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sábado, 7 de outubro de 2023

As Elites, os Populistas e as tentativas para nos dividirem

Por David House.



No início de cada empreendimento, deve-se olhar para o seu fim. (Tablets of Baha’u’llah, p. 168)

Os partidos políticos, onde quer que actuem, prosperam frequentemente com base na divisão.

Os partidos políticos tentam separar-nos em facções artificiais ou unidades tribais que se opõem a alguma coisa ou a outra pessoa, polarizando a população e colocando-nos uns contra os outros. Se eu sou democrata e o outro é republicano, ou se eu sou trabalhista e o outro é conservador, ou se eu sou socialista e outro é capitalista, ou se eu sou liberal e o outro é conservador, então nós dois rotulamo-nos com uma filiação partidária e desenha-se automaticamente uma linha divisória, criando uma fronteira e uma barreira entre nós.

Em última análise, isso não nos beneficia. Separa-nos em diferentes campos; produz conflito e divisão; gera ressentimentos e raiva; e pode até degenerar em polémicas e violência. Assim como o bom e o mau, ou o preto e branco, a realidade geralmente está algures num ponto intermédio. Mesmo que possamos rotular-nos como filiados num partido, podemos não estar tão afastados nos nossos pontos de vista; ou podemos concordar na maioria das coisas e discordar apenas em algumas. Os sistemas políticos, porém, enfatizam as nossas divergências. Promovem uma abordagem da vida baseada no grupo: ou estás no meu grupo ou no grupo adversário. Fazes parte do grupo certo; ou pertences aos Outros, que estão destinados a ser derrotados e esmagados.

Então, quem beneficia com o sistema político partidário? Bem, se seguirmos o conselho de Bahá’u’lláh e “olharmos para o fim” de cada esforço desde o início, poderemos ver que as divisões políticas partidárias, no fundo, beneficiam aqueles que desejam o poder. O sistema político partidário gera uma situação de constante desunião e conflito como forma de ganhar e manter o poder. Essas divisões políticas partidárias separam-nos, e isso mantém-nos a todos numa guerrilha constante de baixa intensidade, inconscientes e sem vontade de tentar uma abordagem mais unificada para resolver os nossos problemas comuns.

Em muitos lugares, simplesmente aceitamos e não questionamos este estado de coisas. A maioria das pessoas passa a vida inteira sem nunca questionar o modelo do sistema político partidário, ou considerar quaisquer alternativas. Mas os ensinamentos Bahá’ís questionam esse sistema, e pedem-nos também que o questionemos:

Não pronuncies palavra alguma sobre política; a tua tarefa diz respeito à vida da alma, pois, em verdade, isso é o que leva à felicidade do homem no mundo de Deus. A não ser que seja para elogiá-los, não faças menção alguma dos reis da Terra e dos governos do mundo. Em vez disso, limita as tuas palavras à divulgação das ditosas novidades do Reino de Deus, e à demonstração da influência do Verbo de Deus, e da santidade da Causa de Deus. Fala da felicidade permanente, dos deleites espirituais e das qualidades divinas, e de como o Sol da Verdade Se ergueu sobre os horizontes da Terra; fala do sopro do espírito da vida no corpo do mundo. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #53)

Os ensinamentos Bahá’ís pedem que nos concentremos na unidade e não na desunião; e acrescentam que primeiramente devemos dirigir a nossa atenção para o nosso próprio carácter interior e para as nossas almas:

Que se submetam voluntariamente a todo rei justo e sejam bons cidadãos para todo o governante generoso. Que obedeçam ao governo e não se intrometam em questões políticas, mas que se dediquem à melhoria do carácter e do comportamento, e fixem o seu olhar na Luz do mundo. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #236)

Com estas frases em mente, vejamos a mais recente manobra divisiva e de diversão que o sistema político começou a utilizar em muitos lugares do mundo: criar uma distinção falsa e divisiva entre as elites e os populistas. As definições convencionais destes dois termos geralmente são as seguintes: as elites representam os ricos, os instruídos e os poderosos; e os populistas representam as pessoas comuns. Mas hoje esses termos foram manipulados e distorcidos com outro sentido: as elites representam agora aqueles eleitos para governar os nossos países e o mundo; e os populistas representam subitamente aqueles que querem um regresso ao nacionalismo. As elites mundiais, de acordo com a nova definição, querem um governo global que retire os direitos das pessoas; e os populistas querem o governo independente e o direito de fazer o que quiserem. Nesta estratégia inteligente de desinformação, as elites equivalem ao mal e os populistas equivalem ao bem. Até o rótulo – elites – cheira a propaganda, pleno de carga emocional, concebido para gerar oposição e desprezo.

Ultimamente, os políticos que se dizem populistas usam esta estratégia divisionista para criar medos nas pessoas e, em última análise, para atingir as suas próprias ambições autoritárias. Não acreditem nisso – essa é a definição clássica de demagogo: alguém que tenta despertar as emoções das pessoas para ganhar poder.

Na realidade, esta nova táctica, que pretende mais uma vez dividir-nos uns contra os outros, explora ressentimentos e queixas de classe. Portanto, quando ouvirem as palavras elites ou populistas, tenham cuidado. Tal como as antigas divisões, estas novas têm como objetivo manipular as nossas emoções e brincar com os nossos medos – e manter-nos divididos.

Para conseguirmos alguma unidade social real e resolver verdadeiramente os nossos problemas, precisaremos de ir além destes tipos de falsas categorias binárias, filiações partidárias e as antigas dicotomias liberais versus conservadoras. Precisaremos descobrir a realidade profunda da nossa unidade, encontrar um terreno comum e unificar a humanidade:

O primeiro ensinamento é que o homem deve investigar a realidade, pois a realidade é contrária às interpretações dogmáticas e às imitações de formas ancestrais de crença, às quais todas as nações e povos aderem tão tenazmente. Estas imitações cegas são contrárias à base fundamental das religiões divinas, pois as religiões divinas, nos seus ensinamentos centrais e essenciais baseiam-se na unidade, no amor e na paz, ao passo que estas variações e imitações sempre produziram guerra, rebeldia e conflito. Portanto, todas as almas deveriam considerar que é sua responsabilidade investigar a realidade. A realidade é uma só; e quando encontrada, unificará toda a humanidade. A realidade é o amor de Deus. A realidade é o conhecimento de Deus. A realidade é a justiça. A realidade é a unidade ou solidariedade da humanidade. A realidade é a paz internacional. A realidade é o conhecimento das verdades. A realidade unifica a humanidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 372)

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Texto original: Elites versus Populists: the New Attempt to Divide Us (www.bahaiteachings.org)

sábado, 30 de setembro de 2023

O Mais Pobre dos Presidentes

Por David Langness.


Se soubessem o que eu sei sobre o poder de dar, não deixariam passar uma única refeição sem a partilhar de alguma forma. – Buda

Apenas temos aquilo que damos. – Isabel Allende

Quase todos os homens conseguem enfrentar a adversidade, mas se quiserem testar o carácter de um homem, dêem-lhe poder. - Abraham Lincoln

Durante cinco anos, o 40º presidente do Uruguai, José Alberto Mujica Cordano, foi o presidente mais pobre do mundo. Ele esteve em funções entre 2010 e 2015 e reformou-se aos 81 anos. Ele e a sua esposa moram numa pequena e simples quinta nos arredores da capital uruguaia, Montevideu - e viveram lá durante a sua presidência, recusando-se a ocupar o luxuoso palácio presidencial do Uruguai e ser servidos pelos seus muitos funcionários.

