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sábado, 25 de janeiro de 2020

Os Acordos de Paris, a Unidade Mundial e os Ensinamentos Bahá’ís

Por David Langness.


Em 2015 aconteceu algo completamente novo: as nações da Terra reuniram-se para assinar um tratado destinado a proteger os bens comuns ambientais.

O que significa isso? Os “bens comuns”, tal como a comunidade internacional das nações o define, são os recursos naturais, culturais e ambientais disponíveis para toda a gente. Os bens comuns incluem os mares, o ar, a água, os solos, a vida vegetal e animal, a nossa herança intelectual e cultural, e por fim, este planeta habitável que não é propriedade de ninguém – mas que é partilhado por todos.

A expressão vem da Roma antiga, onde a res communis designava as coisas que pertenciam a todos e todos podiam usufruir. A palavra relacionada comunidade implica uma propriedade partilhada.

O Acordo Climático de Paris, assinado pelos países do mundo em 2015, representa a primeira tentativa global para preservar e proteger os bens comuns do planeta.

O acordo histórico - que nunca tinha ocorrido na história da humanidade – assinalou não só um feito único, mas também uma notável mudança de paradigma na nossa consciência planetária. Reconhecemos unanimemente que os bens comuns da nossa terra pertencem a todos e que beneficiam a todos. Reconhecemos, ainda, a unidade essencial do planeta. Tal como dizem os ensinamentos Bahá’ís:
... tentemos com coração e alma que a unidade permaneça no mundo, que todos os povos se tornem um só povo, e que toda a superfície da terra seja como um só país, pois o Sol da Verdade brilha igualmente para todos.

Todos os Profetas de Deus vieram por amor a este grande propósito. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 171)
A Casa Universal de Justiça – o corpo dirigente internacional da Fé Bahá’í – reconheceu o tremendo significado deste tratado ambiental mundial sem precedentes na sua carta de Novembro de 2017, sobre alterações climáticas:
Um fenómeno complexo com as alterações climáticas não pode ser reduzido a propostas simples ou directivas políticas simplistas. Mesmo quando existe um acordo relativamente aos factos fundamentais, pode existir uma diversidade de opiniões sobre o que fazer em relação a esses factos, e o problema agrava-se quando existe incerteza ou quando os factos básicos são contestados por motivos partidários. Mas apesar de poder existir uma componente localizada e fortemente política na discussão pública, o mais notável é que num momento em que as nações têm dificuldade em chegar a acordo em tantos assuntos importantes, os governos de praticamente todos os países da terra cegaram a um consenso político num modelo comum – o acordo de Paris – para responder às alterações climáticas de uma forma que se antevê venha a evoluir ao longo do tempo com o acumular de experiência.

Há mais de um século, ‘Abdu’l-Bahá referiu a “unidade de pensamento no mundo dos empreendimentos, cuja consumação será testemunhada em breve”. O acordo internacional sobre alterações climáticas recentemente adoptado, independentemente das falhas ou limitações que possa ter, apresenta mais uma demonstração notável do desenvolvimento antevisto por ‘Abdu’l-Bahá.

O acordo representa um ponto de partida para pensamento e acção construtivas que pode ser aperfeiçoado ou revisto ao longo do tempo, com base na experiência ou novas descobertas. Apesar dos Bahá’ís seguirem o princípio fundamental de não envolvimento em assuntos político-partidários, isto não pode ser interpretado como uma forma de impedir que [os Bahá’ís] tenham uma participação plena e activa na busca de soluções para os problemas urgentes que afectam a humanidade.

Considerando que a questão das alterações climáticas suscita preocupações sociais, económicas e ambientais em todo o mundo, os Bahá’ís interessados, as instituições e organismos Bahá’ís abordaram-na com naturalidade, seja a nível local, nacional ou internacional. No entanto, isso não significa que as conclusões sobre as descobertas científicas sobre alterações climáticas relacionadas com essas iniciativas devam ser entendidas ou apresentadas com matérias de convicção ou obrigação religiosa. Diferentes Bahá’ís, devido às suas diferentes origens, entendem as ideias sobre ciência e alterações climáticas de formas diferentes e sentem-se impelidos a agir de forma diferente, e não estão obrigados a qualquer uniformidade de pensamento nesses assuntos. (A Casa Universal de Justiça, 29 Novembro 2017, a um grupo de Bahá’ís)
Esta abordagem flexível e aberta ao assunto não exige que os Bahá’is que adoptem uma “linha partidária” sobre o tema das alterações climáticas. No entanto, pede que todos considerem seriamente como “alcançar unidade de pensamento e acção”:
Sempre que os Bahá’ís participam em actividades relacionadas com este tópico na sociedade em geral, podem ajudar a contribuir para um processo construtivo elevando a conversa acima das preocupações partidárias e interesses próprios, e a esforçarem-se para conseguir alcançar unidade de pensamento e acção. Vários conceitos Bahá’ís podem inspirar estes esforços: uma carta da Casa de Justiça datada de 01 de Março de 2017, por exemplo, aborda as questões morais do consumo e do materialismo excessivo que estão associados à exploração e degradação do ambiente. Ao início existirão, sem dúvida, muitas áreas onde o esforço para abordar a questão das alterações climáticas antropogénicas correspondem às abordagens amplamente aceites para melhorar o ambiente. As áreas de colaboração com outros podem expandir-se à medida que a experiência e a aprendizagem se desenvolvem. (Idem)
Finalmente, a Casa Universal de Justiça salienta que as alterações climáticas estão intimamente ligadas à questão do “consumo e do materialismo excessivo”. A forma como usamos os recursos da Terra determina se o planeta pode sustentar o nosso consumo a longo prazo. Aqui a Casa de Justiça faz uma sugestão simples e fácil de implementar: todos podemos, independentemente das nossas ideias sobre alterações climáticas, começar por abordar o assunto tomando iniciativas para melhorar o ambiente natural.

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Texto original: The Paris Climate Accords, World Unity and the Baha’i Teachings (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Combater alterações climáticas com ciência e religião

Por David Langness.


Os Bahá'ís confiam na ciência. A religião sem ciência – dizem os ensinamentos Bahá'ís – não passa de superstição:
Se a religião não estiver de acordo com a ciência, então é superstição e ignorância, pois Deus dotou o homem com a razão para que ele compreendesse a realidade. As bases da religião são racionais. Deus criou-nos com inteligência para que as compreendêssemos. Se elas se opõem à ciência e à razão, como poderemos acreditar nelas e segui-las? ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 128)
Este princípio Bahá'í de entendimento entre a ciência e a religião significa que os Bahá'ís devem conciliar os ensinamentos espirituais da sua Fé com realidades científicas, nomeadamente as alterações climáticas.

Sabemos que a atmosfera da terra e os seus oceanos estão a aquecer, e a grande maioria dos cientistas concorda que esse aquecimento é causado pela actividade humana. Para proteger a Terra – e a humanidade – das consequências, temos de conseguir harmonizar e conciliar a perspectiva científica com a perspectiva espiritual. E como qualquer estudante de história sabe, isto nem sempre é fácil.

Numa carta sobre alterações climáticas, dirigida a um grupo de Bahá'ís, em Novembro de 2017, a Casa Universal de Justiça, através do seu secretariado, referiu a importância da ciência para todos os Bahá'ís e seres humanos:
Entre os ensinamentos Bahá'ís estão aqueles que referem a importância da ciência. “Grande, em verdade, é o mérito dos cientistas … nos povos do mundo”, observou Bahá'u'lláh. 'Abdu'l-Bahá escreveu que as “ciências de hoje são pontes para a realidade” e repetidamente enfatizava que “a religião deve estar em conformidade com a ciência e a razão”. Significativamente, numa ocasião em que colocaram uma questão científica a Shoghi Effendi, ele respondeu numa carta escrita em seu nome que “nós somos uma religião e não estamos qualificados para abordar assuntos científicos.” E em resposta a temas científicos levantados em várias ocasiões, ele advertia consistentemente os Bahá'ís de que esses assuntos deviam ser investigados por cientistas.

