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sábado, 25 de outubro de 2025

As Nossas Dúvidas Legítimas sobre Deus

Por Tom Tai-Seale.


Há muitas razões para não acreditar em Deus. Muitas pessoas boas e honestas simplesmente não conseguem compreender como é que o universo tal como o conhecem pode ser conciliado com os conceitos populares de um Ser Supremo.

Um conceito desafiador – um Deus pessoal – pode parecer absurdo. Existe uma distância enorme e intransponível entre uma pessoa que recebeu a vida (e necessita de uma série de outros dons para sobreviver) e um Criador independente de qualquer necessidade. De facto, parece que o conceito de um Deus semelhante a uma pessoa foi herdado dos gregos e romanos clássicos, cujos múltiplos deuses míticos eram demasiado parecidos com pessoas. Em última análise, e por definição, seja quem for ou o que for Deus, esse Deus deve estar muito além da nossa compreensão. O fundador da Fé Bahá’í, Bahá’u’lláh, talvez se tenha expressado melhor, explicando:

Dez mil Profetas, cada um deles um Moisés, estão estupefactos no Sinai da sua busca, perante Sua [de Deus] Voz proibitiva: "Nunca Me contemplarás!"; enquanto uma miríade de Mensageiros, cada um tão grandioso como Jesus, estão consternados, nos seus tronos celestiais, pela interdição: "A Minha Essência jamais a perceberás!" (Bahá’u’lláh, Gleanings, XXVI)

Mas o Deus revelado nestas palavras de Bahá'u'lláh ainda parece uma pessoa, expressa com o pronome "Me" no versículo anterior. Portanto, mesmo para aqueles que compreendem o quão incompreensível Deus deve ser, há algum sentido em que Deus deve ser como nós – ou melhor, nós devemos ser como o Deus que nos criou. Na tradição judaico-cristã-islâmica-bahá’í, somos feitos à imagem de Deus, e na tradição hindu também o somos – porque o nosso eu se dissolve no Eu do Supremo e faz parte da mesma substância, como explica o Adhyatma Upanishad.

Não precisamos de acreditar em nada literal quando consideramos um Deus pessoal – em vez disso, podemos conceber Deus como semelhante a nós apenas no sentido em que podemos experimentá-Lo como algo familiar, íntimo. Neste sentido, Deus está próximo, imanente, dentro de nós.

Mas geralmente entendemos a noção de um Deus pessoal como um contraste com um Criador impessoal ou transcendente – e os filósofos há muito que compreenderam que Deus deve ser tanto pessoal como impessoal. Um Ser Supremo deve ser imanente, porque estamos ligados a Deus; e transcendente, porque Deus é maior do que nós. Embora possamos ter pensamentos inspirados sobre Deus, no fundo são apenas pensamentos humanos limitados. De facto, a Bíblia explica que Deus declara: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos…” – Isaías 55:8-9. Portanto, Deus é – e não é - como nós – um mistério e um enigma para além da nossa capacidade de compreensão.

A noção de um Deus pessoal induz também (entre nós que usamos a língua portuguesa, e outras igualmente sobrecarregadas por distinções de género) o hábito de atribuir um pronome de género a Deus – geralmente "Ele". Mas poucos pensam realmente em Deus como masculino, e qualquer preferência por representá-lo como masculino é facilmente contrariada pela consciência de que o Deus dentro de nós também pode ser representado como feminino. Mas, embora esteja claramente para além do género, ocasionalmente, Deus precisa de ser referenciado sob a forma de género para reproduzir ou corresponder à tradição literária, ou simplesmente para seguir as regras de uma língua específica.

Para além das limitações que a linguagem impõe quando consideramos um Deus pessoal, outros problemas se colocam. Como conciliar a noção de um Deus pessoal que cuida de nós, como pessoa, com a destruição impessoal que vemos infligida a inocentes a todo o momento no mundo natural? Isto não parece algo que um Deus pessoal permitiria – se esse Criador se preocupasse com a criação.

Liebniz e Voltaire
Chegamos, então, à objecção de Voltaire, em Cândido, ao argumento de Leibniz de que, sendo Deus perfeito, este deve ser o melhor dos mundos possíveis. A réplica leviana de Voltaire ao argumento de Liebniz explorou o que ele via como extensões cómicas e absurdas deste pensamento.

De facto, não é difícil imaginar um mundo mais perfeito. Por exemplo, um mundo sem inundações, tornados e terramotos seria óptimo. O que é difícil de prever, no entanto, são os efeitos de viver num mundo onde nada pode correr mal. De facto, a possibilidade de acontecimentos aterradores, como as inundações, desperta em nós o espírito de resolução de problemas e eleva-nos, por vezes literalmente, mas sempre social e tecnologicamente.

Pode ser, então, que estes desastres naturais nos convoquem a participar na construção deste mundo, o melhor de todos os mundos possíveis – e o Criador que adoramos colocou em nós este desejo de perfeição. Somos, como a Bíblia nos informa desde o princípio, feitos à imagem de Deus, e parte dessa imagem parece manifestar-se em nós como um desejo contínuo de perfeição. Se você acredita nisto, que este desejo reflecte perfeitamente o Criador – então uma prova da obra de Deus em nós e é, portanto, uma prova da existência de Deus.

Certamente, as pessoas também fazem coisas más, causando por vezes um enorme sofrimento. O mundo teria sido melhor se Hitler tivesse encontrado uma ocupação na sua arte, a sua primeira intenção, em vez da política nacional. Então, os inclinados à descrença perguntam: como pode um Deus pessoal e compassivo permitir tal farsa?

No entanto, eliminar a possibilidade de os humanos fazerem coisas más pode não tornar o mundo num lugar melhor.

Um mundo sem escolhas, um mundo completamente prescrito e seguro, não seria claramente um mundo perfeito. Seríamos autómatos. O livre-arbítrio, ao que parece, é necessário para que possamos assumir qualquer uma das nossas escolhas.

Por fim, pode ser, como argumentou Leibniz, que simplesmente não estejamos em condições de saber o que é justo ou bom na perspectiva do Criador. Até a morte de inocentes, na perspectiva do Criador, pode ser um bem, um alívio do sofrimento. Para sermos justos, temos de admitir que não temos todos os factos. Não sabemos se, ao morrer, nos perdemos ou nos encontramos, se somos destruídos, transformados ou libertados.

A mensagem da religião é que a morte não é um fim, mas para os inocentes e os justos o início de uma existência diferente e mais maravilhosa. Isto não está fora do campo das possibilidades. Mesmo nesta vida, temos indícios de que a morte pode não ser um fim – temos dificuldade em conceber o não-ser e reconhecemos em sonhos e reflexões que a nossa alma não está permanentemente presa ao nosso corpo. A morte não poderá ser libertação, como dizem os ensinamentos Bahá’ís?

Ó FILHO DO SUPREMO! Fiz da morte uma mensageira de alegria para ti. Porque te lamentas? Fiz a luz para derramar sobre ti o seu esplendor? Porque te ocultas dela? (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #32)

Se somos mais do que apenas os nossos corpos, mais, como disse Whitman, do que o que está entre o nosso chapéu e as nossas botas, e se existe um Deus, então outros mundos de Deus podem abrir-se diante de nós na morte e acolher-nos.