Quando era Presidente do Uruguai, “Pepe” Mujica doava 90% do seu salário mensal de 12.000 dólares a instituições que apoiavam os pobres e os pequenos empresários. O montante restante, decidiu ele, seria o rendimento médio de todos os cidadãos do seu país. A sua esposa era proprietária da quinta; o então do presidente Mujica possuía apenas um bem importante: um Volkswagen Carocha (Fusca) de 1987. Ele declarou o valor do carro antigo –1800 dólares – como o seu único bem e património líquido total em 2010, o primeiro ano de sua presidência.

Quando o presidente Mujica terminou o seu mandato em 2015 – com um índice de aprovação recorde e uma economia próspera – um rico xeque árabe ofereceu-lhe 1 milhão de dólares pelo seu famoso Volkswagen. Ele disse que, se vendesse o carro velho, doaria todo o valor para um programa para abrigar pessoas que vivem na rua.

A sua humildade pode ser o resultado dos 13 anos que passou na prisão, por ordem da brutal ditadura militar que governou o Uruguai. Esse tempo na prisão incluiu dois anos de confinamento solitário numa cave, num velho bebedouro para animais. Ele disse: “Os meus anos na prisão foram como uma formação prática para mim – na verdade, moldou a minha maneira de pensar e os meus valores”.

O Presidente Mujica via a sua presidência como uma forma de servir o povo do seu país, e não como uma forma de enriquecer ou promover-se. Sempre modesto, via o seu trabalho como um cargo de serviço público.

Conseguem imaginar como seria o mundo se todos os líderes agissem desta forma?

Os ensinamentos Bahá’ís recomendam exactamente isso:

Ó governantes da terra! Porque haveis obscurecido o esplendor do Sol, e feito com que ele deixasse de brilhar? Escutai o conselho que vos é dado pela Pena do Altíssimo, para que, porventura, tanto vós como os pobres possais alcançar a tranquilidade e a paz. Suplicamos a Deus que auxilie os reis da terra a estabelecer a paz no mundo. Ele, em verdade, faz o que deseja.

Ó reis da terra! Vemos-vos a aumentar todos os anos as vossas despesas e a colocar o peso destas sobre os vossos súbditos. Isto, em verdade, é total e grosseiramente injusto. Temei os suspiros e as lágrimas deste Injuriado, e não coloqueis uma carga excessiva sobre os vossos povos. Não os roubeis para construir palácios para vós; pelo contrário, escolhei para eles aquilo que escolheis para vós próprios. (Súriy-i-Haykal, ¶178-179)

“Escolhei para eles aquilo que escolheis para vós próprios”, aconselhou Bahá’u’lláh aos líderes do mundo nas Suas Epístolas. Escritas na última parte do século XIX, essas epístolas aos reis, governantes e autoridades eclesiásticas aconselhavam todos os políticos e monarcas a serem modestos e a desarmarem-se – e a dedicarem todos os seus esforços à justiça, à equidade e à paz.

Durante a sua viagem pela América do Norte, em 1912 – ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos – ao visitar a Sra Phoebe Hearst em Pleasanton, Califórnia, ‘Abdu’l-Bahá falou sobre as verdadeiras qualidades de um líder nacional:

O presidente deve ser um homem que não busque insistentemente a presidência. Ele deve ser uma pessoa livre de todo a preocupação com nome e posição social; em vez disso, ele deveria dizer: “Sou indigno e incapaz desta posição e não posso suportar este enorme fardo”. Essas pessoas merecem a presidência. Se o objetivo é promover o bem público, então o presidente deve ser um amigo de todos e não uma pessoa egoísta. Mas se o objectivo, for promover os interesses pessoais, então tal posição será prejudicial para a humanidade e não será benéfica para o público. (Mahmud’s Diary, p. 327)

Nenhum líder ou governante poderá fazer algo melhor do que seguir este conselho radical. Na verdade, os ensinamentos Bahá’ís prometem a esses líderes altruístas “a mais elevada de todas as honras”:

...existe alguma acção no mundo que seja mais nobre do que o serviço ao bem comum? Existe alguma bênção maior concebível para um homem do que ele se tornar a causa da educação, do desenvolvimento, da prosperidade e da honra dos seus semelhantes? Não, pelo Senhor Deus! A maior de todas as honras é que as almas abençoadas segurem as mãos dos desamparados e os libertem da sua ignorância, humilhação e pobreza, e com motivos puros, e apenas por amor a Deus, se levantem e se dediquem energicamente ao serviço das massas, esquecendo as suas próprias vantagens mundanas e trabalhando apenas para servir o bem comum. (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 103)

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Texto original: The World’s Poorest President (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 16 de setembro de 2023

A sombra de um Rei Justo

Por David Langness.

O rei justo é a sombra de Deus na terra; todos deveriam abrigar-se à sombra da sua justiça e repousar à sombra do seu favor. Este não é o lugar para personalidades, ou censuras [dirigidas] especialmente contra alguns, separando-os dos outros; pois a sombra fala daquele que a projecta. (‘Abdu’l-Bahá, A Traveller’s Narrative, p. 65)

Quando eu era criança, o meu pai brincava comigo a um jogo chamado “A Sombra Sabe!” Acho que ele mesmo inventou o jogo, e foi buscar o nome a um antigo programa de rádio que ouvia quando era criança, e que eu ouvi apenas uma vez. A introdução dramática desse programa tornou-se famosa, aparentemente, quando começou a ser emitido na década de 1930. Foi assim, com uma voz profunda e assustadora: "Quem sabe que mal se esconde no coração dos homens? A Sombra sabe!"

O nosso jogo – adequado para uma criança de três anos que ainda não havia desenvolvido o raciocínio lógico – envolvia muita correria, ficar escondido e rir. O jogo tinha um objetivo: fugir da própria sombra. Sim, eu sei: ninguém consegue fugir da própria sombra, mas era divertido tentar.

Então, com isso em mente, o que é que ‘Abdu’l-Bahá queria dizer na frase citada acima quando diz que “a sombra fala daquele que a projecta”?

Aparentemente, esta breve frase aconselha-nos a abster-nos de censurar ou criticar indevidamente governantes, reis e líderes políticos. 'Abdu'l-Bahá parece sugerir que mencionar personalidades, ou culpar um líder em oposição a outro, é um exercício infrutífero. Em vez disso, recomenda que todos possamos ver claramente os efeitos da governação de um líder, tal como todos podemos ver a sombra de uma pessoa. O contorno dessa sombra, tal como descobri aos três anos de idade, segue-nos fielmente por todo o lado, reproduzindo constantemente o nosso contorno exacto no claro e no escuro. Ninguém pode desfazer-se da sua sombra.

No seu Última Vontade e Testamento, um dos textos mais importantes de ‘Abdu’l-Bahá, ele desenvolve esse conselho sobre as sombras, aconselhando-nos a tratar os nossos administradores públicos tal como trataríamos qualquer pessoa – com respeito e honra. Ele pede-nos que nos abstenhamos de caluniar os nossos líderes políticos, obedeçamos aos governos justos e nunca desejemos o mal àqueles que nos governam:

De acordo com o mandamento claro e sagrado de Deus, estamos proibidos de proferir calúnias, é-nos ordenado a demonstrar paz e amizade, somos exortados à rectidão de conduta, à sinceridade e à harmonia com todas as raças e povos do mundo. Devemos obedecer e desejar o bem aos governos do país, considerar a deslealdade para com um rei justo como uma deslealdade para com o próprio Deus, e desejar o mal ao governo como uma transgressão da Causa de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, The Will and Testament, p. 8)

Assim, talvez a sombra projectada por um líder nos diga tudo o que precisamos saber sobre a sua liderança. Se tivermos líderes amantes da paz, eles projectarão uma sombra pacífica e viveremos num país pacífico. Se tivermos líderes que aspiram ao seu próprio enriquecimento e progresso, a sombra que lançam será igualmente óbvia – reflectirá a corrupção nas suas almas e a corrupção na nação. Se tivermos líderes belicosos, as suas sombras violentas e mortíferas segui-los-ão por todo o lado. 'Abdu’l-Bahá parece estar a dizer-nos que a sombra de um líder – os seus motivos mais íntimos – tornar-se-á sempre óbvia, mais cedo ou mais tarde. Podemos ver essas sombras simplesmente observando o que se segue às acções de um líder.

