sábado, 13 de agosto de 2022

O que faria Cristo no lugar de Muhammad?

Por Tom Tai-Seale.


Se os exércitos romanos tivessem atacado os primeiros cristãos, com o objectivo de destruir cada um deles, o que teria feito Cristo? Teria “oferecido a outra face” ou defendido o Seu rebanho inocente?

Os ensinamentos Bahá'ís têm uma resposta fascinante para este cenário. 'Abdu'l-Bahá colocou essa importante questão no seu livro Respostas a Algumas Perguntas, e chegou a uma conclusão fascinante:

Devemos considerar com equidade o seguinte: Se o próprio Cristo tivesse sido colocado em circunstâncias semelhantes entre essas tribos bárbaras e sem lei; se durante treze anos Ele e os Seus discípulos suportassem pacientemente todo tipo de crueldade às suas mãos; se eles fossem forçados devido a essa opressão a abandonar a sua terra natal e ir para o deserto; e se essas tribos sem lei ainda continuassem a persegui-los com o objetivo de massacrar os homens, saquear os seus bens e raptar suas mulheres e filhos – como é que Cristo teria lidado com eles?

É claro que, 'Abdu'l-Bahá aqui está a referir-Se à perseguição e guerra genocida enfrentada não por Cristo, mas por Muhammad. Para aqueles que consideram o Islão uma “religião violenta”, os ensinamentos Bahá'ís perguntam: “O que teria feito Cristo na situação de Muhammad?” Na Sua resposta, 'Abdu'l-Bahá disse:

Se essa opressão fosse dirigida apenas a [Cristo], Ele tê-los-ia perdoado, e esse acto de perdão teria sido muito aceitável e louvável; mas se Ele tivesse visto que assassinos cruéis e sanguinários tinham a intenção de matar, pilhar e atormentar um grande número de almas indefesas e capturar mulheres e crianças, é certo que Ele teria defendido os oprimidos e detido a mão dos opressores.

Que objecção, pois, podemos levantar a Muhammad? (…) Se Cristo tivesse sido colocado em circunstâncias semelhantes, Ele sem dúvida teria libertado, através de um poder conquistador, aqueles homens, mulheres e crianças das garras daqueles lobos ferozes.

Claro, já conhecemos sabemos que a violência defensiva desse tipo, contra um inimigo implacável determinado a destruir, é comum na Bíblia e em toda a história humana.

Basta recordar a conquista judaica de Canaã, onde a Bíblia relata que em Hesbom os Judeus lutaram contra os Amorreus e após a batalha, Moisés diz (em Deuteronómio 2:34) aos combatentes Judeus que “tomamos todas as suas cidades e a cada uma destruímos com os seus homens, mulheres e crianças; não deixamos sobrevivente algum”. Este é o mesmo Deus que enviou Muhammad para lutar contra os idólatras de Meca que queriam aniquilar o Islão, mas desta vez a retribuição foi mais limitada: mulheres e crianças geralmente eram poupadas nos ataques muçulmanos.

Pode todo um povo ou um país oferecer a outra face?


Para começar: não há conselho de Jesus que diga aos líderes de comunidades de Fé que devam oferecer a outra face quando os seus inimigos tentam eliminar as suas comunidades. Essa regra só se aplica a indivíduos agreidos. Nenhum governante Cristão permitiu alguma vez que o seu povo fosse triturado pelo agressor; nem deveriam. Em vez disso, os governantes Cristãos, como todos os governantes, têm o dever de proteger os que estão sob os seus cuidados.

Hoje, na Ucrânia, estamos a ver isso a acontecer.

Pois foi precisamente isso que Muhammad fez. Na Arábia, Ele fez ataques preventivos contra Meca para proteger a sua comunidade contra os próximos ataques de um inimigo muito mais poderoso e implacável. Isso deve soar familiar para nós, mas não nos dá licença para realizar uma intervenção violenta sem mais nem menos. Quando não há profeta para nos guiar, a opção pela violência deve ser o último recurso e deve ser considerada à luz do argumento moral.

Os ensinamentos Bahá'ís também nos oferecem uma resposta a essa desconcertante pergunta moderna. Bahá'u'lláh apelou ao estabelecimento de uma comunidade mundial, concebida para criar um parlamento global democraticamente eleito com poderes para parar todas as guerras:

A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas. Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que a integram, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos. Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial. Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal.

Esta notável descrição surge no livro “A Ordem Mundial de Bahá’u’lláh”, um livro de Shoghi Effendi publicado em 1938, onde se delineia a visão Bahá’í do futuro pacífico do planeta. Nela, o Guardião da Fé Bahá’í estabelece claramente a arquitectura e a evolução de uma humanidade unida, antecipada por Bahá’u’lláh que virá pôr um fim à violência do passado.

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Texto Original: What Would Christ Have Done in Muhammad’s Situation? (www.bahaiteachings.org)


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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 6 de agosto de 2022

Qual a diferença entre Crime de Guerra e Genocídio?

Por David Langness.


A guerra entre Rússia e Ucrânia tem gerado muitas acusações de “crimes de guerra” e até de “genocídio”. Mas, do ponto de vista legal, o que é um crime de guerra? Quem os comete? Como é que esses crimes são julgados e punidos?

Mais importante: e se a própria guerra fosse um crime, punível pelo mundo inteiro?

Compreender as respostas a estas perguntas cruciais pode ajudar-nos a desenvolver uma nova forma de pensar sobre a natureza destrutiva da guerra contemporânea – e como pará-la. Então, vamos olhar brevemente para a história do conceito de crimes de guerra e ver se podemos entender como ele surgiu e o que significa hoje.

O que faz da guerra uma actividade criminosa?


A Primeira Guerra Mundial foi um choque para humanidade. Todas as guerras anteriores foram geograficamente limitadas; a maioria tinha sido combatidas sem armas tecnologicamente avançadas; limitavam-se aos movimentos de tropas no terreno; e não provocavam muito menos baixas. Na Primeira Guerra Mundial, com a guerra brutal das trincheiras, mais de 15 milhões de pessoas morreram – um número que era o maior de qualquer guerra moderna na história da humanidade até então.

