i-Nazir a passar na rua. Chamei-o e ele subiu. Perguntei-lhe o que fazia ali e ele disse-me que [Bahá’u’lláh] e os companheiros estavam a ser levados para Akka… e que ele tinha desembarcado na companhia de um polícia para fazer algumas compras.

O polícia, disse ele, “não me vai deixar ficar aqui muito mais tempo. Vou e informarei [‘Abdu’l-Bahá] da tua presença aqui. Se o barco se demorar aqui mais tempo, talvez venha visitar-te outra vez”. Ele deixou-me em brasas e foi-se embora.

O médico [Faris Effendi] não se encontrava ali nessa ocasião. Quando apareceu, encontrou-me lavado em lágrimas e recitando as seguintes palavras: “O Bem-Amado está ao meu lado e eu estou longe d’Ele; estou nas margens das águas da proximidade, e, no entanto, estou privado. Ó Amigo! Leva-me, leva-me a um lugar no navio da proximidade. Estou desamparado, estou vencido, sou um prisioneiro”.

Foi à noite que Faris... veio e viu a minha agonia. Disse-me: “Dizias-me que no octogésimo primeiro dia do teu sonho devias receber um motivo de regozijo, e que hoje é o octogésimo primeiro dia. Agora, pelo contrário, vejo-te profundamente perturbado”.

Respondi: “Na verdade, a causa de regozijo aparecei, mas ai de mim! A data está na palmeira e nossas mãos não podem alcançá-la”. Ele disse: “Conta-me o que aconteceu; talvez eu possa fazer alguma coisa”.

E assim, contei-lhe que [Bahá’u’lláh] estava no navio. Ele, tal como eu, ficou profundamente perturbado e disse: “Num dos próximos dias que não seja Sexta-feira… podemos, nós dois, obter permissão para ir a bordo do navio e estar na Sua presença. E ainda podemos fazer mais alguma coisa. Escreve o que quiseres; eu também vou escrever. Amanhã, um conhecido meu vem cá. Nós entregamos-lhe estas cartas para ele as levar ao navio”.

Escrevi a minha história e juntei alguns poemas que tinha escrito na prisão. Faris, o médico, também escreveu uma carta e descreveu a sua grande mágoa. Era muito comovedor. Colocámos tudo num envelope, que entregámos a um jovem relojoeiro chamado Constantino, para entregar ao início da manhã. Dei-lhe o nome do Khadim [Mirza Aqa Jan] e de alguns outros companheiros, disse-lhe como os podia identificar, e salientei que não devia entregar o envelope enquanto não encontrasse um deles.

Ele saiu de manhã. Nós ficámos a ver no topo do telhado. Primeiramente ouvimos um sinal e depois o barulho do movimento do navio; ficámos perplexos, com medo de não termos conseguido. Depois o navio parou e começou novamente após quinze minutos. Estávamos na expectativa quando, de repente, chegou Constantino. Entregou-me um envelope e um pacote embrulhado num lenço e gritou: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Faris, o médico, beijou os seus olhos e disse: “O nosso destino foi o fogo da separação, o teu foi a bênção de ver o Bem-Amado do Mundo.” (Nabil-i A'ẓam, de uma história não publicada, traduzida por H.M. Balyuzi, Baha’u’llah, the King of Glory, pags. 267–268.)
Imagine-se o quão surpreendido deve ter ficado Constantino, o relojoeiro, ao contemplar Bahá’u’lláh pela primeira vez! Aquela primeira impressão tornou-se uma impressão permanente, quando ele – pleno de espanto e admiração – gritou para Faris: “Por Deus! Eu vi o Pai de Cristo!”

Estávamos no dia 28 de Agosto de 1868. Três dias mais tarde, Faris foi libertado da prisão, conforme prometido por Bahá’u’lláh. O segundo navio austríaco, com Bahá’u’lláh e os seus companheiros a bordo, partiu para Haifa.

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Texto original: The First Christian to Become a Baha’i (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 29 de dezembro de 2018

O que eu vi em ‘Abdu’l-Bahá: relatos de Laura Barney

Por Layli Miron.


