sábado, 23 de julho de 2016

Ser global, ser cidadão do mundo

Por David Langness.


Ó povos e raças da terra que estais em confronto! Voltai as vossas faces para a unidade e deixai o esplendor da sua luz brilhar sobre vós. Uni-vos e por amor a Deus decidi-vos a extirpar qualquer coisa que seja fonte de confronto entre vós. Então, o esplendor do grande Luminar do mundo envolverá toda a terra, e os seus habitantes tornar-se-ão cidadãos de uma só cidade e os ocupantes de um mesmo trono. (Bahá’u’lláh, SEB, CXI)
Aqui está a questão: o leitor considera-se cidadão do seu país ou cidadão do mundo?

Recentemente, fiz uma palestra em Reno, no Nevada, por ocasião de um feriado Bahá'í. Antes dessa palestra, tinha estado a pensar sobre o conceito de cidadania e escrevi uma série de textos para o site www.bahaiteachings.org; por isso, perguntei às pessoas presentes se se consideravam primeiramente como cidadãos americanos ou cidadãos do mundo. Coloquei a questão nestes termos: enquanto cidadãos, você tem uma identidade nacional ou global?

Há alguns meses atrás, soube que a BBC tinha colocado esta mesma questão a pessoas de vários países. Contrataram a empresa de sondagens GlobeScan para colocar a questão (“Considero-me mais um cidadão global do que um cidadão do meu país - concorda ou discorda?”) a 20.000 pessoas em 18 nações; o resultado dessa sondagem internacional chocou muitas pessoas, incluindo eu próprio. Pela primeira vez na história humana, uma maioria (51%) das pessoas diziam ver-se mais como cidadãos globais do que como cidadãos nacionais.

Os analistas salientaram que em toda a história humana isto nunca tinha acontecido.

A resposta da audiência em Reno também me surpreendeu; mais de 90% das pessoas presentes identificaram-se primeiramente como cidadãos globais; quase 10% identificava-se primeiramente como cidadãos americanos. Claro que isto não era uma sondagem científica – esta resposta tipo “We are the World” (Nós somos o Mundo!) estava condicionada pelo facto da maioria dos presentes serem Bahá’ís, que tipicamente se vêem como cidadãos do mundo e gotas de oceano humano:
Que o homem não se glorifique por amar o seu país; pelo contrário, que se glorifique por amar a sua espécie. Sobre isto, revelámos anteriormente aquilo que são os meios de reconstrução do mundo e da unidade das nações. Bem-aventurados os que atingem isso. Bem-aventurados os que agem desta forma. (Bahá’u’lláh, Tablets of Baha’u’llah, pp. 127-128)
Assim, de acordo com esta grande sondagem da BBC sobre o assunto, parece que o mundo começou a mover-se no sentido dos ensinamentos de Bahá'u'lláh: as pessoas em todo o planeta identificam-se cada vez mais como cidadãos globais. É difícil imaginar uma mudança de consciência tão fundamental e notável. Em 2002, a mesma sondagem mostrou que apenas 42% da população mundial se considerava cidadã do mundo.

É claro que um valor médio não descreve toda a complexidade da história; esta mudança global não ocorreu de forma igual, e simultaneamente em todos os locais. Se olharmos com cuidado para a sondagem, vemos que a tendência da cidadania mundial mostra-se particularmente forte em países em desenvolvimento, “incluindo a Nigéria (73%; subida de 13 pontos), China (71%, subida de 14 pontos), Peru (70%, subida de 27 pontos), e Índia (67%, subida de 13 pontos)… No total, 56 porcento das pessoas nas economias emergentes vêem-se como cidadãos globais em vez de cidadãos nacionais”

Nas nações mais desenvolvidas e industrializadas, as percentagens da sondagem apresentam valores mais baixos: "Na Alemanha, por exemplo, apenas 30% dos entrevistados se vêem como cidadãos globais" No Reino Unido, 47% da população identificou-se primeiramente como cidadãos globais, e 50% identificou-se primeiramente como cidadãos do Reino Unido. Curiosamente, esses resultados da sondagem são parecidos com os resultados finais do Brexit, o referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia.

Se analisarmos a demografia do referendo do Brexit, podemos ver essa tendência para a cidadania global em termos ainda mais marcantes: cerca de 75% dos jovens (idades entre 18 a 24) votaram pela permanência na UE; por outro lado, 61% dos eleitores mais velhos (com idade superior a 65) votaram pela saída da União Europeia. Claramente, a geração mais jovem não vê o internacionalismo, a cidadania global ou o aumento da imigração como uma ameaça, mas antes, como uma oportunidade. Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, descreveu o aparecimento de uma consciência global de cidadania mundial desta forma:
O amor à pátria, incutido e acentuado pelos ensinamentos do Islão, como “um elemento da Fé de Deus”, não é condenado nem depreciado por essa declaração, esse toque de clarim, de Bahá'u'lláh. Não se deve – de facto, não se pode – interpretar as Suas palavras como sendo um repúdio, ou vê-las como uma censura pronunciada contra um patriotismo são e inteligente; também não visa a minar a lealdade de um indivíduo ao seu país, nem está em conflito com as legítimas aspirações, direitos e deveres de qualquer estado ou nação específicas. Tudo o que implica e proclama é a insuficiência do patriotismo face às mudanças fundamentais efectuadas na vida económica da sociedade e na interdependência das nações, e como consequência da contracção do mundo, através da revolução dos meios de transporte e comunicação – condições que não existiam nem podiam existir nos dias de Jesus Cristo ou de Maomé. A Sua declaração exige uma lealdade mais ampla, que não deve estar em conflito – e de facto não está – com lealdades menores. Incute um amor que, dado o seu âmbito, deve incluir, e não excluir, o amor à pátria. E estabelece, através dessa lealdade que inspira, e desse amor que infunde, o único alicerce sobre o qual o conceito de cidadão do mundo pode desenvolver-se, e a estrutura da unificação mundial pode basear-se. No entanto, insiste na subordinação de considerações nacionais e interesses particulares aos direitos imperativos e supremos da humanidade como um todo, uma vez que, num mundo de nações e povos interdependentes, a vantagem da parte é melhor conseguida com a vantagem do todo. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p. 122)

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Texto original: Going Global: Becoming Citizens of One City (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Globalização e Nova Ordem Mundial

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Trailer: A Previsão de Miller


Aos 32 anos, Mark Miller é um veterano da Guerra Civil Americana, perturbado pela experiência da guerra e incomodado pela conhecida previsão do seu tio-avô William Miller, de que o mundo iria acabar em 1844. Após a guerra viaja pelo Médio Oriente, trabalhando para diversas empresas, procurando paz e serenidade. O destino leva-o a encontrar a solução de um mistério que perturbava a sua família e detinha a atenção de estudiosos há muitos séculos.

A Previsão de Miller é um trabalho de ficção. No entanto, o Reverendo Miller existiu e previu o regresso de Cristo em 1844. Anos mais tarde, na Pérsia, os seguidores de Bahá’u’lláh eram perseguidos porque acreditavam que o espírito de Cristo tinha regressado ao mundo.

Legendado em Português.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Mais um Cemitério Bahá’í destruído no Irão



De acordo com a página "BahaiNews", vários agentes da autoridade na província do Curdistão destruíram o cemitério Bahá’í – conhecido como Golestan Javeed (“O Eterno Jardim de Rosas”) – tendo destruído edifícios, cortado mais de 300 árvores e confiscado bens pessoais que se encontravam na morgue.

Segundo as informações recolhidas, os agentes da autoridade terão intimado um cidadão Bahá’í, Sr. Khaleel Eghdamiyan, a comparecer no Tribunal Judicial do Curdistão num prazo de cindo dias. O Sr. Eghdamiyan dirigiu-se ao departamento agrícola deste tribunal e percebeu que "todos os edifícios e a área do cemitério seriam arrasados, e as mais de 300 árvores seriam cortadas e arrancadas."

