sábado, 18 de agosto de 2018

Cientismo: Se não pode ser provado cientificamente, não existe?

Por David Langness.


Tenho um amigo que quando lhe perguntam qual é a sua religião, ele responde: “Acredito no cientismo”.

“O que é isso?” pergunta a maioria das pessoas.

E geralmente, dá a seguinte resposta: “É a crença de que nada é verdade a menos que possa ser provado cientificamente”.

Numa ocasião tivemos uma discussão sobre esta sua resposta tradicional.

Perguntei-lhe: “Consegues provar isso cientificamente?”

Ele pensou um pouco e acabou por admitir: “Não”.

O cientismo é provavelmente a religião prevalecente no mundo de hoje, especialmente entre as classes educadas na cultura ocidental; mas baseia-se num dogma irracional e contraditório. Defende que apenas podemos acreditar nas coisas palpáveis. Se podemos medir, quantificar ou observar uma coisa no mundo dos sentidos – afirma o crente no cientismo – isso significa que a coisa é verdadeira. Caso contrário, é falsa ou inexistente.

Este raciocínio lógico tem um problema grave – não consegue provar a premissa central do cientismo usando a ciência, razão ou empirismo. O seu ensinamento central – de que a ciência tem acesso a todas as verdades importantes da vida – nega a existência de qualquer coisa que não possamos observar no mundo físico.

Os filósofos do cientismo, que aceitam apenas e exclusivamente aquilo que se pode medir e avaliar, consideram a ciência e o método científico como a única forma aceitável para compreender toda a realidade. Os novos ateus – escritores como Sam Harris, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Daniel Dennett – geralmente aceitam a ideia de que Deus não pode ser provado cientificamente, e que tudo o que existe no universo físico pode ser explicado de forma científica. Os ensinamentos Bahá’ís definem este tipo de filósofos como materialistas:
Os filósofos do mundo estão divididos em duas categorias: os materialistas, que negam o espírito e a sua imortalidade, e os filósofos divinos, os sábios de Deus, os verdadeiros iluminados que acreditam no espírito e na sua continuidade. Os filósofos antigos ensinaram que o homem consistia apenas de elementos materiais que compunham a sua estrutura celular e que quando esta estrutura elementar se desintegrava, a vida extinguia-se. Defendiam que o homem é apenas um corpo, e que surgiu da composição elementar de órgãos e das suas funções, sentidos, poderes e atributos, e que estes desaparecem completamente com o corpo físico. Isto é praticamente a afirmação de todos os materialistas. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 239)
‘Abdu’l-Bahá ilustra a falácia desta ideia ao examinar a natureza dos seres humanos, e assinalando o facto inegável da nossa consciência humana provar que possuímos uma realidade superior e mais complexa do que a restante criação material:
O homem possui as emanações da consciência; ele tem percepção, imaginação e é capaz de descobrir os mistérios do universo. Todas as indústrias, invenções e recursos que rodeiam a nossa vida diária foram, em determinado momento, tesouros ocultos da natureza, mas descobriu-as todas e sujeitou-as aos seus propósitos. Segundo as leis da natureza deveriam ter permanecido latentes e ocultas; mas o homem, transcendendo estas leis, descobriu estes mistérios e trouxe-os do plano invisível para o reino do conhecido e do visível. Como é maravilhoso o espírito do homem! Um dos mistérios dos fenómenos naturais é a electricidade. O homem descobriu o seu poder ilimitado e usou-a para seu proveito… O homem compreendeu que o sol está imóvel enquanto a terra gira ao seu redor. O animal não pode fazer isto. O homem percebe que a miragem é uma ilusão. Isto está para lá do poder do animal. O animal apenas pode perceber através das impressões sensoriais e não pode perceber realidades intelectuais. O animal não pode conceber o poder do pensamento. Isto é um tema intelectual abstracto e não está limitado aos sentidos. O animal é incapaz de perceber que a terra é redonda. Em resumo, os fenómenos intelectuais abstractos são poderes humanos… O homem transcende a natureza, enquanto o mineral, o vegetal e o animar estão subordinados a ela. Isto apenas pode ser feito através do poder do espírito porque o espírito é a realidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 240)
As pessoas têm poderes, faculdades e virtudes que nenhuma outra criatura possui. Produzimos arte, construímos civilizações, criamos culturas, descobrimos verdades científicas que estavam ocultas, e percebemos o que existe para lá do imediato e do físico. E acima de tudo, a vasta maioria das pessoas acredita na existência de Deus, que cada um de nós tem uma alma imortal, e que o propósito da vida e a base da moralidade inclui conhecer Deus. Numa perspectiva Bahá’í, esta combinação de atributos e a sua expressão consistente ao longo de milhares de anos, demonstra de forma definitiva que os humanos possuem uma realidade espiritual que transcende as limitações físicas e palpáveis do mundo material:
Nos poderes físicos e dos sentidos, porém, o homem e o animal são parceiros. De facto, o animal é frequentemente superior ao homem na percepção dos sentidos. Por exemplo, a visão de alguns animais é extremamente precisa e a audição de outros é muito apurada. Considere-se o instinto de um cão: como é superior ao de um homem. Mas apesar do animal partilhar com o homem todas as virtudes e sentidos físicos, foi concedido ao homem um poder espiritual que os animais não possuem. Isto é uma prova de que existe algo no homem que esta acima a além do talento animal – uma faculdade e virtude inerente ao reino humano que está ausente nos reinos de existência inferior. Isto é o espírito do homem. Todas estas maravilhosas realizações humanas devem-se ao poder eficiente e avassalador do espírito do homem. Se o homem estivesse privado deste espírito, nenhuma destas realizações teria sido possível. Isto é evidente como o sol do meio-dia. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 241-242)