Em 16 de Maio de 1909, em Nova Iorque, um grupo de pessoas reuniu-se para ouvir Laura Clifford Barney. O seu nome era familiar aos leitores do livro Respostas a Algumas Perguntas, que tinha sido publicado no ano anterior. Este livro apresentava, para a recém-nascida comunidade Bahá’í dos Estados Unidos, o comentário de ‘Abdu’l-Bahá sobre uma diversidade de temas, desde o Novo Testamento até à justiça criminal.

Barney, que traduziu e compilou o livro, passara a maior parte da década anterior longe da sua pátria, vivendo em Paris e Akka. Viveu vários meses na casa de ‘Abdu’l-Bahá – uma “aldeia” que se agitava com Bahá’ís de todas as idades, como ela recordava com ternura – de 1904 a 1906, quando compilou o livro Respostas a Algumas Perguntas. Durante esta estadia em Akka, teve muitas oportunidades de observar e interagir com ‘Abdu’l-Bahá.

“Não é aquilo que eu penso que tem muita importância, mas sim aquilo que vi… das características e hábitos de ‘Abdu’l-Bahá”, disse à sua audiência em Nova Iorque. Uma das pessoas presentes tinha uma caneta sobre um bloco de folhas de papel, pronta a transcrever as palavras de Barney. Graças a este escriba desconhecido, temos registados os comentários feitos por Barney nesse dia. Para este artigo, os textos foram organizados por tópicos: primeiro, pequenas histórias de ‘Abdu’l-Bahá; segundo, recordações sobre a vida na Sua casa; e terceiro, reflexões sobre os Seus atributos e orientação. Estes textos foram ligeiramente editados para facilitar a legibilidade.

HISTÓRIAS DE ‘ABDU’L-BAHÁ

O Salomão de Akka
Quanto ao próprio ‘Abdu’l-Bahá, é muito difícil descrevê-Lo devido à Sua diversidade – tantos aspectos. Talvez seja melhor eu descrever-vos a forma como as pessoas de fora O viam e o que pensavam d’Ele.

Por todas as redondezas de Akka, Ele é conhecido como Abbas Effendi. Vêem-No como um grande sábio, comparam-no a Salomão. Vão ter com Ele para pedir conselhos e colocam-Lhe muitas questões difíceis para Ele resolver. Todos confiam n’Ele, apesar de ser um prisioneiro; o próprio Governador foi ter com Ele em busca de ânimo e consulta. Ele é considerado um sábio e um santo notável. Ele é extraordinário na forma como lida com os pobres, sendo o seu melhor amigo.

O passeio de um Prisioneiro
Um dia o Governador pediu-Lhe eu fossem dar um passeio. Ele acedeu ao seu pedido, e durante todo percurso manteve-Se calmo e meditativo. Por fim, falou: “Esta prisão exterior não tem importância. É da prisão do ego que nos devemos libertar”. O prisioneiro neste caso era mais poderoso que o Governador, pois o Governador é que tinha pedido ao Prisioneiro que saísse da prisão.

Um Governador em apuros
Uma vez havia um governador que insistia em ser subornado para permitir que os amigos do Mestre O visitassem. No entanto, o Mestre recusava pagar esses subornos. Ele nunca subornou ninguém. Depois este governador foi afastado ,caiu em desgraça e ficou em apuros. Então o Mestre - quando todos os outros homens se afastavam do governador para se protegerem - enviou-lhe uma certa quantia de dinheiro.

Os pertences de ‘Abdu’l-Bahá
Foi-Lhe enviado um grande cesto de fruta que passou pelo edifício da Alfândega e chegou a casa meio vazio. Ele perguntou: “Como aconteceu isto?” A resposta foi que os funcionários se tinham servido livremente no edifício da Alfândega. Ele franziu a testa por um momento e depois levantou o rosto com um sorriso dizendo: “Fizeram isto secretamente? Então deviam ser castigados; no entanto, fizeram-no abertamente. Bravo, porque as coisas que pertencem a ‘Abdu’l-Bahá pertencem a todos os homens”.

Compaixão pelos Infelizes
Lembro-me que um dia Ele chegou para almoçar, e parecia cansado e triste. Após alguns momentos, perguntámos se tinha acontecido alguma coisa. Podíamos mandar um recado a alguém?

