Por Ingo Hofmann.
Com várias guerras regionais em curso, o mundo parece estar a afastar-se cada vez mais do objectivo da paz mundial. Será que a razão e a ciência podem inverter esta tendência alarmante?
As palavras de Einstein, "A ciência sem religião é coxa; a religião sem ciência é cega", ainda se aplicam no século XXI.
Contudo, nos últimos séculos da nossa história, a razão e a ciência não parecem ter sido antídotos suficientes para a guerra. Apesar das nossas grandes conquistas tecnológicas, intelectuais e educacionais, as guerras ainda nos matam.
O que podemos aprender com os grandes filósofos sobre como impedir guerras?
A confiança do influente filósofo Immanuel Kant (1724-1804) na razão sustentava a sua visão do futuro da humanidade: só com cidadãos globais numa república mundial federal, afirmava ele, poderíamos pôr fim a todas as guerras e construir uma paz duradoura.
Immanuel Kant viveu no século XVIII, mas a sua visão tornou-se relevante para os nossos dias. Se os filósofos têm o direito de olhar profeticamente para o futuro, os fundadores das religiões também o devem fazer.
Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, fez exatamente isso quando revelou este mandamento: "Ordenamos a toda a humanidade que estabeleça a Mais Grandiosa Paz — o meio mais seguro de todos para a protecção da humanidade."
Vamos, então, explorar este objectivo primordial — a paz e a segurança da humanidade — tanto de uma perspectiva filosófica como religiosa, e examinar os notáveis paralelismos entre elas.
A visão do futuro, segundo Kant
As guerras sangrentas fizeram parte de todas as épocas. Em contraste, na sua obra "A Paz Perpétua" (1795), Kant desenvolveu a ideia da "união civil perfeita da espécie humana" numa república mundial federal.
Kant baseou a sua receita para a paz não apenas na confiança na bondade das pessoas ou mesmo na providência divina, mas unicamente na razão e na lei. Segundo Kant, a razão é um dom comum a todos, enquanto a religião — nas suas palavras, “eclesiástica” — servia os interesses dos poderosos. A razão e a lei, afirmava a filosofia de Kant, podiam dar três passos em direcção a um mundo pacífico:
- Para Kant, o primeiro passo deveria ser a garantia dos direitos de cidadania entre um povo. Os Estados-nação emergentes do século XIX já estavam a caminhar nesse sentido com as suas constituições.
- Num segundo momento, Kant afirmou que os litígios entre Estados deveriam ser regulados pelo direito internacional. Isto foi conseguido inicialmente, mas apenas de forma breve e parcial, com a Sociedade das Nações após a catástrofe da Primeira Guerra Mundial, que teve origem na Europa.
- O terceiro passo de Kant recomendava uma “cidadania mundial” em que todos seriam “… cidadãos de um Estado humano geral”. Nesta comunidade global, afirmava que um “poder legislativo, governamental e judicial supremo” garantiria que os conflitos pudessem ser resolvidos de forma não violenta, com cada nação a aderir voluntariamente a uma república mundial federal. O direito soberano do mais forte seria então finalmente substituído por uma lei baseada na razão e, portanto, universalmente válida.
Após a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento das Nações Unidas e a sua "Declaração Universal dos Direitos Humanos" os direitos do indivíduo começaram a alargar-se para além das fronteiras nacionais.
É claro que a época de Kant não foi de todo propícia às suas ideias avançadas. A reputação de Kant, e de outros que pensavam como ele, cedo se dissipou no meio do caos da Revolução Americana de 1776 e da Revolução Francesa de 1789, seguidas pelas sangrentas rivalidades dos emergentes Estados-nação europeus. Iniciava-se uma era global de soberanias nacionais.
Meio século depois, o poeta alemão Heinrich Heine, romântico e de espírito rebelde, também se preocupava com o bem-estar na Terra no seu poema provocador de 1844: “… Queremos estabelecer o reino dos céus aqui na Terra… Deixamos o céu para os anjos e os pardais.” Heine morreu exilado em França em 1856, odiado por alemães nacionalistas e anti-semitas.
