domingo, 15 de julho de 2018

Deus faz perguntas; nós também devemos fazer

Por Christopher Buck.


Sabia que Deus faz perguntas? Poderíamos responder a esta questão com outras perguntas: “Onde? Como?”.

Nesta série de artigos temos tentado mostrar como as perfeições divinas - que o próprio calendário Baha’i apresenta - podem ser transformadas em boas acções.

Surpreendentemente, “Perguntas” (em árabe, masa’il) é apresentado pelo Báb - que criou o calendário Bahá'í - como um atributo de Deus. Assim, vamos analisar este “Nome de Deus” que é simultaneamente invulgar e notável.

Ao dizermos que “Deus faz perguntas”, isto refere-se às várias Escrituras que representam Deus a colocar uma questão com um propósito divino. Na verdade, não é Deus que pessoalmente faz uma pergunta, porque Deus não é uma pessoa (apesar de podermos ter uma relação pessoal com Ele).

As Escrituras Bahá’ís vêem Deus como uma Essência incognoscível. Eu costumo dizer que “Deus é o supremo mistério com o maior número de pistas!”. Estas pistas - vestígios maravilhosos da grandeza do Grande Ser que se encontram por todo o mundo - reflectem a inteligência suprema que concebeu o nosso universo.

A “pessoa” de Deus é aquilo a que os Bahá’ís chamam o “Manifestante de Deus” - os profetas e mensageiros que fundaram as religiões mundiais. Por outras palavras, Deus comunica connosco através de vários mensageiros que têm aparecido em momentos chave da história para espiritualizar e guiar a humanidade.

Entre estes embaixadores, interlocutores, representantes, professores e exemplos de Deus estão os fundadores das grandes religiões do mundo, que revelaram as Escrituras que tomaram a forma dos vários livros sagrados que hoje podemos ler facilmente na Internet.

Assim, ao dizer “Deus faz perguntas”, isto significa apenas que, ciclicamente, em várias Escrituras, Deus é representado a fazer perguntas, levando-nos a fazer uma pausa para pensar. Aqui temos um exemplo:
Ouviram, então, a voz do Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim. Mas o Senhor Deus chamou o homem e disse-lhe: «Onde estás?» Ele respondeu: «Ouvi a tua voz no jardim e, cheio de medo, escondi-me porque estou nu.» O Senhor Deus perguntou: «Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura, da árvore da qual te proibi comer?» O homem respondeu: «Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi.» O Senhor Deus perguntou à mulher: «Porque fizeste isso?» A mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi.» (Genesis 3:8–13; perguntas a sublinhado)
Aqui, a frase que refere o “Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde” é uma metáfora para descrever a “presença do Senhor Deus”. De outra forma, a ideia de que Deus ia caminhar pelo Jardim do Eden à procura de Adão e Eva, tentando saber onde estavam e não os conseguindo encontrar, não tem credibilidade. A interpretação literal destas palavras leva-nos a alguns absurdos. Para compreender o seu significado mais profundo, devemos ler esta narrativa numa perspectiva espiritual.

Este exemplo em que Deus faz perguntas é conhecido para a maioria dos Judeus e Cristãos. Vejamos agora um outro exemplo, conhecido para a maioria os Muçulmanos: “Moisés, o que é isso que tens na tua mão direita?” (Alcorão 20:17)

O Báb referiu-Se a esta pergunta num breve comentário revelado em árabe (disponível on-line aqui Javāb-i Su’āl az Istifhāmāt-i Qur’ān). Este texto ainda aguarda tradução. Na versão online, o texto árabe é difícil de ler. No entanto, um estudioso Baha’i, Armin Eschraghi, elaborou um breve resumo.

Este pequeno resumo diz o seguinte: O Báb afirma que as perguntas colocadas por Deus no Alcorão (tais como: “Moisés, o que é isso que tens na tua mão direita?”) na realidade não são perguntas. Estas possuem diferentes níveis de significados (que o Báb descreve como sendo oito) e, segundo o Báb, quem tiver percepção perceberá que as questões são simultaneamente respostas claras, tal como as alusões são afimações claras. (Armin Eschraghi, numa conferência)

A pergunta feita por Deus, nos exemplos anteriores, parecem ser questões de responsabilidade e auto-consciência. As respostas às questões são bastante óbvias. É óbvio que Deus estava a fazer perguntas em benefício do próprio Adão (no excerto dos Genesis anteriormente citado) e em benefício de Moisés (no excerto do Alcorão também citado).

Assim, isto leva-nos: “Se Deus faz perguntas, também deveremos nós fazê-las?” A resposta é, obviamente, um “Sim!” Isto leva-nos, então, para o tema da responsabilidade.

O que significa “responsabilidade”? O dicionário da Porto-Editora diz:
Qualidade de quem é responsável; obrigação de responder por actos próprios ou alheios, ou por uma coisa confiada.
Por outras palavras, trata-se de ser responsável pelas próprias acções. Fazer perguntas a nós próprios é uma forma de reflectir sobre o que fizemos, o que precisamos de fazer e a melhor maneira de o fazer.