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Texto original: Scientism: If You Can’t Count It, Does It Count? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 11 de agosto de 2018

As revoluções de 1848 e a sua relevância nos dias de hoje

Por Tom Lysaght.


Há muito que o ano de 1848 é conhecido na Europa como “O Ano da Revolução”.

O rei Luís Filipe foi forçado a abdicar do trono francês e fugiu do país disfarçado de comerciante. Enquanto a república era proclamada em França, a Hungria declarava a sua independência da Áustria. Em Viena, enquanto os revolucionários entravam no palácio real, o rei Ferdinando abdicava do trono e fugia da Áustria. Nos estados italianos, os rebeldes seguiam o exemplo húngaro e austríaco e expulsavam os vice-reis e governantes, e o Papa ficava apreensivo. Durante a noite, vestido como se fosse um simples sacerdote, o Papa Pio IX fugiu de Roma. Em Inglaterra, 100.000 membros do movimento Cartista reuniam-se para marchar em direcção ao Parlamento. A Suécia, a Irlanda e a Dinamarca também tiveram as suas revoltas em 1848.

Convenção de Seneca Falls
Uma revolta mais pacífica - mas não menos radical e transformadora - ocorreu numa aldeia no norte do estado de Nova Iorque nesse mesmo ano. Esse movimento foi único pelo facto da quase totalidade dos seus 300 participantes serem mulheres; a excepção foi Frederick Douglass, um abolicionista e ex-escravo.

A Convenção de Seneca Falls é considerada a primeira conferência sobre direitos das mulheres. Curiosamente, os anúncios sobre este encontro apareceram nos jornais no dia 14 de Julho, o mesmo dia em que terminava outra conferência, onde se anunciava a emancipação da mulher. Infelizmente, o mundo Eurocêntrico ignorou durante muito tempo o que aconteceu na aldeia de Badasht, na Pérsia, local cujo nome um dia será tão familiar para nós como Belém.

Em 2017, deu-se um reconhecimento extraordinário evento. Em várias celebrações realizadas em todos os países do mundo, celebrou-se o bicentenário do nascimento de Bahá’u’lláh, uma das duas personagens que convocaram essa conferência profundamente marcante.

