quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Os benefícios da educação das mulheres

Ao longo das últimas quatro décadas o aumento da educação das mulheres impediu a morte de 4 milhões de crianças.


sábado, 22 de Novembro de 2014

Deus e os Cães - Os limites da emoção e da compreensão humana

Por David Langness.


Aquilo que imaginamos, não é a Realidade de Deus; Ele, o incognoscível, o Inconcebível, está para lá do mais elevado concepção humana ('Abdu’l-Baha, Paris Talks, p. 24)
Alguma vez conheceram um cão verdadeiramente esperto? Isto não é uma piada sem graça.

Cresci rodeado por animais, e ao longo da minha vida tive a sorte de receber a companhia e o amor de vários dos mais perfeitos e maravilhosos exemplares da espécie canina.

Hoje sei que nem todas as culturas no mundo apreciam os cães. Algumas pessoas acreditam que os cães são impuros e perversos. Outras até os comem. Mas eu cresci numa parte do mundo - o Noroeste do Pacífico - onde o “melhor amigo do homem” tem aspectos admiráveis de que as pessoas fazem bom uso.

Os cães que a minha família tinha enquanto cresci até nos ajudavam a pôr o jantar na mesa. Excelentes caçadores, pisteiros e observadores, todos colaboravam para alimentar os meus pais e os seus cinco filhos. Os nossos cães guardavam e tomavam conta das crianças mais pequenas, e os seus instintos protectores muitas vezes livravam os pequenitos de perigos. Podiam acompanhar um rebanho ou uma manada, avisar-nos ladrando às cobras venenosas, e até pressentiam ameaças iminentes de outros humanos. Mas o que eu recordo mais dos meus cães é o companheirismo - criaturas simpáticas e amorosas que pareciam perceber as minhas emoções e me confortavam retribuindo a atenção que eu lhes dava. Senti mesmo, num certo momento, quando tinha oito anos, que o meu cão Jinx me compreendia melhor do que qualquer pessoa.

Assim, quem já teve um cão sabe o quão forte e próximo se pode desenvolver a relação humano-canino.

Mas a verdade é que o cão mais esperto do mundo não se pode tornar uma pessoa, nem consegue fazer o que uma pessoa faz. Nenhum animal, nem mesmo o mais inteligente símio, golfinho, cavalo ou golden retriever, construiu uma cidade, inventou uma máquina, produziu uma obra de arte ou escreveu um livro. Nenhum animal poderá alguma vez fazer o que fazem as pessoas, porque os animais estão cativos do mundo natural, e os seres humanos conseguem - devido ao seu intelecto e ao seu espírito - transcender as leis da natureza.

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que essa comparação - entre o mundo dos animais inteligentes e o mundo das pessoas - pode ajudar-nos a compreender a condição da humanidade e a condição de Deus:
... a realidade da Divindade está fora do alcance da mente. Quando considerares cuidadosamente este assunto, verás que um plano inferior jamais poderá compreender um superior. O reino mineral, por exemplo, que é inferior, está impedido de compreender o reino vegetal; para o mineral, qualquer compreensão dessa natureza seria completamente impossível. Da mesma forma, não importa quanto o reino vegetal se possa desenvolver, jamais adquirirá qualquer conceito sobre o reino animal, e qualquer compreensão deste reino seria inconcebível ao seu nível, pois o animal ocupa plano mais elevado do que o do vegetal: esta árvore não pode entender os sentidos da audição e da visão. E o reino animal, por mais que evolua, jamais se tomará consciência da realidade do intelecto, o qual discerne a mais íntima essência de todas as coisas e compreende aquelas realidades que não podem ser vistas. O plano humano, em comparação com o do animal, é muito elevado. E embora os seres todos coexistam no mundo contingente, em cada caso a diferença entre os níveis impede a compreensão da totalidade; pois nenhum nível inferior pode compreender o seu superior; é impossível tal compreensão.