Segundo os ensinamentos Bahá’ís, existe uma forma muito prática de fazer isto. Bahá'u'lláh escreveu:
Ó Filho do Ser! Avalia-te a ti próprio, em cada dia, antes de seres chamado ao juízo final, porque a morte chegar-te-á sem aviso, e serás chamado a responder pelos teus actos. (As Palavras Ocultas, do árabe, #31)
No fundo, o que temos de fazer - até morrer - deve ser feito na vida real, enquanto temos tempo para agir sobre qualquer problema que sejamos chamados a resolver. Avaliar as nossas próprias acções inclui perguntarmos a nós próprios se as nossas acções diárias foram boas ou más, se foram úteis ou não, como prosseguir, como nos melhorarmos a nós próprios e melhorar o mundo ao nosso redor.

Pensemos nas questões como se se tratasse de uma busca de conhecimento. Com excepção das coisas que aprendemos passivamente, a aquisição de conhecimento começa com questões. Quando a curiosidade é viva e dinâmica, perseguimos os nossos interesses com entusiasmo e energia. Assim, o conhecimento começa com perguntas. E quando uma pergunta nos leva a uma resposta, a resposta pode levar a outra questão. As duas estão ligadas.

Fazer perguntas desperta e expande a nossa consciência. Por exemplo, podemos questionar-nos com perguntas existenciais que estão relacionadas com a existência - e sobre o propósito e significado da própria vida. Podemos também fazer as perguntas práticas: como resolver problemas, cumprir metas, melhorar-nos a nós próprios, servir a humanidade e contribuir para uma civilização em constante progresso

As perguntas motivam. As perguntas geram conhecimento. As perguntas cumprem um primeiro princípio Bahá’í: “Procurar a verdade”. As perguntas ajudam cada um de nós na sua investigação independente da realidade. As perguntas abrem as mentes. As perguntas alimentam para o pensamento. As perguntas nutrem a alma. As perguntas mantêm-nos activos e mentalmente aptos, espiritualmente despertos, conscientes de que há muita coisa por descobrir, muito a aprender e muito a ensinar.

Quando encontramos respostas para as perguntas, adquirimos conhecimento; então podemos servir como recursos para as perguntas dos outros. Como ex-professor, aprendi rapidamente que uma das melhores maneiras de envolver os alunos é fazer-lhes perguntas interessantes - não as perguntas temidas sobre os trabalhos de casa ou as leituras obrigatórias atribuídas na aula anterior, mas perguntas sobre questões relevantes e importantes.

As perguntas estão no coração do conhecimento. As perguntas inspiram. Fazem-nos crescer. As perguntas são divinas.

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Texto original: God Asks Questions: We Should, Too (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

domingo, 8 de julho de 2018

Recordando o Martírio do Báb

Pelos editores do site Bahaiteachings.org.


Porque é que a humanidade persegue os profetas? Ciclicamente, temos perseguido e maltratado terrivelmente os novos mensageiros de Deus, respondendo às Suas mensagens de paz com a nossa raiva e violência.

Por alguma razão estranha, os nossos governantes têm reagido mal aos fundadores das grandes religiões do mundo, perseguindo-os de formas horríveis. Abraão e Moisés enfrentaram a prisão, o exílio, o ridículo e a perseguição. Krishna e Buda sofreram o escárnio e censura oficial. Os líderes da sociedade crucificaram Cristo; fizeram guerra contra Maomé; torturaram, exilaram e encarceraram Bahá'u'lláh; e executaram o Báb.

O Báb fundou a religião precursora da Fé Bahá’í - Ele foi o Arauto de um novo sistema de crença e era, Ele próprio, um profeta de Deus. Ele deu início uma nova religião progressista numa das sociedades mais corruptas e atrasadas do mundo. Como consequência, sofreu tremendamente; mas depois de ter sido executado, a Fé Bábi abriu o caminho para o surgimento global da Fé Bahá’í, tal como João Batista tinha feito para a nova Fé de Jesus no início da era cristã.

A história do Báb começou há menos de dois séculos. O Báb (que em árabe significa “porta”) começou a sua nova Fé em 1844. Emergindo do misticismo profético Sufi - prevalente na Pérsia do século XIX - a mensagem do Bab que anunciava o futuro aparecimento de uma grande revelação mundial, incendiou a cultura muçulmana xiita muito agarrada à tradição.

No início, poucas pessoas conheciam o Báb e a Sua mensagem; mas depois, dezenas de milhares de pessoas começaram a tornar-se Bábis, rompendo radicalmente com as tradições e práticas islâmicas da sociedade. A própria existência da Fé Bábi questionava a autoridade dos líderes religiosos islâmicos da Pérsia. Na verdade, o rápido crescimento da Fé Bábi era um desafio para os alicerces fundamentais da sociedade persa.

