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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Evora, le rythme dans le saut

Um pequeno texto sobre Nelson Évora, que surgiu no L'Humanité (França) no mês passado.
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Un Portugais domine le triple saut. Portrait.

Bon, bien sûr à Berlin, il y a Usain Bolt qui écrase tout. Et fait passer presque inaperçus les autres. Pourtant, il y en a d’autres qui planent dans le ciel de Berlin comme Bolt survole la piste bleue de l’Olympia Stadion. À commencer par le Portugais Nelson Evora, en finale du triple saut aujourd’hui (18 h 5, France 2). Champion du monde en titre, champion olympique à Pékin en 2008, le Portugais, né en Côte d’Ivoire en 1984, ne semble pas avoir d’adversaire à sa mesure. Ce que confirme, sans hésitation, la référence de la discipline, le retraité Jonathan Edwards, toujours recordman du monde de la discipline (18,29 mètres en 1995) : « À mes yeux, explique le Britannique, Nelson Evora est sans aucun doute le plus fort du lot sur le triple actuellement. Il est rapide, fort et possède un très bon équilibre. »

Des qualités qu’Evora, né d’un père capverdien et d’une mère ivoirienne, cultive depuis son arrivée au Portugal à l’âge de cinq ans. Et comme toujours dans les trajectoires réussies de sportifs dorés sur tranche, le hasard fait bien les choses quand la famille Evora se pose à Odivelas, avec pour voisin Joao Ganço, un ancien recordman du Portugal du saut en hauteur. Voilà donc le jeune Nelson, avec un tel parrainage, bien lancé vers

les sommets de l’athlétisme. Naturalisé

Portugais en 2002, il redonne des couleurs à l’athlétisme portugais un peu en mal de champions depuis Rosa Mota (championne du monde du marathon en 1987) et Carlos Lopes, médaillé d’or sur marathon également lors des JO de 1984.

Et tout ça grâce à la foi dans un pays encore très pieux. Car Evora est un adepte de la foi baha’ie, une religion fondée par Baha’u’llah, un noble persan qui proclame en 1863 être le porteur d’un nouveau message divin où prédomine l’idée que « le monde est un pays et l’humanité ses citoyens ».

Un beau slogan pour un futur champion du monde.

F. S.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Ele é Bahá'í e escolheu ser excelente

Primeira parte da reportagem de Margarida Santos Lopes (fotos de Nuno Ferreira Santos) sobre Nelson Évora e a Fé Bahá'í (Público, 12-Dez-2008)
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Nelson Évora no Centro Bahá'í

O corpo é de ouro, mas o coração é bahá'i


A religião que professa desde os 16 anos pede que seja excelente. Foi influenciado por João Ganço, o treinador que o ajudou a ser campeão olímpico. Ainda recebe parabéns pela medalha de Pequim, mas o objectivo é saltar mais alto. Uma "mão divina" pode explicar "um centímetro a mais". Por Margarida Santos Lopes (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotos)

Fedross Imani não trouxe o saltério, instrumento de cordas com que o rei David acompanhava os Salmos, mas veio Catherine Fiero com a sua harpa. Ela toca e canta: "We are all waves of one sea/we are all leaves of one tree/we are all flowers of one garden." Os fiéis escutam-na em silêncio, sob o olhar melancólico de 'Abdu'l Bahá, filho de Bahá'u'lláh, o Profeta dos bahá'is, cujo retrato ocupa lugar central numa pequena sala de cortinas azuis e heras cor de laranja.

É domingo à tarde, e Fedross está particularmente orgulhoso. Não só porque o palestrante da celebração de hoje, no Centro Bahá'i em Lisboa, é o seu filho Navid, mas porque na audiência está Nelson Évora, o atleta que personifica um dos valores máximos desta religião: a excelência.

O atleta medalha de ouro do triplo salto nos Jogos Olímpicos de Pequim é a estrela do dia, ainda que a sede da comunidade ostente no portão de entrada uma outra estrela. Tem nove pontas e representa a "unidade na diversidade" que inspirou "Cathy": o sabeanismo (os sabeus ainda hoje vivem no Iémen, Iraque, Paquistão e Afeganistão), o hinduísmo, o judaísmo, o zoroastrismo, o budismo, o cristianismo, o babismo e o bahá'ismo.

Depois de distribuir beijos, abraços e sorrisos, Nelson Évora sentou-se na segunda fila, entre a mulher e o filho do seu treinador, João Ganço. Navid, professor de artes marciais, dissertou sobre "a influência da educação no carácter do ser humano", e o "menino de ouro" foi várias vezes citado como um bom exemplo. O que se prepara "para atingir a perfeição".

Nelson ouviu-o com atenção e deu o seu testemunho: "O importante é estar sempre em movimento e trabalhar muito, porque a excelência é o lado físico e o lado espiritual." Sentada a pouca distância, a romena Iona Gheorghe lançou um piropo, que fez o atleta soltar o riso e roer ainda mais as unhas, e declarou, com esfuziante alegria: "Eu cheguei aqui há dois anos vinda de um país que foi uma ditadura. Era ortodoxa, mas senti sempre um vazio. Só a fé bahá'i me deixou completa."

Várias cabeças acenaram em concordância. Uma delas, a da harpista Catherine, que a Orquestra Nacional de São Carlos dispensou. "Eu vim de Nova Iorque, e sinto-me feliz desde que há 30 anos aceitei Bahá'u'lláh como mensageiro de Deus", dirá ao P2 a antiga cristã metodista, no final de uma hora de debate de ideias e duas orações. "We are all stars in the sky/ we are all one in God's eye", emociona-se ao recitar o seu livro de cânticos. "We are angels of fire and snow/we see the light and away we go."