O plano superior, no entanto, entende o inferior. O animal, por exemplo, compreende o mineral e o vegetal; o ser humano entende os planos do animal, vegetal e mineral. Mas ao mineral, porém, é inteiramente impossível compreender os domínios do homem. E não obstante o facto de todos os seres coexistirem no mundo material, mesmo assim, nenhum nível inferior jamais compreenderá o superior.

Então, como seria possível a uma realidade contingente, ou seja, ao homem, compreender a natureza daquela essência pré-existente, o Ser Divino? A diferença de nível entre o homem e a Realidade Divina é milhões de vezes maior do que a diferença entre vegetal e animal. E aquilo que um ser humano poderia conjecturar na mente é apenas a imagem fantasiosa da sua condição humana; ela não abrange a realidade de Deus, pelo contrário, é abrangida por ela. Ou seja, o homem compreende as suas próprias concepções ilusórias, mas a Realidade da Divindade jamais poderá ser compreendida: Ela, em Si Própria, abarca todas as coisas criadas, e tudo o que foi criado está sob o Seu controle. (‘Abdu’l-Baha, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, pp. 46-47)
Por outras palavras: o Deus que imaginamos apenas existe nas nossas mentes.

Podemos contemplar a enormidade e a complexidade do universo conhecido e tentar nas nossas mentes imaginar o seu Autor, mas inevitavelmente todas essas tentativas falharão. Para usar uma analogia das escrituras Bahá’ís, a obra de arte nunca consegue compreender o artista
Considerai a relação entre o artesão e a sua obra, entre o pintor e a sua pintura. Pode-se afirmar que a obra produzida pelas suas mãos seja idêntica a eles próprios? (Selecção dos Escritos de Bahá’u’lláh, CLX)
Usando esta percepção como um facto óbvio e axiomático - que a criatura não pode jamais compreender o Criador - como podemos pensar, aproximar-nos, ou mesmo adorar a Deus? Como podemos começar a procurar esse mistério divino? Se não podemos, devido à nossa própria natureza, perceber ou discernir o Grande Espírito, como podemos adorar o que não podemos sequer compreender? Como podemos imaginar Deus?

Vamos abordar este paradoxo essencial no próximo ensaio desta série.

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Texto Original: God and Dogs - The Limits of Human Emotion and Understanding (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

A Morte da Dignidade no Irão

Artigo de Marjan Keypour Greenblatt, co-fundadora da Alliance for Rights of All Minorities (ARAM), publicado no Huffington Post.

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Haverá maior catástrofe do que a perda de uma criança? Para quem é Bahá’í em Tabriz (Irão) a morte de uma pessoa querida pode ser apenas o princípio de uma nova experiência devastadora.

Mahna Samandari
Há dezenas de milhares de anos que as civilizações praticam rituais para os falecidos. No entanto, em algumas regiões do Irão de hoje, as leis discriminatórias instituídas pela Republica Islâmica e uma cultura de preconceitos sociais impede que os membros da comunidade Bahá’í sepultem os seus entes queridos. Estas famílias em luto, já devastadas pela perda, arrastam-se num estado de agonia perpétua quando tentam encontrar um local onde possam sepultar os seus familiares falecidos.

A família Samandari lutou contra este drama. Durante três semanas, após o falecimento da sua filha de doze anos, Mahna, a família lutou pelo direito de a sepultar de acordo com a lei religiosa Bahá’í. Os pais de Mahna, ambos com deficiências físicas, não sofreram apenas a perda da sua jovem filha, mas também foram impedidos de se despedir dela de acordo com a sua tradição religiosa.

Originária do Irão, a Fé Bahá’í tem sido confrontada com desafios desde que surgiu em meados do séc. XIX; no entanto, os membros da comunidade sepultavam e faziam o luto pelos seus familiares sem grandes interferências. A Comunidade Bahá’í em Tabriz adquiriu um cemitério que foi posteriormente confiscado pelo governo. Desde Agosto de 2011, as autoridades impuseram novas restrições aos sepultamentos Bahá’ís que impediram a realização de - pelo menos - 20 funerais Bahá’ís.