Como se pode imaginar, os clérigos e governantes da Pérsia não foram receptivos, nem simpáticos, para com este novo desenvolvimento religioso.

Apenas seis anos após o anúncio da nova Fé pelo Báb em 1844, o governo ordenou a execução deste mensageiro intensamente carismático, que tinha então apenas trinta anos de idade. O governo persa e o clero islâmico torturam e mataram mais de 20.000 seguidores fervorosos do Báb durante a curta, mas intensa, vida do movimento Bábi.

Tudo isto aconteceu quando as pessoas começaram a aderir aos novos ensinamentos espirituais do Báb. Porque o Bab apelou a mudanças revolucionárias nos sistemas prevalecentes de governação e de crença religiosa, e porque Ele proclamava a unidade de todas as religiões, as autoridades temeram que este novo desafio e o seu apoio crescente os tirassem rapidamente do poder.

Santuário do Báb, no Monte Carmelo
Independentemente de toda a perseguição contra os Bábis, cada vez mais pessoas continuaram a tornar-se seguidores do Báb. Em 1850, com medo da sua crescente influência, e desesperados para esmagar o movimento Bábi, as autoridades tomaram a decisão de executar o Báb. Quando o acusaram de apostasia - exactamente a mesma acusação que os fariseus levantaram contra Jesus - o Báb recusou arrepender-Se ou a refutar os Seus ensinamentos, e aceitou calmamente as consequências.

Em 9 de Julho de 1850, surgiu a ordem para que o Báb fosse executado por um pelotão de fuzilamento na praça da cidade de Tabriz, na Pérsia. Um jovem chamado Anis, um dos jovens seguidores do Báb, insistiu em acompanhá-Lo na morte e as autoridades consentiram esse pedido. Uma multidão de dez mil pessoas observava enchendo a praça e os telhados do quartel e das casas próximas em torno da praça.

Mas surgiu uma séria complicação - no início da manhã, Sam Khan, o comandante do regimento de soldados arménios encarregados de executar o Báb, pediu perdão antecipadamente. "Eu professo a fé cristã", disse o oficial ao Báb na sua cela, "e não vos desejo mal. Se a Vossa Causa é a Causa da Verdade, fazei com que me liberte da obrigação de derramar o vosso sangue."

O Báb disse gentilmente ao comandante: "Obedece às tuas ordens, e se tua intenção for sincera, o Todo-Poderoso certamente será capaz de te aliviar de tua perplexidade".

Ao meio-dia, quando Sam Khan deu a ordem para disparar, os mosquetes soaram. A multidão ficou surpresa, quando o fumo dos mosquetes se dissipou, porque o Báb tinha desaparecido. O seu devoto seguidor ficou completamente ileso junto à parede, as cordas que o prendiam ao Bab estavam desfeitas em pedaços. Com o espanto, a multidão gritava que tinha testemunhado um milagre. Sam Khan, agora aliviado da sua perplexidade, ordenou imediatamente ao seu regimento que saísse do local, jurando que nunca mais iria obedecer a tal ordem, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

Depois das tropas de Khan terem abandonado a praça, o coronel da guarda oficial de Tabriz ofereceu-se para chefiar a execução. Quando os guardas encontraram o Báb na sua cela terminando tranquilamente uma conversa, amarraram-No novamente com cordas, juntamente com o seu jovem seguidor.

Enquanto o novo regimento se preparava para dispara, o Báb dirigiu as Suas últimas palavras à multidão:
"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria sacrificado no Meu caminho. Virá o dia em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco." (citado por Shoghi Effendi, God Passes By, p. 53)
Depois, o segundo pelotão de fuzilamento apontou e disparou. Desta vez, a execução terminou conforme esperado.

Hoje, os corpos juntos e desfigurados do Báb e do seu fiel seguidor repousam sob uma cúpula dourada no Monte. Carmelo, em Haifa, na Terra Santa. Milhões de pessoas de todo o mundo visitam esse lugar sagrado, e todos os dias o Santuário do Báb proclama ao mundo a mensagem de unidade, paz, amor e abnegação Bahá’í.

Em todo o mundo, os Bahá’ís assinalam o Martírio do Báb ao meio-dia de 9 de Julho, acreditando que o Báb iniciou um novo ciclo de revelação progressiva para a humanidade. Os seus novos ensinamentos abriram o caminho para a nova mensagem de Bahá’u’lláh, e o Seu derradeiro sacrifício deu-nos uma nova visão de um mundo unificado.

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Texto original: Remembering the Martyrdom of the Bab (www.bahaiteachings.org)

sábado, 30 de junho de 2018

'Abdu’l-Bahá, Darwin, e a Evolução de Todas as Coisas

Por Robert Sockett.


