Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Como é que uma comunidade religiosa pacífica resiste à repressão?

Por Caroline Fowler.


As diferenças absolutas entre a Fé Bahá’í e do regime nazi no que toca às perspectivas políticas e sociais são evidentes nas cartas da liderança da Fé à comunidade Bahá’í alemã.

Esta orientação - que respondeu directamente aos acontecimentos repressivos cada vez mais preocupantes que tiveram início da década de 1930 e eram dirigidos à comunidade Bahá’í alemã pelo regime nazi - pode ajudar-nos a compreender como reage uma comunidade religiosa pacífica à repressão.

Em 1934, Shoghi Effendi escreveu à Comunidade Bahá’í da Alemanha, respondendo às suas perguntas sobre como proceder sob o regime nazi no contexto da Fé. Na sua carta, Shoghi Effendi enfatizou a suprema importância da obediência e da paz, mas reconheceu que as políticas e ideias de Hitler "não podem ser totalmente reconciliadas" com a "filosofia Bahá'í de organização social e política".

O Guardião alertou ainda que a “onda de nacionalismo, tão agressiva e tão contagiosa”, que “varre não só a Europa, mas grande parte da humanidade”, contradiz fundamentalmente os ensinamentos Bahá’ís de “paz e fraternidade”. Advertiu ainda que “o mundo está cada vez mais perto de uma catástrofe universal” porque os governos estão a caminhar numa direcção extremista. Afirmou que, embora a obediência seja crucial, a crença e a prática da Fé não devem ser comprometidas de forma alguma, mesmo que isso possa resultar na morte. Aconselhou que os Bahá'ís:

...devem obedecer ao governo sob o qual vivem, mesmo correndo o risco de sacrificar todos os seus assuntos e interesses administrativos, e em caso algum devem permitir que as suas crenças e convicções religiosas mais íntimas sejam violadas e transgredidas por qualquer autoridade.

Em 1938, um ano após os nazis terem proibido a Fé Bahá’í na Alemanha, Shoghi Effendi escreveu aos Bahá’ís alemães (através do seu secretário) para delinear uma estratégia de resposta às autoridades locais alemãs e à Gestapo. Os Bahá’ís tinham escrito ao Guardião a pedir conselhos sobre como proceder depois de terem sido notificados de que as actividades Bahá’ís estavam proibidas e dos seus objectos religiosos terem sido confiscados permanentemente. Em resposta, o Guardião alertou os Bahá'ís alemães, particularmente na região de Estugarda, de que uma insubordinação contra o regime poderia "desagradar" à polícia secreta e que os seguidores deveriam "manter total silêncio e não insistir mais no seu caso ao dirigir qualquer apelo às autoridades de Estugarda ou de Berlim". O Guardião sugeriu, em vez disso, que, se viável e seguro, os seguidores deveriam "procurar novas formas de abordagem", contactando oficiais de alto de topo da Gestapo, considerando que a sua organização "é soberana na Alemanha de hoje".

Tal como na sua carta anterior, o Guardião terminou a sua mensagem dizendo que o mundo está a tornar-se cada vez mais tenso e dividido, instando as pessoas a "prepararem-se para desenvolvimentos ainda muito mais sérios".

Contudo, o Guardião afirmou que os Bahá’ís da Alemanha podiam estar "seguros e confiantes" na sua Fé e na promessa de 'Abdu'l-Bahá de um futuro brilhante para a sua comunidade. Ambas as cartas de Shoghi Effendi reflectem uma perspectiva de profunda preocupação e esperança, e serviram de guia aos Bahá’ís alemães sobre as atitudes pessoais e as suas actividades religiosas sob opressão. A fé inabalável patente nos textos de Shoghi Effendi estava também presente em muitos Bahá’ís alemães, especialmente naqueles que sofreram as consequências mais severas devido às suas crenças.

Lídia Zamenhof
Um exemplo da extrema perseguição que os Bahá’ís enfrentaram sob o regime nazi foi a prisão e execução de Lídia Zamenhof na Polónia controlada pelos nazis. Lídia, nascida em 1904 em Varsóvia, foi professora, escritora e tradutora, e envolveu-se com a Fé Bahá’í ainda jovem. Filha do oftalmologista de Varsóvia Zamenhof, criador do esperanto, a língua auxiliar universal, Lídia foi responsável pela tradução de vários textos essenciais da Fé Bahá’í e escrevia e viajava frequentemente para ensinar os princípios da Fé. Depois de ter passado algum tempo nos Estados Unidos com a comunidade Bahá’í americana, Zamenhof regressou à sua terra natal, a Polónia, em 1938, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Após a invasão alemã da Polónia, a casa de Zamenhof foi bombardeada, e ela e a sua família foram presas.

Lídia passou cinco meses na prisão antes de ser enviada para o Gueto de Varsóvia. O seu tempo no gueto foi marcado pelas suas tentativas de conseguir alimentos e medicamentos para os mais vulneráveis. Ela recusou uma oferta de fuga de um soldado alemão Bahá’í, a fim de proteger os outros residentes do gueto das represálias nazis.

A recusa de Zamenhof em partir acabou por resultar no seu trágico fim, quando foi transportada num vagão de gado do Gueto de Varsóvia para Treblinka em 1942, onde foi morta na câmara de gás logo à chegada. Na sua última carta conhecida, ela escreveu: “… Sei que devo morrer, mas sinto que é meu dever permanecer com o meu povo. Deus permita que, dos nossos sofrimentos, possa surgir um mundo melhor. Acredito em Deus. Sou Bahá’í e morrerei Bahá’í. Tudo está nas Suas mãos.

Eva Toren, uma jovem conhecida de Zamenhof e sobrevivente de Treblinka, esteve com Lídia nas suas últimas horas. Enquanto os nazis gritavam e agrediam as suas vítimas, Toren descreveu Lídia como "caminhando majestosamente, direita, com orgulho, ao contrário da maioria das outras vítimas que estavam compreensivelmente em pânico". A história de Lídia Zamenhof é apenas um exemplo trágico das consequências que os Bahá’ís enfrentaram simplesmente por praticarem a sua Fé, mas as suas comunicações e conduta finais demonstram uma recusa absoluta em comprometer as suas crenças, sabendo que isso significaria a sua morte.

------------------------------------------------------------
Texto original: How Does a Peaceful Faith Community Resist Repression? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Caroline Fowler é natural de Austin, Texas. Está a fazer um doutoramento em Neurociência Comportamental na Universidade de Baylor. Recentemente, licenciou-se pelo Austin College, após ter concluído a sua tese de honra em neurociência. A sua investigação futura irá explorar a relação entre o cérebro e o sistema imunitário, especificamente no que diz respeito à fadiga e à depressão relacionadas com o cancro. Embora seja uma apaixonada pela ciência, tem um profundo amor pela história, com particular ênfase na Europa de Leste e na Alemanha.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

De onde vem a Sabedoria dos Filósofos?

Por David Langness.


Alguma vez se perguntou de onde é que os filósofos obtiveram a sua sabedoria? Quando leio Aristóteles ou Sócrates, fico impressionado — as suas ideias ainda hoje parecem actuais e relevantes.

É claro que a cultura ocidental tem as suas raízes tradicionais naqueles grandes gregos, os filósofos da liberdade. Na maioria das descrições do crescimento e da evolução do pensamento ocidental, eles são as sementes que germinaram a planta que se tornou a árvore de toda a cultura. A sua sabedoria, percepção e profunda compreensão do espírito humano deram origem à forma como pensamos, como agimos uns com os outros e como vemos o mundo.