A consciência do mundo, estupefacta pelo enorme custo da guerra em sangue e riquezas, impeliu muitas pessoas a tentar implementar medidas que evitassem que uma carnificina semelhante voltasse a acontecer. Uma dessas medidas importantes – um movimento internacional que pretendia declarar a própria guerra como um crime contra a humanidade – veio originalmente de um russo, um jurista e criminologista soviético chamado Aron Naumovich Trainin, que começou seu activismo como um jovem estudante universitário trabalhando para reformar o regime czarista após o fracasso da Revolução Russa de 1905. Editor do jornal judaico “Novo Rumo” e professor universitário, a influência de Trainin cresceu após a Primeira Guerra Mundial devido à sua crítica pública à Liga das Nações - a primeira tentativa mundial de um órgão governamental internacional - por não fazer o suficiente para processar nações e os líderes de nações que iniciaram guerras.

No seu livro de 1937, A Defesa da Paz e da Lei Criminal, Trainin tornou-se o primeiro investigador do direito a definir a guerra agressiva como uma ofensa criminal contra a própria humanidade e a defender um sistema de justiça internacional para punir os agressores.

Trainin foi, sem dúvida, influenciado pelo icónico romancista e actor russo Leo Tolstoy, que lutou pelo lado russo na Guerra da Crimeia e, horrorizado com as baixas civis desnecessárias que testemunhou, tornou-se um lendário defensor do pacifismo, um opositor convicto da guerra e a maior influência no activismo não-violento de Mahatma Gandhi. Ninguém sabe, mas talvez Trainin também tenha sentido a influência das Escrituras de Bahá'u'lláh, que aconselhou todos no seu Sagrado Livro a "Temer a Deus e não se unir ao agressor". Ou talvez Trainin tenha, de alguma forma, absorvido os ensinamentos Bahá'ís do sucessor de Bahá'u'lláh, 'Abdu'l-Bahá, que definiu a guerra como um crime contra a humanidade no início da Primeira Guerra Mundial, mais de duas décadas antes de Trainin. Neste excerto de uma carta de 1914 que escreveu à autora e actriz Bahá'í britânica Beatrice Irwin, 'Abdu'l-Bahá definiu claramente a guerra como um crime:

A guerra destrói os alicerces da humanidade; matar é um crime imperdoável contra Deus, pois o homem é um edifício construído pela Mão do Omnipotente. A paz é a vida encarnada; a guerra é a morte personificada. A paz é o espírito divino; guerra é a sugestão satânica. A paz é a luz do mundo; a guerra é escuridão sombria... Todos os grandes profetas, filósofos antigos e Livros celestiais foram os precursores da Paz e advertiram contra a guerra e a discórdia. Este é o alicerce divino; este é a efusão Celestial; esta é a base de todas as religiões de Deus...

Em resumo, o tópico a esclarecer é o seguinte: Sua Santidade Bahá'u'lláh, há quase cinquenta anos, alertou as nações contra a ocorrência deste "Grande Perigo". Apesar dos males da guerra serem evidentes e manifestos para os sábios e eruditos, estes são agora claros e evidentes para todas as pessoas. Nenhuma pessoa sã pode, neste momento, negar o facto de a guerra ser a calamidade mais terrível no mundo da humanidade, que a guerra destrói o alicerce divino, que a guerra é a causa da morte eterna, que a guerra conduz à destruição de vastas populações e cidades desenvolvidas, que a guerra é o fogo que consome o mundo, e que a guerra é a catástrofe mais ruinosa e a adversidade mais deplorável...

Os resultados deste crime cometido contra a humanidade são piores do que eu possa dizer e nunca poderão ser adequadamente descritos pela pena ou pela língua.

Historicamente, isso representa algo inteiramente novo. Todo o conceito de guerra como um crime contra a humanidade – e de actos violentos hediondos e imorais cometidos durante a guerra sendo rotulados como “crimes de guerra” – só surgiu durante os últimos dois séculos. A ideia remonta a dois desenvolvimentos cruciais do século XIX: o advento da moderna guerra entre vários estados, juntamente com a repugnância e a resistência que ela produziu; e o advento da Fé Bahá'í, cujo fundador Bahá'u'lláh advertiu formalmente os reis e governantes do mundo, por escrito, a desarmarem-se, e a consultarem juntos e, segundo as palavras do Seu sucessor 'Abdu'l-Bahá, a aceitarem a nova lei espiritual Bahá'í:

Um Supremo Tribunal será eleito pelos povos e governos de cada nação, onde os membros de cada país e governo se reunirão em unidade. Todos os litígios serão levados a este Tribunal, cuja missão é impedir a guerra.

Demorou algum tempo para que a influência destes ensinamentos espirituais chegasse à jurisprudência internacional; mas aconteceu após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, quando ocorreu o primeiro julgamento global real de criminosos de guerra.

Os Julgamentos de Nuremberga e o Crime de Agressão


O novo conceito de guerra como actividade criminosa teve o seu primeiro teste no tribunal de Nuremberga, na Alemanha, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando o Tribunal Militar Internacional (TMI) julgou 21 líderes nazis sobreviventes juntamente com seis organizações alemãs, incluindo as SS e a Gestapo. (Os três principais líderes nazis – Adolfo Hitler, Heinrich Himmler e Joseph Goebbels – cometeram suicídio e evitaram a justiça do pós-guerra e os julgamentos de Nuremberga.)

O TMI acusou os réus de “crime de agressão” – definido como planear, maquinar e empreender uma guerra agressiva. A definição legal que sustentou os Julgamentos de Nuremberga veio directamente do trabalho de Aron Trainin. Quando o julgamento terminou, as sentenças de culpa contra os nazis afirmavam:

Iniciar uma guerra de agressão, portanto, não é apenas um crime internacional; é o crime internacional supremo, apenas diferindo dos outros crimes de guerra por conter em si o mal acumulado do todo.

Esta definição está em consonância com a mensagem da Casa Universal de Justiça sobre o assunto na sua declaração A Promessa de Paz Mundial:

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção sobre a Prevenção e a Punição dos Crimes de Genocídio, e outros instrumentos semelhantes relacionados com a eliminação de todas as formas de discriminação baseadas na raça, no sexo ou na crença religiosa; a defesa dos direitos da criança; a protecção de todas as pessoas contra a sujeição à tortura; a erradicação da fome e da má nutrição; a utilização do progresso científico e tecnológico em prol da paz e em benefício da humanidade - todas estas medidas, se corajosamente postas em prática e ampliadas, adiantarão a chegada do dia em que o espectro da guerra terá perdido a sua capacidade de dominar as relações internacionais.