'Abdu'l-Bahá também parece estar a dizer-nos para escolhermos cuidadosamente os nossos líderes, avaliando não só a sua reputação pública e a sua "imagem" cuidadosamente trabalhada, mas também considerando os resultados reais das suas políticas. Essas políticas são justas? Deveríamos fazer essa pergunta relativamente a cada uma dessas políticas e depois, no final das contas, decidir manter ou substituir esse líder.

A paz, a justiça e o respeito pelos direitos de todos – estes estão entre os critérios que devem fundamentar a nossa escolha de líderes, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís. Temos uma indicação sobre estas qualidades de liderança num breve excerto do elogio ao presidente americano Woodrow Wilson, escrita em 1919 por 'Abdu'l-Bahá:

O Presidente da República, Dr. Wilson, está na realidade a servir o Reino de Deus, pois ele é incansável e luta dia e noite para que os direitos de todos os homens possam ser mantidos sãos e salvos, para que até mesmo as pequenas nações, tal como as grandes, possam habitar em paz e conforto, sob a proteção da Retidão e da Justiça. Este propósito é realmente elevado. Confio que a incomparável Providência ajudará e confirmará essas almas em todas as condições. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #71)

Woodrow Wilson
Naquela época da história, o presidente Wilson, um democrata, ajudou a mediar o acordo de Armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Após a publicação dos seus Quatorze Pontos para o estabelecimento de uma paz permanente, ele foi a Paris para promover a formação da Sociedade das Nações, a primeira tentativa mundial para criar um órgão governamental internacional. Líder progressista em muitos aspectos, Wilson apoiou o sufrágio feminino; defendeu a criação da Comissão Federal de Comércio para evitar a formação de monopólios; apoiou um salário mínimo nacional e subsídio de desemprego; ajudou a estabelecer a jornada de trabalho de oito horas mediando uma greve ferroviária nacional e resolvendo-a a favor do sindicato; e nomeou Louis Brandeis, o primeiro membro judeu do Supremo Tribunal.

Mas o Presidente Wilson também teve de apaziguar os políticos do Sul, apoiando as leis e políticas raciais segregacionistas, e dizendo aos soldados negros que protestavam que “a segregação não é uma humilhação, mas um benefício”. Wilson também, como presidente da Universidade de Princeton, recusou a admissão de estudantes negros.

Podemos ver, mesmo com base neste breve resumo, que o presidente americano há cem anos tinha uma mistura de luz e trevas nas suas políticas e opiniões. Apesar das trevas, os ensinamentos Bahá’ís homenageiam Woodrow Wilson pelos esforços que fez para estabelecer a paz mundial. Ao reconhecer e elogiar esse motivo principalmente espiritual, ‘Abdu’l-Bahá exemplificou adequadamente o princípio Bahá’í de “Nunca falar depreciativamente dos outros, mas elogiar sem distinção”. (The Promulgation of Universal Peace, p. 453)

Quem for a Washington, DC, pode visitar o túmulo do Presidente Wilson na Catedral Nacional – ele é o único presidente dos EUA sepultado no Distrito de Columbia. Ou se forem a Nova Jersey, ao campus da Universidade de Monmouth, façam uma paragem no Woodrow Wilson Hall, no local da “Casa Branca de verão” de Wilson em 1916.

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Texto original: The Shadow of a Just King (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 9 de setembro de 2023

Os Políticos e a Política Divina

Por David Langness.



Ora Deus não é injusto. Não se esquece do vosso trabalho nem do amor que mostraram por ele, ao atenderem, como ainda atendem, às necessidades dos outros irmãos na fé. (Hebreus 6:10)

Cada um, como bom administrador dos bens de Deus, ponha à disposição dos outros a graça que dele recebeu. (1 Pedro 4:10)

Os melhores dos homens são aqueles que servem o povo; os piores dos homens são aqueles que prejudicam o povo. (Alcorão 59:9)

Isto é adoração: servir a humanidade e responder às necessidades do povo. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 177)

Vou contar-vos uma história verdadeira de um amigo meu que queria servir os outros e acabou por se tornar um líder político.

Este meu amigo – vou mantê-lo no anonimato para proteger sua privacidade - dedicou toda a sua carreira ao serviço público. Iniciou a sua vida profissional como professor idealista e altruísta, pois acreditava que a educação poderia transformar a sociedade. Depois de ter visto, com os seus próprios olhos, as más condições nas escolas das cidades do interior dos Estados Unidos, começou a trabalhar nas bases de um sindicato de professores, na esperança de encontrar formas de melhorar essas condições. Os dirigentes sindicais viram nele uma promessa, e ele rapidamente tornou-se um dos líderes da organização. A partir dessa posição, ele decidiu concorrer a um cargo apartidária no conselho escolar local. Foi eleito. Carismático, inteligente e atencioso, realizou um excelente trabalho nesse conselho, encontrando maneiras de melhorar as escolas do seu distrito e destacando-se no processo.

Outras pessoas viram-no como promissor, e pediram-lhe que concorresse a um cargo na legislatura do estado. Ele perdeu a primeira eleição – mas dois anos depois, concorreu novamente, agora com experiência em financiamentos e debates políticos, e venceu. Com trinta e poucos anos, ele tornou-se um deputado estadual. Trabalhou muito nas suas funções, apresentou propostas de leis inovadoras que, pensava ele, criariam mais imparcialidade e justiça na educação e na sociedade, e até conseguiu que algumas dessas leis fossem aprovadas. Na base do seu sucesso, e devido à sua energia ilimitada, à sua defesa consistente dos menos afortunados e à sua capacidade de se relacionar com pessoas de ambos os partidos políticos, os seus pares elegeram-no para líder da legislatura. De repente, juntamente com o governador do estado, ele tornou-se um dos seus dois mais poderosos líderes eleitos.

A cada passo do seu caminho, o meu amigo enfrentava cada vez mais pressões políticas. Os riscos aumentavam, assim como a natureza crítica das decisões que tinha de tomar. Certa vez, confidenciou-me que o seu trabalho era como uma panela de pressão intensa, com exigências cada vez maiores de tempo, de diplomacia e de ética. Disse que enfrentou decisões incrivelmente difíceis, e a sua posição como líder envolviam-no num constante turbilhão de controvérsias. As decisões difíceis que tomava irritavam alguns e agradavam a outros. Tentou fazer o melhor que podia, mas rapidamente descobriu que forças poderosas e bem financiados – a comunidade empresarial e industrial, os sindicatos, vários interesses económicos, partidos políticos, indivíduos e grupos ricos – apostavam na sua derrota nas próximas eleições. Porquê? Um antigo apoiante disse-lhe: “Você é demasiado ético”.

E para resumir esta longa e complexa história, basta dizer que o meu amigo já não ocupa cargos políticos. Ele poderá voltar a entrar num combate político, mas por enquanto decidiu afastar-se, e trabalhar no sector privado. Perguntei-lhe o que tinha aprendido com a experiência. Ele disse, citando Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, com excepção de todas as outras”.