O livro de Charles Darwin A Origem das Espécies foi publicado em 24 de Novembro de 1859 e chegou aos leitores americanos dois meses mais tarde. As teorias da evolução tinham começado a ser divulgadas nas décadas anteriores à publicação do livro, incluindo aquelas que sugeriam que as espécies se podiam modificar ao longo do tempo. Estas teorias eram controversas e receberam a oposição da comunidade científica, pois eram contrárias à noção ortodoxa de uma hierarquia de criaturas vivendo num sistema imutável criado por Deus.

Charles Darwin, em 1859
O livro de Darwin não só defendia a evolução, mas também apresentava uma apelativa teoria sobre como funcionava. Explicava que na luta pela vida nos sistemas naturais, as populações mais adaptadas ao ambiente têm maior probabilidade de sobreviver e, consequentemente, de se reproduzir. Estas populações deixam características hereditárias para as futuras gerações - um processo a que Darwin chamou “selecção natural” - e ao longo do tempo, o acumular de variações resultantes provoca a formação de novas espécies.

O livro gerou uma vasta discussão em círculos científicos, filosóficos e religiosos. Teólogos liberais receberam com agrado as suas ideias, afirmando que as ideias religiosas não podem permanecer estagnadas. Outros declararam que a ideia era neutra do ponto de vista metafísico. Mas gradualmente, as suas implicações tornaram-se inegáveis. Se a ciência podia explicar a criação de formas de vida cada vez mais complexas em termos puramente materiais, então, talvez não existisse uma razão indiscutível para acreditar num Criador.

Na tarde de 10 de Outubro de 1912, ‘Abdu’l-Bahá falou no Open Forum em São Francisco - um grupo dedicado à discussão de ideias económicas e filosóficas - e abordou o tema da evolução. Ele defendeu a evolução, embora com diferenças críticas em relação à mecânica física da teoria de Darwin, e apresentou um conjunto totalmente diferente de conclusões metafísicas.

A primeira página do edição britânica
do livro "A Origem das Espécies"
(1859)
O segundo livro de Darwin sobre a teoria da evolução, The Descent of Man (traduzido em Portugal como “A Origem do Homem” e no Brasil como "A Descendência do Homem") foi publicado em 1871, e traça analogias biológicas com babuínos, cães e “selvagens” para mostrar provas de que os humanos descendem dos animais. Em São Francisco, em 10 de Outubro de 1912 ‘Abdu’l-Bahá elaborou uma definição mais precisa sobre aquilo que diferencia humanos dos animais. Entre estes aspectos críticos, disse Ele, encontram-se a razão, o pensamento abstracto e o progresso científico. O animal, afirmou, está limitado pelos seus cinco sentidos e vive inteiramente dentro dos ditames do instinto natural. “[Todos] os fenómenos”, declarou, “estão cativos da natureza.

Mas o ser humano é a excepção a esta regra. “Ao desafiar as leis da natureza,” argumentou ‘Abdu’l-Bahá, “ele pode voar no ar, ou navegar pelos mares num barco, ou explorar as profundezas num submarino. Ele pode colocar numa lâmpada incandescente uma força tremenda e poderosa, e transformá-la para uso próprio.” ‘Abdu’l-Bahá apresentou outros exemplos de invenções notáveis da época, nomeadamente, o fonógrafo e o telefone.

Em resumo”, afirmou, “todas artes e ciências, invenções e descobertas que agora o homem usufruiu eram outrora mistérios da natureza e deveriam ter permanecido ocultos ou latentes. Mas através das faculdades ideais do homem, as leis da natureza foram desafiadas e os segredos da natureza foram trazidos do invisível para o plano do visível.”

No entanto, apesar destas características distintivas, ‘Abdu’l-Bahá notava que os filósofos materialistas “esforçam-se por provar com a anatomia humana que o homem originou do animal.” ‘Abdu’l-Bahá concordava que o homem tinha sofrido alterações biológicas ao longo do tempo. “Suponhamos”, disse ele, “que a anatomia humana era primordialmente diferente da forma actual… que numa época foi semelhante a um peixe, posteriormente um invertebrado e finalmente humano.” No entanto, ao longo desta progressão, defendeu Ele, “o desenvolvimento do homem foi sempre do tipo humano e do tipo biológico.” [sombreado adicionado]

Os debates sobre a Evolução foram uma fonte de
inspiração para os caricaturistas americanos.
Em 1904, na Palestina, ‘Abdu’l-Bahá, respondendo a Laura Clifford Barney, descreveu como se desenvolvem as entidades complexas. ”[O] crescimento e desenvolvimento de todos os seres é gradual,” disse-lhe, “esta é a organização divina universal e o sistema natural.

A palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum foi uma das mais longas e complicadas que Ele deu quando esteve na América. Mas a sua lógica subjacente assenta em dois princípios. Primeiro, apesar dos seres humanos se terem desenvolvido biologicamente ao longo de muitas fases da evolução, sempre estiveram destinados a serem humanos, desenvolvendo o seu potencial latente ao longo do tempo. Segundo, as qualidades que nos distinguem – razão, pensamento abstracto, progresso científico, e outras coisas - não são apenas pequenos diferenciadores, mas antes características que nos separam essencialmente dos animais.