Mais uma coisa: pode ser, como Jefferson e os deístas propuseram, que Deus criou a Terra e depois nos deixou aqui para descobrirmos como lidar com ela. Desta forma, um Deus pessoal não pode ser culpado pelos nossos erros – uma vez que Ele já não está por perto. O problema com isto, no entanto, são as Escrituras – qualquer Escritura, pois o ponto principal das Escrituras é que Deus não nos deixou sozinhos. Em vez disso, Deus deixou-nos recordações, registos e livros contendo uma orientação insuperável. As Escrituras são a história da intervenção de Deus, da melhor forma que a entendemos, para nos salvar. Mesmo nas formas de Budismo em que Deus raramente é referenciado, as Escrituras ainda prescrevem um modo de vida espiritual. Portanto, os nossos problemas sociais não são uma justificação adequada para a nossa incapacidade de ver a obra de Deus na história. De facto, os nossos problemas são a razão pela qual Deus deve intervir continuamente, lembrando-nos do passado e respondendo também a novas contingências.

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Texto Original: Our Legitimate Doubts about God (www.bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

sábado, 27 de setembro de 2025

Deus causa o sofrimento dos inocentes?

Por John Hatcher.


Mais cedo ou mais tarde, todos nós colocamos a questão antiga: um Deus omnipotente e omnisciente provoca — ou pelo menos não consegue impedir — o sofrimento dos inocentes?

Vários princípios importantes nas Escrituras Bahá’ís impelem-nos a encontrar uma solução para este dilema fundamental. Por exemplo, Deus não se restringe a esta vida física para corrigir as injustiças que sofremos nas nossas vidas individuais, nem se limita a um determinado período de tempo para exercer justiça na história.

Esta observação pode parecer óbvia, mas é o factor mais crucial para se chegar a um acordo sobre a teodiceia — a importante questão de por que razão um Criador bom permite que o mal exista. Isto significa que não podemos avaliar ou julgar o que nos acontece (ou a qualquer outra pessoa) em termos do que suportamos nesta vivência terrena. Se o sofrimento, em última análise, resulta em justiça ou injustiça, algo benéfico ou prejudicial, seria semelhante a tentar avaliar como alguém se irá sair na sua profissão enquanto ainda se encontra numa fase formativa dentro do útero materno.

Como o nosso desenvolvimento está destinado a outro plano de existência, dificilmente podemos avaliar o que beneficia ou não este processo, tal como uma árvore de fruto não poderia avaliar os resultados benéficos da sua própria poda. Do nosso ponto de vista limitado, a morte de uma criança parece inútil e injusta, tal como o sofrimento de um inocente. No entanto, é claro nas Escrituras Bahá’ís que estas crianças são cuidadas, assim como todos os que sofrem inocentemente:

Estas crianças permanecem à sombra da Providência Divina e, como não cometeram qualquer pecado e não estão contaminadas pelas impurezas do mundo natural, tornar-se-ão manifestações da generosidade divina e os olhos da misericórdia divina estarão voltados para elas. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 277-278)

Quanto ao assunto dos bebés, crianças e fracos que são atormentados pelas mãos dos opressores: isto contém uma grande sabedoria e é de importância primordial. Em síntese, para estas almas existe uma recompensa noutro mundo e muitos pormenores estão relacionados com este assunto. Para estas almas, este sofrimento é a maior misericórdia de Deus. Em verdade, esta misericórdia do Senhor é muito melhor e preferível a todo o conforto deste mundo e ao crescimento e desenvolvimento deste lugar de mortalidade. (Tablets of Abdu’l-Baha, Volume 2, pp. 336-337)

Por outras palavras, enquanto aqueles de nós que têm a oportunidade de fazer uso da nossa existência física são encorajados, até mesmo obrigados a fazê-lo, aqueles que por qualquer razão são privados dessa oportunidade recebem outros meios de serem preparados para a sua existência contínua no reino do espírito.

Compreendido correctamente, então, o verdadeiro sofrimento em relação ao que consideramos a "morte prematura" ou o "sofrimento injusto" de outras almas é vivenciado por aqueles de nós que ficam para trás, privados da sua companhia. Na sua perspectiva, a justiça foi realizada porque progridem sem impedimentos. Não são de forma alguma prejudicados por terem sido impedidos de participar plenamente nesta vida. Da mesma forma, temos a garantia de que aqueles que, devido a doenças mentais ou físicas, já não nos parecem estar a progredir espiritualmente, na verdade não são negativamente afectados por essa experiência:

… o homem está enaltecido acima de tudo e é independente de todas as enfermidades do corpo ou da mente. O facto de uma pessoa doente apresentar sinais de fraqueza deve-se aos obstáculos que se interpõem entre a sua alma e o seu corpo, pois a própria alma permanece inalterada por quaisquer enfermidades corporais. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, LXXX)

Não perceber este conceito essencial do paradigma Bahá’í de que a vida é um continuum e não se limita ao mundo físico é ver como ridículos os sofrimentos e todas as indignidades que os próprios profetas suportam voluntariamente:

Como poderiam essas Almas ter consentido em entregar-se aos seus inimigos se acreditassem que todos os mundos de Deus estavam reduzidos a esta vida terrena? Teriam elas sofrido de bom grado tamanhas aflições e tormentos como nenhum homem jamais experimentou ou testemunhou? (Idem)

Mas ainda temos um dilema quanto à intervenção de Deus. Se Deus previu o nosso sofrimento, não seria Ele de alguma forma responsável? Porque é que Ele não intervém para evitar o nosso sofrimento, para que possamos colher os benefícios da sala de aula metafórica que Ele tão criativamente concebeu para a nossa educação?

Já vimos que a presciência divina de algo não é a causa da sua ocorrência, tal como o nosso conhecimento da operação de uma lei física não faz com que essa lei seja aplicada. Mas, se Deus previu o nosso sofrimento, porque não o impede?

A resposta mais importante a esta questão essencial da teodiceia é que Deus intervém!

Intervém repetidamente, consistentemente, progressivamente, até mesmo diariamente, a título pessoal, se optarmos por estar conscientes dessa intervenção e aproveitar ao máximo as oportunidades que ela nos oferece. Por exemplo, no contexto mais amplo da história humana neste planeta, Deus dirige precisamente o rumo da história, enviando sucessivos Manifestantes de acordo com a antiga Aliança entre Deus e a humanidade, não porque mereçamos tais dádivas, mas porque Deus é amoroso, perdoador e tem a intenção de nos ajudar a desenvolvermo-nos como indivíduos e como comunidade global.