Certamente muitas democracias ocidentais - incluindo os governos estaduais e federais do meu país natal, os Estados Unidos - têm muitas coisas boas; mas também são permeáveis à influência corrupta das forças financeiras. O meu amigo tentou, nesse ambiente, ser um catalisador ético para a justiça e a equidade; mas, no topo da pirâmide do poder, num Estado grande e diversificado, encontrou dificuldades quando confrontado com a tremenda influência e pressão de vários grupos de interesses.

Os ensinamentos Bahá’ís reconhecem essa realidade e elogiam os líderes que a combatem interna e externamente:

Os defeitos dos reis, tal como os seus favores, podem ser grandes. Um rei que não é dissuadido pela vanglória do poder e da autoridade de respeitar a justiça, nem está privado dos esplendores do sol da equidade pelo luxo, riqueza, glória ou pela organização de exércitos e legiões, terá uma posição elevada e uma condição sublime entre a Assembleia no alto. Cabe a todos oferecer ajuda e manifestar bondade a uma alma tão nobre. Bem-aventurado o rei que mantém firmes as rédeas da sua paixão, domina a sua raiva, e prefere a justiça e a imparcialidade à injustiça e à tirania. (Tablets of Baha’u’llah, Words of Paradise, p. 65)

O governo e a administração pública, como todos os sectores da sociedade, atraem uma vasta gama de motivações humanas. Alguns líderes políticos entram neste campo por motivos egoístas, e alguns entram por motivos altruístas, tentando servir a humanidade. É claro que ninguém pode conhecer completamente as motivações de alguém além do próprio, e por isso os ensinamentos Bahá’ís aconselham-nos a abster-nos de julgar alguém:

Todas as religiões ensinam que devemos amar-nos uns aos outros; que devemos olhar para as nossas próprias falhas antes de ousarmos condenar as falhas dos outros, que não devemos considerar-nos superiores aos nossos semelhantes! Devemos ter cuidado para não nos exaltarmos para não sermos humilhados. Quem somos nós para julgar? Como saberemos quem, aos olhos de Deus, é o homem mais íntegro?

...A única diferença real é esta: existem homens celestiais e homens terrenos; servos abnegados da humanidade no amor do Altíssimo, trazendo harmonia e unidade, ensinando paz e boa vontade aos homens. Por outro lado, existem aqueles homens egoístas, que odeiam os seus irmãos, em cujos corações o preconceito substituiu a bondade amorosa, e cuja influência gera discórdia e conflito…

A minha esperança é que neste século iluminado a Luz Divina do amor irradie o seu brilho sobre o mundo inteiro, procurando a inteligência do coração receptivo de cada ser humano; que a luz do Sol da Verdade leve os políticos a livrarem-se de todas as declarações de preconceito e superstição, e com mentes libertas sigam a Política de Deus: pois a Política Divina é poderosa, e a política do homem é fraca! (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 147-150)

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Texto original: Politicians and the Divine Policy (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 2 de setembro de 2023

5 coisas positivas que aprendi a trabalhar com Políticos

Por David Langness.



A obra mais nobre de um homem é pôr ao serviço dos outros todos os seus dons e poderes. (Sófocles)

A alegria só pode ser real se as pessoas considerarem a sua vida como um serviço, e tiverem um objectivo definido na vida fora de si mesmas e da sua felicidade pessoal. (Leon Tolstoy)

O destino superior do indivíduo é servir e não governar.  (Albert Einstein)

No início da minha carreira, a vida profissional levou-me às legislaturas estaduais da Califórnia e de outros estados, depois ao Congresso e à Casa Branca em Washington, DC. Ali aprendi muitas coisas.

Primeiro, aprendi que muitas pessoas que trabalham na administração pública fazem-no num verdadeiro espírito de serviço. No seu papel de funcionários públicos, eles querem realmente ajudar os outros. Nem todos os líderes eleitos ou nomeados desejam poder, riqueza ou fama – claro, alguns desejam, mas descobri que muitos desejam servir honestamente. Tendemos a ouvir muita publicidade negativa sobre os nossos líderes, e parte dela é certamente justificada – mas não toda.

Em segundo lugar, criei uma grande estima pelos empregados da administração pública, sejam eles eleitos ou nomeados. A maioria das pessoas que conheci e com quem trabalhei, independentemente da sua filiação partidária ou filosofia política, esforçavam-se, faziam o seu melhor e queriam honestamente tornar a vida melhor para os seus cidadãos. Trabalhavam arduamente, durante muitas horas por um salário inferior ao que poderiam ter no sector privado, por um sentido de dever e obrigação para com as pessoas que representavam. Sim, também conheci alguns que tinham segundas intenções de promoção pessoal ou de enriquecimento pessoal - mas a maioria tentava verdadeiramente servir os outros.

Em terceiro lugar, gradualmente comecei a compreender que os funcionários da administração pública exercem funções incrivelmente difíceis. Quando se tomam decisões que afectam milhares ou mesmo milhões de pessoas, quando os problemas mais controversos e difíceis de resolver chegam às suas mãos depois de muitas opiniões e grupos antagónicos não conseguirem encontrar soluções, o dirigente tem de decidir – e suas decisões nunca agradam a todos. Os dirigentes públicos são muito criticados pelas decisões que tomam, mas essas decisões de compromisso não são fáceis. Um bom líder precisa de aprender a arte do compromisso, e essa é uma competência difícil de dominar.


Em quarto lugar, aprendi que a liderança requer visão. É preciso pensar a longo prazo e ter uma missão, um conceito de futuro, um fim derradeiro para o qual trabalhamos. Por vezes, os líderes falham nesse objetivo, mas a maioria tem uma visão do tipo de sociedade que gostaria de criar. Eles fazem o melhor que podem, na maioria dos casos, para encontrar maneiras de concretizar essa visão a longo prazo. Isso não é fácil.

Em quinto e último lugar, percebi que os líderes da sociedade merecem o nosso respeito. Pessoalmente, devo admitir que quando entrei pela primeira vez nos corredores do Congresso e nos gabinetes dos líderes eleitos tinha menos respeito do que devia. Cometi o erro de acreditar em tudo o que via nas notícias, e de acreditar em parte da retórica partidária que ouvia. Além disso, subestimei seriamente a dificuldade dos trabalhos que os líderes eleitos tinham de realizar. Depois de ver, de perto e em detalhe, o que era necessário para fazer o seu trabalho, tive de começar a questionar os meus próprios preconceitos e, ao fazê-lo, passei a respeitar muito a maioria das pessoas que trabalham na administração pública. Quer eu concordasse ou não com as suas posições sobre os assuntos, percebi que tinha uma dívida de gratidão para com eles, por dedicarem as suas vidas ao serviço do público.

Sim, eu sei – estes cinco tópicos certamente não se aplicam a todos os políticos e dirigentes. Sabemos que actualmente está na moda, e até é expectável, rebaixar os políticos. Somos cínicos em relação aos nossos governos; pensamos que o sistema está viciado; suspeitamos que o dinheiro corrompe todas as pessoas; não confiamos nos poderosos e nas “elites”; estamos sempre a caluniar e falar mal dos seus esforços. Isto é completamente compreensível, porque as sondagens mostram que apenas uma pequena percentagem da população acredita que os seus líderes pensam nos seus melhores interesses. Em muitos lugares, as coisas não são assim.

Mas estes pontos de vista e atitudes, embora possam ser justificados em alguns casos, também podem formar preconceitos injustificados em relação a todos os líderes eleitos ou nomeados. Quando as acções corruptas de alguns políticos provocam a condenação de toda a classe política, esses preconceitos podem tornar-se prejudiciais, levando ao insulto, à desunião e à desconfiança em relação a todos os que querem trabalhar para o bem público. Esta desconfiança leva depois à raiva generalizada, às teorias de conspiração agressivas, à suspeição em relação a todos os governos, e a um sentimento de distanciamento entre os governados.

