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sábado, 17 de novembro de 2018

O Nacionalismo pode construir a Paz?

Por David Langness.


Poderá o nacionalismo – que defende a territorialidade, o fortalecimento das fronteiras, o poderio militar e a independência política – construir a paz no mundo?

Não. E sobre este assunto os ensinamentos Bahá'ís afirmam:
...um mundo idólatra saúda e adora apaixonada e clamorosamente os falsos deuses que as suas próprias fantasias fúteis criaram fatuamente e as suas mãos mal guiadas tão impiamente exaltaram. Os principais ídolos no templo profanado da humanidade não são senão os triplos deuses do nacionalismo, do racismo e do comunismo, em cujos altares governos e povos, sejam democráticos ou totalitários, estejam em paz ou em guerra, sejam do Oriente ou do Ocidente, cristãos ou islâmicos, estão, de várias formas e em diferentes graus, agora a adorar. Os seus sumo-sacerdotes são os políticos e os doutores mundanos, os chamados sábios da época; o seu sacrifício, a carne e o sangue das multidões massacradas; os seus encantamentos, pregões antiquados e fórmulas insidiosas e irreverentes; o seu incenso, o fumo da angústia que emana dos corações dilacerados dos despojados, dos estropiados e dos desabrigados. (Shoghi Effendi, The Promised Day Is Come, p. 113)
Esta análise franca, escrita pelo Guardião da Fé Bahá’í em 1941, quando decorria a 2ª Guerra Mundial, apelava aos líderes do mundo que se unissem. Avisava-os – reiterando as advertências de Bahá’u’lláh nas suas cartas e epístolas aos reis e governantes do mundo na década de 1860 – sobre as consequências do fracasso da sua união; e simultaneamente expunha um plano racional e apelativo para a unificação:
Numa hora tão crítica na história da civilização, compete aos líderes de todas as nações do mundo, sejam grandes e pequenas, sejam do Oriente ou do Ocidente, vencedoras ou vencidas, prestar atenção ao aviso sonante de Bahá'u'lláh e, completamente imbuídos com um sentido de solidariedade mundial, o sine qua non da lealdade à Sua Causa, levantarem-se para realizar na totalidade o esquema reparador que Ele, o Médico Divino, prescreveu para uma humanidade doente. Que rejeitem definitivamente todas as ideias preconcebidas, todos os preconceitos nacionais, e prestem atenção ao sublime conselho de 'Abdu'l-Bahá, o Intérprete autorizado dos Seus ensinamentos. Você pode servir melhor o seu país – foi a resposta de 'Abdu'l-Bahá a um alto funcionário do governo federal dos Estados Unidos da América, que O questionou sobre a melhor maneira como poderia promover os interesses do seu governo e povo – se se empenhar, na sua qualidade de cidadão do mundo, a ajudar na aplicação derradeira do princípio do federalismo subjacente ao governo do seu país nas relações agora existentes entre os povos e as nações do mundo. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, pag. 36-37)
Muitas pessoas, incluindo historiadores, filósofos, futuristas e planificadores, estão agora a chegar exactamente à mesma conclusão:
O desenvolvimento mais importante da nossa era, precisamente, é o desvanecer do estado-nação: a sua incapacidade de resistir às forças contrárias do século XXI e a sua calamitosa perda de influência sobre as circunstância humanas. A autoridade política nacional está em declínio e, como não conhecemos nenhum outro tipo, parece o fim do mundo. É por isso que um tipo estranho de nacionalismo apocalíptico está tão em voga. Mas o apelo actual do machismo como estilo político, a construção de muros e a xenofobia, a mitologia e a teoria racial, as fantásticas promessas da restauração nacional - não são curas, mas sintomas daquilo que se está a revelar lentamente a todos: os estados-nação, por todo o lado, estão num estado avançado de decadência política e moral, do qual não podem se libertar individualmente. (Rana Dasgupta, The Demise of the Nation State, The Guardian, April 5, 2018)

À primeira vista, passados 370 anos, o estado-nação parece estar a florescer. Embora existissem apenas 70 países soberanos independentes em 1945, existem agora 193, sendo os mais recentes o Montenegro, Timor-Leste e o Sudão do Sul. A Palestina e o Kosovo estão à espera para se juntar à ONU. Mas essa proliferação de países é um sinal da fraqueza do Estado-nação, não da sua força. (Mark Lyall Grant, Can the Nation-State Survive?, Chatham House/The Royal Institute of International Affairs, March-April 2018)
Os ensinamentos Bahá’ís dizem que o nosso velho sistema de estados-nação – que existe desde o Tratado de Vestfália, em 1648 – deixou de ser útil. O mundo mudou drasticamente desde então, mas o nosso sistema de governação ainda se mantém fiel aos métodos antiquados que se usavam há séculos atrás. Rana Dasgupta, um dos principais pensadores mundiais sobre este assunto, afirma:
Os próprios governos nacionais precisam estar submetidos a um nível superior de autoridade: eles provaram ser as forças mais perigosas na era do estado-nação, travando guerras intermináveis contra outras nações, oprimindo, matando e enfraquecendo as suas próprias populações...

Se desejamos redescobrir um sentido de propósito político na nossa era de finança global, big data, migração em massa e revolução ecológica, temos de imaginar modelos políticas capazes de funcionar nessa mesma escala. O actual sistema político deve ser complementado com regulamentos financeiros globais, certamente, e também, provavelmente, mecanismos políticos transnacionais. É assim que iremos concluir esta nossa globalização, que hoje está perigosamente inacabada. Os seus sistemas económicos e tecnológicos são realmente deslumbrantes, mas para servir a comunidade humana, devem estar subordinados a uma infraestrutura política igualmente espetacular, que ainda nem começámos a construir.

... o nosso sistema de estado-nação já está numa crise da qual não tem agora capacidade para se libertar. É o momento para pensar como se pode construir essa capacidade. Ainda não sabemos como será. Mas aprendemos muito com as fases económica e tecnológica da globalização, e agora possuímos os conceitos básicos para a próxima fase: construir a [estrutura] política do nosso sistema mundial integrado. (The Demise of the Nation State, The Guardian, April 5, 2018)
Os ensinamentos de Bahá’u’lláh antecipam esta mudança radical nos assuntos mundiais e revelam a arquitectura de um sistema global democrático – juntamente com a estrutura espiritual necessária para a construir.

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Texto original: Can Nationalism Produce Peace? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 10 de novembro de 2018

Um Plano Bahá’í para a Paz




Segundo os ensinamentos Bahá’ís, a humanidade chegou a um ponto do seu desenvolvimento evolutivo em que o mundo necessita de um governo mundial:

Virá o tempo em que a necessidade imperativa de realizar uma vasta e ampla assembleia de homens será universalmente percebida. Os governantes e reis da terra devem estar presentes e, participando nas suas deliberações, considerar as formas e os meios que estabelecerão as fundações da Grande Paz mundial entre os homens. Essa paz exige que as Grandes Potências resolvam, para bem da tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si. Se algum rei pegar em armas contra outro, todos se devem levantar unidos e impedi-lo. Se isto for feito, as nações do mundo não necessitarão de quaisquer armamentos, salvo com o propósito de salvaguardar a segurança dos seus reinos e de manter a ordem interna nos seus territórios. Isto garantirá a paz e a serenidade de todos os povos, governos e nações. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p.164)

A Fé de Bahá’u’lláh foca-se na criação de um mundo onde pessoas pacíficas vivem num planeta sem guerra.