Nelson Évora no Centro Baha'i em Lisboa

A descoberta aos 16 anos

Os fiéis estão num exíguo hall (em breve o edifício será demolido para construir um maior) a partilhar bolinhos, queijos e sumos - lanche com que tradicionalmente terminam os encontros - e já Nelson Évora e João Ganço subiram à biblioteca para contarem como chegaram à "verdade".

"Eu era muito novo, tinha uns nove ou dez anos", revela o jovem, num misto de serenidade e nervosismo. "Costumava frequentar a casa do professor, em Odivelas, para brincar com o filho [David Ganço]. Lembro-me de ir às aulas de crianças sem saber para que serviam, mas depois percebi que o objectivo era transmitir valores. Éramos ensinados a não mentir e tínhamos de passar a teoria à prática. Eu e o David começávamos por mentir e depois víamos o resultado dessa mentira."

Ao contrário do que possa parecer, a "viagem espiritual" de Nelson, 24 anos, filho de uma costa-marfinense e de um cabo-verdiano, não começou na casa do vizinho João Ganço, antigo recordista do salto em altura. "A minha mãe foi sempre a mais religiosa da família", diz. "É católica mas não praticante. Acredita em Deus e sempre me ensinou a acreditar em Deus. Na sua maneira religiosa de estar e ser, deu-me os valores que me ajudarem a tornar-me bahá'i. Ela não seguiu o meu caminho, mas respeita o meu."

O momento decisivo aconteceu aos 16 anos, numa "escola de Verão em Monchique", mais uma vez na companhia do amigo David Ganço. "Eu era jovem, mas os meus ideais, a minha forma de vida, já eram bahá'is. Só faltava declarar-me e assim fiz." Encontrar respostas não é ter certezas, avisa Nelson. "Nada fica definido para o resto da vida. Tudo é questionável. Por exemplo, e só agora falo disto, há pouco tempo, uma amiga morreu de repente, num acidente, e voltaram-me as perguntas. Porquê?"

Perdoar Udowu Phillips

Será que Nelson duvidou da existência de Deus quando o seu pai adoeceu gravemente antes dos Jogos de Pequim? "O meu pai adoeceu por um motivo", afirma, sem precisar. "Quando há um motivo, não há perguntas a fazer. Coloquei mais perguntas, quando a minha amiga morreu, do nada. Ela era uma pessoa que procurava a excelência. E aconteceu-lhe aquilo. Ainda não consigo aceitar a morte."

Para outras adversidades, porém, já encontrou defesas. Quando o britânico Udowu Phillips reagiu muito mal ao segundo lugar (17,62m), o português que já era campeão do mundo desvalorizou os insultos. "A culpa é dele porque fez mal o exercício. Eu entrei em prova, sabia que estava bem. A primeira coisa que fiz, mesmo sabendo o que ele dissera de mim, foi estender-lhe a mão e falar com ele. Não guardo ressentimentos."

Há um episódio que Nelson Évora recorda, na sua primeira competição internacional, o campeonato do mundo 2003/04, em Budapeste, quando no meio do corredor uma atleta se atravessou à sua frente. "Eu tinha apostado tudo naquele salto e não consegui saltar. Desconcentrei-me e isso desmoralizou-me. Podia ter protestado. Não o fiz. Não me arrependo. Essa atitude enriqueceu-me como ser humano e desportivamente."

Nunca fez nada de errado? "Claro que fiz! Às vezes temos de experimentar as coisas más para saber onde os erros nos levam. Nem sempre chegamos lá quando nos dizem 'Não vás por aí'. Se faço mal, peço perdão sem dificuldade. Sei que todos erramos, que tenho defeitos e os outros também."

E quando ganha, o Nelson que saltou 17,67m sente que a fé o ajuda? "Eu e o professor trabalhámos muito, e eu só tinha de estar o mais concentrado possível. O que aconteceu depois, na prova, são coisas que me ultrapassam. Porquê um centímetro a mais ou a menos? Há coisas físicas, é certo, mas aqui atribuo uma mão divina. Para alguns, talvez seja sorte. Eu vejo mais além."

"Quero chegar mais longe, sem dúvida!", frisa Nelson. "Vou ter de estar muito equilibrado a todos os níveis. Se atingir os meus objectivos, e mesmo se não os atingir, essa procura servirá de exemplo de vida, para mim, e para os que acompanharem o meu percurso até lá. As pessoas ainda estão a pensar na medalha olímpica, mas eu, um dia depois, já estava a pensar noutra coisa. Noutra etapa, noutra prova."

A PIDE e Bach

João Ganço insiste no que já antes dissera noutras entrevistas: "Não foi só a fé bahá'i que deu a vitória ao Nelson. Foi um conjunto de factores e um deles foi a fé. Estamos há muito tempo juntos e sentimos o que temos e o que podemos fazer."

Sobre o seu percurso religioso, o treinador desvenda: "Eu era católico, mas tinha muitas dúvidas. Depois do meu casamento [mera formalidade pela igreja], eu e a minha mulher decidimos investigar várias religiões. Fomos ter com tudo o que era seita. Budistas, muçulmanos, o Mr. Moon e até as Testemunhas de Jeová. Era uma necessidade pessoal e espiritual."

"Quando pegava na Bíblia e começava a ler, interrogava-me. Havia coisas que não entendia. Também me questionava sobre a razão de ser de tantas religiões com tantos crentes. Onde estava a verdade? Foi a fé bahá'i que deu resposta às minhas dúvidas. Quando os outros textos religiosos foram revelados, a mentalidade era outra. Precisamos de outras orientações, mais avançadas. A época de Bahá'u'lláh [1817-1892] é a mais recente."