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Texto original: What’s the Difference Between a War Crime and Genocide? (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 30 de julho de 2022

Nascimento Espiritual: o que significa Nascer de Novo

Por V. M. Gopaul.


Uma coisa é certa: todos os seres humanos chegam a este mundo num corpo nu e frágil. Após este nascimento físico, um recém-nascido precisa desesperadamente dos outros para sobreviver.

Felizmente, existe geralmente uma ajuda que acompanha o recém-chegado, que o auxilia no seu desenvolvimento físico, emocional e intelectual, que lhe permite ser educado, atingir a autossuficiência e tornar-se um membro produtivo da sociedade. Então, depois de uma vida neste plano de existência, surge a morte, por vezes inesperadamente. Esse ciclo da vida aplica-se a todos nós.

Mas existe um outro tipo de nascimento

De todas as religiões, o Cristianismo enfatiza particularmente este segundo nascimento. Segundo João, Jesus disse: “A menos que um homem nasça de novo, ele não pode ver o Reino de Deus.” Jesus também disse: “O que nasce da carne é carne; e o que nasce do Espírito é espírito”. Estas afirmações sugerem que cada ser humano tem duas realidades: a física e a espiritual. Através do nosso nascimento físico entramos neste mundo temporal, mas para ter acesso a uma realidade mais eterna, à existência que as diferentes religiões chamam de reino de Deus, precisamos passar por um nascimento espiritual.

Os ensinamentos Bahá'ís dizem que o Reino de Deus se refere a um mundo que está para lá da realidade física. Numa palestra em Nova Iorque, em 1912, ‘Abdu'l-Bahá disse: “Portanto, neste mundo ele [o ser humano] deve preparar-se para a vida além. O que ele precisa no mundo do Reino deve ser obtido aqui.

Todos nós precisamos vivenciar essa transformação básica para nos prepararmos para o próximo mundo, assim como no útero somos transformados de uma única célula numa criança, num processo de preparação para este mundo.

Nascer espiritualmente implica ganhar consciência de que a nossa existência não é apenas física. Aqueles que vivenciaram esta dimensão espiritual entendem que a sua existência é altamente valorizada quando vivem de acordo com as leis espirituais, e não apenas pelos ditames dos impulsos físicos e sociais. O ponto mais alto desta consciência reconhece que um Ser supremo – chamado Deus ou Alá ou Yahweh – criou o universo. Quando ocorre um renascimento, o nosso espírito interior deve desenvolver um relacionamento com esse Poder Supremo para se desenvolver e crescer.

O nascimento físico acontece naturalmente. Ninguém pede a nossa autorização. São-nos atribuídos progenitores. A cor da pele, a formação religiosa (ou a falta dela) e o seu país de origem são-nos impostos. E a tudo isto juntam-se muitas outras características boas e não tão boas. Temos de trabalhar com aquilo que temos.

Mas sobre o nascimento espiritual, isso é algo que já temos algum controlo. Alguns de nós tornam-se conscientes da nossa existência espiritual em tenra idade, e alguns morrem como ateus. Mas para beneficiarmos de tudo o que uma vida espiritual tem para oferecer, temos que assumir um firme compromisso com o nosso progresso espiritual.

Sobre o conceito de renascimento, 'Abdu'l-Bahá apresenta uma bela explicação no livro Respostas a Algumas Perguntas:

As recompensas existenciais consistem em virtudes e perfeições que adornam a realidade humana. Por exemplo, o homem estava imerso nas trevas e torna-se luminoso; ele era ignorante e fica esclarecido; ele era negligente e torna-se consciente; ele estava adormecido e fica acordado; ele estava morto e é vivificado; ele estava cego e começa a ver; ele era surdo e começa a ouvir; ele era mundano e torna-se celestial; ele era material e torna-se espiritual. Através destas recompensas ele renasce em espírito, é criado de novo e torna-se a manifestação do versículo do Evangelho que diz que os Apóstolos “não nasceram do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” – isto é, eles foram libertados das características e qualidades animais que são inerentes à natureza humana, e adquiriram atributos divinos, que são a graça emanada de Deus. Este é o verdadeiro significado de nascer de novo.

O que fazer com este conhecimento? Ele pode tornar a vida numa experiência maravilhosa. Com ele, pode-se atravessar as ondas das dificuldades que a vida nos lança. Dá sentido à existência para lá do reino físico. Ajuda-nos a reconhecer que quando morremos, a vida não acaba; em vez disso, continua por toda a eternidade. Sem esse entendimento, a vida é apenas o aqui e agora.

Encontrar Deus é uma caminhada pessoal, e as nossas experiências ao longo desta caminhada são tão únicas quanto nós. Por exemplo, uma amiga minha em Alberta, Canadá, estava a olhar para uma paisagem majestosa quando de repente percebeu que um Poder Supremo devia ter criado tudo o que ela estava a ver. Este foi o seu momento de despertar. Ela investigou muitas religiões e acabou por se tornar Bahá'í.

A minha própria experiência foi diferente. Aos quinze anos, concluí que Deus não existia. Alguns anos depois, encontrei a Fé Bahá'í, embora na época eu estivesse muito pouco interessado por religião. Em 1969, fui da minha terra natal, ilha Maurício, para o Paquistão, para estudar. Em Karachi, contactei os Bahá'ís, que foram amigáveis e acolhedores. Nove meses depois, quando decidi deixar o Paquistão e ir para a Europa por estrada, um Bahá'í sugeriu que eu entrasse em contacto com os Bahá'ís durante a viagem. Parecia uma boa ideia e aceitei imediatamente. Durante as minhas viagens pela Europa, estive sempre em contacto com os Bahá'ís, participando em actividades sempre que possível. Em 1971, cheguei a Toronto e percebi que fazia parte dessa religião – mas ainda não acreditava em Deus.