A investigação científica sobre os contributos humanos para o aquecimento global desenvolveu-se gradualmente ao longo de um século de investigação, e mais recentemente, sob intenso escrutínio. Apesar de existirem diferentes perspectivas entre cientistas individuais, existe actualmente um grau notável de consenso entre os especialistas em áreas relevantes sobre as causas e os impactos das alterações climáticas. Resultados científicos sólidos obtidos com o uso de métodos científicos credíveis, produziram conhecimento sobre o qual podemos agir; posteriormente, os resultados da acção deve ser sujeitos a novas investigações científicas e comparados com factos objectivos no mundo físico. No conjunto de temas em debate – que incluem a dimensão da contribuição humana, a projecção de consequências futuras, e as possibilidades de resposta – alguns aspectos são, obviamente, menos fundamentados por descobertas científicas do que outros, e consequentemente, sujeitos a análises críticas adicionais. (A Casa Universal de Justiça, 29 de Novembro 2017, a um grupo de Bahá'ís)
“...existe actualmente um grau notável de consenso entre os especialistas em áreas relevantes sobre as causas e os impactos das alterações climáticas”, escreveu a Casa Universal de Justiça.

E a carta prossegue afirmando: “Resultados científicos sólidos obtidos com o uso de métodos científicos credíveis, produziram conhecimento sobre o qual podemos agir...”

Sabemos, portanto, que a ciência e o espírito humano podem e devem trabalhar juntos para evitar e prevenir os piores resultados nos nossos problemas ambientais. Como é que isto pode acontecer?

Os ensinamentos Bahá'ís recomendam uma abordagem coordenada, racional e cientificamente fundamentada para estes problemas. Além disso, os Bahá'ís acreditam que devemos desenvolver uma ampla consciência de cidadania mundial:
Ó povos e famílias em contenda na terra! Voltai as vossas faces para a unidade e deixai que o esplendor da sua luz brilhe sobre vós. Reuni-vos e, por amor de Deus, decidi-vos a erradicar tudo o que seja causa de contenda entre vós. Depois, o brilho do grande Luminar do mundo envolverá toda a terra e os seus habitantes tornar-se-ão uma única cidade e ocupantes de um único trono. (Bahá'u'lláh, Gleanings, CXI)
Por muito severas que sejam as suas políticas e leis ambientais, nenhuma nação pode resolver sozinha um problema global. Por definição, os problemas globais exigem soluções globais. Neste momento, todos nós – cidadãos do mundo – enfrentamos uma crise ambiental. As alterações climáticas ultrapassam as fronteiras nacionais. Independentemente da origem dos gases poluentes, todos nós partilhamos a mesma atmosfera. A ciência diz-nos que a temperatura da atmosfera está a subir e a atingir níveis insustentáveis. Então o que podemos fazer?

Os ensinamentos Bahá'ís dizem-nos que o melhor rumo de acção envolve a unidade – necessitamos de uma estratégia coordenada e global que defenda a população humana, regule a exploração e utilização dos recursos do planeta, e una a Terra como um único país. Sem esse princípio inspirador da unidade mundial, não teremos as ferramentas necessárias para salvar o nosso planeta:
A unidade do género humano, tal como Bahá'u'lláh anteviu, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, crenças e classes estejam estreita e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoal dos seus membros individuais, sejam garantidas de um modo definitivo e completo. Esta comunidade mundial deve, tanto quanto podemos antecipar, incluir uma legislatura mundial, cujos membros na qualidade de representantes de toda a espécie humana, controlarão todos os recursos das respectivas nações componentes e formularão as leis que forem necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e harmonizar as relações de todas as raças e povos entre si... Numa tal sociedade mundial, a ciência e a religião, as duas forças mais poderosas da vida humana, reconciliar-se-ão, cooperando e desenvolvendo-se harmoniosamente. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha'u'llah, pp. 203-204)

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Texto original: Combatting Climate Change with Science and Religion (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Procurar a harmonia entre a Sociedade e o Mundo Natural

Por David Langness.


Todos nós vivemos num planeta que nos sustenta, dizem os ensinamentos Bahá'ís, e no entanto, a própria Terra continua humilde:

Todo o homem de discernimento, ao caminhar sobre a terra, sente-se, de facto, envergonhado, na medida em que estiver plenamente consciente de que aquilo que é a fonte da sua prosperidade, da sua riqueza, do seu poderio, da sua exaltação, da sua evolução e autoridade. é – conforme decretado por Deus – a própria terra que é pisada pelos pés de todos os homens. Não pode haver dúvida de que quem conhece esta verdade, está purificado e santificado de todo o orgulho, arrogância e vanglória. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf,p. 44)

É difícil ser orgulhoso ou arrogante – parece dizer Bahá'u'lláh – quando reconhecemos que o simples pó sob os nossos pés nos dá tudo o que precisamos para viver e prosperar. Então, perguntam-nos os ensinamentos Bahá'ís, como podemos aspirar ao mesmo nível de humildade e serviço, e atingir a tão desejada harmonia entre a sociedade humana e o mundo natural?

A Casa Universal de Justiça, na sua carta de Novembro de 2017 sobre o tema das alterações climáticas, coloca esta importante questão de uma nova maneira:

Um dos problemas mais prementes da humanidade no século actual é a forma como uma população global, crescente, em desenvolvimento acelerado e unida, pode, de forma justa, viver em harmonia com o planeta e com os seus recursos finitos. Algumas realidades biológicas apresentam-se quando um organismo afecta negativamente ou excede a capacidade do seu ecossistema. A disponibilidade limitada e a distribuição desigual dos recursos impactam profundamente, e de muitas formas, as relações sociais no interior das nações e entre estas, ao ponto de precipitar convulsões e guerras. E os acordos particulares dos assuntos humanos podem ter consequências devastadoras para o ambiente. A questão do impacto das alterações climáticas, e a medida em que estas são provocadas pelo homem e os seus efeitos podem ser melhorados, é hoje o principal aspecto deste problema. A Revelação de Bahá’u’lláh alude, directa e indirectamente, a várias destas preocupações, numa forma que fala de uma harmonia entre a sociedade e o mundo natural. É essencial, portanto, que os Bahá’ís contribuam para o pensamento e acção em relação a estes assuntos. (A Casa Universal de Justiça, 29 Novembro 2017, a um grupo de Bahá'ís)

Este objectivo fantástico – “harmonia entre a sociedade e o mundo natural” – define um dos princípios essenciais dos ensinamentos Bahá'ís:

Para os Bahá'ís, o objectivo da existência é levar avante uma civilização em progresso constante. Essa civilização apenas pode ser construída numa Terra que se pode sustentar a si própria. O compromisso Bahá’í com a natureza é fundamental na nossa Fé. (Comunidade Internacional Baha'i, Outubro 1987, TheBaha'i Statement on Nature)

Mas como é que lá chegamos? Como é que criamos uma sociedade que vive em harmonia com o mundo natural, em vez de o poluir, envenenar e destruir?

