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sábado, 30 de abril de 2016

Será que adoramos o dinheiro?

Por David Langness.
Quem ama o dinheiro não ama a Deus e quem ama Deus não ama o dinheiro... As almas devem desapegar-se do mundo. Aquelas almas que estão apegadas a este mundo e à sua riqueza estão privados de progresso espiritual. ('Abdu'l-Baha, Star of the West, Volume 4, p. 122)
Na semana passada fui a um encontro inter-religioso ambiental especial que pretendia para curar uma floresta ferida, mas estranhamente, acabei a perguntar-me se nós adoramos dinheiro.

Apenas a alguns quilómetros de onde eu moro, no sopé da Serra Nevada, no norte da Califórnia, alguns amigos encontraram uma marca muito feia no solo, o chamado corte raso (ou desmatamento), e decidiram fazer algo sobre o problema.

Alguma vez viram uma coisa dessas? Acontece quando as empresas madeireiras derrubam todas as árvores existentes.

Provavelmente a melhor maneira de encontrar as grandes clareiras é a partir do ar. Num pequeno avião ou num helicóptero, basta voar sobre praticamente qualquer extensão de floresta desprotegida, e mais cedo ou mais tarde, vemos grandes manchas de solo no meio da floresta. Normalmente, são feitas longe dos olhares do público, para esconder os efeitos terríveis de uma floresta dizimada.

Na verdade, proprietários de florestas e empresas madeireiras vão rotineiramente inventando maneiras de ocultar as clareiras. Quem viajar pelas principais auto-estradas e estradas no norte da Califórnia e no Oregon, por exemplo, terá a sensação que está a atravessar florestas densas, porque apenas pode ver o que parecem ser densas zonas de árvores em ambos os lados da estrada. Mas eu já voei sobre algumas dessas rodovias, e sei que eles só criaram uma ilusão. Quem observar a região do ar, percebe que existe uma faixa relativamente estreita de árvores de cada lado da estrada e enormes clareiras nas áreas onde os condutores e os seus passageiros não podem ver a devastação.

Corte raso numa floresta da Califórnia
O corte raso ocorre porque as empresas madeireiras sabem que é a forma mais rentável de cortar uma floresta. A alternativa, o chamado corte selectivo, abate árvores individuais, mas deixa a maior parte da floresta intacta, os custos são maiores, exige mais tempo e perícia.

Mas, voltemos à floresta ferida. Juntei-me a um grupo de cerca de cinquenta pessoas que foram a esta área arrasada no último domingo. Caminhamos por uma estrada de terra batida e lá conseguimos chegar; a visão da área arrasada deixou alguns de nós deprimidos. A desflorestação é hedionda! Parecia que tinha explodido uma bomba. À distância, podíamos ver árvores verdes saudáveis, mas no centro da área arrasada nada restava, excepto cepos e ramos cortados de cedros, pinheiros e carvalhos. Predominava a terra nua, repleta de lixo que os madeireiros tinham deixado. A chuva tinha provocado a erosão do solo. Nada crescia. Algumas pessoas, especialmente as crianças que vieram para o evento, choraram quando viram aquele cenário.

Pensei que uma nova colheita de árvores jovens podia já ter começado a crescer, pois o corte raso que víamos já tinha mais de um ano de idade, mas apenas algumas pequenas árvores novas tinham conseguido nascer. Pouco depois fiquei a saber que, aparentemente, empresas madeireiras, após o corte raso, normalmente lançam herbicidas tóxicos na terra para evitar que espécies nativas "indesejáveis" voltem a crescer. Depois de matar tudo, replantaram a área "selectivamente" com uma única espécie de árvores para criar o que eles chamam "floresta equiânea" (i.e., floresta em que as árvores têm a mesma idade). Por outras palavras, a empresa já tinha cortado uma secção inteira de terreno florestal, tornou a terra estéril e, de seguida, fez uma plantação artificial, para preparar o seu próximo corte raso dentro de cinquenta anos. A diversidade natural da floresta desapareceu durante a noite, juntamente com o habitat de milhares de animais e o oxigénio aquelas árvores que exalariam nos próximos séculos.

Passámos uma tarde interessante. Primeiro, reunimo-nos num grande círculo e lemos a Declaração dos Direitos da Mãe Terra, originalmente publicada na Conferência Mundial dos Povos sobre Alterações Climática e Direitos da Mãe Terra, em 22 de Abril de 2010, em Cochabamba, na Bolívia. Focamo-nos nestas palavras da declaração:
Nós, os povos da Terra somos todos parte da Mãe Terra, uma comunidade viva e indivisível, de seres inter-relacionados e interdependentes, com um destino comum. Cada ser humano é responsável por respeitar e viver em harmonia com a Mãe Terra.
Durante a leitura da Declaração, as pessoas expressaram a tristeza e dor que sentiam com estragos que estão a ser feitos na terra e às suas criaturas. Reconhecemos a nossa parte nesses estragos, decidimos corrigir isso, e oramos pela cura da comunidade vida. Um sacerdote metodista exibiu uma faixa que dizia "A Terra antes do lucro." Os nativo-americanos no grupo realizaram uma dança em círculo. Cantamos músicas juntos, cada um de nós expressando a esperança para que o nosso planeta se recupere, regenere e continue a sustentar-nos.