Os ensinamentos Bahá’ís asseguram-nos também que a mesma assistência está disponível nas nossas vidas pessoais se a pedirmos:

Deus é misericordioso, e na Sua misericórdia responde às orações de todos os Seus servos quando, de acordo com a Sua suprema sabedoria, é necessário. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 247)

As Escrituras Bahá’ís confirmam esta perspectiva ao afirmarem que a história humana é uma dinâmica espiritual e que, sem a intervenção de Deus através dos intermediários que são os mensageiros de Deus, não existiria história humana:

… os santos Manifestantes de Deus são os Centros focais da luz da verdade, as Fontes dos mistérios ocultos e a Fonte das efusões do amor divino. Lançam o Seu esplendor sobre o reino dos corações e das mentes, e concedem a graça eterna ao mundo dos espíritos. Conferem vida espiritual e brilham com o esplendor das verdades e significados interiores. A iluminação do reino do pensamento provem destes Centros de luz e Expoentes de mistérios. Não fosse a graça da revelação e da instrução destes Seres santificados, o mundo das almas e o reino do pensamento tornar-se-iam trevas sobre trevas. Não fossem os ensinamentos sólidos e verdadeiros destes Expoentes de mistérios, o mundo tornar-se-ia a arena das características e qualidades animais, toda a existência tornar-se-ia uma ilusão evanescente e a verdadeira vida perder-se-ia. É por isso que se diz no Evangelho: “No princípio era o Verbo”, isto é, era a fonte de toda a vida. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 184-185)

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Texto original: Does God Cause the Suffering of the Innocent? (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Uma questão de fé



Estou sentada na sala de espera do hospital e o meu filho de um ano de idade está no bloco operatório há quatro horas. A ansiedade é um eufemismo.

O meu bebé ainda tem aguentar mais quatro horas de operação, se a enfermeira que acabou de me sussurrar a informação estiver correcta. Esta é a sua terceira cirurgia neste ano; e ele tem apenas um ano de vida. Hoje, sou capaz de explodir se alguém me disser que as pessoas apenas são testadas de acordo com a sua capacidade. Hoje sinto-me abandonada por todas e quaisquer versões de Deus.

Olho para a sala espera cheia de gente. Casais tranquilos, mães, pais, irmãos, amontoam-se em círculos apertados. Bebendo café, olhando pela janela, olhos vidrados. Sei que não estou sozinha nos meus pensamentos; não nesta sala e não no mundo.

As pessoas falam sobre os momentos da vida em que duvidamos. Quando perguntamos porquê, quando não compreendemos, quando a nossa dor ou a dor que testemunhamos no mundo nos faz chorar de frustração, raiva, e até fúria. Este é um dos meus momentos. Não é um processo de pensamento passivo ou hipotético. É real, é pessoal e é difícil. Esta palavra "fé" não é brincadeira.

Olho para uma mãe sentada numa poltrona a poucos metros de mim, junto a um carrinho de criança vazio. Tem a cabeça curvada, os cabelos caídos, penso que talvez esteja derrotada, mas depois ela ergue a face e vejo os seus olhos fechados, as mãos apertadas e os lábios movendo-se silenciosamente. Está rezar.

O que leva esta mãe solitária a pedir a ajuda de Deus? O que a faz levantar o rosto numa expectativa silenciosa? Onde é que ela encontrou a fé?

O sinal do amor é a força moral sob o meu decreto e a paciência sob as Minhas provações. (Baha'u'llah, As PalavrasOcultas, árabe, #48)

O primeiro sinal de fé é o amor. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation ofUniversal Peace, p. 336)

Terá a sua fé aumentado a sua capacidade de lidar com as tristezas, ou de ser paciente durante provações severas? Isso permite-lhe estar sozinha, sentada ao lado do seu carrinho de criança vazio com calma interior?

As suas orações, embora silenciosas, afectam-me como um sofrimento pessoal. Dentro de mim, também quero que a minha fé seja forte; quero confiar em Deus para guiar os cirurgiões, para proteger o meu filho, para que o seu sofrimento seja mínimo, para que a sua recuperação seja rápida. Quero que a minha fé me leve, e leve o meu filho, através desta e de todas as suas provações.

E agora dou-vos um mandamento que será sobre uma aliança entre vós e eu - que tenhais fé; que a vossa fé seja firme como uma rocha, que nenhuma tempestade mundana possa abalar, que nada possa perturbar, e que subsista por todas as coisas até o fim... Assim como tiverdes fé, também serão os vossos poderes e bênçãos. (‘Abdu'l-Bahá, Baha’i Readings, p. 313)

Compreendo. As orações silenciosas desta mãe são orações silenciosas para manter sua fé; ao fazê-lo, dão-lhe força, poder e bênçãos.

Penso na pessoa que eu era há um ano atrás. Estava afortunadamente inconsciente da obscura desordem genética que se apossou do meu filho. Como é que isso me mudou? Olho para os desconhecidos na sala de espera com os quais me sinto inexplicavelmente ligada, a mãe que reza em silêncio e a quem me liguei com um simples olhar, o mundo desconhecido do qual sou agora um habitante cúmplice mas ferozmente leal. Estes sentimentos são bênçãos. Bênçãos estranhas e terríveis, mas belíssimas. Será que eu teria estas coisas se minha fé não tivesse sido testada? Teriam os meus olhos ficado assim tão abertos? Seria capaz de sentir oceanos de ternura e compaixão feroz?

... o espírito humano, a menos que seja auxiliado pelo espírito de fé, não pode conhecer os mistérios divinos e as realidades celestiais. É como um espelho que, embora claro, brilhante e polido, ainda precisa de luz. Só quando um raio de sol cai sobre ele, é que se pode descobrir os mistérios divinos. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 242)

Então, se o "primeiro sinal de fé é o amor" e se o sinal do amor é "paciência sob as Minhas provações", vou começar por aí.

Olho para o meu relógio. Ainda me dói o coração. Talvez doa sempre durante estes dias. Talvez seja suposto doer. As dores dão-me a conhecer os "mistérios divinos" e as "realidades celestiais" - com tamanho realismo que percebemos que é fácil pensar que temos fé quando nunca fomos desafiados.

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Texto Original: A Question Of Faith (www.bahaiteachings.org)

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Brittany Betts formou-se na Universidade de Oxford e é CEO da The International Educator. Cresceu em Portugal e pertence à quarta geração de Bahá’ís na sua família. Actualmente vive na Califórnia (EUA).

sábado, 3 de janeiro de 2015

Sofrimento: Será um teste divino?


Há alguns anos atrás, um rabino ultra-ortodoxo causou escândalo ao afirmar que o Holocausto foi um castigo de Deus pelos muitos pecados do povo Judaico.

Para este rabino o Holocausto era uma intervenção divina que punia com a morte 6 milhões de Judeus, incluindo 1,5 milhões de crianças. Hitler teria sido um anjo da morte, um fantoche nas mãos de Deus, seguramente não responsável pelos seus actos.

Pessoalmente, não acredito num Deus vingativo e colérico, que actua como uma espécie de chantagista dos céus que nos adverte constantemente com avisos do tipo “Se te portas mal, Eu castigo-te!”.

De igual modo, desde há muito tempo que tenho dificuldade em perceber as pessoas que descrevem todos os seus problemas, sofrimentos e angústias como testes divinos: "O meu carro avariou… É um teste! Apanhei uma gripe… É um teste! Fiquei desempregado… É um teste! Deus está constantemente a testar-me..."

Quando somos testados, as nossas qualidades são postas à prova. Por outro lado, um teste pressupõe a existência de um testador. Parece-me extremamente difícil acreditar na existência de um Deus que esteja a interferir constantemente em cada vida individual na criação, criando obstáculos (por vezes, insuperáveis) às Suas criaturas, e depois avaliando-as de acordo com os resultados. Para mim, existe uma separação entre a criação e o Criador. Não é a aleatoriedade uma parte integrante da criação? E as dificuldades não são um aspecto normal da vida?

