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sábado, 11 de outubro de 2014

Fareed Zakaria: Sejamos honestos; hoje, o Islão tem um problema

Excertos de um artigo de opinião de Fareed Zakaria no Washington Post (09/Outubro/2014).
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Conheço os argumentos contra as vozes que falam do Islão como sendo violento e reacionário. Tem 1.6 mil milhões de seguidores. Locais como a Indonésia ou a Índia têm centenas de milhões de muçulmanos que não encaixam nestas representações. É por isso que [Bill] Maher e [Sam] Harris erram ao fazer generalizações grosseiras. Mas sejamos honestos. Hoje, o Islão tem um problema. Os lugares que têm dificuldade em acomodar-se no mundo moderno são desproporcionalmente muçulmanos.

Em 2013, dos 10 principais grupos que realizaram ataques terroristas, 7 eram muçulmanos. Dos 10 principais países onde ocorreram ataques terroristas, 7 têm maioria muçulmana. O Pew Research Center classifica países de acordo com o nível de restrições que os governos impõem ao livre exercício da religião. Dos 24 países mais restritivos, 19 têm maioria muçulmana. Dos 21 países que têm leis contra apostasia, todos têm maioria muçulmana.

Existe um cancro de extremismo no Islão de hoje. Uma pequena minoria de muçulmanos festeja a violência e a intolerância, e acolhe atitudes profundamente reacionárias contra as mulheres e as minorias. Apesar de alguns confrontarem os extremistas, não são suficientes, e os protestos não são suficientemente sonoros. Quantas manifestações gigantescas se realizam hoje contra o Estado Islâmico (também conhecido como ISIS) no mundo Árabe?

A expressão “Islão de hoje” é importante. O problema central das análises de Maher e Harris é que pegam numa realidade - o extremismo no Islão - e descrevem-na de forma que sugere que é inerente ao Islão. Bill Maher afirma que “o Islão é a única religião que actua como a Mafia, que mata se alguém diz o contrário, se faz um desenho errado ou se escreve o livro errado”. Ele tem razão sobre o aspecto maligno, mas está errado quando o liga ao Islão - em vez de o ligar a “alguns muçulmanos”.

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Harris devia ler o livro de Zachary Karabell Peace Be Upon You: Fourteen Centuries of Muslim, Christian and Jewish Conflict and Cooperation. Ali descobriria que houve guerras mas também muitos séculos de paz. O Islão esteve por vezes na vanguarda da modernidade, mas tal como hoje, também já o grande retardatário. Como Karabel me disse: “Se excluirmos os últimos 70 anos, em geral o mundo islâmico foi mais tolerante com as minorias do que o mundo cristão. É por isso que viviam mais de um milhão de Judeus no mundo árabe até à década de 1950 - só no Iraque eram 200.000”

Se existiram períodos em que o mundo islâmico era aberto, moderno, tolerante e pacífico, isso pressupõe que o problema não está na essência da religião e que as coisas podem mudar mais uma vez. Então porque é que Maher faz estes comentários? Compreendo que como público intelectual ele sinta necessidade de falar daquilo que vê como uma verdade elementar (apesar da sua “verdade” estar simplificada e exagerada). Mas existe certamente outra tarefa para um público igualmente intelectual: tentar mudar o mundo para melhor.

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Texto original (em inglês): Fareed Zakaria: Let’s be honest, Islam has a problem right now

terça-feira, 24 de março de 2009

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (10)

No livro "O Mundo Pós Americano", Fareed Zakaria chama a nossa atenção para as diferentes perspectivas sobre Deus, no Ocidente e na China.
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Há algumas diferenças reais e importantes entre as visões chinesas e ocidentais (particularmente, americanas) do mundo que vale a pena explorar. Começam com Deus. No inquérito Pew de 2007, quando se pergunta se se tem de acreditar em Deus para ser uma pessoa com moralidade, uma maioria confortável dos Americanos (57 por cento) responde que sim. Contudo, no Japão e na China, há maiorias muito mais elevadas a responder que não – na China, uns colossais 72 por cento! Trata-se de uma divergência notável e pouco usual em relação à norma, mesmo na Ásia. O ponto não é que ambos os países sejam imorais – na realidade, tudo indica o contrário - , mas antes que as pessoas não acreditam em Deus em nenhum daqueles países.