Como característica central desta visão sagrada – e crucial para a sua realização – os ensinamentos Bahá’ís advogam a criação de uma federação de nações do mundo que assegure a paz mundial. No livro “O Segredo da Civilização Divina”, escrito em 1875, ‘Abdu’l-Bahá delineou plenamente a visão Bahá’í de um mundo pacífico e sustentável:

A verdadeira civilização desfraldará o seu estandarte no centro do coração do mundo, quando um certo número de soberanos distintos de carácter nobre – exemplos brilhantes de devoção e determinação – decidirem, para o bem e para a felicidade de toda a humanidade, levantar-se com determinação firme e visão clara, e estabelecer a Causa da Paz Universal. Devem fazer da Causa da Paz o objecto de consulta geral e procurar por todos os meios ao seu alcance estabelecer a União das nações do mundo. Devem concluir um tratado vinculativo e estabelecer um pacto, cujas provisões sejam claras, invioláveis e definitivas. Devem proclamá-lo a todo o mundo e conseguir-lhe a aprovação de toda a raça humana. Este empreendimento nobre e supremo – a verdadeira fonte de paz e bem-estar para todo o mundo – deve ser considerado sagrado por todos os que habitam na terra. Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para garantir a estabilidade e permanência deste Mais Grandioso Pacto. Neste Pacto global, os limites e fronteiras de todas as nações devem ser claramente fixadas, os princípios subjacentes às relações entre governos devem ser definitivamente estabelecidos, e todos os acordos e obrigações internacionais cumpridos. De igual modo, o volume de armamentos de cada governo deve ser estritamente limitado, pois se for permitido aumentar os preparativos de guerra e forças militares de qualquer nação, isso levantará suspeitas das outras. O princípio fundamental subjacente a este Pacto solene deve ser tão forte que se qualquer governo violar posteriormente as suas provisões, todos os governos da terra se levantarão para o reduzir à completa submissão; ou melhor, a raça humana, como um todo, deve decidir, com todo o poder ao seu dispor, destruir esse governo. Se este que é o maior de todos os remédios for aplicado ao corpo doente do mundo, este certamente recuperará das suas enfermidades e permanecerá eternamente são e salvo.

Veja-se que, se essa feliz situação acontecer, nenhum governo necessitará de armazenar continuamente armas de guerra, nem se sentirá obrigado a produzir constantemente novas armas militares para dominar a raça humana. Uma pequena força para fins de segurança interna, punição do crime e de elementos desordeiros e prevenção de desordens locais, seria necessária – não mais do que isso. Desta forma toda a população ficará, primeiramente, libertada do fardo esmagador das despesas impostas para fins militares, e, posteriormente, um grande número de pessoas deixaria de dedicar o seu tempo à concepção contínua de novas armas de destruição – esses testemunhos de ganância e sede de sangue tão inconsistentes com o dom da vida – e, em vez disso, voltariam os seus esforços para a produção de tudo o que pudesse fomentar a paz, o bem-estar e a existência humana, e pudesse tornar-se causa de desenvolvimento e prosperidade universais. Então toda a nação na terra reinaria em honra, e todo o povo seria criado na tranquilidade e contentamento. (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, pag. 65-67)

Será que esse “maior de todos os remédios” é eficaz - ou parece um sonho distante e inimaginável? Há quem não acredite que a humanidade possa alcançar uma civilização assim tão segura, pacífica e tranquila - mas os Bahá’ís acreditam:

Alguns, desconhecendo o poder latente no esforço humano, consideram este tema altamente impraticável, ou melhor, para lá do âmbito do maior esforço humano. Contudo, este não é o caso. Pelo contrário, graças à infalível graça de Deus, à amorosa bondade de Seus favorecidos, aos esforços incomparáveis de almas sábias e capazes, e aos pensamentos e ideias dos líderes inigualáveis desta era, absolutamente nada pode ser considerado inatingível. Esforço - incessante esforço - é necessário. Nada menos do que uma determinação invencível poderá consegui-lo. Numerosas causas que em tempos passados eram consideradas puramente visionárias, neste dia tornaram-se muito acessíveis e praticáveis. Por que deveria esta mais grandiosa e sublime Causa – o sol do firmamento da verdadeira civilização e a causa da glória, do progresso, do bem-estar e do sucesso de toda humanidade – ser considerada um feito impossível? Seguramente, virá o dia virá em que a sua bela luz irradiará esplendor sobre a assembleia do homem.

Com os preparativos continuarem ao ritmo actual, o aparato do conflito atingirá um ponto em que a guerra se tornará algo intolerável para a humanidade.

É claro, a partir do que já foi dito, que a glória e grandeza do homem não consiste em ser ávido por sangue e ter garras afiadas, em arrasar cidades e espalhar devastação, em massacrar militares e civis. O que seria um futuro brilhante para ele seria a sua reputação pela justiça, a sua bondade para com toda a população, fosse rica ou pobre, a sua atitude de edificar países e cidades, aldeias e bairros, tornar a vida fácil, pacífica e feliz aos seus semelhantes, estabelecer os princípios fundamentais para o progresso, elevar os padrões e incrementar a riqueza de toda a população. (Idem)

O mundo continua a mover-se para esta visão de realização da paz universal. A comunidade das nações fez a sua primeira dessas tentativas com a Sociedade das Nações, após a Primeira Guerra Mundial; e tentou de forma mais empenhada, com mais países e criando o conceito de direitos humanos universais, ao criar as Nações Unidas, após a Segunda Guerra Mundial. No entanto, nenhuma destas organizações implementou plenamente a visão de Bahá’u’lláh de um mundo verdadeiramente unido, desarmado e pacífico. Ainda temos um longo caminho à nossa frente antes de conseguirmos a verdadeira unidade global.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 27 de outubro de 2018

Ninguém vence uma corrida aos armamentos

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá’ís apelam aos dirigentes da humanidade que desarmem – que abdiquem dos seus enormes depósitos de armamento - reconhecendo colectivamente que a era da guerra está a chegar ao fim:
Através de um acordo geral, todos os governos do mundo devem desarmar simultaneamente e ao mesmo tempo. Isto não terá efeito se um depuser as armas e outro recusar fazê-lo. As nações do mundo devem acordar umas com as outras sobre este assunto de importância suprema, para que assim possam abandonar em conjunto as armas mortais de carnificina humana. Enquanto uma nação aumentar os seus gastos militares e navais, outra nação será forçada a entrar neste despique louco pelos seus supostos interesses naturais. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 116)
Devemos chegar a um acordo para nos unirmos e pormos fim à guerra, dizem os ensinamentos Bahá’ís, não só devido à sua carnificina, morte e destruição, mas também devido aos seus custos ocultos para as sociedades que fazem a guerra. As guerras aparentemente intermináveis no mundo – aquelas onde estamos agora a combater e as que estamos a planear e preparar para combater no futuro – custam-nos enormes quantidades de dinheiro e de vidas humanas. Por exemplo, no meu país, os Estados Unidos, as despesas com guerra excedem as despesas de todas as outras áreas.

Aqui fica o detalhe: os EUA gastam 6% do seu orçamento anual na educação das suas crianças; 6% no próprio governo; 5,5% em habitação e despesas comunitárias; 5% em saúde e cuidados de saúde; 4% em assuntos internacionais, incluindo toda a ajuda externa; 3% em energia e ambiente; 2,5% em ciência e investigação médica; 2,5% em trabalho; 2% em transportes; 1% em alimentação e agricultura - e 62,5 % no Departamento de Defesa, guerras, programas de armamento e apoio a militares veteranos.

Por outras palavras, os Estados Unidos gastam mais de três quintos do seu dinheiro em despesas militares.

Consegue imaginar o que poderia ser feito com esse dinheiro se reduzíssemos as nossas despesas militares para um nível mais razoável?

O tremendo volume das despesas militares em algumas culturas belicistas pode chocar a maioria de nós, porque - a menos que sejamos militares ou trabalhemos numa instalação militar – temos pouco ou nenhum conhecimento sobre os custos de um empreendimento dessa natureza.

Depósito de aviões militares retirados do serviço
O Exército dos Estados Unidos deu-me uma formação directa dobre despesas militares. Alguns dias após ter iniciado a recruta num campo de treino inserido numa base militar do tamanho de uma cidade, comecei a pensar nos custos de manutenção de uma grande força permanente de combate. Via os milhares de soldados com quem treinava; comia em enormes refeitórios; compreendia quanto custava construir, equipar e manter tanques, helicópteros e aviões de combate; e comecei a compreender a enorme dimensão das nossas despesas militares. Em pouco tempo percebi como se poderia usar aquele dinheiro para construir um futuro pacífico e não belicista.

