Artigo de Fareed Zakaria publicado no Washington Post.
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Num discurso muito bem elaborado na semana passada, proferido tendo como pano de fundo a magnífica Acrópole de Atenas, o Secretário de Estado Marco Rubio exortou o Ocidente a redescobrir o que o torna excepcional. Descreveu as qualidades que definem a civilização ocidental como o fogo da paixão, a força, a coragem e o orgulho, e enalteceu a sua ambição, o nacionalismo e a busca incessante da excelência. Alertou, no entanto, que o Ocidente se envergonhou precisamente daquilo que o tornou grandioso.
Rubio tem razão ao afirmar que o Ocidente por vezes perdeu a confiança nas suas próprias tradições e ideais, e não deveria. Mas o próprio Rubio parece profundamente confuso sobre o que tornou o Ocidente excecional.
Consideremos as qualidades que ele enaltece: coragem, força, ambição e orgulho. Genghis Khan possuía todas estas qualidades em abundância. O mesmo acontecia com os imperadores persas, os czares russos e os governantes da China imperial. Toda a grande civilização celebrou os seus guerreiros, glorificou as suas conquistas e acreditou na sua própria superioridade.
O que realmente distingue a civilização ocidental não é o seu poderio militar ou orgulho nacional, mas sim as suas tradições intelectuais e políticas. Da filosofia grega e do direito romano, passando pelo cristianismo, pela revolução científica e pelo Iluminismo, o Ocidente desenvolveu um conjunto de ideias que desafiaram o exercício arbitrário do poder.
A razão, a investigação científica, a liberdade individual, a democracia, o Estado de direito e os direitos humanos universais tornaram-se centrais para a civilização ocidental e diferenciaram-na das demais.
Outras culturas possuem tradições de moralidade, justiça e dignidade humana. Mas, no Ocidente, estas ideias evoluíram para proposições políticas revolucionárias, segundo as quais todo o ser humano possui determinados direitos simplesmente por ser humano, os governos existem para garantir esses direitos e nenhum governante ou tradição está acima de qualquer escrutínio.
A característica mais radical destas ideias, em parte inspiradas pelo Cristianismo, era a sua universalidade. Aplicavam-se não apenas aos ocidentais, mas, em princípio, a todos.
Consideremos a escravatura. O Ocidente praticou a escravatura numa escala vasta e brutal, tal como praticamente todas as grandes civilizações da história. Mas o Ocidente produziu também um poderoso movimento abolicionista, baseado nas crenças cristãs, nos ideais iluministas e nas lutas dos próprios escravizados. As sociedades ocidentais desenvolveram princípios que podiam ser utilizados para condenar a sua própria conduta.
Da mesma forma, durante séculos, as sociedades ocidentais trataram as mulheres e as minorias religiosas e raciais como cidadãos de segunda, tal como a maioria das outras civilizações. Mas as ideias ocidentais sobre a igualdade e os direitos individuais ajudaram a gerar movimentos pelo sufrágio feminino, pela tolerância religiosa e pelos direitos civis.
Estes movimentos não rejeitaram os mais elevados ideais do Ocidente. Exigiram que o Ocidente estivesse à altura deles.
Martin Luther King Jr. apelou à ideia da Declaração da Independência de que todos os homens são criados iguais precisamente porque a sua promessa era universal, mesmo que a sociedade americana a tivesse traído vezes sem conta.
Isto também se aplica ao imperialismo. Quase todas as grandes potências procuraram expandir o seu domínio. O Ocidente obteve um sucesso extraordinário neste sentido, e é admirável o seu enorme alcance. Mas as sociedades ocidentais acabaram também por reconhecer os direitos dos povos colonizados e por questionar a moralidade da conquista e a brutalidade do domínio colonial.
Esta capacidade de autocrítica não é uma fraqueza. É uma das maiores forças do Ocidente: a capacidade de se obrigar a viver de acordo com os seus próprios ideais. Faz também parte do uso incansável da razão que levou o Ocidente a liderar o mundo na ciência e nas descobertas. E isso leva-nos talvez ao ponto mais importante que Rubio deixa passar.
A extraordinária influência do Ocidente sobre o mundo moderno não provém simplesmente da conquista militar ou do domínio económico. Provém da atracção intelectual das suas ideias.
O poder ocidental era frequentemente alvo de ressentimento, resistência e, por fim, expulsão. Contudo, os ideais associados ao Ocidente perduraram porque pessoas de todo o mundo podiam reivindicá-los como seus. Os britânicos governaram a Índia durante quase dois séculos, muitas vezes através da exploração, repressão e violência. Apesar disso, quando os indianos conquistaram a sua independência, não descartaram a democracia parlamentar, o governo constitucional, um poder judicial independente ou o Estado de direito.
Adoptaram estas instituições, adaptaram-nas e combinaram-nas com as suas próprias tradições. A Índia adoptou o sufrágio universal desde o nascimento da sua república, um compromisso extraordinário com a igualdade política num país pobre e em grande parte analfabeto. Este é o notável poder da formulação de ideias universais pelo Ocidente. Qualquer pessoa pode adotá-las e obter poder através delas.
Marco Rubio tem razão ao afirmar que o Ocidente deve orgulhar-se da sua história e das suas conquistas. Mas, embora os aspectos que Rubio sublinha — a força, a coragem e a glória nacional — tenham de facto tornado o Ocidente poderoso, não foram eles que o transformaram.
A sua realização mais duradoura não foi a de conquistar territórios, construir exércitos e monumentos poderosos, ou gerar riqueza. O Império Otomano fez tudo isso. O que tornou o Ocidente excepcional foi a sua capacidade de transcender as noções limitadoras da tribo, da nação e do império para desenvolver ideias sobre a liberdade, a igualdade e a dignidade humana que pudessem dialogar com todas as pessoas, em todo o lado.
O Ocidente conquistou grande parte do mundo pela força, mas transformou o mundo através das ideias. Gostaria que o Secretário de Estado dos EUA celebrasse estas ideias e que este governo estivesse à altura delas.
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Texto original: Marco Rubio misunderstands what makes the West great (Washington Post)

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