quarta-feira, 29 de março de 2006

Teísmo e Monismo

O texto seguinte é a minha colaboração de hoje na Terra da Alegria.
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O quadro seguinte apresenta uma sistematização simplificada de alguns dos mais importantes aspectos do pensamento religioso nas religiões Ocidentais e Orientais.

Ocidental/Teísta
Oriental/Monista
Um Deus Criador que actua como uma pessoa .
Um conceito de Realidade Última indiferenciada e impessoal.
O ser humano é fundamentalmente diferente e distinto de Deus.
Ou o ser humano é uma realidade idêntica à Realidade Absoluta: Atman é Brahman (monismo); ou, tal como acontece no Budismo, nada se pode dizer sobre a pessoa que atingiu o Nivana.
O mal e o sofrimento resultam do pecado contra a Lei de Deus.
O Mal e o Sofrimento devem-se à ignorância e auto-ilusão humana.
O caminho para a salvação depende das boas obras e da adesão à Lei de Deus, ou é simplesmente uma matéria de fé e graça de Deus.
O Caminho para a salvação é percorrido através da aquisição de conhecimento e sabedoria, isto é, a capacidade de ver as coisas como elas realmente são.
O propósito da salvação é escapar da ameaça do inferno e alcançar a meta do paraíso.
O propósito da salvação é escapar ao sofrimento deste mundo e alcançar um estado de felicidade surprema, o Nirvana ou moksha.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da adoração e dos sacramentos.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da meditação e estados de consciência alterados.
O tempo histórico é progressivo, tem um princípio e um fim.
O tempo é cíclico; não tem princípio nem fim.


Apesar de sabermos que as principais correntes ortodoxas do Islão, do Cristianismo e do Judaísmo possuem uma natureza claramente teísta, podemos encontrar alguns místicos nestas religiões que defendiam ideias comuns ao monismo oriental. Por exemplo, Zohar fala da alma como uma emanação de Deus que pretende reunir-se com a sua fonte criadora; S. João da Cruz também falou também se referiu à união da alma com Deus como sendo o objectivo final de quem segue um caminho místico. Os sufis seguidores de Ibn-Arabi defendem o conceito de wahdat al-wujud (unicidade do ser), tendo evoluído para uma abordagem claramente monista.

Por seu lado na Índia, têm surgido várias correntes de pensamento teísta. A seitas bhakti possuem uma conceptualização teísta de vários deuses – particularmente Shiva e Vishnu. Também no em algumas seitas do Budismo Mahayana encontramos elementos de teísmo; Buda é visto como salvador e fonte de graça, que pode ser adorado e a quem se pode orar.

Resumindo: teísmo e monismo ocorrem tanto nas religiões orientais como ocidentais. O Teísmo é predominante nas religiões ocidentais e o monismo nas religiões orientais, mas nenhum é o exclusivo de nenhuma delas

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 36-37

Comentário:
Como o próprio autor assume, o quadro apresentado é contém várias simplificações e generalizações. No entanto, parece-me particularmente útil como uma base para qualquer comparação entre os sistemas de pensamento desenvolvidos nas religiões ocidentais (abraâmicas) e as religiões orientais.

8 comentários:

Pedro Reis disse...

Gosto mais da corrente monista, oriental, e pelo que me parece acho que a Fé Bahá'í é essencialmente monista, talvez por isso ter deixado o ateísmo para passar a viver segundo a filosofia bahá'í.

Marco disse...

Pedro,

No que toca aos temas das duas primeiras linhas deste quadro, a Fé Baha'i é essencialmente Teísta; nos restantes temas é relativista.

João disse...

Marco, o quê que queres dizer exactamente ao dizer que para a fé bahai Deus actua como uma pessoa?

Marco disse...

Joao,

Citando Shoghi Effendi:

"O que se pretende dizer por Deus pessoal é que se trata de um Deus consciente da Sua Criação, que tem uma Mente, uma Vontade, um Propósito, e não é, tal como muitos cientistas e materialistas acreditam, uma força inconsciente e determinada que opera o universo. Uma tal concepção do Ser Divino como realidade suprema e sempre presente em todo o mundo, não é antropomórfica, pois transcende todas as limitações e formas humanas, e de forma alguma tenta definir a essência da Divindade, que, obviamente, esta para lá de qualquer compreensão humana. Dizer que Deus é uma realidade pessoal não significa que Ele tenha uma forma física, nem que de forma alguma se assemelha a um ser humano."

Referi este assunto neste post sobre o Kitab-i-Iqan.

Elfo disse...

Eu voto no Pedro Reis...hi,hi,hi

Marco disse...

Meu caro Elfo,

Felizmente que sobre este (e tantos outros assuntos) não existe uma disciplica de pensamento única entgre os bahá'ís.
É a livre e independente pesquisa da verdade em acção!
:-)

João Moutinho disse...

Na nossa cultura mediterrânica também temos o conceito de tempo ciclico muito enraízado.
Temos a palvra "tempo" para designar dois conceitos enquanto que os ingleses necessitam de recorrer a "time" e "weather".
A data do Natal também remonta ao festejo do renascer do Sol.
Posso votar?...

Sip of Glory disse...

Olá, quando mim penso que os dois conceitos (monista e teísta) não serão tão antagónicos como parece à primeira vista, pois Deus é omnipresente isto é está em toda a parte, logo está também no Todo, pode ser ou não como Parte Integrante (panteísmo) ou como Energia Vital. Mas se Revela como uma Pessoa. Daí penso que o homem conhece Deus pela sua Inteligência (monismo) mas Deus se revela em relacionamento com o ser humano como uma Pessoa entre outas