Se quer ter uma noção da magnitude das despesas militares, comece por imaginar o que é alimentar, alojar, fornecer roupa, transportes e cuidados de saúde a 1,3 milhões de homens e mulheres. Depois imagine o custo de pagar e treinar (e re-treinar) esses homens e mulheres. E depois, em cima de tudo isso, tente estimar o custo tremendo dos sistemas de armamento, o armamento avançado, de alta-tecnologia, as chamadas “armas inteligentes” que hoje se usam na guerra. Um míssil guiado por computador custa um milhão de dólares. Um bombardeiro B-2 custa 2 mil milhões de dólares.

Além disto, as despesas militares não seguem as leis normais da economia. O ritmo acelerado das evoluções científicas e tecnologias leva a que os chamados “custos de defesa” tipicamente cresçam de forma mais rápida do que as despesas não-militares. A corrida global aos armamentos para construir sistemas de armas maiores, mais mortíferos e temíveis levam-nos a orçamentos militares cada vez mais elevados. E por fim, estes sistemas de armamentos tornam-se obsoletos quando tecnologias mais recentes e mais caras acabam inevitavelmente por aparecer.

Esta interminável competição armamentista entre nações, e a constante prontidão para uma guerra global que as nações sentem dever estar preparadas, tornou-se um dos maiores falhanços da nossa civilização moderna, um ciclo vicioso que constitui um abominável crime colectivo contra a humanidade. Leva-nos a prosperidade, rouba comida da boca das crianças e gasta enormes quantidades de dinheiro na morte e não na vida.

As armas não produzem o que quer que seja. Quando uma fábrica produz um camião, por exemplo, esse camião realiza trabalho, e continua a fazê-lo ao longo da sua vida útil, contribuindo para a economia e para as pessoas que o utilizam. Mas quando uma fábrica produz uma arma, esta não dá qualquer contributo. Essa arma fica estática – um míssil num silo não faz qualquer trabalho útil – não tendo qualquer proveito para a sociedade que o produz, excepto no momento em que é usada e produz morte. O último presidente militar dos EUA, o general Dwight D. Eisenhower, afirmou:
Cada arma que é produzida, cada navio de guerra que é lançado, cada míssil que é disparado, significa, no fundo, um roubo aos que têm fome e não são alimentados, aos que têm frio e não têm roupa. Um mundo com armas não está só a gastar dinheiro. Está a consumir o suor dos seus operários, o génio dos seus cientistas, as esperanças das suas crianças. O custo de um bombardeiro moderno é este: uma escola moderna em mais de 30 cidades; são duas centrais eléctricas que servem cidades de 60.000 pessoas; são dois hospitais completamente equipados; são 75 quilómetros de estrada pavimentada. Pagamos por um único avião de combate meio milhão de alqueires de trigo. Pagamos por um único cruzador uma quantidade de casas que podia alojar 8000 pessoas. Esta é, repito, a melhor forma de vida que encontramos no caminho que o mundo está a tomar. Mas isto não é sequer uma forma de vida, em qualquer verdadeiro sentido. Sob as nuvens de uma guerra ameaçadora, é a humanidade que se coloca numa cruz de ferro. (…) Não haverá outra forma para o mundo viver? (“The Chance for Peace,” from a speech given to the American Society of Newspaper Editors, April 16, 1953.)
Os ensinamentos Bahá’ís concordam, dizendo que cada uma destas armas e sistemas de armamento representam um falhanço espiritual e proporções épicas, designando-os como “os frutos malignos da civilização material”:
...entre os ensinamentos de Bahá’u’lláh está o de apesar da civilização material ser meio de progresso do mundo da humanidade, enquanto não se combinar com a civilização Divina, o resultado desejado – que é a felicidade da humanidade - não será alcançado. Pensem! Estes couraçados que reduzem uma cidade a ruínas no espaço de uma hora são o resultado da civilização material; igualmente, os canhões Krupp, as espingardas Mauser, a dinamite, os submarinos, torpedos, aviões armados e bombardeiros - todas estas armas de guerra são os frutos malignos da civilização material. Se a civilização material tivesse sido combinada com a civilização Divina, estas armas de fogo nunca teriam sido inventadas. Pelo contrário, a energia humana teria sido totalmente dedicada a invenções úteis e ter-se-ia concentrado em descobertas louváveis. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 303)
Então o que pode transformar a nossa civilização material altamente militarizada numa civilização divinamente unida, pacífica e produtiva, tal como previsto pelos ensinamentos Bahá’ís? No próximo artigo vamos tentar responder a esta pergunta fundamental, analisando as principais causas da guerra.

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Texto original: No One Wins an Arms Race (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 13 de outubro de 2018

Como seria um Mundo Pacífico?

Por David Langness.


Mais do que qualquer outra coisa, os ensinamentos Bahá’ís focam-se no alcançar a paz universal através da unidade global – a unidade das raças, religiões e nações.

A visão de Bahá’u’lláh para o futuro da humanidade centra-se em torno da construção da unidade do planeta, estabelecendo laços de fraternidade entre todos os povos e nações, e descobrindo o nosso rumo, enquanto espécie, para uma paz global duradoura, justa e unificadora:
Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar toda a terra. Esforçai-vos para que consigais alcançar esta condição transcendente e mui sublime, uma condição que pode assegurar a protecção e segurança de toda a humanidade. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Todos os dias milhões de Bahá’ís celebram, honram e trabalham diligentemente para este ideal irresistível. Shoghi Effendi - o Guardião da Fé Bahá’í e historiador e intelectual educado em Oxford - resumiu esse ideal quando, em 1936, delineou brevemente a visão Bahá’í da unificação da humanidade:
A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas.

Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que a integram, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos.

Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial.

Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal.

Um mecanismo de intercomunicação mundial será concebido, envolvendo todo o planeta, livre de entraves ou restrições nacionais, e funcionando com maravilhosa rapidez e perfeita regularidade.

Uma metrópole mundial actuará como centro nervoso de uma civilização mundial, foco para onde convergirão as forças unificadoras da vida e da qual emanarão as suas influências estimulantes.

Uma língua mundial será inventada ou escolhida entre as línguas existentes e será ensinada nas escolas de todas as nações federadas como auxiliar à sua língua materna.

Uma escrita mundial, uma literatura mundial, um sistema universal e padrão de moeda, pesos e medidas simplificará e facilitará o relacionamento e a compreensão entre nações e raças da humanidade.

Nessa sociedade mundial, ciência e religião, as duas mais poderosas forças da vida humana, reconciliar-se-ão, cooperarão e desenvolver-se-ão harmoniosamente.

A imprensa, num tal sistema, dará um espaço pleno à expressão das diversificadas opiniões e convicções da humanidade e deixará de ser manipulada de forma maliciosa por interesses poderosos, sejam privados ou públicos, e libertar-se-á da influência de governos e povos rivais.

Os recursos económicos do mundo serão organizados, as suas fontes de matérias primas serão aproveitadas e totalmente utilizadas, os seus mercados serão coordenados e desenvolvidos, e a distribuição dos seus produtos será regulada equitativamente.

Rivalidades, ódios e intrigas entre nações cessarão e a animosidade e o preconceito racial serão substituídos pela amizade, compreensão e cooperação raciais.

As causas de luta religiosa serão permanentemente removidas, as barreiras e as restrições económicas serão completamente abolidas, e a desmesurada distinção entre classes será suprimida.

A indigência, por um lado, e a acumulação grosseira de bens, por outro, desaparecerão.