João Ganço demorou cinco anos a tornar-se bahá'i. "Há pessoas que chegaram lá logo pelo coração. Eu precisei de investigar. A minha mulher, os meus filhos e até a minha sogra são bahá'is. Alguns dos meus atletas, não só o Nelson, são bahá'is. Não pressionámos ninguém. Foram sentindo a atmosfera, sentiram-se bem e foram aderindo."

Nelson é o seu orgulho: "O primeiro passo não fui eu que o dei, foram os pais dele, que são católicos e são excelentes. A educação base foi da família. Depois, sentiu a influência bahá'i. Hoje, ele é mais conhecido pelo seu lado humano do que pela medalha. E eu fico contentíssimo, porque, um dia, ele deixará de ser atleta [estuda Marketing e Publicidade] mas continuará a ser uma pessoa."

Orgulho na fé que segue há 50 anos é também o que sente Mário Mota Marques, um dos nove membros eleitos da Assembleia Bahá'i de Lisboa. Sempre foi um "estudioso das religiões", apesar de a sua família não ser religiosa. Começou por ler o Bhagavad Gita, dos hindus. Aos 16 anos, foi conduzido ao centro bahá'i por um amigo que continua a ser agnóstico.

O amigo vive em Nova Iorque e é músico. Sempre se corresponderam. Uma das suas cartas falava de Bach, mas a PIDE, que frequentemente batia à porta de Mário Marques de madrugada (esta religião foi perseguida até ao 25 de Abril de 1974), implicou porque leu bahá'i. "Entravam e vasculhavam tudo", recorda o responsável, que também não se esquece de outra visita da polícia política a uma sala onde crianças tinham actividades lúdicas. "Os agentes chegaram, olharam para o papel de cenário com desenhos coloridos e perguntaram se eram planos para ataques a quartéis."

Os maus tempos passaram. Hoje, a fé bahá'i está reconhecida oficialmente e tem as suas próprias aulas de religião e moral nas escolas públicas, e um programa na RTP2.

sábado, 13 de setembro de 2008

Aquela frase...

José Tolentino Mendonça, um dos melhores teólogos portugueses da actualidade rendido à humildade e e espiritualidade de Nelson Évora:

Sempre que salto, salto para o infinito


Deste Verão português surdamente incompatível, com conflitualidades, embaraços e pessimismo, resgato uma frase que seria pena ficar perdida entre a cinza. Foi proferida pelo atleta Nelson Évora, e representa, creio, não apenas a descrição de uma técnica ou de um método, mas é uma espécie de razão onde a vida, a inteira vida, se pode decidir. "Sempre que salto, salto para o infinito", disse ele. No triplo salto dos Jogos Olímpicos de Pequim esse infinito correspondeu a 17,67 metros, e valeu-lhe a medalha de ouro. Mas o infinito é esse aberto que não acaba...

Nos programas biográficos que, em seguida, as televisões dedicaram ao atleta, comovi-me a olhar para as instalações desportivas mais do que precárias num centro escolar, para o ziguezague árido e incaracterístico das estradas suburbanas, para o exíguo futuro que se avista das florestas de apartamentos colados a apartamentos. Aquele cenário poderia servir para contar uma história completamente diferente. Por isso a frase de Nelson Évora é tão importante. Aos miúdos que hoje têm a idade que o campeão olímpico então teria, e que as televisões entrevistam naqueles mesmos lugares, como é fundamental testemunhar-lhes o que significa "saltar para o infinito". Transcender-se, ir além, ir mais longe, sabendo que isso implica que cada um se tenha encontrado humildemente com os seus limites e plenamente com as suas possibilidades. Num tempo de tectos baixos e de metas imediatas, como parecem ser os nossos, "saltar para o infinito" constitui talvez uma impopular aposta. Mas a esperança, a verdadeira esperança, pede de nós risco e coragem.

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Texto publicado no site da Agência Ecclesia

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Nelson Évora: Teimosia de Ouro

Aqui fica um excerto do artigo publicado na revista Visão (28-Agosto-2008) intitulado «Teimosia de Ouro», onde se descreve a forma como João Ganço ajudou Nelson Évora a transformar-se num campeão olímpico. O artigo é de autoria dos jornalistas Rui Tavares Guedes e Patrícia Fonseca. Os sombreados a amarelo são da minha responsabilidade.
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(…)

O que tem o corpo do novo campeão olímpico (além do facto de ter sido eleito por um programa da televisão chinesa como o medalhado de ouro mais bonito dos Jogos)? João Ganço descreve-o: «É magro, tem uns músculos gémeos muito longilíneos, bem adaptados a uma prova como o triplo-salto, tem potência (que é a velocidade vezes a força), uma força reactiva poderosa e, acima de tudo, uma grande força mental»

FÉ SEM IGREJA

E, nesse campo, surpreendentemente João Ganço é o primeiro a negar que o "segredo" dessa força mental seja a fé Bahá'í que descobriu aos 25 anos e que Nélson abraçou na adolescência por sua influência.

«Isso foi uma coisa que apareceu naturalmente na minha vida. Mas é raríssimo eu e o Nélson falarmos um como outro sobre esse assunto», esclarece. Mesmo assim, admite haver ensinamentos daquela fé que os ajudam na dedicação ao treino e à competição: «Um princípio que nos orienta é o de tentar perseguir a excelência como ensina a fé Bahá'í. E é isso que fazemos um como outro: eu obrigo-o a evoluir e ele obriga-me a evoluir».

Mas insurge-se: «Não foi, ao contrário do que já li, a fé que ganhou a medalha de ouro. A fé é um elemento como o treino e a força mental. O título olímpico foi ganho, acima de tudo, através do talento do Nélson e de um plano bem pensado, em especial no último ano, em que ambos dedicámos tudo a este objectivo. Por exemplo, eu não cheguei a terminar o mestrado em Alto Rendimento e o Nélson deixou de ir às aulas de Publicidade e Marketing, na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa."