As escrituras Bahá'ís sugerem que principiemos por espiritualizar a nossa vida interior:

Insuflai um novo sopro de vida no corpo desgastado e consumido do mundo, e nos sulcos de todas as regiões plantai a semente sagrada… No ponto de encontro da vida, sede uma vela que guia; nos céus deste mundo, sede estrelas deslumbrantes; nos jardins da unidade, sede aves do espírito cantando verdades e mistérios profundos. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of‘Abdu’l-Bahá, #218)

Seguidamente devemos reconhecer a ligação entre a realidade humana profunda – e começar a compreender como essa condição espiritual que todos vivenciamos tem uma influência e impacto enormes nas condições exteriores do mundo:

Não podemos segregar o coração humano do ambiente ao nosso redor e dizer que depois deste se transformar, tudo irá melhorar. O homem tem uma ligação orgânica com o mundo. A sua vida interior molda o ambiente e ele próprio é profundamente afectado por este. Cada um influencia o outro e todas as alterações permanentes na vida do homem são o resultado destas reacções mútuas. (de uma carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um Bahá’í individual)

E por fim, devemos fazer tudo o que for possível para conseguir construir a unidade mundial, o requisito fundamental de todos os esforços globais para salvar verdadeiramente o ambiente do nosso planeta:

Até àquele momento em que as nações do mundo compreendam e sigam os conselhos de Bahá'u'lláh para trabalhar juntas e com toda a sinceridade na busca dos melhores interesses da humanidade, e se unam na procura de caminhos e meios que respondam aos muitos problemas ambientais que cercam o nosso planeta, a Casa de Justiça sente que pouco progresso será feito em direcção à sua resolução… (A Casa Universal de Justiça, 18 Outubro 1981, a um Bahá'í individual)

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Texto original: Achieving Harmony between Society and the Natural World (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Como lidar com as Alterações Climáticas?

Por David Langness.


Recentemente, o corpo governante global da Fé Bahá'í respondeu aos Bahá'ís do mundo que tinham questões sobre alterações climáticas antropogénicas, i.e., provocadas pelo ser humano.

Essas respostas sobre um assunto que por vezes é controverso são um conselho não apenas para os Bahá'ís; elas permitem a qualquer pessoa obter uma perspectiva mais ampla e mais espiritual sobre as alterações climáticas e o que podemos fazer sobre isso.

A Casa Universal de Justiça, numa carta oficial escrita pelo seu secretariado, começou por dizer:
Estimados amigos Bahá'ís,

A Casa Universal de Justiça recebeu o vosso email de 21 de Junho de 2017 levantando questões sobre o envolvimento da comunidade Bahá'í na abordagem aos alterações climáticas antropogénicas. Haveis expressado as vossas opiniões sobre o discurso actual em torno das alterações climáticas, observando que existe pressão para aceitar uma posição extremada sobre as causas e os resultados catastróficos previstos das alterações climáticas, e apoiar políticas sociais e económicas relacionadas. Também haveis partilhado a vossa percepção de que alguns Bahá'ís tomaram uma posição fortemente alinhada com essa posição extremada, promovendo os seus argumentos, suprimindo os pontos de vista de outros crentes e, como resultado, vocês temem que isto possa elevar a necessidade de agir sobre esta matéria ao nível de um princípio religioso, e envolva a comunidade num debate político-partidário. Foi-nos pedido que vos transmitíssemos o seguinte.

A Casa de Justiça aprecia o vosso pedido de clarificação em assuntos que são fonte de preocupação para vós. E aproveita a oportunidade não só para abordar o tema das alterações climáticas em si, mas também, num sentido mais amplo, para clarificar certas ideias sobre a forma como os Bahá'ís devem entender e contribuir para a melhoria do mundo.

A vossa carta reflecte uma profunda preocupação sobre os limites práticos do conhecimento científico, as suas implicações nas políticas públicas, e a sua possível deturpação numa tese de advertência sobre alterações climáticas catastróficas antropogénicas, que consideram ser extremada, política e injustificada pelos factos. Apesar de não o mencionarem, estais certamente cientes que o vosso cepticismo ponderado está amplamente ofuscado no debate público por outra perspectiva a extremada, promovida por interesses políticos e adquiridos, que vão ao ponto de negar as alterações climáticas e desconsiderar ou confrontar descobertas científicas relevantes. (A Casa Universal de Justiça , 29 Novembro 2017, a um grupo de Bahá'ís)
Aqui a Casa Universal de Justiça descreve claramente que a negação da ciência das alterações climáticas é uma “perspectiva extremada” “promovida por interesses políticos e adquiridos”.

Esta posição acompanha a esmagadora maioria dos cientistas de clima do mundo, que concordam que o aquecimento global está a acontecer e que é provocado pela actividade humana.

O Quinto Relatório de Avaliação (AR5) do IPCC (Painel Inter-governamental sobre Alterações Climáticas), redigido por centenas de especialistas climáticos e cientistas dos países membros da Organização Meteorológica Mundial e do Programa Ambiental das Nações Unidas (a agência ambiental da ONU), e ainda uma equipa de revisores externos, afirma:
A influência humana no sistema climático é clara, e as recentes emissões antropogénicas de gases de efeito de estufa são as maiores na história. (...) O aquecimento do clima é inequívoco, e desde 1950, muitas das alterações verificadas não têm precedentes em décadas ou milénios.

As emissões contínuas de gases de efeito de estufa causarão maior aquecimento e mudanças mais duradouras em todas as componentes do sistema climático, aumentando a probabilidade de impactos severos, globais e irreversíveis nas pessoas e nos ecossistemas.
Hoje, nenhum corpo científico credível no mundo defende uma opinião diferente, e nenhum corpo científico organizado de cientistas nacionais ou internacionais rejeita as descobertas sobre efeitos induzidos pelos humanos nas alterações climáticas. Este tipo de unanimidade científica é raro, a aponta para um consenso esmagador sobre o assunto entre os cientistas de todo o mundo.

Assim, esta análise de Casa de Justiça - obviamente alicerçada no princípio básico Bahá'í de harmonia entre ciência e religião - está de acordo com o conhecimento científico prevalecente:
É impossível uma religião ser contrária à ciência, apesar de alguns intelectos serem demasiado fracos ou imaturos para compreender a verdade.

Deus fez da religião e da ciência uma medida da nossa compreensão, por assim dizer. Acautelai-vos para não negligenciar um tão maravilhoso poder. Avaliai todas as coisas nesta balança. (…)

Colocai todas as vossas crenças em harmonia com a ciência; não pode haver oposição, pois a verdade é uma. Quando a religião, livre das suas superstições, tradições e dogmas pouco inteligentes, mostra conformidade com a ciência, então haverá uma grande força unificadora e purificadora no mundo que varrerá todas as guerras, desentendimentos, discórdias e lutas – e então a humanidade estará unida com o poder do Amor de Deus. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp. 145-146)

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Texto original: Religious or Spiritual: How Do You Deal with Climate Change? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 28 de dezembro de 2019

3 Atitudes Bahá'ís em relação ao Aquecimento Global

Por David Langness.


Que papel pode uma religião desempenhar na abordagem aos principais temas sociais da actualidade – incluindo os desafios ambientais globais das alterações climáticas?

Algumas pessoas diriam que a religião e as políticas sociais e governamentais não têm qualquer relação entre si – mas a religião ensina verdades morais e espirituais, e todos os crentes têm a obrigação de agir de acordo com essas verdades. Os ensinamentos Bahá'ís deixam esses princípios bem claro:
Felizes aqueles que agem; felizes aqueles que compreendem; feliz o homem que se agarrou à verdade, se desprendeu de tudo o que está nos céus e tudo o que está na terra. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 138)

Ó bem-amados! O tabernáculo da unidade for erguido; não vos considereis uns aos outros como estranhos. Sois frutos de uma só árvore e folhas de um só ramo. Nutrimos a esperança de que a luz da justiça possa brilhar sobre o mundo e santificá-lo da tirania. (Bahá'u'lláh, Gleanings from the Writings of Baha'u'llah, p. 218)
Na verdade, há muito tempo que a religião tem um importante papel na mudança social. Ao abordar temas como a guerra, a pobreza e os direitos humanos, praticamente todas as religiões mostraram a sua influência, levando os crentes a seguir os ensinamentos dos seus fundadores e a aplicar os princípios espirituais às preocupações políticas correntes.