A enorme energia que se gasta e desperdiça na guerra, seja económica ou política, será consagrada a objectivos, como o alargamento do alcance das invenções humanas e o desenvolvimento técnico, o aumento da produtividade da humanidade, o extermínio da doença, o alargamento da investigação científica, a melhoria do nível de saúde física, o aperfeiçoamento e refinamento do cérebro humano, a exploração dos recursos insuspeitos e não utilizados do planeta, o prolongamento da vida humana e a promoção de qualquer outro meio que estimule a vida intelectual, moral e espiritual de toda a raça humana. (The World Order of Bahá’u’lláh, p. 203.)
Esta poderosa e emocionante visão Bahá’í sobre uma nova ordem mundial - caracterizada pela justiça, paz e unidade - inspira Bahá’ís e os seus apoiantes em todo o mundo a trabalhar para o dia em que as forças unificadoras da vida culminem num mundo pleno de esperança, alegria e harmonia.

Se essa visão agita a sua alma e intriga a sua mente, talvez lhe interesse saber mais sobre como o plano de paz Bahá’í pretende trazer esse mundo justo e pacífico à existência. Vamos analisar, no próximo texto desta série, como os ensinamentos Bahá’ís recomendam que façamos o desarmamento do nosso planeta.

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Texto original: What Would a Peaceful World Look Like? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de outubro de 2018

Poderemos alguma vez estabelecer a paz universal?

Por David Langness.


Durante milénios, os seres humanos sonharam com a paz universal. Desejaram-na há tanto tempo; e, no entanto, ela ainda não surgiu. E por causa disso, muitas pessoas perderam a esperança.

É triste, não é verdade? Em muitos aspectos, até a possibilidade de uma paz futura se tornou impensável – quando foi a última vez que o leitor pensou nessa ideia? Como resultado, houve quem concluísse que a paz mundial representa uma utopia fantasista inatingível. E pelo facto de os seres humanos terem um passado histórico de guerra e violência, estamos condenados eternamente a viver entre conflitos sangrentos. Somos criaturas belicosas, prossegue o raciocínio, e por isso teremos sempre guerra.

Esta conclusão simplista tem sido tema de centenas de livros, artigos e investigações científicas, muitos deles concluindo que os seres humanos estão geneticamente programados para ser agressivos, violentos e combativos.

O psiquiatra Sigmund Freud defendeu esta ideia quando afirmou que todos os seres têm consigo um reservatório de “energia agressiva” que emerge naturalmente como violência.

Mas esta ideia elementar - de que os seres humanos são criaturas inerentemente violentas - tem sido enfatizada e apoiada por alguns cientistas e filósofos desde há muito tempo. Um artigo recente na revista The National Interest, intitulado What Our Primate Relatives Say About War (“O que dizem os nossos Parentes Primatas sobre a Guerra”) afirma que nos guerreamos e nos matámos durante tanto tempo “porque somos humanos”.

Outro artigo no New Scientist defende que a guerra tem “desempenhado um papel integrante na nossa evolução” e assume como um dado adquirido que a guerra estará sempre connosco. Até o respeitável jornal de investigação Science afirmou em 2016 que “a guerra era tão comum nas sociedades de caçadores-colectores que se tornou um importante elemento de pressão evolutiva entre os primeiros Homo Sapiens”.

Poderíamos resumir esta filosofia numa frase: a guerra é inevitável e sempre será porque está gravada no nosso ADN, na nossa natureza humana elementar.

Quem acredita nisso?

Os ensinamentos Bahá’ís não acreditam. Os Bahá’ís entendem que a paz não é uma ilusão: pelo contrário, os Bahá’ís acreditam que a nova revelação de Bahá’u’lláh pôs em marcha um plano de paz amplo e prático que agora está a eliminar a guerra de forma gradual e permanente. Os Bahá’ís reconhecem que os impulsos humanos violentos provocaram a guerra no passado, mas têm fé que a paz um dia se tornará uma realidade global:
A paz universal é assegurada por Bahá’u’lláh como uma realização fundamental da religião de Deus – que a paz prevaleça entre nações, governos e povos, entre religiões, raças e todas as condições da humanidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 455)
Tem dúvidas? Então saiba que milhões de pessoas em todo o mundo, em todos os continentes, culturas e civilizações estão a pôr em prática diariamente o plano de paz Bahá’í.

Isto representa algo inteiramente novo. Pela primeira vez na história humana, foi criada uma força pacificadora global com bases locais – um movimento de massas não-violento, unificado, para pôr fim à guerra. O leitor pode ainda não ter reparado neste movimento pois as suas tácticas e técnicas são tranquilamente pacíficas; mas esse movimento – a causa Bahá’í – reuniu um exército de seguidores dedicados, um facto sem precedentes nas narrativas da nossa espécie.

Assim, nesta série de ensaios vamos analisar o plano de paz Bahá’í de todas as perspectivas possíveis, tentar perceber o seu âmbito e compreender os seus princípios fundamentais e propósito derradeiro.

Mas antes disso, vamos reflectir sobre alguns excertos dos Escrituras Bahá’ís sobre o princípio Bahá’í da paz universal:
Ordenámos a toda a espécie humana que estabelecesse a Mais Grandiosa Paz – o mais seguro de todos os meios para protecção da humanidade... pois este é o instrumento supremo que pode garantir a segurança e o bem-estar de todos os povos e nações. (Tablets of Baha’u’llah, p. 125.)

O propósito de Deus ao enviar os Seus Profetas aos homens é duplo. O primeiro é libertar os filhos dos homens das trevas da ignorância e guiá-los à luz da verdadeira compreensão. O segundo é garantir a paz e a tranquilidade da espécie humana, e proporcionar todos os meios com os quais elas possam ser estabelecida. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec. XXXIV)

Ó governantes da terra! Porque haveis obscurecido o esplendor do Sol e feito com que Ele deixasse de brilhar? Dai ouvidos ao conselho que vos é dado pela Pena do Altíssimo, para que, porventura, vós e os pobres possais alcançar a tranquilidade e a paz. Suplicamos a Deus que ajude os reis da terra a estabelecer a paz no mundo…

Ó reis da terra! Vemos-vos todos os anos a aumentar as vossas despesas e a colocar o fardo destas sobre os vossos súbditos. Isto, em verdade, é total e grosseiramente injusto. Temei os suspiros e as lágrimas deste Injustiçado e não coloqueis encargos excessivos sobre os vossos povos. Não os roubem para construir palácios para vós; pelo contrário, escolhei para eles aquilo que escolheis para vós próprios. (Idem, sec. CXIX)

Cada era exige um impulso ou um movimento central. Nesta era, os limites das coisas terrenas alargaram-se; as mentes assumiram um campo de visão mais amplo; as realidades revelaram-se e os segredos do ser foram trazidos para o reino do visível. Qual é o espírito desta era, qual é o seu ponto focal? É o estabelecimento da Paz Universal, o estabelecimento do conhecimento de que a humanidade é uma família. (‘Abdu’l-Bahá, Baha’i Scriptures, p. 274.)

Não há uma única alma cuja consciência não testemunhe que neste dia não existe assunto mais importante no mundo do que o da paz universal. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, nº 227)
Com estas poderosas afirmações em mente, vamos explorar o modelo revelado por Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá – o profeta fundador da Fé Bahá’í e o Seu filho e sucessor – para este objectivo enorme, ambicioso e derradeiro que é o estabelecimento da paz universal. Convido-o a acompanhar esta série de artigos sobre o plano de paz Bahá’í e a ver se estes o ajudam a acreditar que a paz é verdadeiramente possível.

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Texto original: Can We Ever Establish Universal Peace? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 2 de setembro de 2017

A verdadeira Religião nunca apela à guerra

Por David Langness.


Uma amiga minha perguntou-me uma vez: "Como é que distingues uma religião verdadeira de uma falsa?" Tive que pensar um pouco na resposta.

E depois de pensar durante alguns dias, respondi-lhe: "As verdadeiras religiões pedem sempre a paz. Se alguém quer guerra – seja um indivíduo, uma organização, ou uma nação – então isso é uma falsa religião. Deus não quer a guerra".

