quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (1)

INTRODUÇÃO

Imagine-se um livro sobre o Japão. O autor é americano e começou a escrevê-lo no dia 8 de Dezembro de 1941. Facilmente poderemos imaginar o teor do livro. É óbvio que um livro dedicado ao mesmo tema, escrito por um autor de outra nacionalidade, ou noutra época, teria um teor consideravelmente diferente.

Imagine-se agora um livro que tenta denunciar o fenómeno religioso (e principalmente o Islão) enquanto fonte de todo o mal do mundo moderno. O autor é americano e começou a escrevê-lo no dia 12 de Setembro de 2001. O livro tem por título O Fim da Fé e foi escrito por Sam Harris; foi publicado há alguns meses no nosso país, e aclamado como uma das obras mais relevantes do pensamento ateu radical dos nossos dias.

O que há de tão especial num livro que tem subjacente a ideia de que as religiões são fontes de mal e meros sistemas de crença em conflito entre si? Na diversidade de temas abordados pelo autor, encontramos coisas como:
  • Descrições de perseguições cristãs contra judeus e bruxas (p.96);
  • Argumentos que pretendem provar que o Islão é um “culto de morte” (p.119);
  • A denúncia da perversidade da influência do Conservadorismo Cristão na política americana e os erros da actual administração norte-americana em relação ao Médio Oriente (p.169);
  • A defesa do consumo de marijuana (p.177-181);
  • A defesa do uso de tortura (217-219);
  • Críticas à religião moderada (p.118), aos movimentos pacifistas (p.219) e aos movimentos políticos de esquerda (p. 146,150) por fazerem o jogo dos fundamentalistas.
  • A defesa do uso da razão na análise do fenómeno religioso (p.79-85);
  • O único caminho possível para uma evolução espiritual baseia-se num misticismo (descrito como um empreendimento racional) (p.244).
Torna-se inevitável perguntar o que leva uma pessoa a formular uma espécie de manifesto ateísta moderno onde se misturam ideias que apelam ao senso comum, com ideias que merecem ser debatidas, com outras que são perfeitamente inaceitáveis? Será que as pessoas que aclamaram a publicação deste livro em Portugal alguma vez o leram? Se o fizeram, porque não se demarcam de algumas posições deste autor? Lembro que esta amálgama de ideias ético-politico-religiosas recebeu fortes críticas de meios ateístas como o New Humanist e a Free Inquiry.

Ao longo do livro percebemos que Sam Harris não ataca o fenómeno religioso como um todo; as suas críticas vão para as religiões abraâmicas, acabando o autor por reconhecer a sua admiração pelo Hinduísmo e pelo Budismo (p.313). Por este motivo, não faltou que considerasse “O Fim da Fé” como uma defesa envergonhada do Budismo; recordo que o autor é praticante de técnicas de meditação inspiradas no Budismo. A este propósito a edição portuguesa desta obra (Editora Tinta da China) merece um reparo: sendo o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão o centro das críticas deste livro, porque é que a folha de rosto deste livro, além de apresentar os símbolos destas três religiões, também inclui um símbolo hindu?

Mesmo quando expostas num livro que parte do pressuposto que os extremistas religiosos são os que seguem mais correctamente os cânones das suas religiões, as ideias de Sam Harris merecem ser discutidas e debatidas. Não obstante a fragilidade de alguns dos seus argumentos, ou a forma preconceituosa como analisa algumas questões, a impressão com que fiquei quando acabei de ler "O Fim da Fé" é que este livro merece ser lido, pois é um desafio a qualquer pessoa que se afirme religiosa ou crente. Ao longo das próximas semanas vou abordar aqui alguns dos temas deste livro.

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ACTUALIZAÇÃO: Diga-se, em abono da verdade, que quando este livro foi publicado, o Ricardo Alves, no Diário Ateísta, manifestou a sua discordância em relação a questões de ordem científica e política.

20 comentários:

Elfo disse...