Sabendo que a religião é fundamentalmente sobre um relacionamento entre a alma e Deus, senti-me hipócrita ao dizer que era Bahá'í. Assim que percebi isso, comecei a procurar Deus. Após alguns meses de reflexão, cheguei à mesma conclusão de quando tinha quinze anos: Deus não existe. Fiquei desanimado e perguntei-me se tinha feito algo errado. Então veio a resposta. Eu estava a usar a minha mente para me satisfazer logicamente sobre a existência de um Ser espiritual. Foi só mais tarde, numa reunião devocional, é que a minha abordagem mudou. Comecei a usar o meu coração para sentir a presença do Todo-Poderoso. Com fé, tive que dar o primeiro passo e uma consciência espiritual começou gradualmente a nascer em mim.

Essas duas histórias mostram que é mais fácil chamar a assistência divina do que ligar para um número telefónico de emergência médica. No Alcorão, está dito: “E quem se esforçar por Nós, nos Nossos caminhos Nós os guiaremos: porque Deus está seguramente com aqueles que fazem actos justos.

Durante este segundo nascimento, acontece algo ainda mais profundo do que o despertar inicial: o Espírito Santo, um sinal que avisa a alma sobre uma existência superior, toca a sua alma. Este é o momento em que começa uma verdadeira vida espiritual. Com essa interacção directa entre uma alma cheia de boa vontade e o Espírito Santo, começa uma nova caminhada para ver e reflectir a Beleza de Deus.

Para os primeiros Bahá’ís, Bahá’u’lláh disse:

(...) sois os primeiros entre os homens a serem recriados pelo Seu Espírito, os primeiros a adorar e ajoelhar-se diante Dele, os primeiros a circular ao redor do Seu trono de glória. Juro por Aquele que me fez revelar tudo o que Lhe apraz! Sois mais conhecidos pelos habitantes do Reino no alto do que por vós próprios. (Gleanings, CXLVII)

Para quem experimentou um nascimento espiritual, a vida eleva-se a um plano superior de existência. Mas o momento mais glorioso desta caminhada é quando o Espírito Santo - o mais elevado de todos os espíritos da criação - toca a alma. Nesta fase, a alma é recriada e vive num relacionamento íntimo com Deus. Assim como muitos estão prontos para ajudar um recém-nascido, também o reino espiritual aguarda para vir em auxílio de uma alma que busca, bastando apenas que ela peça.

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Texto Original: Spiritual Birth: What Being Born Again Really Means (www.bahaiteachings.org)


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Gopaul é especialista em software e bases de dados, tendo escrito vários livros para profissionais de TI. É casado, pai de duas crianças, e vive no Canadá. Para mais informação ver: www.vmgopaul.com.

sábado, 23 de julho de 2022

Um Guia para ler o livro A Presença de Deus

Por Michael Day.
 


Com uma guerra muito intensa, uma pandemia assustadora, caos climático e democracias em discórdia, precisamos de protecção para não sucumbir à ansiedade ou ao desespero.

Um poderoso preventivo – ou antídoto – é passar o tempo com o livro A Presença de Deus,[1] que Shoghi Effendi escreveu nos dias perigosos da Segunda Guerra Mundial.

Aqui está um guia para o leitor da “maior obra épica do milénio”.[2]

O que é o livro A Presença de Deus?

Publicado em 1944, o livro é a única narrativa completa escrita por Shoghi Effendi, facto que comprova a importância que ele atribuía ao seu conteúdo.

Trata-se de um levantamento histórico dos primeiros 100 anos da Fé Bahá'í. Os seus 25 capítulos cobrem os Ministérios do Báb, Bahá'u'lláh e ‘Abdu’l-Bahá, e ainda os primeiros 23 anos da Era Formativa da Fé.

Quem escolheu o título?

Ao pedido de Shoghi Effendi para sugerir um título, o seu conselheiro editorial de longa data, George Townshend, da Irlanda (nomeado Mão da Causa, em 1951), respondeu num telegrama com três palavras: “God Passes By” (em português foi adoptado o título “A Presença de Deus”). O Guardião respondeu: “Título Encantador”. Este título pode ser visto como uma referência poética à revelação progressiva.

É um livro grande?

É uma obra exaustiva, mas não é extraordinariamente longa.

Como escreveu o Sr. Ali Nakhjavani na sua excelente descrição [3], tem 412 páginas, das quais 41 páginas são citações de Escrituras Sagradas e de outras pessoas.

Possui três seções autónomas úteis: um prefácio e “retrospectiva e perspectiva” por Shoghi Effendi, e uma introdução do Sr. Townshend.

Qual o objectivo de Shoghi Effendi ao escrever este livro?

O Guardião disse que o seu objetivo não era escrever uma história detalhada, mas sim um levantamento dos eventos importantes ligados ao nascimento e ascensão da Fé Bahá'í e do seu sistema administrativo.

Também afirmou que pretendia mostrar como desastres e outros insucessos muitas vezes se tornaram um prelúdio para novos e estimulantes triunfos que consolidaram conquistas passadas.

E porque não podemos ler apenas resumos?

Os resumos são úteis, e estamos habituados a lê-los; mas este livro detalhado apresenta relatos e perspectivas extensas que criam as bases de um entendimento profundo que alimentam a nossa inspiração e firmeza.

E que efeito pode ter em nós?

Os Bahá'ís estão agora ser chamados em envolverem-se em processos de reconstrução da sociedade; isto é extremamente importante num mundo que enfrenta desafios, não tem confiança, nem esperança.

O livro “A Presença de Deus” vai despertar, inspirar e confirmar a crença na promessa de Bahá'u'lláh de que uma idade de ouro aguarda a humanidade quando ela estiver unida na forma de uma sociedade baseada na justiça e no amor.

Também nos apresenta modelos – os nossos nobres antecessores dos primeiros 100 anos e o exemplo derradeiro, ‘Abdu'l-Bahá, que o autor conhecia tão bem.

Há também algo intrinsecamente agradável na leitura deste livro, algo bastante misterioso. Isso pode fortalecer ainda mais nossos laços emocionais e intelectuais com a Fé Bahá'í.

O livro aborda os acontecimentos actuais?

O leitor perceberá a relevância da prescrição para a paz apresentada por Bahá'u'lláh - uma sociedade global unida - que evitaria guerras, pandemias e emergências climáticas.