Mais: «O nosso objectivo era a medalha de ouro e o Nélson deixou de ganhar muito dinheiro por causa disso, ao recusar uma série de meetings. Só escolhemos as que interessavam para a nossa preparação».

Em Lisboa, Mário Mota Marques, 66 anos, director de Assuntos Externos da Comunidade Bahá'í em Portugal, ressalva, apesar de tudo, que «há uma força mental enorme em Nélson mas também uma pacificação, uma humildade calma» que se revelam decisivos nos momentos chave da competição. Mas, humilde como devem ser todos os bahá'is, diz que essa força interior poderia ser conquistada com «outra formação de origem espiritual e religiosa».

Em Portugal, existem cerca de 8 mil seguidores Bahá’í que acreditam existir um único Deus, que a humanidade é uma família e que há uma unidade fundamental entre todas as religiões. A comunidade Bahá'í tem muito orgulho em Nelson Évora como atleta mas, sobretudo, como homem: «Ele é a simplicidade e a modéstia em pessoa».

Quando João e Nélson regressarem "'faremos como quando ele foi campeão do mundo: o conselho nacional (nove membros) convida-os para uma oração e depois vamos todos almoçar». João Ganço comparecerá ao repasto com um look diferente: logo depois de ter ouvido o Hino no Ninho de Pássaro, cumpriu a aposta e imitou Nélson Évora: rapou o cabelo' tal como o atleta faz sempre, na manhã anterior a cada prova. E ambos continuam fiéis no objectivo que Nélson definiu, exemplarmente, logo após receber a medalha: «Temos que continuar a trabalhar para que este não seja o ponto mais alto da minha carreira.» Será isso a tal procura da excelência? Ou apenas mais um sinal de teimosia?

sábado, 30 de agosto de 2008

Nélson Évora e João Ganço unidos pelo espiritual

Artigo do jornalista Nuno Amaral, publicado no Jornal de Notícias no passado dia 23-Agosto-2008
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Nélson Évora e João Ganço não são só um atleta e um treinador de sucesso. Partilham uma religião e uma filosofia, cujos princípios excedem a importância do desporto. A medalha de ouro olímpica é apenas um bónus...
Foi aos cinco anos que Ganço descobriu Évora em Odivelas, quando o agora campeão olímpico do triplo salto brincava com os filhos do treinador, ex-recordista nacional de salto em altura e primeiro português a passar os dois metros na disciplina, e este percebeu que o miúdo nascido na Costa do Marfim e de ascendência cabo-verdiana, tinha jeito para a actividade desportiva.

Desde então, e já passaram 18 anos, os dois desenvolveram uma relação de grande proximidade, que extravasa as fronteiras desportivas. Entre os dois há algo de místico e espiritual, levado à prática pelo facto de partilharem uma religião chamada "Fé Bahá'í", regida pela unidade, que define a Terra como um só país e a humanidade como os seus cidadãos e que foi fundada em 1844 na Pérsia, actual Irão. "A religião ajuda-nos no equilíbrio do nosso interior e a sabermos enfrentar a realidade. Também nos ensina a olhar mais para as coisas positivas do que para as negativas", afirmou o novo campeão olímpico, tendo esclarecido ontem que essa filosofia de vida nada tem a ver com resultados desportivos: "São valores em que acredito. Transporto para a vida tudo aquilo em que acredito, e não apenas para o desporto".

Nélson Évora define João Ganço como um "segundo pai", que o ajudou a aperfeiçoar as suas qualidades e a acreditar que era possível tornar-se um atleta de alta competição. Depois da vitória em Pequim, o saltador dedicou a vitória ao pai biológico, que passou os últimos dias numa cama de hospital devido a um problema de saúde grave, mas já se sabe que tem sempre o treinador na cabeça.

Durante a prova de anteontem, foi notória a importância da cumplicidade entre os dois, nas conversas que tiveram entre os saltos, nos olhares, na forma como saltaram ambos, um na pista e o outro na cadeira, para o desejado título olímpico. No final, abraçaram-se com a sensação de dever cumprido. "Foram 18 anos a lapidar um diamante. Não foi fácil, mas conseguimos que tudo corresse bem. A mentalidade forte que o Nélson Évora possui faz dele um campeão", referiu o treinador depois da vitória de anteontem, que não pôde ser festejada com excessos porque o álcool é uma das proibições impostas pela religião de que ambos são praticantes e é sabido que as saídas à noite não estão no roteiro habitual do atleta.

A "Fé Baha'í" ajuda também o saltador português a respeitar todos os adversários, como fez questão de dizer várias vezes antes dos Jogos Olímpicos, seja qual for o grau de favoritismo que lhe é atribuído. Por isso, também se entenderam como um desabafo as palavras de ontem do campeão olímpico, em resposta ao inglês Phillips Idowu, segundo classificado na final realizada anteontem, que disse antes da prova já se sentir o vencedor antecipado, chegando mesmo a definir-se como o Super-Homem. "Não me interessam as declarações dele. A frustração que o Idowu está a sentir é culpa dele. Devemos respeitar os nossos adversários em todas as situações e eu sempre fiz isso, ganhando ou não. Ele não o fez, pensou que já tinha a medalha de ouro no bolso, mas a medalha está do meu lado. Ele vai ter de aprender a viver com isso", disse o português. Com toda a calma do mundo…

sábado, 23 de agosto de 2008

Nelson Évora: um Bahá’í

O texto que se segue é a transcrição de um artigo João Bernard Garcia, publicado ontem no jornal 24 Horas, a propósito do relacionamento de Nelson Évora com a Fé Baha’i.
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As centenas de membros portugueses da comunidade Baha’í rejubilaram ontem de alegria com a conquista olímpica de Nélson Évora, um dos seus irmãos nesta fé.