Cristo, por exemplo, pediu aos Seus seguidores que dessem uma atenção especial aos pobres e aos necessitados – e o Cristianismo dá um ênfase especial exactamente a isso, com milhares de igrejas e crentes a trabalhar para aliviar o sofrimento de inúmeros pobres e sem-abrigo, e também a atacar as raízes da pobreza.

No entanto, as preocupações com a pobreza, a guerra e a liberdade existem há séculos. Sabemos, através de qualquer religião, que temos uma responsabilidade, não só para com as outras pessoas, mas também perante Deus para fazer o nosso melhor para aliviar essas preocupações. Todas as verdadeiras religiões advogam a generosidade, a preocupação com os outros, a compaixão para com outros seres humanos; por isso, parece natural e certo responder de forma positiva a esses problemas.

Então e os novos problemas, aqueles que nos surgiram durante o período mais recente da história? O que dizer sobre as lutas laborais, a clonagem ou os direitos reprodutivos? E o que dizer sobre temas ambientais, em especial as alterações climáticas?

Alguns grupos religiosos decidiram abordar o tema das alterações climáticas aplicando de forma geral os ensinamentos antigos e básicos da sua fé – amor ao próximo, preocupação com o bem-estar da humanidade como um todo, e cuidando da natureza que nos foi confiada por Deus. Por outro lado, alguns grupos religiosos opõem-se veementemente à ciência usada no estudo das alterações climáticas, considerando-a um embuste e pressionado os seus representantes eleitos em diversos países para que a ignorem.

Esta resposta dividida e drasticamente polarizada, frequentemente mais motivada por interesses políticos do que religiosos, tem dividido famílias e religiões.

A Fé Bahá'í, pelo seu lado, possui um mecanismo próprio para lidar de forma construtiva e espiritual com este tipo de assuntos recentes. Esta estrutura com origem divina impede cismas e divisões, defende a unidade a que os ensinamentos Bahá'ís apelam em todos esforços humanos e religiosos, e enfatiza os princípios profundamente espirituais que Bahá'u'lláh trouxe. Três desses importantes princípios estão directamente relacionados com o tema das alterações climáticas.

Primeiro, os ensinamentos Bahá'ís apelam à concordância entre ciência e religião:
Toda a religião que não esteja de acordo com a ciência estabelecida é superstição. A religião deve ser racional. Se não está de acordo com a razão, é superstição e não tem fundamentos. É como uma miragem que engana o homem ao guiá-lo para o que ele pensa ser um lençol de água. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 63)
Segundo, os ensinamentos Bahá'ís enaltecem os cientistas e elogiam o seu importante trabalho:
O mais alto louvor é devido aos homens que dedicam as suas energias à ciência, e o mais nobre centro é um meio onde se ensinam e estudam ciências e artes. A ciência tende sempre para iluminação do mundo da humanidade. É a causa da honra eterna do homem, e a sua soberania é muito maior que a soberania dos Reis. O domínio dos Reis tem um fim; o próprio rei pode ser destronado; mas a soberania da ciência é eterna e não tem fim. (Idem, p. 348)
Terceiro, a Fé Bahá'í possui um sistema administrativo que proporciona orientação contínua e actual sobre assuntos emergentes: um corpo eleito democraticamente a nível global, chamado Casa Universal de Justiça. Quando assunto que não é abordado nas Escrituras Bahá'ís – os textos do fundador da Fé, Bahá'u'lláh; do Centro da Aliança, 'Abdu'l-Bahá; e do Guardião, Shoghi Effendi – a Casa Universal de Justiça consultar sobre o mesmo, legislando e aplicando a lei entre os Bahá'ís.

Recentemente, em Novembro de 2017, a Casa Universal de Justiça, através do seu Secretariado, escreveu uma longa de pormenorizada carta sobre o tema das alterações climáticas. Nesta série de artigos vamos ver essa carta, ponto por ponto, explorar as suas ramificações, especialmente no que toca à questão do papel das religiões na redução das alterações climáticas.

Utilizado a guia da Casa Universal de Justiça e aplicando os ensinamentos Bahá'ís, podemos conceber uma nova abordagem aos problemas ambientais mundiais.

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Texto original: 3 Ways Baha'is Deal with Global Warming (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Bezerros, Hambúrgueres e Incêndios na Amazónia

Por David Langness.


Na semana passada comi um hambúrguer num restaurante fast-food. Isto pode parecer completamente trivial e irrelevante, mas há 40 anos que não comia um hambúrguer. E explico porquê.

Deixei de comer carne vermelha quando tinha 20 anos, por dois motivos. Primeiro, quando eu era criança convivia com gado e gostava de vacas. Cresci numa comunidade agrícola e apesar da minha família não criar gado, muitas outras faziam-no. Uma amiga minha criou um bezerro para um projecto de uma organização juvenil. Eu conhecia aquele bezerro; chamava-se “Decaf” (...)

O Decaf gostava de correr e saltar no prado, lambia a mão da minha amiga quando ela o alimentava e a dava-nos empurrões quando lhe fazíamos festas naquele pêlo espesso. O Decaf tinha olhos castanhos grandes e expressivos, e a minha amiga dizia que gostava de ter umas pestanas iguais. Aquele pequeno bezerro parecia ter uma personalidade amigável. Um dia, depois do Decaf ter sido vendido num leilão de gado, comi um bife e tive a sensação terrível de que poderia estar a comer aquele mesmo animal.

O segundo motivo baseia-se nos ensinamentos Bahá'ís, onde se descreve a resposta de ‘Abdu’l-Bahá à pergunta: “Qual será a alimentação do futuro?”
Frutas e cereais. Virá o tempo em que já não se comerá carne. A ciência está ainda na sua infância, mas já demonstrou que a nossa dieta natural é aquilo que nasce do solo. As pessoas desenvolver-se-ão gradualmente até à condição desta alimentação natural. (‘Abdu’l-Bahá, citado por Julia M. Grundy em Ten Days in the Light of Akka, pag. 8-9)
Isto pareceu-me sensato. E ao recordar-me da minha amizade de infância com o bezerro Decaf, decidi deixar de comer carne. Durante quatro décadas, mantive-me fiel a essa decisão. Mas que fique claro: não estou com isto a afirmar qualquer espécie de superioridade moral. Quando tomei a minha decisão, isso nada teve a ver com o bem-estar do mundo. Não tinha qualquer conhecimento sobre alterações climáticas e via a minha decisão como plenamente pessoal, ditada apenas pelos meus sentimentos e pela minha Fé.

Mas voltemos ao hambúrguer. Uma rede de restaurantes fast-food nos Estados Unidos começou recentemente a publicitar um novo hambúrguer com uma espécie de carne baseada em vegetais, e eu decido experimentá-lo. Supostamente, afirmava a publicidade, tinha um sabor igual à carne, mas não tinha ingredientes animais. E para minha surpresa, tinha o mesmo sabor que os hambúrgueres que eu comia em criança: deliciosos! E, no entanto, nenhum Decaf sofreu para fazer este hambúrguer. Era uma dupla vitória para mim e para o bezerro. Comi aquele hambúrguer com prazer. E com mostarda também.

Tudo isto poderia parecer disparatado e inconsequente, mas ao ler as notícias sobre os incêndios devastadores na Amazónia – e dos fogos deliberadamente ateados noutros países do mundo como Angola e a República Democrática do Congo – lembrei-me de uma coisa. Tipicamente, estes incêndios trágicos representam a destruição de uma floresta densa e a sua substituição por pastagens lucrativas para criação de gado, forçando a deslocação de populações indígenas e suas culturas, e também privando-nos gradualmente a todos do bioma que precisamos para viver. O carbono libertado na atmosfera por estes incêndios retém o calor do sol, tornando o ar mais quente, favorecendo mais incêndios, criando assim um tremendo ciclo vicioso.