O cemitério, cuja construção tinha sido totalmente financiada pelos Bahá’ís de Qorveh, tinha mais de 30 sepulturas de mártires Bahá’ís executados pela República Islâmica. Acabou por ser destruído às 5H00 da manhã do dia 14 de Julho.

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FONTE: Security Forces Destroy Baha’i Cemetery in Ghorveh, Kurdistan (Iran Press Watch)

sábado, 16 de julho de 2016

Globalização e Nova Ordem Mundial

Por David Langness.

O desejo de paz pela humanidade apenas se pode realizar com a criação de um governo mundial. Com todo o meu coração, acredito que o actual sistema mundial de nações soberanas apenas pode levar à barbaridade, à guerra e à desumanidade. (Albert Eisntein)

Deus permita que os povos do mundo sejam graciosamente ajudados a preservar a luz dos seus conselhos amorosos no globo da sabedoria. Nutrimos a esperança que todos sejam adornados com o traje da verdadeira sabedoria, a base do governo do mundo. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p. 166)

Estamos no limiar de uma era cujas convulsões proclamam simultaneamente os estertores de morte da velha ordem e as dores de parto da nova ordem. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 169)
A Fé Bahá’í foca-se essencialmente no conceito de unidade mundial. Bahá’u’lláh revelou esse princípio fundamental em meados do século XIX, muito antes de o mundo ter tido qualquer visão do planeta como uma única entidade. Hoje, porém, as forças cada vez mais globais da economia e das migrações fizeram da unidade mundial um conceito polarizador:
A nova ordem mundial que está em construção deve focar-se na criação da democracia, paz e prosperidade mundiais, para todos. (Nelson Mandela)

O caminho dos Rockefellers e dos seus aliados é criar um governo mundial combinando o supercapitalismo e o comunismo sob o mesmo tecto, tudo sob o seu controlo. Estou a dizer que isto é uma conspiração? Sim, estou. Acredito que existe uma conspiração, de âmbito mundial, planeada há muitas gerações, com objectivos incrivelmente malignos. (Larry P. MacDonald , antigo membro da Câmara dos Representantes dos EUA)
Pode-se perceber pelo tom da última citação que a expressão “nova ordem mundial” se tornou sinónimo de conspiração mundial para algumas pessoas. Quando encontramos expressões como “nova ordem mundial” ou “governo mundial” num livro ou numa página da internet, por vezes refere-se a uma visão de conspiração do “fim dos tempos”, de um estado totalitário mundial controlado por uma elite secreta, perversa e poderosa que pode dominar o mundo a qualquer momento – e, se calhar, “eles” até já estão no poder. Há pessoas que acreditam nestas teorias da conspiração; e até tentam “demonstrar” as suas ideias de “nova ordem mundial” relacionando-as com as forças reais da globalização que estão agora em acção no mundo.

Na perspectiva Bahá’í, a expressão “nova ordem mundial” tem um significado totalmente diferente. Em vez de significar tirania e autoritarismo, significa, num contexto Bahá’í, liberdade – estar livre da fome, da pobreza, da guerra e da opressão. Nos ensinamentos Bahá’ís, um nova ordem mundial refere-se à próxima fase inevitável e evolutiva na governação do mundo – uma verdadeira democracia mundial.
O equilíbrio do mundo for perturbado pela influência vibrante desta grandiosa, desta nova Ordem Mundial. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, p. 136)

Aproxima-se o dia em que teremos recolhido o mundo e tudo o que nele existe, e colocaremos uma nova ordem no seu lugar. (Idem, p 313)

Esta Nova Ordem Mundial, cuja promessa está consagrada na Revelação de Bahá'u'lláh, cujos princípios fundamentais foram enunciados nas escrituras do Centro do Seu Convénio, implica nada menos do que a unificação completa de toda a raça humana. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 161)
Há poucas pessoas que ainda negam a marcha imparável das forças da globalização. Caracterizada pelo movimento, a globalização movimenta ideias, produtos, fundos, conhecimento e pessoas por todo o planeta de uma forma mais rápida e eficiente do que nunca. As nações tornaram-se completamente interdependentes. As economias interligaram-se. O comércio aumentou muito. As fronteiras e as identidades nacionais tornaram-se cada vez menos importantes. A nossa sociedade internacional recém-globalizada criou uma teia complexa de forças e factores que unem conceitos, culturas, mercados, crenças, práticas e pessoas, aproximando-as cada vez mais umas das outras. A unificação completa de toda a raça humana, como se pode ver agora, aproxima-se rapidamente.

Mas nem todas as forças da globalização são todas positivas. Muitos dizem que elas tendem a privilegiar os interesses corporativos em detrimento dos interesses das classes trabalhadoras, pobres e indígenas; que promovem a perda de postos de trabalho, permitindo que as empresas se desloquem para países de baixo custo; que prejudicam o meio ambiente global, dando às empresas multinacionais uma autonomia ilimitada para poluir em países sem leis ambientais; e que aumentam o movimento de migrantes e refugiados do Oriente e do Sul globais para o Norte e Ocidente globais. Por estas e outras razões, a globalização assusta muitas pessoas, e começou a criar uma reacção etnocentrista e xenófoba em grande parte do mundo desenvolvido. A saída da Grã-Bretanha da União Europeia é apenas um exemplo dessa reacção que vai, sem dúvida, agravar e aumentar os problemas, ou dar ao mundo uma lição sobre os perigos de resistir à unificação.


Os Bahá’ís acreditam que só existe uma única coisa que pode controlar, aproveitar e direccionar as forças incontroláveis da globalização: uma nova ordem mundial. Esse sistema de unidade espiritual e governação global, democrática nas suas origens e de âmbito mundial, constitui a "missão suprema" e derradeira da Fé Bahá'í:
A Revelação de Bahá'u'lláh, cuja missão suprema não é senão a realização desta unidade orgânica e espiritual de todo o corpo das nações, deve, se queremos ser fiéis às suas implicações, ser considerada como sinalizando através do seu advento a idade adulta de toda a raça humana. Ela deve ser vista não apenas como mais uma revitalização espiritual nos destinos em constante mudança da humanidade, não apenas como mais uma etapa numa sequência de Revelações progressivas, nem mesmo como o culminar de uma série de ciclos proféticos recorrentes, mas sim como marcando a última e mais elevada fase na fantástica evolução da vida colectiva do homem neste planeta. O aparecimento de uma comunidade mundial, a consciência da cidadania mundial, a fundação de uma civilização e cultura mundial... deve, pela sua própria natureza, ser considerada, no que toca a esta vida planetária, como o mais longínquo limite na organização da sociedade humana, embora o homem, enquanto indivíduo, deva, como resultado dessa consumação, continuar indefinidamente a progredir e desenvolver-se. (Idem, p.163)

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Texto original: Globalization: Welcome to the New World Order (www.bahaiteachings.org)

Artigo Anterior: O Brexit, a União Europeia, a Imigração e a Xenofobia
Artigo Seguinte: Ser global, ser cidadão do mundo

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 10 de julho de 2016

Morrer por alguma coisa? As mortes de Cristo e do Báb

Por Hussein Ahdieh.


Você morreria por alguma coisa? Consegue pensar em alguma coisa - a sua família, as suas crenças, os seus valores, as suas convicções - que tenha mais valor do que a sua vida física?