Há outra razão também, como assinalou a Mão da Causa Ugo Giachery:

Conhecer a obra literária de Shoghi Effendi é conhecê-lo e amá-lo, penetrar profundamente na descoberta da sua personalidade e do mundo de realidade em que ele viveu. [4]

Como é que Shoghi Effendi o escreveu?

Shoghi Effendi
Ele leu e pesquisou cerca de 200 livros que incluíam referências à Fé Bahá'í, escritos por Bahá'ís e por outros autores. Ele tinha uma memória “inesgotável”, disse Amatu'l-Baha Ruhiyyih Khanum, e assim, sem dúvida, foi capaz de reunir a informação e as perspectivas com valor que lhe foram dadas por 'Abdu'l-Bahá.

Frequentemente, Shoghi Effendi lia as suas frases em voz alta enquanto as escrevia e alterava-as se considerasse necessário. Ele escrevia à mão em pequenos blocos e depois dactilografava o texto; posteriormente, acrescentava acentuação e sinais gráficos.

Durante dois anos, ele trabalhou cerca de 10 horas por dia no manuscrito para cumprir o prazo do aniversário de 1944; tinha os olhos cansados e avermelhados, as costas doridas de exaustão e estava ciente de que – além do livro - precisava ainda de trabalhar no projecto de desenvolvimento do Santuário do Báb e responder à enorme quantidade de correspondência que recebia regularmente.

Qual é a melhor maneira de o ler?

Eu recomendo que leiam o livro da mesma forma que comem um bolo de frutas: uma fatia de cada vez, com tempo para digerir lentamente cada pedaço.

É melhor não ter pressa para chegar ao fim do livro.

Leiam um capítulo de cada vez. A maioria tem menos de 20 páginas. Vejam o índice que explica brevemente o conteúdo de cada capítulo.

O Guardião era um especialista em resumir informações. Cada capítulo é rico em factos e análises, e algumas linhas podem ser fascinantes se as lermos com calma.

Existem frases longas que, se destacadas, podem ser lidas linha a linha, surpreendendo-nos com a sua beleza e visão. Sugiro que as leiam em voz alta.

Mas é um livro difícil de ler?

Não é difícil, se o lermos devagar. No entanto, é um livro com alguns desafios, e por isso oferece-nos o bónus da formação gratuita. Ruhiyyih Khanum disse que Shoghi Effendi estabeleceu um padrão que “educa e eleva o nível cultural” dos leitores ao mesmo tempo em que alimenta as suas “mentes e almas com pensamentos e verdade”.

Como é que os historiadores Baha’is vêem o livro?

A descrição “Mãe” de futuras histórias – feita por Ruhiyyih Khaum, no seu livro The Priceless Pearl [5] – dá-nos uma ideia do seu valor para os historiadores Bahá’ís.

Ela afirmou, e os historiadores Bahá’ís certamente concordarão, que o livro é:

...uma verdadeira essência das essências; destes cem anos de história única, podiam-se facilmente escrever cinquenta livros e nenhum deles seria superficial ou fraco de conteúdo, tão rica é a fonte fornecida pelo Guardião, tão condensado o tratamento que ele lhe deu.

Como é que os autores Bahá’ís vêem Shoghi Effendi como escritor?

Esta citação de Ugo Giachery diz tudo:

Ele abordou um assunto intangível de uma maneira que nenhum outro escritor conseguiria abordar, por falta da estatura espiritual que ele possuía. A sua pena perscrutou os mais remotos atalhos dos sentimentos humanos, trazendo lágrimas aos olhos e prendendo o coração com uma variedade de novas emoções.[6]

Existe alguma boa descrição do livro?

George Townshend escreveu de forma eloquente na sua introdução que o livro é:

...uma história plena de amor, felicidade, visão e força, narrando os triunfos conseguidos e triunfos mais amplos que ainda estão por alcançar; e o que quer que ele contenha de tragédia sombria, deixa a humanidade, no seu final, não enfrentando um futuro sombrio e inóspito, mas saindo da estrada de sombras de densidade inevitável em direcção aos portões abertos da Cidade Prometida da Paz Eterna.

Como é Shoghi Effendi via a história do primeiro século da Fé Bahá’í?

Ele escreveu sobre um “drama indivisível, fantástico e sublime, cujo mistério nenhum intelecto pode sondar, cujo clímax nenhuns olhos podem discernir, mesmo que vagamente, cuja conclusão nenhuma mente pode prever adequadamente”.

Quem é a figura central do livro?

Townshend escreveu: “A narrativa gira em torno de uma majestosa Figura solitária, e a sua motivação que a anima é o amor infinito transcendente que Ele tem por toda a humanidade e o amor que Ele faz emanar dos corações dos fiéis”.

Além disso, as descrições do Mestre são brilhantes. Veja-se o capítulo XIX, por exemplo.

O que diz o autor sobre ele próprio como Guardião?

Demonstrando um nível surpreendente de humildade, Shoghi Effendi não escreveu quase nada sobre si próprio em A Presença de Deus. No prefácio, ele escreveu brevemente sobre o seu objectivo ao escrever o livro, mas no próprio texto há apenas uma breve menção à instituição da Guardiania na lista das disposições da Vontade e Testamento do Mestre.

Existe alguma edição em persa?

Depois de concluir a edição em inglês de A Presença de Deus, Shoghi Effendi escreveu uma “epístola” de 100 páginas em persa sobre o mesmo assunto, uma obra-prima. Ruhiyyih Khanum disse: “Eu ouvia a sua voz entoando a sua composição para si próprio enquanto escrevia, infinitamente doloroso, infinitamente bonito”.

Que exemplos mostram a excelente qualidade da escrita?

Há duas frases na primeira página do capítulo de abertura que dão uma ideia da qualidade da escrita:

Contemplamos, enquanto examinamos os episódios deste primeiro acto de um drama sublime, a figura do seu Herói Principal, o Báb, surgindo como um meteoro no horizonte de Shiraz, atravessando o céu sombrio da Pérsia, de sul a norte, desvanecendo-se com uma trágica rapidez, e perecendo numa explosão de glória. Vemos os Seus satélites, uma galáxia de heróis inebriados por Deus, surgirem no mesmo horizonte, irradiar a mesma luz incandescente, consumindo-se com a mesma rapidez e dando, por sua vez, um impulso adicional à velocidade cada vez mais acentuada da emergente Fé de Deus.