Por exemplo:

Considero mais corajoso aquele que supera os seus desejos do que aquele que conquista os seus inimigos; pois a vitória mais difícil é sobre si mesmo. (Aristóteles)

Aquele que é ofendido não deve retribuir a injúria, pois de modo algum pode ser correcto cometer uma injustiça; e não é correcto retribuir uma ofensa ou fazer mal a qualquer homem, por mais que tenhamos sofrido com ele. (Sócrates)

Em termos de pura compreensão da natureza humana, os antigos filósofos gregos — Platão, Sócrates, Aristóteles, Plínio, Galeno e outros — tiveram um enorme impacto na sua época, e até nos dias de hoje. Alguns afirmam que toda a estrutura da cultura ocidental foi construída com base nas suas percepções. O grande estudioso e filósofo contemporâneo Alfred North Whitehead afirmou: "A caracterização geral mais segura da tradição filosófica europeia é que ela consiste numa série de notas de rodapé de Platão".

Se traçarmos a influência histórica dos filósofos gregos clássicos, descobriremos que estes fizeram uma série notável de contribuições para a filosofia islâmica primitiva, depois para o Renascimento europeu e para o Iluminismo, e, por fim, para a nossa cultura moderna. Baseamos grande parte da nossa governação, da nossa ciência e do nosso modo de vida básico na filosofia grega clássica.

Então, de onde é que os antigos filósofos gregos obtiveram as suas ideias incríveis, férteis, profundamente sábias e duradouras? Eram inteiramente originais, embora poucas ideias o sejam? Ou os gregos incluíram no seu pensamento ideias de outros?

Muitos estudiosos do período chegaram à conclusão de que a base conceptual da filosofia grega era proveniente do Oriente. Um dos mais respeitados estudiosos modernos da área, Martin Litchfield West, de Oxford, escreveu um livro baseado numa extensa investigação sobre o tema, intitulado "A Face Oriental de Helicon: Elementos Asiáticos Ocidentais na Poesia e nos Mitos Gregos". O livro de West concluiu que houve uma longa e rica interacção entre as culturas grega e romana no período pré-cristão e os profetas e praticantes do judaísmo do Oriente:

O contacto com a cosmologia e a teologia orientais ajudou a libertar a imaginação dos primeiros filósofos gregos; deu-lhes certamente muitas ideias sugestivas…

Esta conclusão fascinante – que ainda é tema de intenso debate entre os historiadores – subverte uma boa parte do pensamento ocidental tradicional. E se os fundamentos e as raízes da cultura ocidental remontassem a um passado anterior aos gregos?

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam claramente que sim:

Em verdade, os filósofos não negaram o Ancião de Dias... Considerai Hipócrates, o médico. Foi um dos filósofos eminentes que acreditavam em Deus e reconheciam a Sua soberania. Depois dele, veio Sócrates, que, de facto, era sábio, talentoso e honrado. Praticava a abnegação, reprimia as inclinações por desejos egoístas, e afastava-se dos prazeres materiais. Retirou-se para as montanhas, onde morava numa caverna. Dissuadiu os homens de adorar ídolos e ensinou-lhes o caminho de Deus, o Senhor da Misericórdia, até que os ignorantes se levantaram contra ele. Prenderam-no e mataram-no na prisão. Assim te relata esta Pena veloz. Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um defensor excepcional, dedicado a ela. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele que se apercebeu de uma natureza única, temperada e abrangente nas coisas, que se assemelha muito ao espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Tem uma declaração especial sobre este importante tema…

Depois de Sócrates veio o divino Platão, que foi aluno do primeiro e ocupou a cátedra da filosofia como seu sucessor. Ele reconheceu a sua crença em Deus e nos Seus sinais que impregnam tudo o que foi e será. Depois veio Aristóteles, o célebre homem de conhecimento. Foi ele que descobriu o poder da matéria gasosa. Estes homens, que se destacam como líderes do povo e são preeminentes entre eles, reconheceram todos a sua crença no Ser imortal que detém nas Suas mãos as rédeas de todas as ciências. (Bahá’u’lláh, Epístola da Sabedoria, ¶28-¶29)

Os ensinamentos Bahá’ís elogiam os filósofos gregos clássicos em diversas ocasiões e realçam também que se inspiraram no Oriente. Sobre este tema, ‘Abdu’l-Bahá cita as histórias do Oriente:

Está registado nas histórias do oriente que Sócrates viajou para a Palestina e para a Síria e aí, com homens versados nas coisas de Deus, adquiriu certas verdades espirituais; que, ao regressar à Grécia, promulgou duas crenças: uma, a unidade de Deus, e a outra, a imortalidade da alma após a separação do corpo; que estes conceitos, tão estranhos ao seu pensamento, causaram grande comoção entre os Gregos, até que, por fim, o envenenaram e mataram.

E isso é autêntico; pois os gregos acreditavam em muitos deuses, e Sócrates estabeleceu o facto de que Deus é uno, o que obviamente entrava em conflito com as crenças gregas. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 54)

Devemos muito a Sócrates e à filosofia que nos legou, mas talvez esta dívida seja, na verdade, para com Abraão e Moisés, os verdadeiros fundadores das verdades espirituais em que baseamos as nossas civilizações.

------------------------------------------------------------
Texto original: Where Do Philosophers Get their Wisdom? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Um Profeta, Muitas Revelações

Por David Langness.

Os Profetas de Deus foram enviados, os Livros Sagrados foram escritos, para que o homem possa ser libertado. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 178)

Se fizer uma longa caminhada pela história do passado da humanidade, encontrá-la-á repleta de mestres espirituais, profetas divinos e mensageiros celestiais.

Cada época e cultura tem um poeta sagrado, um profeta de um futuro mais espiritual, um portador da luz que chama as pessoas para um propósito mais elevado, que brilha nos céus da consciência humana como um sol brilhante, que conduz e guia as almas humanas à paz, ao amor, à bondade e ao serviço altruísta à humanidade:

… os homens sempre foram ensinados e guiados pelos Profetas de Deus. Os Profetas de Deus são os Mediadores de Deus. Todos os Profetas e Mensageiros provêm de um único Espírito Santo e trazem a Mensagem de Deus, adequada à era em que surgem. A Luz Única está neles e eles são apenas Um entre si. (‘Abdu’l-Bahá in London, p. 23)

Mais do que qualquer outra mensagem, esta representa o princípio central da Fé Bahá’í — que todas as religiões são uma só. Os Bahá’ís acreditam que o Criador tem dado à humanidade um ensinamento espiritual contínuo ao longo do tempo, que constitui um sistema interligado de crença e verdade. Os Bahá’ís acreditam que este sistema único, trazido por profetas e mensageiros com nomes diferentes, de diferentes lugares e em diferentes épocas da história, tem uma única Fonte.

Esta visão da história humana, apresentada nas Escrituras Bahá’ís, enfatiza a unidade dos fundadores das religiões do mundo e o seu profundo impacto na humanidade:

É claro e evidente para ti que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, Que surgem vestidos com diferentes trajes. Se observares com olhos que discernem, contemplá-los-ás habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo o mesmo discurso e proclamando a mesma Fé. Assim é a unidade dessas Essências do Ser, aqueles Luminares de esplendor infinito e imensurável. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, ¶162)

E se, perguntam os ensinamentos Bahá'ís, todos estes profetas de Deus forem "apenas Um entre si?" E se os mensageiros de que temos ouvido falar ao longo dos séculos — Abraão, Krishna, Buda, Moisés, Jesus, Maomé e agora Bahá’u’lláh, o profeta da Fé Bahá’í e o mais recente fundador de uma religião global — forem um e o mesmo?