No entanto, existem muitos textos das Escrituras Bahá’ís em que o sofrimento é descrito como “teste” e “provação”. Vejamos alguns exemplos.
  • Não fossem as tribulações que eles suportam em Teu caminho, como haveriam de se distinguir aqueles que verdadeiramente Te amam? E sem as provações enfrentadas por amor a Ti, de que modo seria revelada a posição dos que por Ti anseiam? (Bahá'u'lláh, Prayers and Meditations, p.155)
  • As provações enviadas por Ti são um bálsamo para as feridas de todos aqueles que se devotam à Tua Vontade. (Bahá'u'lláh, Prayers and Meditations, p.78)
  • Os ventos das provações não podem impedir que aqueles favorecidos com a Tua proximidade volvam a face para o horizonte da Tua glória; as tempestades das vicissitudes debalde tentarão afastar de Tua Corte aqueles devotados inteiramente à Tua Vontade. (Bahá'u'lláh, Prayers and Meditations, p.3)
  • Ó Tu, cujas provações são um remédio eficaz para aqueles próximos de Ti, cuja espada é o desejo ardente de todos os que Te amam, cujo dardo é aquilo a que mais aspiram os corações que por Ti anseiam, e cujo decreto é a única esperança dos que reconheceram a Tua verdade! (Bahá'u'lláh, Prayers and Meditations, p.220)
Dirigentes Baháís detidos no Irão.
As suas provações são consequência de uma opção de fé.
Existem muitas outras citações semelhantes a estas. A primeira coisa que ressalta aqui é que todas estas citações são dirigidas a crentes Bahá’ís. Estes são referidos como “aqueles próximos de Ti”, “aqueles que verdadeiramente Te amam”, “aqueles favorecidos com Tua proximidade” e “aqueles devotados inteiramente à Tua Vontade”. Nenhum destes texto é dirigido à humanidade como um todo.

O segundo aspecto a destacar nestes textos é que o sofrimento aqui referido é consequência natural de um acto de fé: a aceitação de Bahá’u’lláh como Manifestante de Deus. Aceitar um novo Manifestante (ou professar uma religião diferente) pode criar situações difíceis para os crentes. Essas situações podem passar por ser alvo de simples piadas, ser vítima de pressões, ser discriminado ou até ser abertamente hostilizado. Estas situações não são necessariamente uma interferência directa da Vontade Divina no mundo da criação, mas consequências das opções de fé. Estes são os verdadeiros “testes” e “provações” em que as convicções dos intervenientes são postas à prova.

Assim, nem todo o sofrimento pode ser entendido como um teste para a pessoa que sofre. Recordemos que ‘Abdu'l-Bahá não usou palavras como “provação” ou “teste” quando escreveu à mãe que perdeu um filho ou quando se referiu ao terramoto de S. Francisco. Isso seria minimizar o seu sofrimento ou sugerir que era apenas necessário superar as dificuldades – coisa que não acontece nos ensinamentos Bahá’ís.

Mas será possível considerar como um teste o sofrimento que ocorre sem ser consequência de uma opção de fé?

Na aldeia global em que hoje vivemos, o espírito de solidariedade mundial tem-se alargado a todos os continentes. Qualquer tragédia ou calamidade, seja natural ou de origem humana, é rapidamente divulgada por todo o mundo e suscita campanhas de solidariedade e apoio por todo a parte.

Na prática, esse sofrimento deixa de nos ser estranho ou indiferente, e torna-se um teste à nossa solidariedade e compaixão. Note-se que o alvo do teste não são os que sofrem, mas os que testemunham o sofrimento.

Quantas vezes as nossas consciências nos despertam para ajudar as vítimas de uma guerra ou de uma calamidade natural? Quantos bons samaritanos incógnitos existem hoje por todo o mundo graças a essas campanhas de solidariedade?

Recordemos aqui um excerto das Escrituras Bahá’ís que nos mostra que o sofrimento pode ser entendido como um teste à solidariedade humana, e o quão importante é esse teste para a construção de um mundo unido:
Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, um consolo para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o abatido, um sustentáculo e defensor da vítima da opressão. Sê ... um bálsamo para o sofredor, fortaleza para o fugitivo. Sê os olhos para os cegos e farol para os pés dos que se perdem. (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. CXXX)
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Versão em Inglês: Is Suffering a Divine Test? (bahaiteachings.org)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Mal Extremo


No texto anterior, levantámos algumas questões e reflectimos sobre o sofrimento extremo causado por fenómenos naturais. Agora podemos pensar nas situações em que esse sofrimento extremo é causado por seres humanos. São aquilo que podemos designar como o “Mal Extremo”.

Devia ter 10 anos quando assisti a uma série da BBC intitulada “The World at War”, dedicada à 2ª Guerra Mundial. Cada episódio centrava-se em eventos específicos desses anos terríveis: as principais campanhas, a vida na Alemanha e na Grã-Bretanha, as atrocidades ocorridas nos países ocupados, etc. Um episódio, em particular, intitulado “Genocídio” abordavam a implementação da “Solução Final” dos nazis e os campos da morte. Ver escavadoras a empurrar pilhas de cadáveres para uma vala comum chocou-me tão profundamente que nessa noite não consegui jantar. Foi o meu primeiro contacto com o “mal extremo”.

Vários filmes, documentários e livros têm-nos dado a conhecer o horror do holocausto. Entre todas as descrições e testemunhos que encontrei, consigo destacar uma que é particularmente chocante e que foi escrita por um sacerdote católico, o padre Eloi Leclerc:
Eu estive em Buchenwald e Dachau. Ali vivi os imensos horrores da inumanidade. Uma verdadeira descida aos infernos, no meio de milhares de pessoas massacradas como gado. Ali, fiz a experiência do silêncio de Deus perante tanto mal, tanta dor, sofrimento injusto, desprezo da vida humana, tanta morte. Quem não passou por essa experiência não pode sequer imaginar o que isso é. É o momento do silêncio absoluto de Deus, da ausência. Podia elevar os olhos ao céu, mas o céu não respondia. Os gritos não chegavam lá. Então compreendi que se podia perfeitamente ser ateu. Esta é uma grave interrogação para o crente. Como crer no Deus do Amor, depois de Auschwitz, Dachau, Buchenwald? Perante tanta desgraça, solidão e sofrimento, pode-se ainda crer no Deus do Amor?
Esta questão, que toca no aspecto fundamental da Teodiceia, desafia-nos a todos.

Num texto anterior defini o “mal” como as acções humanas cometidas com o propósito deliberado de provocar sofrimento. Segundo as escrituras Bahá’ís, todos os seres humanos têm livre arbítrio - cada um de nós pode escolher entre cometer boas ou más acções:
Mas na escolha das boas ou más acções, ele é livre; ele comete-as de acordo com a sua própria vontade. Por exemplo, se ele quiser, ele pode passar o seu tempo a louvar a Deus, ou pode ocupar-se com outros pensamentos. Ele pode ser uma luz acesa pelo fogo do amor divino, e um filantropo amante do mundo, ou pode odiar a humanidade e absorver-se com coisas materiais. Ele pode ser justo ou cruel. Todas estas acções estão sob o controle da vontade do próprio homem; consequentemente, ele é responsável por elas. (‘Abdu’l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap. 70)
Reflectir sobre o mal extremo que as pessoas fazem pode levar-nos a questionar a existência de qualquer bem comparável no mundo. Mas a própria história do Holocausto tem a sua quota de poderosos exemplos de coragem e actos de desprendimento, quando pessoas bondosas salvaram outras arriscando as suas próprias vidas. Na verdade, a resposta do mundo a estas atrocidades é um exemplo extraordinário de compromisso colectivo para acabar com esse mal extremo e impedir que se repita.