Que outros livros podem aumentar o nosso apreço pelo livro A Presença de Deus?

1.The Priceless Pearl por Ruhiyyih Rabbani
2. Shoghi Effendi: The Range and Power of His Pen por Ali Nakhjavani
3. Shoghi Effendi: Recollections por Ugo Giachery
4. A Celestial Burning: A Selective Study of the Writings of Shoghi Effendi por J. A. McLean


Onde posso ler o livro?

É possível ler o livro A Presença de Deus, na sua totalidade no site http://bahairesearch.com/ 

Também é possível adquirir um exemplar na Livraria Baha’i do Brasil: A Presença de Deus.

 Espero que aumente o seu interesse por esta história “plena de amor, felicidade, visão e força”.

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REFERÊNCIAS:
[1] Shoghi Effendi, God Passes By (1944), Wilmette, Il: Baha’i Publishing Trust, rev. ed. 1974
[2] Ugo Giachery, Shoghi Effendi: Recollections. Oxford: George Ronald, 1973, p. 37
[3] Ali Nakhjavani, Shoghi Effendi: The Range and Power of His Pen. Rome: Casa Editrice Baha’i. rev.ed. 2007
[4] Ugo Giachery, Shoghi Effendi: Recollections, p. 29
[5] Rabbani, Ruhiyyih. The Priceless Pearl. London: Baha’i Publishing Trust, 1969
[6] Giachery, Shoghi Effendi: Recollections, p. 31


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Texto Original: A User’s Guide to God Passes By (www.bahaiblog.net)

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Michael Day é autor de "Journey to a Mountain", "Coronation on Carmel" e "Sacred Stairway", uma triologia que descreve a história do Santuário do Báb, e também do livro de fotos “Queen of Carmel”, sobre o mesmo assunto. Foi jornalista em jornais diários na Austrália e na Nova Zelândia. Entre 2003 e 2006 foi editor do Baha’i World News Service no Centro Mundial Baha’i. Actualmente vive na Austrália e dedica-se à investigação e escrita da história Bahá’í.

sábado, 16 de julho de 2022

Os Russos também amam os seus Filhos

Por Badi Shams.
 

O conhecido músico Sting publicou um tema profundo intitulada “Russians” (Russos) durante os últimos anos da Guerra Fria, quando o nível de medo e ódio aos russos atingiu o auge.

A música de Sting recordava-nos gentilmente um facto fundamental de que, independentemente do país a que pertencemos ou ideologia política que seguimos, primeiramente somos seres humanos.

A letra da música diz-nos que todos temos as mesmas emoções humanas básicas, como o amor pelos nossos filhos:

Na Europa e na América há um sentimento crescente de histeria
Condicionado para responder a todas as ameaças
Nos discursos retóricos dos soviéticos
O senhor Khrushchev disse: “Vamos enterrar-vos”
Eu não apoio este ponto de vista
Seria fazer uma coisa tão ignorante
Se os russos também amam os seus filhos
Como posso salvar o meu pequeno filho do brinquedo mortal de Oppenheimer?


Não há um monopólio do bom senso
Em ambos os lados da divisória política
Partilhamos a mesma biologia, independentemente da ideologia
Acreditem quando vos digo
Espero que os russos também amem os seus filhos


Não há um precedente histórico
Em colocar palavras na boca do presidente
Não existe uma guerra que possa ser vencida
É uma mentira em que já não acreditamos

O senhor Reagan diz: Nós vamos proteger-vos
Eu não apoio este ponto de vista
Acreditem quando vos digo
Espero que os russos também amem os seus filhos

Partilhamos a mesma biologia, independentemente da ideologia
Mas o que pode nos salvar, a vocês e a mim,
É se os russos também amarem os seus filhos.


A letra desta música parece agora desactualizada, mas a mensagem permanece forte e clara. Leva-nos a facto universal: em toda a parte, os pais amam os seus filhos, preocupam-se com o seu futuro e temem perdê-los.

Nos dias passados da Guerra Fria, reinavam o medo, a paranóia e a desconfiança. Os demagogos alimentavam esses medos. Os americanos suspeitavam que outros americanos fossem espiões ou simpatizantes da União Soviética. Investigações governamentais fizeram com que muitos americanos perdessem os seus empregos na indústria das artes e do entretenimento, e alguns até foram presos.

Hoje, mais uma vez, os mesmos tipos de ódio e sentimentos negativos estão presentes no mundo – particularmente devido à guerra e destruição na Ucrânia.

Na comunicação social do Ocidente, a cobertura desta guerra devastadora parece abrangente e detalhada, especialmente nas suas reportagens de mortes e bombardeamentos. São relatadas muitas histórias de sofrimento dos ucranianos.

Infelizmente, no Ocidente não conseguimos ver os rostos dos que sofrem do outro lado – como a mãe e o pai do soldado russo morto, que nem sequer sabem onde está o corpo do filho. Esses soldados foram forçados a sair de casa para travar uma guerra que provavelmente não queriam e foram mortos, provocando um grande desgosto aos seus pais enlutados. A comunicação social ocidental não tem acesso a esses soldados ou aos seus pais para que possam partilhar a sua dor e agonia, e isso é uma tragédia porque “os russos também amam os seus filhos”.

Qualquer morte humana é uma tragédia. Não importa se eles são ucranianos, russos, americanos ou alemães – a selvageria da guerra tem que parar. Numa palestra que fez nos Estados Unidos em 1912, 'Abdu'l-Bahá disse-nos o motivo:

Durante milhares de anos homens e nações avançaram para o campo de batalha para resolver as suas diferenças. A causa disto tem sido a ignorância e a degeneração. Louvado seja Deus! Neste século radiante as mentes desenvolveram-se, os entendimentos tornaram-se mais profundos, os olhos ficaram iluminados e os ouvidos atentos. Por isso, será impossível que a guerra continue. Considerai a ignorância e a inconsistência do homem. Um homem que mata outro é punido com a execução, mas um génio militar que mata cem mil dos seus semelhantes é imortalizado como herói. Um homem rouba uma pequena quantia em dinheiro e é preso como ladrão. Um outro saqueia uma nação inteira e é homenageado como patriota e conquistador. Uma única falsidade é motivo de repreensão e censura, mas as artimanhas de políticos e diplomatas despertam a admiração e o elogio de uma nação. Considerai a ignorância e a inconsistência da humanidade. Quão sombrios e selvagens são os instintos da humanidade! (The Promulgation of Universal Peace, p. 288)

Quanto tempo mais a humanidade precisa para perceber que não há vitória para aqueles que perdem as suas vidas e cujas famílias sofrerão? Infelizmente, são principalmente os jovens, que têm toda a vida pela frente, que devem pagar o preço final em cada guerra.