Já Friedrich Nietzsche na sua obra a Morte de Deus, fazia a apologia do super homem baseado no seu livro "Assim falava Zaratrustra" (ou Zoroastro) em que defendia o fim da religião e atacava exactamente o Cruxificado e os Judeus no geral. Aliás, Hitler baseou-se nesse livro para defender a raça ariana como o super homem do terceiro reich.
Ora se Nietzsche se baseou na religião Zoroastriana, para defender uma ideia, ainda que sem conhecer nada de Zoroastro, também este Sam Harris se baseia numa falsa concepção baseada nos erros do passado cometidos pelas várias seitas do Cristianismo, do Judaísmo e outras seitas do Islão, mas apenas está a falar baseado no livro "ouvi dizer", sem ir ao fundo das questões.
É óbvio que a Inquisição cometeu das maiores atrocidades de que há história, mas isso foi feito por uma das muitas seita, o catolicismo, que não passa de uma das muitas seitas. O Cristianismo nada tem a ver com essas atrocidades.
O facto de Sam Harris se referir às religiões abrahamicas só por si é um contrasenso, pois devia dia querer referir-se às religiões Adâmicas das quais nasceram todas as religiões conhecidas: Adâmica, Hindu, Judaísmo, Zoroastrismo, Budismo, Cristianismo, Islão, Babismo e por fim a Fé Bahá'í.
Estas são as religiões monoteístas e não apenas o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
Não é só esta alma penada que defende as várias torturas a que os crentes de todas as religiões se têm submetido. Ao longo do tempo sempre houve fanáticos que por defenderem o indefensável têm que à viva força exprimir as suas idéias sob um falso ateísmo.
Enfim em todas as eras tem havido torcionários que se baseiam em obras escritas sem o minímo conteúdo verificável e justificativo, como se algum dia houvesse alguma razão para defender uma qualquer tortura, seja ela por fins ideológicos, religiosos ou outros.
Tal como o Mein Kampf, também não li este livro!

Marco disse...

Elfo,
Algumas notas:
1 - Podemos questionar se o Hinduismo e o Budismo são religiões teistas ou monistas; isto é, acreditam numa realidade transcendente ou numa realidade imanente?
(vê este post sobre este assunto).

2 - Por outro lado o conceito de religião é muito vasto; não existe uma definição aceite universalmente. Existem escolas do Budismo que não se consideram religiões.

3 - A defesa da tortura por SH é daquelas coisas que os seus fãs preferem fingir que não leram. Por isso é que eu me questiono se de facto leram.

4 - O livro tem ideias válidas. Podemos não estar de acordo com elas, mas pelo menos fazem-nos pensar.

5 - Não é correcto comparar este livro com o Mein Kampt.

Pedro Fontela disse...

Eu acho que o elfo não deve ter presentes as proporções que essas "seitas" representam...

Dad disse...

Olha, vou mesmo comprar o livro.
Depois de o ler, comentarei.

É importante que se possa ouvir todos aqueles que dizem bem e aqueles que dizem mal, também, pois parece-me que no meio é que está a virtude, como diz o povo, que sabe...

Se calhar a maioria são aqueles que têm dúvidas...
Veja-se o livro de apontamentos da Madre Teresa de Calcutá...e a sua angústias àcerca da existência de Deus...

Abração,

GH disse...

Eu tinha folheado o livro mas achei que não valia o preço; aquilo pareceu-me que era apenas bater nos evangélicos e nos muçulmanos.

Essa da tortura é boa. Ainda vamos ver que a tortura para os ateus é como o preservativo para os católicos: os lideres defendem uma coisa e os seguidores fazem outra.

Anónimo disse...

É óbvio que um ateu não tem que subscrever todas as opiniões do Sam Harris, como muitos católicos não subscrevem tudo o que o Papa diz.

Só que há católicos que fingem que acreditam em tudo o que o Papa diz! Essa é a diferença.

Gazua

Marco disse...