Depois Ele contou uma experiência desoladora que tinha tido nesse dia. Tinha passado junto ao quartel onde estavam a recrutar soldados; um pai e uma mãe choravam amargamente porque o governo recrutara o seu único filho. Não tinham outro conforto, salvo o amor de Deus...

‘Abdu’l-Bahá percebe a situação difícil que as pessoas vivem. O Seu coração está cheio de amor pela humanidade e percebe a necessidade de paz nos corações das pessoas.

A VIDA NA CASA DE ‘ABDU’L-BAHÁ

Recebendo Peregrinos
Quando um peregrino vai a Akka, ‘Abdu’l-Bahá conhece a sua verdadeira condição, mas não o julga pela sua expressão exterior, mas pelo seu ser interior. Ele parece conhecer intimamente os actos das suas mentes.

Uma das perguntas é sobre o bem-estar pessoal: “Estás feliz e tens descansado?” Ele tem esta saudação carinhosa para todas as pessoas.

Exemplo para o mundo Bahá’í
Akka é o centro do mundo. É o ponto de encontro para todos os peregrinos. Muitos dos meus amigos mais queridos são peregrinos. Muitos dos meus amigos mais queridos encontrei-os ali: Muçulmanos, Judeus, Zoroastrianos, etc. Não é só ali que sentimos o laço da unidade. É em toda a parte onde encontramos Bahá’ís. Estão todos ligados uns aos outros como uma grande família feliz.

Este laço de simpatia cria actos belíssimos e é verdadeiramente maravilhoso aquilo que podemos fazer no mundo.

‘Abdu’l-Bahá é maravilhoso no Seu exemplo. Ele mostra dois princípios que são poderosos. São a tolerância e a vigilância... Devemos ser tolerantes com toda a humanidade e vigilantes para não a magoar.

ATRIBUTOS E GUIA DE ‘ABDU’L-BAHÁ

Amor pela humanidade
A Sua vida activa é notável. Nunca está com grande pressa. Tudo parece bem equilibrado. A Sua ideia é que tudo o que se começa deve ser terminado com o mesmo esforço com que foi iniciado.

O Seu interesse por todos nós é de uma visão maravilhosa. Ele parece focar tudo o que está em nós para que sejamos um espelho para Ele.

É quase milagrosa a forma como Ele lê e compreende todas as cartas que Lhe são escritas e como Ele responde a todos de acordo com as suas necessidades. Todos recebem uma atenção cuidadosa e todos recebem aquilo que desejam.

E que esforços específicos que Ele faz por aqueles que O amam e vêm até Ele. É o princípio que Bahá’u’lláh ensinou, a força do amor... Depende de nós amá-Lo. Quando Ele espalha o amor de Deus, este cai sobre o universo, e cada coisa recebe esse amor de forma diferente.

Confiança em Deus
Como centro da Aliança, o Seu estatuto é humildade. Ele seria um ser brilhante em qualquer caminho da vida e teria sucesso em qualquer empreendimento material, pois Ele depende apenas daquela força que é de Deus.

Imagine uma piscina com água. Sem ligação com outras águas, rapidamente fica estagnada; mas quando ligada com o próprio oceano, fica sempre pura. O mesmo acontece connosco. Devemos estar ligados com Deus e manter sempre essa ligação, e assim estaremos sempre sintonizados com o infinito.

Guia Paciente
‘Abdu’l-Bahá é sensível e poético no meio de toda esta actividade. Quando responde a uma pergunta, Ele está calmo e meditativo, e parece olhar para a natureza no exterior. Ele parece esquecer a nossa presença e enquanto responde, tudo o que parecia difícil de compreender torna-se fácil de entender. Todos os mistérios são transmitidos.

Visão para a América
‘Abdu’l-Bahá afirma que vários grupos e massas na América atingirão um verdadeiro estado de compreensão e autêntica fraternidade através dos nossos esforços, à medida que crescemos continuamente no amor de Bahá’u’lláh. Então, seremos capazes de atingir estas grandes massas, e juntos através do Seu amor e com pensamento n’Ele, cresceremos e cresceremos até o amor se tornar universal.