Por quanto tempo mais glorificaremos as chacinas nas nossas psiques e nas nossas culturas através de músicas e filmes? Em vez disso, deveríamos colocar todas essas energias educando a humanidade sobre as maneiras de resolver disputas através do raciocínio e de métodos pacíficos. Ao mesmo tempo, podemos trabalhar para unir os nossos governos, para que consigam levantar-se contra os agressores e detê-los.

Nas Suas Escrituras, Bahá’u’lláh sugeriu o caminho que a humanidade deve seguir:

Virá o tempo em que a necessidade imperativa de realizar uma vasta e ampla assembleia de homens será universalmente percebida. Os governantes e reis da terra devem estar presentes e, participando nas suas deliberações, considerar as formas e os meios que estabelecerão as fundações da Grande Paz mundial entre os homens. Essa paz exige que as Grandes Potências resolvam, para bem da tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si. Se algum rei pegar em armas contra outro, todos se devem levantar unidos e impedi-lo. Se isto for feito, as nações do mundo não necessitarão de quaisquer armamentos, salvo com o propósito de salvaguardar a segurança dos seus reinos e de manter a ordem interna nos seus territórios. Isto garantirá a paz e a serenidade de todos os povos, governos e nações. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p.164)

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Texto original: Russians Love Their Children, Too (www.bahaiteachings.org)


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Badi Shams é um professor reformado que vive na ilha de Vancouver (Canadá). Tem um interesse especial pela área da economia, tendo publicado as obras "Economics of the Future" e mais recentemente "Economics of the Future Begins Today". O seu website sobre economia de inspiração Bahá’í é www.badishams.net.

sábado, 9 de julho de 2022

Porquê Celebrar o Martírio do Báb

Por Edward Price.
 

O Báb rejeitou constantemente os milagres como prova da verdade do Profeta de Deus. Mas o Báb fez mais do que isso. Ele proibiu os Seus seguidores de Lhe atribuírem qualquer milagre. E, portanto, o evento final na vida do Báb não é definido como um evento milagroso. No entanto, não há realmente nenhuma explicação plausível para isso. E, portanto, permanece um evento misterioso na história sagrada do mundo. (Dr. Nader Saiedi, Fevereiro de 2017, Los Angeles)

Ouvi pessoalmente o Dr. Saiedi fazer estes comentários e achei-os fascinantes no momento em que os ouvi. Ele enfatizou que o Martírio do Báb é um “evento misterioso”. Concordo. Mas fiquei a pensar: qual é a natureza desse mistério?

Estávamos no dia 9 de Julho de 1850, em Tabriz, na Pérsia. Naquela manhã, na prisão, o carcereiro foi buscar o Báb para cumprir a condenação à morte que os sacerdotes tinham decretado. O Báb estava a dar Suas últimas instruções ao Seu ajudante. O Báb disse:

Enquanto Eu não tiver dito todas as coisas que desejo dizer, nenhum poder terreno pode silenciar-Me. Mesmo que todo o mundo esteja armado contra Mim, serão incapazes para Me impedir de cumprir a Minha intenção, até à última palavra. (O Báb, citado por Nabil, traduzido por Shoghi Effendi, The Dawn-Breakers, p. 509)

Apesar disso, levaram-No.

Sam Khan, o comandante do regimento, responsável pela execução, estava preocupado. Sentia-se “tomado por grande medo de que sua acção lançasse sobre ele a ira de Deus”. Quando se aproximou do Báb, Ele disse-lhe:

"Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da vossa dificuldade." (O Bab, citado por Nabil, traduzido por Shoghi Effendi, The Dawn-Breakers, p. 510)

O processo de execução continuou. E como todos sabem, 750 soldados dispararam e quando o fumo se dissipou, o Báb não estava morto, caído no chão. Tinha desaparecido. O discípulo que ia ser executado com ele, Anis, estava ali, bastante saudável e sorrindo. Depois de uma busca frenética, o Báb foi encontrado na Sua cela, concluindo a conversa que tinha sido interrompida anteriormente.

Sam Khan viu que o Bab tinha escapado às balas; supomos que isso eliminou a sua “dificuldade”. Seguidamente, ordenou que os seus homens abandonassem o local, jurando nunca mais se envolver em actos que pudessem causar danos ao Báb. Outro regimento foi chamado, e o Báb foi novamente trazido. Na segunda vez, Bab e Anis foram mortos; os seus corpos ficaram unidos, mas os seus rostos estavam estranhamente sem marcas.

Praça de Tabriz onde o Báb foi martirizado

Assim, a primeira pergunta é se este “evento misterioso” realmente aconteceu? Sim, os relatos históricos são abundantes, fiáveis e notavelmente consistentes na característica central da história – a primeira salva de disparos não matou o Báb.

Mas, na verdade, este não é o ponto central. Se o Báb não queria que as pessoas Lhe atribuíssem milagres, porque é que Ele fez da última acção da Sua vida um milagre?

Porquê contrariar os Seus próprios ensinamentos e fazer tal coisa na presença de milhares de testemunhas, garantindo assim, para sempre, que este evento seria o que as pessoas falariam em relação a Ele? Para mim, isto é o mistério.

Devo dizer que ninguém sabe a resposta, mas tenho três ideias para apresentar. Estas são apenas as interpretações humanas; decida por si próprio se estas ideias têm algum mérito.

1. Dar alegria à alma


Por graça, amor e compaixão por Sam Khan - apenas um homem, a quem Ele evidentemente achou sincero – o Báb pôs de lado o Seu próprio ensinamento sobre milagres e realizou um diante da multidão, a fim de confortar essa alma e responder ao seu pedido.