Parece-me lógico, que podemos considerar o mal extremo como um resultado extremo da maldade humana. Este fenómeno pode ser tão horroroso que concluímos imediatamente que não trás nenhum benefício à humanidade. Mas o fenómeno do mal extremo obriga-nos a reflectir:
  • Como é que isto pôde acontecer?
  • Como podemos impedir que aconteça novamente?
Se não fizermos esta reflexão, então o sofrimento extremo não trará nenhum benefício à humanidade e poderá manifestar-se novamente. Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, descreveu o fenómeno do mal extremo como “os estertores da velha ordem mundial”, dominada por forças como o nacionalismo e o racismo, e destinada a ser substituída por uma nova ordem mundial baseada nos ensinamentos Bahá’ís de unidade, governação mundial e cooperação internacional. Ele descreveu estes tempos como uma “era de transição” entre um sistema de conflito sistemático entre soberanias nacionais e uma época mais espiritual, harmoniosa e unificada. Tudo isto é parte de “…processos simultâneos de ascensão e queda, de integração e desintegração, de ordem e caos, com as suas reacções contínuas e recíprocas, umas sobre as outras…” (Shoghi Effendi, The Advent of Divine Justice, p. 72)

Assim, para os Bahá’ís, estas manifestações de mal extremo, por muito trágicas e vastas que sejam, não podem ser vistas apenas como episódios isolados na história recente da humanidade. Em paralelo com estas calamidades, existem outras iniciativas positivas que levam à construção de um mundo mais seguro e tranquilo para toda a humanidade. Recordemos ainda que apesar da mediatização de alguns conflitos e atrocidades, as estatísticas mostram que o nosso planeta se está a tornar menos violento.

Neste mundo constituído por estados-nações, cujas relações se baseavam no conflito e na defesa de interesses nacionais, podemos actualmente testemunhar o surgimento gradual de um mundo unido, uma nova ordem mundial, baseada na cooperação e nos interesses comuns de toda a humanidade.

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Versão em inglês: What is Extreme Evil? (bahaiteachings.org)
Tradução em italiano: Cos'e' il Male Estremo

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sofrimento Extremo


Em 1918, acabou a primeira Grande Guerra e os militares começaram a regressar a casa. Na Europa desenharam-se novas fronteiras e surgiam novas nações. Mas nesse momento surgiu uma nova calamidade: a gripe espanhola espalhou-se pelo mundo e durante dois anos ceifou 50 a 100 milhões de vidas em toda a parte (três a cinco por cento da população mundial).

Nessa época a minha avó era aluna no Conservatório de Música em Lisboa. Contou-nos uma vez que na sua turma morreram metade das suas colegas. Conseguem imaginar o que é perder metade os colegas de escola ou trabalho?

Recentemente ao acompanhar um dos meus filhos a estudar História, revimos o episódio do terramoto que arrasou Lisboa em 1755. Nesse ano, um sismo - seguido de um tsunami - arrasou a capital portuguesa, destruindo milhares de edifícios, provocando múltiplos incêndios e fazendo milhares de mortos.

Vitimas da Pandemia da Gripe de 1918
Estes são apenas dois exemplos de calamidades naturais em que o “sofrimento natural” assume dimensões extremas. Quando estes fenómenos extremos surgem, é natural que nos questionemos:

  • Será mesmo necessário que o mundo contenha casos tão esmagadores e aflitivos de sofrimento extremo? Será necessário que fomes devastadoras atinjam milhões de pessoas?
  • Serão necessárias calamidades naturais que arrasem cidades e matem milhares de pessoas em poucas horas? Serão necessárias epidemias que matam milhões de pessoas?
  • Nestes eventos, onde está o benefício para as almas? Pode haver algum desenvolvimento espiritual resultante de um processo implacavelmente destrutivo?

As respostas a estas questões devem ser consideradas tendo em conta a evolução da humanidade neste planeta.

Na minha opinião, nós, humanos, enquanto espécie, ainda estamos a aprender a viver neste planeta. Ainda não encontrámos forma de nos proteger de todos os fenómenos naturais de natureza destrutiva. A ciência e o desenvolvimento material têm ajudado a reduzir o sofrimento provocado por estes fenómenos. Mas a ciência moderna tem apenas 500 anos. E a massificação dos benefícios da ciência ainda é mais recente.

A comparação dos efeitos de algumas calamidades naturais no passado e no presente, permite perceber que estamos a evoluir. Por exemplo, hoje existem diversas técnicas de construção que permitem minimizar os estragos provocados por sismos. E existem várias doenças que praticamente desapareceram devido a grandes campanhas de vacinação e melhoria de cuidados de higiene e saúde. Desenvolvemos e começamos a usar sistemas de aviso de tsunamis e tornados.

Assim, podemos dizer que o intelecto humano é desafiado por estas calamidades naturais; desenvolvemos ciências e técnicas que minimizam os impactos dessas situações extremas. Mas por outro lado, as escrituras Bahá’is dizem-nos que estas calamidades naturais também nos devem levar a reflectir. Ao referir-se ao terramoto de S. Francisco (1906), 'Abdu’l-Bahá escreveu:
Esses eventos em S. Francisco foram realmente terríveis. Desastres deste tipo devem servir para despertar as pessoas, e diminuir o amor dos seus corações por este mundo inconstante. É neste mundo inferior que tais coisas trágicas têm lugar: este é o cálice que contém um vinho amargo. (Selecção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 39)
O sofrimento extremo causado por desastres naturais desafia-nos e apela a uma resposta dupla: desenvolver os meios materiais para mitigar os efeitos e ajudar as vítimas; e reflectir sobre a fragilidade da nossa existência, perguntando a nós próprios que sentido tem o apego exagerado às coisas materiais.

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Versão em inglês: How Spiritual People See Extreme Suffering (bahaiteachings.org)
Tradução em italiano: Come le Persone Spirituali vedono la Soffrenza Estrema

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O que é o mal?


“Não nos deixeis cair em tentação mas livrai-nos do mal”
Esta frase da oração do “Pai Nosso” deve ser conhecida de todos os Cristãos. Também eu quando fui criado como Cristão me familiarizei com estas palavras. Mas o seu significado apenas o encontrei nas Escrituras Bahá’ís.

Para perceber o seu significado, primeiramente é necessário perceber que o sofrimento neste mundo físico tem duas origens: causas naturais e causas humanas. A primeira é o resultado de leis naturais e a que chamamos apenas “sofrimento”; a segunda é resultado do livre arbítrio do ser humano e a que chamaremos “mal”.

Então o que dizem as Escrituras Bahá’ís sobre o mal?