NOTA: a transcrição desta palestra encontra-se nos Arquivo Bahá’ís do Estado Unidos. Sobre os escritos de Laura Barney, ver este artigo da autora no Journal of Baha’i Studies.

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Texto original: “What I Saw of Abdu’l-Baha”: Vignettes by Laura Barney (www.bahaiblog.net)

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Layli Miron e o marido vivem na Pensilvânia (EUA) onde está a fazer um Doutoramento em retórica e composição. O casal colabora com a comunidade Bahá’í em diversos projectos de natureza local.

sábado, 22 de dezembro de 2018

O que significa o Natal para os Bahá’ís

Por Preethi.


Os Bahá’ís celebram o Natal? Esta questão é um pouco complicada porque o Natal tem diferentes significados para diferentes pessoas.

Se entendermos o Natal como a comemoração do nascimento de Cristo, então este dia tem significado para os Bahá’ís, que acreditam que Cristo foi um Manifestante de Deus. No entanto, os Bahá’ís não celebram o Natal nas suas comunidades como um Feriado Bahá’í.

Apesar do princípio da revelação progressiva significar que os Bahá’ís acreditam na origem divina das outras religiões mundiais (e consequentemente no significado de cada um dos seus Feriados), a Fé Bahá’í é uma religião independente e tem os seus próprios feriados. Os Bahá’ís – apesar de acreditarem na origem divina de todas as religiões mundiais – seguem os ensinamentos de Bahá’u’lláh, que acreditam ser o mais recente de uma sequência de Mensageiros enviados por Deus com leis adequadas às necessidades da humanidade nos dias de hoje.

Disto isto, porém, os Bahá’ís são livres para participar em celebrações realizadas pelos seus amigos e família que aderem a outras religiões. O Natal é um pouco complicado devido ao que representa na sociedade Ocidental – o verdadeiro significado do Natal, infelizmente, perdeu-se há muito tempo entre os enfeites das árvores de Natal, as figuras do Pai-Natal e os intermináveis anúncios de compras de Natal. No entanto, neste momento em que muitos Cristãos param para reflectir sobre o nascimento e vida de Jesus, os Bahá’ís também podem reflectir sobre o significado deste dia. As Escrituras Bahá’ís descrevem de forma magnífica a vida e a posição de Jesus. Bahá’u’lláh afirma:
Sabe que quando o Filho do Homem entregou o espírito a Deus, toda a criação chorou num grande pranto. Ao sacrificar-Se, porém, uma nova capacidade infundiu-se em todas as coisas criadas. As suas evidências, como se testemunha em todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de ti. A sabedoria mais profunda que os sábios pronunciaram, o conhecimento mais profundo que qualquer mente explicou, as artes que as mãos mais hábeis produziram, a influência exercida pelo mais poderoso dos governantes, são apenas manifestações do poder vivificador libertado pelo Seu Espírito transcendente, omnipresente e resplandecente.

Testemunhamos que quando Ele veio ao mundo, Ele derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas. Através d’Ele, o leproso recuperou da lepra de perversidade e da ignorância. Através d'Ele o ímpio e rebelde foram curados. Através do Seu poder, nascido do Deus Todo-Poderoso, os olhos dos cegos abriram-se e a alma do pecador santificou-se… Testemunhamos que através do poder do Verbo de Deus todo o leproso foi purificado, toda a enfermidade foi curada, toda a debilidade humana foi banida. Ele é Quem purificou o mundo. Bem-aventurado o homem que, com um rosto radiante de luz, se volveu para Ele." (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXXVI)
Estas palavras estão próximo do meu coração, pois fui educada como Cristã e desde cedo aprendi a conhecer e adorar Deus através dos ensinamentos de Jesus. Frequentemente sinto que é difícil focar-me nos aspectos espirituais do Natal devido ao forte significado cultural que adquiriu.

Mas estas palavras recordam-nos o verdadeiro significado da vida de Jesus. A história do Natal é um episódio fascinante na história religiosa do mundo. O nascimento de Jesus assinala o cumprimento das profecias Judaicas sobre um novo Manifestante de Deus. Marca o início de uma infância muito especial que se distinguiu devido à sabedoria inata que que todos os Manifestantes possuem, mesmo quando são crianças. Anunciou a vida de outro Manifestante de Deus que sofreria grandes aflições e sofrimentos para guiar a humanidade em direcção a Deus.