Como alternativa, as autoridades exigem agora que a comunidade transfira os corpos para um cemitério em Urumia ou para a cidade de Mian-do-ab, localizada a 60 minutos de Tabriz. No entanto, o senso comum e as leis religiosas proíbem que se realizem funerais em locais afastados, especialmente para os Samandaris que são deficientes físicos e não podem viajar longas distâncias.

Ainda mais recentemente, faleceu uma idosa Bahá’í, Narges Khatoun Barghi, e aos membros da sua família foi negado a possibilidade de realizar o funeral de acordo com as tradições Bahá’ís. O seu corpo, juntamente com o de Mahna, forma mantidos na morgue de Vadi Rahmat (controlada pelo governo) enquanto os membros da família enlutada lutavam para perceber o sentido de uma cansativa burocracia de leis discriminatórias. Na procura de alguma solução, as famílias foram forçadas a continuar a sofrer apenas devido à sua fé e às políticas sem sentido que punem os mortos pela ofensa de morrer quando se é Bahá’í.

Um relatório divulgado recentemente confirmou que as autoridades acabaram por decidir sepultar estas pessoas na cidade distante Mian-do-ab, sem notificar as famílias sobre o seu destino. Não estavam presentes membros das famílias Samandari nem Barghi quando seus entes queridos foram levados por estranhos e sepultados. Não se despediram. Não fizeram as suas orações. Não tiveram o necessário funeral.

Não há muitas informações pessoais disponíveis sobre Narges Khatoun Barghi, mas sabemos que a menina de doze anos de idade, Mahna, sofria de uma forma de paralisia que lhe dificultava o uso das suas mãos. Apesar da sua deficiência, ela perseguiu a sua paixão pela arte e pintava com a boca. Artista talentosa e determinada, Mahna obteve o primeiro prémio em arte numa competição nacional.

A vida para Mahna não teria sido fácil se ela tivesse sobrevivido e tivesse chegado à idade adulta. Tal como três gerações da comunidade Bahá’í no Irão testemunharam, leis discriminatórias tê-la-iam impedido de entrar na universidade. Embora as Nações Unidas e as autoridades legais em todo o mundo considerem a educação como um direito humano básico, a liderança religiosa no Irão opta por negar este direito a segmentos da população.

Mas, para proibir as pessoas de ter um funeral apropriado nos seus próprios cemitérios simplesmente por causa do que eles acreditam? Isto é uma perda de dignidade humana que todas as pessoas decentes deveriam lamentar.

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TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS: Death of Dignity in Iran


Psicologia da Espiritualidade

Psychology of Spirituality in Parenting from a Baha'i Perspective part 1 at Bosch Baha'i School June

domingo, 16 de Novembro de 2014

Incendiários destroem propriedades rurais de Bahá’ís em Hamadan.


No passado dia 3 de Novembro, perto da cidade de Qazvin (no Irão) uma multidão juntou-se frente a uma casa de campo pertencente à família Hemmati, na aldeia de Auj Tappeh. A casa era usada apenas temporariamente para actividades agrícolas. A multidão partiu as janelas, e espalhou gasolina numa varanda e no quintal, e posteriormente incendiou a casa, destruindo-a. Quando o incêndio terminava escreveram slogans anti-Bahá’ís nas paredes e abandonaram o local.

No dia 7 de Novembro, na pequena cidade de Amzajerd, que fica a 20 quilómetros ao norte da cidade de Hamadan, uma casa e edifícios agrícolas pertencentes à família Aqdasi foram destruídos por um incêndio. Muitos bens, móveis e documentos foram destruídos, juntamente com equipamento agrícola e algum dinheiro. Um relatório dos serviços de incêndio e de segurança descobriu se tratou de fogo posto. A família estava na cidade de Hamadan, no momento do incêndio.

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Outras notícias sobre ataques de incendiários contra Bahá’ís no Irão:
- Ainda os ataques - incendiários em Rafsanjan
- Incendiários atacam Bahá'ís no Irão
- Atacados com um cocktail molotov!
- Residência de familia bahá'í incendiada, em Kerman

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Fonte: Arson destroys Bahai-owned houses in rural Hamadan (Sen's daily)


sábado, 15 de Novembro de 2014

O que é que os Baha’is acreditam sobre Deus?