Neste ano, durante a comemoração do Martírio do Báb, dei comigo a pensar nestas questões e sobre de sacrifício final do Bab. O Báb, o arauto da Fé Bahá'í, deu a Sua vida desejando fazer levar avante vários ideais e trazer ao mundo um novo conjunto de convicções progressistas. Depois, o meu pensamento foi para o martírio de Tahirih - essa grande seguidora do Báb e defensora da emancipação das mulheres - e em seguida, para os outros, incluindo os meus próprios antepassados. Estes incluíam homens válidos que morreram lutando em defesa própria durante os tumultos de Nayriz em 1850 e 1853, e também mulheres, idosos e até mesmo crianças que morreram numa marcha da morte de Nayriz para Shiraz, em 1853. Todos eles seguiam os novos ensinamentos das religiões Bábi e Bahá’í e todos eles sofreram tremendamente pelas suas crenças. Para além destes casos óbvios, testemunhamos agora milhares de Bahá’ís contemporâneos cujas vidas são interrompidas ao ser-lhes negada a assistência médica, ou prejudicadas pela humilhação diária ou negação de acesso ao ensino superior.

Os martírios do Báb e Tahirih foram consentidos. Eles proclamaram um novo sistema de crença que ameaçava a autoridade e política e eclesiástica; e como resultado, foram vítimas de assassinato decretado pelo Estado. Eles aceitaram as suas mortes físicas resolutamente. Depois deles, milhares de Bábis e Bahá’ís morreram com a mesma atitude nas mãos de multidões ou do Estado. A sua conduta espiritual, tal como os mártires cristãos no Império Romano, identificou-os como pessoas comuns que apenas queriam viver pacificamente e seguir uma nova religião. Por causa disso, foram submetidos a horrores indescritíveis.

Local de Martírio do Báb, em Tabriz (Irão)
Mas porque a Fé Bahá'í valoriza a racionalidade acima da obediência cega aos mullahs locais, os Bahá’ís tinham tendência a ser melhor sucedidos do que os seus vizinhos, frequentemente agarrados a processos tradicionais. E porque os princípios Bahá’ís destacam a importância da educação das raparigas, as futuras mães de todos, as gerações seguintes de Bahá’ís floresceram. Isso provocou inveja entre os que ficaram para trás devido à ignorância; e a inveja em grande escala levou a mais perseguições.

Até agora, todas as gerações de Bábis e Bahá’ís no Irão sofreram. Além disso, o nosso sofrimento tem sido voluntário. Poderíamos afastar-nos da nossa Fé. Mas não o fizemos, não o fazemos e não o faremos.

Ninguém sabe o que o futuro pode trazer - que testes e dificuldades irão surgir. Mas sabemos que as qualidades da perseverança e do sacrifício, quando confrontam a adversidade, dão uma nova esperança mundo. Agora, os esforços e as confirmações dos Bábis e dos primeiros Bahá’ís são uma fonte de inspiração. Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá'í, comparou o martírio do Bab ao martírio de Cristo:
Na realidade, não seria exagero dizer que em lugar algum de toda a extensão da literatura religiosa mundial, excepto nos Evangelhos, encontramos algum registo relacionado com a morte de qualquer um dos fundadores das religiões do passado comparável ao martírio sofrido pelo Profeta de Shiraz [o Bab]. Um fenómeno tão estranho, tão inexplicável, confirmado por testemunhas oculares, corroborado por homens de reconhecida competência, e admitido pelo governo, assim como por historiadores não-oficiais entre as pessoas que tinham jurado hostilidade eterna à Fé Bábí, pode ser considerado verdadeiramente como a mais maravilhosa manifestação das potencialidades únicas com as quais tinha sido dotada a Dispensação prometida por todas as Revelações do passado. A paixão de Jesus Cristo, e, na verdade, todo o Seu ministério público, por si só oferece um paralelo com a Missão e morte do Báb, um paralelo que nenhum estudante de religião comparada pode deixar de perceber ou ignorar. Na juventude e humildade do Inaugurador da Dispensação Bábi; na extrema brevidade e turbulência do Seu ministério público; na rapidez dramática com que esse ministério atingiu o seu clímax; na ordem apostólica que Ele instituiu, e na primazia que Ele conferiu a um dos seus membros; na coragem do Seu desafio às convenções rituais e leis consagradas pelo tempo, que tinham sido tecidas pela religião em que Ele próprio tinha nascido; no papel que uma hierarquia religiosa, oficialmente reconhecida e firmemente arreigada, desempenhou como principal instigador dos ultrajes que Ele sofreu; nas indignidades que se acumularam sobre Ele; na brusquidão da Sua prisão; no interrogatório a Que foi submetido; no escárnio derramado, e na flagelação infligida sobre Ele; na afronta pública que Ele aguentou; e, por fim, na Sua suspensão ignominiosa perante o olhar de uma multidão hostil - em tudo isto não podemos deixar de discernir uma semelhança notável com as características distintivas da carreira de Jesus Cristo.

Deve ser lembrado, no entanto, que, além de o milagre associado à execução do Báb, Ele, ao contrário do fundador da religião Cristã, não deve ser apenas considerado como o autor independente de uma Dispensação divinamente revelada, mas também deve ser reconhecido como o Arauto de uma nova Era e inaugurador de um grande ciclo profético universal. Nem o facto importante deve ser esquecido que, enquanto os principais adversários de Jesus Cristo, durante a Sua vida, foram os rabinos judeus e os seus associados, as forças formadas contra o Báb representavam os poderes civis e eclesiásticos combinados da Pérsia, que, desde o momento da Sua declaração até à hora da Sua morte, persistiram, uniram-se e, com todos os meios à sua disposição, conspiraram contra os defensores e difamaram os princípios da sua Revelação. (Shoghi Effendi, God Passes By, p. 56)
Ambos, Cristo e o Báb, morreram voluntariamente por um conjunto de ideais universais centrados no amor, na paz e na unidade. Os Seus sofrimentos e os Seus triunfos deviam fazer-nos perguntar se há alguma coisa pela qual podíamos morrer.

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Texto original: What Would You Die For? The Deaths of Christ and the Bab (www.bahaiteachings.org)

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Hussein Ahdieh nasceu em Nayriz, no Irão. Na sua adolescência foi viver para os Estados Unidos, onde mais tarde estudou História da Europa e concluiu um Doutoramento em Educação. Foi um elemento chave na criação da Harlem Preparatory School, de Nova Iorque; foi director do Programa de Estudos Superiores da Universidade de Fordham. É autor dos livros Abdu'l-Bahá in New York, AWAKENING: A History of the Babí and Bahá'í Faiths in Nayriz e de numerosos artigos e ensaios.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

sábado, 2 de julho de 2016

Como acabar com a corrupção?

Por David Langness.


Ó povo, não causes corrupção na terra e não disputes com os homens; pois, em verdade, isso não é digno de quem escolheu uma condição que, de facto, permanecerá segura, ao abrigo do seu Senhor. (Bahá’u’lláh, Tablet of the Branch)
Quando inicialmente se deu a fuga de informação dos Papéis do Panamá - cerca de 11,5 milhões de documentos - surgiram manchetes sensacionalistas em todo o mundo. Líderes políticos, magnatas e celebridades foram referidos e identificados como directores de empresas de fachada que escondiam milhares de milhões de dólares da tributação legítima. Fizeram-se ouvir protestos indignados de muitos lados, exigindo que os países alterem as suas leis bancárias e parem de servir como paraísos fiscais para os super-ricos. A corrupção e suborno também tinham uma presença forte nesta história, porque muitos dos políticos e líderes eleitos não tinham qualquer fonte de rendimento visível além dos seus salários relativamente pequenos.

No fundo, é difícil compreender que uma pessoa acumule mil milhões de dólares, quando o seu salário somado ao longo de mil anos não atinge esse valor.

Muito especialistas e comentadores acreditam e afirmaram, que este tipo de corrupção óbvia vai deixar as pessoas ainda mais desconfiadas em relação aos governos. O que pensa disto?