As Escrituras Bahá’ís respondem a esta pergunta complexa com dois tipos de respostas. No livro Respostas a Algumas Perguntas, ‘Abdu’l-Bahá aborda o tema do mal, começando por advertir que a explicação do assunto é difícil. Seguidamente, descreve o mal como uma ausência e não como uma presença:
“... as realidades intelectuais, tais como todas as qualidades e admiráveis perfeições do homem são puramente boas e existem. O mal é simplesmente a sua não existência… De modo idêntico, as realidades sensíveis são absolutamente boas, e o mal deve-se à sua não existência, o que significa que a cegueira é a ausência de visão, a surdez é ausência de audição, a pobreza é a ausência de riqueza…” (Some Answered Questions, ch. 74)

“... tudo o que Deus criou, Ele criou bom. O mal é a não existência, tal como a morte é a ausência de vida… é evidente que todos os males retornam à não existência. O bem existe; o mal é não existente.” (Some Answered Questions, ch 74)
‘Abdu’l-Bahá apresenta várias analogias para explicar a não-existência do mal. Ele afirma que a cegueira existe devido à falta de visão; de igual forma, o mal existe porque representa a ausência do bem; e a existência do mal é efémera e está confinada a este mundo.

Será que isto significa que o mal não existe? Não. Isto significa que o mal não tem existência própria.

Isto é confuso? Vamos tentar outra analogia

Pensem na sombra de um objecto. Essa sombra apenas existe na área em que esse objecto obscurece a luz. A sombra não tem existência própria, porque se não existisse o objecto, a sombra também não existiria. Assim, podemos dizer que a sombra é não-existente; no entanto, não podemos negar a existência da sombra.

Noutra ocasião, ‘Abdu’l-Bahá apresentou outras respostas com uma perspectiva mais empírica e explicou alguns significados simbólicos:
“O mal é a imperfeição. O pecado é a condição do homem no mundo de natureza inferior, pois na natureza existem defeitos como a injustiça, a tirania, o ódio, a hostilidade, e o conflito… Através da educação devemos libertar-nos destas imperfeições.” (Paris Talks, p. 177)

"A realidade subjacente a esta questão é que o espírito mau, o Satã ou o que quer que seja interpretado como mal, refere-se à natureza inferior no homem. Esta natureza inferior é simbolizada de várias maneiras… Deus nunca criou um espírito mau; todas essas ideias e nomenclaturas são símbolos que expressam a natureza meramente humana ou terrena do homem. É uma condição essencial do solo que dele germinem espinhos, cardos e árvores infrutíferas. Relativamente falando, isto é mau; é simplesmente o mais baixo estado e o mais elementar produto da natureza." (The Promulgation of Universal Peace, p. 293)
Uma das definições Bahá’ís sobre o mal tem uma perspectiva complexa e metafísica; a outra apresenta uma visão mais simples e empírica. Estas respostas, que se complementam, permitiram-me perceber melhor a frase da oração do Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação mas livrai-nos do mal”

Esta abordagem Bahá’í abriu-me as portas para um novo entendimento do problema do mal. Cristo aconselhou os Seus seguidores a pedir a Deus que nãos os deixasse cair na tentação de se reduzirem à sua natureza inferior. Se entendermos o mal como a nossa natureza inferior - vingança, violência, ódio e outras coisas do género - então percebemos que essas características nos podem reduzir a um nada absoluto.

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Versão em inglês: How Do You Define Evil? (bahaiteachings.org)


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Pode o Sofrimento ser Justo e Proporcional?



Imaginemos que vivíamos num mundo onde o sofrimento surgia sempre de forma justa e proporcionada. Nesse mundo o sofrimento nunca seria brutal, aleatório, ou aparentemente injusto; seria sempre proporcional, justo e merecido, e teria sempre um propósito.

Num mundo assim, sempre que nos deparássemos com uma calamidade ou com um simples acidente, este um evento merecido (uma punição ou uma recompensa).

Se soubéssemos que as nossas acções teriam consequências automáticas, quem se atreveria a cometer actos maldosos? Não estaríamos todos constrangidos a fazer apenas boas acções? Se esse tipo de punição/recompensa automatizada existisse neste mundo, poderíamos ser verdadeiramente livres para tomar decisões morais? Como poderíamos desenvolver o nosso carácter moral - as nossas virtudes - se não fossemos livres para, ocasionalmente, tomar decisões imorais, ver os seus resultados e aprender com as consequências?

Num mundo assim, a moralidade seria substituída por uma prudência calculista e interesseira e a nossa natureza moral (as virtudes) não teria espaço para se desenvolver. Se as recompensas e as punições fossem proporcionais e justas em relação aos nossos actos, não haveria espaço para tomar opções morais ou para fazer um uso construtivo da adversidade. Tal como os músculos do nosso corpo exigem exercício e esforço para desenvolver as suas capacidades, também as nossas mentes e almas necessitam de uma diversidade de experiências (boas e más) que permitam o seu crescimento espiritual.

Deus criou o universo com capacidade auto-organizativa e dotado de uma estrutura e leis estáveis, nas quais existem contingências e acidentes, bons e maus. Apenas num mundo com estas características, se pode desenvolver o carácter moral de um ser humano.

As contingências do mundo fazem parte de um processo criativo divino, cujo propósito é permitir que todos nós que vivemos neste mundo autónomo (em que o Criador não é evidente) possamos desenvolver livremente os nossos atributos morais e espirituais. Neste mundo real, onde tomamos decisões reais, envolvendo riscos e oportunidades; temos liberdade para fazer boas e más acções; temos possibilidades reais de sucesso ou fracasso.

Se Deus estivesse constantemente a proteger-nos da dor e do sofrimento, Ele teria de interferir constantemente nas leis naturais e mudar o rumo dos acontecimentos. Seria um mundo viciado. Se vivêssemos num mundo paradisíaco, livre de dor, tensão e sofrimento, ninguém poderia ajudar ou prejudicar outros, pois não existiriam carências, perigos ou danos.

Só num mundo imperfeito nos podemos deparar com opções morais, e podemos iniciar o desenvolvimento espiritual. Assim, um mundo onde as almas se podem desenvolver não pode ser um paraíso.

O mundo em que vivemos (com leis naturais estáveis, onde nos deparamos com problemas, desafios e dificuldades) possui as condições necessárias ao desenvolvimento espiritual do ser humano.

Os ensinamentos Baha’is descrevem este mundo como um local onde nos preparamos para uma existência espiritual eterna que um dia todos experimentaremos. Numa carta dirigida a uma mãe que tinha perdido um filho, 'Abdu'l-Bahá escreveu:
Ó serva amada de Deus! Embora a perda de um filho seja verdadeiramente de partir o coração e esteja para lá dos limites da capacidade humana, ainda assim, a pessoa que sabe e compreende tem a certeza que o filho não foi perdido, mas pelo contrário, passou deste mundo para outro, e ela encontrá-lo-á no reino divino. Esse encontro será para a eternidade, enquanto neste mundo a separação é inevitável e traz consigo uma dor ardente. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 171)
‘Abdu’l-Bahá descreve a perda de um filho como uma dor que está para lá da capacidade humana. Se é verdade que alguns de nós têm de suportar esse tipo de dor desproporcional, também fica clara promessa de ‘Abdu’l-Bahá de que o sofrimento está confinado a este mundo e que nos reinos divinos as almas se reencontrarão.

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Versão em inglês: Can Suffering Be Fair and Proportional? (bahaiteachings.org)


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pressupostos para compreender o Sofrimento


Todas as tentativas de compreender a questão da teodiceia (explicar porque é que Deus permite a existência do Mal) têm como base um determinado entendimento da vida e do propósito da nossa existência.