Por David Langness.

Todos os reinos superiores são incompreensíveis aos inferiores; assim, como seria possível que a criatura, o homem, compreendesse o todo-poderoso Criador de tudo? (’Abdu’l-Baha, Paris Talks, p. 25)
Acredita em Deus?

A maioria de nós acredita. As sondagens feitas com pessoas de quase todos os países, estimam que pelo menos 84 % da população global tem uma crença activa num Ser Supremo. Apenas 10% a 15% das pessoas que responderam disseram que não acreditavam em Deus.

Mesmo quando as pessoas dizem que a religião não tem nenhum papel nas suas vidas diárias, ou que não praticam qualquer religião em particular, a maioria ainda afirma que acredita num Ser Supremo.

Na China, por exemplo, a sondagem mostra que 82% da população afirma que a religião não desempenha qualquer papel nas suas vidas; mas mais de 80% afirma que acredita em Deus.

Então, se você acredita em Deus, em que é que acredita?

Esta é uma questão que recebemos muito no site bahaiteachings.org: o que é que os Baha’is acreditam sobre Deus?

Vamos apresentar uma série de textos para tentar responder a essa questão.

Mas primeiramente deixo com um grande aviso, exemplificado pela citação anterior das escrituras Bahá’ís: nenhum ser humano pode conhecer ou compreender o Ser Supremo. Tudo o que escrevo é produto da minha mente limitada e circunstanciada; e esta não consegue - nem por um momento - captar ou alcançar a realidade do seu Criador.

Uma pedra não consegue entender uma árvore. Uma árvore não consegue entender um cavalo. Um cavalo não consegue entender um ser humano. Cada um dos reinos naturais - mineral, vegetal, animal e humano e depois o Divino - tem capacidade para compreender os níveis inferiores, mas não os superiores.

Numa palestra em Londres, ‘Adbu’l-Bahá referiu-se a esta imutável lei da natureza:
Ó pesquisadores do Reino de Deus! Em todo o mundo, o homem procura Deus. Deus é tudo que existe; mas a Realidade da Divindade está santificada acima de toda compreensão.

As imagens da Divindade que nos vêm à mente são produtos da nossa fantasia; elas existem no reino da nossa imaginação. Não correspondem à Verdade; a Verdade na sua essência não pode ser descrita em palavras.

A divindade não pode ser abrangida porque ela é abrangente.

O homem, que também tem uma existência real, é compreendido por Deus; por isso, a Divindade que o homem pode compreender é parcial, não é completa. A Divindade é a Verdade efectiva e a existência real e não uma representação desta. A Divindade em si contém Tudo, e não é contida.

Embora o mineral, o vegetal, o animal e o homem possuam todos uma existência real, o mineral não tem qualquer conhecimento do vegetal. Não pode compreendê-lo. Não pode imaginá-lo, nem entendê-lo.

O mesmo se passa com o vegetal. Qualquer que seja o seu progresso, independentemente do quão elevado for, jamais poderá perceber o animal, nem compreendê-lo. Não tem, por assim dizer, informação a seu respeito. Não possui audição, visão ou compreensão.

O mesmo ocorre com o animal. Por muito que se possa desenvolver no seu próprio reino, por mais apurados que se possam tornar os seus sentidos, não terá qualquer noção real do mundo humano ou das suas faculdades especiais do seu intelecto.

O animal não pode entender que a terra é redonda, nem perceber o seu movimento no espaço, nem a posição central do sol, nem pode imaginar tais coisas como a premência do éter.

Embora o mineral, o vegetal, o animal e o próprio homem sejam seres reais, a diferença entre os seus reinos impede os membros de um nível inferior de compreenderem a essência e a natureza daqueles de um nível superior. Assim sendo, como podem o temporal e o material compreender o Senhor das Hostes? É evidente que isto é impossível! (‘Abdu’l-Baha, ‘Abdu’l-Baha in London, pp. 22-23)
Com isto em mente vamos explorar a visão de Deus que nos oferecem os ensinamentos Bahá’ís, e descobrir a abordagem mística e prática da Fé Bahá’í a este grandioso mistério.