Em todo o mundo, a confiança nos governos caiu dramaticamente ao longo das últimas décadas. O alheamento em relação ao processo político, já está em níveis muito elevados, tem aumentando rapidamente. Os “candidatos de protesto” externos ao sistema político; uma sensação de impotência e isolamento; uma crença generalizada de que todos os governos são corruptos; e uma convicção geral de que o governo já não trabalha para o bem do povo, mas apenas serve uma elite rica; cada um destes sintomas de alienação política tem demonstrado uma força crescente em todo o mundo.

As sondagens mostram que a erosão da confiança pública no governo - um fenómeno mundial - começou na década de 1960, quando proliferaram tumultos, assassinatos, guerras desnecessárias e escândalos políticos ; e também quando a comunicação social noticiava cada vez mais sobre estes problemas. O Pew Research Center tem perguntado aos americanos se eles confiam no seu governo desde 1958; os resultados mostram que em 1964, 77% confiavam. Mas passada uma década, o nível de confiança caiu para menos de 25%. Hoje, está no nível mais baixo alguma vez medido: 19%.

A Gallup World Poll chegou a conclusões semelhantes na sua recente sondagem sobre confiança global nos governos nacionais dos países desenvolvidos realizada para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). Realizada em todos os 34 países membros da OCDE, revelou que a confiança geral também tinha recuado para um novo mínimo de 40%.

Em geral, parece que não confiamos nos nossos dirigentes. Então o que podemos fazer em relação a essa falta de confiança? Como podemos erradicar e libertar-nos da corrupção que parece ser uma doença na nossa política e nos nossos governos?

Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma solução:
É óbvio que somente quando o povo for educado, somente quando a opinião pública estiver correctamente focada, somente quando os funcionários governamentais - mesmo os de mais baixo escalão - estiverem livres do mais pequeno vestígio de corrupção, pode o país ser devidamente administrado. Só quando a disciplina, a ordem e a boa governação atingirem um nível em que um indivíduo, mesmo que faça os maiores esforços, seja incapaz de se desviar da rectidão, na medida da espessura de um fio de cabelo, poderão as desejadas reformas serem consideradas totalmente estabelecidas.

Além disso, toda e qualquer instituição, mesmo que seja o instrumento do maior bem para a humanidade, pode ser mal utilizada. O seu uso adequado, ou abuso, dependem dos vários níveis de discernimento, capacidade, fé, honestidade, dedicação e magnanimidade dos líderes de opinião pública. (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 16)
As virtudes civilizadoras da honestidade, do dever, da lealdade tão centrais ao progresso humano são cultivadas pela linguagem do coração e pela voz da consciência. Imperativos legais e penalizações, apesar de essenciais, são limitados na sua eficácia. Perceber as raízes espirituais que estão no coração da identidade e propósito humanos é libertar o único impulso que pode garantir a transformação social genuína. Assim, na perspectiva Bahá’í, o aparecimento de instituições públicas geradoras de confiança pública e isentas de corrupção, está intimamente ligada ao processo de desenvolvimento moral e espiritual. Tal com Bahá’u’lláh confirma: “Enquanto a natureza de uma pessoa se entregar às paixões malignas, o crime e a transgressão prevalecerão” (Overcoming Corruption and Safeguarding Integrity in Public Institutions: A Baha’i Perspective, statement from the Baha’i International Community, pp. 2-3)
Fundamentalmente, os Bahá’ís acreditam que o carácter moral de cada líder - e de cada ser humano - baseia-se no nível de desenvolvimento espiritual da pessoa:
Depois de reajustar o aspecto moral da humanidade, então realizar-se-á a maior unidade; mas sem este reajustamento moral é impossível estabelecer a harmonia e a concórdia, pois é um facto que a guerra, conflito, atrito e luta, são apenas os resultados visíveis de deterioração da moralidade e da corrupção de carácter. ('Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pp. 176-177)
A única forma real e duradoura de acabar com a corrupção, dizem os ensinamentos Bahá'ís, é começar pelo indivíduo:
Para vós, desejo distinção espiritual - isto é, deveis tornar-vos eminentes e distintos na moral. No amor de Deus, deveis tornar-vos distintos de tudo o resto. Deveis tornar-vos distintos por amar a humanidade, pela unidade e pela harmonia, pelo amor e pela justiça. Em resumo, deveis tornar-vos distintos em todas as virtudes do mundo humano - pela lealdade e pela sinceridade, pela justiça e pela fidelidade, pela firmeza e pela constância, pelas obras filantrópicas e serviços ao mundo humano, pelo amor para com todos os seres humanos, pela unidade e pela harmonia com todas as pessoas, pela remoção de preconceitos e promoção da paz internacional. ('Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 187)

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Texto original: How Do We Really End Corruption? (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Imposto Único ou Imposto Progressivo?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O Brexit, a União Europeia, a Imigração e a Xenofobia

Por David Langness.


xenofobia: [De xeno + fobia] antipatia ou aversão pelas pessoas ou coisas estrangeiras; preconceito ou atitude hostil contra o que é de outro país
A decisão do Reino Unido de sair da União Europeia gerou um enorme fluxo de opiniões e protestos. Nesta série de artigos, vamos afastar-nos das consequências políticas e económicas e olhar de forma mais ampla para os conceitos que estão por detrás da União; examinaremos as causas subjacentes a esta cisão internacional tão mediáticas e procuraremos as suas consequências globais a longo prazo.

Para quem não acompanhou o desenvolvimento da União Europeia (UE) - aquilo a que Winston Churchil chamou “os Estados Unidos da Europa” - aqui fica um breve resumo de factos históricos. O nacionalismo maligno, a xenofobia extremista e o genocídio catastrófico da 2ª Guerra Mundial convenceram muitos líderes europeus do pós-guerra que uma confederação de nações europeias poderia ajudar a impedir uma futura devastação se ocorresse outra guerra na Europa. França e Alemanha, inimigas de longa data, lideraram o processo. Com esse objectivo, em 1948, o Congresso de Haia formou o Movimento Internacional Europeu - o primeiro antecessor da UE. Depois de assinarem uma série de acordos intermédios sobre comércio e trabalho, seis países – Bélgica, França, Itália, Países Baixos, Luxemburgo e Alemanha Ocidental – assinaram o Tratado de Roma em 1957, que criou a Comunidade Económica Europeia (CEE). Dezasseis anos mais tarde, aos seis fundadores originais juntaram-se a Dinamarca, a Irlanda e o Reino Unido. Quando a própria União Europeia foi criada formalmente, em 1993 pelo Tratado de Maastricht, já incluía quinze países como membros oficiais. A sua visão era: uma federação europeia unida, sem as velhas fronteiras e os velhos ódios, e concebida, segundo as palavras de um membro fundador, para “para tornar a guerra impensável e materialmente impossível”.

Agora, e apesar disso, o Reino Unido decidiu sair da União Europeia.

Muitos factores – económicos, políticos e sociais - convergiram para tornar possível o voto no chamado “Brexit”, no Reino Unido. Analistas, especialistas de sondagens e académicos de diferentes partes do espectro político, identificaram o principal factor determinante na vitória da campanha do “Leave” (Sair): a imigração.

Para perceber como a política de imigração conseguiu ter um impacto tão grande nos eleitores do Reino Unido, temos que recordar o que aconteceu. Antes da criação da UE em 1993, a imigração para o Reino Unido estava num nível mínimo histórico, com menos de 100.000 pessoas a entrar anualmente no país que tinha mais de mais de 50 milhões de habitantes. Políticas fortemente restritivas de imigração mantinham esse número muito baixo.