GH

A defesa do uso da tortura é apenas um mero pormenor neste livro; não é uma das principais ideias. O autor refere o tema neste artigo In Defense of Torture usando argumentos muito semelhantes: existem condições muito excepcionais em que isso devia ser permitido. Como é óbvio o tema é - no mínimo - incómodo para quem defende o ateísmo.

Gazua,
Sugerir que os católicos fingem as suas convicções e os ateus não fingem, não faz sentido.
Se eu considerasse os comentários que li e ouvi sobre este livro, diria que há ateus que fingem que o leram. E há outros que leram e preferem abster-se de comentar alguns pontos de vista do Sam Harris.

Elfo disse...

Podemos questionar se o Hinduismo e o Budismo são religiões teistas ou monistas; isto é, acreditam numa realidade transcendente ou numa realidade imanente?

Ó meu caríssimo e amigo Marco, então queres tu dizer na tua observação que Suas Sandidades Krisna e Buda, não são Mensageiros Divinos??!

Um dia foi apresentado a Bahá'u'lláh um livro intitulado " Para os ignorantes", Sua Santidade, devolveu-o ao autor dizendo que lhe faria mais falta a ele (autor) que a outras pessoas, e não abriu sequer o livro.

Quanto ao amigo Pedro Fontanela:Eu acho que o elfo não deve ter presentes as proporções que essas "seitas" representam... passo a explicar: o facto de determinada seita tomar prorções enormes não significa que tenham qualquer pingo de razão, i.e., lá porque os católicos são uma maioria na Europa, o que duvido, não significa que tenhamos de dize amen a tudo o que eles dizem. Maomé refere-se às religiões do passado como as religiões do Livro, e nelas inclui o Sabeanismo. Ainda não percebi qual a discrepância entre o que escrevi e os comentários que foram feitos a respeito. Pessoalmenbte considero o opúsculo de SH ao de Salman Rushid, e esse sim, li.

Elfo disse...

Pois..., também conheço muitos "amigos" que não podem sequer nem ouvir o que Salman Rushid escreveu: "Os Versículos Satânicos", e que lhe valeu uma sentença de morte editada e assinada pelo Aihatola Komehni - nem sei se é assim que se escreve, e não tenho pachorra para ir ir ao google -, essa sentença ainda não foi revogada e qualquer muçulmano sente o dever de o matar onde quer que o encontre.
Ainda hoje há "quem se benza" só de ouvir o nome do homem.

Por acaso, mas só mesmo por acaso, gostaria de saber quantos amigos já leram esses dois livros.

Marco disse...

Elfo,
Classificar as religiões como sendo teístas, monistas ou relativistas nada tem de contrário aos ensinamentos baha'is, nem tão pouco é uma negação da autenticidade dos fundadores dessas religiões.

Bruno Miguel Resende disse...

Caro Marco, conforme referi no Diário Ateísta cá estou para debater este livro ou qualquer outra coisa que se afigure relevante.

Começando por dizer que a sua alusão a um "pensamento ateu radical", não é devidamente enquadrada na temática do livro, a grande questão em exposição é a condenação da irracionalidade, que tem obviamente como ponto máximo a fé religiosa, essencialmente a derivada das religiões abraamicas ,a submissão completa do ser humano a um ser superior, constatável na vontade demente e cega de Abraão de matar o seu próprio filho por ordens "superiores".

No livro não existe nenhuma referência a ateísmo, nem Sam Harris se identifica com o termo por razões diversas, a exemplo a sua alusão de não ter de se identificar como não-racista, não-crente-em-que-o-Elvis-está-vivo, e por aí adiante.

(continua)

Bruno Miguel Resende disse...

Relativamente às suas conclusões sobre o exposto no livro, encontram-se várias erradas, outras completamente fora do contexto, outras ainda nem sequer defendidas pelo autor, o que fornece uma espécie de imagem de uma crítica feita a um livro que não existe.