Isto pode chocar muitas pessoas no Ocidente, mas é uma realidade bem conhecida dos estudiosos do assunto. Os asiáticos do Leste não acreditam que o mundo tenha um Criador que estabeleceu um conjunto de leis morais abstractas que têm de ser seguidas. Esta concepção semita de Deus partilhada pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelo islamismo é estranha à civilização chinesa. Há pessoas que afirmam que a religião chinesa é o confucionismo. Contudo, Joseph Needham, um eminente especialista em confucionismo, fez notar, que se se pensa na religião «como a teologia de um criador-divindade transcendente», o confucionismo não é uma religião. Confúcio foi um professor, não foi um profeta nem um homem sagrado em nenhum sentido. Os seus escritos, ou os fragmentos deles que sobreviveram, são espantosamente a-religiosos. Previne repetidamente contra pensar sobre o divino e, em vez disso, estabelece regras para a aquisição de conhecimento, para ter comportamentos éticos, para manter a estabilidade social e uma civilização ordenada. O seu trabalho tem mais em comum com os escritos dos filósofos do iluminismo que com opúsculos religiosos. (p.108-109)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (9)



No livro "O Mundo Pós Americano", Fareed Zakaria chama a atenção para a diversidade religiosa do nosso planeta, assim como para as metamorfoses da demografia das religiões, e o inevitável contacto entre estas:

É claro que nenhuma civilização se desenvolve numa caixa hermeticamente fechada. Mesmo no que diz respeito à religião e à visão do mundo, os países têm bases mistas, com elementos locais sobrepostos a influências externas. Por exemplo, a Índia é um país hindu que foi dominado durante quatrocentos anos por dinastias muçulmanas e depois por uma potência protestante. A China não teve a experiência de domínio externo directo, mas o seu fundo confuciano foi brutalmente reprimido durante quarenta anos pela ideologia comunista. O Japão adoptou muitos estilos e conceitos americanos durante o último século. A África tem as suas tradições antigas, mas é também o continente com maior população cristã e a que está a aumentar mais rapidamente. Na América Latina, as igrejas continuam a ser vitais para a vida de cada país de uma forma inimaginável na Europa. Ouvimos falar de evangelismo protestante nos Estados Unidos, mas é no Brasil e na Coreia do Sul que ele está a crescer mais depressa. Se os valores cristãos estão no centro das tradições ocidentais, então como devemos caracterizar um país como a África do Sul, com mais de sete mil confissões cristãs? Ou a Nigéria, onde há mais anglicanos do que em Inglaterra?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (8)



Fareed Zakaria escreve no seu livro "O Mundo Pós Americano":
A questão com que os reformadores não ocidentais se debatiam no século XX regressou como questão central do futuro: é possível ser moderno sem ser ocidental? Qual a diferença entre ser moderno e ser ocidentalizado? Será a vida internacional substancialmente diferente num mundo em que as potências não ocidentais tenham um peso enorme? Terão essas novas potências valores diferentes? Ou o processo de enriquecimento torna-os parecidos? Estas ideias não são ociosas. Dentro de poucas décadas, três das quatro maiores economias do mundo serão não ocidentais (o Japão, a China e a Índia). E a quarta , os Estados Unidos, será crescentemente moldada pela sua população não europeia. (p.76)
Fareed Zakaria tem o mérito de colocar as questões certas. O facto de existirem potências em crescimento que vivem sob regimes ditatoriais (China) ou “democracias musculadas” (Rússia) e desses regimes se regerem por valores diferentes dos nossos não pode deixar de ser uma fonte de preocupação. Afinal basta ver o que dizem os relatórios de diversas organizações internacionais afirmam sobre a situação dos Direitos Humanos nesses países.

A questão étnica não é grave; a questão dos valores, essa, sim, pode representar uma fonte de preocupação.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (7)

Escreve Fareed Zakaria no seu livro "O Mundo Pós Americano":
Os americanos raramente fazem comparações com os padrões globais, porque têm a certeza que o seu modo de fazer as coisas é o melhor e o mais avançado. O resultado é que estão cada vez mais desconfiados da era global emergente. Há um fosso crescente entre a elite americana com negócios internacionais e as classes cosmopolitas, por um lado, e a maioria do povo americano, por outro. Se não forem feitos esforços para reduzir esse fosso, a referida separação pode destruir a margem competitiva dos Estado Unidos e o seu futuro político. (p.51)
Quantas pessoas fora dos Estados Unidos terão percebido este problema? E será apenas um problema americano? E poderemos falar apenas em dois grupos sociais com visões do mundo totalmente distintas (como se os uns fossem os bons e os outros os maus)? Não existem mais grupos sociais com características sociais bem distintas que por vezes colidem? E não existem coisas boas e más em quase todos esse grupos?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (6)