Mas a União Europeia mudou as coisas. A partir de 1993, quando as regras da UE entraram em vigor, ser membro da União Europeia significava que os Estados membros não podiam impedir a imigração de outros Estados membros, como eles faziam no passado. Em vez de um conjunto de países totalmente soberanos com as suas próprias fronteiras e diferentes políticas de imigração, a UE seguiu o conselho de Churchill e tornou os países europeus mais semelhantes aos estados federados nos Estados Unidos - pelo menos no que respeita ao comércio, à economia e à migração. Com um passaporte da UE e sem grandes restrições nas fronteiras, os cidadãos da UE podiam viajar e viver nas nações, tão facilmente quanto os americanos podem mudar-se do Alabama para a Califórnia.

Como resultado, os investigadores da Universidade de Oxford descobriram, a população estrangeira do Reino Unido expandiu-se rapidamente, passando de 3,8 milhões em 1993 para 8,3 milhões em 2014. Nem toda a imigração vinha de outras nações da União Europeia - na verdade, a maioria vinha da Índia e do Paquistão, tradicionalmente o maior grupo de cidadãos nascidos fora do Reino Unido. Além disso, a expansão pós-comunista da UE ao incluir antigas nações do Bloco de Leste fez com que muitos imigrantes pobres chegassem em Inglaterra, Irlanda do Norte e Escócia. A Polónia, por exemplo, tornou-se rapidamente a segunda maior fonte imigrantes do Reino Unido.

Como resultado, a sociedade britânica começou a ser muito mais diversificada, e os sentimentos em alguns sectores do público começou a mudar. Estes factores e a recessão global de 2008 logo criaram no Reino Unido um estado de espírito provinciano, anti-imigrante, que, em seguida, se tornou cada vez mais xenófobo. Nas últimas duas décadas, as sondagens mostraram que os níveis de preocupação britânica com "imigração e relações raciais" passaram irrelevantes para cerca de 45 por cento. Grandes e crescentes populações eleitores no Reino Unido, e noutros países da UE, como a França e a Alemanha começaram a exigir níveis de imigração mais baixos, juntamente com menos "controle" do governo da União Europeia, em Bruxelas. Políticos demagogos anti-imigração, em nações ocidentais, incluindo fora da UE, têm conseguido um número crescente de votos com a promessa de impedir a imigração. Como a imigração cresce, o mesmo acontece com a reacção.

Este tipo de xenofobia e preconceito anti-imigrante, especialmente quando explorados por políticos ambiciosos e sem escrúpulos, podem ter resultados em referendos nacionais como o voto “Brexit”. Pense nisso: a maioria dos cidadãos do Reino Unido, na verdade, votou a favor da insegurança económica e do risco de recessão para acabar com a imigração.

Os Bahá’ís acreditam que este tipo de preconceito e medo irracional - a própria definição de xenofobia - não tem lugar no mundo moderno. Os ensinamentos Bahá’ís exigem o fim de toda a xenofobia, hostilidade a imigrantes, e medo:
Ó povos do mundo! O Sol da Verdade levantou-se para iluminar toda a terra, e espiritualizar a comunidade do homem. Louváveis são os seus resultados e os seus frutos, abundantes são as santas evidências que resultam desta graça. Isto é pura misericórdia e a mais pura generosidade; é luz para o mundo e todos os seus povos; é harmonia e camaradagem, amor e solidariedade; na verdade, é compaixão e unidade, e deixarmos de nos vermos como estranhos; é ser uno, em dignidade e liberdade completas, com todos na terra. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 1)
À luz deste princípio Bahá’í fundamental, vamos apresentar alguns artigos para explorar o que é necessário fazer, numa sociedade tão afectada pela xenofobia e pelo preconceito e conseguir verdadeiramente “espiritualizar a comunidade do homem.”

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Texto original: Brexit, the EU, Immigration and Xenophobia (www.bahaiteachings.org)

Artigo Seguinte: Globalização e Nova Ordem Mundial

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 25 de junho de 2016

Imposto Único ou Imposto Progressivo?

Por David Langness.


Ó meu amigo! Em todas as circunstâncias deve-se aproveitar todos os meios que promovam a segurança e a tranquilidade dos povos do mundo. O Grande Ser diz: Neste Dia glorioso, tudo o que te purifique da corrupção e te leve à paz e serenidade, é, em verdade, o Caminho Recto. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p. 171)
Provavelmente já todos ouvimos o debate: imposto único ou imposto progressivo?

Um sistema de imposto único tem uma taxa única de tributação: a taxa é sempre a mesma, independentemente do rendimento. As pessoas pagam a mesma percentagem fixa, para qualquer valor de rendimento. Existem trinta e nove países com sistemas de impostos de taxa única. A maioria são pequenos países; mas há duas excepções: a Rússia e a Arábia Saudita.

Um sistema de imposto progressivo tem uma taxa gradual: a taxa aumenta à medida que o valor tributável aumenta. As pessoas com menor rendimento pagam uma percentagem mais baixa de impostos (ou ficam isentas de pagar impostos). Economistas e especialistas concordam que os impostos progressivos reduzem a desigualdade. A esmagadora maioria dos países tem algum tipo de impostos progressivos.

Qual dos sistemas lhe parece mais justo?

Os ensinamentos Bahá’ís defendem um sistema de impostos progressivos.
Por exemplo: uma pessoa rica tem um grande rendimento e uma pessoa pobre tem um pequeno rendimento. Ou para dizer de forma mais explícita: uma pessoa rica tem dez mil quilos de produtos e uma pessoa pobre tem dez quilos. Então será justo pagarem imposto com a mesma taxa? Não. Pelo contrário. A pessoa pobre neste caso deve estar isenta de imposto. Se a pessoa pobre der um décimo do seu rendimento e a pessoa rica der um décimo do seu rendimento, isso será injusto. Assim, a lei deve estar feita de forma a que a pessoa pobre que apenas tem dez quilos e precisa de tudo para a sua alimentação básica, esteja isenta de pagar impostos. Mas, se a pessoa rica que tem dez mil quilos, pagar um décimo ou dois décimos em impostos sobre os seus produtos, isso não será difícil para ela. Por exemplo, se ela der dois mil quilos, ainda terá oito mil quilos para si. Se uma pessoa tiver cinquenta mil quilos, mesmo que dê dez mil quilos, ainda terá quarenta mil quilos. Portanto, as leis devem ser feitas desta forma. ('Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 83.)
Os Bahá’ís acreditam que os impostos progressivos representam uma forma mais humana de administrar qualquer governo:
... O imposto sobre rendimentos deve ser cobrado da seguinte maneira: Quando o rendimento de uma pessoa totaliza 500$ e as suas despesas necessárias totalizam 500$, ela deve estar isenta de pagar impostos. Outra pessoa cujas despesas totalizem 500$ mas com um rendimento de 1000$ deve pagar um décimo do seu rendimento em impostos, porque tem mais do que necessita para viver e pode pagar 1 décimo do seu rendimento sem problemas. Outra pessoa cujas despesas sejam 1000$ e o seu rendimento 5000$ deve dar 1,5 décimos do seu rendimento, porque tem mais do que precisa. Outra pessoa cujas despesas essenciais sejam 1000$ e tenha um rendimento de 10.000$ deve dar 2 décimos, porque tem mais do que precisa. Outra pessoa cujas despesas sejam 4000$ ou 5000$ e o seu rendimento seja 100.000$ deve dar 1 quarto. Outra pessoa cujo rendimento é 200$ e as suas necessidades actuais (apenas para subsistir) sejam 500$, que faz o seu melhor no seu trabalho, mas que teve azar com as colheitas, essa pessoa deve receber ajuda de um armazém, para que não passe fome, mas tenha uma vida decente.