Apenas abordarei um dos tópicos, são todos de desenvolvimento excessivo. A sua alusão a críticas a movimentos pacifistas.

Sem colocar o contexto do qual advém a conclusão gera uma imagem completamente difamada do que é exposto e do que é criticado. Neste caso concreto existe uma abordagem clara à dogmatização do pacifismo, onde encaixam várias convicções budistas por exemplo, o que rejeita desde já a sua alusão a uma "defesa envergonhada do Budismo".

Aquilo que poderia parecer uma questão de plena virtude não o será em alguns contextos sociais, aplicando um exemplo simples de uma dogmatização do pacifismo pode-se concluir que este pode representar um maleficio, questões de teor extremamente relativo e sujeitas a criatividades sociológicas. Imaginando um conjunto de 50 pessoas, todas adeptas do pacifismo dogmático, a renúncia total a toda e qualquer violência. Um assassino com um corta-unhas poderá matá-las todas se quiser.

Este é um mero exemplo de uma errada conclusão que retirou do livro, e é realmente complexo criticar algo que não é factual, algo que é apenas retirado fora de contextos ou simplesmente inexistente nas exposições do livro e do autor.

Li o livro à relativamente muito tempo mas cá estarei para dúvidas se for necessário, não espero pelos livros em português, podem nunca sair e podem demorar uns valentes anos a serem editados, Portugal anda anos atrasado de várias partes do mundo mas felizmente não é impeditivo para saber o que se vai passando fora deste estranho cantinho da Europa.

Cumprimentos.

Bruno Miguel Resende disse...

Caro elfo, a sua alusão a "apenas está a falar baseado no livro "ouvi dizer"", acenta que nem uma luva nos seus comentários, ouviu dizer que o Fim da Fé era uma coisa que não é, e sem ler o livro julga-se na posição de potencial crítico completamente acrítico como é patente na sua absurda frase "Tal como o Mein Kampf, também não li este livro!", idiotice completa.

Cumprimentos.

Bruno Miguel Resende disse...

Já agora, aqui fica outro apontamento, todas as religiões são criticadas negativamente no capítulo 1 e 2 do livro da edição Tinta da China, aliás, o foco é a irracionalidade, pode-se englobar crenças diversas nas dissertações, tais como políticas ou económicas por exemplo. As capas originais não possuem qualquer simbologia religiosa, parece-me que a existicência dos simbolos na edição portuguesa surge de uma questão de markteing e nada mais.

http://a3.vox.com/6a00b8ea06d5e6dece00c114131a73c408-500pi

http://images.amazon.com/images/P/0393035158.01.LZZZZZZZ.jpg

Pessoalmente prefiro as capas originais, mais sóbrias e menos causadoras de concepções erróneas.

Relativamente ao símbolo do hinduísmo, este está presente também em outra capa, mero preciosismo seu penso eu, mas já agora aqui fica a título de curiosidade, os símbolos dos monoteísmos abraamicos e do hinduismo.

http://religionandatheism.files.wordpress.com/2007/06/eof.jpg

Cumprimentos.

Marco disse...

Bruno,

Obrigado pelos seus comentários.

Eu não vejo no livro do SH uma defesa envergonhada do Budismo. É o próprio SH que refere isso como uma das criticas que normalmente lhe fazem (pag. 262). A admiração de SH pelo Budismo, e Hinduísmo é afirmada pelo próprio (p.313); o jainismo também merece um elogio Jainismo (p.160). Por esse motivo, afirmo que não faz sentido colocar o símbolo hindu na capa (mesmo que alguém o tenha feito numa edição em inglês!)

Se Sam Harris não se identifica como ateu, então o que faz ele a não ser um ataque às religiões teístas? Será um anti-teísmo?

É evidente que o forte do livro é a irracionalidade nos sistemas de crença. É o aspecto mais válido. Mas isso é o tema do próximo post.