Um elemento adicional na abordagem de ‘Abdu’l-Bahá à teoria da evolução de Darwin e que não foi abordado na sua palestra em São Francisco, foi documentado pela Sra Barney durante a sua estadia na Palestina, e publicado em 1908 no livro Respostas a Algumas Perguntas. ‘Abdu’l-Bahá discordava da noção de Darwin de que a evolução era “cega”, não tendo sentido ou propósito. Pelo contrário, Ele argumentou que o esquema evolutivo era parte do plano divino. O aparecimento dos humanos, afirmou, era o culminar de um processo. De facto, a criação seria imperfeita e incompleta sem os humanos.

Durante o "Julgamento Scopes", T.T. Marin,
Cristão evangélico e militante anti-evolução
alugou uma livraria para divulgar as suas ideias.
Treze anos após a palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum, o debate sobre a evolução na América atingiu um clímax com o infame “Julgamento Scopes”. O Estado do Tennessee aprovou uma lei que proibia o ensino da evolução nas escolas estatais. A União Americana pelas Liberdades Civis financiou uma situação em que John Scopes, um professor do ensino secundário, concordou em violar a lei. Os Estados Unidos tinham a sua atenção fixada em duas figuras lendárias: William Jennings Bryan (três vezes candidato presidencial) que promovia a acusação e o famoso advogado Clarence Darrow que defendeu Scopes.

Quando o julgamento acabou, estava definida uma clara linha de separação: num dos lados, a ciência construiu trincheiras e uma fortaleza ao seu redor; do outro lado, os fundamentalistas religiosos agarravam-se firmemente a uma interpretação literal da história da criação na Bíblia. Quem defendia o diálogo ou um entendimento mais sofisticado do assunto, viu as suas opiniões cada vez menos ouvidas no espaço público.

[NOTA: as citações da palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum usadas neste artigo foram recolhidas dos documentos de Ellen Cooper, nos arquivos Nacionais Bahá’ís dos Estados Unidos.]

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Texto original: Abdu’l-Baha, Darwin, and the Evolution of All Things (http://239days.com/)

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Robert Sockett é um escritor, produtor e director artísticos que vive em Toronto, (Canadá). É co-autor e produtor do site 239 Days in America, A Social Media Documentary, ed. Jonathan Menon and Robert Sockett, October 11, 2012, que documenta e descreve a visita de ‘Abdu’l-Bahá à América do Norte em 1912.

sábado, 23 de junho de 2018

Quando a religião degenera, surge uma nova Fé



Ao longo da história humana, quando os períodos de descrença, separação e degeneração religiosa atingiam o seu apogeu, surgiu sempre uma nova Fé.

Tal como numa floresta saudável, quando as árvores antigas caem e morrem, as novas árvores tomam o seu lugar.

Este ciclo constante de declínio e renovação sempre esteve presente no nascimento de cada uma das grandes religiões.

Por exemplo: os fundadores do Judaísmo, do Budismo, do Islão e do Cristianismo, surgiram em momentos em que os destinos da sociedade se encontravam no ponto mais baixo do seu declínio e a anterior dispensação religiosa tinha perdido o seu poder espiritual inicial. Nesses momentos as religiões existentes definhavam no sectarismo, conflito e hostilidade aberta. As civilizações tinham enfraquecido. A espiritualidade colectiva de toda uma cultura tinha-se deteriorado. A luz da lâmpada de Deus quase se extinguira.

E depois, metaforicamente, surgia um novo dia:

… o Sol da Realidade, quando ilumina o horizonte do mundo interior, anima, vivifica e desperta com um poder divino maravilhoso. As árvores das mentes humanas adornam-se com túnicas novas e verdejantes, mostrado folhas e rebentos, e gerando frutos celestiais de boas novas celestiais. Depois, flores de significados interiores surgem no solo das almas humanas, e todo o ser humano desperta para uma nova actividade divina. Este é o crescimento e o desenvolvimento do mundo interior feito através da luz esplendorosa da orientação divina e do calor do fogo do amor de Deus.

O sol físico ergue-se e põe-se. O mundo terrestre tem o seu dia e a sua noite. Após cada ocaso do sol, segue-se uma alvorada e o nascimento de um novo dia. De igual modo, o Sol da Realidade, tem o seu ocaso e a sua madrugada. Existe dia e noite no mundo da espiritualidade. Após cada partida, existe um regresso, e surge a luz de um novo dia. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 271)

Hoje, vemos a dinâmica deste processo cíclico em acção no mundo, com as pessoas decepcionadas com as religiões dos seus pais, questionando-as e abandonando em números cada vez maiores aquelas tradições antiquadas. No fundo, se todas aquelas tradições perderam o seu significado interior, o seu sentido, a sua vitalidade, então porque continuariam as pessoas a segui-las?