Em cada aldeia, os meios necessários para apoio a todos os órfãos devem ser recolhidos do armazém. Também para os idosos, os necessitados, os desempregados, a educação, a saúde pública – para todos estes, as dotações devem ser feitas através do armazém. ('Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 9, p. 347)
Assim, na perspectiva Bahá’í, qualquer plano de impostos sobre rendimentos deve ser justo e amplamente inclusivo. Na maioria dos países que cobram impostos, surgiram modelos de deduções, isenções e ajustamentos nas leis fiscais, que favorecem alguns escalões de rendimentos, investimentos e tipos de rendimento. Fortemente influenciados por poderosos lobbies, os parlamentos criam frequentemente excepções, limitações e exclusões que beneficiam injustamente apenas alguns.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que estas excepções injustas e inconsistentes corroem o princípio da justiça equitativa.

Pelo contrário: os princípios Bahá’ís sobre tributação, sendo universais e imparciais, após o ajustamento dos rendimentos, não permitem a fuga de responsabilidades, ou que se coloque sobre qualquer classe económica uma sobrecarga de pagamentos maior do que a justiça permitiria.

No passado, muitas nações isentaram injustamente os ricos de pagamento de impostos e, assim, colocaram a maior parte da carga fiscal sobre as classes média (assalariados), profissionais e aqueles que trabalharam para sobreviver. Actualmente, a miscelânea de distintas políticas fiscais nacionais e a proliferação de paraísos fiscais permitem que os muito ricos - tanto indivíduos como empresas - utilizem métodos quase-legais para minimizar ou mesmo escapar totalmente a qualquer imposto. Os Bahá’ís acreditam que esta situação actual é injusta e só vai desaparecer quando a humanidade construir um sistema tributário internacional equitativo, dirigido por um governo global democraticamente eleito e comprometido com a paz mundial:
Os instrumentos de guerra e morte multiplicaram-se e aumentaram para um nível inconcebível; o peso da manutenção militar sobrecarrega os impostos dos vários países para lá da capacidade de resistência. Exércitos e Marinhas de Guerra devoram os bens e as propriedades do povo; os pobres que trabalham duro, os inocentes e indefesos são forçados pela tributação a fornecer munições e armamentos para os governos decididos a conquistar território e defenderem-se contra poderosas nações rivais. Não há suplício maior ou mais lastimável no mundo da humanidade de hoje do que a iminência da guerra. Portanto, a paz internacional é uma necessidade crucial. Será criado um tribunal arbitral de justiça através do qual devem ser resolvidas as disputas internacionais. Através deste meio qualquer possibilidade de discórdia e guerra entre as nações será evitada. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 317)

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Texto original: Flat Tax or Graduated Tax? (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Como fazer as Empresas pagar impostos
Artigo seguinte: Como acabar com a corrupção?


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de junho de 2016

Após Orlando: defender os direitos humanos das pessoas LGBT

Por David Langness.

Bahá'u'lláh ensinou que um padrão comum de direitos humanos deve ser reconhecido e adoptado. Aos olhos de Deus todos os homens são iguais; não há distinção ou preferência por qualquer alma no domínio da Sua justiça e equidade. (‘Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 181)
Ontem à noite estive num comício e numa vigília com velas na minha pequena cidade no norte da Califórnia para lembrar as vítimas LGBT do massacre Orlando.

Eu fui para lamentar as jovens vidas tão tragicamente perdidas e os graves ferimentos sofridos; para digerir a minha própria mágoa com o horrível abuso da religião, que tipicamente os terroristas fazem para justificar os seus actos irreligiosos; e para sair em defesa de uma comunidade minoritária que sofreu severa perseguição e privação dos seus direitos humanos durante séculos. Fui porque o FBI diz que as pessoas LGBT são o grupo mais frequentemente atingido por crimes de ódio nos Estados Unidos. Fui porque acredito na unidade da humanidade.

Também fui porque a Casa Universal de Justiça, o corpo dirigente global (e democraticamente eleito) da Fé Bahá'í, afirmou o seguinte numa declaração em 2010:
Os Bahá’ís são intimados a eliminar das suas vidas todas as formas de preconceito e a manifestar o respeito para com todos. Portanto, considerar com preconceito ou desdém aqueles com uma orientação homossexual seria contra o espírito da Fé. Além disso, um Bahá’í é incitado a ser "um protector e defensor da vítima da opressão", e seria totalmente apropriado para um crente sair em defesa daqueles cujos direitos fundamentais são negados ou violados.
Enquanto estava ali na vigília com tanta gente, as bandeiras do arco-íris agitavam-se com a brisa, sentia o cheiro das velas acesas, e ouvia um estudante gay a recitar os nomes dos mortos, a minha mente, de repente, levou-me de volta para a Escola Lakeview Elementary, na cidade em que cresci: Moses Lake, Washington.

Na década de 1950, aquela pequena comunidade agrícola nos planaltos centrais do Estado de Washington mostravam todos os tipos de preconceitos comuns da época. Viviam lá duas famílias afro-americanas e a cidade mal os tolerava. Tínhamos uma família latino-americana em Moses Lake e a maioria das pessoas pensava neles como os "mexicanos nojentos". Todo mundo conhecia o agricultor japonês como "o Japa". As mulheres ficavam em casa e cozinhavam, a menos que fossem enfermeiras ou professoras (não havia outra profissão aceitável para as mulheres). Os homens eram homens - machistas, violentos e grosseiros - e qualquer afastamento do papel masculino padrão era visto como depravação ou pior. Os adultos em Moses Lake, com poucas excepções, tinha todos os fanatismos e ódios americanos comuns, e seus filhos normalmente herdavam-nos.

Irónico, não é? Moses Lake (Lago Moisés), uma cidade com o nome de um profeta de Deus, cheia de intolerância e ódio.

Durante a vigília, lembrei-me claramente de um rapaz na minha turma do 5º ano chamado Stanley, apesar de nunca ter pensado nele durante décadas. O Stanley era diferente. Ele tinha uma maneira efeminada e uma figura magra e própria de menina. Ele falava com uma pronúncia estranha. Mexia-se de uma forma delicada e não gostava de praticar desportos ou das brigas no pátio como os outros rapazes. Só fazia amizades com meninas. Os rapazes mais velhos chamavam-lhe "maricas", e eu, na minha inocência de 5º ano, não fazia ideia do que significava essa palavra depreciativa.

Um dia, depois da escola, um grande grupo de rapazes decidiu "apanhar aquele maricas" do Stanley e "dar-lhe uma lição". Estando ali e vendo o grupo a formar-se, tive um enorme desejo de fazer parte dele. Não queria magoar ninguém; só queria, como a maioria das crianças da minha idade, ser aceite, normal e convencional, ser um membro do grupo. Assim, apesar do meu próprio horror interior, corri atrás do Stanley com aquele grupo de rapazes que gritava e vociferava. Tal como uma cena do romance O Deus das Moscas de William Golding, a nossa multidão de cerca de vinte rapazes perseguiu o Stanley e tentou apanhá-lo. Corremos atrás dele, como uma alcateia de pequenos animais ferozes, tentando eliminar do rebanho um não-conformista. Tremo de vergonha, agora que escrevo isto, mas na altura dizia para mim próprio que apenas me estava a divertir, a perseguir alguém diferente para o fazer cumprir as mesmas regras a que todos obedecíamos.

Felizmente para o Stanley, ele foi rápido; correu mais do que nós. A meio da perseguição, porém, eu parei de correr. Não consegui evitar; senti-me profundamente degradado por dentro quando vi Stanley olhar para trás com pânico nos olhos. De alguma forma, percebi, naquele momento e naquele lugar, que nunca queria causar novamente esse tipo de medo e terror a outra pessoa. Não queria voltar a ser parte daquele grupo. Não queria odiar. Percebi, quando pensei nisto, que aquele momento representou um ponto de viragem na minha vida de jovem. No dia seguinte, na escola, encontrei o Stanley e disse-lhe que estava arrependido.