Quanto ao pacifismo, SH apresenta a seguinte definição: "... em última análise, o pacifismo não é mais do que uma disposição voluntária para morrer e deixar os outros morrer a contento dos malfeitores deste mundo" (p. 220). É óbvio que isto não é pacifismo! É passivismo! E ao longo do texto, SH não distingue este tipo de pacifismo dogmático (que considera que a violência nunca é aceitável) com outras formas de pacifismo que consideram que a violência pode ser usada, mas em último caso. Essa distinção ficou para uma tímida nota na pag. 308. Porque é que SH não é explícito no texto? Porque é que ele se refere ao pacifismo como se existisse apenas "pacifismo absoluto"? Não se percebe.

Cumprimentos.

Bruno Miguel Resende disse...

Caro Marco, sem dúvida que o objectivo do livro é a irracionalidade nos sistemas de crenças, as convicções que as crenças despoletam e consequentes acções. Estas são incrivelmente maléficas nas religiões abraamicas, resumem-se a um livro, à repulsa pela Natureza e à obediência cega a um poder despótico cruel. A Tora, a Bíblia e o Corão são livros incrivelmente similares, todos são oriundos da causa das consequências, Abraão e as suas paranóias numa montanha, desde a vontade demente de sacrificar o filho até à vontade também demente de andar a cortar bocados de orgãos sexuais, a submissão completa e irracional a qualquer barbárie, se uma pessoa se dispõe a matar um filho porque alguém lhe disse para o fazer, é capaz de fazer qualquer atitude bárbara.

Mais nenhum sistema de crenças se baseia nestes contextos bárbaros, a grande maioria advém simplesmente da normalidade da religião, tentar explicar algo que não se consegue explicar, seja por limitações de conhecimento, falta de tecnologia, ou outros, de forma irracional.

Todas as religiões se basearam na perscrutação da Natureza, excepto depois do episódio do Abraão. Perguntas como "Porque é que existe um ciclo de dia/noite/dia/noite?" ou coisas similares. Se realmente qualquer crença acarreta contextos passíveis de se traduzirem em comportamentos irracionais, as diferenças entre as religiões não-abraamicas é incrível, e se nas abraamicas se pode globlizar por terem as mesmas raízes, convicções similares e acções similares no resto é difícil.

Deve-se condenar a irracioalidade, mas tomar o peso relativamente ao contexto. Não existem Hindus a rebentarem-se para matar pessoas inocentes, simplesmente porque são infiéis, simplesmente por nunca tal fez parte do seu sistema de crenças. As religiões abraamicas são expansivas, dividem a Humanidade em fiéis e infiéis, querem que todos aceitem o jugo do seu deus, a partir daí se tornam o que de mais perigoso a Humanidade tem. O sectarismo doentio do preto e branco. Para quem está dentro das crenças abraamicas tende a ser complexo entender os outros sistemas de crenças.

Relativamente à alusão ao Jainismo, é uma comparação relativa ao fundamentalismo islâmico, os extremos portanto, é preferível viver no meio de fundamentalistas Jainas do que com um islâmico, o sistema de crenças irracionais jainistas levados ao extremo não produzem grandes efeitos, o pior que poderia acontecer seria a questão do pacifismo dogmático, mas seria a própria pessoa que acarretaria com as consequências nesse caso, se por exemplo for atacada por um cão, assumir o pacifismo e a noção de que toda a Natureza é sagrada levaria à morte. Em contexto social um fanatismo jaina também seria relativamente maléfico, poderiam deixar todas as culturas agricolas serem dizimadas por pragas de insectos, os insectos são sagrados obviamente, assim como toda a Natureza.

É o sistema de crenças adoptado pelos indivíduos que lhes fornece as convicções irracionais e atitudes irracionais, lendo o Corão é fácil chegar à conclusão que todos os não-islâmicos são infiéis, e que todos se devem converter ao islamismo ou morrer, biblia a mesma coisa, tora igual.

