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sábado, 3 de dezembro de 2022

Os Ateus, o Criador e a Criação – a velha questão do Ovo e da Galinha.

Por Maya Bohnhoff.


Ao discutir sobre o livro do ateu Richard Dawkins, A Ilusão de Deus (Deus, um Delírio, na edição brasileira), alguém apresentou o velho argumento do ovo e da galinha: acreditar num Criador significa apenas que temos de explicar o que criou Deus.

Isso certamente é verdade, argumentei, quando se concebe Deus como sendo um tipo de criatura semelhante a nós, humanos, e, portanto, sujeito às mesmas leis naturais.

Mas Krishna sugeriu uma relação e uma realidade mais complexas no Bhagavad Gita:

Todo o universo visível vem do meu Ser invisível. Todos os seres encontram apoio em Mim, mas Eu não Me apoio neles, e, na verdade, eles não se apoiam em Mim. Considera o meu mistério sagrado: Eu sou a fonte de todos os seres, Eu apoio todos mas não Me apoio neles. (Bhagavad Gita 9:4)

Como escritora de ficção, acho esse conceito compreensível devido à relação que existe entre mim e as minhas criações. Como autora/criadora, eu estou nos meus livros, mas não estou nos meus livros. Eu crio as leis que operam nos meus livros e, no entanto, não estou sujeita a essas leis. As personagens dos meus livros podem parecer humanos e agir como humanos, mas são apenas reflexos da humanidade.

Assim, do meu ponto de vista, negar a existência de um Criador porque não podemos imaginar que tipo de ser Ele pode ser – usando apenas a nossa condição humana como ponto de referência – seria muito parecido com as minhas personagens serem incapazes de imaginar que há uma escritora que os concebeu e os colocou num livro. Eles podem criar teorias sobre minha existência e, se olharem cuidadosamente para si próprios, verão o meu reflexo neles – mas não irão ver, nem compreender, nem perceber a totalidade da minha pessoa.

Essa é uma das razões, suponho, pela qual os ensinamentos Bahá'ís se referem ao Ser Supremo como uma "essência incognoscível". Bahá'u'lláh escreveu:

Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser Divino, está imensamente exaltado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. Longe esteja da Sua glória que a língua humana celebre adequadamente o Seu louvor, ou que o coração humano compreenda o Seu insondável mistério. Ele está, e sempre esteve, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade eternamente oculto da vista dos homens. “Nenhuma visão O abrange, mas Ele abrange toda a visão; Ele é o Subtil, o Que Tudo Percebe.” (Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, ¶104)

Penso que isto nos dá um vislumbre sobre o nosso relacionamento com Deus - não podemos ver o Criador tal como não podemos olhar diretamente para o sol, mas podemos ver o Seu reflexo nos Seus Mensageiros divinos e nos Seus ensinamentos. Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í, descreveu assim:

Tudo o que está nos céus e tudo o que está na terra é uma evidência directa da revelação em si dos atributos e nomes de Deus, pois em cada átomo jazem os sinais que dão testemunho eloquente da revelação dessa Mais Grandiosa Luz… Num nível supremo isto é verdade para o homem, que, entre todas as coisas criadas, foi investido com o manto dessas dádivas, e distinguido para a honra dessa distinção. (Gleanings from the Writings of Bahá’u’lláh, XC)

Neste mesmo texto, Bahá'u'lláh acrescenta: “Quem conheceu a Deus, conheceu-se a si próprio.” Vejamos isto de forma lógica: se acreditamos que não existe essência, elemento ou ser para lá da existência do universo que não seja intrinsecamente diferente daquilo que está no universo, então, por muito que postulemos sobre a origem disto ou daquilo, estaremos condenados a uma regressão infinita de ovos e galinhas.

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Texto original: Atheists, the Creator, and Creation - that Chicken and Egg Question (www.bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O que fazer com uma religião tóxica?

Por David Langness.



Gosto dos ateus. E dos agnósticos também.

Isto pode parecer um pouco estranho, vindo de alguém que escreve todos os dias sobre a Fé Bahá'í. Tenham paciência comigo por um minuto, e eu explico.

Primeiro que tudo, aqueles que questionam a existência de Deus sempre me pareceram bastante inteligentes, pelo menos para mim. Geralmente, eles são os independentes que não aceitam cegamente uma tradição, ou acreditam ingenuamente sem uma análise cuidadosa, ou irreflectidamente tornam-se membros de um grupo apenas para serem membros.

Em segundo lugar, eu entendo que as pessoas se questionem sobre o conceito místico de um Ser Supremo. Eu também o faço, constantemente. Esse mistério - um Criador invisível, amoroso, criativo, omnipotente e omnisciente - é realmente difícil de entender. Não tenho a pretensão de entender plenamente o que as escrituras bahá'ís dizem sobre Deus:
Deus na Sua essência e no Seu próprio Ser sempre tem sido invisível, inacessível e incognoscível. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 118)
Em terceiro lugar, pela minha experiência, vejo que ateus e agnósticos pensam mais em Deus do que a maioria das pessoas. Eu sei: isto é um enigma; mas é verdade. Mas porque eles gastaram algum tempo a avaliar as provas e os argumentos, eles realmente fizeram uma busca espiritual, e decidiram por si próprios, o que eu acho notável. O escritor Terry Pratchett afirmou que o ateísmo e a crença têm muito em comum:
Na verdade, um verdadeiro ateu pensa constantemente nos deuses, embora em termos de negação. Por isso, o ateísmo é uma forma de crença. Se o ateu realmente não acreditasse, então não se incomodaria a negar. (Feet of Clay)
Por isso, entendo quando os cépticos, especialmente o grupo de filósofos e escritores chamados os novos ateus, dizem que a religião é tóxica e merece ser abandonada. No caso de o leitor não estar familiarizado com este grupo de pensadores, aqui ficam uns exemplos:
Christopher Hitchens

  • O problema da religião é que, porque sempre esteve protegido da crítica, ela permite que as pessoas acreditem em massa naquilo que só os idiotas ou lunáticos podia acreditar isoladamente. (Sam Harris)
  • O que se pode afirmar sem provas, pode ser rejeitado sem provas. (Christopher Hitchens)
  • A única posição que me deixa sem dissonância cognitiva é o ateísmo. (Ayaan Hirsi Ali)
  • Não posso saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável, e eu vivo minha vida no pressuposto de que ele não existe. (Richard Dawkins)
  • Ninguém começa a publicitar todo o bem que a sua religião faz sem antes subtrair escrupulosamente todo o mal que faz e considerar seriamente se alguma outra religião, ou nenhuma religião, faz melhor. (Daniel Dennett)

Pode ser surpreendente saber que os ensinamentos Bahá’ís apoiam de forma significativa as ideias importantes que alguns desses pensadores ateus defendem - e fê-lo com cem anos de antecedência.

Os Bahá’ís acreditam nas provas e na ciência; aceitam e incentivam a investigação; valorizam o intelecto humano e estimulam a sua educação; não têm clero, nem dogma; tentam erradicar a superstição e irracionalidade; e, tal como Daniel Dennett, acredito que nenhuma religião é vantajosa se se torna fonte de mal:
A religião deve unir todos os corações e fazer com que as guerras e disputas desapareçam da face da terra, dar origem à espiritualidade e trazer vida e luz a cada coração. Se a religião se torna uma fonte de aversão, ódio e divisão, será melhor ficar sem ela, e afastarmo-nos de tal religião seria um acto verdadeiramente religioso. É claro que o propósito de um remédio é curar; mas se o remédio apenas agrava as doenças, seria melhor deixá-lo. Qualquer religião que não é uma causa de amor e unidade, não é religião. Todos os santos profetas foram os médicos para a alma; eles deram as receitas para a cura da humanidade; assim qualquer remédio que é causador de doença não vem do grande e supremo Médico. (‘Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 129)
Essa é uma das ideias Bahá'ís para pôr fim aos conflitos religiosos:

Se a sua Fé provoca ódio e carnificinas,
então procure um caminho mais pacífico.