Assim, antes de tentar responder a algumas questões sobre este tema é importante deixar claro algumas ideias e conceitos. Vamos começar com as próprias palavras “sofrimento” e “mal”. O sofrimento humano tem duas causas: natural e humana.

Como sabemos, existem fenómenos naturais – tempestades, terramotos, tsunamis, erupções vulcânicas, secas, epidemias - que podem causar – e de facto causam – grande sofrimento. A ciência mostra que estes desastres, grandes ou pequenos, resultam de leis naturais que governam o nosso universo. Não podem ser considerados actos malignos porque não existiram opções morais que tenham levado a estes eventos. Assim, não podemos descrever um terramoto ou uma epidemia como “mal”, independentemente da escala do sofrimento que possam causar. Neste conjunto de artigos irei designar estes fenómenos como “sofrimento natural”.

Coluna de refugiados durante a Guerra da Coreia (1951)
Por outro lado, as acções humanas cometidas com o objectivo deliberado de causar sofrimento, dor ou morte exigem uma opção moral. Consideramos que a guerra ou um assalto como “mal”, pois os seus perpetradores sabem antecipadamente que vão provocar sofrimento. Nesta série de artigos vou designar este tipo de acções como “mal”.

Sabemos que o mundo em que vivemos não é um paraíso. Nós, seres humanos não somos perfeitos; temos falhas, e por vezes, naturezas violentas. Também sabemos que somos animais racionais, capazes de escolhas e juízos morais. E também sabemos que somos fruto de um lento e contínuo processo de evolução.

No mundo em que vivemos a presença de Deus não é evidente (existe a tal «distância epistémica»). Temos liberdade e autonomia em relação ao nosso Criador (é o chamado «livre arbítrio»). Tomamos consciência do Criador através de um acto livre de interpretação da realidade (acreditamos que existe algo que nos transcende; temos «fé»).

Com estes pressupostos e definições podemos formular algumas questões e procurar respostas.

As escrituras Bahá’ís dizem-nos que o nosso distanciamento em relação a Deus é uma característica própria da nossa condição humana; não é uma imperfeição moral (ou uma natureza imperfeita!) e tem uma razão de ser no propósito de Deus para a nossa existência. A actual situação humana - com todas as suas ambiguidades - não é fruto de um acto maligno que tentou subverter a vontade de Deus, mas representa uma fase da nossa evolução espiritual enquanto espécie.

Segundo a Fé Bahá’í, a vida terrena não é a totalidade da existência humana. As nossas almas evoluem para uma forma de existência mais espiritual após a morte do corpo físico. Mas é durante a vida física que se inicia um processo - não coercivo - de desenvolvimento espiritual, desenvolvimento esse que prossegue após a morte do corpo físico. O sofrimento, segundo a perspectiva Bahá’í, é um elemento chave nesse desenvolvimento espiritual.

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Versão em inglês: A Starting Point for Understanding Suffering (bahaiteachings.org)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Porque sofremos?


Quando olhares ao teu redor com olhos perspicazes, notarás que nesta terra de pó todos os seres humanos sofrem. Aqui nenhum homem encontra descanso como recompensa por aquilo que fez em vidas passadas, nem há ninguém tão abençoado que pareça estar a colher o fruto de uma angústia de tempos idos. E se a vida humana, com a sua existência espiritual, estivesse limitada a este período terreno, qual seria então o fruto da criação? De facto, quais seriam os efeitos e os resultados da própria Divindade? (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 184)
Para que serve o sofrimento? Qual a sua origem? Qual a sua utilidade? Porque parece ser tão brutal e aleatório?

Questões como estas são tão antigas como a humanidade. E as sucessivas explicações que filósofos e teólogos têm apresentado sempre foram alvo de muitos e prolongados debates. Uma coisa parece certa: o sofrimento é inerente à condição humana. Por outras palavras, todo o ser humano experimenta o sofrimento em algum momento na sua vida.

Todas as grandes religiões mundiais procuraram apresentar explicações para a existência do sofrimento. Algumas afirmam que todo o sofrimento faz parte do processo de desenvolvimento da alma no seu caminho em direcção ao Criador. E acrescentam que mesmo que nesta vida não consigamos ver algum benefício, no decorrer da nossa existência encontraremos algum benefício resultante desse sofrimento. Vejamos de forma abreviada o que dizem as grandes religiões mundiais sobre o assunto:

  • O Hinduísmo considera o sofrimento dos indivíduos num contexto mais amplo de um ciclo cósmico de nascimento, vida, destruição e renascimento. A maioria dos hindus vê o sofrimento como uma punição pelos pecados cometidos nesta vida ou em vidas passadas. Mesmo uma pessoa aparentemente inocente que não se libertou do mau karma de vidas passadas pode sofrer essa punição.
  • Para a maioria das escolas Budistas, toda a vida é sofrimento causado pelo apego às coisas mundanas. Este apego, que pode assumir a forma de ganância, ódio e ignorância nesta vida e em vidas passadas, pode regressar como mais sofrimento (karma), a menos que seja mitigado. O sofrimento não é necessariamente um castigo divino, mas sim algo que deve ser superado através do desprendimento em relação a objectos e relacionamentos materiais.
Crianças num campo de concentração
  • O Antigo Testamento contém algumas histórias onde se descreve que o sofrimento se deve à fraqueza na devoção a Deus. Muitos Judeus acreditam que parte do sofrimento também se deve ao livre arbítrio que Deus concedeu aos seres humanos, e que o Seu propósito ao permitir o sofrimento dos inocentes deve ser bom, apesar de misterioso. Durante muitos séculos, o livro de Job marcou profundamente a visão judaica sobre o sofrimento e mais recentemente, após o Holocausto o tema voltou a ser profundamente debatido por vários pensadores judaicos.
  • No Islão, o sofrimento - suportar a dor ou uma perda - é um caminho na submissão à vontade de Deus. Algum sofrimento é obra de Satanás ou é trabalho dos seus associados no mundo dos espíritos (os “jinn”) e é permitido por Deus como um teste à humildade e à fé. Muitos Muçulmanos acreditam que o sofrimento e a adversidade fortalecem a fé pessoal, e também que a dor leva muitas vezes ao arrependimento, à oração e às boas obras.
  • No Cristianismo, o relato sobre Adão e Eva no livro dos Génesis foi adoptado durante muitos séculos como uma justificação da existência do sofrimento. Tipicamente, acreditava-se que teria existido um passado de perfeição, no qual os seres humanos teriam caído em pecado. Hoje todos seríamos pecadores desde que nascemos. Jesus Cristo teria surgido para nos redimir dos nossos pecados, e os frutos da vida de cada ser humano podem levar a pessoa à condenação eterna ou a alcançar a salvação.
Hoje muitos cristãos consideram que o relato da criação é simbólico. Os conceitos de “queda” ou “condenação eterna” são considerados como expressões mitológicas de um processo de tomada de consciência. Mas apesar dessa nova interpretação, ainda existe um número significativo que acredita na história de Adão e Eva como uma verdade literal.
Este breve resumo das várias explicações e justificações para a existência de sofrimento nas principais religiões do mundo apenas toca superficialmente um dos debates mais profundos e persistentes da humanidade.