Escreve Fareed Zakaria no seu livro "O Mundo Pós Americano":
Os Estados Unidos continuam a ser de longe o país mais poderoso, mas estão num mundo com vários outros poderes importantes e com mais capacidade de afirmação e actividade por parte de todos os actores. Este sistema internacional híbrido - mais democrático, dinâmico, aberto e interligado - é aquele em que é provável que vivamos ainda durante algumas décadas. É mais fácil definir aquilo que não é do que aquilo que é; é mais fácil descrever a era de que nos estamos a afastar do que a era na qual entramos – e daí o mundo pós-americano.
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Na ordem internacional de hoje, os avanços acarretam compromissos. Nenhum país consegue tudo o que quer. Estas ideias são fáceis de escrever, mas difíceis de pôr em prática. Implicam que se aceite o crescimento do poder e influência de outros países, assim como da preeminência dos seus interesses e preocupações. Este equilíbrio - entre acomodação e discussão - constitui o principal desafio para a política externa americana nas próximas décadas. (p. 48-49)
Penso que Fareed Zakaria é particularmente feliz nesta análise. Considero-a um vislumbre de um dos requisitos da próxima etapa na evolução do relacionamento entre as nações. E penso que as suas palavras não se aplicam apenas à política externa americana, mas também à política externa da União Europeia e dos países Europeus.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (5)

Uma Ordem Mundial Ultrapassada

Escreve Fareed Zakaria no seu livro "O Mundo Pós Americano":
Os mecanismos tradicionais de cooperação internacional são relíquias de uma época já passada. O sistema das Nações Unidas representa uma configuração de poder que já passou de moda. Os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas são os vencedores de uma guerra que acabou há sessenta anos. Esse organismo não inclui o Japão ou a Alemanha, a segunda e a terceira maiores economias do mundo (a taxas de câmbio de mercado), da mesma maneira que não inclui nem a Índia, que é a maior democracia do mundo, nem nenhum país da América Latina ou África. O Conselho de Segurança exemplifica a antiga estrutura de governação global em sentido geral. O G8 não inclui nem a China, que já é a quarta maior economia do mundo, nem a Índia e a Coreia do Sul, que já estão no décimo segundo e no décimo terceiro lugares. Tradicionalmente o Fundo Monetário Internacional é sempre dirigido por um europeu, enquanto que o Banco Mundial o é por um americano. Esta tradição, tal como os costumes de um antigo clube de países selectos, pode ser encantadora e divertida para os próprios, mas para os que não fazem parte deste clube selecto é uma hipocrisia e um ultraje. (p. 43-44)
Para fazer frente a uma crise financeira global, o G-20 parece assumir um protagonismo interessante; houve uma cimeira em Washington em Novembro, e já se anuncia outra em Londres para o mês de Abril. Não deixa de ser interessante ver o G-20 começar a substituir o G-8, na medida em que representa um processo de tomada de decisão mais alargado e envolvendo mais parceiros. É certo que o G-20 não pode ser visto como uma nova ordem mundial; mas, comparado com o G-8, é certamente uma organização que cujo equilíbrio de poderes reflecte mais correctamente a realidade do nosso mundo de hoje.

Uma reformulação similar seria necessária no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Além da abolição do direito de veto, seria importante que algumas novas potências - como o Brasil e a Índia - adquirissem um estatuto de membros permanentes. Também seria importante que países como o Reino Unido e a França abdicassem desse estatuto a favor da União Europeia (claro que será difícil convencer Britânicos e Franceses a ceder neste ponto).

Uma coisa parece-me certa: o surgimento de uma nova ordem mundial (conforme antecipado nas Escrituras Baha’is) não será algo que acontecerá do dia para a noite; será certamente um processo lento e de transformação gradual. Espero que a relevância que o G-20 agora começa a obter, seja um pequeno passo na construção de um novo equilibro no relacionamento entre povos e nações.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (4)