Esta energia inquisitiva e incansável leva as pessoas a embarcar numa busca espiritual, a procurar algo que dê às suas vidas, sentido, propósito e clareza. Essa energia espalhou-se pelo nosso mundo contemporâneo. Buscadores de antigas tradições e fés seguiram o seu próprio percurso individual, tentando encontrar um novo caminho para compreender a realidade e saciar a sua fome espiritual.

Os ensinamentos Bahá’ís encorajam esta busca:

Sabei em verdade que o buscador deve, no início da sua busca por Deus, entrar no Jardim da Busca. Nesta viagem compete ao caminhante desprender-se de tudo salvo de Deus e fechar os seus olhos para tudo o que está nos céus e na terra. Não deve demorar o seu coração no amor ou no ódio por qualquer alma, pois isso pode impedi-lo de alcançar a morada da Beleza celestial. Deve santificar a sua alma dos véus da glória e abster-se de se vangloriar de vaidades mundanas, conhecimento exterior e outras dádivas que Deus lhe possa ter concedido. Deve procurar a verdade com a maior destreza e empenho, para que Deus o guie nos caminhos do Seu favor e nos caminhos da Sua misericórdia. (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, p. 18)

Mas porque é que entrámos neste tempo de procura e questionamento? Porque é que, mais do que nunca, existem pessoas que se descrevem como buscadores sem nenhuma religião em particular e sem qualquer sistema de crença formal?

Na perspectiva Bahá’í, este espírito inquisitivo é um desenvolvimento saudável, uma resposta adequada e compreensiva à necessidade de renovação da religião, e um novo sentido de possibilidades espirituais.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a religião é um sistema orgânico único que necessita de renovação periódica – o que oferece uma enorme esperança a todos os que, de forma independente, procuram a verdade:

Assim é que, através do aparecimento destes Luminares de Deus o mundo é renovado, as águas da vida eterna jorram, as ondas da amorosa generosidade elevam-se, as nuvens da graça acumulam-se, e as brisas das dádivas sopram sobre todas as coisas criadas. (Bahá’u’lláh, The Bookof Certitude, ¶31)

Os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que compreendamos todas as religiões e o seu ciclo de renovação como um único processo evolutivo em vez de acontecimentos fixos e dogmáticos que aconteceram uma vez no passado. Despertam-nos suavemente e pedem-nos que vejamos o amanhecer do novo dia.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 16 de junho de 2018

Superar o medo: uma pena na brisa da vontade de Deus.



Os meus pensamentos levam-me a uma cena de um filme. Uma pena é soprada pelo vento e levada pelo ar. Voa até ao topo de umas árvores e depois desce até junto dos pés de Forest Gump.

E no final do filme, aquela pena voa novamente para o céu simbolizando o fluir constante das nossas vidas. No caso de Forest Gump, ele era uma alma tão pura que nunca andava contra a corrente, e preferia sempre entregar-se à vontade de Deus. Submetia-se - com um coração puro, afectuoso e radiante - a tudo o que a vida lhe dava.

A vida é como uma caixa de chocolates. Nunca sabemos que vamos encontrar lá dentro” era a sua famosa frase; e ficava grato por tudo o que recebia.

Como é que podemos tornar-nos tão puros de coração? Como podemos andar sobre as brisas da vontade de Deus? Aliviar o peso do ego torna os nossos espíritos mais leves. Quando não seguimos as nossas vontades, não andamos contra o vento e podemos perceber melhor o que Deus tem reservado para nós:

Não há paz para ti salvo se renunciares a ti próprio e te voltares para Mim; pois convém-te glorificares-te no Meu nome e não no teu próprio. Põe a tua confiança em Mim e não em ti próprio, pois Eu desejo ser amado, só e acima de tudo o que existe. (Bahá’u’lláh, TheHidden Words, p. 5)

Imploro-Te, ó meu Senhor, pelo Teu nome cujo esplendor envolveu a terra e os céus, que me possibilites a entregar a minha vontade àquilo que decretaste nas Tuas Epístolas, para que eu possa deixar de descobrir em mim qualquer desejo salvo o que desejaste através do poder da Tua soberania, e qualquer vontade salvo o que me destinaste pela Tua vontade. (Bahá’u’lláh, Prayers and Meditations, p. 241)

Pessoalmente, sinto-me perturbada quando percebo que não me entrego ao vento da vontade de Deus. Um exemplo é o meu medo persistente de um dia ter a doença de Alzheimer. Fico preocupada e penso muito cada vez que me esqueço de alguma coisa ou quando penso que estou a mostrar os primeiros sinais de demência. Com isto, trago para a minha vida tudo o que se relaciona com demência e os meus medos multiplicam-se.