Isto sugere algum tipo de reencarnação? Não, dizem os ensinamentos Bahá'ís. Em vez disso, sugere uma ligação essencial e mística entre estes mensageiros divinos, um laço de unidade que existe porque todos eles refletem a mesma luz da mesma fonte:

Se és um dos habitantes desta cidade no oceano da unidade divina, verás todos os Profetas e Mensageiros de Deus como uma só alma e um só corpo, como uma só luz e um só espírito, de tal modo que o primeiro entre eles será o último e o último será o primeiro. Pois todos eles Se ergueram para proclamar a Sua Causa e estabeleceram as leis da sabedoria divina. São, todos eles, os Manifestantes do Seu Ser, os Repositórios do Seu poder, os Tesouros da Sua Revelação, os Alvoreceres do Seu esplendor e as Auroras da Sua luz. Através deles manifestam-se os sinais de santidade nas realidades de todas as coisas e os símbolos de unidade nas essências de todos os seres. Através deles revelam-se os elementos da glorificação nas realidades celestiais e os expoentes do louvor nas essências eternas. Deles procedeu toda a criação e a eles regressará tudo o que foi mencionado. E uma vez que nos seus Seres mais íntimos são os mesmos Luminares e os mesmos Mistérios, deves ver as suas condições exteriores sob a mesma luz, para que os possas reconhecer todos como um Ser, ou melhor, encontrá-los unidos nas Suas palavras, discurso e expressão. (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, pp. 32-34)

Se o mundo pudesse começar a compreender os fundadores de todas as religiões como um só ser, cessariam imediatamente o conflito, a dor e a miséria causados pelas disputas religiosas. Unir-se-iam as crenças, unir-se-iam os povos e forjar-se-iam novos laços entre as nações. Permitir-se-ia que todos nós víssemos a comunhão nas nossas causas e as verdades partilhadas subjacentes nas nossas esperanças mais profundas.

Também nos permitiria ver a história humana como um único e grande processo de revelação progressiva:

Entre as dádivas de Deus está a revelação. Portanto, a revelação é progressiva e contínua. Ela nunca termina. É necessário que a realidade da Divindade, com todas as suas perfeições e atributos, resplandeça no mundo humano. A realidade da Divindade é como um oceano ilimitado. A revelação pode ser comparada à chuva. Consegue imaginar o parar da chuva? Sempre à face da Terra, algures, a chuva está a cair. Em resumo, o mundo da existência é progressivo. Está sujeito a desenvolvimento e crescimento...

Portanto, Bahá’u’lláh apareceu do horizonte do Oriente e restabeleceu as fundações essenciais dos ensinamentos religiosos do mundo. As desgastadas crenças tradicionais vigentes entre os homens foram eliminadas. Fez com que existisse camaradagem e concórdia entre os representantes das diferentes confissões, pelo que o amor se manifestou entre as religiões em conflito. Criou uma condição de harmonia entre as seitas hostis e ergueu a bandeira da unidade do mundo humano. Estabeleceu os alicerces da paz internacional, fez com que os corações das nações se unissem e conferiu uma nova vida aos vários povos. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 377-379)

------------------------------------------------------------
Texto original: One Prophet, Many Revelations (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O que aconteceu aos Bahá’ís alemães durante o regime Nazi?

Por Caroline Fowler.


A Fé Bahá’í surgiu na Pérsia em meados do século XIX, mas rapidamente se espalhou pela Europa e a América do Norte. Na Alemanha, porém, os nazis tentaram impedi-la.

A implantação da Fé Bahá’í na Alemanha começou em 1905, quando um pequeno grupo de Bahá’ís vindo dos Estados Unidos se instalou no país.

Duas pessoas deste grupo inicial tinham origens alemãs: Edwin Fischer e Alma Knobloch. Edwin Fischer, dentista, emigrou da Alemanha para Nova Iorque em 1878, tornou-se Bahá’í e depois regressou a Estugarda. Entusiasta da Fé Bahá’í, Fischer falava dos ensinamentos Bahá’ís com frequência, incluindo aos seus pacientes. A outra Bahá’í alemã, Alma Knobloch, aceitou a Fé nos Estados Unidos em 1903 e chegou à Alemanha vinda da casa da sua família em Washington, D.C., em 1907. Pouco depois, alguns alemães começaram a converter-se à Fé Bahá’í, e em 1908, formou-se a primeira Assembleia Espiritual Local.

Cinco anos mais tarde, em 1913, ‘Abdu’l-Bahá, o líder da Fé e filho do fundador, Bahá’u’lláh, viajou para Estugarda, Esslingen e Bad Mergentheim, consolidando o lugar da religião na Alemanha.

Após a Primeira Guerra Mundial, a comunidade Bahá’í na Alemanha continuou a crescer, tornando-se mais activa e visível, como evidenciado pelo criação uma editora de livros Bahá’ís e pela realização de conferências nacionais. A Fé cresceu e espalhou-se, o que levou à eleição de Assembleias Espirituais Locais Bahá’ís em diversas cidades alemãs.

No entanto, esta dinâmica começaria a mudar em 1936, quando os estabelecimentos comerciais pertencentes a Bahá’ís em Estugarda foram vandalizados e os proprietários ameaçados, fazendo eco do preconceito do regime nazi contra os judeus – dado que muitos dos novos Bahá’ís alemães eram de origem judaica. Em 1937, o Reichsführer nazi das SS, Heinrich Himmler, um dos principais arquitectos do Holocausto, emitiu uma lei que proibia a Fé Bahá'í e todas as suas instituições devido às suas "tendências internacionalistas e pacifistas".

Embora os Bahá’ís não se envolvam na política partidária, os ensinamentos Bahá’ís apelam assertivamente ao fim da guerra e à unidade de todas as nações, como declarou ‘Abdu’l-Bahá:

… o propósito do Manifestante de Deus e do alvorecer das luzes ilimitadas do Invisível é educar as almas dos homens e aperfeiçoar o carácter de cada ser humano – para que os indivíduos abençoados, que se libertaram das trevas do mundo animal, ascendam com as qualidades que são os adornos da realidade humana. … que os desprovidos recebam a sua parte do mar ilimitado, e os ignorantes se saciem na fonte viva do conhecimento; que os sedentos de sangue abandonem a sua selvajaria, e os que têm garras afiadas se tornem gentis e tolerantes, e os que amam a guerra procurem, em vez disso, a verdadeira conciliação; que os brutos, com as suas garras afiadas como navalhas, usufruam dos benefícios da paz duradoura; que os impuros aprendam que existe um reino de pureza, e os corruptos encontrem o caminho para os rios da santidade. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l‑Bahá, #2)

O decreto de Himmler lançou uma perseguição aos Bahá’ís – os nazis destruíram vários memoriais Bahá’ís, confiscaram ou destruíram todos os arquivos e a maioria dos livros particulares e, por fim, em 1939, começaram a prender membros da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís da Alemanha.

Em 1942, ocorreram múltiplas detenções, tendo alguns Bahá’ís alemães sido enviados para campos de concentração, onde acabaram por morrer. Os dirigentes Bahá’ís presos foram julgados em Darmstadt em 1944, com claros indícios de que o veredicto já estava pré-determinado. Apesar da forte defesa, o governo nazi considerou todos os seguidores culpados, aplicando-lhes multas elevadas e ordenando a dissolução de todas as actividades e convívios Bahá’ís.

A história da Fé Bahá’í na Alemanha, especialmente antes e durante a Segunda Guerra Mundial, é relativamente escassa, incluindo para os próprios Bahá’ís. O governo destruiu a maioria dos documentos administrativos, livros publicados e textos pessoais durante este período. No entanto, algumas histórias angustiantes e trágicas da perseguição aos Bahá’ís na Alemanha nazi estão hoje disponíveis através de cartas, relatos de testemunhas oculares, entrevistas e memórias. Ao estudar estes casos específicos de perseguição, incluindo prisões e assassinatos, podemos compreender o tratamento frequentemente negligenciado dado aos grupos religiosos minoritários sob o regime de Hitler.