A Mediatização da Violência

A propósito dos recentes ataques terroristas em Mumbai, tenho de partilhar convosco mais este pequeno excerto do livro de Fareed Zakaria, O Mundo Pós-Americano:
O carácter imediato das imagens e a intensidade das notícias num ciclo de vinte e quatro horas combinam-se para produzir exageros constantes. Todas as alterações climáticas são «a tempestade do século». Cada bomba que explode aparece nas NOTÍCIAS DE ÚLTIMA HORA. É difícil relativizar tudo isto porque a revolução na informação é muito recente. Não tivemos imagens diárias dos cerca de 2 milhões de pessoas que morreram nos campos do Cambodja na década de 1970 ou do milhão de pessoas que pereceram na guerra Irão-Iraque na década de 1980. Nem sequer tivemos imagens da guerra no Congo na década de 1990, na qual morreram milhões de pessoas. Mas agora vemos quase diariamente filmagens ao vivo dos efeitos de bombas improvisadas, de carro armadilhados ou de mísseis - acontecimentos trágicos, é verdade, mas que a maior parte das vezes não causam mais de dez vítimas. O carácter aleatório da violência terrorista, o facto de o alvo serem civis e a facilidade com que as sociedades modernas são penetradas por este tipo de violência aumentam a nossa preocupação. «Podia ter sido eu», dizem as pessoas depois de um ataque terrorista.

Parece um mundo muito perigoso. Mas não é. A probabilidade de morrermos em consequência da violência organizada é baixa e está a diminuir. Os dados revelam que a tendência geral se afasta da das guerras entre grandes países, o tipo de conflito que causa de facto grande quantidade de vítimas. (p. 17-18)
Não será caso para pedir um pouco mais de responsabilidade aos media? Afinal que qualidade tem um meio de comunicação social que corre desesperadamente atrás do imediatismo da notícia e esquece aquilo que verdadeiramente é notícia?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (3)

Uma Paz Menor?

Escreve Fareed Zakaria no seu livro "O Mundo Pós Americano":
A guerra e a violência organizada diminuíram dramaticamente ao longo das duas últimas décadas. Ted Robert Gurr e a sua equipa de académicos do Centro para o Desenvolvimento Internacional e para a Gestão de Conflitos da Universidade de Maryland seguiram os dados cuidadosamente e chegaram à seguinte conclusão: «A magnitude geral da guerra global diminuiu cerca de 60 por cento [desde meados da década de 1980], tendo caído em 2004 para o seu nível mais baixo desde a década de 1950». A violência aumentou regularmente durante a Guerra Fria – seis vezes entre a década de 1950 e o início da década de 1990 –, mas atingiu o máximo pouco antes do colapso da União Soviética, em 1991, e a «extensão da guerra no interior dos estados ou entre eles diminuiu para metade na primeira década após o fim da Guerra Fria». Steven Pinker, professor em Harvard versado numa série de áreas, defende que «hoje em dia, estamos provavelmente a viver o período mais pacífico de toda a existência da nossa espécie.» (p.17)
Será que Fareed Zakaria nos apresenta algumas evidências da Paz Menor?

Lembro que o termo "Paz Menor" é usado nas Escrituras Baha’is para definir uma paz política entre as nações. Shoghi Effendi definiu-o como um processo gradual em que as nações da terra, ainda inconscientes da Revelação de Bahá'u'lláh aplicariam os princípios gerais por Ele enunciados, reconheceriam unidade da humanidade e procederiam à unificação política do planeta, criando um Governo Mundial.

Na minha opinião (e isto é uma opinião muito pessoal!) o processo da paz menor iniciou-se no final do século XX. Não é um processo de evolução linear; tem tido (e continuará a ter) os seus avanços e recuos. O que Fareed Zakaria nos apresenta são algumas evidências deste processo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (2)

O Poder dos Estados-Nação

No seu livro, O Mundo Pós Americano, Fareed Zakaria escreve:
Um aspecto desta nova era é a difusão do poder dos estados, que assim chega a outros actores. Os «demais» que estão a crescer constituem um grupo que inclui muitos actores não estatais. Há grupos e indivíduos a ganhar autonomia e a fortalecer a sua posição na hierarquia; a centralização e o domínio central estão a ser enfraquecidos. Há funções que já foram controladas pelos governos e agora são partilhadas por organizações internacionais como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a União Europeia (EU). Há grupos não governamentais a crescer como cogumelos; aparecem todos os dias em todos os países e tratam dos assuntos mais variados. As empresas e os capitais mudam de uns lugares para os outros, procurando a melhor localização para os seus negócios, premiando assim alguns governos e punindo outros. Há grupos terroristas com a Al Qaeda, cartéis de droga, insurrectos e milícias de todo os tipos a encontrar espaço para operar nos recantos e nas fendas do sistema internacional. O poder está a sair dos estados-nação, para cima, para baixo, e para os lados. Num tal ambiente, as aplicações tradicionais do poder nacional, tanto a nível económico como militar, estão a tornar-se menos eficientes. (p. 14)
Os Estados – enquanto comunidades politicamente organizadas – não estão condenados a desaparecer; mas num mundo globalizado, os limites da sua autoridade e o seu relacionamento com Organizações Internacionais tem, inevitavelmente, de ser realinhados com as novas realidades em que vivemos hoje.