No século XVII, o filósofo alemão Leibniz apresentou o conceito de Teodiceia, no qual tentava demonstrar que a presença do sofrimento no mundo não entra em conflito com a bondade de Deus. Leibniz acreditava que o sofrimento trazia consigo um bem maior, ou impedia um mal ainda maior; por esse motivo, dizia ele, vivíamos no “melhor mundo possível”.

Cem anos mais tarde, Voltaire rejeitou frontalmente o conceito de Teodiceia, dando como exemplo o terramoto de Lisboa em 1755 onde morreram milhares de pessoas. Para este filósofo francês, o sofrimento surge de forma aleatória, brutal e injusta, parecendo imerecido e excedendo tudo o que seria expectável.

Também durante o Iluminismo, o filósofo escocês David Hume recuperou as antigas questões de Epicuro: “Ele deseja impedir o mal, mas não é capaz? Então não é omnipotente. Ele é capaz, mas não deseja? Então é malévolo. Ele é capaz e está disposto? Então de onde vem o mal?”

Após muitos séculos de debates teológicos e filosóficos, as questões permanecem: Se Deus é perfeito, porque é que não vivemos num mundo perfeito? Considerando a realidade do pecado e do sofrimento, será que Deus existe? Se é necessário que exista o sofrimento, porque é que ele não surge de forma proporcional e justa? Porque é que Deus permite o sofrimento de pessoas inocentes, especialmente as crianças? Será que foi Deus que criou o sofrimento? Onde está Deus no meu sofrimento?

Nesta série de ensaios, vamos olhar estas questões com objectividade e ver se podemos encontrar algumas respostas satisfatórias. Vamos explorar a perspectiva Baha'i sobre o sofrimento – uma perspectiva única entre todas as grandes religiões do mundo - e examinar a sua relação com a questão profunda 'Abdu'l-Bahá coloca: " E se a vida humana, com a sua existência espiritual, estivesse limitada a este período terreno, qual seria então o fruto da criação?"

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Versão em inglês: Why Do We Suffer? (bahaiteachings.org)

sábado, 21 de junho de 2014

Porque Sofremos? (5ª parte)

Quinta parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Estaremos a ser testados?
- Sofrimento” é sinónimo de Teste?
- Conclusões


domingo, 15 de junho de 2014

Porque Sofremos? (4ª parte)

Quarta parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Como justificar o sofrimento extremo?
- Como justificar o mal extremo?


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Porque Sofremos? (3ª parte)

Terceira parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Sofrimento vs. Mal;


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Porque Sofremos? (2ª parte)

Segunda parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Pressupostos para uma teodiceia Baha'i;
- A Necessidade do Sofrimento;
- Pode haver justiça no sofrimento?


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Porque Sofremos? (1ª parte)

Primeira parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Algumas questões possíveis sobre "Sofrimento";
- Perspectivas das grandes religiões Mundiais sobre o Sofrimento;
- O Sofrimento durante o Iluminismo.


segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Pensando no Sofrimento

Há muita coisa na vida que não compreendemos, e que nunca chegaremos a compreender. Mas nem por isso deixamos de tentar perceber o porquê das coisas. O ser humano é incansável na sua busca de uma explicação para tudo ao seu redor.
Desde o inÍcio da nossa existência quisemos saber o porquê da existência das trovoadas, das chuvas, das marés, dos ventos. À medida que nos organizávamos em comunidades fomos questionando aspectos da nossa organização social. Com o desenvolvimento da filosofia e da religião, a quantidade de "porquês" que se podem colocar aumentou ainda mais.

Quando as nossas questões se colocam no plano filosófico ou religioso, as respostas estão sempre longe de ser definitivas; para cada pergunta pode haver mais do que uma resposta, que por sua vez geram ainda mais perguntas...

Vem isto a propósito do tema do sofrimento. Muita gente se questiona o porquê do sofrimento na vida humana. Ao sermos bombardeados diariamente pelos media com imagens de sofrimento um pouco por todo o mundo, ainda parecem existir mais motivos para que as pessoas se questionem: "Se Deus existe, porque é que ele deixa que isto aconteça?"; há ainda os que se resignam: "Deus abandonou-nos! Esqueceu-se de nós..."
Eu não tenho resposta para todas estas perguntas (e desconfiaria de quem dissesse tê-la!). Tenho algumas respostas para mim; algumas baseiam-se na minha experiência de vida e no que observo ao meu redor; outras provêem do meu entendimento do mundo e da vida à luz dos ensinamentos bahá’ís. Naturalmente, estas minhas respostas poderão suscitar mais dúvidas.

Assim, vamos ao tema do sofrimento.

Creio que devemos distinguir o sofrimento pelas suas causas.
Em primeiro lugar, parece-me que o sofrimento é inerente à condição humana; não é possível viver sem alguma espécie de sofrimento. A vida pode ser bela, mas é muito frágil. Nada nos impede de ser vítimas de um acidente natural, ou de uma doença. A vida está feita mesmo assim.

Imagine-se que um sismo provoca a morte várias pessoas; poderíamos concluir que isso é a vontade de Deus? Certamente que não. Mas a vida está feita de forma a que podemos ser vítimas de catástrofes naturais. Talvez numa concepção teológica muito básica poderíamos pensar que Deus deveria intervir sempre que um ser-humano está em perigo. Na minha opinião isso nunca aconteceu, nem vejo motivos para que aconteça.
Para o melhor e para o pior a vida assume verdadeiros aspectos de lotaria; podem sair-nos coisas boas ou coisas terríveis.

Depois há o sofrimento infligido pelos nossos semelhantes. Esse é resultado do livre arbítrio concedido ao ser humano. A guerra, o roubo e a violência são exemplos deste tipo de sofrimento. Neste tipo de sofrimento podemos ter uma intervenção preventiva; sabemos que as origem dos conflitos reside em factores como preconceitos, diferença exagerada entre ricos e pobres, favorecimento de um sector social em detrimento de outro, ambição desmedida de poder, nacionalismo desenfreado. Na prevenção deste problema está a educação.

Uma educação universal obrigatória baseada, por exemplo, nos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos (e noutras declarações da ONU) poderão ser uma das chaves para a minimização dos conflitos no nosso planeta. Imaginem o que seria este mundo se os valores éticos desta declaração fossem incutidos em todas as crianças desde a mais tenra idade!

A questão do sofrimento e do livre arbítrio recordou-me imediatamente as seguintes palavras de 'Abdu'l-Bahá': «Algumas coisas estão sujeitas ao livre arbítrio do homem, tais como justiça, equidade, tirania e injustiça; por outras palavras, boas e más acções. É evidente e claro que estas acções, na sua grande maioria são deixadas à vontade do homem. Mas há certas coisas a que o homem é forçado e obrigado, tais como, o sono, a morte, a doença, a perda de poder, as injúrias e os acidentes; estas não estão sujeitas à vontade do homem, e ele não é responsável por elas, pois é obrigado a suportá-las. Mas na escolha das boas e das más acções ele é livre, e comete-as de acordo com a sua vontade».

O tema do sofrimento não se esgota por aqui. Há outras questões que ainda se podem colocar. Por exemplo: Será sempre necessário sofrimento para conseguir qualquer coisa na vida? Poderemos encarar o sofrimento como um teste? Que outras soluções existirão para minimizar o sofrimento resultante do livre arbítrio? Talvez estas questões possam servir de tema para outras reflexões e outros posts.