A minha amiga adorou esta definição, mas não conseguia acreditar nela. Expliquei-lhe que era uma explicação dos ensinamentos Bahá'ís:
... a guerra é destruição, enquanto a paz universal é a construção; A guerra é a morte enquanto a paz é a vida; a guerra é a rapacidade e a sede de sangue, enquanto a paz é a beneficência e a humanidade; a guerra é uma pertença do mundo da natureza, enquanto a paz é a base da religião de Deus; a guerra são trevas sobre trevas, enquanto a paz é luz celestial; a guerra é o destruidor do edifício da humanidade, enquanto a paz é a vida eterna do mundo da humanidade; a guerra é como um lobo devorador, enquanto a paz é como os anjos do céu; a guerra é a luta pela existência, enquanto a paz é a ajuda mútua e a cooperação entre os povos do mundo e o motivo do bom-agrado do Verdadeiro no reino celestial. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #227)
"A paz", escreveu ‘Abdu’l-Bahá, é "a base da religião de Deus". Apesar de sabermos que os seguidores das religiões do passado nem sempre agiram pacificamente, também sabemos que os ensinamentos originais da maioria das grandes religiões do mundo aconselharam os fiéis a dar a outra face; para dominar os nossos instintos violentos; para estar em paz com todas as pessoas; para ser, e fazer, o bem no mundo.

Os textos de Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá falam abertamente sobre a paz universal e o caminho a seguir para a alcançar. Na verdade, os ensinamentos Bahá’ís dizem claramente que Bahá’u’lláh trouxe uma nova mensagem de paz para o mundo, enfatizando a não-violência, a desmilitarização e um sistema global de governação - tudo em nome do estabelecimento de um sistema que elimine a guerra de forma universal e permanente:
O Sol da Verdade surgiu no horizonte deste mundo e lançou os seus raios de orientação. A graça eterna é ininterrupta, e um fruto dessa graça eterna é a paz universal. Tende a certeza que, nesta era do espírito, o Reino da Paz levantará o seu tabernáculo nos cumes do mundo, e os mandamentos do Príncipe da Paz dominarão plenamente as artérias e os nervos de todos os povos, para atrair para a Sua sombra protectora todas as nações na terra. (Idem, #201)
Quem procurar nas escrituras de Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá, perceberá que eles deram muita atenção à paz e à sua realização. Em Outubro de 1914, por exemplo, após o início da Primeira Guerra Mundial, ‘Abdu’l-Bahá escreveu uma poderosa carta anti-guerra para uma Bahá’í britânica chamado Beatrice Irwin, de Londres. Actriz, inventora, autora, viajante e conhecida poetisa, Irwin escreveu pela primeira vez a ‘Abdu’l-Bahá sobre a queda da Europa nos campos de batalha antes do início da guerra nos Balcãs.

‘Abdu’l-Bahá iniciou a sua famosa resposta a Beatrice Irwin com as seguintes palavras:
Ó filha amada! A tua carta foi recebida e por tua causa escrevi esta Mensagem. Este artigo, em resposta à tua questão, é muito importante. Faz o maior esforço para a sua publicação. (Star of the West, Volume 4, p. 243)
Depois parece que ‘Abdu’l-Bahá escreveu a sua carta para Beatrice Irwin como mais do que uma simples carta - pediu-lhe para fazer " o maior esforço" para encontrar quem publicasse o seu importante artigo.

O Seu texto começa assim, com alguma história pessoal e um grave aviso:
Após a proclamação do regime constitucional no turco em 1908, pelos membros do Comissão para a União e Progresso, este prisioneiro de quarenta anos [‘Abdu’l-Bahá refere-se a si próprio], andou e viajou durante três anos - de 1910 a 1913 - pelos países da Europa e pelo vasto continente da América. Não obstante a idade avançada com as suas consequências naturais, com uma voz sonora, fiz intervenções detalhadas perante grandes convenções e em igrejas históricas. Enumerei todos aqueles princípios contidos nas Epístolas e Ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre Guerra e Paz.

Há cerca de cinquenta anos atrás, Sua Santidade Bahá’u’lláh proclamou certos Ensinamentos e fez ouvir o Cântico da Paz Universal. Em inúmeros textos e diversas Epístolas, Ele pressagiou, na linguagem mais explícita, os actuais eventos cataclísmicos, afirmando que o mundo da humanidade estava a enfrentar o perigo mais poderoso e declarando categoricamente que a realização da Guerra Universal era, infelizmente, inevitável e inescapável. Pois os materiais combustíveis que foram armazenados nos arsenais infernais da Europa explodirão por contacto com uma faísca. Entre outras coisas, "os Balcãs tornar-se-ão um vulcão e o mapa da Europa será alterado". Por estas razões e outras semelhantes, Ele (Bahá’u’lláh) convidou o mundo da humanidade para a Paz Universal. Ele escreveu uma série de Epístolas aos reis e governantes e, nessas epístolas, explicou os males destrutivos da guerra e alongou-se sobre os sólidos benefícios e as nobres influências da Paz Universal. A guerra desfaz os alicerces da humanidade; matar é um crime imperdoável contra Deus, pois o homem é um edifício construído pela Mão do Omnipotente. A paz é a vida encarnada; a guerra é a morte personificada. A paz é o espírito divino; a guerra é uma sugestão satânica. A paz é a luz do mundo; a guerra são as trevas estigeanas e a escuridão ciméria. Todos os grandes profetas, antigos filósofos e Livros celestiais têm sido os precursores da paz e monitores contra a guerra e a discórdia. Este é o fundamento Divino; esta é a efusão celestial; esta é a base de todas as religiões de Deus. (Idem, Pp. 243-244)

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Texto original: True Religion Never Calls for War (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 15 de julho de 2017

Os Bahá’ís são pacifistas?

Por David Langness.


Pacifismo (nome masculino): 1. atitude de quem rejeita e condena qualquer forma de violência; 2. doutrina que defende o desarmamento das nações e que advoga a resolução dos conflitos internacionais por meios pacíficos
O texto anterior desta série terminou com uma importante citação do Livro Mais Sagrado de Bahá'u'lláh sobre o acto de matar:
... que nenhuma alma mate outra; isto, na verdade, é o que vos foi proibido num Livro que esteve oculto no Tabernáculo da glória. O quê! Mataríeis aquele que Deus ressuscitou, a quem Ele dotou de espírito através de um sopro Seu? Severa, pois, seria a vossa transgressão perante o Seu trono! Temei a Deus, e não levanteis a mão da injustiça e da opressão para destruir o que Ele próprio ressuscitou; pelo contrário, andai no caminho de Deus, o Verdadeiro. (The Most Holy Book, p. 45)
Considerando esta proibição clara como água no livro Bahá’í das leis, como é que os Bahá’ís vêem a autodefesa, a guerra e toda a questão da pena de morte? Mais especificamente, como é que o Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, que também permite a aplicação da pena capital para certos crimes, lida com a aparente contradição interna entre essas duas importantes leis sobre o acto de pôr termo a uma vida humana?

Seguramente, este assunto profundo daria facilmente para escrever muitos livros.

Para entender esses princípios, temos de os colocar no contexto de todo o corpo das leis Bahá’ís, que não exige um pacifismo estrito da parte da própria sociedade. Por um lado, os Bahá’ís acreditam que os indivíduos nunca devem prejudicar ou matar outros. De facto, Bahá'u'lláh diz que dar a própria vida é preferível a tirar a vida de outra pessoa:
... prestar auxílio a Deus, neste dia, não consiste nem consistirá, em confrontar ou disputar com qualquer alma; pelo contrário, o que é preferível aos olhos de Deus é que as cidades dos corações dos homens, que são governadas pelas hostes do ego e da paixão, sejam subjugadas pela espada da palavra, da sabedoria e do entendimento. Assim, quem procura ajudar a Deus deve, antes de tudo, conquistar, com a espada da explicação e do significado interior, a cidade do seu próprio coração e protege-la contra a lembrança de tudo salvo Deus, e só então partir para subjugar as cidades dos corações dos outros.