A este propósito dizia-me um amigo que «a inquestionável soberania dos Estados vale tanto como a divindade dos antigos imperadores romanos». Achei a comparação bem interessante. E lembrei-me daquelas palavras de Bahá'u'lláh “"Que não se vanglorie quem ama o seu país, mas antes quem ama o mundo inteiro. A terra é um só país e humanidade os seus cidadãos.”

Ao contrário do que alguns sugerem, Bahá'u'lláh não entendia o amor à pátria como irrelevante; esse sentimento é importante, mas neste momento é-nos exigido que aceitemos uma lealdade mais ampla do que alguma vez aceitámos, sem abdicarmos de outras lealdades menores.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (1)



Olhemos à nossa volta. O edifício mais alto do mundo é actualmente de Taipei e vai ser proximamente ultrapassado por outro que está a ser construído no Dubai. O homem mais rico do mundo é mexicano e a maior empresa cotada na bolsa é chinesa. Os maiores aviões do mundo são construídos na Rússia e na Ucrânia, a maior refinaria está a ser construída na Índia e as maiores fábricas situam-se na China. Londres está a tornar-se o principal centro financeiro mundial e é nos Emirados Árabes Unidos que está o fundo de investimento mais rico do mundo. O que foram ícones especificamente americanos estão agora nas mãos de outros países. A maior roda gigante do mundo está em Singapura. O maior casino não é de Las Vegas, é de Macau, cidade que ultrapassou Las Vegas em receitas anuais de jogo. A indústria cinematográfica de maior peso tanto em termos de número de filmes como de bilhetes vendidos é Bollywood e não Hollywood. Até os centros comerciais, esse grande desporto dos Americanos, se tornaram globais. Dos dez maiores centros comerciais de todo o mundo, só um está nos Estados Unidos; o maior do mundo situa-se em Pequim. Este tipo de listagens é arbitrário, mas é notável que, há apenas dez anos, os Estados Unidos estavam no topo em muitas dessas categorias, se não mesmo em todas. (p. 12)
Esta pequena lista de factos dá o mote ao livro de Fareed Zakaria: no mundo actual estão a surgir novas potências que seguem alguns dos padrões de desenvolvimento do Ocidente e começam-se afirmar como parceiros com os quais é necessário dialogar. Os países que no passado eram meros espectadores da arena internacional, tornaram-se agentes intervenientes com um peso inegável, que em algumas áreas rivalizam com os Estados Unidos e com a Europa.

O livro de Fareed Zakaria não se dedica à decadência dos Estados Unidos, mas antes à ascensão de outros países, como a Índia, a China e o Brasil. Como consequência surge a necessidade de procurar novos equilíbrios políticos e económicos. Mas essa procura não poderá continuar a ser ditada apenas pela Europa e pelos EUA; no actual cenário internacional, é vital para o bem de toda a humanidade que as soluções para os nossos problemas comuns sejam encontradas em diálogo com estes novos parceiros internacionais.

As transformações que testemunhamos no nosso planeta são referidas por alguns autores Bahá’ís como o resultado da acção simultânea de um processo de desintegração e de um processo de integração; por outras palavras, há uma velha ordem mundial que está a desaparecer, e uma nova civilização que está a nascer. Este livro de Fareed Zakaria faz luz sobre o que é o processo de integração e para onde eles nos pode levar nas próximas décadas.