Na vigília pelas vítimas Orlando, fiquei a meditar sobre aquele incidente. Perguntei-me porque é que as pessoas fazem coisas como aquela em que vergonhosamente participei, para tentar levar alguém ou alguma coisa para um caminho diferente. Porque é que rejeitamos, demonizamos, repudiamos e destruímos aqueles que não se assemelham, agem ou crêem como nós? Porque é que os nossos preconceitos - a maioria herdados das nossas famílias e das nossas culturas - determinam as nossas acções tão previsivelmente?

Quando penso no massacre de Orlando e no ódio terrível que este representa, parece-me que a nossa tarefa mais difícil consiste em libertar-nos daqueles velhos preconceitos profundamente enraizados. Mas isso é exactamente isso que os ensinamentos Bahá'ís nos apelam a fazer:
Por esta razão, todos os seres humanos devem apoiar-se fortemente uns aos outros e procurar a vida eterna; e por esta razão os amantes de Deus neste mundo contingente devem tornar-se as misericórdias e as bênçãos enviadas por aquele Rei clemente dos reinos visíveis e invisíveis. Que purifiquem a sua visão e vejam toda a humanidade como folhas, flores e frutos da árvore da existência. Que em todos os momentos se preocupem em fazer algo bondoso para um dos seus semelhantes, oferecendo a alguém o amor, a consideração, e a ajuda atenciosa. Que não vejam ninguém como inimigo, ou que lhes deseje mal, mas que pensem em toda a humanidade como seus amigos; que vejam o estrangeiro como um próximo, o estranho como um companheiro, libertando-se de preconceitos e não construindo barreiras. (‘Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, pp. 1-2)

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Texto original: After Orlando: Defending the Human Rights of LGBT People (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Orlando, as armas de assalto e os seus ferimentos

Por David Langness.


Durante os catorze meses que estive na guerra do Vietname, vi os ferimentos horríveis que as armas de assalto fazem.

Assim, hoje farei orações fervorosas pela recuperação muito difícil das 53 pessoas hospitalizadas em Orlando, Florida, que têm esses tipos de ferimentos. Vou orar também pelos médicos que têm de tratar esses ferimentos graves.

Infelizmente, a maior parte da cobertura mediática sobre a controvérsia das armas de assalto incide sobre as próprias armas, e não sobre os ferimentos que os seus projécteis causam. O recente ataque mortal em Orlando irá, sem dúvida, reacender o debate recorrente nos Estados Unidos sobre a proibição de armas de assalto; mas antes de tomar uma posição sobre o assunto, talvez lhe interesse saber alguma informação adicional que poderá desconhecer.

Esta informação, mesmo que sendo completamente factual, é difícil de digerir. Algumas pessoas ficarão impressionadas; por isso, se é sensível, não continue a ler.

Quando uma arma de assalto de estilo militar dispara o seu carregador circular, a bala é projectada mais rápido e mais longe do que a maioria das outras armas. As balas de armas automáticas AK-47 Kalashnikov chinesa ou de uma M16A1 ou A2 americana - os tipos mais comuns - foram concebidas para produzir altas velocidades de disparo, mas também foram projectadas para rasgar o tecido humano de uma forma única. Em vez de produzir um ferimento de entrada e saída ("through-and-through") - basicamente um orifício em forma de tubo com pequeno diâmetro, nos músculos, ossos ou órgãos - as balas de armas de assalto têm o que balística e médicos especialistas chamam "efeito de guinada". Isso significa que a bala foi concebida para "estraçalhar" ou destruir o corpo atingido, produzindo uma pequena ferida de entrada, mas a criando no corpo uma grande cavidade como ferimento de saída.

É assim que funciona: a bala de uma arma de assalto entra no tecido humano, penetrando 12 centímetros, amolgando-se e desfazendo-se antes de guinar 90ᵒ. Seguidamente, a secção traseira da bala fragmenta-se no corpo, como se fosse uma granada. Esses fragmentos penetram ainda mais no corpo, cerca de 7 cm num padrão circular. Depois, a bala e os seus muitos fragmentos saem do corpo, fazendo um buraco muito maior e mais irregular do que na entrada. Este efeito de guinada, amolgamento e fragmentação - que não ocorre com os revólveres ou espingardas normais usados para a caça - cria ferimentos de saída enormes e assustadores, o que naturalmente mata as vítimas com muito mais frequência do que faz uma arma normal não-militar.

Podemos visualizar o efeito desta maneira: o trajecto destrutivo de uma bala de arma de assalto cria, quando visto de lado, algo semelhante a um cone em vez de um tubo. Podemos imaginar o que isso faz a um corpo humano frágil.

Podemos não gostar de admitir, mas o objectivo principal de armas de assalto militares e das suas balas é produzir a maior carnificina e morte possíveis. Na minha opinião, uma arma de assalto não tem nenhuma utilização alternativa real; é feita para matar seres humanos, e não para ser usada como arma de caça. Uma bala normal atravessa o corpo humano ou animal, produzindo uma saída ferida não muito maior do que o orifício de entrada. Mas a bala de uma arma de assalto destrói a maior quantidade de tecido possível, tornando a morte por ferimento muito mais provável. Quando médicos e enfermeiros tentam curar essas feridas, percebem que são tremendamente mais difíceis de tratar e recuperar, porque fizeram um enorme estrago. Perguntem-me como é que eu sei.

Nos Estados Unidos, apesar das sondagens revelarem que cerca de três quartos da população apoiaria uma proibição total de armas de assalto de estilo militar, estas encontram-se disponíveis para venda e posse legal em quase todos os Estados. Hoje, após o massacre de Orlando, o presidente dos Estados Unidos afirmou: "Temos de decidir se esse é o tipo de país que queremos ser".

Os ensinamentos Bahá'ís designam estas armas de guerra - feitas exclusivamente para aniquilar outros seres humanos - "os frutos malignos da civilização material:"
Considerai! Estes navios de guerra que reduzem uma cidade a ruínas, no espaço de uma hora são o resultado da civilização material; da mesma forma, os canhões Krupp, as espingardas Mauser, a dinamite, os submarinos, os torpedeiros, os aviões armados e os bombardeiros - todas essas armas de guerra são os frutos malignos da civilização material. Se a civilização material tivesse sido combinada com a civilização divina, estas armas de fogo nunca teriam sido inventadas. Não, pelo contrário; a energia humana teria sido inteiramente dedicada a invenções úteis e ter-se-ia concentrado em descobertas louváveis. A civilização material é como uma lâmpada de vidro. A civilização divina é a própria lâmpada e o vidro sem a luz é escuro. A civilização material é como o corpo. Não importa o quão infinitamente gracioso, elegante e belo ele seja; ele está morto. A civilização divina é como o espírito, e o corpo obtém a sua vida do espírito; caso contrário torna-se um cadáver. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 303)
Os Bahá’ís apoiam a proibição da posse de armas de assalto de estilo militar por civis? Os Bahá’ís olham para a questão de uma perspectiva diferente, mais macroscópica; na verdade, em vez de simplesmente proibir as armas, os ensinamentos Bahá'ís pretendem transformar a sociedade em geral, que condena o seu uso. Em vez de um tratamento dos sintomas, os Bahá’ís querem curar totalmente a doença. Queremos criar uma cultura global pacífica, harmoniosa e unida. Os Bahá’ís querem combinar a civilização material com a civilização divina, e inculcar os valores espirituais que Bahá'u'lláh ensinou a todos os povos.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que se não conseguirmos fazer isso, iremos apenas enfrentar mais do mesmo:
A escuridão da noite encobriu todas as regiões, e toda a Terra se encontra velada por nuvens densas. Os povos do mundo estão submersos nas profundezas obscuras de ilusões vãs, enquanto os seus tiranos nadam em crueldade e ódio. Nada vejo salvo o clarão dos fogos devoradores e ardentes que se erguem nos abismos mais profundos; Nada ouço salvo o estrondo ameaçador do ribombar de milhares e milhares de armas de ataque impetuosas, enquanto toda a terra brada, em voz alta, na sua língua secreta: "As minhas riquezas de nada me valem e minha soberania pereceu!" ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 272)

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Texto original: Orlando, Assault Weapons and “Yaw” (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 11 de junho de 2016

Como fazer as Empresas pagar impostos

Por David Langness.