A vida e o ministério de Jesus transformaram as vidas de muitas pessoas – tanto no Seu tempo como nos séculos seguintes – assim como da humanidade como um todo. O Seu amor e sacrifício criaram no mundo um novo espírito. Bem-aventurados aqueles que reconheceram a enorme dádiva dos Seus ensinamentos divinos.

Um santo Natal a todos os nossos amigos Cristãos!

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Texto original: What Christmas Means to Baha’is (www.bahaiblog.net)

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Na sua vida profissional, Preethi tem-se envolvido em áreas como a educação, o desenvolvimento comunitário e o direito. No entanto, no seu coração, ela é uma criança que vê o mundo como um enorme parque de brincadeiras. Actualmente está a desenvolver um projecto educativo para levar histórias e culturas do mundo aos jovens, com recursos no One Story Classroom.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Afif Naeimi, o último membro dos Yaran, foi libertado da prisão.


As autoridades iranianas libertaram hoje o sr. Afif Naeimi após cumprir uma pena de dez anos de prisão por ser Bahá’í. O sr. Naemi foi o último de um grupo de sete dirigentes Bahá’ís iranianos (conhecidos como Yaran) a ser libertado da prisão. No entanto, há dezenas de Bahá’ís iranianos que continua presos e milhares que enfrentam a hostilização e perseguição diárias.

Afif Naeimi, de 56 anos de idade, pai de dois filhos, natural de Teerão, foi preso no dia 14 de Maio de 2008, e acusado, entre outras coisas, de espionagem, propaganda contra o regime iraniano, e criação de uma administração Bahá’í ilegal. O sr. Naeimi, juntamente com outras seis pessoas formavam os “Yaran – um grupo que administrava as necessidades espirituais e materiais dos Bahá’ís iranianos. O Sr. Naeimi juntamente com membros deste grupo foram condenado a 10 anos de prisão.

Enquanto esteve preso, o Sr Naeimi sofreu vários problemas de saúde e várias vezes foi-lhe negado o necessário tratamento médico. As autoridades decidiram que o tempo que o sr. Naeimi esteve internado num hospital não deveria ser contado para o cumprimento da pena.

A representante da Comunidade Bahá’í junto das Nações Unidas comentou o caso: “Estamos, naturalmente, felizes pela libertação do sr. Naeimi. No entanto isto não deve ser visto como uma melhoria da situação os Bahá’ís no Irão. A dura realidade é que ainda há muitos Bahá’ís presos no Irão devido às suas crenças e dezenas de milhar enfrentam diariamente fortes perseguições, incluindo negação de frequência de estabelecimento de ensino, encerramento de empresas e hostilização”.

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FONTE: Last member of former Yaran ends prison term, persecution continues (BIC)

sábado, 15 de dezembro de 2018

Porque não podemos compreender o Criador?

Por Peter Terry.


A filosofia divina afirma categoricamente que nunca conseguimos conhecer verdadeiramente a essência de uma coisa.

Podemos compreender os atributos, as qualidades e as características de um mineral, de um vegetal, de um animal, de um ser humano, e consequentemente, da divindade; mas nunca conseguimos compreender a sua essência mais íntima. Apenas os podemos conhecer através da observação e da compreensão desses atributos, qualidades, manifestações ou existências. Então, como é possível para o homem conhecer Deus?