No fundo, estamos a trocar o clima da Terra, a nossa atmosfera e o futuro da humanidade por hambúrgueres fast-food - feitos de carne de gado criado em pastagens onde antes existiam florestas tropicais, que se tornaram a principal fonte da carne vendida nas redes de fast-food nos países desenvolvidos.

Se pensarmos nisto, percebemos que é uma troca prejudicial.

Os especialistas em ciência climática identificaram a melhor coisa que podemos potencialmente fazer para evitar as piores consequências das alterações climáticas: mudar os nossos hábitos alimentares. Se todos nos alimentarmos nos níveis mais baixos da cadeia alimentar – o que significa adoptar uma alimentação essencialmente à base de vegetais, em vez de uma alimentação baseada no consumo diário de carne – podemos colectivamente ajudar a diminuir a quantidade de carbono na atmosfera, e salvar florestas e selvas que são sacrificadas devido ao nosso apetite voraz por hambúrgueres. Além, também disso ficaremos mais saudáveis, tal como ficarão mais felizes as criaturas como o Decaf.

Pensar nesta simples equação, ler e ver mais notícias sobre este assunto levaram-me a reflectir sobre a rapidez com que condenamos os outros pelos problemas do mundo. Quando acontecem tragédias globais, como os incêndios da Amazónia, tipicamente procuramos um alvo para culpar, apontando dedos acusadores na comunicação social e nas redes sociais, e criticamos fortemente essa pessoa, político, país ou empresa. Penso que se começarmos por olhar mais para nós próprios, poderemos chegar mais perto da raiz do problema:
Ó filho do homem! Se os teus olhos estão voltados para a misericórdia, renuncia às coisas que te são vantajosas, e segura-te àquilo que beneficia a humanidade. E se os teus olhos estão voltados para a justiça, escolhe para os teus próximos aquilo que escolhes para ti próprio. (Bahá’u’lláh, Epistle to the Son of the Wolf, pp. 29-30)
Assim, se o leitor está preocupado com os fogos que devastam as florestas do mundo e as consequências que terão posteriormente na humanidade e no planeta, siga o conselho de Bahá'u'lláh e segure-se “àquilo que beneficia a humanidade”.

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Texto original: Cows, Burgers, and the Fires in the Amazon (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que eu aprendi com o furação Irma

Por Rebecca Sherry Eshraghi.


Vivo na Flórida, exactamente no trajecto de destruição do furacão Irma. Por sorte, a minha família e eu saímos a tempo.

O Irma causou uma tremenda devastação na Flórida e nas ilhas das Caraíbas, por isso sinto-me abençoada por ter conseguido sair antes que a tempestade chegasse, e porque a nossa casa sofreu estragos mínimos. Claro que fiquei extremamente preocupada com todos aqueles que não puderam partir.

Vocês aperceberam-se? Aparentemente está a ocorrer um aumento de desastres naturais em todo o mundo. Há quem defenda que sempre foi assim, e há outros que dizem que aumentaram em frequência e intensidade. Eu costumo concordar com estes últimos.

Por isso, pergunto-me a mim e aos outros: porquê? Quem têm uma visão científica geralmente acredita que é devido às alterações climáticas, e quem tem uma visão mais religiosa diz que é profecia e ira de Deus. E há ainda quem diga, simplesmente, que é assim que a natureza funciona. Como Bahá’í, eu sou religiosa - mas, como todos os Bahá’ís, também acredito fortemente na ciência e tento encontrar as ligações entre os dois em relação aos desastres naturais.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a natureza é governada por uma lei universal, e que a religião e a ciência concordam nas suas verdades essenciais:
... a natureza está sujeita a uma sólida organização, a leis invioláveis, a uma ordem impecável e a uma concepção perfeita, das quais nunca se afasta. Até certo ponto, é verdade que se a contemplasses com olhos da percepção e do discernimento, observarias que todas as coisas - desde o menor átomo invisível até aos maiores globos do mundo da existência, tais como o sol ou outras grandes estrelas e corpos luminosos - estão perfeitamente organizadas, no que diz respeito à sua ordem, à sua composição, à sua forma exterior ou ao seu movimento, e que todas estão sujeitas a uma lei universal da qual nunca se afastarão. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 3)
Assim, a natureza tem uma ordem - mas não tem consciência, nem livre vontade - e reage à manipulação de forças externas. Nós, os seres humanos, somos parte da natureza; mas porque temos consciência, intelecto e espírito, acreditamos que estamos acima da natureza, principalmente porque conseguimos influenciar a natureza em grande parte para nosso favor.

Há vários anos que tenho estado a estudar microbiota com fascínio. A microbiota humana é o nosso ecossistema interno, especialmente no nosso intestino, o sistema digestivo. As evidências científicas mostram que os biliões de micróbios que residem nos nossos corpos podem influenciar a nossa saúde intestinal, afectando os nossos riscos de obesidade, diabetes, saúde do cólon, sistema imunitário, causando cancro e outras coisas. Manipular esse mundo microbiano invisível dentro de nós afecta muitas partes do nosso corpo e o corpo como um todo - até pode afectar a nossa função cerebral. O facto de pequenos micróbios invisíveis que residem dentro de nós poderem ser tão poderosos recorda-me o que ‘Abdu’l-Bahá explicou, de que existe uma ordem desde o micromundo dos átomos até ao macromundo dos planetas.

Se retirarmos um electrão do átomo ou adicionarmos um protão, criamos um novo átomo. Essa manipulação também se aplica ao macromundo.

Se temos uma poluição maciça numa parte do mundo, exploração excessiva de petróleo noutra parte do mundo, consumismo e materialismo extremo que causa lixo supérfluo, como equipamentos electrónicos usados, resíduos nucleares e outras coisas, então estamos a manipular e a devastar o nosso meio ambiente.

Quando visitei a Alemanha no verão passado, pude observar o esforço que a Alemanha faz para proteger o meio ambiente. Não sabia se devia ficar feliz ou triste, porque sabia que noutras partes do mundo não se faz 1% do esforço que a Alemanha faz na protecção do meio ambiente e senti que não era justo.

Agora, a questão: "O que é que a religião e a profecia têm a ver com isso?" Bem, enquanto há quem pense que os chamados " desastres naturais" são a ira de Deus, eu diria que são uma consequência de ignorar os mandamentos de Deus.

A Fé Bahá’í afirma que a ciência e a religião devem andar de mãos dadas. Apesar de termos feito um grande progresso científico no mundo e termos construído civilizações tecnologicamente avançadas, se a ciência for conduzida sem valores religiosos e morais, torna-se mais prejudicial do que útil. A ciência precisa ser conduzida sem o objectivo da ganância, com a mais alta integridade em relação aos resultados obtidos, para responder a todos e não apenas a alguns, com respeito pela natureza, e com a percepção de que somos parte da natureza e precisamos trabalhar com ela, e não contra ela.