Há quem remova as dificuldades a não ser Deus? Dize: Louvado seja Deus! Ele é Deus! Todos são Seus servos e todos aquiescem ao Seu mandamento! (Oração revelada pelo Báb, Selections from the Writings of the Báb, p. 216)

O facto do Báb ter escapado às balas foi, na minha opinião, uma resposta amorosa ao pedido de uma alma sincera, Sam Khan. O ensinamento do Báb era levar alegria, e não tristeza, a todas as almas. Penso que, se Lhe perguntassem, Ele queria trazer alegria ao coração de Sam Khan.

Remover o fardo da “dificuldade” de Sam Khan foi, suponho, uma razão suficiente para aparentemente ir contra os Seus próprios ensinamentos. Foi uma demonstração do amor de Deus, uma ilustração dos extraordinários “milagres” que Deus realizará na vida de qualquer pessoa que procura, com sinceridade, a verdade e a justiça, e prova de que somente Deus pode remover definitivamente as dificuldades.

2. Uma prova misteriosa dos mundos do além


Porque é que alguns dos Profetas de Deus sacrificam as Suas vidas? Bahá'u'lláh diz que Eles sabem que a vida humana não se limita a esta vida. Eles sabem que o mundo além é o paraíso mais elevado.

Bem-aventurada a alma que, na hora da sua separação do corpo, estiver santificada das vãs imaginações dos povos do mundo. Essa alma vive e move-se de acordo com a Vontade do seu Criador e entra no Paraíso supremo... Se se disser a alguém o que está destinado a essa alma nos mundos de Deus, Senhor do trono no alto e do reino terrestre, todo o seu ser arderá instantaneamente no seu desejo de alcançar essa condição excelsa, santificada e resplandecente... (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, LXXXI)

Os educadores divinos vêm à terra para nos ajudar; mas estão desejosos e dispostos a voltar para casa quando as Suas missões estiverem concluídas. O sofrimento temporário de ser torturado e executado não significa nada para Eles em comparação com isso.

Fosses tu ponderar no teu coração a conduta dos Profetas de Deus, testemunharias segura e prontamente que devem existir necessariamente outros mundos, além deste mundo... Estas Joias do Desprendimento são aclamadas por alguns como as personificações da sabedoria, enquanto outros crêem que sejam os Porta-Vozes do próprio Deus. Como poderiam essas Almas ter consentido em render-Se aos Seus inimigos, se acreditassem que todos os mundos de Deus se reduziam a esta vida terrena? Teriam Eles sofrido voluntariamente tamanhas aflições e tormentos como nenhum homem jamais experimentou ou testemunhou? (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, LXXXI)

Segundo Bahá'u'lláh, os Manifestantes de Deus não dariam ardentemente as Suas vidas sem esse conhecimento. Assim, em todos os casos, como na Crucificação de Cristo e no Martírio do Báb, o seu exemplo é um sinal da Sua sabedoria e uma prova dos mundos além.

3. Permitir que a Causa de Deus cresça


Porque é que Eles prosseguem o seu caminho com tamanha alegria e entusiasmo?

Considerar que após a morte do corpo o espírito perece, é como imaginar que um pássaro numa gaiola será morto se a gaiola for quebrada, embora o pássaro não tenha nada a recear com a destruição da gaiola. O nosso corpo é como a gaiola, e o espírito é como o pássaro... [Se] a gaiola for quebrada, o pássaro permanecerá e existirá. Os seus sentimentos serão ainda mais poderosos, as suas percepções serão maiores e a sua felicidade aumentará. Na verdade, deixa o inferno e alcança um paraíso de deleites, porque para os pássaros gratos não há paraíso maior do que a liberdade da gaiola. É por isso que com grande alegria e felicidade os mártires se apressam para a planície do sacrifício. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, p. 227)

Sem este sacrifício, a humanidade não ouvirá, a causa de Deus não crescerá e a humanidade não será salva.

Mas Cristo, que é o Verbo de Deus, sacrificou-Se. Isso tem dois significados... O significado exterior é este: a intenção de Cristo era representar e promover uma Causa que iria educar o mundo humano, vivificar os filhos de Adão e iluminar toda a humanidade; e uma vez que representar uma Causa tão grande... significava que Ele seria morto e crucificado, então Cristo, ao proclamar a Sua missão, sacrificou a Sua vida. Ele considerava a cruz como um trono, a ferida como um bálsamo, o veneno como mel e açúcar. Ele ergueu-Se para ensinar e educar os homens, e assim Ele sacrificou-Se para dar o espírito da vida. Ele pereceu em corpo para vivificar os outros pelo espírito.

O segundo significado de sacrifício é este: Cristo era como uma semente, e esta semente sacrificou a sua própria forma para que a árvore pudesse crescer e desenvolver-se... A forma da semente foi sacrificada pela árvore, mas as suas perfeições, devido esse sacrifício, tornaram-se evidentes e visíveis - a árvore, os galhos, as folhas e as flores estavam ocultas na semente. Quando a forma da semente foi sacrificada, as suas perfeições apareceram na forma perfeita de folhas, flores e frutos. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 120-121)

Apenas o poder divino o pode conseguir.

Essas virtudes não surgem da realidade do homem a não ser pelo poder de Deus e dos ensinamentos divinos, pois precisam de poder sobrenatural para se manifestarem. (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 79-80)

Assim, quando o Báb, ou qualquer outro Manifestante de Deus, sacrifica rejubilantemente a Sua vida, a sua intenção é responder às orações, ensinar as virtudes de Deus e transmitir o “poder sobrenatural” necessário para trazer a salvação a todas as vidas humanas. A meu ver, estes são apenas vislumbres do mistério do Martírio do Báb.

Há muito mais nessa história que será compreendido no futuro. Mas felizmente, talvez possamos dizer já que começámos.

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Texto Original: Why Baha’is Commemorate the Martyrdom of the Bab (www.bahaiteachings.org)


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Edward A. Price é um ex-ateu de origem Judaica que se tornou Bahá’í em 1973, na Universidade da Virgínia. Fez o curso de Psicologia Estudos Religiosos. É autor de vários livros e participou num projecto patrocinado pela Spring Green Films, para fazer um filme sobre a vida e os ensinamentos do Báb. Este projecto foi apoiado pela AEN dos Bahá’ís dos Estados Unidos.