Parece radical? Do ponto de vista Bahá'í, não é. Os ensinamentos bahá'ís ver a religião como um meio para atingir o amor e a unidade, como um caminho para a paz e unidade global, e não como um fim em si mesmo:
Um remédio é usado para curar uma doença; mas se ele só consegue agravar a doença, é melhor deixá-lo sozinho. Se a religião é apenas serve para causar da desunião, é melhor não exista. (‘Abdu'l-Baha, Paris Talks, p. 122)

A religião de Deus é a causa do amor; mas se a tornarem fonte de inimizade e derramamento de sangue, com certeza a sua ausência é preferível à sua existência; pois assim, torna-se satânica, prejudicial e um obstáculo para o mundo humano. (‘Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 202)

Imitações cegas e hábitos dogmáticos são conducentes à alienação e desacordo; estes levam à carnificina e à destruição das bases da humanidade. Portanto, os religiosos do mundo devem deixar pôr de lado essas imitações e investigar a base essencial ou a própria realidade, que não está sujeita a mudanças ou transformação. Este é o meio divino para a concórdia e unificação. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 339)
Os Baha'is acreditam que a religião é o que a religião deve ser, que as acções são mais importantes do que as palavras, e que a verdadeira fé significa, na verdade, colocar os ideais espirituais em prática, tanto no plano individual como social.

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Texto original: Dealing with Toxic Religion (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Deus Encarnado e os Novos Ateus

Por David Langness.


A vitalidade da crença dos homens em Deus está a morrer em todas as terras; nada que careça do seu remédio salutar poderá jamais recuperá-la. A corrosão da impiedade está a devorar os órgãos vitais da sociedade humana; que outra coisa, senão o Elixir da Sua Revelação potente pode purificá-la e reanimá-la? (Seleção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XCIX)
Uma grande parte das ideias dos "novos ateus" centra-se em torno da incapacidade da ciência para provar a existência de um Deus invisível.

Os ateus têm um bom argumento.

Christopher Hitchens
Alguns dos novos pensadores ateus como Christopher Hitchens e Richard Dawkins afirmam que "a ausência de provas" sobre a existência de Deus é "a prova da ausência." Por outras palavras, uma vez que não existe qualquer prova científica de um Ser Supremo, então logicamente nenhum Ser Supremo pode existir. Se se aborda a questão de uma perspectiva puramente científica, o argumento pode fazer algum sentido.

Mas o argumento tem uma falha fatal, enraizada na natureza da própria ciência, que, por definição, é o estudo racional dos fenómenos observáveis.

A ciência não pode estudar o que não pode observar, ou, pelo menos, inferir a partir da observação. Os neurologistas podem dizer-nos, em condições controladas, quais as áreas do nosso cérebro que activam uma imagem de ressonância magnética quando sentimos certas emoções, mas nenhum cientista nos pode dizer o que nos leva a experimentar o fascínio, a criar arte, ou a amar alguém. Os nossos sentimentos, os nossos pensamentos, as nossas emoções mais elevadas, as nossas motivações altruístas, os nossos anseios espirituais, todos eles transcendem os limites fixos da ciência. A ciência pode medir alguns aspectos da vida; mas não pode incutir significado na vida.

A ciência, por outras palavras, está longe de ser omnipotente; tem os seus próprios limites. Nesta era de enorme progresso científico e descobertas maravilhosas, isso pode parecer difícil de acreditar. Mas até mesmo os cientistas mais perspicazes, reconhecem e aceitam as suas limitações; o conhecido cientista Max Planck disse: "A religião pertence ao reino que é inviolável perante a lei de causa e efeito e, portanto, fechado para a ciência."

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que ciência e religião, em última análise, andam lado a lado. Mas se reduzíssemos toda a existência humana a dados científicos, a nossa existência perderia toda a sua beleza e mistério. Deixaríamos de ser humanos.

No entanto, as escrituras Bahá'ís concordam com os novos ateus num aspecto importante:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser divino, está imensamente elevado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. Longe esteja da Sua glória que a língua humana celebre adequadamente o Seu louvor, ou o coração humano compreenda o Seu insondável mistério. Ele está, e sempre esteve, velado na eternidade antiga da Sua Essência, e permanecerá na Sua Realidade eternamente oculto da vista dos homens... Nenhum laço de relação directa pode, hipoteticamente, liga-Lo às Suas criaturas. Ele permanece enaltecido além e acima de toda a separação e união, toda a proximidade e afastamento. Nenhum sinal pode indicar a Sua presença ou a Sua ausência; visto que por uma palavra do Seu mandamento tudo o que está nos céus e na terra veio à existência, e pelo Seu desejo, que é em si próprio a Vontade Primaz, tudo saiu da não-existência absoluta para reino da existência, o mundo do visível. (Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, parag. 104).
Assim, a Fé Bahá'í confirma o que alguns dos novos ateus dizem, que nenhum sinal pode indicar a presença ou ausência de Deus. Os Bahá’ís acreditam que compreendemos a presença de Deus através dos testemunhos dos Manifestantes e dos profetas, os fundadores das grandes religiões do mundo, os mensageiros que reflectem os atributos de Deus para o mundo, aqueles que Bahá'u'lláh designa como "Vice-Regentes" de Deus, os representantes nomeados pelo Criador:
Em todos os Livros Divinos a promessa da Presença Divina tem sido explicitamente registada. Por esta Presença entende-se a Presença d’Aquele que é a Nascente dos sinais, e o Lugar de Alvorada dos testemunhos claros, e a Manifestação dos Nomes Excelsos e, a Fonte dos atributos do Deus verdadeiro, enaltecida seja a Sua glória. Deus na Sua essência e no Seu próprio ser sempre foi invisível, inacessível e incognoscível. Por Presença, portanto, entende-se a presença d’Aquele que é o Seu Vice-Regente entre os homens. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, pp. 118-119)
Então isso significa que os profetas e os manifestantes representam as formas humanas de um Deus encarnado? Não, de forma alguma. As escrituras Bahá’ís afirmam:
A divindade atribuída a um tão grandioso Ser e a encarnação completa dos nomes e atributos de Deus numa tão excelsa Pessoa não deve, em nenhuma circunstância, ser mal entendida ou mal interpretada... o Deus racional mas invisível que, por muito que louvemos a divindade dos Seus Manifestantes na terra, não pode encarnar a Sua Realidade infinita, incognoscível, incorruptível e vasta na estrutura específica e limitada de um ser mortal. Na verdade, o Deus que pudesse encarnar a Sua própria realidade, à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, cessaria imediatamente de ser Deus. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 112)
Este ensinamento Baha'i - de que Deus é incognoscível, inacessível, demasiado vasto e abrangente para qualquer mente humana O compreender - reflecte-se de forma notável na visão científica actual do universo conhecido. Não nos pede para abdicar da nossa inteligência, rejeitar a ciência ou repudiar a lógica. Em vez disso, a visão Bahá’í de Deus diz-nos que a revelação contínua do Criador nas grandes religiões deu-nos os dons de todos os nomes e atributos de Deus, como o amor, conhecimento, poder, soberania, domínio, misericórdia, sabedoria, glória, recompensa, e graça.

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Texto original: God Incarnate and the New Atheists (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 15 de março de 2014

Os Ateus dizem que a Religião provoca Ignorância e Ódio

Por David Langness.