Nem mesmo o “filósofo do declínio”, Friedrich Nietzsche, se contentava com a tradicional consolação das religiões relativamente a uma vida melhor depois da morte. Os poetas e filósofos do seu tempo fortaleceram a vontade de “progresso na Terra”, exigida pelo Iluminismo e pela industrialização. Entretanto, as ideologias do nacionalismo, do imperialismo e o crescente materialismo impulsionavam o desenvolvimento da civilização. As ideias religiosas tradicionais adaptaram-se a esta tendência ou resistiram-lhe.
A visão de futuro, segundo Bahá’u’lláh: O momento é oportuno.
De certa forma, o mundo parece estar actualmente a caminhar no sentido oposto às ideias de Kant sobre uma nova ordem: os sucessos no combate às alterações climáticas globais estão a ser bloqueados por interesses nacionais; o pensamento sobre a segurança global e a ideia de paz mundial são frequentemente subjugados pela geopolítica.
Mas qualquer pessoa que tenha assistido recentemente ao filme vencedor de um Óscar “Oppenheimer” compreende que as armas nucleares mudaram fundamentalmente o nosso mundo. Mesmo que se fale apenas das chamadas “armas nucleares tácticas”, que soam triviais, mas não o são, o potencial para a utilização de armas nucleares é mais perigoso do que nunca num mundo armado até aos dentes e a fervilhar com tensões cada vez maiores. Isto significa que a visão de Kant da paz mundial numa “república mundial federal” habitada por cidadãos globais já não é um mero devaneio filosófico — tornou-se um imperativo, absolutamente necessário e inevitável como o próximo passo na evolução humana.
As Escrituras Bahá’ís consideram a paz uma etapa futura inevitável, do interesse de toda a humanidade, e apresentam à humanidade um caminho para o estabelecimento de uma ordem mundial pacífica. Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, reiterou os ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre a unidade humana global, alertando o mundo contra o apego a Estados-nação soberanos e invioláveis:
A unificação de toda a humanidade é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e da nação foram sucessivamente tentadas e completamente conseguidas. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade perturbada se encaminha. A construção das nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado caminha em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida. (The World Order of Bahá'u'lláh, p. 202)
Nos ensinamentos Bahá’ís, o foco no futuro deste mundo pode parecer estranho para muitos, dado que a ideia de uma ordem governamental global é um conceito novo na história da religião. Mas é uma resposta, na linguagem do Iluminismo, à há muito esperada emancipação da razão humana da compreensão tradicional da religião pela Igreja. A verdade não pode ser encontrada através da tradição; depende da razão, e além disso, depende da palavra revelada. Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que:
A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas. Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que a integram, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos. (The World Order of Bahá’u’lláh, p. 203)
Uma compreensão tão precisa de uma ordem mundial que abrange a humanidade como um todo pode soar invulgar para uma religião. No entanto, as Escrituras Bahá’ís afirmam que as pessoas não têm apenas necessidades materiais — em vez disso, a nossa natureza espiritual, que inclui a razão, serve como tarefa central da humanidade, mantendo o equilíbrio entre os mundos material e espiritual. Para termos paz, devemos concentrar a nossa atenção em ambos. Portanto, não foi a razão que nos falhou. O mundo está agora mais preparado do que nunca para a visão kantiana da paz mundial dentro da estrutura de uma república mundial federal. Para isso, deve ser restabelecido o equilíbrio entre as duas asas do "pássaro da humanidade" — fé e razão, religião e ciência. Só assim o ensinamento primordial de Bahá'u'lláh — "A Terra é um só país, e a humanidade, os seus cidadãos" — poderá tornar-se realidade.
Uma versão anterior deste artigo foi originalmente publicada em alemão aqui: https://www.perspektivenwechsel-blog.de/bahai-artikel/kant-prophet-vernunft-2
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Texto original: Kant and the Baha’i View: A World Republic for Global Citizens (www.bahaiteachings.org)
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Ingo Hofmann estudou física em Munique e trabalhou em investigação e como professor universitário na região de Frankfurt durante mais de três décadas. É pai de quatro filhos e vive em Potsdam, Brandemburgo, há vários anos.






