Por Caroline Fowler.
A Fé Bahá’í surgiu na Pérsia em meados do século XIX, mas rapidamente se espalhou pela Europa e a América do Norte. Na Alemanha, porém, os nazis tentaram impedi-la.
A implantação da Fé Bahá’í na Alemanha começou em 1905, quando um pequeno grupo de Bahá’ís vindo dos Estados Unidos se instalou no país.
Duas pessoas deste grupo inicial tinham origens alemãs: Edwin Fischer e Alma Knobloch. Edwin Fischer, dentista, emigrou da Alemanha para Nova Iorque em 1878, tornou-se Bahá’í e depois regressou a Estugarda. Entusiasta da Fé Bahá’í, Fischer falava dos ensinamentos Bahá’ís com frequência, incluindo aos seus pacientes. A outra Bahá’í alemã, Alma Knobloch, aceitou a Fé nos Estados Unidos em 1903 e chegou à Alemanha vinda da casa da sua família em Washington, D.C., em 1907. Pouco depois, alguns alemães começaram a converter-se à Fé Bahá’í, e em 1908, formou-se a primeira Assembleia Espiritual Local.
Cinco anos mais tarde, em 1913, ‘Abdu’l-Bahá, o líder da Fé e filho do fundador, Bahá’u’lláh, viajou para Estugarda, Esslingen e Bad Mergentheim, consolidando o lugar da religião na Alemanha.
Após a Primeira Guerra Mundial, a comunidade Bahá’í na Alemanha continuou a crescer, tornando-se mais activa e visível, como evidenciado pelo criação uma editora de livros Bahá’ís e pela realização de conferências nacionais. A Fé cresceu e espalhou-se, o que levou à eleição de Assembleias Espirituais Locais Bahá’ís em diversas cidades alemãs.
No entanto, esta dinâmica começaria a mudar em 1936, quando os estabelecimentos comerciais pertencentes a Bahá’ís em Estugarda foram vandalizados e os proprietários ameaçados, fazendo eco do preconceito do regime nazi contra os judeus – dado que muitos dos novos Bahá’ís alemães eram de origem judaica. Em 1937, o Reichsführer nazi das SS, Heinrich Himmler, um dos principais arquitectos do Holocausto, emitiu uma lei que proibia a Fé Bahá'í e todas as suas instituições devido às suas "tendências internacionalistas e pacifistas".
Embora os Bahá’ís não se envolvam na política partidária, os ensinamentos Bahá’ís apelam assertivamente ao fim da guerra e à unidade de todas as nações, como declarou ‘Abdu’l-Bahá:
… o propósito do Manifestante de Deus e do alvorecer das luzes ilimitadas do Invisível é educar as almas dos homens e aperfeiçoar o carácter de cada ser humano – para que os indivíduos abençoados, que se libertaram das trevas do mundo animal, ascendam com as qualidades que são os adornos da realidade humana. … que os desprovidos recebam a sua parte do mar ilimitado, e os ignorantes se saciem na fonte viva do conhecimento; que os sedentos de sangue abandonem a sua selvajaria, e os que têm garras afiadas se tornem gentis e tolerantes, e os que amam a guerra procurem, em vez disso, a verdadeira conciliação; que os brutos, com as suas garras afiadas como navalhas, usufruam dos benefícios da paz duradoura; que os impuros aprendam que existe um reino de pureza, e os corruptos encontrem o caminho para os rios da santidade. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l‑Bahá, #2)
O decreto de Himmler lançou uma perseguição aos Bahá’ís – os nazis destruíram vários memoriais Bahá’ís, confiscaram ou destruíram todos os arquivos e a maioria dos livros particulares e, por fim, em 1939, começaram a prender membros da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís da Alemanha.
Em 1942, ocorreram múltiplas detenções, tendo alguns Bahá’ís alemães sido enviados para campos de concentração, onde acabaram por morrer. Os dirigentes Bahá’ís presos foram julgados em Darmstadt em 1944, com claros indícios de que o veredicto já estava pré-determinado. Apesar da forte defesa, o governo nazi considerou todos os seguidores culpados, aplicando-lhes multas elevadas e ordenando a dissolução de todas as actividades e convívios Bahá’ís.
A história da Fé Bahá’í na Alemanha, especialmente antes e durante a Segunda Guerra Mundial, é relativamente escassa, incluindo para os próprios Bahá’ís. O governo destruiu a maioria dos documentos administrativos, livros publicados e textos pessoais durante este período. No entanto, algumas histórias angustiantes e trágicas da perseguição aos Bahá’ís na Alemanha nazi estão hoje disponíveis através de cartas, relatos de testemunhas oculares, entrevistas e memórias. Ao estudar estes casos específicos de perseguição, incluindo prisões e assassinatos, podemos compreender o tratamento frequentemente negligenciado dado aos grupos religiosos minoritários sob o regime de Hitler.
O compromisso das vítimas com os princípios fundamentais da Fé Bahá’í e a sua recusa em afastarem-se das actividades Bahá’ís exemplificaram uma prática de dissidência fiel a um sistema que se opunha às suas crenças. Himmler e o regime nazi sentiram-se ameaçados por Bahá’ís que desejavam a paz e unidade internacional; mas, apesar da repressão e da crueldade, não conseguiram impedir a realização destes objectivos pelos Bahá’ís alemães.
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Texto original: What Happened to Germany’s Baha’is During the Nazi Regime? (www.bahaiteachings.org)
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Caroline Fowler é natural de Austin, Texas. Está a fazer um doutoramento em Neurociência Comportamental na Universidade de Baylor. Recentemente, licenciou-se pelo Austin College, após ter concluído a sua tese de honra em neurociência. A sua investigação futura irá explorar a relação entre o cérebro e o sistema imunitário, especificamente no que diz respeito à fadiga e à depressão relacionadas com o cancro. Embora seja uma apaixonada pela ciência, tem um profundo amor pela história, com particular ênfase na Europa de Leste e na Alemanha.

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