No entanto, os ensinamentos Bahá’ís dizem-nos que devemos adoptar uma abordagem completamente diferente na forma como pensamos e tratamos aqueles que nos governam:

Ó meus amados! O mundo está envolto na escuridão espessa da revolta aberta e está a ser varrido por um turbilhão de ódio. São os fogos da malevolência que lançam as suas chamas para as nuvens do céu, é um dilúvio repleto de sangue que corre pelas planícies e pelas colinas, e ninguém na face da terra consegue encontrar qualquer paz. Assim, os amigos de Deus devem gerar aquela ternura que vem do Céu, e conceder amor no espírito a toda a humanidade. Devem lidar com cada alma segundo os conselhos e advertências Divinas; devem mostrar bondade e boa fé para com todos; devem desejar o bem a todos. Devem sacrificar-se pelos seus amigos, e desejar boa sorte aos seus inimigos. Devem confortar as pessoas desagradáveis e tratar os seus opressores com bondade amorosa. Devem ser como água refrescante para os sedentos, e para os enfermos, um remédio rápido, um bálsamo curativo para os que sofrem e um consolo para todo o coração oprimido. Devem ser uma luz orientadora para aqueles que se desviaram, um líder seguro para os perdidos. Devem ser olhos para os cegos, ouvidos para os surdos, e vida eterna para os mortos, e alegria permanente para os desanimados.

Que se submetam voluntariamente a todo o rei justo e sejam bons cidadãos para todo o governante generoso. Que obedeçam ao governo e não se intrometam nos assuntos políticos, mas que se dediquem ao melhoramento do carácter e do comportamento, e fixem o vosso olhar na Luz do mundo. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, #236)

O que significa isto? Como podemos obedecer aos nossos governos quando não confiamos neles? Este conselho aplica-se a políticos e governos corruptos? Será que os Bahá’ís se afastam completamente dos processos políticos nos seus países? Nesta breve série de artigos vamos analisar a abordagem Bahá’í à política e a forma revolucionária como os ensinamentos Bahá’ís lidam com as respostas a estas questões importantes.

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Texto original: 5 Positive Things I Learned Working with Politicians (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Porque é que os Bahá’ís não se envolvem na política?

Por David Langness.

Não disputes com ninguém sobre as coisas deste mundo e seus assuntos, pois Deus abandonou-os àqueles que colocaram os seus afectos sobre isso. De entre todo o mundo, Ele escolheu para Si próprio os corações dos homens – corações que as hostes da revelação e da palavra podem subjugar. (Bahá’u’lláh, SEB CXXVIII)

...os interesses religiosos não devem ser levados para a política. As religiões devem tratar da moral; a política das circunstâncias materiais. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Vol.2, pag.7)
Os objectivos derradeiros da Fé Bahá’í - reconciliar, unificar, curar as divisões e conseguir o amor e o respeito mútuo entre todos os seres humanos - não se podem alcançar através da política.

A política é, por natureza, inerentemente divisiva, e funciona através da oposição entre grupos. A política partidária separa, divide e isola. Em vez de unir as pessoas, força o seu afastamento, criando facções que se opõem, exigindo-lhe que desprezem e desvalorizem o outro lado e que lutem entre si. A política cria e alimenta uma mentalidade tipo “nós contra eles”. Noutro sentido, a política partidária actual lembra muito a guerra, sem a violência patente. É conhecida a frase de Von Clausewitz: “A guerra é apenas a continuação da política por outros meios".

Os ensinamentos Bahá’ís concordam, salientando que a guerra constitui a antiga base do nosso sistema politico partidário; e que o devemos substituir por uma política moderna baseada na paz:
Desejo que esta bênção surja e se torne manifesta nas faces e características dos crentes, para que eles, também, se tornem um novo povo, e encontrem uma nova vida e sejam baptizados pelo fogo e pelo espírito, e possam fazer do mundo um novo mundo, e que por fim a velha terra possa desaparecer e a nova terra aparecer; que as velhas ideias se afastem e novos pensamentos apareçam; que as velhas roupas sejam postas de lado e novas roupas sejam usadas; que a antiga política cuja base é a guerra seja rejeitada e uma política moderna baseada na paz erga o estandarte da vitória; que uma nova estrela brilhe e cintile e um novo sol ilumine e irradie; que as novas flores desabrochem; que uma nova primavera seja conhecida; que sopre uma nova brisa; que uma nova graça seja concedida; que a nova árvore dê frutos; que uma nova voz se erga e este novo som chegue aos ouvidos, que o novo suceda ao novo e todos os antigos adereços e adornos sejam postos de lado e novas decorações colocadas no seu lugar.

Desejo que todos vós tenhais esta grande ajuda e partilhem esta grandiosa dádiva, e que no espírito e no coração se esforcem e empenhem até que o mundo da guerra seja o mundo da paz; o mundo das trevas o mundo da luz; o comportamento satânico transformado em conduta celestial; os locais arruinados reconstruídos; a espada transformada num ramo de oliveira; o relâmpago do ódio transformado na chama do Amor de Deus e o ruído da arma na voz do Reino; os soldados da morte nos soldados da vida; todas as nações do mundo numa única nação; todas as raças como uma raça; e todos os hinos nacionais numa única melodia ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 2, p. 1)
Então como conseguiremos alcançar essa bela visão de unidade e paz que os ensinamentos Bahá’ís apresentam? Podemos lá chegar com os velhos sistemas de política partidária – ou precisamos de uma nova política global, mais evoluída, que unifique em vez de dividir?

Os ensinamentos Bahá’ís prepararam um novo caminho para esses objectivos sublimes. Os Bahá’ís tentam trabalhar a de uma forma mais profunda e permanente do que os políticos alguma vez conseguirão. Os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que evitemos a política partidária para curar (e não alargar!) as divisões entre pessoas e partidos. Para unir a humanidade temos de ultrapassar o estilo de política bélica que se usa na nossa sociedade civil, e encontrar formas de curar a verdadeira doença em vez de colocar curativos temporários nos sintomas:
A doença que aflige o corpo político é a falta de amor e ausência de altruísmo. Nos corações dos homens não se encontra amor real, e a condição é tal que, a menos que as suas sensibilidades sejam vivificadas por algum poder, para que a unidade, amor e harmonia se possam desenvolver dentro deles, não poderá haver cura, nenhum acordo entre a humanidade. O amor e a unidade são as necessidades do corpo político de hoje. Sem estes, não se pode alcançar progresso ou prosperidade. Portanto, os amigos de Deus devem aderir ao poder que irá criar esse amor e unidade no coração dos filhos dos homens... Esta é uma exigência dos tempos, e o remédio divino foi ministrado. Os ensinamentos espirituais da religião de Deus podem, só por si, criar este amor, unidade e harmonia nos corações humanos. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 10, pp. 115-116)
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Texto original: Why Baha’is Don’t Participate in Politics (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 20 de agosto de 2016

Religião e Política: podemos mantê-las separadas?

Por David Langness.


Sede as personificações da justiça e da equidade entre toda a criação. (Bahá'u'lláh, The Most Holy Book, p. 87)
... A religião não se deve preocupar com questões políticas. A religião preocupa-se com coisas do espírito, a política com as coisas do mundo. A religião tem de trabalhar com o mundo do pensamento, enquanto o campo da política está no mundo das condições externas. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 132-133)
Inicialmente, quando me tornei Bahá’í - tenho que admitir - debati-me com o princípio Bahá'í de não-envolvimento na política partidária, que facilmente se tornou para mim o novo conceito espiritual mais difícil entender e seguir.