David Ganço, amigo do campeão de triplo salto, e filho do treinador João Ganço, garante que o ouro foi “a prova de que Nélson é um bom ser humano, um bom atleta” e “esta foi a melhor forma de adoração a Deus”.

A atitude de querer melhorar tudo o que fazem é uma das imagens de marca dos cerca de 5 milhões de fiéis que em todo o mundo seguem os princípios de fé defendidos pelos profetas Bahá’u’lláh e Abdu’l-Bahá.



Nélson, tal como todos os outros crentes Baha’í, acredita que “a Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos”; e que o Universo se rege pela “unidade”, “harmonia” e “espiritualidade”. Partindo destes princípios, os seus seguidores vêem nos Jogos Olímpicos o expoente máximo das suas convicções, como explica Carlos Jalali, um dos membros do Conselho da Comunidade em Portugal.

“Os Jogos são a imagem quase perfeita da unidade na diversidade que a nossa crença defende. Daí que tenha sido uma grande alegria ver o Nélson vencer o ouro olímpico. Eu sabia que ele estava fortemente motivado”, remata.

Mário Mota Marques, outro dos membros do Conselho Nacional da Comunidade Baha’í, reconhece que o nosso campeão é “uma pessoa tranquila, com muita espiritualidade, modéstia e força mental, que sabe dar o exemplo de correcção”.

Dos treinos na rua até ao ouro olímpico

Isso mesmo confirma David Ganço, amigo desde os quatro anos e vizinho de Nélson Évora em Odivelas, e seu irmão na fé Baha’í. “Ele é um excelente atleta que começou a ser treinado comigo pelo meu pai aqui nas ruas de Odivelas e que aos poucos foi evoluindo até chegar ao ouro olímpico”, conta.

Nélson passou os dias, e por vezes noites, em casa da vizinha família Ganço. Com eles frequentou aulas e reuniões Baha’í para crianças, com eles praticou desporto, brincou e se divertiu. “Somos como irmãos. Fazíamos tudo como se fôssemos uma família unida”, conta o amigo David, que ontem só conseguiu dar “meia dúzia de gritos de alegria” no telemóvel do pai, que está na China.

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O que significa ser um Baha’í?

Os seguidores da fé Baha’í acreditam na “eliminação de todas as formas de preconceito”, na “igualdade entre homens e mulheres”, na “harmonia entre ciência e religião”, na “paz mundial suportada por um governo mundial”, nas “soluções espirituais para os problemas económicos” e na “educação universal”.

Estas convicções pretendem criar unidade entre todos os povos e defendem a globalização com tanta convicção que chegam mesmo a afirmar que o “mundo é um país e a humanidade os seus cidadãos”.

Nélson é um fiel seguidor Baha’í. Mas também se distingue em desfiles de moda –é agenciado pela Glam – e pela participação em acções de solidariedade social. Ainda recentemente, leilou algumas fotos pessoais para fins de caridade. Foram vendidas por 300 euros e quem as comprou foi... a namorada.

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“A alma permanece para além da morte”

O estado de saúde do pai de Nélson Évora não terá abalado o estado de espírito do filho durante toda a sua estada em Pequim. Segundo Mário Mota Marques, membro do conselho nacional da comunidade Baha’í, da qual Nélson Évora faz parte, os crentes nesta fé vivem “num estado de grande serenidade” pois acreditam que “o corpo é apenas uma embalagem e que a alma permanece para além da morte”, conforme explicou em declarações ao 24horas. “Creio que a fé nisso terá ajudado Nélson quando pensou que o pior podia acontecer ao pai”, resume Mário Mota Marques, que também é amigo pessoal do medalha de ouro destes Jogos Olímpicos de Pequim.

Nélson Évora é um dos mais conhecidos membros desta comunidade e tem dado a cara publicamente pela fé Baha’í. (...)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ouro Olímpico para um Bahá'í português!!!



Parabéns, Nelson Évora!

Nélson Évora conquistou a primeira medalha de ouro para Portugal nos Jogos Olímpicos de Pequim. O atleta, no salto triplo, alcançou a marca de 17m67 no seu quarto ensaio. Esta foi a segunda medalha do nosso país na China, após a de prata conquistada por Vanessa Fernandes no triatlo.

Nélson Évora não precisou de fazer o seu último salto para alcançar a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Pequim. A marca do triunfo surgiu no quarto ensaio, com o português a registar 17m67.

Quando soube que tinha sido campeão, o atleta foi cumprimentar o treinador João Ganço entre lágrimas, numa clara demonstração de reconhecimento.

Évora, um dos poucos atletas nacionais que confirmaram as esperanças dos portugueses em si, não tremeu na final e logo no segundo salto registou 17m56, demonstrando que seria ele o alvo a abater.

No entanto, Phillips Idowu respondeu com 17m62 no terceiro salto e relegou o português para o segundo lugar.

Mas Évora reagiu e alcançou no salto seguinte a marca que lhe valeu o ouro, 17m67. O britânico ainda procurou no sexto ensaio superar o registo do português, mas acabou por falhar o seu salto, entregando o ouro ao português, que, recorde-se, também é o actual campeão mundial.

(via Diário Digital)

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ACTUALIZAÇÃO Nº1:
Muito se tem dito e escrito sobre os insucessos de diversos elementos da equipa olímpica portuguesa nestes Jogos Olímpicos de Beijing 2008. Para os que não hesitam em criticar esses atletas, lembro que há quatro anos atrás, Nelson Évora também foi infeliz na sua participação nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. Tenham cuidado com o que dizem e o que escrevem. Podem estar a condenar futuros campeões olímpicos.