De facto, houve dois eventos tremendos na Pérsia em Julho de 1848, que podem ser coonsiderados como a principal causa das repercussões revolucionárias que sentiram no resto do mundo durante esse ano.

Desde essa década, reis e clérigos começaram a ser despojados de poder e caíram às mãos do povo.

Nessa mesma década de 1984, uma febre milenarista varreu os mundos Judaico-Cristão e Muçulmano. Rabinos e académicos Judeus, como Judah Alkalai e A.H. Silver consideravam 1840 como o tempo do Messias; “adventistas” como William Miller afirmavam que 1844 era a data prometida pela Bíblia para o regresso de Cristo; templários alemães foram viver para a Palestina e construíram as suas casas no sopé do Monte Carmelo para estarem próximos quando ocorresse a Segunda Vinda; os Muçulmanos consideravam o ano 1260 A.H. (1844 EC) como o momento em que o Qaim (ou o Mahdi) – o Prometido do Islão – surgiria como salvador espiritual.

Apesar dessas expectativas e profecias da década 1840, e das mudanças sociais revolucionárias iniciadas nesse tempo, a maioria dos Judeus ainda espera pelo seu Messias, tal como a maioria dos Cristãos aguarda o regresso de Cristo, e a maioria dos Muçulmanos espera pelo seu Qa’im. Estariam as expectativas e profecias incorrectas? Será que as mudanças sociais mundiais da década de 1840 forma mera coincidência? No seu livro O Ladrão na Noite, William Sears aborda este enigma.
Quando uma abundância esmagadora de provas aponta apenas para uma conclusão possível, e essa conclusão Mostra estar errada, nunca é sensato descartar todas as evidências como estando erradas. É mais sensato assumir que talvez as evidências estejam correctas, e que outra interpretação totalmente diferente dos factos, ou uma conclusão completamente diferente se possa extrair dessas mesmas provas. (p.30)
Os Bahá’ís apresentam uma conclusão alternativa.

As profecias bíblicas referem que “duas testemunhas” (Apocalipse 11:3) são necessárias para dar início ao tão aguardado Dia Prometido; por seu lado, o Alcorão profetiza que “dois toques de trombeta” (39:68) anunciarão o dia da renovação. Em Julho de 1848, na Pérsia, foi reunido um tribunal para inquirir um conhecido homem santo, considerado herético, e conhecido como Báb (“A Porta”). No entanto, o Báb usou essa oportunidade de julgamento público para proclamar perante as mais altas instituições persas, que Ele era o Prometido aguardado, não só pelo Islão, mas também por todas as religiões.

Simultaneamente, num outro local mas com o mesmo propósito do Báb, Bahá’u’lláh era o principal impulsionador daquela histórica conferência de Badasht, onde a emancipação da mulher foi primeiramente proclamada por Tahirih, uma poetisa e heroína Babi.

Poderiam um prisioneiro e um nobre persas ser os dois portadores de uma nova mensagem divina para a humanidade? É precisamente isso que os Bahá’ís em todo o mundo celebram durante os anos dos bicentenários dos nascimentos de Bahá’u’lláh e do Báb. Mas porque o primeiro princípio da sua religião é a livre e independente pesquisa da verdade, Eles não queriam que nos limitássemos a acreditar neles. No fundo, a religião não pode continuar a ser uma consequência do local onde nascemos ou uma questão de fé cega. Em vez disso, Eles querem que investiguemos as fontes:
Em verdade digo, este é o Dia em que a humanidade pode contemplar a Face e ouvir a Voz do Prometido. Ergueu-se o Chamamento de Deus e a luz do Seu semblante levantou-se sobre os homens. Compete a todo o homem eliminar todo o vestígio de palavras fúteis da tábua do seu coração, e olhar, com mente aberta e sem preconceitos, os sinais da Sua Revelação, as provas da Sua Missão, e as marcas da Sua Glória. Grande é, de facto, este Dia! As alusões que lhe são feitas em todas as Sagradas Escrituras como o Dia de Deus atestam a sua grandeza. A alma de todo o Profeta de Deus, de todo o Mensageiro Divino, estava sequiosa por este Dia maravilhoso. As diversas raças da terra, de igual modo, desejavam alcançá-lo… Deus permita que a luz da unidade possa envolver toda a terra. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, VII)