O compromisso das vítimas com os princípios fundamentais da Fé Bahá’í e a sua recusa em afastarem-se das actividades Bahá’ís exemplificaram uma prática de dissidência fiel a um sistema que se opunha às suas crenças. Himmler e o regime nazi sentiram-se ameaçados por Bahá’ís que desejavam a paz e unidade internacional; mas, apesar da repressão e da crueldade, não conseguiram impedir a realização destes objectivos pelos Bahá’ís alemães.

------------------------------------------------------------
Texto original: What Happened to Germany’s Baha’is During the Nazi Regime? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Caroline Fowler é natural de Austin, Texas. Está a fazer um doutoramento em Neurociência Comportamental na Universidade de Baylor. Recentemente, licenciou-se pelo Austin College, após ter concluído a sua tese de honra em neurociência. A sua investigação futura irá explorar a relação entre o cérebro e o sistema imunitário, especificamente no que diz respeito à fadiga e à depressão relacionadas com o cancro. Embora seja uma apaixonada pela ciência, tem um profundo amor pela história, com particular ênfase na Europa de Leste e na Alemanha.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Quem foram as Pessoas Mais Influentes na História?

Por David Langness.


Pense um pouco nestas questões: quem foram as pessoas mais influentes na história? Quem teve maior influência sobre toda a humanidade?

Os historiadores fizeram muitas listas classificando as pessoas mais influentes de sempre, mas há alguns anos a revista Time colocou esta questão, fez uma análise baseada em dados e até a submeteu a algum rigor científico:

Quando nos propusemos classificar a importância das figuras históricas, decidimos não abordar o projecto da mesma forma que os historiadores, através de uma avaliação baseada em princípios das suas realizações individuais. Em vez disso, avaliamos cada pessoa agregando milhões de traços de opiniões numa análise computorizada centrada em dados. Classificamos as figuras históricas da mesma forma que o Google classifica as páginas web, integrando um conjunto diversificado de métricas sobre a sua reputação num único valor consensual. (Who’s Biggest? The 100 Most Significant Figures in History, por Steven Skiena e Charles B. Ward, Time Magazine, 10 de Dezembro de 2013)

De longe, a maior percentagem de indivíduos na lista da Time das 100 pessoas mais significativas da história — um quarto deles — eram grandes figuras religiosas ou filósofos, os influentes profetas e mensageiros cujos conceitos, ideias e acções influenciaram milhões e milhões de pessoas ao longo de muitos séculos. Eis os cinco primeiros classificados pela Time:

  • Jesus
  • Napoleão
  • Muhammad
  • William Shakespeare
  • Abraham Lincoln

É fácil compreender porque é que Cristo e Maomé ocupam posições tão elevadas nesta lista: porque deram origem a religiões globais com milhares de milhões de adeptos e porque é que os seus ensinamentos tiveram um impacto tão profundo nos seus seguidores, em múltiplas civilizações e na própria história da humanidade ao longo dos séculos. A posição de Napoleão em segundo lugar reflecte, sem dúvida, o facto de ele ter mudado a face da Europa durante a sua era, mas, afinal, tanto Cristo como Maomé mudaram a face do mundo inteiro — durante milhares de anos.

A lista da Time, como muitas listas semelhantes, tem reconhecidamente algum pendor ocidental — várias pessoas nela incluídas são presidentes americanos, por exemplo, e figuras históricas seminais como Buda e Moisés ocupam posições muito aquém do esperado —, mas tem em conta o enorme impacto dos fundadores das religiões do mundo. Podemos contar pelos dedos das mãos os profetas e mensageiros mais conhecidos: Krishna, Abraão, Moisés, Buda, Zoroastro, Cristo, Muhammad e agora Bahá’u’lláh, todos fundadores de religiões globais que inspiraram milhões de seguidores e, de facto, mudaram o pensamento da humanidade e, consequentemente, o progresso.

Assim, aqui fica uma ideia: e se modificássemos um pouco a Teoria do Grande Homem da história, considerando esta perspectiva espiritual, e lhe chamássemos a teoria dos Profetas de Deus? E se começássemos a ver estes profetas e mensageiros como os verdadeiros fundadores não só da religião, mas da própria civilização?

A leitura da história leva-nos à conclusão de que todos os homens verdadeiramente grandes, os benfeitores da raça humana, aqueles que levaram os homens a amar o certo e a odiar o errado e que causaram progressos reais, todos estes foram inspirados pela força do Espírito Santo.

Nem todos os Profetas de Deus se formaram nas escolas de filosofia erudita; na verdade, eram frequentemente homens de origem humilde, aparentemente ignorantes, homens desconhecidos e sem importância aos olhos do mundo; por vezes, nem sequer tinham conhecimentos de leitura e de escrita.

O que elevou estes grandes seres acima dos homens, e pelo qual puderam tornar-se Mestres da verdade, foi o poder do Espírito Santo. A sua influência sobre a humanidade, em virtude desta poderosa inspiração, foi grande e profunda.

A influência dos filósofos mais sábios, sem este Espírito Divino, tem sido relativamente insignificante, por mais extenso que seja o seu conhecimento e profunda a sua erudição.

Os intelectos fora do comum, por exemplo, de Platão, Aristóteles, Plínio e Sócrates, não influenciaram tanto os homens ao ponto de estes se mostrarem desejosos de sacrificar as suas vidas pelos seus ensinamentos; por outro lado, alguns destes homens simples comoveram de tal forma a humanidade que milhares de homens se tornaram mártires dispostos a defender as suas palavras; pois estas palavras foram inspiradas pelo Espírito Divino de Deus! (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 164-165)

O filósofo Hegel concordou quando disse: “Estes são os grandes homens históricos — cujos objetivos particulares envolvem aquelas grandes questões que são a vontade do Espírito do Mundo.

É claro que apenas mencionei o mais conhecido dos grandes fundadores da Fé. Cada cultura e civilização teve o seu próprio mensageiro divino, herói cultural ou profeta, o líder espiritual que conduziu as pessoas em direcção à paz, à unidade e ao amor ao próximo. Cada povo e cultura indígena tem pelo menos um destes mensageiros espirituais. Poderá ter ouvido falar de alguns deles — o mensageiro maia Quetzlcoatl, por exemplo, ou Deganawida, o Grande Pacificador, o venerado profeta dos Haudenosaunee, da Confederação Iroquesa —, mas os nomes de muitos outros perderam-se com o passar do tempo:

Repetidamente vos enviei os meus servos, os profetas, que insistiram convosco para mudarem de procedimento e fazerem o que é recto. Preveniram-vos para que não prestassem culto nem servissem a outros deuses… (Jeremias 35:15)

E a todos os povos enviámos um apóstolo. (Alcorão 16:38)

Deus tem levantado profetas e revelado livros tão numerosos como as criaturas do mundo, e continuará a fazê-lo por toda a eternidade. (The Bab, Selections from the Writings of the Bab, p. 125)

Sabei que a ausência de qualquer referência a eles [Profetas anteriores a Adão] não é prova de que, de facto, não tenham existido. O facto de actualmente não existirem registos disponíveis sobre eles deve ser atribuído à sua extrema distância, bem como às imensas mudanças que a Terra sofreu desde então. (Bahá’u’lláh, Gleanings from the Writings of Bahá’u’lláh, LXXXVII)

Quando observar este padrão histórico ao analisar todo o âmbito da história humana, e avaliar a influência destes imponentes líderes espirituais, começará a reconhecer o seu poderoso impacto.

Mas… e se levássemos esta teoria da história dos Profetas de Deus um pouco mais longe — como fazem os ensinamentos Bahá’ís — e começássemos a considerar cada um destes mensageiros divinos como um só?