Depois começámos o plantio. As crianças espalharam sementes, e todos nós cavámos na terra e plantámos pequenas árvores vivas. Cada um fez a sua parte para reparar os estragos. Percebemos que apenas as crianças mais novas no grupo veriam os resultados, mas para nós a esperança era suficiente.

Esta experiência fez-me pensar no dinheiro. Todos nós poderíamos ver a empresa madeireira fez o corte raso apenas para obter um lucro, sem respeito por quaisquer outras considerações ou consequências. Tal como a faixa do meu amigo metodista, eu perguntava-me se a motivação do lucro se tornou normalmente aceite como justificação para todos os tipos de comportamentos predatórios e vergonhosos neste mundo materialista. Fiquei a pensar se estamos agora a pagar o preço por ignorar as implicações espirituais do capitalismo e do materialismo. Fiquei a pensar, face a tão grandes estragos ecológicos, se chegámos ao um ponto em que destruiremos a nossa única casa por adoração ao dinheiro.

E assim pensei em escrever uma série de artigos sobre as ligações entre o capitalismo, comércio e meio ambiente, e como nós podemos tentar reconciliar e curar o mundo material com a nossa natureza espiritual. Ao longo desta série, vou fixar-me nesta citação inspiradora dos ensinamentos Bahá'ís, que eu não conseguia parar de pensar quando estava naquela área da floreira destruída:
Todo homem de discernimento, quando caminha sobre a terra, sente-se, de facto envergonhado, na medida em que está plenamente consciente de que aquilo que é a fonte da sua prosperidade, da sua riqueza, da sua força, da sua exaltação, do seu progresso e poder é, conforme decretado por Deus, a própria terra, que é pisada sob os pés de todos os homens. Não pode haver dúvida de que quem for conhecedor desta verdade, está purificado e santificado de todo orgulho, arrogância e vanglória. (Bahá'u'lláh, Epístola ao Filho do Lobo, p. 44)
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Texto original: Do We Worship Money? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Dinheiro

O Público tem hoje no seu suplemento de Economia um artigo especial sobre as religiões e o dinheiro. O texto centra-se nas cinco grandes: Judaísmo, Cristianismo, Islão, Hinduísmo, e Budismo. Para os bahá'ís que se lamentam pela sua religião não ser referida neste artigo, pergunto: que contributo poderiam os bahá'ís dar numa reflexão sobre a relação da religião com a riqueza material? Apesar de já se poder encontrar alguns ensaios sobre este assunto[1], da maioria dos baha'is pouco mais se costuma ouvir do que a constante repetição de um princípio: a abolição de extremos de pobreza e riqueza [2].

Por outras palavras há que colocar limites nas diferenças de distribuição de riqueza; é inaceitável que existam milhões de pessoas vivam na mais abjecta pobreza e miséria, enquanto outros vivem rodeados de fausto que nem os reis ou os faraós do passado alguma vez puderam imaginar. Mas como atingir este objectivo? As escrituras Bahá'ís não apresentam um modelo de desenvolvimento económico; apenas contêm conselhos sobre justiça nas relações laborais, incentivos à filantropia, e alguns ensinamentos muito específicos sobre dinheiro.

Numa das Suas Epístolas, Bahá'u'lláh encorajou atitudes filantrópicas dos ricos:
Os que possuem riquezas, porém, devem ter a máxima consideração pelos pobres, pois grande é a honra destinada por Deus àqueles pobres que são constantes em paciência. Por Minha vida! Não há honra que se possa comparar com esta honra, excepto aquela que apraza a Deus conceder. Grande é a bem-aventurança que espera os pobres que suportam pacientemente e ocultam seus sofrimentos, e felizes os ricos que doam suas riquezas aos necessitados e os preferem a si próprios.