Esse é o verdadeiro significado de prestar auxílio a Deus. A sedição nunca foi agradável a Deus, nem os actos cometidos no passado por certos loucos foram aceitáveis aos Seus olhos. Sabei que ser morto no caminho da Sua complacência é melhor para vós do que matar. (The Summons of the Lord of Hosts, pp. 109-110)
Por outro lado, os Bahá’ís também acreditam que a sociedade, como um todo, tem o direito de usar a força para se defender e proteger:
Os Bahá’ís reconhecem o direito e o dever dos governos a usar a força para a manutenção da lei e da ordem e para proteger o seu povo. Assim, para um Bahá’í, o derramamento de sangue com essa finalidade não é necessariamente um erro essencial. A Fé Bahá’í estabelece uma distinção muito clara entre o dever de um indivíduo de perdoar e "ser morto em vez de matar" e o dever da sociedade de defender a justiça... Na actual condição do mundo, os Bahá’ís tentam manter-se fora dos conflitos mortíferos que assolam os seus semelhantes e evitam derramar sangue em lutas, mas isso não significa que sejamos pacifistas absolutos. (A Casa Universal de Justiça, 9 de Fevereiro de 1967)
Assim, numa perspectiva Bahá’í, as sociedades têm a opção, em circunstâncias terríveis, de usar a força defensiva:
É verdade que os Bahá’ís não são pacifistas, pois defendemos o uso da força ao serviço da justiça e da defesa da lei. Mas não acreditamos que a guerra seja muito necessária; a sua abolição é um dos propósitos essenciais e promessas mais brilhantes da Revelação de Bahá'u'lláh. O seu mandamento específico aos reis da terra é: “Se algum de vós pegar em armas contra outro, levantai-vos todos contra ele, pois isso não é nada senão justiça manifesta”. (Tablet to Queen Victoria, The Proclamation of Baha'u’lláh, 13) O amado Guardião explicou que a unidade da humanidade implica o estabelecimento de uma comunidade mundial, um sistema federal mundial, "... livre da maldição da guerra e das suas misérias... em que a Força se torna serva de Justiça..." cujo executivo mundial "apoiado por uma Força internacional... salvaguardará a unidade orgânica de toda a comunidade". Obviamente isso não é guerra, mas a manutenção da lei e da ordem à escala mundial. A guerra é a tragédia final da desunião entre as nações, onde não existe qualquer autoridade internacional suficientemente poderosa para as impedir de perseguir os seus próprios interesses limitados. Os Bahá'ís pedem, portanto, para servir os seus países de uma maneira não-combatente durante esses conflitos; eles servirão, sem dúvida, numa tal Força internacional como Bahá'u'lláh antevê, quando esta surgir. (De uma carta escrita em nome da Casa Universal de Justiça, 11 de Setembro de 1984)
Da mesma forma, as pessoas quando são atacadas têm o direito à autodefesa, desde que essa autodefesa não degenere em retaliação:
... um Bahá’í não deve se render, mas deve tentar, na medida do possível, defender-se e, mais tarde, apresentar uma queixa às autoridades governamentais. (A Casa Universal de Justiça, 26 de Maio de 1969)
Isto significa, tendo em conta o princípio do direito de uma sociedade a proteger-se, que pode, em casos extremos, executar um criminoso perigoso:
Um indivíduo não tem o direito de procurar vingança, mas o corpo político tem o direito de punir o criminoso. Essa punição tem o objectivo de dissuadir e impedir outros de cometerem crimes semelhantes. É para a protecção dos direitos do homem...

Mas o corpo político tem o direito de preservar e proteger. Não guarda rancor e nem nutre inimizade para com o assassino, mas escolhe prendê-lo ou puni-lo apenas para garantir a protecção dos outros. (‘Abdu'l-Baha, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 309-310)
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Texto original: Let No Soul Slay Another: are Baha’is Pacifists? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 31 de outubro de 2015

Ensinar Crianças a Odiar

Por Shirin Sabri.


Há muito exemplos históricos de sociedades que se esforçam por manter os seus preconceitos mais profundos.

Morris Fraser, um psicólogo infantil que trabalhou em Belfast com crianças traumatizadas pelo conflito na Irlanda do Norte, descreveu uma situação em que as crianças de cada lado viam as pessoas do outro lado como criaturas monstruosas:
... os equívocos e os preconceitos das crianças, como seria de esperar, reflectem os dos mais velhos - a sua única fonte de informação na ausência de experiência. Para a criança Protestante, o católico é um preguiçoso, desonesto, sujo, um criador de grandes famílias, gerador de pobreza comunitária... Na atitude da criança católica há um medo mais consciente. Para ela, o protestante é a pessoa que quer queimá-la, matá-la, privá-lo do seu lar e dos seus pais (Children in Conflict, p. 139)
Esta percepção preconceituosa e exagerada tornou-se uma parte significativa do trauma infantil.

Na Irlanda do Norte,
uma criança tenta falar com um militar britânico
Se pegarmos na citação anterior e substituirmos a palavra "Católica" por "Preto" e a palavra "Protestante" por "Branco", o texto poderia igualmente descrever de forma correcta as crianças em algumas áreas dos Estados Unidos. E poderíamos, igualmente, substituir a palavra "católica" por "Cigana" ou "Palestiniana", e a palavra "protestante" por "Checa" ou "Israelita". A imagem preconceituosa parece encaixar-se sempre. Isso dá-nos sinais fortes de que o preconceito não é sobre o grupo-alvo. Quando os fanáticos lançam os mesmos insultos humilhantes através das linhas de separação, sabemos que esses insultos são criados pelos sentimentos e desejos pessoais, e têm pouco a ver com as características observáveis nos alvos em causa.

Quando crianças irlandesas do doutor Fraser conheceram e falaram pela primeira vez com pessoas católicas (ou pessoas protestantes, conforme o caso) o seu terror e ódio desapareceram. No fundo, eram apenas pessoas; não eram as criaturas repugnantes e más que tinham imaginado. No seu livro, Fraser afirma que as crianças da Irlanda (e sociedade irlandesa como um todo) beneficiariam muito com uma educação integrada. Quando o livro foi escrito, todas as crianças católicas frequentavam a escolas católicas e todas as crianças protestantes frequentavam escolas públicas. Fraser salientou que todos os esforços para mudar esta situação enfrentaram uma resistência vigorosa, tanto do Estado como da Igreja. E acrescenta:
Os líderes da Igreja em Ulster não gostam da palavra "segregação"; preferem dizer que o sistema é simplesmente de "educação separada." Dizem-nos que as crianças podem brincar nas ruas depois da escola, pois não existe qualquer proibição sobre isso. "Lamentável absurdo", escreveu um professor no Irish News. "Lamentável, porque soa como a justificação agradável para qualquer leitor que não conhece o Ulster. Absurdo, porque, num sistema de gueto, isso é uma impossibilidade física." - Ibid., P. 168.
Cada grupo quis manter o que entendia ser o seu território, a sua área de poder e de controlo. Era contra os seus próprios interesse deixar que as crianças se misturassem, vissem as coisas com os seus próprios olhos e aprendessem por si próprias.

Preconceitos, deliberadamente atiçados por quem está no poder, criam uma atmosfera que produz atrocidades. No período que antecedeu os 1994 massacres de Tutsis e Hutus moderados em Ruanda, "foram distribuídos cartazes e folhetos que desumanizadas Tutsis como «cobras», «baratas» e «animais»" (Leia uma crónica dos acontecimentos que ocorreram no Ruanda, em 1994). Esta desumanização deliberada permitiu o genocídio que ocorreu depois.