O Fim da Fé é um livro progressivo, ou seja, vai definindo pontos essenciais para usá-los em progressividade. Definindo um ponto torna-se irrelevante defini-lo sempre que é abordado, definir pacifismo sempre que o termo é usado é inimaginável, assim como outros.

Relativamente à questão do ateísmo ou anti-teísmo, esses são rótulos usados consoante os contextos. Se em determinado contexto existe imensa opressão, um número de individuos irá afirmar-se como anti-opressão. É esse o contexto, detendo uma postura racional é complexo andar a reunir rotulos de identificação, como ser não-racista, não-vegetariano, não-crente-em-astrologia.

No contexto actual a irracionalidade mais exarcebada advém da religião, nomeadamente das abraamicas, assim sendo quem as condena ou simplesmente rejeita pode-se definir ateu.

Mas é um rótulo como qualquer outro, poderia ser Humanismo Secular por exemplo, Ateísmo é o rótulo mais adequado ao contexto actual de opressão abraamica.

O ateísmo advém do racionalismo e da dificuldade deste se perpetuar entre as religiões, ao ter de se assumir uma postura de antítese à que encontrar um rótulo que consiga reunir uma enorme diversidade de existências Humanas mas ser aceite pelas mesmas, o Ateísmo é o mais exercido.

Mas aqui reside um dos problemas máximos das religiões, a rejeição da diversidade e da liberdade, a mania de colocar rótulos em massas de pessoas diversificadas que não escolheram tal rótulo para se identificarem.

É frequente ver cristãos a rotularem hindus de satânicos, islâmicos a rotularem cristãos de infiéis e por ai fora. Mas quem é que lhes deu tal autorização?

Relativamente ao símbolo hindu pouco interessa, até lá podiam colocar uma foice e martelo, um símbolo da Sonae ou afins. Toda e qualquer ideologia ou sistema de crenças é criticada no livro. Obviamente que tudo carece de uma interpretação racional e honesta, dai a relatividade das coisas.

Cumprimentos.

Marco disse...

"Abraão e as suas paranóias numa montanha, desde a vontade demente de sacrificar o filho até à vontade também demente de andar a cortar bocados de orgãos sexuais, a submissão completa e irracional a qualquer barbárie, se uma pessoa se dispõe a matar um filho porque alguém lhe disse para o fazer, é capaz de fazer qualquer atitude bárbara."
--> Portanto aceitas a história de Abraão como literalmente verdadeira? Alguma vez procuraste saber a origem das histórias dos patriarcas e o contexto em que as mesmas surgiram?

Não existem Hindus a rebentarem-se para matar pessoas inocentes, simplesmente porque são infiéis, simplesmente por nunca tal fez parte do seu sistema de crenças.
--> Naquelas notas no final do livro, Sam Harris reconhece que os Tigres Tamil no Sri Lanka são a organização que tem perpetrado mais ataques suicidas. E são hindus! O próprio Rajiv Gandhi foi assassinado por uma mulher desta organização.

“As religiões abraamicas são expansivas, dividem a Humanidade em fiéis e infiéis,”
--> Nunca ouviste falar do Bharatiya Janata? Pergunta às minorias religiosas na Índia.
http://atheism.about.com/b/2004/01/19/hindu-extremism-being-ignored.htm

"Para quem está dentro das crenças abraamicas tende a ser complexo entender os outros sistemas de crenças."
--> Tem existido uma atitude eclesiocentrista em cada religião para se considerar como o centro do mundo e de toda existência. Isso tem sido uma atitude transversal a todas as religiões (excepção para algumas escolas de pensamento budista e para os baha’is). A aldeia global tem ajudado a uma mudança de atitudes, e são cada vez mais os que substituem o eclesiocentrismo por um teocentrismo.