Os Bahá’ís reconhecem que, em última análise, o mundo tem que se unir como um todo para resolver os graves problemas globais. Assim como os membros de um corpo não podem ser separados, o mundo não deve ser considerado segregado - porque o que acontece numa parte do mundo afectará as outras partes. Se não respondermos a este apelo para nos unirmos num esforço humano colectivo, Bahá’u’lláh adverte-nos:
Ó povos do mundo! Saibam, em verdade, que uma calamidade imprevista vos persegue, e esse castigo severo vos aguarda. Não pensem que os actos que cometeram foram apagados da Minha vista. (SEB, CIV)

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Texto original: What Hurricane Irma Taught Me (www.bahaiteachings.org)

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Rebecca Sherry Eshraghi é uma Bahá'í que vive na Flórida. É casada e tem dois filhos. Cresceu na Alemanha num ambiente multicultural, onde obteve o seu diploma em Negócios Internacionais. Recentemente concluiu o doutoramento em Medicina Natural.

domingo, 14 de agosto de 2016

Dilúvio e Cataclismo: o que acontece com a subida do nível do Mar?

Por David Langness.


Foi feita menção em certos livros sobre um dilúvio que fez com que tudo o que existia na terra, registos históricos assim como outras coisas, fosse destruído. Além disso, ocorreram muitos cataclismos que eliminaram os vestígios de muitos eventos. (Bahá’u’lláh, SEB, LXXXVII)

As mudanças climáticas antropogénicas não são inevitáveis; a humanidade escolhe as suas relações com o mundo natural. (The Baha’i International Community, Shared Vision and Shared Volition - Choosing Our Global Future, Statement to the Paris Climate Conference, December, 2015)
Todos conhecemos a história de Noé e do dilúvio. Originalmente surgiu na tradição judaico-cristã, certo?

Não. A conhecida história de Noé no Génesis apenas representa uma das muitas versões de uma antiga narrativa.

A maioria das religiões mundiais – e antigas civilizações – apresenta alguma variante do conhecido mito do dilúvio. Provavelmente iniciou-se na antiga região agrícola da Mesopotâmia, naquilo que os historiadores designam como o antigo período Babilónico, vinte séculos antes de Cristo, muito antes da revelação da Torá. Temos pelo menos nove versões do mito do dilúvio que precedem o de Noé; o primeiro é conhecido como o Dilúvio Sumério. A mais conhecida destas histórias – o Épico de Gilgamesh, a mais antiga obra literária da humanidade – data de 2100 a.C. Nessa história, o papel de Noé é desempenhado por um imortal chamado Utnapishtim, que significa “aquele que encontrou a vida”.

Assim, praticamente todas as culturas têm uma história sobre o dilúvio. Estes mitos do dilúvio vieram da Mesopotâmia, da mitologia grega, do Génesis (na Torá), da mitologia nórdica, de fontes Hindus na Índia, do Alcorão, e de muitos povos indígenas como os Maias e os grupos tribais Ojíbuas nas Américas. O que poderia ter inspirado essa história tão conhecida?

As gigantescas inundações que se seguiram ao último período glacial, que terminou há cerca de 10.000 anos, podem ser a fonte destes mitos culturais persistentes e muito difundidos. Durante esse período, o Homo Sapiens migrou do seu lar original em África, e começou a habitar as regiões quentes da Terra. Quando o último período glacial terminou e o mundo começou a aquecer, os glaciares que cobriam grande parte do Hemisfério Norte derreteram e recuaram.

Com a água do degelo dos glaciares formaram-se grandes mares interiores, muito maiores que o Lago Baikal (Rússia) ou os Grandes Lagos (EUA). O nível dos mares subiu rapidamente, inundando vastas áreas anteriormente secas e redesenhando as linhas costeiras. Podemos imaginar como as diversas culturas desenvolveram as suas histórias sobre o dilúvio se pensarmos nas inundações catastróficas criadas pelo degelo dos glaciares.

Os cientistas acreditam que a humanidade está prestes a enfrentar grandes inundações, recuo dos glaciares e aumento do nível dos mares, tudo causado pelo aquecimento da Terra resultante das alterações climáticas. E pensam que isto acontecerá muito mais rapidamente.

Na verdade, um novo estudo realizado por oito cientistas especializados em clima publicado na prestigiada revista Nature descobriu que as elevadas e continuadas emissões de gases de efeito de estufa podem provocar a desintegração das duas maiores camadas de gelo em algumas décadas, lançando água suficiente no oceano para fazer subir o nível dos mares 1 a 2 metros, em 2100. Se isto acontecer, obrigaria a deslocar metade da população mundial, criando um enorme caos e sofrimento, e causado um tremendo prejuízo económico.

Os investigadores também descobriram que o aumento do nível do mar poderia aumentar exponencialmente no próximo século, a um ritmo superior a 30 cm por década. Os cientistas documentaram esses aumentos rápidos num passado geológico distante, quando camadas de gelo muito maiores entraram em colapso; mas a maioria dos cientistas assumia que que seria impossível chegar a cadências tão extremas com as pequenas camadas de gelo que agora existem na Groenlândia e na Antárctida. Essa suposição revelou-se falsa; isso que significa a humanidade enfrentará uma inundação catastrófica de proporções míticas num futuro próximo.

Os cientistas que escreveram o novo relatório basearam as suas conclusões em melhoramentos feitas num modelo computorizado da Antárctida que inclui factores recentemente descobertos que põem em risco a estabilidade da maior camada de gelo do mundo. A nova ferramenta de modelação por computador permite que os cientistas, pela primeira vez, reproduzam os elevados níveis do mar no passado. Agora é possível seguir com precisão os níveis do mar imediatamente após a última Era Glacial, quando estes eram muito mais elevados do que os seus níveis actuais, e usar esses níveis para criar um modelo dos efeitos do derretimento das calotas polares num futuro próximo.

Como pode a humanidade evitar os piores efeitos desta crise provocada pelo ser humano?

Os Bahá’ís acreditam na concordância entre ciência e religião; como consequência, os ensinamentos Bahá’ís apresentam soluções viáveis para estes tremendos problemas globais:

A religião e a ciência apresentam perspectivas complementares na formação da vida colectiva e individual. Ambas influenciam as escolhas e as prioridades, e ambas são necessárias para organizar de forma justa e sustentável os assuntos da humanidade.
Abordar as alterações climáticas globais é um trabalho que, em última análise, gira em torno do propósito de vidas humanas bem vividas. Isto é um objectivo acalentado por povos, culturas e religiões em todo o mundo. Nele podemos encontrar um poderoso ponto de unidade que pode apoiar o trabalho que temos pela frente. (The Baha’i International Community Statement to the Lima, Peru Climate Change Conference, 2008)
O que significa a frase “vidas humanas bem vividas”? No próximo texto vamos ver a definição Bahá’í para este termo e explorar algumas das suas implicações mais profundas para a resolução de problemas para a crise da subida dos níveis dos mares.

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Texto original: Deluge and Cataclysm: What Happens when the Oceans Rise? (www.bahaiteachings.org)
Artigo anterior: O Materialismo e o próximo Dilúvio

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de agosto de 2016

O Materialismo e o próximo Dilúvio

Por David Langness.


O mar do materialismo está em maré alta e todas as nações do mundo estão submersas. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 138)
No sul do planeta, lá na Antárctida onde vivem os pinguins, o gelo está a derreter. Rapidamente.

Na Gronelândia, no norte do planeta, o degelo ainda é mais rápido.

Se o gelo da Antárctida derreter, juntamente com o da Gronelândia, isso irá inundar o mundo, submergindo a maioria das grandes cidades costeiras do mundo.

Porquê? Bem, o gelo é tremendamente espesso na Antárctida - mais de um quilómetro de profundidade na maioria dos lugares. Cerca de setenta por cento - 70% - de água doce do mundo está na massa de gelo da Antárctida.

As coisas funcionam do seguinte modo: a Terra tem duas "camadas de gelo" – dois enormes glaciares de dimensão continental que cobrem grandes massas terrestres. A menor camada de gelo do mundo cobre a maior parte da Gronelândia (1,7 milhões de quilómetros quadrados); a maior camada de gelo cobre a Antárctica (14 milhões de quilómetros quadrados - o tamanho conjunto dos Estados Unidos e do México). Estas duas camadas possuem a maioria (mais de 95%) - da água doce do mundo, congelada naquele gelo azul profundo.