Os Bahá'ís compreendem esse tipo de preconceito, porque eles próprios, por vezes, sofrem com essa eliminação deliberada da sua humanidade. Desde a revolução no Irão, por exemplo, os trabalhadores de recenseamento muitas vezes informam que aldeias predominantemente ou exclusivamente Baha'is não têm população. E quando lhes pedem para explicar a discrepância, respondem friamente: "eles não são humanos seres" ou "eles são apenas Bahá'ís" (Peter Smith, In Iran: Studies in Babi and Baha’i History, p. 218).

'Abdu'l-Bahá sugere:
Não se enalteçam acima dos outros, mas considerem todos como vossos iguais, reconhecendo-os como servos do Deus uno. Saibam que Deus é compassivo para com todos; portanto, amem a todos das profundezas dos vossos corações, dêem preferência aos seguidores de todas as religiões antes de vós próprios, tenham pleno amor por todas as raças e sejam amáveis com pessoas de todas as nacionalidades. Nunca falem de modo depreciativo sobre os outros, mas elogiem sem distinção. Não manchem as vossas línguas a falar mal dos outros. (The Promulgation of Universal Peace, p. 452)
Nestes tempos, temos muitas oportunidades para observar os resultados da educação das crianças numa atmosfera de preconceito, e da sua alimentação com imagens manipuladas e fantasiosas sobre "o mal dos outros." Quando as crianças não podem investigar a verdade por si próprias, elas aprendem a ver o outro lado como o bicho-papão, pois eles são facilmente doutrinadas. Muitos tornaram-se crianças-soldados, tragicamente incapazes de ver os seus inimigos como seres humanos. Um jovem que fugiu à vida de criança-soldado no Sudão recorda: "O meu desejo era matar o maior número possível de muçulmanos e árabes, e o segundo era que eu queria uma bicicleta" (leia esse relato a partir de uma ex-criança-soldado no Sudão).

Estas atitudes desenvolvem-se numa atmosfera de desconfiança e ódio entre adultos. As crianças da comunidade absorvem as atitudes dos adultos. Isso não surpreende, nem assusta, os adultos envolvidos, até que eles percebam que a criança reflecte algo bizarro, distorcendo e exagerando tudo o que vê, por vezes transformando uma simples aversão e desprezo num desejo selvagem de aniquilação, tal como acontece em muitas comunidades divididas. Em todo o mundo, os filhos de adultos preconceituosos e intolerantes entram na sua própria vida adulta cheios de necessidade de justificar as suas próprias acções repletas de ódio, culpando ainda mais as suas vítimas. E depois, a sociedade que semeou ventos começa a colher tempestades.

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Texto original: Teaching Children to Hate (www.bahaiteachings.org)

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Shiring Sabri é professora de história e Literatura na Townshend International School na Republica Checa. Tem vários ensaios e poemas publicados, nomeadamente The Incomparable Friend: The Life of Bahá’u’lláh Told in Stories (2006), The Pinckelhoffer Mice (1992) e  The Purpose of Poetry (the Journal of Bahá’í Studies Vol.1, no.1).

sábado, 27 de junho de 2015

Podemos acabar com a guerra?

Por Rodney Richards.


GUERRA, substantivo feminino. 1.conflito armado entre grupos ou estados que envolve mortes e destruição; luta; 2.conflito entre estados ou no interior de um estado que se caracteriza por coacção política, económica, psicológica ou militar; 3. conjunto de operações militares entre nações ou grupos; campanha; 4. situação de hostilidade entre pessoas ou grupos políticos; oposição.
Finalmente, a humanidade começou a ficar cansada da guerra.

Guerra Colonial Portuguesa - Guiné-Bissau
Até agora, no século 21 não tivemos qualquer guerra global generalizada, graças a Deus. Claro, que desde a Segunda Guerra Mundial, os governantes desencadearam dezenas de guerras: as guerras indo-paquistanesas, a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietname, a Guerra dos Seis Dias, a Guerra Colonial Portuguesa, a Guerra Suja na Argentina, e até mesmo a Guerra do Futebol, em 1969. Mas desde o início deste século, as guerras têm vindo a diminuir e têm surgido pequenas "revoltas", "guerras de independência", "acções militares", e especialmente "agitações civis". Mas não nos enganemos: estas guerras "menores" ainda provocam o mesmo sofrimento absoluto que as grandes guerras. Miséria e destruição contínuas, êxodos de populações ao longo de grandes distâncias, e morte para dezenas de milhares. Mas neste século, o mundo ainda não teve uma guerra com os números de mortos na casa dos milhões.

Não há guerras ou conflitos de qualquer tipo na América do Norte, a menos que contemos os conflitos raciais e sociais e a "guerra das drogas" no México. A América Central e do Sul mantiveram-se relativamente tranquilas, com excepção de várias guerras civis, agora terminadas, na Nicarágua e em El Salvador, e a Guerra das Malvinas, de curta duração em 1982. A Europa, o progenitor da maioria das guerras na Terra no século 20, tem estado relativamente incólume. O Bloco de Leste e a sua ideologia desfez-se em 1989; vários conflitos de pequena dimensão surgiram na região, mas ainda não surgiu nenhuma guerra de grande dimensão. China tem estado calma. Em África têm ocorrido várias rebeliões e golpes, mas a maior parte do continente permanece calmo.

Porquê?

Os Bahá'ís acreditam que a humanidade está a atingir a sua maioridade - para trás ficam seis mil anos de guerra e derramamento de sangue constantes - e a tornar-se uma espécie mais cautelosa, compreensiva e espiritual:
... é nosso dever fazer os nossos maiores esforços e reunir todas as nossas energias, para que os laços de unidade e harmonia possam ser estabelecidos entre a humanidade. Durante milhares de anos, tivemos carnificinas e conflitos. Foi bastante; já chega. Agora é o momento de nos associarmos em amor e harmonia. Durante milhares de anos usámos a espada e a guerra; deixemos a humanidade viver em paz, pelo menos durante algum tempo. Revejam a história e considerem quantas selvajarias, quantas carnificinas e batalhas o mundo testemunhou. Foi devido a guerras religiosas, guerras políticas ou alguns outros choques de interesses humanos. O mundo da humanidade nunca teve a bênção da Paz Universal. Ano após ano, as ocorrências de guerra foram aumentando e aperfeiçoando-se. Consideremos as guerras dos séculos passados; apenas dez, quinze ou vinte mil, no máximo, foram mortos; mas agora é possível matar cem mil num único dia. Nos tempos antigos, a guerra era executada com a espada; hoje é com armas sem fumo. Antigamente os navios de guerra eram veleiros; hoje são couraçados. Consideremos o aumento e aperfeiçoamento das armas de guerra. Deus criou-nos todos humanos e todos os países do mundo são partes de um mesmo globo. Somos todos Seus servos. Ele é bondoso e justo para todos. Porque devemos ser cruéis e injustos uns com os outros? Ele ampara todos. Porque devemos despojar-nos uns aos outros? Ele protege e preserva todos. Porque devemos matar os nossos semelhantes? ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 50)
As guerras em que nos envolvemos dão para escrever milhares de livros. No entanto, a humanidade pode-se alegrar! Podemos regozijar-nos! As guerras, no sentido tradicional de manter ou expandir as fronteiras de um país contra outro, estão quase a acabar. As consequências da guerra moderna e das armas nucleares tornaram-se demasiado terríveis de suportar - ou desencadear. As escrituras Bahá'ís destacam isso:
Unificação da humanidade inteira é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e nação foram sucessivamente tentadas e completamente estabelecida. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade aflita se encaminha. A construção de nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado está a dirigir-se em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 282)
É verdade que tivemos algumas guerras no século 21 - Iraque, Afeganistão, Síria, para citar apenas três – mas estas assumiram a forma de um novo tipo de guerra travada por uma coligação de forças militares de diversos países. Estas guerras não pretendiam alterar fronteiras.