Queira Deus, possam os pobres esforçar-se e lutar para ganharem os meios de sustento. É este um dever que, nesta mais grandiosa Revelação, foi prescrito a cada um e, aos olhos de Deus, é considerado uma boa acção. A quem observar este dever, a ajuda do Invisível, com absoluta certeza, haverá de beneficiar. Ele pode enriquecer, através da Sua graça, a quem Ele queira. Ele, verdadeiramente, tem poder sobre todas as coisas... [3]
'Abdu'l-Bahá, por seu lado, mostrou-se bem conhecedor dos problemas das sociedades industriais do início do séc. XX quando abordou o tema das diferenças na distribuição de riqueza e a necessidade de justiça e bom senso nas relações laborais:
...devem ser estabelecidas leis que regulamentem as fortunas excessivas de indivíduos particulares e responda às necessidades de milhões das massas pobres; assim, uma certa moderação será conseguida. No entanto, a igualdade absoluta é impossível; a igualdade absoluta nas fortunas, honras, comércio, agricultura, indústria terminariam em desordem e caos, na desorganização dos meios de existência e na desilusão universal; a ordem da comunidade seria praticamente destruída. As dificuldades também surgiriam se se tentasse impor uma igualdade injustificada. Assim é preferível que a moderação seja estabelecida através de leis e regulamentos que impeça a constituição de fortunas excessivas de indivíduos particulares, e proteja as necessidades essenciais das massas. Por exemplo, os fabricantes e industriais acumulam tesouros todos os dias, enquanto que os pobres artesãos não ganham o seu sustento diário; isto é o cúmulo da iniquidade e nenhum homem justo o pode aceitar. Assim, devem-se estabelecer leis e regulamentos que permitam aos trabalhadores receber os seus salários e um quarto ou um quinto dos lucros, de acordo com a capacidade da fábrica; ou de qualquer outra forma, o corpo dos trabalhadores e fabricantes deve partilhar equitativamente os lucros e benefícios. Na verdade, o capital e a gestão vêm do dono da fábrica, e o trabalho e o esforço vêm do corpo dos trabalhadores. Os trabalhadores devem receber salários que lhes garanta um sustento adequado, e quando deixem de trabalhar, fiquem doentes ou desamparados tenham benefícios suficientes dos rendimentos da indústria; ou então, os salários devem ser suficientemente elevados para satisfazer os trabalhadores com o que recebem e permitir-lhes poupar um pouco para os dias de necessidade e desamparo... [4]
Sobre o uso do dinheiro, podemos encontrar um pequeno texto de Bahá'u'lláh onde o fundador da religião Bahá’í declara ser legítimo cobrar juros sobre dinheiro emprestado. Lembro que a Fé Bahá’í nasceu num meio islâmico, e que nesta religião a cobrança de juros é proibida.
Quanto à tua pergunta referente a juros e lucros provenientes do ouro e da prata: ... Muitas pessoas necessitam disso, pois, se não houvesse perspectiva de se ganhar juros, os interesses dos homens sofreriam um colapso ou um desequilíbrio. Raramente se pode encontrar uma pessoa que manifeste tal consideração para com seu semelhante, um patrício seu, ou o seu próprio irmão, e lhe mostre tão terna solicitude, que esteja disposta a conceder-lhe um empréstimo em termos benevolentes[5]. Como sinal de favor aos homens, prescrevemos que juros sobre dinheiro sejam considerados como outras transacções de negócios correntes entre os homens. Assim, agora que este mandamento claro desceu do céu da Vontade de Deus, é legítimo e apropriado cobrar juros sobre dinheiro... Em verdade, Ele ordena de acordo com a Sua Própria escolha. Ele legitimou agora, os juros sobre dinheiro, tal como no passado o tornara ilegal.[6]
Além destes três excertos das escrituras baha'is, também as regras de funcionamento dos fundos Bahá’ís nos permitem perceber a importância de uma relação saudável com o dinheiro. Por exemplo, o facto de apenas os bahá'ís poderem contribuir para os fundos da sua religião, pode ser visto como uma regra de independência da comunidade em relação ao poder financeiro do exterior. Por outro lado, a contribuição aos fundos bahá'ís é voluntária; ninguém pode cobrar ou exigir a um crente que contribua. Além disso o montante da contribuição é sigilosa; ninguém deve divulgar o valor das suas contribuições.

Este post apresenta uma breve noção da posição bahá'í face a temas como dinheiro, pobreza e riqueza. Um estudo mais detalhada e aprofundado das Escrituras Bahá'ís permitirá certamente esclarecer muitos outros aspectos sobre estes temas.[7]

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NOTAS
[1] – Dois textos merecem destaque: Religious Values and the Measurement of Poverty and Prosperity e Toward a Baha'i Economic Model
[2] – Por vezes, alguma literatura (e websites) refere este princípio com uma expressão pouco feliz: uma solução espiritual para os problemas económicos.
[3] - Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, sec. C
[4] - 'Abdu'l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap. 78
[5] – Refere-se a empréstimos sem juros nem data limite de pagamento.
[6] – Epistolas de Bahá'u'lláh.
[7] – Usando o Ocean, descobre-se que a palavra “money” aparece 705 vezes na literatura bahá'í em inglês. É um indicador de que ainda há muito a dizer sobre este tema.