Variação da Massa de Gelo da Antárctica desde 2002
Se tudo derretesse - Antárctica e a Gronelândia – o nível do mar subiria quase 70 metros.

Isto seria uma verdadeira catástrofe global. Iria desalojar grande parte da população mundial, pois cerca de metade dos seres humanos vivem actualmente a uma distância inferior ou igual a 60 quilómetros do mar. Todas as zonas de baixa altitude, áreas costeiras ou próximas dos oceanos seriam inundadas. Três quartos das principais cidades do mundo situam-se junto a um oceano. Então, adeus Nova Iorque, Sydney, Los Angeles, Hong Kong, Xangai, Londres, Calcutá, Banguecoque, Tóquio, Miami, etc, etc. Quer ver como seria o mapa-mundo do pós-gelo? A National Geographic tem um mapa interactivo.

Porque é que eu estou a levantar este tema assustador? Porque um novo estudo muito importante, foi lançado em Fevereiro de 2016 pela Academia Nacional de Ciências dos EUA, concluiu que o nível do mar poderia subir 1 a 2 metros durante este século, fazendo desaparecer cidades costeiras e forçando a deslocação de milhões de refugiados para o interior.

Basicamente, este novo estudo diz que anteriormente subestimámos a velocidade, os efeitos e o impacto das alterações climáticas que provocam a subida do nível do mar. Em vez de levarem séculos a acontecer, o colapso das camadas de gelo do mundo poderá acontecer dentro de algumas décadas.

Os cientistas que realizaram o estudo constataram que uma acentuada subida do nível do mar e inundações vão certamente ocorrer, independentemente do que possa acontecer. Mesmo que reduzíssemos drasticamente a poluição da nossa atmosfera queimando menos combustíveis fósseis, o calor já retido pelos nossos oceanos e atmosfera fará com que o nível do mar aumente e as inundações costeiras se tornem muito mais frequentes. No entanto, se as nações do mundo seguirem os Acordos Internacionais de Paris sobre o clima, e mantiverem o aumento da temperatura global abaixo de 2 graus centígrados, o nível do mar poderia ainda subir entre 20 a 60 centímetros até ao ano 2100. Mas se não formos capazes de cumprir os Acordos de Paris, afirma o estudo, o nível do mar vai subir entre 1 a 3 metros. Isso tornará inabitáveis muitas cidades costeiras. Quem estiver a pensar em comprar uma casa de praia, desista.

O que vai fazer a diferença entre um aumento do nível do mar problemático, mas relativamente seguro de 60 cm e um aumento catastrófico de 3 metros? Numa palavra: consumo.

Esta ampla diferença nos níveis de potenciais subidas do nível do mar que nossos filhos e netos herdarão, dependerá do nosso consumo de combustíveis fósseis, alimentos e bens materiais. Se continuarmos a consumir estas coisas da mesma forma que fizemos no passado, vamos inundar as zonas costeiras do planeta. Se reduzirmos o nosso consumo, através da conversão para fontes de energia renováveis, desperdiçando menos alimentos e usando dietas mais moderadas à base de plantas, e se encontrarmos maneiras de controlar os nossos hábitos materialistas e irresponsáveis enquanto consumidores, ainda temos uma possibilidade de evitar a submersão das grandes cidades do mundo.

Talvez ‘Abdu'l-Bahá tivesse estas condições futuras em mente quando disse: " O mar do materialismo está em maré alta e todas as nações do mundo estão submersas."

Os ensinamentos Bahá’ís, e todas as grandes religiões anteriores, há muito tempo que apelam ao fim desse materialismo:
Todos os Profetas vieram para promover dádivas divinas, para fundar a civilização espiritual e ensinar os princípios de moralidade. Portanto, devemos esforçar-nos com todas as nossas forças para que as influências espirituais possam alcançar a vitória, pois as forças materiais têm atacado a humanidade. O mundo da humanidade está submerso num mar de materialismo. Os raios do Sol da Realidade apenas se vêem vaga e obscuramente através de óculos opacos. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 12)
Assim, neste curta série de ensaios, vamos explorar o que o materialismo tem a ver com a subida do nível dos mares; e como podemos impedir que ambos nos afoguem.

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Texto original: Materialism and the Coming Flood (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 30 de abril de 2016

Será que adoramos o dinheiro?

Por David Langness.
Quem ama o dinheiro não ama a Deus e quem ama Deus não ama o dinheiro... As almas devem desapegar-se do mundo. Aquelas almas que estão apegadas a este mundo e à sua riqueza estão privados de progresso espiritual. ('Abdu'l-Baha, Star of the West, Volume 4, p. 122)
Na semana passada fui a um encontro inter-religioso ambiental especial que pretendia para curar uma floresta ferida, mas estranhamente, acabei a perguntar-me se nós adoramos dinheiro.

Apenas a alguns quilómetros de onde eu moro, no sopé da Serra Nevada, no norte da Califórnia, alguns amigos encontraram uma marca muito feia no solo, o chamado corte raso (ou desmatamento), e decidiram fazer algo sobre o problema.

Alguma vez viram uma coisa dessas? Acontece quando as empresas madeireiras derrubam todas as árvores existentes.

Provavelmente a melhor maneira de encontrar as grandes clareiras é a partir do ar. Num pequeno avião ou num helicóptero, basta voar sobre praticamente qualquer extensão de floresta desprotegida, e mais cedo ou mais tarde, vemos grandes manchas de solo no meio da floresta. Normalmente, são feitas longe dos olhares do público, para esconder os efeitos terríveis de uma floresta dizimada.

Na verdade, proprietários de florestas e empresas madeireiras vão rotineiramente inventando maneiras de ocultar as clareiras. Quem viajar pelas principais auto-estradas e estradas no norte da Califórnia e no Oregon, por exemplo, terá a sensação que está a atravessar florestas densas, porque apenas pode ver o que parecem ser densas zonas de árvores em ambos os lados da estrada. Mas eu já voei sobre algumas dessas rodovias, e sei que eles só criaram uma ilusão. Quem observar a região do ar, percebe que existe uma faixa relativamente estreita de árvores de cada lado da estrada e enormes clareiras nas áreas onde os condutores e os seus passageiros não podem ver a devastação.

Corte raso numa floresta da Califórnia
O corte raso ocorre porque as empresas madeireiras sabem que é a forma mais rentável de cortar uma floresta. A alternativa, o chamado corte selectivo, abate árvores individuais, mas deixa a maior parte da floresta intacta, os custos são maiores, exige mais tempo e perícia.

Mas, voltemos à floresta ferida. Juntei-me a um grupo de cerca de cinquenta pessoas que foram a esta área arrasada no último domingo. Caminhamos por uma estrada de terra batida e lá conseguimos chegar; a visão da área arrasada deixou alguns de nós deprimidos. A desflorestação é hedionda! Parecia que tinha explodido uma bomba. À distância, podíamos ver árvores verdes saudáveis, mas no centro da área arrasada nada restava, excepto cepos e ramos cortados de cedros, pinheiros e carvalhos. Predominava a terra nua, repleta de lixo que os madeireiros tinham deixado. A chuva tinha provocado a erosão do solo. Nada crescia. Algumas pessoas, especialmente as crianças que vieram para o evento, choraram quando viram aquele cenário.