Uma série de filósofos, pensadores e comentadores ateus escreveram livros e ensaios influentes ao longo das últimas décadas, afirmando cada um deles que a religião se tornou uma força de ódio, violência e mal no mundo. Escritores como Sam Harris, Christopher Hitchens e Richard Dawkins publicaram manifestos ateus populares. A maioria dos seus livros, como a seguinte citação de O Fim da Fé, contêm alguma variante sobre a ideia da religião como um "mero acidente da história", onde "é considerado normal na nossa sociedade acreditar que o criador do universo pode ouvir as nossas preces, mas considera-se como sintoma de doença mental a convicção de que ele pode comunicar connosco em código morse através do baquetear da chuva na janela do nosso quarto"(p. 78). Na verdade, Harris e outros, equiparam constantemente a religião à loucura, e clamam por uma visão ateísta e racional da realidade baseada apenas nos aspectos mais elevados da natureza humana. Harris afirma que:
Os únicos anjos que precisamos invocar são as da nossa melhor natureza: a razão, honestidade e amor. Os únicos demónios que devemos temer são aqueles que se escondem dentro de todos os espíritos humanos: a ignorância, o ódio, a ganância e a fé, que é seguramente obra do diabo (p.253).
Pode ser surpreendente perceber que, em muitos aspectos - mas não todos - os ensinamentos Bahá’ís realmente concordam com partes importantes desta análise. É claro que, ao contrário dos filósofos ateus, os Bahá’ís acreditam em Deus. No entanto, 'Abdu'l-Bahá exortou-nos a afastarmo-nos completamente de qualquer religião que leve a humanidade à desunião, ao ódio e à guerra:
... os ensinamentos divinos estão destinados a criar um vínculo de unidade no mundo humano e estabelecer as bases do amor e da comunhão entre os homens. A religião divina não é um motivo de discórdia e desentendimento. Se a religião se torna a fonte de antagonismo e conflito, então a ausência de religião é preferível. A religião está destinada a despertar a vida do corpo político; se se torna causa da morte para a humanidade, a sua não existência seria uma bênção e benefício para o homem. (Foundations of World Unity, p. 22)
Na verdade, Bahá’u’llah proclamou os ensinamentos Bahá’ís devido ao declínio profundo e desastroso da religião; porque os ensinamentos das anteriores religiões se tinham corrompido; porque a ignorância, o ódio e a ganância floresceram em nome da religião, por todo o mundo. Os ensinamentos Bahá’ís apelam a uma nova fé, revitalizada em Deus; à compreensão da realidade mística subjacente a todas as coisas; a uma re-dedicação das virtudes espirituais eternas da razão, honestidade e amor. A visão Bahá’í do futuro da humanidade consagra o conceito de iluminação humana através de uma crença positiva e benéfica de que Deus não nos deixou sem orientação:
Depois de cada noite há um amanhecer. Na suprema sabedoria de Deus está decretado que, quando as trevas do ódio e hostilidade religiosa, a obscuridade da ignorância religiosa, a superstição e imitações cegas cobrirem o mundo, o Sol da Verdade levantar-se-á e o espírito da realidade manifestar-se-á e reflectir-se-á nos corações humanos... Em breve, a escuridão terminará por completo, e as regiões do Oriente tornar-se-ão completamente iluminadas; a inimizade, o ódio, a ignorância e o fanatismo não permanecerão; os poderes satânicos que destroem a igualdade humana e unidade religiosa serão destronados, e as nações viverão em paz e harmonia, sob a bandeira desfraldada da unicidade da humanidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pags 440-441)
Em muitos aspectos, os novos ateus salientam o mesmo tópico que Bahá'u'lláh no século 19, e 'Abdu'l-Bahá fez há um século - que os dogmas ultrapassados e rituais antiquados, sistemas de crenças sectários e divisivos, todos se tornam uma aflição colectiva para a humanidade, em vez de um remédio:
A religião deve ser motivo de afecto. Deve ser um portador de alegria. Se se tornar a causa da diferença, seria melhor bani-la. Se se torna fonte de ódio, ou a guerra, seria melhor que não existisse. Se um remédio provoca ainda mais doenças, é melhor descartar remédio. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 82) 
 Não há dúvida que os novos escritores e filósofos ateus descobriram esta verdade auto-evidente da idade moderna, ao perceber que a humanidade tem que descartar as suas crenças antiquadas e encontrar um novo caminho em direcção ao seu destino. Mas essa verdade parcial incide apenas sobre a escuridão do inverno, e ignora a luz da nova primavera. Essa verdade parcial não consegue ter a visão global, nem captar todo o âmbito do ciclo da história humana em que vivemos e lutamos agora. Mais importante ainda, essa verdade parcial deixa de fora o surgimento de Bahá'u'lláh, o portador de uma nova fé para a humanidade.

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Texto Original: Atheists Say Religion Causes Ignorance and Hatred (bahaiteachings.org)

Texto anterior: Religião: o Agente Mais Nocivo neste Planeta? 

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David Langness é jornalista e critico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 24 de outubro de 2009

Evangelho de um Primário

Daniel Oliveira escreve hoje no Expresso:

(...)

O primarismo está a tornar-se num ar do nosso tempo. É ele que faz crescer os fundamentalistas religiosas e as leituras literais da Bíblia e do Corão. E o primarismo atrai primarismo. Cria um manto espesso de tolerância e ignorância, de estupidez e incomunicabilidade. No tempo da frase curta, da declaração bombástica, do escândalo sem sentido da história, o primarismo é mais forte do que qualquer ideia. O que é mais extraordinário é que seja eu, um colunista da espuma dos dias, a dizê-lo a propósito de um escritor, que tem outro tempo para respirar, que pode ir muito além do espectáculo da polémica fácil.

Recuso-me a ser levado nesta avalancha. Esta avalancha que resume o cristianismo à sua caricatura. Que resume o islamismo à sua violência, que resume o judaísmo aso avanços e recuos de um Estado. Que resume o ateísmo a uma nova religião científica que esmaga milénios de história. Não, nenhum dos livros das três religiões monoteístas se explica com citações escolhidas ao acaso. E não, não é preciso ser cristão para sentir comoção com o ‘Cântico dos Cânticos’. Não é preciso ser crente para perceber que a religião condensa em si as camadas da história de que se fez a humanidade. Que ela tem um tempo e um ritmo que não cabem em conferências de imprensa. Não é preciso ser religioso para compreender esta permanente procura do sentido da vida e da imortalidade.

Eu, ateu convicto desde o dia em que penso, não aceito esta nova moral em que tudo se resume à dimensão do indivíduo. Em que todas as convicções colectivas, todos os ritos humanos, são vistos como manifestações de obscurantismo acrítico. Não perceber o que de mais profundo e complexo tem a fé humana é não perceber nada da humanidade. E se a um escritor lhe escapa o que de essencial há na sua espécie...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

The Baha'i Faith on Apologia







Uma entrevista e discussão com um membro da comunidade Baha´i (Enrico Indiogine) no podcast Apologia, um podcast sobre Ateismo e Teismo.

domingo, 21 de dezembro de 2008

«Provavelmente Deus não existe»

O artigo do Prof. Anselmo Borges, ontem no Diário de Notícias.
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É possível que já em Janeiro, nas ruas de Londres, as pessoas se deparem com cartazes no exterior dos autocarros com estes dizeres: "There's probably no God. Now stop worring and enjoy your life" (Provavelmente Deus não existe. Então, deixe de preocupar-se e desfrute a vida).

Trata-se de uma campanha publicitária a favor do ateísmo, promovida pela Associação Humanista Britânica e apoiada pelo célebre biólogo darwinista R. Dawkins, professor da Universidade de Oxford, ateu militante e, segundo muitos, fundamentalista.


A campanha foi um êxito, pois rapidamente conseguiu fundos - dezenas de milhares de euros - mais que suficientes para pô-la em marcha. Segundo a jornalista Ariane Sherine, que a tinha sugerido em Junho, "fazer uma campanha em autocarros com uma mensagem tranquilizadora sobre o ateísmo seria uma boa forma de contrabalançar as mensagens de certas organizações religiosas que ameaçam os não cristãos com o inferno".

Para Dawkins, "a religião está acostumada a ter tudo grátis - benefícios fiscais, respeito imerecido e o direito a não ser ofendida, o direito a lavar o cérebro das crianças". Assim, "esta campanha de slogans alternativos nos autocarros de Londres obrigará as pessoas a pensar. Ora, pensar é uma maldição para a religião".

Logo que apareceu o anúncio da campanha, fui confrontado por um jornalista da TSF: se a achava provocatória. Respondi que até a achava interessante. De facto, era isso mesmo: obrigaria as pessoas a pensar nas questões essenciais, e Deus é uma dessas questões decisivas.

Constatei, mais tarde, que essa foi também a posição de líderes religiosos britânicos, que responderam favoravelmente à iniciativa. Aliás, qualquer um tem o direito de promover as suas ideias através de meios apropriados. A Igreja Metodista agradeceu inclusivamente a Dawkins pelo facto de encorajar um "contínuo interesse por Deus". A rev. Jenny Ellis disse: "Esta campanha será uma boa coisa, se levar as pessoas a comprometer-se com as questões mais profundas da vida." E acrescentou: "O cristianismo é para pessoas que não têm medo de pensar sobre a vida e o sentido."

É significativo aquele "provavelmente". Dawkins não sabe que Deus não existe e, por isso, escreve: "Provavelmente." A existência de Deus não é objecto de saber de ciência, à maneira das matemáticas ou das ciências verificáveis experimentalmente. Nisso, Kant viu bem: ninguém pode gloriar-se de saber que Deus existe e que haverá uma vida futura; se alguém o souber, "esse é o homem que há muito procuro, porque todo o saber é comunicável e eu poderia participar nele".