Guerras militares para colonizar ou construir nações praticamente acabaram, e hoje as disputas territoriais são feitas pela via diplomática ou nos tribunais. Podemos estar gratos pelo desaparecimento das guerras mundiais globais; no entanto, a agitação da humanidade cresce com o seu descontentamento em relação à velha Ordem Mundial, como tem sido claramente demonstrado por apelos de cidadãos em todo o mundo que reúnem em gigantescas manifestações de agitação civil.

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Texto original: Can we end War? (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 11 de outubro de 2014

6 Lições Importantes do Prémio Nobel da Paz

Por Homa Sabet Tavangar.


Esta manhã, enquanto esperava que o meu café aquecesse, tive um sobressalto ao ler as notícia no meu telemóvel quando vi o título “Malala Yousafzay e Kailash Satyarthi recebem Prémio Nobel da Paz”. Fiquei com o coração aos saltos e senti que o meu cérebro quase já não precisava de café. Isto é fantástico. E quem é o Kailash não-sei-quantos?

Malala Yousafzay recebida na Casa Branca pelo Presidente Obama
Li rapidamente a notícia e fiquei a saber mais alguma coisa sobre os vencedores e porque motivo ambos constituem uma escolha ponderada pelo Comité Nobel norueguês. É também um fantástico momento de aprendizagem, um estudo de contrastes que demonstra que o mundo tem, de facto, capacidade para a paz, apesar dos títulos das notícias que usualmente apontam o contrário.

Leia-se todo o anúncio do Prémio Nobel da Paz para compreender a ideia por detrás da escolha. Explica-se que o prémio vai para "Kailash Satyarthi e Malala Yousafzay pela sua luta contra a supressão de crianças e jovens e pelo direito de todas as crianças à educação. O Comité Nobel ... considera isso como um aspecto importante para um hindu e uma muçulmana, um indiano e uma paquistanesa,juntarem-se numa luta comum pela a educação e contra o extremismo".

Esta escolha tem seis lições importantes para reflectir sobre os ingredientes da paz:

1.   Todas as idades podem causar impacto: Aos 17 anos, Malala é a mais jovem vencedora do Prémio Nobel da Paz por décadas. (O vencedor mais jovem seguinte do Prémio Nobel da Paz foi a iemenita Tawakkol Karman, que tinha 32 anos na época, também muçulmana, mulher, e do Médio Oriente). O sr. Satyarthi tem 60 anos de idade. Com idade suficiente para ser avô de Malala, ele passou décadas num serviço paciente e protesto pacífico pelos direitos das crianças na tradição de Gandhi.

2.   Mulheres e homens devem trabalhar juntos: quando homens e mulheres trabalham juntos para promover a paz, a educação e os direitos de todos, todos nós nos beneficiamos. São como as duas asas de um pássaro que se complementam, trabalhando em conjunto para a humanidade voar mais alto. Com o encorajamento do seu pai, Malala estabeleceu a sua voz em nome dos direitos da educação das meninas, e tem voado cada vez mais alto desde então. 
O mundo da humanidade tem duas asas - uma são as mulheres e a outra são os homens. Só quando ambas as asas estiverem igualmente desenvolvidas, o pássaro poderá voar. Se uma asa continuar fraca, é impossível voar. Só quando o mundo das mulheres se tornar igual ao mundo dos homens na aquisição de virtudes e perfeições, podem o sucesso e a prosperidade ser alcançados como deveriam ser. (’Abdu’l-Bahá, A Compilation on Women, pp. 8)
3.   Respeitar a diversidade de religiões: como salienta a declaração Prémio Nobel da Paz, os dois laureados são hindu e muçulmana, trabalhando para objetivos semelhantes, de forma pacífica. Durante décadas, os extremistas e os líderes lutaram uns contra os outros, mas nunca falaram em nome de muitas pessoas.

4.   Respeitar a diversidade de nacionalidades: apesar de vizinhos (e por vezes, parentes), indianos e paquistaneses têm estado envolvidos em conflitos durante décadas. Mais uma vez, podemos fazer melhor. Queremos paz.

5.   Respeitar a diversidade de abordagens: depois escrever em blogs e defender os direitos da educação das meninas, Malala, seguidamente, sobreviveu a um violento, tornando-se uma porta-voz inspiradora ao nível global durante a sua dramática convalescença; ela ainda está na escola secundária. O sr. Satyarthi desistiu da sua carreira como engenheiro elétrico há mais de três décadas atrás, para criar o Bachpan Bachao Andolan, ou Movimento Salvem a Infância, liderando o caminho para eliminar o tráfico de crianças e o trabalho infantil na Índia.

6.   Respeitar a diversidade da fama: Malala é um dos rostos e nomes mais conhecidos no mundo, respeitada pela sua coragem, pela sua eloquência e pelos seus apoios. Satyarthi, apesar de ter dedicado décadas ao assunto, é praticamente um desconhecido fora do seu país e da causa, mostrando que não é preciso ser famoso para causar impacto.

À medida que aprendemos mais sobre a escolha do Nobel, tenho certeza que vamos descobrir muitas mais lições nos exemplos inspiradores e contrastantes destas duas vidas incríveis. No seu todo, pude ler outra mensagem nas entrelinhas: o princípio Bahá'í de que todos são necessários para construir a paz. Precisamos de compromisso, tal como estes dois heróis têm mostrado, e precisamos de respeitar as nossas diferenças, aumentando a persistência, a probabilidade e a força de paz numa escala global. Acima de tudo, precisamos de unidade.

Parabéns Malala e sr. Satyarthi! E que os nossos próprios esforços vos deixem orgulhoso.

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Texto original: 6 Important Lessons from the Nobel Peace Prize (bahaiteachings.org)

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Homa Tavangar Sabet é autora do conhecido livro Growing Up Global: Raising Children to Be At Home in the World. Este livro foi muito bem recebido pela crítica da BBC, NBC, ABC, Washington Post.com, Chicago Tribune, Boston Globe, PBS, FoxNews.com e Huffington Post. Este livro tem servido de base para diversas iniciativas nos EUA que pretendem ajudar diversas audiências (desde administradores de empresas a educadores de infância) a viver melhor num mundo global.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Fareed Zakaria: O Mundo Pós-Americano (3)

Uma Paz Menor?

Escreve Fareed Zakaria no seu livro "O Mundo Pós Americano":
A guerra e a violência organizada diminuíram dramaticamente ao longo das duas últimas décadas. Ted Robert Gurr e a sua equipa de académicos do Centro para o Desenvolvimento Internacional e para a Gestão de Conflitos da Universidade de Maryland seguiram os dados cuidadosamente e chegaram à seguinte conclusão: «A magnitude geral da guerra global diminuiu cerca de 60 por cento [desde meados da década de 1980], tendo caído em 2004 para o seu nível mais baixo desde a década de 1950». A violência aumentou regularmente durante a Guerra Fria – seis vezes entre a década de 1950 e o início da década de 1990 –, mas atingiu o máximo pouco antes do colapso da União Soviética, em 1991, e a «extensão da guerra no interior dos estados ou entre eles diminuiu para metade na primeira década após o fim da Guerra Fria». Steven Pinker, professor em Harvard versado numa série de áreas, defende que «hoje em dia, estamos provavelmente a viver o período mais pacífico de toda a existência da nossa espécie.» (p.17)
Será que Fareed Zakaria nos apresenta algumas evidências da Paz Menor?

Lembro que o termo "Paz Menor" é usado nas Escrituras Baha’is para definir uma paz política entre as nações. Shoghi Effendi definiu-o como um processo gradual em que as nações da terra, ainda inconscientes da Revelação de Bahá'u'lláh aplicariam os princípios gerais por Ele enunciados, reconheceriam unidade da humanidade e procederiam à unificação política do planeta, criando um Governo Mundial.

Na minha opinião (e isto é uma opinião muito pessoal!) o processo da paz menor iniciou-se no final do século XX. Não é um processo de evolução linear; tem tido (e continuará a ter) os seus avanços e recuos. O que Fareed Zakaria nos apresenta são algumas evidências deste processo.