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que isso é impossível:
Então, como seria possível para uma realidade contingente, isto é, o homem, compreender a natureza daquela Essência pré-existente, o Ser Divino? A diferença de condição entre o homem e a Realidade Divina é milhares de milhares de vezes maior do que a diferença entre o vegetal e o animal. E aquilo que o ser humano consegue conceber na sua mente é apenas uma imagem fantasiosa da sua condição humana; e não abrange a Realidade Divina, mas é abrangido por ela. Isto é, o homem compreende o significado das suas próprias concepções ilusórias, mas a Realidade Divina nunca pode ser compreendida; Ela, em Si mesmo, abrange todas as coisas criadas, e todas as coisas criadas estão ao Seu alcance. Aquela Divindade que o homem imagina por si próprio existe apenas na sua mente, não é verdadeira. O homem, porém, existe na sua mente e na realidade; por isso, o homem é maior que a realidade fantasiosa que ele consegue imaginar. Os limites extremos deste pássaro de barro são estes: ele pode bater as asas durante uma curta distância em direcção ao interminável infinito; mas ele nunca poderá voar até ao sol no alto céu. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, pags. 46-47)
Como podemos conhecer Deus? Se não podemos conhecer a essência de nada, muito menos do Criador, como poderemos conseguir algum conhecimento sobre o reino espiritual e o nosso lugar nele? Os ensinamentos Bahá’ís dizem:
Conhecemo-lo pelos Seus atributos. Conhecemo-Lo pelos Seus sinais. Conhecemo-Lo pelos Seus nomes… Se desejamos entrar em contacto com a realidade divina, fazemo-lo reconhecendo os seus fenómenos, os seus atributos e sinais que estão espalhados pelo universo. Todas as coisas no mundo dos fenómenos são expressões de uma realidade. As suas luzes são brilhantes, o seu calor é manifesto, o seu poder é expressivo dessa realidade única. Que prova maior poderá existir do que o seu funcionamento, ou os seus atributos que estão manifestos? (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 422)
É claro, portanto, que a realidade de Deus se revela nas Suas perfeições… (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Bahá, pag. 51) 
Como pode a realidade do homem, que é fortuita, alguma vez compreender a Realidade de Deus, que é eterna? É uma impossibilidade evidente. Assim, podemos observar os sinais e atributos de Deus que resplandecem em todos os fenómenos e brilham como o sol do meio-dia, e saber, com segurança, que estes emanam de uma fonte infinita. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pags. 422-423)

As escrituras Bahá’ís dizem-nos que se olharmos para o mundo natural e para as pessoas que nele habitam, podemos encontrar “sinais e atributos de Deus” em toda a parte:
Quando examinamos o mundo e as almas dos homens, os sinais perspícuos das perfeições da Divindade surgem claros e manifestos, pois a realidade de todas as coisas atesta a existência de uma realidade universal. ('Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 255)
Portanto, nós humanos, podemos discernir os atributos, os sinais e as perfeições de Deus em todas as coisas criadas.

Assim, nos ensinamentos Bahá’ís chegamos à conclusão surpreendente que os conceitos tradicionais, actuais e históricos sobre Deus são os ídolos da nossa imaginação. Descobrimos que apenas podemos conhecer os atributos das coisas, mas não as coisas em si. Descobrimos que os nossos sentidos nada nos dizem sobre a existência de Deus. Consequentemente, ‘Abdu’l-Bahá desvalorizou e descartou as bases tradicionais para crença em Deus – as imagens que fizemos para nós ou imitámos na nossa família e amigos; a ideia errada que algumas pessoas têm de que conseguem compreender a essência da realidade, à qual chamamos “Deus”; a convicção contemporânea de que podemos perceber essa realidade através dos nossos sentidos; e a de que qualquer existência fora da nossa percepção sensorial é pura imaginação.

Então, o que pode substituir as nossas ideias falsas, fantasias e equívocos sobre Deus?

Podemos substituí-los pela afirmação segura e destemida de que os atributos e perfeições de Deus são revelados em todas as coisas da criação, que podemos conhecer esses atributos estudando essas criações, e que a manifestação perfeita desses atributos está acessível a cada um de nós. Podemos aceder às manifestações de Deus ao longo da história, na pessoa dos fundadores das principais religiões mundiais: Abraão, Krishna, Moisés, Buda, Cristo, Maomé e, mais recentemente, Bahá’u’lláh, o fundador da Fé Bahá’í.

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Texto original: Why We Can’t Comprehend the Creator (www.bahaiteachings.org)

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Peter Terry é um académico independente, músico e professor. É autor dos livros A Prophet in Modern Times (uma biografia do Bab), In His Own Words (uma biografia de Baha'u'llah), Proofs of the Prophets (uma compilação e comentário sobre as 40 provas da condição de Profeta), Proofs of the Prophets: Lord Krishna, Proofs of the Prophets: Baha'u'llah.