"...lendo o Corão é fácil chegar à conclusão que todos os não-islâmicos são infiéis, e que todos se devem converter ao islamismo ou morrer, biblia a mesma coisa, tora igual."
--> Claro! Com uma interpretação literal consegue-se chegar a essa conclusão. É isso que fazem os fundamentalistas em todas as religiões e o próprio Sam Harris. Será assim tão difícil perceber que os livros sagrados têm uma linguagem própria? Mentalidades tacanhas geralmente não conseguem ir mais além do que as interpretações literais. Imagino o que diriam eles se lessem aquele poema do Camões «Amor é fogo que arde sem se ver...» Talvez o considerassem um mentor dos incendiários... :-)

"Definindo um ponto torna-se irrelevante defini-lo sempre que é abordado"
--> Pois. Mas é pena que o pacifismo esteja definido de forma tão ambígua.

"No contexto actual a irracionalidade mais exarcebada advém da religião, nomeadamente das abraamicas"
--> A irracionalidade mais exacerbada ou mais mediatizada?

"Relativamente ao símbolo hindu pouco interessa, até lá podiam colocar uma foice e martelo, um símbolo da Sonae ou afins."
--> Pouco interessa? Então é tudo igual e podemos meter tudo no mesmo saco? Isso é uma atitude racional?

Só uma nota final: apesar de termos diferenças de opinião, é um prazer debater estes temas contigo. O problemas mesmo é quando as pessoas ignoram estes assuntos.

Elforadiante disse...

Meu caro,Bruno Miguel Resende, depreendo que o meu amigo decerto já leu TODOS os livros de referência a estes temas e, todos em inglês, presuponho, não é verdade? Como diz o nosso amigo Marco é sempre bom termos alguém com pontos de vista diferentes com os quais se possa dialogar, mas daí a chamar idiotas a quem pensa diferente vai uma enorme distância, mas enfim meu amigo a si não o considero idiota.
Caro Bruno, quando se chega a uma determinada altura na vida já não precisamos de lêr mais que os prefácios para ver o que lá vai dentro, daí que quando entro numa qualquer livraria, leio as introduções, vejo quem escreveu os prefácios e faço as minhas análises. Serão talvez superficiais, bom talvez sim talvez não. Tenho dado aqui alguns exemplos de livros que nunca tive apetência para ler, e outros que já li..., mas esses parece que vos têm passado todos ao lado, cada um tem as suas escolhas e não vou por isso chamar idiotas a quem os não leu. Li e ouvi alguns comentários acerca de livros, vindos de pessoas que nunca os tinham lido, e posso afirmar que a opinião dessas pessoas acerca de tais livros era tão ou mais válida do que aqueles que os tinham lido.
Se alguém fizer uma crítica, construtiva ou caustica, acerca do titulo do meu livro, tem todo o direito de o fazer, porque a escolha dum título para um livro não é de todo inocente, como já aqui referi.
Tenho um amigo que escreveu um livro intitulado:"Como ficar estúpido em 10 minutos".
Garanto-vos que pelo extracto que li desse livro fiquei realmente... estúpido!

Anónimo disse...

Estou ansioso por ler mais esse livro. Ultimamente varias vozes t~em se erguido para denunciar crimes cometidos "em nome de Deus", crime estes avalizados e abonados por todas religiões. Crimes que foram cometidos e continuam sendo cometidos, com a complacência de toda a sociedade.
Só pra citar um que vem se perpetuando por séculos, é a psiqueálise, isto é, a paralização das mentes das crianças, através do medo e do temor a Deus (com o acorde dos pais)eliminando a capacidade de entender e de raciocinar numa mente que não tem defesas mentais. A criança está destinada assim, eternamente a crer no que dizem os "representantes de Deus" e a não ousar buscar através do conhecimento, saber a verdade. Passam a ser meros reprodutores, sem ação própria entregando seu destino aos "representantes", lamentavelmente por pura ignorância.

Marco disse...

Anónimo,
Veja todos os meus comentários ao livro de Sam Harris. Numa avaliação global não achei o livro com muito valor. Como análise crítica e objectiva do fenómeno religioso, prefiro o livro "Deus, um Delírio" de Richars Dawkins (que tb tenho comentado neste blog)