------------------------------------------------------------
Texto original: Who Were History’s Most Influential People? (www.bahaiteachings.org)

 - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de outubro de 2025

A Humanidade precisa de um Educador?

Por David Langness.


Quando estava na faculdade, trabalhei durante dois anos num grande abrigo público que acolhia 1200 crianças com deficiências de desenvolvimento, incluindo um rapaz selvagem.

Existem muitos mitos e histórias sobre crianças selvagens, o chamado fenómeno da "criança selvagem". Os mitos romanos contam as histórias de Rómulo e Remo, criados por lobos em vez de pais humanos. Todos conhecemos Tarzan, Mogli e Peter Pan, as figuras selvagens mais familiares da literatura e do cinema contemporâneos. O Livro dos Reis iraniano conta a história de uma criança selvagem chamada Zal, criada pelo Simurgh, a ave mítica semelhante à Fénix. O herói do romance clássico de Robert Heinlein, "Um Estranho numa Terra Estranha", Valentine Michael Smith, é um humano criado por marcianos. Todas estas personagens, criadas sem contacto humano normal, ilustram a importância do cuidado e da educação na primeira infância.

Mas o rapaz que eu conheci não se parecia com nenhuma destas encantadoras criações míticas ou literárias — era um caso muito triste, com graves distúrbios psicológicos e de desenvolvimento devido a uma infância profundamente negligente e abusiva, com pouca ou nenhuma interação humana, uma vez que os seus pais eram ambos toxicodependentes graves. Ninguém sabia muito mais sobre a sua história, mas eu trabalhava frequentemente na ala onde estava internado, por isso conheci-o. Quando o conheci, ele tinha seis anos e parecia ter uma inteligência normal, mas ainda não conseguia falar e só conseguia formar sons em vez de palavras. Tinha frequentes explosões emocionais incontroláveis; era tão insociável, frustrado, perturbado e violento que precisava de ser isolado das outras crianças porque podia magoá-las. Precisava de contacto físico humano, mas temia-o profundamente.

Nos dois anos em que o conheci, apesar do esforço de muitas pessoas, penso que nunca fez qualquer progresso real. A equipa profissional disse-me que a falta de educação na primeira infância e as fases cruciais do desenvolvimento regular não lhe permitiam amadurecer ou ter sequer um vislumbre de normalidade.

Penso nele agora, quarenta anos depois, e pergunto-me se sobreviveu até à idade adulta e se algum dia cresceu.

Penso também na enorme importância da educação para nós, humanos, porque o rapaz selvagem que conheci mostrou-me aquilo em que uma criança sem o cuidado de pais carinhosos e atenciosos se poderia tornar.

Aquele menino selvagem ajudou-me a compreender que nós, seres humanos, precisamos de educadores. Desde os nossos primeiros momentos como bebés completamente indefesos, precisamos de uma enorme quantidade de cuidados, atenção e educação. As nossas mentes, corações e almas, abertos e receptivos a toda a informação desde o primeiro dia, clamam por alimentos nutritivos, tal como os nossos corpos. Se os bebés recebem estímulo, atenção e amor, crescem e tornam-se adultos funcionais — mas sem estas coisas não podem progredir nem evoluir.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a humanidade, como um todo, também precisa de um educador:

Quando consideramos a existência, observamos que os reinos mineral, vegetal, animal e humano, todos eles necessitam de um educador.

Se a terra estiver privada de um lavrador, tornar-se-á um matagal de ervas daninhas viçosas, mas se houver um agricultor a cultivá-la, a colheita resultante proporcionará sustento aos seres vivos. Portanto, é evidente que a terra necessita ser cultivada pelo agricultor. Considerai as árvores: se não forem tratadas, não darão fruto e, sem fruto, não terão qualquer utilidade. Mas, quando entregues aos cuidados de um jardineiro, a árvore estéril torna-se frutífera e, através do tratamento, cruzamento e enxerto, a árvore com frutos amargos produz frutos doces...

Considerai também os animais: se um animal é treinado, torna-se domesticado, enquanto o homem, se for deixado sem educação, torna-se como um animal. De facto, se o homem for abandonado à lei da natureza, desce ainda mais baixo que o animal, enquanto se for educado, torna-se mesmo como um anjo. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 8.)

Então, quem educa a humanidade? Se os nossos pais nos educam enquanto bebés e crianças, quem desempenha esse papel para a humanidade em geral? Os Bahá’ís acreditam — e esta crença constitui a chave essencial para a visão Bahá’í da história humana — que os educadores da humanidade são os profetas e mensageiros de Deus, todos fundadores das grandes religiões do mundo:

... o Educador universal deve ser um educador material, humano e espiritual, e, elevando-se acima do mundo da natureza, e simultaneamente deve possuir um outro poder, para que possa assumir a posição de mestre divino. Se Ele não exercesse esse poder celestial, não seria capaz de educar, pois Ele próprio seria imperfeito. Como poderia, então, promover a perfeição? Se fosse ignorante, como poderia tornar os outros sábios? Se fosse injusto, como poderia tornar os outros justos? Se fosse terreno, como poderia tornar os outros celestiais?

Assim, devemos considerar com justiça se estes Manifestantes divinos que apareceram possuíam todos estes atributos ou não. Se estivessem privados destes atributos e perfeições, então não eram verdadeiros educadores.

Portanto, é através de argumentos racionais que devemos provar às mentes racionais o estatuto de profeta de Moisés, de Cristo e dos outros Manifestantes divinos…

Assim, foi demonstrado com argumentos racionais que o mundo da existência necessita urgentemente de um educador e que a sua educação deve ser alcançada através de um poder celestial. Não há dúvida de que este poder celestial é a revelação divina e que o mundo deve ser educado através deste poder que transcende o poder humano. (Idem, pags. 12-13)

No próximo artigo desta série, iremos explorar mais a fundo este tema único, examinando os ensinamentos Bahá’ís que explicam o desenvolvimento progressivo da história humana e questionaremos: quem foram os maiores e mais influentes indivíduos da história?

------------------------------------------------------------
Texto original: Does Humanity Need an Educator? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 20 de setembro de 2025

A Economia determina a História Humana?

Por David Langness.


Karl Marx disse: "A história de todas as sociedades existentes até hoje é a história da luta de classes." Você concorda? A história é um registo de guerras económicas?

Marx, Engels e Lenine definiram as classes sociais segundo características económicas, separando o opressor e o oprimido, a burguesia e o proletariado, em termos puramente financeiros:

Por burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e empregadores de trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, não dispondo de meios de produção próprios, são reduzidos a vender a sua força de trabalho para sobreviver. (Friedrich Engels)

A liberdade na sociedade capitalista permanece sempre a mesma que era nas antigas repúblicas gregas: liberdade para os proprietários de escravos. (Vladimir Lenin)

O homem livre e o escravo, o patrício e o plebeu, o senhor e o servo, o mestre de guilda e o jornaleiro, numa palavra, o opressor e o oprimido, estavam em constante oposição um ao outro, travando uma luta ininterrupta, ora oculta, ora aberta, que terminava sempre, quer na reconstituição revolucionária da sociedade no seu todo, quer na ruína comum das classes em conflito. (Karl Marx)

Os marxistas definem a história como a batalha permanente entre as diferentes classes sociais, uma luta constante entre os grupos poderosos que controlam a riqueza e os recursos e os grupos impotentes que lutam para sobreviver sob o seu jugo económico. O mundo actual, com as suas enormes e inéditas disparidades entre riqueza e pobreza, poderá servir de modelo a essa teoria.