Afinal, também há razões para não crer, mas, quando se pensa na contingência do mundo, no dinamismo da esperança em conexão com a moral e na exigência de sentido último, não se pode negar que é razoável acreditar no Deus pessoal, criador e salvador, que dá sentido final a todas as coisas. Numa e noutra posição - crente e não crente -, entra sempre também algo de opcional.

Mas, nos cartazes, o mais impressionante é a segunda parte: "Deixe de preocupar-se e desfrute a vida." É claro que o que está subjacente a esta conclusão é a ideia de um Deus invejoso da vida e da alegria dos homens e das mulheres.

Se a primeira parte obriga os crentes a pensar, retirando da fé tudo o que de ridículo - pense-se em todas as superstições - lhe tem andado colado, a segunda tem de levá-los a "evangelizar" Deus. É preciso, de facto, reconhecer que houve e há muitos a quem "Deus" tolheu a vida, de tal modo que teria sido preferível nunca terem ouvido falar no seu nome - pense-se no horror do inferno, nas guerras e ódios em seu nome, no envenenamento da sexualidade, na estreiteza e humilhação a que ficaram sujeitos.

Agora que está aí o Natal, é ocasião para meditar no Deus que manifesta a sua benevolência e magnanimidade criadoras no rosto de uma criança. Jesus não veio senão revelar que Deus é amor, favorável a todos os homens e mulheres e querendo a sua realização plena. Perante um "deus" que os humilhasse e escravizasse, só haveria uma atitude digna: ser ateu.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (7)

A RELIGIÃO COMO FORÇA FRACTURANTE

Será a religião a fonte de muitos dos males da humanidade, ou apenas mais “petróleo” que é lançado nas fogueiras dos conflitos humanos? O Prof Richard Dawkins escreve no livro “A Desilusão de Deus”:
A religião é, sem dúvida, uma força fracturante, e é esta uma das principais acusações que lhe são feitas. Mas diz-se frequentemente, e com razão, que as guerras e os feudos entre seitas ou grupos religiosos raramente têm a ver, de facto, com desavenças teológicas. (…) A religião é um rótulo para sinalizar a inimizade e as vendetas entre o grupo a que se pertence e o grupo ou grupos a que não se pertence, um rótulo que não é necessariamente pior que outros rótulos, tais como a cor da pele, a língua, ou o clube de futebol favorito, sucedendo apenas que muitas vezes, na ausência de outros rótulos, é aquele que está mais à mão. [p. 311]

Não nego que as poderosas tendências da humanidade no sentido de uma fidelidade intragrupo e de uma hostilidade para com grupos alheios existiriam mesmo na ausência de religião. Os fãs de clubes de futebol rivais são, a uma escala menor, um exemplo desse fenómeno. Mesmo os apoiantes do futebol por vezes dividem-se em função da religião, como sucede no caso do Glasgow Rangers e do Celtic de Glasgow. As línguas (como na Bélgica), as raças e as tribos (sobretudo em África) podem funcionar como símbolos importantes de divisão. Mas a religião amplia e exacerba os danos… [p. 313]
A religião não é a causa dos conflitos, mas é um factor de identificação que muitas vezes e aproveitado por facções políticas. E quando essas facções políticas não têm escrúpulos, então temos a porta aberta para o conflito religioso. O Prof. Dawkins percebe isso e mostra nas citações acima que não é um anti-religioso primário. Pode ter fama de beligerante contra a religião, mas esta observação mostra que não é assim tão beligerante como o descrevem.


Ninguém pode negar que quando a religião se torna motivo de conflitos, causa sofrimentos difíceis de sarar. Bahá’u’lláh afirmou a este propósito:
Envidai todos os esforços, ó povo de Bahá, para que o tumulto da dissensão e luta religiosa que agita os povos da terra possa ser acalmado e todos os seus vestígios completamente obliterados. Por amor a Deus e àqueles que O servem, erguei-vos para ajudar esta sublime e solene Revelação. O fanatismo e o ódio religioso são um fogo que devora o mundo, cuja violência ninguém pode extinguir. (Epístola ao Filho do Lobo)
Mas nem sempre o Professor Dawkins se mostra tão racional na análise dos males provocados pela religião. A propósito das motivações dos fundamentalistas islâmicos, escreve esta frase com a qual discordo profundamente:
A mensagem que devemos tirar daqui [das motivações dos fanáticos islâmicos] é que há que culpar a própria religião e não o extremismo religioso (como se este fosse uma espécie de perversão terrível da religião verdadeira e boa!) [p. 364-365]
O que me surpreende nesta frase é a ingenuidade contrastante com outras afirmações tão bem fundamentadas ao longo do livro. Seguindo um raciocínio semelhante, teríamos, por exemplo que culpar toda a indústria da aviação pelos bombardeamentos aéreos que ocorreram no último século. Talvez os irmãos Wright não devam ser aclamados como pioneiros; talvez devam ser responsabilizados pelos bombardeamentos de Coventry, Roterdão, Hamburgo, Dresden, Tóquio e tantos outros. E esses admiradores de aparelhos como o Jumbo 747 ou o Airbus 380 serão eles apenas gente ingénua ou estarão a escamotear os pecados da aviação?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (5)

RELIGIÃO: PLACEBO OU MEDICAMENTO?

No livro "A Desilusão de Deus" ("Deus, um delírio", na edição brasileira) o Prof Richard Dawkins defende que "o poder que a religião tem de consolar não a torna verdade" (p. 415) e estabelece uma curiosa comparação entre a religião e os placebos.
Parte do que um médico pode dar a um paciente é consolo e confiança. Ora isto e algo que não deve ser posto de parte sem mais nem menos. O meu médico não pratica literalmente a cura pela fé, através da imposição das mãos, mas muitas foram as vezes em que me senti instantaneamente «curado» de pequenos males por uma voz tranquilizadora que vinha de um rosto ladeado por um estetoscópio. (...)

Será a religião um placebo que prolonga a vida ao reduzir o stresse? Talvez, embora a teoria tenha de se submeter ao severo crivo dos cépticos que chamam a atenção para as muitas circunstâncias em que a religião provoca mais stresse do que aquele que liberta. (p.206-207)
Esta comparação, só por si, é redutora pois ignora outras características da religião, nomeadamente o seu poder transformador a nível individual e social. Certamente que o Prof. Dawkins não ignora que os ensinamentos possuem esse potencial; é interminável a lista de pessoas que inspiradas por ideais religiosos deram um contributo positivo para a humanidade.

Mas o curioso desta comparação feita pelo biólogo britânico reside no facto de Bahá’u’lláh descrever os Mensageiros de Deus com médicos divinos:
Os Profetas de Deus devem ser considerados como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e dos seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida. (SEB, XXXIV)

O Médico Omnisciente tem o Seu dedo no pulso da humanidade. Ele compreende a doença e receita, com a sua infalível sabedoria, o remédio. Cada era tem o seu próprio problema e cada alma a sua especial aspiração. O remédio que o mundo necessita nas suas aflições actuais não pode ser, jamais, o mesmo que foi necessário para uma era anterior. (SEB, CVI)

Considerai o mundo como o corpo humano, o qual, apesar de na sua criação ter sido total e perfeito, tem sido afligido, por várias motivos, com graves perturbações e doenças. Nem por um só dia obteve sossego; pelo contrário, a sua doença tornou-se mais grave, pois foi sujeito ao tratamento de médicos ignorantes, que se entregaram plenamente aos seus desejos pessoais e erraram de um modo lastimável. E se, numa ocasião, através do cuidado de um médico competente, um membro desse corpo foi curado, os outros continuavam aflitos como antes. (SEB, CXX)
Assim, diria que cada Mensageiro tem os medicamentos adequados à época em que aparece. Os "medicamentos" receitados para épocas anteriores não dão os necessários aos dias de hoje; os seus efeitos poderão ser parciais, nulos ou até indesejáveis. Em alguns casos poderão ter apenas o efeito de um placebo.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (4)

AINDA SOBRE CIÊNCIA E RELIGIÃO

No livro "A Desilusão de Deus" ("Deus, um delírio", na edição brasileira) o Professor Richard Dawkins, ao abordar a reacção das religiões face ao progresso científico, cita Carl Sagan:
Como é possível que nenhuma das grandes religiões tenha olhado para a ciência e concluído: «Isto é melhor do que pensávamos! O universo é muito mais vasto, mas misterioso, elegante e magnífico do que os nossos profetas disseram»? Em vez disso, dizem: «Não, não, não! O meu deus é um deus pequeno e eu quero que continue assim.» Uma religião, velha ou nova, que realçasse o esplendor do universo tal como ele nos é revelado pela ciência moderna, estaria em condições de mobilizar reservas de reverência e de espanto dificilmente suscitadas pelos credos convencionais (p. 37)
Aprecio duplamente estas palavras de Carl Sagan. Por um lado sou um admirador da sua obra e considero-o um dos mais extraordinários divulgadores da ciência no século XX. Pertenço àquela geração que ficou embriagada com a série Cosmos, e ainda hoje revejo com imenso prazer os episódios dessa série. Por outro lado, como Bahá'í aprecio o cepticismo de Carl Sagan em relação às concepções tradicionais de Deus e a diversos ensinamentos religiosos.