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Texto Original: The Revolutions of 1848, and Their Relevance Today (www.bahaiteachings.org)

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Tom Lysaght é autor de várias peças de teatro, nomeadamente “Heralds of the Covenant” (que foi exibida Durante o Congresso Mundial Bahá’í de 1992). Foi director da Radio Baha’i do Lago Titcaca (Peru) e é autor do site Your Creative Stage que pretende lançar o teatro como instrumento de construção de comunidades.

sábado, 4 de agosto de 2018

Gentrificação, Justiça e Turismo

Por Maya Mansour.


Estou num café na Cidade do México, a escrever directamente num computador portátil que me ofereceram há alguns dias antes de ter saído de Chicago.

Quando planeava esta viagem, fiz muitas pesquisas com a minha amiga. Procurámos diversos locais, avaliando custo e possíveis barreiras linguísticas, o nosso entendimento cultural (ou a falta dele) e o clima político. Para cada cidade que pensámos visitar, fui ler as notícias locais para perceber o que estava a acontecer no terreno, e comparei o que lia com websites vocacionados para o turismo – que frequentemente apresentam uma perspectiva distorcida de um local para atrair turistas como eu.

A Cidade do México ajustava-se ao nosso orçamento; ambas falamos um pouco de espanhol, e sentimo-nos geralmente confortáveis ao visitar a cidade. Chegámos entusiasmadas por visitar a maior metrópole da América do Norte, provar a famosa comida de rua, apreciar a beleza dos diversos murais da cidade e diversas expressões artísticas de artistas e artesãos locais. Hoje, quando faltam dois dias para terminar a nossa viagem, posso dizer que cumprimos o propósito desta viagem. Fizemos novos amigos quando experimentámos a comida de rua, visitámos locais históricos, mercados movimentados e parques verdejantes. Perdi a conta à quantidade de magníficos murais coloridos que visitámos, tal com a quantidade de objectos de fabrico manual, úteis e decorativos, que tornam esta cultura conhecida por cultivar beleza que é normal para os locais e fascinante para estrangeiros como eu.

Suspeito que é esta beleza do dia-a-dia que atrai imensa gente a esta cidade, assim como os preços baixos, especialmente se comparados com os Estados Unidos. Enquanto aqui estivemos, andámos com um grupo de turistas americanos mas também fizemos compras em lojas americanas. Além dos restaurantes de fast-food como KFC e Dominos, também estivemos em lojas e restaurantes mais caros. Estes estabelecimentos são apoiados por investidores americanos e canadianos e sentem-se como tal. Em alguns locais senti-me como se estivesse nas zonas que estão na moda em Los Angeles, Chicago ou Nashville, a minha cidade natal, onde existem locais que são irreconhecíveis para mim. Estas empresas no México – além da já desequilibrada dinâmica de poder entre EUA e México que beneficia mais um país do que outro – criaram agitação aqui na cidade.

Cidade do México
As autoridades perseguem vendedores ambulantes, favorecendo as boutiques mais caras. Desconhecíamos a extensão desta tendência até que há alguns dias vimos pessoas a ocupar parte do passeio na rua onde nos encontrávamos. Há três dias atrás, regressávamos ao nosso alojamento, quando frente ao edifício vimos um acampamento improvisado. No início pareciam ser tendas com pessoas sem-abrigo, mas quando nos aproximámos vimos a polícia com equipamentos anti-motim, sentados a pouca distância das pessoas que nas tendas jogavam às cartas.