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Texto original: What Do Baha’is Believe about God?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 11 de Novembro de 2014

Carta aberta a uma poetisa atrás das grades

Resistir à escuridão total...Mahvash Sabet

Estimada Mahvash Sabet,

Sinto que é quase uma impertinência escrever a uma poetisa que está atrás das grades devido às suas palavras e às suas crenças. O rei Lear, preso no final da peça com a sua filha Cordélia, disse-lhe que eles se ião tornar "espiões de Deus". Foi isso que você também se tornou, testemunhando as injustiças, os preconceitos e incapacidade da sociedade para compreender que não importa o que se faça a um poeta, as palavras do poeta ainda serão livres nas mentes dos leitores, e continuarão a conjurar ideias, a ocupar a mente em debates. Talvez haja consolo nisto.

Um dos seus poemas termina afirmando que "Não se pode ver o sofrimento depois de apagar as luzes", e por isso você "anseia pela escuridão, pela escuridão total." Espero para seu bem, que o fim do seu sofrimento esteja próximo, mas não com a "escuridão total” que fala; pelo contrário, como uma decisão de liberdade, tal como a luz solar é o direito natural de cada pessoa, um direito que ninguém tem o poder de tirar.

Não sei se você sente algum conforto ao perceber que foi incluída num grande e honrado grupo de escritores encarcerados, em todos os séculos e em todas as línguas, incluindo Boetius, Abu Nuwas, Cervantes, Yevgenia Ginzburg, Nazim Hikmet e centenas de outros, e que gerações de leitores recordarão o seu nome tal como se recordam do nome deles, muito depois dos nomes dos seus carcereiros terem sido varrido da memória da terra.

Não lhe posso oferecer nada na sua cela, salvo a minha devoção como leitor, a minha confiança em tempos melhores, e a minha amizade distante, mas sincera. Espero que num futuro próximo nos possamos encontrar pessoalmente, não apenas numa página.

Com melhores votos de esperança e coragem,

Alberto Manguel

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Mahvash Sabet, professora e poetisa, está a cumprir uma pena de prisão de 20 anos no Irão. Ela está detida desde 2008 devido à sua religião e por actividades relacionadas com a administração de actividades da minoria religiosa Bahá'í no Irão.

Alberto Manguel é um escritor e ensaísta canadiano, nascido na Argentina.

FONTE: Day of the Imprisoned Writer: Mahvash Sabet

domingo, 9 de Novembro de 2014

Os Judeus na Alemanha Nazi, os Bahá’ís no Irão

Por David Langness.

O próprio Deus foi, de facto, destronado dos corações dos homens, e um mundo idólatra saúda e adora clamorosa e apaixonadamente os falsos deuses que as suas próprias vãs fantasias criaram com tamanha insanidade... Os seus sacerdotes são os políticos e os especialistas do mundo, os chamados sábios da época; o seu sacrifício são a carne e sangue das multidões massacradas; os seus encantamentos são costumes obsoletos e fórmulas insidiosas e irreverentes; o seu incenso é o fumo da angústia que se eleva nos corações dilacerados dos desamparados, dos amputados, dos desalojados. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p. 113.)
Todos ouvimos falar do Holocausto, das atrocidades genocidas de horror indescritível a que o povo Judeu chama Shoah, quando os Nazis exterminaram seis milhões de Judeus durante a 2ª Guerra Mundial.

Mas apenas alguns sobreviventes e historiadores compreenderam o que levou às mortes em massa. O partido Nazi não começou a exterminar imediatamente os Judeus; em vez disso, quando tomaram o poder, aprovaram uma série de leis e emitiram memorandos internos secretos, dando inicio a uma campanha geral que gradualmente privava os Judeus alemães dos seus direitos.

Tudo começou no dia 27 de Fevereiro de 1933, quando agentes do partido Nazi incendiaram o edifício do Reichstag, a sede do Governo alemão, e posteriormente atribuíram a culpa aos “comunistas”. A opinião pública alemã, revoltada com o ataque às suas tradições e à sua democracia, insistiu que os Nazis respondessem àquela “crise” fabricada.