Fui criado sem qualquer religião real e numa época de grande agitação social; quando era jovem comecei a acreditar que a forma de mudar o mundo para melhor incluía mudar a nossa liderança política. Afinal, pensei, se fossemos governados por políticos mais pacíficos e menos preconceituosos, eles poderiam levar-nos a uma nova e mais esclarecida sociedade. E seguidamente, vários líderes - o Presidente Kennedy, o seu irmão Robert, Malcolm X e Martin Luther King, Jr. - todos foram vítimas de balas de assassinos no espaço de meia década.

Após esses acontecimentos trágicos, quando, posteriormente, o meu país elegeu muitos líderes que continuaram as suas guerras, não conseguiram resolver adequadamente o problema do racismo e frustraram os esforços para construir a unidade internacional, comecei a perceber que os políticos só podem fazer o que a população em geral decide e permite que eles façam. Os líderes só podem liderar aqueles que os querem seguir. Qualquer líder que se coloque muito longe à frente das opiniões dos povos corre o risco de ver a sua carreira terminar abruptamente.

Quando estudei os ensinamentos Bahá’ís, descobri que a verdadeira mudança tem que vir de baixo e não pode ser imposta de cima - e a verdadeira mudança, tal como todos os profetas de Deus ensinaram, começa no coração e no espírito humano:
A religião diz respeito a assuntos do coração, do espírito e da moral.

A política ocupa-se com as coisas materiais da vida. Os professores religiosos não devem invadir o domínio da política; eles devem preocupar-se com a educação espiritual do povo; eles devem sempre dar bons conselhos aos homens, tentando servir Deus e a espécie humana; eles devem-se esforçar para despertar a ambição espiritual, e esforçar-se por ampliar a compreensão e o conhecimento da humanidade, por melhorar a moral, e por aumentar o amor pela justiça.

Isto está de acordo com os Ensinamentos de Bahá'u'lláh. No Evangelho também está escrito: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 158-159)
Estas breves palavras de 'Abdu'l-Bahá resumem claramente os ensinamentos Bahá'ís sobre a separação entre religião e política. Os Bahá’ís acreditam que os dois não se misturam bem:
Sempre que os líderes da gloriosa religião de Deus e os pilares da Sua poderosa Lei intervieram nos assuntos políticos, concebendo esquemas e elaborando planos, isso, inevitavelmente destruiu a unidade dos crentes e dispersou as fileiras dos fiéis; a chama de sedição foi ateada e o fogo de hostilidade consumiu o mundo; o país foi pilhado e saqueado; e as pessoas caíram nas mãos dos medíocres. ('Abdu'l-Bahá, o Tratado sobre a Política, citado pela Casa Universal de Justiça, numa carta a um indivíduo Bahá'í, 18 de Abril de 2001)

A Comunidade Bahá'í é uma organização mundial que procura estabelecer a paz verdadeira e universal na terra. Se um Bahá’í trabalha para um partido político para superar outro, isso é uma negação do próprio espírito da Fé. Assim, a filiação em qualquer partido político, implica necessariamente o repúdio de alguns ou de todos os princípios de paz e unidade proclamados por Bahá'u'lláh. (Carta às Assembleias Espirituais Nacional Africanas, 08 de Fevereiro de 1970, The Universal House of Justice, Messages 1963 to 1986, p. 163)
Portanto, a fim de se tornarem, tal como pede Bahá'u'lláh, "a personificação da justiça e da equidade entre toda a criação", os Bahá’ís abstêm-se de participar na política partidária, aderir aos partidos políticos ou fazer campanha pelos candidatos. Os Bahá’ís são livres para tomar parte na vida cívica através do voto, defendendo causas humanitárias e até mesmo concorrendo e aceitando cargos não-partidários de serviço civil e público - mas não participando em debates, eleições e sistemas políticos divisivos.

Os Bahá’ís não rejeitam a liderança política correcta e honesta, nem se opõem a esses líderes - na verdade, os Bahá’ís aceitam e louvam os governantes justos, são fiéis aos seus governos e cumprem a lei. Em vez de tentar realizar mudanças através das velhas ferramentas do partidarismo e do seu divisionismo inerente, os Bahá’ís concentram os seus esforços no aperfeiçoamento do carácter interior humano, na promoção mundial da justiça social, e na construção de uma ordem administrativa Bahá'í diversificada, global e unificada, apresentando-a ao mundo como um modelo para uma futura sociedade internacional:
Que se abstenham de se associar, seja por palavras ou por actos, com as actividades políticas dos seus respectivos países, com as políticas dos seus governos e os esquemas e programas dos partidos e das facções... Que afirmem a sua firme determinação em manter-se, firmemente e sem reservas, no caminho de Bahá'u'lláh, para evitar os enredos e questiúnculas inseparáveis das actividades do político, e a tornarem-se agentes dignos desse Política Divina que encarna o propósito imutável de Deus para todos os homens... (Shoghi Effendi, Carta aos Bahá’ís dos Estados Unidos e Canadá, 21 de Março de 1932)
Os Bahá’ís trabalham pela unidade da raça humana, e não pela sua desunião:
A nossa esperança é que os líderes religiosos do mundo e os seus governantes se ergam unidos pela reforma desta era e pela reabilitação do seu destino. Que eles, depois de meditar sobre as suas necessidades, consultem em conjunto e, por deliberação inquieta e plena, administrem a um mundo doente e penosamente aflito o remédio que necessita... Queira Deus, que os povos do mundo possam ser levados, como resultado dos altos esforços exercidos pelos seus governantes e pelos sábios e eruditos entre os homens, a reconhecer os seus melhores interesses. Durante quanto tempo vai a humanidade persistir na sua obstinação? Durante quanto tempo continuará a injustiça? Durante quanto tempo reinarão o caos e confusão entre os homens? Durante quanto tempo vai a discórdia agitar a face da sociedade? (Bahá'u'lláh, SEB, CX)
A resposta a estas questões profundas, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, é a unidade.

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Texto original: Religion and Politics—Can We Keep them Apart? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Pode a Administração Bahá’í tornar-se um Governo Mundial?

Por David Langness.


Vários pensadores, sábios e filósofos contemporâneos (que não são Bahá'ís) sugeriram que o sistema de organização Bahá'í - uma estrutura eleita democraticamente, unificada, não-politizada e com órgãos de governo locais, regionais, nacionais e internacionais - pode servir como modelo para um futuro governo mundial; ou mesmo, um dia, tornar-se esse governo.

Alfred W. Martin, autor e estudioso da religião Unitária foi um dos primeiros a avançar com esta ideia, no seu livro de 1926 Comparative Religion and the Religion of the Future:
A coroa de glória do movimento Bahá'í é que, enquanto censura o sectarismo na sua pregação, tem praticado fielmente aquilo que pregou, evitando tornar-se ele próprio uma seita... Os seus representantes não tentam impor quaisquer crenças aos outros, seja por argumento ou suborno; em vez disso, preferem colocar crenças que iluminaram as suas próprias vidas ao alcance daqueles que sentem que precisam de iluminação. Não, não é uma seita, não é uma parte da humanidade isolada do resto, vivendo para si própria e com o objectivo de converter todo o resto em material para o seu próprio crescimento; Não, não é isso, mas um fermento, provocando uma fermentação espiritual em todas as religiões despertando-as com o espírito da catolicidade e do fraternalismo... Quem dirá que, tal como o pequeno grupo de viajantes do Mayflower, que desembarcaram em Plymouth Rock, provou ser o pequeno começo de uma poderosa nação, o embrião ideal de uma democracia que, se continuar fiel aos seus princípios, deve ainda alcançar todo o globo habitável, também o pequeno grupo de Bahá'ís exilados da sua casa persa pode ainda vir a ser o pequeno começo do movimento mundial, o embrião ideal da democracia na religião, a Igreja Universal da Humanidade? (pag. 88, 91)
No entanto, as escrituras Bahá'ís proíbem especificamente a Ordem Administrativa Bahá'í de "substituir o governo dos seus respectivos países."