Temos que reconhecer que no relacionamento ciência-religião, a Fé Baha’i tem uma vantagem enorme em relação a outras religiões, pois apareceu quando os benefícios do progresso científico eram uma evidência. As outras grandes religiões mundiais têm tido dificuldade em adaptar-se à inovação e ao conhecimento científico moderno. É também um sinal de que cada religião tem o seu tempo.

O elogio da ciência e da razão repete-se nas escrituras Bahá’ís. Veja-se este pequeno excerto das Escrituras de Bahá'u'lláh onde é feito o elogio do conhecimento e dos cientistas:
O conhecimento é como asas para a vida do homem; é uma escada para a sua ascensão. A sua aquisição é uma incumbência a cada um. No entanto, o conhecimento dessas ciências deve ser adquirido de forma a poder beneficiar os povos da terra; e dessas que começam com palavras e terminam com palavras[1]. Grande, em verdade, é a condição dos cientistas e dos artífices entre os povos do mundo... Na realidade, o conhecimento é um verdadeiro tesouro para o homem, e uma fonte de glória, de graça, de êxtase de enaltecimento, de louvor e alegria para ele.[2]
Na verdade, a ciência é melhor do que muitos pensam; e o universo é incrivelmente fascinante, misterioso e imenso. Esse esplendor do universo, esse vislumbre da fascinante caminhada de evolução tecnológica e científica que ainda mal começamos, encontrei-o nas Escrituras Baha’ís.

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NOTAS:
[1] - Na minha opinião isto é uma referência à teologia especulativa.
[2] - Bahá'u'lláh, Epístolas de Bahá'u'lláh, Tajalliyat

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (3)

A CIÊNCIA E A RELIGIÃO

A valorização do conhecimento científico na análise dos ensinamentos religiosos é o princípio que orienta Richard Dawkins no seu livro A Desilusão de Deus (“Deus, um delírio”, na edição brasileira) . Afinal ele é um cientista e naturalmente considera e deve ser a ciência a validar as crenças religiosas, e não o contrário. As maiores críticas do biólogo britânico vão para aquelas convicções religiosas que contradizem abertamente o conhecimento científico, e chegam mesmo a opor-se ao progresso da ciência. Considere-se, por exemplo, os seguintes excertos:

Os criacionistas procuram avidamente uma lacuna no conhecimento ou na compreensão da actualidade. Uma vez encontrado aquilo que parece uma lacuna, presume-se que, por defeito, deve ser Deus a preenchê-la. O que preocupa os teólogos ponderados como [Dietrich] Bonhoeffer é que as lacunas vão diminuindo à medida que a ciência avança, arriscando-se assim Deus a acabar por não ter mais nada para fazer, nem nenhum sítio para se esconder. [p.160]

…o facto de o DI [Intelligent Design] não possuir provas próprias, mas medrar como erva daninha nas lacunas deixadas pelo conhecimento científico, convive mal com a necessidade que a ciência tem de identificar e anunciar essas mesmas lacunas como condição para as investigar. Neste respeito, a ciência encontra-se aliada a sofisticados teólogos como Bonhoeffer; unidos contra inimigos comuns que são a teologia naïve e populista e a teologia das lacunas proposta pelo desígnio inteligente. [p.161-162]
Além de rejeitar um conceito ingénuo sobre Deus (o deus “tapa-buracos”), o Professor Dawkins identifica a incompatibilidade entre algumas crenças religiosas e o conhecimento científico para demonstrar a falsidade dessas crenças. Por outro lado, fica claro que o verdadeiro alvo das suas críticas nada tem a ver com os teólogos “sofisticados” e “ponderados”. Dir-se-ia que o autor sugere que quando a religião está contra a ciência, então é mera superstição.

Será isto uma posição radical?

A importância da razão é repetidamente afirmada nas Escrituras Bahá’ís. Segundo Bahá'u'lláh, a inteligência e a razão são uma dádiva de Deus ao ser humano: “Esta dádiva dotou o homem com capacidade de discernir a verdade em todas as coisas, conduzindo-o àquilo que é correcto e ajudando-o a descobrir os segredos da criação” [1]. A ciência é resultado do uso sistemático destas dádivas divinas.

Uma análise, mesmo que superficial, das Escrituras Bahá’ís permite perceber a ênfase na importância atribuída ao conhecimento científico e na necessidade de coerência entre Ciência e Religião. Durante as Suas visitas à Europa e aos Estados Unidos, 'Abdu'l-Bahá abordou este princípio diversas vezes. Em 1911, em Paris, afirmou:
Não existe contradição há entre a verdadeira religião e ciência. Quando uma religião se opõe à ciência, torna-se mera superstição: aquilo que é contrário ao conhecimento é ignorância.

Como pode o homem acreditar ser real aquilo que a ciência provou ser impossível? Acreditar, a despeito da razão, é antes superstição ignorante, do que fé. Os verdadeiros princípios de todas as religiões estão em conformidade com os ensinamentos da ciência. [2]
É óbvio que 'Abdu'l-Bahá não rejeita a religião; pelo contrário, afirma que quando existe conflito entre ciência e religião, então estamos na presença de um entendimento incorrecto de um ensinamento religioso. Note-se que 'Abdu'l-Bahá usa expressões como “verdadeira religião” e “verdadeiros princípios” para se referir às religiões que não estão em contradição com a ciência.

Existe um paralelismo óbvio na condenação que 'Abdu'l-Bahá e Richard Dawkins fazem da religião que se opõe à ciência. Mas também há uma diferença: o Professor fica-se pela denúncia da falsidade das interpretações literais; 'Abdu'l-Bahá aponta a superior importância do sentido simbólico do Texto Sagrado.

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REFERÊNCIAS
[1] – Selecção dos Escritos de Baha’u’llah, XCV
[2] - 'Abdu'l-Bahá, Palestras em Paris, (12 de Novembro, 1911)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (2)

A HIPÓTESE DE DEUS

No livro "A Desilusão de Deus" ("Deus, um delírio", na edição brasileira) o Professor Richard Dawkins defende que é quase certa a inexistência de um Deus sobrenatural. O tipo de divindade que pretende criticar nem sempre é claro; primeiro afirma que vai "...falar apenas de deuses sobrenaturais, dos quais o mais familiar à maioria dos leitores é Javé, o Deus do Antigo Testamento" [p. 45] e posteriormente proclama que pretende "...atacar Deus, todos os deuses, tudo o que seja sobrenatural, onde e sempre que tenha sido ou venha a ser inventado"[p. 62].


Com bons argumentos lógicos Richard Dawkins questiona o tipo de Deus revelado no Antigo Testamento [p. 55], a Trindade [p. 58-59], os santos [p. 60], o marianismo [p. 60]. Seguidamente refuta diversos argumentos a favor da existência de Deus: as Cinco Vias de S. Tomás, o argumento ontológico, o argumento da beleza, o argumento da experiência pessoal, o argumento das Escrituras, etc...