Hoje fui ao funeral de um amigo idoso da minha comunidade. Só quando cheguei é que soube que ele sofreu de Alzheimer durante os últimos anos da sua vida. Pensei para mim própria como aquilo deve ter sido terrível. Depois ouvi histórias magníficas sobre como ele viveu para servir a humanidade. Foi só durante os últimos anos que ele sofreu os efeitos da doença; foi apenas uma pequenina parte da sua vida maravilhosa. A situação não afectou a sua alma. Tal como outras pessoas que o conheceram, vou sempre recordá-lo como saudável, sorridente e simpático. Viveu a sua vida na brisa da vontade de Deus e agora está em paz.

A única forma de superarmos o medo, percebi, é segurarmo-nos ao amor. Tenho que acreditar que Deus me ama e que Ele cuida de mim, independentemente do que possa acontecer. Focar-me no amor e não no medo, deu-me paz.

Confia em Deus. Acredita n’Ele. Louva-O e apela-Lhe constantemente. Em verdade, Ele transforma os problemas em facilidades, a tristeza em conforto, e a luta em paz absoluta. Em verdade, Ele tem o domínio sobre todas as coisas.

Se escutares as minhas palavras, liberta-te dos grilhões de tudo o que possa acontecer. Ou melhor, sob todas as condições, agradece ao teu Senhor afectuoso, e entrega os teus problemas nas Suas mãos para que Ele faça o que Lhe agrada. Isto é melhor para ti do que tudo o que existe em ambos os mundos. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings ofAbdu’l-Baha, #150)

Após o funeral, um amigo viu a chorar. E disse-me com um sorriso: “Kathy, esta vida só dura alguns minutos. É muito curta e só temos tempo para ser felizes.” Reconheci que tinha passado demasiadas horas a preocupar-me com coisas poderiam nunca acontecer, em vez de aproveitar os preciosos momentos que me restam:

Ó tu que volves a tua face para Deus! Fecha os teus olhos para todas as coisas e abre-os depois para o reino do Todo-Glorioso. Pede o que quer que desejes apenas a Ele; procura o que quiseres apenas n’Ele. Com um olhar, Ele concede cem mil esperanças; com um vislumbre, Ele cura cem mil doenças incuráveis; com um aceno, Ele coloca um bálsamo em todas as feridas; e num relance, Ele liberta os corações dos grilhões da dor. Ele faz o que faz, e nós que recurso temos? Ele cumpre a Sua vontade, Ele ordena o que Lhe apraz. Assim, é melhor para ti curvares a tua cabeça em submissão e colocares a tua confiança no Senhor Todo-Misericordioso. (idem,#22)

A confiança deve ser como uma pena na brisa da vontade de Deus. Ter fé é seguir o fluxo constante do vento em vez de irmos contra ele. Deus, com o Seu amor infalível, sabe sempre o que é melhor para nós; então porque lutamos contra o resultado da Sua vontade? Afinal, que escolha temos?

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Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 9 de junho de 2018

Palavras de Sabedoria sobre as distracções tecnológicas



Tal como a água que flui por um vale até a um rio mais abaixo, os nossos olhos e mentes dificilmente podem ficar longe dos nossos telefones, computadores e outros aparelhos com écrans.

A atracção aparentemente irresistível pela paixão electrónica atrai-nos e prende-nos. Mesmo quando rodeados pelas pessoas que nos são mais queridas e por oportunidades de nos melhorarmos a nós próprios e viver a vida na plenitude, mesmo assim, damos a nossa principal atenção aos prazeres on-line comuns.

Costumava ser apenas um estorvo. Mas à medida que a dependência de aparelhos se aproxima do vício e leva a um comportamento mais extremo, as nossas relações disfuncionais com as tecnologias de informação acabam por se transformar numa crise espiritual que afecta a sociedade como um todo.

Não haverá saída? Será isto o melhor que podemos conseguir? Uma parte crescente da sociedade actual diz que não. Mesmo que agora não tenhamos certezas - ou do que poderão ser essas saída e que consequências poderão ter - existe um movimento crescente de utilizadores insatisfeitos que sente que é possível um modo de vida melhor. A nossa experiência directa com o ambiente que nos rodeia e com as pessoas que nos são próximas pode ser a base para uma felicidade mais completa e plena.

Então, o que dizem os ensinamentos Bahá’ís sobre isto?

Esta não é uma questão de resposta fácil. As figuras centrais da Fé Bahá’í escreveram há mais de cem anos atrás; não tinham telefones, nem computadores. Consultar as escrituras Bahá’ís sobre este tipo de vício não é o mesmo que como fazer uma pesquisa no Google. As primeiras coisas que aparecem podem não parecer directamente relevantes. Mas o carácter universal das escrituras Bahá’ís permite que os leitores encontrem significados e orientações que podem não estar explícitos no contexto original da mensagem.

Escolhi quatro citações das escrituras de Bahá’u’lláh que sinto no meu coração serem relevantes para a luta que hoje enfrentamos na busca de um relacionamento saudável com a tecnologia da informação. Não considero de forma alguma que estas citações sejam as mais importantes sobre o assunto. São apenas aquelas que me dizem alguma coisa e que - quando uma noite reflecti sobre este tema - me pareceram ter um grande poder. Procurem nelas a qualquer sabedoria que quiserem. Se existirem outras citações não incluídas aqui que falam particularmente ao seu coração, por favor partilhe-as nos comentários.