ACTUALIZAÇÃO Nº2:
Como nota de curiosidade, registei que nas últimas 12 horas, o GoogleBlogSearch identifica quase 500 referências a Nelson Évora. Aqui ficam os links dos blogs baha’is que fazem referência ao sucesso do nosso campeão olímpico:

Barnabas Quotidianus: Olympic gold for triple-jumping Baha’i (Note-se o fair-play britânico)
Bahai Views: On Best Ba-ha’i and Long Jumper in the World: Evora wins gold
Befriend Stranger: Olympic gold for a Portuguese Baha’i
Sharing is Caring: Baha’i takes Olympic Gold
Baha’i Perspectives: Hail the Olympic Hero!
Baha’i News UK: Bahá’í wins Olympic Triple Jump Gold
Mauxito: Bahá'í Olympics Gold Winner
Mulheres na Nova Era: Atleta Bahá'i traz ouro olímpico para Portugal
Elfo Verde: Campeão Olímpico
Estrellas del cielo del entendimiento: Nelson Evora - Bahá'í Gold Winner
La Fede Baha'i - Bassano del Greppa: BAHA'I MEDAGLIA D'ORO ALLE OLIMPIADI

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Nelson Évora, hoje no Público

Excerto de uma entrevista de Nelson Évora, hoje no Público:

(...)

O que mudou na sua vida desde Osaca?

O reconhecimento público: mais autógrafos e mais entrevistas. E as pessoas pedem medalhas [risos]. Mas não ligo porque pode influenciar negativamente os treinos. Procuro ter o ritmo de vida igual ao que tinha. Sou a mesma pessoa, o típico low-profile de gostos simples, amigo dos amigos, interessado em fazer bem o trabalho e tirar o curso de Publicidade e Marketing. Só gosto de aparecer quando é para competir ou para ajudar alguém, como foi o caso do leilão de uma das chuteiras que usei em Osaca, cujas receitas são para ajudar escolas em Cabo Verde.

Quer ser publicitário?

Estive matriculado em Economia, depois mudei. Gosto de marketing e quero exercer um dia. Por enquanto, vou fazendo umas cadeiras. O tempo livre é raro.

Segue a religião Bahá'i. Qual o papel dessa fé na sua vida?

É mais uma forma de estar e uma filosofia de vida e menos uma religião no sentido tradicional. Não temos padres, não temos rituais de culto, temos apenas vontade de crescer como seres humanos e eliminar todas as barreiras e preconceitos que separam as pessoas. A unidade é o valor fundamental e ajuda-me a ser optimista e a ver para além dos êxitos e das coisas materiais.

Sai à noite?

Só quando a época está morta. Álcool nem vê-lo.

Porquê o alarido em torno da naturalização de atletas não nascidos em Portugal?

É mais no futebol, onde tudo se passa depressa de mais. Eu vim aos seis anos, estou perfeitamente integrado. O processo de naturalização não é brincadeira, envolve muita papelada. Se alguém dá um passo desses, é porque está mesmo consciente do que está a fazer.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Nelson Évora, O Menino da Fé Bahá’í

Reportagem da jornalista Marisa Carvalho, publicada no jornal 24Horas de 29 de Agosto de 2007.
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Começou a treinar-se na rua, em brincadeiras de amigos, mas depressa os seus dotes deram nas vistas. Esteve para ser futebolista, mas escolheu o atletismo. O campeão do mundo guia-se por uma religião que se baseia nas boas acções.

Determinado, humilde, bem-disposto, amigo dos seus amigos. Quem conhece Nelson Évora não lhe poupa elogios nem disfarça a emoção. “Chorei, berrei, saltei”. Foi assim que David Ganço, um dos melhores amigos do novo campeão do mundo do triplo salto, celebrou a sua vitória. "Ele está no seu melhor e é muito profissional. A sua determinação é admirável", conta.

Um ano mais velho, os dois conheceram-se na infância, aos 6 anos. “O Nelson tinha acabado de chegar da Costa do Marfim e foi morar para o andar por cima do nosso”, explica o filho de João Ganço, o treinador de Nelson Évora. “Ele só falava francês e eu só falava português, mas lá nos entendemos e ficámos amigos”, revela. “Ainda não falei com ele, mas trocámos logo mensagens, é mais fácil, afinal ele está no Japão…” revela, bem-disposto.

Menino muito competitivo

David e Nelson começaram a treinar na rua. “Chateávamos o meu pai e ele mandava-nos dar voltas ao quarteirão”, explica David. Mas Nelson adorava o desporto. “Ele jogava muito bem futebol, até foi prestar provas no Benfica e passou, andámos na natação e no judo. Ele era bom em tudo”, revela o amigo. “Ele é muito competitivo. Desafiávamo-nos, das corridas aos jogos de computador. Mas nunca nos zangámos”, explica.

O suporte da fé

Quando conheceu a família Ganço, Nelson cruzou-se com a fé Bahá’í, doutrina seguida por estes. “Os princípios básicos centram-se na prática de boas acções e na excelência do desempenho, associado ao conhecimento consciente da pessoa”, explica David. Esta fé considera Bahá'u'lláh como o novo enviado de Deus e seguem os seus ideais. “Sem dúvida que o desempenho de Nelson ilustra a sua fé, pois ele tenta sempre dar o seu melhor em tudo o que faz”, acrescenta o amigo. Na comunidade Bahá’í há orações e ensinamentos, mas não padres, igrejas, ou hierarquias religiosas, há um só Deus mas todas as religiões são válidas, pois os princípios são semelhantes.