E assim, no dia 1 de Abril de 1933, apenas uma semana depois do Parlamento Alemão ter aprovado a Lei de “Concessão de Plenos Poderes” que transformava o Chanceler em Ditador, Hitler ordenou que os alemães boicotassem bancos, lojas, empresas e estabelecimentos que fossem propriedade de Judeus. Inicialmente o boicote não funcionou, porque a maioria dos alemães o ignorou - o que levou Hitler a cancelá-lo após três dias. Mas depois deste boicote inicial falhado, os governantes Nazis implementaram de forma agressiva um conjunto de oito leis severas que gradualmente eliminaram os direitos, a cultura e as vidas de todos os Judeus alemães.

Estas medidas do governo provocaram a ostracização dos Judeus alemães, empurrando-os para as margens da sociedade, isolando-os e tornando-os alvos de futuras perseguições.

Estas leis iniciais levaram ao posterior extermínio de toda uma população, culminando num dos maiores genocídios da história. Vejamos a lista:
  • A primeira lei anti-semita alemã exigiu que todos os funcionários públicos e governamentais fossem “arianos”. Isto levou à expulsão de todos os judeus que trabalhavam na administração pública.
  • A segunda lei ilegalizou os pagamentos do Estado a médicos e advogados judeus.
  • A terceira lei, pretensamente para aliviar as escolas com demasiados alunos, tornou praticamente impossível que as crianças Judias frequentassem as escolas públicas.
  • A quarta lei impedia que os dentistas judeus exercessem a sua profissão.
  • A quinta lei excluiu os professores Judeus das Universidades.
  • A sexta lei declarava que os conjugues dos “não-Arianos” não podiam trabalhar na administração pública.
  • A sétima lei impedia os Judeus de participar em actividades culturais e de entretenimento, incluindo a literatura, o cinema, os teatros e as artes.
  • E a oitava lei afastou todos os jornalistas Judeus da sua profissão - e colocou todos os jornais alemães sob controlo nazi.
Com estas leis aprovadas e implementadas num curto espaço de seis meses, os Nazis transformaram os preconceitos anti-semitas da maioria da população alemã em campanhas legais destinadas a marginalizar, oprimir e exterminar a minoria Judaica. Na prática, juntamente com as infames leis de Nuremberga, que os Nazis implementaram dois anos mais tarde, em 1935, estas tornaram ilegal ser judeu.

Mas esta horrível cadeia de acontecimentos não pode voltar a acontecer outra vez, certo? Agora sabemos demasiado para permitir que este tipo de adulterações da justiça ocorram no século XXI, não é verdade? Infelizmente, a resposta é não.

Mas é exactamente o mesmo padrão que se está a desenvolver actualmente no Irão, onde o governo, de forma sistemática e discreta, tenta destabilizar, marginalizar e exterminar a comunidade Bahá’í. Na verdade, para quem conhece a forma como começou o Holocausto na Alemanha Nazi, os paralelismos são surpreendentemente familiares.

Cinema Rex, em Abadan, após o incêndio
Durante o verão de 1978, na cidade de Abadan, no sul do Irão, quatro indivíduos bloquearam as portas de um cinema e incendiaram-no, matando mais de 400 pessoas fechadas no interior. Posteriormente, manifestantes islamitas incendiaram cerca de 180 cinemas no Irão. Os revolucionários, com a sua fúria, culparam o Xá, e o público revoltado acreditava neles. Seguiram-se grandes manifestações, e o governo do Xá caiu passados alguns meses. Mais tarde, alguns militantes islamitas admitiram ter lançado o incêndio que alimentou a revolução.

Em Janeiro de 1979, o governo fundamentalista islâmico tomou o poder com a promessa de responder à “crise” social do Irão – uma crise gerada e inflamada por greves e manifestações por pessoas que se curvaram perante a criação de uma teocracia autoritária, usando as mesmas tácticas que os nazis usaram 46 anos antes.