O mais interessante dos seus argumentos é a forma como demonstram a debilidade de algumas ideias de Deus (incluindo aquelas que assentam em interpretações literais do Antigo Testamento ou em conceitos antropomórficos). Apesar destas posições, o autor parece disposto a debater uma ideia de Deus, desde que não haja ideias preconcebidas:
Os meus amigos teólogos voltam repetidamente à sua ideia de que tinha de haver uma razão pela qual existe algo em vez de nada. Deve ter havido uma causa primeira para tudo, e então dê-se-lhe o nome de Deus… sim, disse eu, mas deve ter sido algo simples, e por isso, seja lá o que for que lhe chamemos, Deus não é um nome adequado (a menos que explicitamente lhe retiremos toda a carga que a palavra Deus comporta nas mentes da maior parte dos crentes). [p. 195]
E como fica um bahá'í face a estas críticas? Será que a posição do Prof. Dawkins é uma rejeição do conceito de Deus que encontramos nas Escrituras Bahá’ís?

Bahá'u'lláh descreve Deus como “essência incognoscível”, “santificado acima de todos os atributos”, e “enaltecido acima e para lá de proximidade e afastamento”; o criador transcende todas as características humanas e não existe nenhuma relação directa entre Ele e a criação (por outras palavras, a Sua essência não se manifesta directamente ao ser humano). Além disso, possuímos uma compreensão limitada e nunca perceberemos a verdadeira natureza de Deus; nem vale a pena tentar! Sendo assim, as provas tradicionais sobre a existência de Deus (como as Cinco Vias de S. Tomás de Aquino) não são convincentes, pois apenas tentam demonstrar a existência de um ser.

Segundo a religião Bahá’í a vontade de Deus é transmitida ciclicamente à humanidade pelos Profetas fundadores das grandes religiões mundiais. Mas as Escrituras Baha’is também sugerem que a acção de Deus e as leis da natureza estão interligadas entre si; desta forma, podemos considerar as leis naturais que regulam a evolução como uma extensão da vontade de Deus.

Note-se que este conceito baha'i não é estanho a algumas correntes do Cristianismo. Ainda recentemente Frei Bento Domingues escrevia no jornal Público: «De Deus tanto mais saberemos quanto mais nos apercebermos que excede tudo o que dele pensamos saber. Daí a importância da chamada "teologia negativa".»

Em resumo: as críticas e os argumentos do Professor Dawkins na refutação de diversos conceitos humanos sobre Deus, deviam, no mínimo, convidar à reflexão.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Deus, a Essência Incognoscível
Deus e os Profetas
Provas da Existência de Deus (Moojan Momen)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (1)


INTRODUÇÃO


Richard Dawkins: Britânico, biólogo, ateu, céptico, crítico do criacionismo... Tornou-se mundialmente famoso com o livro A Desilusão de Deus (publicado no Brasil com o título “Deus, um delírio”). Já vendeu mais de 1,5 milhões de exemplares em todo o mundo; foi publicado em Portugal em Outubro de 2007 (Editora: Casa das Letras) e já vai na 4ª edição. Com este livro, tornou-se um autor odiado por uns e admirado por outros. Penso que não estarei muito longe da verdade se disser que é difícil encontrar alguém que se interesse por religião e seja indiferente a Richard Dawkins (mesmo que não conheça com rigor as suas opiniões).

O livro aborda diversos temas: afirma a grande probabilidade da não existência de um Deus sobrenatural, declara a crença em Deus como sendo uma ideia falsa que tem persistido, mostra como a moralidade não tem origem na Bíblia, aponta os diversos problemas provocados pelo fanatismo religioso em todo o mundo, e confrontam diversos ensinamentos e crenças religiosas com a razão e a ciência.

Ao longo do texto, o professor Dawkins - que reconhece a sua fama de ter uma atitude beligerante em relação à religião [p.336] - mostra-se um autor claramente mais amadurecido do que Sam Harris; raramente cai num anti-religiosidade primária; o seu estilo de humor não é sarcástico; é um entusiasta da ciência (embora não advogue um pensamento estreitamente cienticista. [p.195]) e não procura “espiritualidades alternativas”.

Com um estilo de escrita claro e apaixonado - não lhe chamem fundamentalista! -, A Desilusão de Deus é um desafio a quem quer que professe uma qualquer religião. Como qualquer bom livro, o autor leva o leitor a pensar e a reflectir. Conseguimos definir Deus? Que tipo de entendimento fazemos das Sagradas Escrituras? Afinal como pode a fé tornar-se compatível com a razão e a ciência? Porque é que a fé religiosa deve ser inquestionável? Porque é que a fé religiosa se sente abalada quando confrontada com a ciência? Porque não procurar nesse confronto um impulso para uma renovação da própria religião?

Para mim “A Desilusão de Deus” é dos melhores livros sobre religião que li nos últimos meses. Discordo de algumas opiniões do Professor Dawkins; mas partilho de muitas das suas análises e preocupações. Ao longo das próximas semanas vou publicar aqui uma série de comentários ao livro “A Desilusão de Deus”. Espero um bom debate.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (8)

FIM DA FÉ OU FIM DO DOGMATISMO?

No mesmo livro em que acusa as religiões abraâmicas de serem fontes de muitos males que afligem a humanidade, Sam Harris apresenta opiniões surpreendentes sobre a espiritualidade humana:
A história da espiritualidade humana e a história das nossas tentativas para explorar e modificar dados da consciência através de métodos como o jejum, o canto, a privação sensorial, a oração, a meditação e o consumo de plantas psicotrópicas. Não há dúvida que experiências deste tipo podem ser conduzidas de modo racional. Na verdade estes são alguns dos únicos meios de que dispomos para determinar até que ponto a condição humana pode ser deliberadamente transformada. (p.233)

No coração da religião, esconde-se uma semente de verdade, porque a experiência espiritual, o comportamento ético e as comunidades fortes são essenciais à felicidade humana. No entanto, as nossas tradições religiosas são intelectualmente caducas e politicamente ruinosas. Embora a experiência espiritual seja claramente uma propensão da mente humana, não precisamos de acreditar em nada de insuficientemente comprovado para a concretizar. É óbvio que tem de ser possível juntar a razão , a espiritualidade e a ética no nosso pensamento sobre o mundo. Isto seria o princípio de uma abordagem racional das nossas preocupações pessoais mais profundas. E seria o fim da fé. (p.245)
Imagino que o facto de Sam Harris considerar a espiritualidade como aspecto inerente à condição humana seja surpreendentemente para muitos ateus. Pode ser que algum queira comentar sobre esse assunto.

Como bahá'í também acredito que em cada religião existe uma semente de verdade. Já referi isso em posts anteriores. E também acredito que as “tradições religiosas” (entendo isto como sinónimo de instituições religiosas) têm tido um papel significativo na cristalização e anulação do poder regenerador da religião.

Talvez a ideia mais forte destas palavras do autor d’O Fim da Fé seja a necessidade de harmonia entre espiritualidade e razão. O equilíbrio entre estas duas facetas humanas é também um princípio bahá’í. Mas não penso que esta abordagem racional à espiritualidade humana não seria o fim da fé. Parece-me mais correcto dizer que seria o fim do dogmatismo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (7)


RELIGIÃO: PROGRESSO OU RETROCESSO?

No livro O Fim da Fé, Sam Harris critica as ortodoxias religiosas por fecharem a porta a “abordagens mais sofisticadas da espiritualidade”(p.23). É curioso que num livro onde abundam críticas violentas às religiões abraâmicas, se encontrem também apelos ao desenvolvimento de novas formas de espiritualidade, e ao progresso da religião. O contraste entre estas duas ideias é surpreendente.
O progresso da religião, como noutros domínios, deve ser uma questão de investigação no presente, e não uma mera repetição de doutrinas no passado. Aquilo que é verdade hoje deveria ser observável agora, e passível de descrever em termos não insultuosos em relação a tudo o resto que sabemos do mundo. Nesta medida todo o projecto se afirma retrógrado, já que não consegue resistir às mudanças que se operam em nós culturalmente, tecnologicamente e até eticamente. (p.25)

A maior parte daquilo que hoje consideramos sagrado só o é pela simples razão de assim ter sido considerado no passado (p. 27)

Não há nenhuma razão para que a capacidade de nos apoiarmos emocional e espiritualmente não evolua com a tecnologia, a política e a cultura em geral. Na verdade, a haver algum futuro para a humanidade, é forçoso que isso aconteça. (p.43)
Penso que a maioria dos Bahá'ís identificarão estas frases de Sam Harris com duas ideias chave: o progresso e a necessidade de livre (e independente!) pesquisa da verdade.