Assim, na perspectiva marxista, a economia torna-se o factor determinante na história, porque as teorias marxistas da história negam completamente os aspectos espirituais da humanidade, afirmando que todas as pessoas agem principalmente por interesse económico, e a religião apenas oprime ainda mais as massas. O comunismo tentou transformar esta filosofia da história numa sociedade sem classes e irreligiosa, mas na maioria dos casos esta tentativa falhou no palco mundial.

Os ensinamentos Bahá’ís reconhecem a existência de classes sociais e condenam os preconceitos económicos e de classe que lhes estão associados:

É o preconceito racial, patriótico, religioso e de classe que tem sido a causa da destruição da Humanidade. (‘Abdu’l-Bahá in London, p. 28)

A ordem mundial só pode ser fundada sobre uma consciência inabalável da unidade da humanidade, uma verdade espiritual que todas as ciências humanas confirmam. A antropologia, a fisiologia e a psicologia reconhecem apenas uma espécie humana, embora infinitamente variada nos aspectos secundários da vida. O reconhecimento desta verdade exige o abandono de preconceitos — preconceitos de toda a espécie — de raça, classe, cor, credo, nação, sexo, grau de civilização material, tudo o que permite às pessoas considerarem-se superiores às outras. (A Casa Universal de Justiça, The Promise of World Peace, p. 4)

Mas os ensinamentos Bahá’ís também alertam a humanidade para não criar “falsos deuses” a partir de algumas das teorias mais destrutivas da história, como o nacionalismo, o racismo e o comunismo:

O próprio Deus foi, de facto, destronado dos corações dos homens, e um mundo idólatra saúda e adora apaixonada e clamorosamente os falsos deuses que as suas próprias fantasias fúteis criaram fatuamente e as suas mãos mal guiadas tão impiamente exaltaram. Os principais ídolos no templo profanado da humanidade não são senão os triplos deuses do nacionalismo, do racismo e do comunismo, em cujos altares governos e povos, sejam democráticos ou totalitários, estejam em paz ou em guerra, sejam do Oriente ou do Ocidente, cristãos ou islâmicos, estão, de várias formas e em diferentes graus, agora a adorar. Os seus sumo-sacerdotes são os políticos e os doutores mundanos, os chamados sábios da época; o seu sacrifício, a carne e o sangue das multidões massacradas; os seus encantamentos, pregões antiquados e fórmulas insidiosas e irreverentes; o seu incenso, o fumo da angústia que emana dos corações dilacerados dos despojados, dos estropiados e dos desabrigados. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p. 113)

Na perspectiva Bahá’í, nenhuma teoria histórica do progresso da civilização que deixe completamente de fora o espírito humano e o seu Criador pode descrever completa e precisamente o passado, o presente ou o futuro:

Qualquer que seja o progresso feito pelo homem, ele necessita sempre do Poder do Espírito Santo, pois o poder do homem é limitado e o Poder Divino é ilimitado. (Bahá’u’lláh, citado por ‘Abdu’l-Bahá em Star of the West, Volume 2, p. 6)

Então, agora que já analisámos todas as seis teorias predominantes da história humana — a Teoria Cíclica, a Teoria Linear, a Teoria do Grande Homem, a Teoria do Povo, a Teoria Geográfica e a Teoria Marxista — qual delas acha que se enquadra com a realidade? Qual delas descreve melhor o longo caminho da nossa espécie até à civilização actual?

Antes de decidir qual destas teorias históricas mais gosta, ou se gosta de alguma delas, aqui fica uma pergunta. Voltemos ao conceito de Carlyle e pensemos um pouco mais sobre a questão do Grande Homem: de todos os indivíduos que já viveram — as pessoas mais influentes, homem ou mulher, na nossa história partilhada — quais tiveram o impacto mais duradouro e profundo na humanidade?

Entendeu? Agora, qual delas teve maior impacto em si pessoalmente? Pense nisso por uns tempos e voltaremos a falar do assunto.

Portanto, embora os Bahá’ís acreditem que a economia e a geografia têm um impacto profundo na história humana, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que o espírito humano teve um impacto muito mais significativo ao longo do tempo. No próximo artigo desta série, examinaremos uma nova teoria Bahá’í da história que se baseia na importância da alma e do seu Criador.

------------------------------------------------------------
Texto original: Does Economics Determine Human History? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 23 de agosto de 2025

A Geografia determina o nosso Destino?

Por David Langness.


Há vários anos, na UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), conheci um autor e biólogo evolucionista chamado Jared Diamond, que abriu uma nova perspectiva sobre a história humana, para mim e para muitos outros.

Diamond escreveu o livro vencedor do Prémio Pulitzer, Armas, Germes e Aço: O Destino das Sociedades Humanas, onde disse:

A história das interacções entre povos distintos moldou o mundo moderno através de conquistas, epidemias e genocídios. Estas colisões tiveram repercussões que ainda não se extinguiram passados muitos séculos e que continuam activas em algumas das zonas mais problemáticas do mundo.

Armas, Germes e Aço apresenta uma premissa fascinante que deitou por terra muitas teorias históricas anteriores, ao colocarem uma questão muito óbvia:

Porque é que a riqueza e o poder foram distribuídos tal como estão hoje, e não de outra forma? Por exemplo, porque não foram os nativos americanos, os africanos e os aborígenes australianos que dizimaram, subjugaram ou exterminaram os europeus e os asiáticos? (Guns, Germs and Steel, p. 15)

No seu livro, Diamond responde a esta importante questão de uma nova forma, dizendo:

A história seguiu rumos diferentes para os diferentes povos devido às diferenças entre os ambientes dos povos, e não por causa das diferenças biológicas entre os próprios povos. (Idem, p.25)

O trabalho de Diamond destrói as antigas explicações para estas disparidades, retirando da equação histórica as justificações para o racismo. Após décadas de estudo sobre os povos indígenas, por exemplo, determinou que:

Todas as sociedades humanas contêm pessoas inventivas. Acontece que alguns ambientes fornecem mais matéria-prima e condições mais favoráveis para a utilização de invenções do que outros. (Idem, p. 408)

Esta ideia central, e o trabalho de muitos outros cientistas e historiadores, ajudou os estudantes de História a explicar porque é que algumas sociedades se tornaram tecnologicamente mais aptas e mais ricas do que outras. Também ajudou os historiadores a descartar as antigas explicações para as diferenças culturais, que se baseavam frequentemente em teorias racistas ou em medidas de inteligência relacionadas com a cultura em diferentes populações ou grupos raciais.

Diamond defende que este entendimento mais subtil e detalhado das forças da história deve incluir os efeitos profundos do ambiente natural na sua análise. Não acredita no "determinismo geográfico" - a ideia simplista de que o ambiente natural é responsável por todas as escolhas humanas - mas concede ao ambiente natural um lugar maior e mais proeminente na determinação da nossa história:

... muitas pessoas anseiam por acreditar que o espírito humano, o livre-arbítrio e a agência individual são as expressões mais nobres do ser humano e têm um amplo alcance. Mas mesmo estas coisas nobres têm limites. O espírito humano não aquece uma pessoa a norte do Círculo Polar Ártico no inverno se estiver quase nua, como acontece com os povos das terras baixas equatoriais. (“Geographic Determinism,” from www.JaredDiamond.org)

Portanto, para responder à questão do título deste artigo: a geografia não determina o nosso destino. Certamente, existem poucas diferenças geográficas entre, digamos, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte, e, no entanto, o desenvolvimento da governação, da cultura e da sociedade civil nestas duas nações apresenta diferenças acentuadas.