“Acredita-se que a pessoa atinge o conhecimento por si própria, através das acções, e somos todos iguais”, explica David. Em vez de irem à missa, os Bahá’í[s] fazem encontros entre membros e em determinadas alturas praticam o jejum.

Uma vida de grandes saltos

Filho de pais cabo-verdianos, Nelson nasceu na Costa do Marfim, que deixou aos 6 anos, quando a família Évora se fixou em Portugal, mais concretamente em Odivelas, onde começou a treinar. Representou depois o Benfica, o FC Porto, tendo regressado à Luz.

Até 2002, data em que se naturalizou português, representou Cabo Verde, detendo ainda o recorde no salto em comprimento e o triplo salto daquele país.

Habitualmente treina-se no Estádio Universitário, no Jamor e na Sobreda da Caparica. No Inverno, usa um corredor do Estádio da Luz, sem caixa de areia ou qualquer outra facilidade, para evitar a chuva.

Já entrou na universidade, frequentando o curso de Marketing e Publicidade, na Escola Superior de Comunicação de Benfica. A família é muito unida e os pais, Paulo e Elida, encontram-se na Bélgica onde foram visitar outro dos seus filhos. A mãe é familiar da cantora Cesária Évora. Sempre fez muito sucesso entre as raparigas, mas as suas prioridades estão bem estabelecidas. “Agora ele só pensa no atletismo”, assegura David Ganço.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Nelson Évora, na imprensa





Não gosto deste título na capa e num artigo do jornal O Jogo.

Nelson Évora não ganhou uma medalha de ouro graças às suas convicções religiosas. Ganhou porque foi melhor que os adversários. Ganhou e deu uma alegria enorme a todos os portugueses.

A fé religiosa pode ajudar a moldar o carácter de uma pessoa; pode estimular o desenvolvimento espiritual de um ser humano; pode dar uma pessoa uma compreensão sobre o propósito da vida e o relacionamento com o Transcendente.

Mas dizer - ou sugerir - que se ganha uma medalha de ouro num Campeonato do Mundo de Atletismo devido a uma qualquer convicção religiosa é, sem dúvida, um disparate.

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ACTUALIZAÇÃO (29-Agosto-2007 23H41):
Aqui fica o texto publicado neste jornal:

Valeu a Fé Bahá’i

Nelson Évora é campeão do Mundo de triplo salto! Arrasou a concorrência em apenas três saltos, o melhor a 17,74 metros. Mesmo assim, o seu semblante manteve-se sereno. E foi sem grande euforia – ao menos aparente – que festejou o principal feito de uma carreira com mais de 10 anos….

Évora nasceu na Costa do Marfim em Abril de 1984. Filho de pais cabo-verdianos, rumou a Portugal em 1989. Tinha cinco anos. Todo o seu percurso desportivo foi feito em solo português. A naturalização? Obteve-a em Dezembro de 2001, pouco depois de Francis Obikwelu

O desporto sempre foi a sua paixão. Bem mais do que os livros. Na escola praticou de tudo um pouco, mas apaixonou-se pelo atletismo. Desde logo pelos saltos, parecia querer voar. Iniciou-se como tantos outros no desporto escolar e, imagine-se, no salto em altura!

Por sorte, o vizinho de cima, João Ganço – ainda hoje seu treinador - cedo percebeu a habilidade do rapaz para os saltos. Ganço fora o primeiro português a passar a fasquia dos dois metros no salto em altura, corria o ano de 1972. E antes de Nelson de lhe chegar às mãos como pupilo, havia acumulado a experiência de treinar o próprio filho, David, um ano mais velho do que o nosso campeão. Entre as dúvidas típicas da tenra idade, o técnico começou por convencer Évora a dedicar-se aos saltos horizontais -comprimento e triplo – e que bela aposta se revelou o conselho.

A ligação de ambos é forte. Tão forte que o atleta tem resistido aos inúmeros convites de universidades norte-americanas, sempre ávidas em contratar os melhores atletas jovens que brilham pelo Mundo. Mas Évora tem recusado todos os convites. Pensa, e com legítimas razões, reunir por cá condições para se preparar para as mais ambiciosas metas…

Évora espelho da religião da... Unidade

A fé faz parte do dia-a-dia deste pacato jovem lisboeta. Hoje benfiquista, Nelson foi campeão europeu de juniores pelo FC Porto em 2003. A dedicação ao treino tem sido exemplar e saídas à noite não constam dos seus roteiros - a não ser em férias. E, embora não tão brilhante como a desportiva, nem a carreira académica saiu descurada: foi admitido num curso superior de marketing que pensa exercer quando deixar a alta competição.

Na religião, Évora e Ganço seguem as leis de uma religião chamada Fé Bahá'í, regida pela Unidade. Ensina que a Terra é um só país e a Humanidade os seus cidadãos. Sobre a importância da religião não sua carreira Évora diz: “A religião ajuda-nos no equilíbrio do nosso interior e a sabermos enfrentar a realidade. E a olhar mais para as coisas positivas do que negativas”. Mais palavras para quê?…

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Medalha de Ouro!!!

Nélson Évora campeão do mundo do triplo-salto



O atleta português Nélson Évora sagrou-se hoje campeão do mundo no triplo salto, nos Campeonatos do Mundo de Osaca, no Japão. Com esta marca, Nélson Évora bateu o recorde nacional da modalidade, acrescentando 23 centímetros à sua antiga melhor marca.

Depois de ter saltado para a liderança do concurso logo na primeira tentativa, com 17,44 metros, Évora fez um salto nulo, antes de chegar ao ensaio que lhe deu a medalha de ouro nos campeonatos. Com a liderança assegurada, o atleta português abdicou do quarto salto, fez um nulo na quinta tentativa e, já com o título mundial conquistado, fez mais um excelente último salto, com 17,39 metros (quarto melhor do concurso).