Para eliminar qualquer confusão, 'Abdu'l-Bahá escreveu um tratado importante sobre o assunto chamado Resaleh-ye Siyasiyyeh, que foi traduzido em francês como La Politique (A Política) e em alemão como Eine Abhandlung Uber Politik (Um ensaio sobre Política). Os vários tradutores concordam na essência sobre a força principal deste importante texto Bahá'í: que as funções de líderes religiosos e as funções de líderes políticos devem permanecer separadas. No Seu tratado 'Abdu'l-Bahá afirma claramente que, sempre que os líderes da religião procuram uma função na esfera política, dissolve-se a unidade entre os crentes - e adverte os Bahá'ís não procurarem essas funções.

Mas vamos especular por um momento. E se os crentes ou a religião em si não procurassem essa função? E se a sociedade em geral escolhesse livremente a ser administrada e regida por princípios dessa religião, ou usasse a ordem administrativa religiosa como modelo para o seu governo civil?

Por outras palavras, poderia alguma vez o modelo de governação Bahá'í, a sua ordem administrativa democrática globalmente unificada, tornar-se mais do que apenas um modelo para um governo civil? Poderia a Fé Bahá'í um dia tornar-se a religião de estado de um país? Poderia esse país adoptar as leis Bahá'ís como suas? Poderia uma nação - ou o mundo - verdadeiramente utilizar a ordem administrativa Bahá'í como o seu órgão de governação em algum momento distante no futuro?

Sim, a Casa Universal de Justiça tem dito, que todas essas coisas são passíveis de acontecer, numa etapa futura em que sociedade esteja completamente despolitizada e unificada. Mas os próprios Bahá'ís não podem forçar qualquer uma dessas possibilidades - essa mudança radical no rumo da sociedade teria que ser uma escolha livre e sem constrangimento da própria sociedade. Assim, enquanto uma tal evolução parece agora remota e quase inconcebível, a Casa Universal de Justiça diz que um dia isso pode ocorrer:
Apenas à luz desses factos, é evidente que o crescimento das comunidades Bahá'ís para a dimensão em que um estado não-Bahá'í adoptasse a Fé como Religião do Estado, ou até mesmo a situação em que o Estado aceitasse a Lei de Deus como a sua própria lei e a Casa Nacional de Justiça como seu legislador, deverá ser um processo democrático e absolutamente voluntário. (Separation of Church and State, from The Universal House of Justice, April 27, 1995)
Membros eleitos da Casa Universal de Justiça
Vamos tentar imaginar. Dado um novo modelo pós-secular de harmonia e complementaridade entre uma ordem religiosa pluralista e o Estado, que trabalham de maneiras diferentes para o bem-estar da humanidade; e dado uma comunidade mundial unificada com um sistema federado de nações; e talvez até mesmo dada uma população maioritariamente Bahá'í, (ou que a maioria da população apoiasse os ideais Bahá'ís), então esse "processo democrático e absolutamente voluntário" teria que incluir dois aspectos críticos: protecção completa dos direitos de quaisquer minorias; e o acordo amplo e livre de toda a sociedade futura na adopção de princípios Bahá'ís.

Este tipo de mudança governamental e espiritual sem precedentes - que agora é tão difícil de antever, com o nosso mundo actual tão emaranhado e tão profundamente dividido entre interesses contrários e agendas políticas nacionais - exigiria, obviamente, um grande realinhamento de valores, interesses geopolíticos e perspectivas religiosas. Salvo uma mudança abrupta ou catastrófica nos destinos do mundo, levará provavelmente muito tempo, talvez séculos, para chegar à fase de maturidade humana colectiva necessária para tal acordo pacífico e democrático sobre um conjunto unificador de princípios espirituais.

Enquanto isso, o principal objectivo da Fé Bahá'í, independentemente da forma como isso acontece ou como poderá vir a acontecer, foca-se um objectivo final - a unificação pacífica de toda a raça humana.

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Texto original: Could the Baha’i Administration Ever Become a World Government? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Política, Religião e Tirania

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá’ís opõem-se de forma determinada e veemente ao despotismo e à tirania.

Durante os últimos quarenta anos da Sua vida, Bahá'u'lláh sofreu a tortura, o exílio e a prisão; tudo isso foi decretado e executado por tiranos e déspotas dos governos persa e otomano. Ele manifestou-Se repetidamente contra esses déspotas e seus regimes opressivos; chegou mesmo a enviar de uma série de cartas e epístolas aos Reis, governantes e líderes religiosos do mundo, anunciando a revelação que Ele tinha recebido e convocando-os para a paz universal, unidade e cooperação internacional.

Bahá'u'lláh pediu aos líderes políticos do mundo que estabelecessem a paz com outras nações, tratassem dos seus assuntos com justiça, reduzissem a impostos injustos destinados a financiar armas e guerras, e enfrentassem a terrível pobreza entre os seus povos. Além da forte oposição de Bahá'u'lláh ao poder dos governos tirânicos, as escrituras Bahá'ís defendem um modelo de federação de nações numa ordem mundial unida. 'Abdu'l-Bahá expressou este princípio Bahá'í fundamental a um alto funcionário do governo dos Estados Unidos, dizendo:
Podeis melhor servir o vosso país se, na vossa capacidade de cidadão do mundo, envidardes todos os esforços que contribuam para a aplicação futura do princípio do federalismo subjacente ao governo do vosso próprio país nas relações já existentes entre os povos e nações do mundo. (The World Order of Baha’u’llah, p. 37)
Assim, considerando este sólido conceito Bahá'í de uma federação descentralizada de nações sem tirania ou despotismo, podem os Bahá'ís participar na actividade política?

Não. Os Bahá'ís evitam a política partidária, e vêem a sua fé como essencialmente não-política.

Então como é que os Bahá'ís concebem uma futura ordem mundial, se não como uma organização política? E muitas pessoas perguntam como pode mesmo existir uma ordem mundial sem algum tipo de embate e envolvimento político? Não é o sistema político partidário algo inevitável? E quanto ao princípio Bahá'í da unidade mundial: se isso acontecer, não irão os Bahá'ís querer participar na governação do mundo?

Para começar a responder a essas perguntas, vamos começar por analisar como os ensinamentos Bahá'ís concebem uma futura ordem mundial, a partir dos escritos de Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í:
A unidade da raça humana, tal como previsto por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem estão definitiva e completamente salvaguardadas. Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que o constituem, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos. Um executivo mundial, apoiado por uma força internacional, executará as decisões e aplicará as leis promulgadas por este parlamento mundial, e protegerá a unidade orgânica de toda a comunidade mundial. Um tribunal mundial julgará e emitirá o seu veredicto vinculativo e final em todas e quaisquer disputas que possam surgir entre os vários elementos que constituam este sistema universal. (The World Order of Baha’u’llah, p. 202)

Montesquieu
A visão Bahá'í de uma nova comunidade mundial das nações inclui os três elementos clássicos - um órgão legislativo mundial democraticamente eleito; um executivo mundial; e um tribunal mundial. A ideia destes componentes governamentais equilibrados é familiar para os cidadãos de muitos países soberanos do mundo; foi proposta pela primeira vez por Aristóteles, usada pelos gregos e romanos nas suas incipientes democracias, e, posteriormente, desenvolvida em 1748, por Montesquieu, o filósofo político francês do Iluminismo. Designado sistema tripartite, esta separação interna de poder político entre os três ramos do governo - legislativo, executivo e judicial - evita a excessiva centralização e a potencial tirania de uma oligarquia ou ditadura. Os governos democráticos mais avançados de hoje usam este sistema, e os ensinamentos Bahá'ís recomendam a sua aplicação numa escala mundial.