A nossa experiência colectiva enquanto espécie leva-nos a acreditar que as sociedades e as civilizações não conseguem progredir se a transmissão de conhecimento assentar na mera repetição de ideias e processos do passado. Também sabemos que as grandes evoluções em diversas áreas do conhecimento se deram quando se questionaram conceitos transmitidos. O que seria hoje a ciência se Copérnico ou Darwin não tivessem questionado as ideias do passado? Haveria liberdade ou democracia se os pais do Iluminismo não tivessem posto em causa as instituições tradicionais e os costumes da sua época?

Mas a evolução também existe na história das religiões. O aparecimento de cada religião constituiu um ponto de rotura com as religiões do passado; é nesse momento que se questionam dogmas, rituais, instituições e tradições; é também aí que se lançam as bases de uma nova etapa da evolução espiritual e social de um, ou mais, povos.

Nas palavras acima citadas encontro um apelo a que se ponham de lado os dogmas e tradições, e se investigue realmente o que existe na essência das religiões. É a defesa da livre e independente pesquisa da verdade; nesta matéria, não posso deixar de concordar com o autor d’O Fim da Fé.

Por outro lado, quando Sam Harris declara que "todo o projecto [religioso] se afirma retrógrado", leio nas suas palavras uma expressão de frustração pelo facto de muitas instituições religiosas não serem capazes de se adaptar à modernidade. É como se tivessem ficado cristalizadas nos seus dogmas e rituais, e de forma arrogante se proclamam detentoras exclusivas de verdades absolutas.

Não creio que todo a religião seja retrógrada. Prefiro antes acreditar que todo o projecto religioso tem o seu tempo. É como uma planta. A semente germina, surge uma pequena planta, que ao longo do tempo crescerá, dará os seus frutos, e por fim definhará e acabará por morrer. Acontece com todas as religiões. Incluindo a minha.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (6)

AINDA O ISLÃO

No livro O Fim da Fé, Sam Harris reconhece o contributo civilizacional do Islão (p.119), mas refere esse facto como se tratasse de uma obra do acaso; uma decadência generalizada das restantes civilizações teriam permitido o surgimento da civilização islâmica. Os muçulmanos tornaram-se portadores de valores civilizacionais e promotores do conhecimento científico porque não havia mais ninguém para o fazer. Ao fazer afirmações destas, o autor evita comparações com a forma como surgiram outras civilizações.

Os actuais problemas do mundo Ocidental com o Islão, não podem ser entendidos com bases em interpretações infantis do Alcorão. E a evidente estagnação da civilização islâmica que Sam Harris aponta(p. 144), deve ser analisada de forma objectiva de sob diferentes perspectivas. O autor do Fim da Fé está longe de ser a pessoa indicada para nos ajudar a perceber o Islão enquanto inspirador de uma civilização, assim como os motivos da ascensão e decadência dessa civilização. Reflectir sobre o que levou uma civilização tão brilhante e evoluída a cair e regredir seria um tema bem mais interessante do que um conjunto de análises politico-religiosas que nada mais são do que mera verborreia preconceituosa.

OUTRAS QUESTÕES

“Haverá paz com o Islão?” (p.149) questiona Sam Harris. O próprio não parece muito optimista na resposta a esta pergunta, o que também não admira, quando ao longo do livro se torna evidentes os seus preconceitos. O Ocidente colabora com tiranos muçulmanos, queixa-se o Sr. Harris (p.143); e tem razão.

E os tiranos não-muçulmanos? Quem vende armamento e tecnologia ao regime chinês? Quem suporta as ditaduras e as pseudo-democracias em África? Quem apoiou os sistemas totalitários na América Latina?

Onde estão os muçulmanos moderados, pergunta Sam Harris (p. 135)? Porque é que a sua voz não se faz ouvir? Lembro o autor já tinha defendido a ideia de que os moderados religiosos apenas fazem o jogo dos fundamentalistas. Mas não obstante estas considerações, o Sr. Harris conclui que é fundamental encorajar a transformação social e política das sociedades islâmicas, apoiando os muçulmanos moderados (p. 163-164). O estranho desta conclusão, é que no mesmo livro o autor já tinha acusado os crentes moderados de dar cobertura aos fundamentalistas. Para quem tanto preza o uso da razão, esta contradição não fica lá muito bem.

Felizmente que no meio desta obsessão anti-islâmica encontramos algum bom senso na forma como Sam Harris cita e se refere a Fareed Zakaria. O autor do Fim da Fé, refere-se ao editor da Newsweek como o homem que vê as origens da violência islâmica não no Islão, mas na história recente do Médio Oriente (p.159); que notou um retrocesso no mundo árabe nos últimos 50 anos (p.159); que aponta o falhanço das instituições políticas do mundo árabe como sendo a causa da ascensão do fundamentalismo islâmico (p.160); que considera a modernização política, económica e social como a chave para a redenção dos árabes (p.161).

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Sam Harris e o Fim da Fé (5)

O PROBLEMA DO ISLÃO

"Estamos em guerra com o Islão" é uma das ideias principais do livro O Fim da Fé. A afirmação é uma óbvia simplificação da realidade; o relacionamento entre o Ocidente e alguns países do Médio Oriente é bem mais complexo do que esta frase deixa a entender. É óbvio que - nas últimas décadas - o Islão radical têm sido uma fonte de problemas para o mundo Ocidental e para o próprio Islão. Penso que expressões como "Islão radical" e "fundamentalismo islâmico" apenas entraram na linguagem corrente expressão após a revolução iraniana de 1979. Onde estava esse o radicalismo islâmico antes dessa época?

Isto só por si lava-nos imediatamente a questionar: a que é que Sam Harris se refere quando fala do Islão? Ao longo do capítulo “O Problema com o Islão” percebemos que o autor se refere a todos os países de maioria muçulmana. Por outras palavras, inclui todos os muçulmanos, sejam eles liberais ou conservadores, árabes, persas, indianos, malaios, indonésios, africanos... todos eles são colocados por Sam Harris do mesmo lado de uma trincheira imaginária. Não seria mais objectivo considerar que o problema existe apenas devido às acções de regimes ditatoriais e grupos extremistas estabelecidos em alguns do Médio Oriente?

Não é isto uma simplificação típica de um modelo de pensamento radical? E não é estranho que seja uma atitude comum de extremistas religiosos e anti-religioso? Não seria possível ser um pouco mais racional? Afinal era isso que se esperava de quem, no mesmo livro, tanto apregoa o uso da razão.


A atitude mental do Islão radical merece ser comparada com outros radicalismos com que o Ocidente já se deparou. Podemos compará-lo com diversos fenómenos de intolerância religiosa que viveram à sombra de poderes instituídos. Desta forma, parece-me pertinente questionar porque é que Sam Harris não faz a comparação dos bombistas suicidas muçulmanos com os kamikazes japoneses da 2ª Guerra Mundial? Não existe algo de comum entre eles? Não acreditam ambos que se sacrificam por uma causa suprema, tentando levar a morte e destruição aos seus inimigos?

É, no mínimo estranho, que Sam Harris não seja capaz de fazer este tipo de comparações. Preferiu simplificações infantis em vez de uma análise racional da situação. Talvez as suas simpatias pelas religiões orientais não lhe tenham permitido fazer essa comparação.

INTERPRETAÇÃO DOS TEXTOS SAGRADOS

N'O Fim da Fé apresentam-se quase seis páginas (p. 129-134) de citações do Alcorão. São frases que, segundo o autor, revelam o carácter violento do Islão. Não é necessário ser muito versado na história do Islão para perceber que os textos do Alcorão revelados em Medina são muito diferentes dos textos revelados em Meca. Segundo vários teólogos muçulmanos, isto implica que a aplicabilidade e a abrangência do texto varia conforme o contexto da revelação.

Mas não é o Sr. Harris o grande defensor do uso da razão na análise da religião? Será a interpretação literal dos textos sagrados o exemplo dessa tão desejada racionalidade? Podemos ignorar o contexto (local e circunstâncias) em que os textos surgiram? Podemos fazer uma mera interpretação literal dos textos e já está? Mas não é exactamente isto o método dos fundamentalistas islâmicos? O uso da razão é mesmo isto?...