Com um salto de 17,74 metros no terceiro ensaio, Évora, 23 anos, ultrapassou o brasileiro Jadel Gregorio (17,59 metros) e o norte-americano Walter Davis (17,33 metros), antigo detentor do título.

Percurso de Nélson Évora

Nascido na Costa do Marfim a 20 de Abril de 1984, filho de cabo-verdianos, Nelson Évora veio viver para Portugal aos seis anos de idade e começou logo a ser notado nos escalões jovens do atletismo. Em 1999, aos 15 anos, já saltava 14,35m no triplo; progrediu de forma sensível nos anos imediatos e, em 2002, esteve presente nos Mundiais de juniores, não se apurando para a final no comprimento e acabando sexto no triplo, esta já uma classificação promissora.

No seu último ano como júnior, em 2003, sagra-se campeão europeu tanto no comprimento como no triplo, reeditando de forma ampliada o feito do barreirista Carlos Silva anos antes, ao tornar-se pioneiro a vencer por Portugal fora do sector do meio fundo e fundo. Os seus recordes pessoais chegaram, nesse ano, a 7,83m e 16,43m no triplo e bastante se especulou sobre qual seria a melhor disciplina para se focalizar no futuro. No ano olímpico imediato esteve em Atenas no triplo salto, mas não se conseguiu qualificar para a final. Tinha, no início do ano, progredido largamente, com 16,85m em pista coberta em Moscovo, mas uma lesão subsequente dissipou-lhe boa parte da temporada ao ar livre.

Foi ganhar experiência para 2005, quando obteve mínimos para os que seriam os primeiros Mundiais absolutos, em Helsínquia. Também não pôde passar da qualificação do triplo, mas bem mais acima, com o 14.º melhor salto contra o 40.º lugar na capital grega. Aproximou-se dos 17 metros (16,89m) e precisou a sua opção preferencial pelo triplo, tomada em acordo com o seu técnico João Ganço, um antigo saltador em altura de classe nacional.

Em 2006 bateu pela primeira vez a barreira dos 17 metros, com 17,19m em pista coberta em Janeiro, em Moscovo, e o segundo máximo nacional da época fê-lo na qualificação dos Europeus de Gotemburgo, o que significou um salto em frente qualitativo face às qualificações anteriores nos maiores eventos. Na final seria quarto, com 17,07m, atrás do sueco Olosson, do britânico Douglas e do romeno Oprea.

Já em 2007 foi quinto nos Europeus de Birmingham em pista coberta e, na entrada para a temporada de ar livre, rapidamente entrou numa rota de progresso. Competiu na Liga Dourada em Oslo, Paris e Roma, e na segunda daquelas provas, a 6 de Julho, melhorou o seu recorde nacional para 17,28m.

De permeio, a 24 de Junho, tinha feito 17,35m com vento um pouco acima do limite na Taça da Europa de Milão e nessa ocasião também bateu no comprimento, com um recorde pessoal de 8,10m, o campeão europeu dessa disciplina, o italiano Andrew Howe, confirmando-se como um dos melhores de sempre na soma das duas especialidades. Antes, na terceira ronda da Liga Dourada, em Roma, esteve pior (16,52m) de resto como todos os outros, mas em Madrid encontrou as condições ideais para os 17,51m do novo máximo. Recorde que hoje caiu em Osaca, onde Nelson Évora atingiu o ponto mais alto da sua carreira: saltou 17,74m e conquistou a medalha de ouro.

(texto de Luís Lopes, jornal Público)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Nelson Évora



Excerto de uma entrevista de Nelson Évora, ao DN-Sport, publicada na semana passada.

(...)

É possível ser atleta de alta competição e sair à noite?

Impossível. Porque a noite perdida corresponde a uma semana de recuperação. Um atleta não pode fazer noitadas, tem de descansar. Sei que quando recupero bem posso fazer bons resultados. Saídas à noite só quando estou de férias.

Como passa os tempos livres?

Estar com amigos. Conviver. Passear. Ir ao cinema.

Costuma ler jornais?

Jornais desportivos. Também leio o Diário de Notícias, por causa do meu pai, que é um leitor fiel. Não leio todos os dias, mas quando tenho tempo... convém estar informado.

Navega muito na Net?

Procuro ver os sites de atletismo, os rankings, as competições, mas gosto de procurar informação geral, vídeos, música.

Qual o papel da religião na sua vida?

A religião faz-nos enfrentar a vida e ver para além do quotidiano, dos bens materiais. A religião ajuda-nos também no equilíbrio do nosso interior e a sabermos enfrentar a realidade. E a olhar mais para as coisas positivas do que negativas.

É católico?

Eu e o meu treinador seguimos a fé Bahá’í, uma religião independente e monoteísta, fundada por Bahá’u’lláh. Tem as suas próprias Escrituras Sagradas, no entanto aceita e reconhece outros livros sagrados como a Bíblia e o Alcorão.

Pode aprofundar um pouco mais os princípios da sua religião?

O tema principal é a Unidade. Ensina que a terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos. Os seus princípios baseiam-se em: um só Deus; existe apenas uma religião, eterna e em progressiva evolução; cada indivíduo tem a liberdade e a responsabilidade de pesquisar a verdade; eliminação de preconceitos como raça ou classe; igualdade entre homens e mulheres; a instrução universal e a aquisição de uma língua universal; o estabelecimento de um sistema federal baseado na segurança colectiva; reconhecimento que a religião está em harmonia com a razão e o conhecimento científico.

terça-feira, 17 de agosto de 2004

Boa sorte, Campeão!



Nelson Évora, especialista no triplo salto, integra a comitiva portuguesa aos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. Mais detalhes no BWNS.