A primeira citação está no livro Selecções das Escrituras de Bahá’u’lláh. Fala da alegria que pode surgir ao levarmos uma chama espiritual para o nosso relacionamento com os outros:

Como é triste se algum homem, neste Dia, pousar o seu coração sobre coisas efémeras deste mundo! Levantai-vos e segurai-vos firmemente à Causa de Deus. Sede os mais afectuosos uns com os outros. Por amor ao Bem-Amado, queimai totalmente o véu do ego com a chama do fogo imortal, e com faces jubilosas e radiantes de luz, associai-vos com o vosso próximo. (Baha’u'llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec.CXLVII)

A segunda vem de um livro de referência de Bahá’u’lláh sobre a viagem espiritual: Os Sete Vales. Muitas vezes, voltamo-nos para os nossos aparelhos porque nos sentimos aborrecidos com o que está ao nosso redor. Nesta citação, Bahá’u’lláh descreve um buscador espiritual que encontra oportunidades para a felicidade divina em todos os lugares:

Nesta viagem, o viajante habita em todas as terras e mora em todas as regiões. Em todas as faces, ele procura a beleza do Amigo; em todos os países, ele contempla o Amado. Ele junta-se a todas as companhias, e procura comunhão com todas as almas, para que, por ventura, possa descobrir o segredo do Amigo, ou em alguma face possa contemplar a beleza do Amado. (Bahá’u’lláh, The Seven Valleys, p. 7)

A terceira vem de uma das epístolas de Bahá’u’lláh para o proeminente líder zoroastriano Manikchi Sahib. Quando estamos absorvidos com os nossos aparelhos, a nossa capacidade de acção para melhorar a sociedade pode-se resumir apenas a falar sobre coisas nas redes sociais. Neste excerto, Bahá’u’lláh escreveu sobre o poder transformador da luz de Deus e a necessidade de acções para alcançar uma satisfação verdadeira e duradoura:

Num tempo em que as trevas envolveram o mundo, o oceano do favor divino agitou-se e Sua Luz manifestou-se, para que os feitos dos homens fossem revelados. Esta, em verdade, é aquela Luz que foi predita nas escrituras celestiais. Se o Omnipotente assim desejar, os corações de todos os homens serão expiados e purificados através da sua palavra bondosa, e a luz da unidade irradiará o seu esplendor sobre cada alma e fará renascer toda a terra.

Ó povo! As palavras devem ser apoiadas por actos, pois os actos são o verdadeiro teste das palavras. Sem estes, elas nunca poderão saciar a sede da alma sequiosa, nem abrir os portais da visão perante os olhos dos cegos. (Baha'u'llah, The Tabernacle of Unity, pp.8-9)

A quarta citação é da Epístola da Sabedoria de Bahá’u’lláh. Para mim, sempre foi uma descrição geral de uma vida bem vivida e um apelo inspirador para a excelência espiritual:

Esforçai-vos para ser exemplos brilhantes para toda a humanidade e verdadeiras lembranças das virtudes de Deus entre os homens. Aquele que se levanta para servir a Minha Causa deve manifestar a Minha sabedoria, e esforçar-se para banir a ignorância da Terra. Sede unidos na consulta, sede unos em pensamento. Que cada amanhecer seja melhor que a véspera e cada amanhã mais rico do que ontem. O mérito do homem está no serviço e na virtude e não na ostentação de fortunas e riquezas. Acautelai-vos para que que as vossas palavras estejam limpas de fantasias fúteis e desejos mundanos, e que os vossos actos estejam livres de estratagemas e desconfianças. Não dissipeis a riqueza das vossas vidas preciosas na busca do mal e do afecto corrupto, nem permitais que os vossos esforços sejam gastos na promoção do vosso interesse pessoal. Sede generosos nos vossos dias de abundância e sede pacientes nas horas da perda. A adversidade é seguida pelo sucesso e ao regozijo segue-se o infortúnio. Protegei-vos contra a futilidade e a indolência, e segurai-vos àquilo que beneficia a humanidade, jovens ou idosos, poderosos ou humildes. (Bahá’u’lláh, Tablets of Bahá’u’lláh, p. 138)

Na noite em que recolhi estas citações, a minha esposa e eu tínhamos acabado de entoar orações para o nosso filho, quando ele adormecia, deitado na cama. As luzes estavam baixas. O ambiente era sereno. No passado, este momento de ir deitar e adormecer podia parecer banal e comum. Hoje, porém, as ligações pessoais íntimas que se criaram parecem cheias de possibilidades para uma nova era mais espiritual, mais luminosa.

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Greg Hodges é um apaixonado pela combinação da mudança social com a renovação espiritual. Vive com a sua esposa no Maine (EUA).