Ficámos curiosas para saber mais. Procuramos o nome da nossa rua no twitter e descobrimos fotos de pessoas a protestar. Apelavam ao fim da gentrificação da cidade e exigiam um tratamento mais justo para os artesãos locais. Quanto mais lia e questionava os amigos que falavam melhor espanhol do que eu, mais o meu coração se apertava. A gentrificação é um problema mundial, desde Nova Iorque e a Cidade do México até às grandes cidades de África. A colonização ainda acontece hoje disfarçada de renovação e revivalismo urbano. As pessoas de classes mais abastadas continuam a lucrar com a exploração de pessoas com menos posses, perpetuando um ciclo de pobreza e alargando o fosso entre ricos e pobres. Por exemplo, o salário mínimo no México é 5 USD por dia; nos Estados Unidos é 7.25 USD por hora. Este nível de injustiça económica, que os ensinamentos Bahá’ís denunciam, deve dar lugar, através de legislação e de meios espirituais, a um equilíbrio mais justo entre riqueza e pobreza: Devem existir leis especiais para lidar com estes extremos de riqueza e carência. Os membros do governo devem considerar as leis de Deus quando concebem planos para governar o povo. Os direitos gerais da humanidade devem ser salvaguardados e preservados.
Os governos dos países devem obedecer à Lei Divina que concede justiça igual para todos. Esta é a única forma pela qual a deplorável superabundância de riqueza imensa e a pobreza miserável, deprimente e degradante pode ser abolida. Só quando isto for feito é que se terá obedecido à Lei de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 153.)
Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a justiça nos ajuda a ver com os nossos próprios olhos e a saber com o nosso próprio conhecimento:
Ó Filho do Espírito! A mais amada de todas as coisas, aos Meus olhos, é a Justiça; não te desvies dela, se Me desejas, nem a descures, para que Eu possa confiar em ti. Com a sua ajuda, verás com os teus próprios olhos e não com os olhos de outros; saberás pelo teu próprio conhecimento e não pelo conhecimento do teu próximo. Pondera isto no teu coração; como te incumbe ser. Em verdade, a justiça é a Minha dádiva para ti e o sinal da Minha misericórdia. Mantém-na, pois, diante dos teus olhos. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #2)
Lembrei-me destas palavras de Bahá’u’lláh sobre a justiça enquanto me debatia com o meu papel neste problema enorme e complexo, que apenas agora encontrei e tentei compreender. A gentrificação está a acontecer em todas as grandes cidades, mas torna-se muito específica quando acontece onde moramos.

Questiono o meu papel enquanto turista na gentrificação das cidades que visitei ou para onde pensei ir viver. Porque me identifico como uma cidadã do mundo, devido à mentalidade com que os meus pais me educaram e devido às origens geográficas da minha família: o meu pai é do Irão e a minha mãe da Indonésia.

Tive sorte ao viajar para outros países, experimentar a sua comida, conhecer a sua história, museus e os seus habitantes locais. Geralmente regresso a casa com a sensação que cresci num limbo, com todas as coisas que vi e todo o conhecimento que adquiri. Percebo que todos somos humanos, que todos estamos interligados e também que tenho a responsabilidade de agir como convidada nos locais que não conheço. Aprendi a ter cuidado quando falo em nome daqueles cujas experiências são completamente diferentes das minhas.

E enquanto termino este artigo, transferindo-o do computador para o telemóvel, percebo que nunca terei todas as respostas sobre como ser a viajante perfeita. Vou continuar a visitar novos locais porque acredito que conhecer estas situações em primeira mão é uma experiência preciosa. Sinto sorte de poder passar parte do meu tempo a pensar como criar um mundo mais justo para todos. E quando visito novos locais, tento ser humilde, disposta a aprender e a não julgar, na esperança de que este mundo cada vez mais pequeno e interligado tenha um pouco mais de sentido.