É óbvio que o Sr. Harris tem imensos preconceitos contra o Islão. Depois de insistir nas interpretações literais do Alcorão, encontra um versículo que afirma "Não vos mateis uns aos outros" (4:29). Estranhamente o autor prefere não interpretar literalmente este versículo; afirma que é "ambíguo" (p. 128). Conclui-se que o autor não prima pela objectividade...

Ao ler o livro O Fim da Fé, percebemos que o método do autor para avaliar as religiões é fazer uma interpretação literal dos textos e validar esse significado literal contra o senso comum. Nada de procurar sentido metafóricos ou significados implícitos; ficamos por uma leitura simplista. Mas será que o Sr. Harris faz isso com todas as religiões e todos os sistemas de crença?

Sabendo do fascínio de Sr. Harris pelo Budismo, que diria ele da máxima budista "Se encontrares o Buda na estrada, mata-o!" ? Será que também a interpreta literalmente considerando-a um incentivo à intolerância e à violência, uma prova da falsidade do Budismo e da sua influência maligna na história da humanidade? Ou será que por se tratar do Budismo tentaria procurar um significado metafórico, ou uma qualquer mensagem implícita nestas palavras? A resposta a estas questões encontra-se aqui: Killing the Buddha.

É estranho como o Sr. Harris consegue ser mais racional quando analisa textos do Budismo.

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NOTA: Este tema não se esgota por aqui; no próximo post abordarei outros assuntos que Sam Harris escreveu sobre o Islão no livro O Fim da Fé.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

La Sapienza

O episódio do cancelamento da visita do Papa à universidade romana La Sapienza tem feito correr muita tinta. Uns encaram-no como uma espécie de “desforra da ciência sobre a religião”; outros apenas como mais um espasmo do ateísmo radical.

O Papa Bento XVI foi convidado pelo Reitor da Universidade de Roma La Sapienza para proferir um discurso na abertura do ano académico. Contra este convite insurgiram-se dezenas de professores, protestando contra as posições conservadoras do Papa Bento XVI em diversas matérias sociais e, sobretudo, a sua concepção de uma investigação científica subordinada à fé religiosa. Lembraram um discurso feito em 1990, quando ele era ainda Cardeal, em que teria citado Feyerabend dizendo: «Na altura de Galileu, a Igreja mostrou ser mais fiel à razão que o próprio Galileu. O julgamento contra Galileu foi razoável e justo».

(imagem obtida no De Rerum Natura)

A visita acabou por ser cancelada “por receio de tumultos”. A notícia do cancelamento foi recebida por centenas estudantes com aplausos e gritos de vitória.

Que pensar de tudo isto?

Impedir alguém de expressar as suas opiniões é uma acto de censura. E as universidades além de centros de desenvolvimento e disseminação do saber, deviam fomentar os preceitos da tolerância e do respeito por quem tem ideias diferentes. Lembro que Ahmadinejad – um dos lideres mundiais mais odiados pelos americanos - foi convidado para discursar numa universidade americana. Foram-lhe ditas umas boas verdades; mas ele pôde usar da palavra e defender-se.

Desta forma estes professores e alunos da universidade La Sapienza colocaram-se ao nível dos radicais, que deambulam por universidades no mundo islâmico pregando a intolerância, o obscurantismo e regozijando-se com uma pretensas vitórias do bem sobre o mal.

Mas também custa a acreditar que um Pontífice que não teve medo de ir à Turquia depois das polémicas provocadas pelo discurso na Universidade de Ratisbona, tenha receio de se deslocar a uma Universidade Romana por recear que os protestos degenerassem em cenas de violência.

A verdade é que este cancelamento acaba por ser uma hábil jogada do Papa Bento XVI que consegue criar um facto onde a intolerância do ateísmo radical é exposta publicamente. Desta forma, os professores e alunos que provocaram este episódio, além de intolerantes, mostraram uma enorme ingenuidade em relação às consequências do seu acto.

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NOTA: Já tive oportunidade de criticar neste blog várias posições do Papa Bento XVI a propósito de um livro que ele escreveu sobre o Cristianismo e as Religiões do Mundo. E apesar de considerar que muitas das suas posições são profundamente questionáveis, nunca recomendei que o seu livro não fosse lido; isso seria uma sugestão de censura e uma rejeição do debate de ideias. Por muito diferentes que sejam as minhas opiniões das opiniões do Chefe da Igreja Católica, entendo que ele deve ter direito a expressá-las.


ACTUALIZAÇÃO: Ler o Editorial de José Manuel Fernandes, hoje no Público (sem link)

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Sobre este assunto:
Papa cancela visita a universidade após protestos e manifestações (DN)
Vaticano divulga discurso que Papa não pôde fazer em universidade (AFP)
Mídia espanhola critica censura à visita papal à «La Sapienza» (Zenit)
Papal visit scuppered by scholars (BBC)
Galileo protest halts pope's visit (CNN)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Vade-Retro, Ateu

Na edição desta semana da revista VEJA, é dado um destaque especial ao tema da religião e ao facto desta resistir num mundo cada vez mais marcado pela “descrença”. No artigo intitulado COMO A FÉ RESISTE À DESCRENÇA (do jornalista André Petry) encontra-se uma curiosa referência ao ateísmo no Brasil, acompanhada de uma sondagem (clique sobre a imagem para ampliar) não menos surpreendente. Aqui fica um excerto:

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(...)

Clique para ampliarÀs vésperas do Natal, quando 2,1 bilhões de cristãos vão comemorar os 2 007 anos do nascimento de Jesus Cristo, os católicos brasileiros seguem diminuindo ano após ano, como vem acontecendo desde 1940, mas ainda formam uma estupenda multidão: são quase 74% da população brasileira – o que equivale a mais de 130 milhões de fiéis. Com alguns disciplinados e praticantes e muitos displicentes e relapsos, os católicos do Brasil, com seu número espetacular, mostram o vigor da crença divina, a pujança da fé, a robustez de Deus – uma potência curiosamente dotada de todas as qualidades inversas às da humanidade, que é criada (e Deus é incriado), que é limitada (e Deus é ilimitado) e que é mortal (e Deus é imortal). Os números da fé no Brasil talvez sirvam como explicação para dois fenômenos. Explicam a resistência da religiosidade em um mundo marcado pela descrença e, ao mesmo tempo, o notável preconceito da maioria dos brasileiros em relação aos ateus. Faz sentido rejeitar alguém apenas porque não acredita em Deus?

"Faz todo o sentido", afirma a historiadora Eliane Moura Silva, professora da Universidade Estadual de Campinas e especialista em religião, ela própria uma atéia. "O brasileiro ainda entende o ateu como alguém sem caráter, sem ética, sem moral." É um entendimento que parece espalhar-se de modo mais ou menos homogêneo por todas as classes sociais. Recentemente, a historiadora deu duas aulas sobre ateísmo na Casa do Saber, instituição criada para eliminar lacunas intelectuais dos endinheirados de São Paulo, e a platéia teve uma reação adversa, quase hostil, às idéias ateístas. Antes, a neurocientista Silvia Helena Cardoso, doutora em psicobiologia pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, publicou um artigo num jornal de Campinas discutindo se os santos seriam esquizofrênicos, dada a freqüência com que tinham visões – ou alucinações. Recebeu tantas ameaças que resolveu abandonar o assunto. O professor Antônio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo, especialista em sociologia da religião, explica o fenômeno: "Os brasileiros não estão habituados a se confrontar com a realidade do ateu". É o que leva os políticos – antes, durante e depois da eleição – a sempre dizer que ninguém é mais temente a Deus do que eles.

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COMENTÁRIO: De todos os brasileiros que conheço – incluindo vários familiares – uma das principais impressões que retenho é a imagem da tolerância e da religiosidade. Creio que isso forma parte do estereotipo que a maioria dos portugueses tem sobre os brasileiros. Por esse motivo o que me surpreende no texto e na sondagem da VEJA é o preconceito anti-ateu. É certo que não podemos dizer que o ateísmo seja uma religião; uma religião possui vários ensinamentos, e o ateísmo consiste num ensinamento: a não existência de Deus. Mas não vejo muitas diferenças entre o preconceito anti-baha’i, tão propagado no em países muçulmanos e este preconceito exposto nesta revista. Ambos são preconceitos religiosos, na medida em que sustentam a discriminação de pessoas com base numa (ou mais) convicções religiosas. Ambos são inaceitáveis.