Este facto e muitos outros semelhantes levam a uma conclusão inevitável: a história humana, embora fortemente influenciada pela geografia e pelo ambiente, foi impulsionada por uma influência ainda maior: o próprio preconceito:

... entre os ensinamentos de Bahá’u’lláh está o de que os preconceitos religiosos, raciais, políticos, económicos e patrióticos destroem a estrutura da humanidade. Enquanto estes preconceitos prevalecerem, o mundo da humanidade não terá paz. Durante um período de 6000 anos, a história deu-nos informação sobre o mundo da humanidade. Durante estes 6000 anos, o mundo da humanidade não esteve livre de guerras, conflitos, assassinatos e sede de sangue. Em todos os períodos, a guerra foi travada num país ou noutro, e essa guerra deveu-se a preconceito religioso, preconceito racial, preconceito político ou preconceito patriótico. Portanto, foi constatado e provado que todos os preconceitos são destruidores da estrutura humana. Enquanto estes preconceitos persistirem, a luta pela existência deverá permanecer dominante, e a sede de sangue e a rapacidade continuarão. Assim, tal como aconteceu no passado, o mundo da humanidade não pode ser salvo das trevas da natureza e não pode alcançar a iluminação salvo através do abandono dos preconceitos e da aquisição da moral do Reino.

Se este preconceito e inimizade são devidos à religião, considere-se que a religião deve ser a causa da comunhão; caso contrário, é infrutífera. E se esse preconceito for o preconceito de nacionalidade, considere-se que toda a humanidade é de uma só nação; todos surgiram da árvore de Adão, e Adão é a raiz da árvore. Esta árvore é uma só e todas estas nações são como ramos, enquanto os indivíduos da humanidade são como as suas folhas, flores e frutos. Assim, o estabelecimento de várias nações, o consequente derramamento de sangue e a destruição da estrutura da humanidade resultam da ignorância humana e de motivos egoístas. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, nº 227)

Os Bahá'ís acreditam que o preconceito — seja ele de raça, nacionalidade ou religião — destrói as civilizações humanas. Os ensinamentos Bahá’ís pedem a toda a humanidade que se livre destes preconceitos, e afirmam que este é um pré-requisito para uma civilização humana verdadeiramente global.

Mas, e os profundos preconceitos de classe que os historiadores marxistas citam como factor causador da nossa evolução histórica? No próximo artigo desta série, examinaremos a teoria histórica marxista e as novas perspectivas que ela oferece.

------------------------------------------------------------
Texto original: Is Geography Destiny? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 2 de agosto de 2025

Os governantes têm um impacto duradouro na História?

Por David Langness.


Conhece a história do encontro entre Diógenes, o famoso filósofo que buscava a verdade, e Alexandre, o Grande? O encontro não correu bem para o rei.

Diógenes e Alexandre
Diógenes, conhecido em todo o mundo pela sua filosofia que rejeitava o materialismo e as restrições artificiais da sociedade grega, vivia num barril nas ruas de Corinto. Na verdade, tinha desistido de tudo o que possuía e tornara-se um sem-abrigo voluntário para demonstrar o seu desdém pelo materialismo. Plutarco escreveu que Alexandre, que procurou e ficou entusiasmado ao conhecer o famoso filósofo, parou diante de Diógenes sentado e perguntou-lhe se podia fazer alguma coisa por ele.

"Sim", disse Diógenes. "Sai da frente do sol; estás a fazer-me sombra".

O filósofo olhava fixamente uma pilha de ossos humanos à sua frente, e Alexandre, o Grande, o homem mais poderoso do mundo na época, aluno de Aristóteles e filho do rei Filipe II, perguntou a Diógenes o que estava a fazer.

Estou à procura dos ossos do seu pai”, disse Diógenes, “mas não consigo distingui-los dos ossos de um escravo”.

Estas lendas e histórias tendem a ser embelezadas com o tempo e, porque já passaram 2300 anos desde o suposto encontro, é preciso levar o relato de Plutarco sobre Diógenes e Alexandre, o Grande, com uma boa dose de cepticismo, ou talvez várias. A história, apócrifa ou não, sobreviveu tanto tempo porque ilustra uma verdade importante: na vida, as nossas condições podem ser muito diferentes; mas na morte tornamo-nos iguais. Riqueza, pompa e circunstância terrenas não significam nada na sepultura.

Os ensinamentos Bahá’ís reflectem longa e frequentemente sobre este importante tema, tal como os ensinamentos de todas as grandes religiões. Alertam-nos para não darmos demasiada importância ao estatuto social, à hierarquia ou à distinção mundana — porque tudo isto é temporário, importante neste mundo por um curto período, mas não no mundo que é eterno.

Neste excerto muito socrático de uma das suas epístolas, Bahá'u'lláh faz-nos a todos a mesma pergunta essencial que Diógenes fez a Alexandre:

Olhando para os que dormem sob as lápides, rodeados pelo pó, poder-se-ia distinguir entre a caveira desfeita do soberano e os ossos em decomposição do súbdito? Não, por Aquele que é o Rei dos Reis! Pode-se distinguir o senhor do vassalo, ou aqueles que disfrutaram riquezas daqueles que não possuíam sapatos ou uma esteira? Por Deus! Toda a distinção foi eliminada, salvo para aqueles que defendem o que é correcto e governam com justiça.

Para onde foram os homens instruídos, os sacerdotes e os potentados de outrora? Os que aconteceu às suas perspectivas criteriosas, às suas percepções sensatas, às suas declarações sábias? Onde estão os seus cofres ocultos, os seus ornamentos aparatosos, os seus divãs dourados, os seus tapetes e almofadões espalhados? Desapareceu para sempre a sua geração! Todos pereceram, e, pelo mandamento de Deus, nada restou deles salvo pó disperso. Esgotada está a riqueza que amealharam, espalhados estão os bens que acumularam, dissipados estão os tesouros que esconderam. Agora, nada se pode ver salvo os seus lugares favoritos desertos, as suas habitações sem telhado, as suas vigas arrancadas, e o seu esplendor desvanecido. Nenhum homem de discernimento permitirá que a riqueza distraia o seu olhar do seu derradeiro objectivo, e nenhum homem de compreensão permitirá que as riquezas o impeçam de se voltar para Aquele Que é o Possuidor de Tudo, o Altíssimo.

Onde está aquele que detinha o domínio sobre tudo onde o sol brilha, que vivia extravagantemente na terra, procurando os luxos do mundo e tudo o que foi criado nele? Onde está o comandante da legião negra e que erguia o estandarte dourado? … Onde estão aqueles perante cuja munificência as casas de tesouros da terra se encolhiam de vergonha, e ante cuja generosidade e vastidão de espírito o próprio oceano se envergonhava? Onde está aquele que estendeu o seu braço em rebelião, e voltou a sua mão contra o Todo-Misericordioso?

Onde estão aqueles que foram em busca dos prazeres mundanos e frutos dos desejos carnais? Para onde fugiram as suas mulheres belas e graciosas? Onde estão os seus ramos ondulantes, os seus galhos que se expandem, as suas mansões grandiosas, os seus jardins protegidos? E sobre os encantos desses jardins – os seus solos refinados e brisas suaves, os seus regatos murmurantes, os seus ventos sussurrantes, o arrulho das suas pombas, o som leve das suas folhas? Onde estão agora as suas manhãs resplandecentes e os seus rostos brilhantes envoltos em sorrisos? Ai deles! Todos pereceram e foram repousar sob uma abóbada de pó. Deles, não ouvimos nem o nome, nem menção; nada se sabe dos seus assuntos, e nada resta dos seus sinais.