Lúcido e objectivo nas suas análises, Zakaria transmite-nos uma imagem positiva desse novo mundo que está a nascer. Por todos estes motivos, considero este livro de leitura obrigatória para qualquer Bahá’í.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ainda sobre a Pobreza

A propósito do Blog Action Day assinalado ontem e dedicado à pobreza, aqui fica um excerto do livro "O Mundo Pós-Americano" de Fareed Zakaria” sobre este tema:
Pode parecer estranho tratar de uma prosperidade crescente quando ainda há centenas de milhões de pessoas que vivem numa pobreza desesperante. Contudo, na realidade, a percentagem de pessoas que vivem com um dólar ou menos por dia caiu de 40 por cento em 1981 para 18 por cento em 2004, e estima-se que caia ainda para 12 por cento em 2015. Bastou o crescimento da China para retirar da pobreza mais de 400 milhões de pessoas. A pobreza está a diminuir em países que representam 80 por cento da população mundial. Os 50 países onde vivem as pessoas mais pobres da Terra são um número limitado de casos que necessitam de atenção urgente. Noutros 142 países – o que inclui a China, a Índia, o Brasil, a Rússia, a Indonésia, a Turquia, o Quénia e a África do Sul -, os pobres estão a ser lentamente absorvidos em economias produtivas que estão em crescimento. Pela primeira vez na história, estamos a assistir a crescimento global genuíno.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

The Post-American World

Recomendo a leitura do artigo de Fareed Zakaria na revista Newsweek. O texto está disponível online e é acompanhado de um video promocional do novo livro de Zakaria. Aqui ficam alguns excertos.
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The post-American world is naturally an unsettling prospect for Americans, but it should not be. This will not be a world defined by the decline of America but rather the rise of everyone else. It is the result of a series of positive trends that have been progressing over the last 20 years, trends that have created an international climate of unprecedented peace and prosperity.
(...)
In the past, when countries grew rich they've wanted to become great military powers, overturn the existing order, and create their own empires or spheres of influence. But since the rise of Japan and Germany in the 1960s and 1970s, none have done this, choosing instead to get rich within the existing international order. China and India are clearly moving in this direction. Even Russia, the most aggressive and revanchist great power today, has done little that compares with past aggressors.
(...)
Compare Russia and China with where they were 35 years ago. At the time both (particularly Russia) were great power threats, actively conspiring against the United States, arming guerrilla movement across the globe, funding insurgencies and civil wars, blocking every American plan in the United Nations. Now they are more integrated into the global economy and society than at any point in at least 100 years. They occupy an uncomfortable gray zone, neither friends nor foes, cooperating with the United States and the West on some issues, obstructing others. But how large is their potential for trouble? Russia's military spending is $35 billion, or 1/20th of the Pentagon's. China has about 20 nuclear missiles that can reach the United States. We have 830 missiles, most with multiple warheads, that can reach China. Who should be worried about whom?
(...)
The underlying reality across the globe is of enormous vitality. For the first time ever, most countries around the world are practicing sensible economics. Consider inflation. Over the past 20 years hyperinflation, a problem that used to bedevil large swaths of the world from Turkey to Brazil to Indonesia, has largely vanished, tamed by successful fiscal and monetary policies. The results are clear and stunning. The share of people living on $1 a day has plummeted from 40 percent in 1981 to 18 percent in 2004 and is estimated to drop to 12 percent by 2015. Poverty is falling in countries that house 80 percent of the world's population. There remains real poverty in the world—most worryingly in 50 basket-case countries that contain 1 billion people—but the overall trend has never been more encouraging.
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terça-feira, 25 de março de 2008

Fareed Zakaria: podemos exportar a democracia?




Esta opinião de Fareed Zakaria sobre a exportação da democracia, lembra-me as palavras de 'Abdu'l-Bahá - no livro O Segredo da Civilização Divina - sobre a possibilidade de levar a democracia a povos que não têm tradições democráticas.
Pois tem-se testemunhado directamente em certos países estrangeiros que após o estabelecimento de parlamentos, aqueles corpos na verdade afligiram e confundiram o povo, e as suas bem intencionadas reformas produziram resultados maléficos. Embora a formação de parlamentos, a organização de assembleias consultivas, constitua o próprio base e a pedra angular do governo, existem diversos requisitos essenciais que estas instituições devem cumprir...

Porém, se os membros destas assembleias consultivas forem inferiores, ignorantes, mal informados das leis da governação e administração, insensatos, mal intencionados, indiferentes, indolentes, egoístas, nenhum benefício advirá da organização de tais corpos. Quando, no passado, um homem pobre, queria valer os seus direitos tinha apenas que fazer uma oferta a um indivíduo, agora ele teria que renunciar a toda esperança de justiça ou então satisfazer todos os membros.
Se pensarmos que este texto foi escrito em 1875 (quantos regimes democráticos existiam nessa época?) então a actualidade e a visão de 'Abdu'l-Bahá não podem deixar de nos surpreender.