Quando o domínio fundamentalista dos ayatollahs se estabeleceu no Irão, rapidamente foram postos em prática planos para destruir a comunidade Baha’i. Devido aos ideais Baha’is progressistas - entre eles, a unidade da humanidade, a igualdade entre homens e mulheres, a unidade das religiões - os ayatollahs conservadores denunciaram e demonizaram publicamente os Bahá’ís; então, a campanha governamental tornou-se mortal. O regime prendeu, torturou e enforcou centenas de Bahá’ís, incluindo jovens adolescentes e idosos. Expulsaram estudantes Bahá’ís das escolas, expropriaram empresas pertencentes a Baha’is, destruíram lugares sagrados e cemitérios Baha’is, recusaram-se a processar judicialmente assassinos e agressores de Baha’is, e ilegalizaram a Fé Baha’i tal como os Nazis ilegalizaram o Judaísmo.

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Texto original: Iran and the Baha’is; Nazi Germany and the Jews (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

Indonésia vai emitir cartões de identidade para Bahá'ís e outras minorias


Depois de, em Julho, o Ministro Indonésio dos Assuntos Religiosos Lukman Hakim Saifuddin ter afirmado que “a [Fé] Bahá’í é uma religião e não uma seita”, agora foi a vez do Ministro da Administração Interna Tjahjo Kumolo afirmar que pretende permitir que os seguidores de outras religiões que não são formalmente reconhecidas pelo Estado não preencham o campo de identificação religiosa nos seus cartões de identidade. Até agora, os Bahá’ís e os seguidores de religiões locais e tribais tinham de indicar uma das seis religiões oficialmente reconhecidas na Indonésia: Budismo, Catolicismo, Confucionismo, Hinduísmo, Islão e Protestantismo.

Religiões na Indonésia (clique no mapa para aumentar)
O Ministro da Administração Interna também declarou que iria convocar o governadores regionais cujas administrações continuam a ignorar situações de injustiça contra as minorias religiosas e iria trabalhar com as autoridades policiais para garantir um fim definitivo à discriminação religiosa. Anteriormente este Ministro apelara à revogação das leis locais que são usadas para justificar a discriminação de grupos minoritários.

A Indonésia não é um país baseado numa única religião. É um país que se baseia na Constituição de 1945, que reconhece e protege todas as fés”, afirmou Tjahjo durante uma reunião com representantes de grupos minoritários (incluindo Bahá’ís) no seu gabinete em Jakarta, no dia 5 de Novembro.

Após essa reunião, Sheila Soraya, representante da Comunidade Bahá’í da Indonésia, afirmou estar convencida que os Bahá’ís, assim como outras minorias religiosas em breve veriam os seus problemas reduzidos. “Ele [Tjahjo] esteve muito atento ao ouvir as nossas histórias. Não estava na defensiva. E isso é o mais importante”, declarou Sheila ao Jakarta Post. A Sra Soraya acrescentou ter esperança que o novo governo possa em breve garantir os direitos cívicos dos membros da comunidade Bahá’í a quem é negado o acesso a serviços públicos básicos.

A posição de Tjahjo, de que o campo “religião” possa ser deixado em branco nos documentos de identidade é uma alternativa que pode permitir aos praticantes de religiões minoritárias receber documentação oficial sem ter que mentir sobre as suas crenças. Mas estas políticas dos Ministros Lukman e Tjahjo podem entrar em rota de colisão com algumas das mais poderosas organizações muçulmanas sunitas da Indonésia. Recorde-se que o secretário do Indonesian Ulema Council (MUI) já afirmou publicamente que a Fé Bahá’í não devia ter reconhecimento oficial e em alguns arquipélagos houve autoridades islâmicas que deram instruções para que os Ahmadiyah não fossem reconhecidos.

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FONTES:
- Indonesia to issue ID cards for Bahais and other minorities (Sen's Daily)
- Tjahjo to protect minorities (Jakarta Post)
- No Recognition, but Maybe a Back Door for Indonesia’s Marginalized Faiths: Minister (Jakarta Globe)