Pensei que uma nova colheita de árvores jovens podia já ter começado a crescer, pois o corte raso que víamos já tinha mais de um ano de idade, mas apenas algumas pequenas árvores novas tinham conseguido nascer. Pouco depois fiquei a saber que, aparentemente, empresas madeireiras, após o corte raso, normalmente lançam herbicidas tóxicos na terra para evitar que espécies nativas "indesejáveis" voltem a crescer. Depois de matar tudo, replantaram a área "selectivamente" com uma única espécie de árvores para criar o que eles chamam "floresta equiânea" (i.e., floresta em que as árvores têm a mesma idade). Por outras palavras, a empresa já tinha cortado uma secção inteira de terreno florestal, tornou a terra estéril e, de seguida, fez uma plantação artificial, para preparar o seu próximo corte raso dentro de cinquenta anos. A diversidade natural da floresta desapareceu durante a noite, juntamente com o habitat de milhares de animais e o oxigénio aquelas árvores que exalariam nos próximos séculos.

Passámos uma tarde interessante. Primeiro, reunimo-nos num grande círculo e lemos a Declaração dos Direitos da Mãe Terra, originalmente publicada na Conferência Mundial dos Povos sobre Alterações Climática e Direitos da Mãe Terra, em 22 de Abril de 2010, em Cochabamba, na Bolívia. Focamo-nos nestas palavras da declaração:
Nós, os povos da Terra somos todos parte da Mãe Terra, uma comunidade viva e indivisível, de seres inter-relacionados e interdependentes, com um destino comum. Cada ser humano é responsável por respeitar e viver em harmonia com a Mãe Terra.
Durante a leitura da Declaração, as pessoas expressaram a tristeza e dor que sentiam com estragos que estão a ser feitos na terra e às suas criaturas. Reconhecemos a nossa parte nesses estragos, decidimos corrigir isso, e oramos pela cura da comunidade vida. Um sacerdote metodista exibiu uma faixa que dizia "A Terra antes do lucro." Os nativo-americanos no grupo realizaram uma dança em círculo. Cantamos músicas juntos, cada um de nós expressando a esperança para que o nosso planeta se recupere, regenere e continue a sustentar-nos.

Depois começámos o plantio. As crianças espalharam sementes, e todos nós cavámos na terra e plantámos pequenas árvores vivas. Cada um fez a sua parte para reparar os estragos. Percebemos que apenas as crianças mais novas no grupo veriam os resultados, mas para nós a esperança era suficiente.

Esta experiência fez-me pensar no dinheiro. Todos nós poderíamos ver a empresa madeireira fez o corte raso apenas para obter um lucro, sem respeito por quaisquer outras considerações ou consequências. Tal como a faixa do meu amigo metodista, eu perguntava-me se a motivação do lucro se tornou normalmente aceite como justificação para todos os tipos de comportamentos predatórios e vergonhosos neste mundo materialista. Fiquei a pensar se estamos agora a pagar o preço por ignorar as implicações espirituais do capitalismo e do materialismo. Fiquei a pensar, face a tão grandes estragos ecológicos, se chegámos ao um ponto em que destruiremos a nossa única casa por adoração ao dinheiro.

E assim pensei em escrever uma série de artigos sobre as ligações entre o capitalismo, comércio e meio ambiente, e como nós podemos tentar reconciliar e curar o mundo material com a nossa natureza espiritual. Ao longo desta série, vou fixar-me nesta citação inspiradora dos ensinamentos Bahá'ís, que eu não conseguia parar de pensar quando estava naquela área da floreira destruída:
Todo homem de discernimento, quando caminha sobre a terra, sente-se, de facto envergonhado, na medida em que está plenamente consciente de que aquilo que é a fonte da sua prosperidade, da sua riqueza, da sua força, da sua exaltação, do seu progresso e poder é, conforme decretado por Deus, a própria terra, que é pisada sob os pés de todos os homens. Não pode haver dúvida de que quem for conhecedor desta verdade, está purificado e santificado de todo orgulho, arrogância e vanglória. (Bahá'u'lláh, Epístola ao Filho do Lobo, p. 44)
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Texto original: Do We Worship Money? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Rio+20: “Optimismo e Esperança” para uma acção unificada

Ao participar na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), a Comunidade Internacional Bahá'í (BIC) defendeu a ideias de que os líderes mundiais que procuram promover o desenvolvimento sustentável devem adoptar o princípio de “que cada um de nós entra no mundo como um guardião do todo e, por sua vez, tem uma quota-parte de responsabilidade pelo bem-estar de todos.”

Numa declaração dirigida à Conferência, afirma-se que a ideia de uma "tutela de abrangência mundial" desafia as “bases éticas de lealdades que não vão além do Estado-nação.” E acrescenta: “ Enquanto um grupo de nações achar que os seus interesses estão em oposição a outros, o progresso será limitado e de curta duração”.

Entre as outras áreas destacadas pelo BIC estão: a necessidade de uma abordagem baseada em princípios de tomada de decisão colectiva e a importância de abordar os dois extremos do espectro pobreza-riqueza.

Mais de 80 chefes de Estado e de Governo, juntamente com cerca de 50.000 representantes de organismos internacionais, sociedade civil, e outros grupos, participaram da Conferência, que teve como objectivo avaliar o progresso no desenvolvimento sustentável desde a Cimeira da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992.

Uma economia verde e o quadro institucional, foram os dois temas principais em discussão, relativos ao desenvolvimento sustentável, que foram abordados pela BIC, em numerosos fóruns durante as últimas semanas.

O Secretário Geral da ONU na abertura da Conferência Rio+20


Participaram na Rio+20 treze delegados da BIC, o que representa uma grande diversidade de origens. “O ponto em comum nas nossas contribuições foi o aperfeiçoamento da humanidade”, disse o delegado Daniel Perell. “Procuramos trocar ideias sobre temas como a tutela e a unidade da humanidade - tudo com o objectivo geral de ajudar a criar uma civilização justa, e global, que seja sustentável a longo prazo”.

Além de participar da Conferência principal, os bahá'ís também organizaram, co-patrocinaram, ou participaram de uma vasta gama de eventos e conferências paralelas, nomeadamente:

Um painel de discussão sobre a “eliminação dos extremos de riqueza e pobreza num contexto de economia verde”, que explorou as dimensões sociais, económicas e morais da crescente desigualdade de rendimentos.

Participação na “Blast Juventude” - uma conferência paralela das Nações Unidas para os jovens, realizada de 7 a 12 de Junho; patrocinou um workshop interactivo sobre “tutela no contexto do desenvolvimento sustentável.”

A re-dedicação de um monumento à paz, construído em 1992 pelo BIC e pela comunidade Bahá'í do Brasil, como uma contribuição para a Cimeira da Terra. A escultura em forma de ampulheta contém terra de quase 150 países. Assistiram à cerimónia, Sha Zukang - Secretário-Geral da Rio +20 e Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro.

Assistência na Cimeira dos Povos, no Rio de Janeiro, em paralelo com a conferência da sociedade civil. Os Bahá'ís brasileiros estiveram envolvidos na organização de workshops sobre “princípios espirituais para o desenvolvimento” e “papel social das religiões”.

“Somos desafiados aqui na Rio+20 a olhar para além do interesse nacional e das fidelidades, e a preocuparmo-nos com o bem-estar do todo”, disse Daniella Hiche, directora dos Direitos Humanos, da Comunidade Bahá'í do Brasil, numa conferência de imprensa realizada na sede da Rio+20.

A delegada da BIC, May Akale, resumindo todo o evento, observou: “Os desafios são complexos, as expectativas da humanidade são elevadas, e as decepções no ritmo do progresso podem ser profundas”.

“O que é óbvio é que estamos a evoluir para uma acção unificada. Ainda há muito a fazer, mas as possibilidades de relacionamento para desenvolver e avançar na implementação do que foi acordado no Rio são infinitas. E essa é a fonte de grande esperança e optimismo”.

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FONTE: Rio+20: "Hope and optimism" for unified action (BWNS)