Deixem-me fazer-te uma pergunta
O teu dinheiro é assim tão bom
Será que ele te compra o perdão
Pensas que conseguia?
Eu penso que descobrirás
Quando a tua morte te cobrar
Que todo o dinheiro que fizeste
Nunca conseguirá comprar novamente a tua alma (Bob Dylan, Masters of War)
Aquelas almas que estão apegadas a este mundo e à sua riqueza estão privadas de progresso espiritual. ('Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 122)
Há muitos países têm sistemas de sigilo bancário. A Suíça, com as suas leis bancárias confidenciais e as suas contas numeradas, é provavelmente o caso mais conhecido. Mas nas últimas décadas, conforme demonstram os recém-revelados “Papéis do Panamá”, muitos outros países se têm tornado "paraísos fiscais" secretos, onde pessoas ricas, empresas e sociedades de fachada podem movimentar disfarçadamente o dinheiro, esconder os seus activos e evitar o pagamento de impostos nos seus países de origem. Lugares como as Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Cayman, St. Kitts e Nevis, Vanuatu e o Luxemburgo têm funcionado como paraísos fiscais, e muitas outras pequenas e médias nações também escondem riqueza com leis bancárias opacas, regulamentos de não-tributação e políticas rígidas de sigilo.

Cerca de 75% dos Hedge Fund (fundos de cobertura) mundiais têm os seus milhares de milhões nas Ilhas Caimão, por exemplo. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) define um paraíso fiscal como tendo três características principais: ausência de impostos, ou somente as taxas nominais; confidencialidade da informação financeira pessoal (o que significa nenhuma transmissão de dados financeiros para outros governos); e falta de transparência.

Como funciona? Bem, vamos dizer que o leitor possui uma quantia significativa de dinheiro e não quer pagar impostos sobre essa quantia. Criando uma empresa de fachada nas Ilhas Cayman ou noutro paraíso fiscal, é possível contornar as leis fiscais do seu próprio país, ocultando os seus fundos nessa empresa

Os bilionários, os criminosos e os seus parceiros, empresas multinacionais e políticos corruptos, sabem - todos eles - que as diferentes leis tributárias dos diversos países do mundo podem ser usadas para obter vantagens financeiras. Apesar das tentativas de várias nações para forçar as outras a revelar a verdadeira riqueza de pessoas e empresas, ainda existem muitos bancos sem escrúpulos, instituições financeiras e países dispostos a esconder riqueza, ocultar activos e evitar a tributação legítima. Em muitos locais, esses tipos de práticas até são legais. Neste aspecto, as empresas multinacionais têm uma enorme vantagem, porque podem explorar as lacunas e as diferentes leis fiscais de vários países, abrindo filiais em paraísos fiscais e movimentando os seus lucros através dessas nações.

As estratégias de evasão fiscal da empresa americana Google são um bom exemplo. A Google licencia as suas tecnologias - principalmente o seu motor de busca e as receitas de publicidade que este gera - a subsidiárias em países onde não se pagam impostos ou onde os impostos são muito baixos, como Bermuda, Bahamas, Holanda e Irlanda. Isso significa que o Google paga pouquíssimos impostos no seu país de origem, os Estados Unidos; na verdade, paga menos do que qualquer outra grande empresa tecnológica. A Apple e outras empresas tecnológicas multinacionais funcionam de forma semelhante, e apesar de terem lucros enormes, descobriram como evitar o pagamento de grande parte dos impostos sobre os lucros. Como consequência, multiplicam-se as investigações governamentais sobre essas empresas e as suas práticas, com a França, o Reino Unido e os Estados Unidos activamente a tentar obrigar essas empresas a pagar a sua parte justa de impostos, mas até agora tiveram pouco sucesso.

De facto, em 2014 a agência de notícias Reuters publicou uma série de histórias sobre as estratégias de evasão fiscal das grandes empresas multinacionais americanas como a Apple, a Microsoft e a General Electric. Essas estratégias incluíram uma técnica contabilística conhecido como o esquema "Irlandês Duplo com Sanduíche Holandesa" (Double Irish with a Dutch sandwich), que reduz drasticamente os impostos através do encaminhamento lucros para subsidiárias irlandesas e para os Países-Baixos e, em seguida, para as Caraíbas. A Reuters informou que a Apple, de acordo com os seus próprios números, teve em 2013, um lucro off-shore de 54,4 mil milhões de dólares e, no entanto, não pagou qualquer imposto sobre rendimentos nos EUA. Segundo a lei dos EUA, as empresas não são obrigados a pagar impostos de rendimentos sobre lucros no estrangeiro, enquanto esses lucros não entrarem fisicamente nos Estados Unidos. No total, a Reuters revelou que as grandes empresas americanas tinham retido 2,1 biliões de dólares de lucros em 2013, e não pagaram qualquer imposto nos EUA sobre esses lucros.

Apenas uma solução potencial para este tipo de evasão fiscal pode efectivamente acabar com esta corrupção desenfreada (mas por vezes legal): uma lei fiscal global e uniforme.

Do ponto de vista Bahá’í, essa lei fiscal global, aplicada por um organismo governamental internacional democrático, seria aplicada de forma justa e equitativa em todo o mundo. Com a aplicação de uma lei universal, nenhum indivíduo ou empresa poderia fugir ao pagamento de impostos legítimos, porque uma lei fiscal internacional seria aplicada em todo o mundo. Nenhuma empresa multinacional, instituição bancária ou nação poderia "jogar com o sistema" através da criação de empresas de fachada ou encaminhamento de fundos para locais diferentes. O mundo seria realmente um único país, especialmente para fins fiscais, e seria de esperar que todos contribuíssem com a sua quota-parte.

É óbvio que quando isto acontecer, os impostos globais não vão aumentar - vão diminuir consideravelmente, talvez até de forma brusca. E porquê? Porque os biliões de dólares que agora se ocultam em paraísos fiscais seriam equitativamente tributados, reduzindo a carga fiscal sobre todas as outras pessoas. Os super-ricos não teriam onde esconder as suas fortunas, e teriam de pagar impostos como todos nós. As empresas multinacionais teriam de enfrentar uma autoridade tributária internacional, sem que existissem paraísos fiscais como possíveis esconderijos.

O princípio espiritual aqui em causa - a aplicação global de uma lei fiscal universal equitativa, proporcional e justa, imparcial - libertaria o mundo de muita corrupção, garantiria as receitas suficientes aos governos para cuidar das necessidades básicas de todas as pessoas, e permitiria construir um mundo onde todos pudessem viver com dignidade:
Todos devem ser produtores. Cada pessoa na comunidade cujas necessidades são iguais à sua capacidade individual de trabalho deve estar isenta de impostos. Mas se o seu rendimento é maior do que as suas necessidades, ela deve pagar uma taxa até que exista um ajustamento. Isto significa que a capacidade de produção de um homem e as suas necessidades serão compensadas e reconciliadas através dos impostos. Se a sua produção excede, ele pagará um imposto; se as suas necessidades excederem a sua produção, ele deve receber uma quantidade suficiente para compensar ou ajustar. Portanto, a tributação será proporcional à capacidade e à produção, e não haverá pobres na comunidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 217)

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Texto original: How to Get Corporations to Pay Their Taxes (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.