As escrituras Bahá'ís afirmam que esta visão de uma comunidade mundial, o sonho de poetas, filósofos e profetas durante milénios, só pode acontecer quando:
... um certo número de seus soberanos ilustres e magnânimos ... deve, para o bem e a felicidade de toda a humanidade, erguer-se, com firme determinação e visão clara, para estabelecer a causa da Paz Universal. Eles devem fazer da Causa da Paz o objecto de consulta geral, e procurar, por todos os meios ao seu alcance, estabelecer uma União das nações do mundo. Eles devem criar um tratado vinculativo e estabelecer uma aliança cujas cláusulas sejam sólidas, invioláveis e bem claras. Devem proclamá-la a todo o mundo e conseguir para ela a sanção de toda a raça humana. Este empreendimento supremo e nobre - a verdadeira fonte de paz e bem-estar de todo o mundo - deve ser considerado sagrado por todos os que habitam na terra. Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para garantir a estabilidade e permanência dessa Mais Grandiosa Aliança. Neste Pacto abrangente, os limites e fronteiras de cada nação devem ser claramente fixados, os princípios subjacentes às relações entre governos devem ser definitivamente estabelecidos, e todos os acordos e obrigações internacionais devem ser averiguados. De igual modo, a dimensão dos armamentos de cada governo deve ser estritamente limitada, pois se fosse permitido aumentar os preparativos para a guerra e as forças militares de qualquer nação, isso despertaria a suspeita das outras. (Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 64)

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Texto original: Politics, Religion and Tyranny (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 26 de setembro de 2015

Progressistas, Conservadores e a Paciência

Por David Langness.


O/A leitor(a) gostaria de ver mudanças significativas na nossa sociedade, ou sente-se geralmente satisfeito com a forma como as coisas estão? Pensa em si próprio como uma pessoa que favorece a mudança ou como alguém que prefere preservar o status quo?

Esta típica questão diferenciadora permite separar progressistas de conservadores. De uma forma simplista diríamos que uma pessoa que pensa de forma progressista considera que o estado actual das coisas deve progredir ou mudar. E de forma igualmente simplista, uma pessoa que pensa de forma conservadora olha para o estado actual das coisas e quer "conservá-las”, de modo que elas continuem tal como estão.

Isto não tem nada a ver com política partidária. Infelizmente, os sistemas políticos de muitos países apropriaram-se e distorceram estas definições tradicionais e usam-nas para os seus próprios fins: dividir e conquistar. As organizações políticas partidárias gostam de nos identificar com um desses rótulos ideológicos, e alinhar-nos nas suas agendas. Mas quando pensamos no propósito original daquelas palavras, e tentamos separar os seus significados reais do conteúdo que acumularam através da política partidária, estas revelam uma dicotomia gritante. Uma pessoa conservadora é, de acordo com o dicionário Webster, alguém "disposto a preservar as condições e instituições existentes", enquanto uma pessoa progressista é alguém que "favorece ou advoga o progresso, a mudança, a melhoria ou a reforma, ao contrário dos que desejam manter as coisas como elas estão."

De acordo com estas definições, os Bahá'ís encaixam-se, claramente, na descrição progressista. Os ensinamentos Bahá'ís apelam à mudança e à reforma em praticamente todos os sectores da actividade humana, dizendo que vivemos:
... um tempo de reforma universal. As leis e estatutos dos governos civis e federais estão em processo de mudança e transformação. As ciências e artes estão a ser novamente moldadas. Os pensamentos são transformados. As fundações da sociedade humana estão a mudar e a fortalecerem-se. Hoje, as ciências do passado são inúteis. O sistema ptolomaico de astronomia, incontáveis outros sistemas, teorias científicas e explicações filosóficas são descartados, e tornam-se conhecidos como falsos e inúteis. Antecedentes e princípios éticos não podem ser aplicados às necessidades do mundo moderno. Pensamentos e teorias de tempos passados são agora infrutíferos. Tronos e governos desintegram-se e caem. Todas as condições e requisitos do passado, inaptos e inadequados para o tempo presente, estão a passar por uma reforma radical. (‘Abdu’l-Bahá, Baha’i World Faith, pp. 228-229)
Num mundo onde vemos guerras constantes, os ensinamentos Bahá'ís defendem a paz. Onde vemos grandes diferenças entre riqueza e pobreza, os ensinamentos Bahá'ís incentivam um movimento progressivo em direcção à eliminação desses extremos. Onde vemos enormes disparidades entre os educados e os iletrados, os ensinamentos Bahá'ís apelam para o ensino obrigatório universal em todo o planeta. Onde experimentamos o ódio, o preconceito e a intolerância, os ensinamentos Bahá'ís exigem a todos nós que trabalhemos para a unificação e harmonia de toda a raça humana. Onde vemos enormes desigualdades e injustiças para com as mulheres, os ensinamentos Bahá'ís defendem a igualdade absoluta entre homens e mulheres.

Os Baha'is querem reformar o mundo. Bahá'u'lláh pediu que todos trabalhassem para o objectivo de um mundo sem violência, injustiça, opressão e ódio. Apelou a todos nós para que encontrássemos formas de aplicar os princípios Bahá'ís a um padrão consistente de reforma mundial, para construir uma nova civilização global, para desenvolvermos (e conservarmos) o progresso que fizemos no reino material das ciências e aplicá-lo com a mesma energia e cuidado no reino espiritual.

Como é que vamos lá chegar?

Paciência. As Escrituras Bahá'ís afirmam que toda a mudança duradoura leva tempo:
É certo que os empreendimentos monumentais não podem ser apressadamente concluídos com sucesso; nesses casos, a pressa só causaria estragos.
O mundo da política é como o mundo do homem; primeiramente ele é uma semente, e depois, passa gradualmente à condição de embrião e feto, adquirindo uma estrutura óssea, revestindo-se com carne, assumindo a sua própria forma especial, até que finalmente atinge a condição em que pode adequadamente cumprir as palavras: "o mais excelente dos Criadores". Tal como isto é um requisito da criação e baseia-se na Sabedoria Universal, o mundo político, da mesma forma, não pode evoluir instantaneamente do ponto mais baixo da imperfeição para o cume da rectidão e da perfeição. Em vez disso, as pessoas competentes devem esforçar-se de dia e de noite, e usar todos os meios que conduzem ao progresso, até que o governo e o povo se desenvolvam ao longo de cada vertente, de dia para dia e até mesmo de momento para momento. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, pp. 105-106)
No entanto, para os Bahá'ís a paciência não significa esperar eternamente:
Se, porém, com atrasos e adiamento isso significa, que em cada geração apenas se realiza uma fracção das reformas necessárias, isso não é senão letargia e inércia, e nenhum resultado se conseguirá com esse procedimento, excepto a interminável repetição de palavras inúteis. Se a pressa é prejudicial, a inércia e a indolência são mil vezes pior. (‘Abdu'l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 106)
Activistas sociais, agentes de mudança e trabalhadores para a evolução social progressista, tenham coragem: os ensinamentos Bahá'ís homenageiam e incentivam a vossa devoção e as vossas acções. Simultaneamente, também apelam a uma abordagem paciente e humilde para reformar a sociedade.

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Texto original: Progressives, Conservatives and Patience (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.