Como? Irão então as pessoas contestar aquilo de que elas próprias são testemunhas? Irão elas negar aquilo que elas sabem ser verdade? Não sei em que deserto deambulam! Será que eles não vêem que embarcaram numa viagem que não tem retorno? Durante quanto tempo irão vaguear da montanha para o vale, da várzea para a colina? “Não chegou o momento para aqueles que acreditam tornarem humildes os seus corações à menção de Deus?” Bendito seja aquele que disse, ou diz agora, “Sim, pelo meu Senhor! O momento chegou e a hora soou!”, e, depois disso, desprende-se de tudo o que existe, e entrega-se inteiramente Àquele Que é o Possuidor do universo e Senhor de toda a criação. (Bahá’u’lláh, Súriy-i-Haykal, ¶259-¶263)

Os únicos líderes que têm um impacto duradouro na história, diz aqui Bahá'u'lláh claramente, são aqueles "defendem o que é correcto e governam com justiça". O seu poder e prazeres mundanos, os seus castelos, as suas riquezas e os seus poderosos exércitos, tudo se desmorona, se dissipa e desaparece no passado esquecido, e a única coisa que permanece é a memória dos atributos espirituais internos que revelaram ao povo que governaram.

Com isto em mente, no próximo artigo desta série, vamos analisar uma das explicações modernas da história mais populares e amplamente aceites: a teoria do homem comum.

------------------------------------------------------------
Texto original: Do Leaders Have a Lasting Impact on History? (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 8 de julho de 2025

O Martírio Impressionante do Báb


... os filhos de Israel abandonaram a tua aliança, derrubaram os teus altares e assassinaram os teus profetas. Só eu escapei; mas também a mim me querem matar! (Elias, 1Reis 19:10)

Como todos sabemos, os profetas, têm muitas vezes uma vida curta. Cristo morreu na cruz com 33 anos, depois de ensinar a sua nova Fé durante apenas três anos. Por alguma razão que não compreendemos, os líderes da humanidade costumam reagir mal aos fundadores das grandes religiões do mundo e perseguem-nos terrivelmente. Abraão e Moisés enfrentaram a prisão, o exílio, o escárnio e a perseguição. Krishna e Buda sofreram desprezo e censura oficial. Os líderes da sociedade crucificaram Cristo; declararam guerra a Muhammad; torturaram, exilaram e aprisionaram Bahá'u'lláh; e executaram o Báb.

Já ouviu falar do Báb? Se não, talvez queira saber sobre a Sua mensagem e sobre o que aconteceu a este jovem profeta, que iniciou uma nova Fé progressista no meio de uma das sociedades mais corruptas e atrasadas do mundo. Como consequência, sofreu tremendamente, mas mesmo após a Sua morte trágica, a Fé do Báb abriu caminho para o surgimento global da Fé Bahá’í, tal como João Batista fez para a nova Fé de Jesus.

A sua história começou há menos de dois séculos. O Báb (que significa “Porta” em árabe) iniciou a sua nova Fé em 1844. Surgiu do misticismo profético sufi predominante na Pérsia do século XIX. A mensagem inspiradora do Báb — cujos ensinamentos anunciavam o futuro aparecimento de uma grande revelação mundial — rapidamente se consolidou naquela cultura muçulmana xiita, muito assente na tradição. A princípio, poucas pessoas souberam da existência do Báb, mas depois milhares e dezenas de milhares começaram a tornar-se Bábis, rompendo com as tradições e práticas islâmicas da sua sociedade e desafiando a autoridade dos seus líderes. O rápido crescimento da Fé Bábi abalou os alicerces da sociedade persa.

Os clérigos e os governantes da Pérsia reagiram mal a este novo desenvolvimento religioso, para dizer o mínimo.

Apenas seis anos após o anúncio da nova Fé do Báb, em 1844, o governo Qajar ordenou a execução deste jovem mensageiro profundamente carismático — que tinha então apenas trinta anos. O governo e os clérigos islâmicos já tinham torturado e assassinado cruelmente mais de 20.000 fervorosos seguidores do Báb durante os curtos e intensos seis anos de duração do movimento Bábi. Como o Báb exigia mudanças revolucionárias no sistema predominante de crença e governação religiosa, e porque pregava a unidade de todas as religiões, as autoridades temiam que este novo e dinâmico desafio e o seu crescente apoio os afastassem rapidamente do poder.

Apesar do massacre generalizado contra os Seus seguidores, cada vez mais pessoas continuavam a tornar-se Bábis. Em 1850, receosas da sua crescente influência e desesperadas por esmagar o movimento Bábi, as autoridades decidiram executar o Báb. Quando O acusaram de apostasia — a mesma acusação que os fariseus fizeram contra Jesus —, o Báb rejeitou arrepender-se ou refutar os Seus ensinamentos, aceitando calmamente as consequências.

Depois, a 9 de Julho de 1850, as autoridades Xiitas ordenaram que o Báb fosse executado por fuzilamento na praça de Tabriz, na Pérsia. Um dos jovens seguidores do Báb insistiu em acompanhá-lo na morte, e as autoridades consentiram de bom grado. Uma multidão de dez mil pessoas assistiu dos telhados dos quartéis e das casas junto à praça.

Sam Khan
Imediatamente, porém, surgiu um problema. Ao início dessa manhã, Sam Khan, o comandante do regimento de soldados arménios encarregado de executar o Báb, tinha implorado antecipadamente o Seu perdão. "Professo a fé cristã", disse o oficial ao Báb na Sua cela, "e não Lhe desejo mal. Se a Sua Causa for a Causa da Verdade, permita-me livrar-me da obrigação de derramar o Seu sangue."

"Segue as tuas instruções", disse o Báb gentilmente ao comandante. "E se a tua intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente livrar-te-á da tua perplexidade."

Quando Sam Khan deu ordem para disparar, os mosquetes deram um estrondo. Um jornalista ocidental que testemunhou o facto relatou que "o fumo dos disparos das setecentas e cinquenta espingardas era tal que transformou a luz do sol do meio-dia em escuridão".

Depois do fumo se ter dissipado, a multidão ficou estupefacta: o Báb tinha desaparecido. O seu jovem e dedicado seguidor permanecia completamente ileso junto ao muro, e as cordas que o prendiam a ele e ao Báb estavam despedaçadas. Incrédula, a multidão começou a gritar que tinha presenciado um milagre. Sam Khan, agora aliviado do seu dilema, ordenou imediatamente aos seus 750 soldados que se afastassem para longe, jurando que nunca mais obedeceria a uma nova ordem, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

Assim que as tropas de Khan abandonaram a praça, o coronel da guarnição de Tabriz ofereceu-se para proceder à execução. Depois de os guardas terem encontrado o Báb na Sua cela, terminando pacificamente uma conversa, levaram-no e amarraram-no mais uma vez, juntamente com o seu jovem seguidor. As Suas palavras finais foram as seguintes:

"Ó geração perversa! Se tivésseis acreditado em Mim, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem cuja condição é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado em Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco." (citado por Shoghi Effendi, God Passes By, p. 53.)

O segundo pelotão de fuzilamento apontou e disparou. Desta vez, a execução foi bem-sucedida.

Os corpos unidos e crivados de balas do Báb e do Seu fiel seguidor — chamado Anis, que significa companheiro próximo — repousam agora sob uma cúpula dourada no Monte Carmelo, em Haifa, Israel. Milhões de pessoas de todo o mundo visitam este local sagrado, e todos os dias o Santuário do Báb proclama a mensagem Bahá’í de unidade, paz, amor e altruísmo ao mundo.

Os Bahá'ís acreditam que o Báb, o Precursor e Arauto da Fé Bahá’í, deu início a um novo ciclo de revelação progressiva para a humanidade. Os Seus novos ensinamentos revolucionários abriram o caminho para a nova mensagem de Bahá’u’lláh, e o Seu sacrifício supremo deu-nos a todos uma nova visão de um mundo unificado.

------------------------------------------------------------
Texto original: The Shocking Martyrdom of the Bab (www.bahaiteachings.org)