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Texto Original: Gentrification, Justice and Tourism (www.bahaiteachings.org)

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Maya Mansour estudou artes no The Evergreen State College e os seus trabalhos têm sido publicados em várias plataformas, incluindo Ebony, SoulPancake, and the Journal of Critical Scholarship on Higher Education and Student Affairs.

sábado, 28 de julho de 2018

A Longa Guerra - e a Trégua Recente - entre Ciência e Religião

Por David Langness.
…uma pessoa religiosa é devota no sentido de não ter nenhuma dúvida quanto ao significado e sublimidade daqueles objectivos e metas suprapessoais que não exigem nem admitem fundamentação racional. Eles existem com a mesma necessidade e vidência quanto ela própria. Nesse sentido, a religião é o antiquíssimo esforço da humanidade para alcançar uma consciência clara e completa desses valores e objectivos, e para reforçar e ampliar incessantemente o seu efeito. Se concebemos a religião e a ciência segundo estas definições, parece impossível um conflito entre elas. Pois a ciência pode apenas determinar o que é, mas não o que deve ser; fora do seu domínio, todos os tipos de juízos de valor continuam a ser necessários. A religião, por outro lado, lida somente com avaliações do pensamento e da acção humanas: não lhe é lícito falar de factos e das relações entre os factos. Segundo esta interpretação, os conhecidos conflitos ocorridos entre religião e ciência no passado devem ser todos atribuídos a uma má compreensão da situação em causa. (Albert Einstein)
Stephen Jay Gould
Esta citação do famoso físico resume claramente a trégua actual entre a ciência e a religião tradicional. Após uma guerra de vários séculos entre a religião tradicional e a ciência emergente, muitos cientistas e teólogos estabeleceram recentemente um tratado de paz. O filósofo e biólogo Stephen Jay Gould criou uma expressão para esta trégua: “magistérios não-interferentes” (NOMA: Non-Overlapping Magisteria). Gould lançou originalmente este teoria em 1997, num artigo na revista Natural History, e recebeu um apoio significativo de teólogos e cientistas.

Gould definiu “magistério” como “um domínio onde uma forma de ensino tem as ferramentas apropriadas para um discurso e uma explicação com sentido”. Em 1999, no seu livro Rocks of Ages, Science and Religion in the Fullness of Life, ele definiu os domínios separados da ciência e da religião da seguinte forma:
A ciência tenta documentar o carácter factual do mundo natural, e desenvolve teorias que coordenam e explicam estes factos. A religião, por seu lado, opera num campo igualmente importante, mas completamente diferente: os propósitos, os significados e os valores humanos - temas que a ciência dos factos pode elucidar mas nunca pode explicar
Muitas Academias Nacionais de Ciências concordaram com esta ideia, afirmando nas suas declarações oficiais que a religião e a ciência são independentes uma da outra e “baseiam-se em diferentes aspectos da experiência humana”.

Esta visão, que hoje é amplamente defendida, está provavelmente muito próximo do princípio Bahá’í de harmonia essencial e reciprocidade entre as duas esferas:
Podemos pensar na ciência como uma asa e na religião como outra; uma ave necessita de duas asas para voar; ter apenas uma seria inútil. Qualquer religião que contradiga a ciência ou que se lhe oponha, é apenas ignorância – pois a ignorância é o oposto do conhecimento.

A religião que consiste apenas em rituais e cerimónias de preconceitos não é verdadeira. Façamos os nossos maiores esforços para ser meios de unidade entre religião e ciência.

Aquilo que a inteligência do homem não consegue compreender, a religião não deve aceitar. Religião e ciência caminham lado a lado, e qualquer religião contrária à ciência não é verdadeira (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 130)
No entanto, os ensinamentos Bahá’ís levam este conceito mais longe do que esta trégua: não se limitam a ver ausência de conflito entre religião e ciência; também vêem uma forte interligação:
A religião e a ciência são duas asas com as quais a inteligência do homem pode subir às alturas, com as quais a alma humana pode progredir. Não é possível voar apenas com uma asa! Se um homem tentar voar apenas com a asa da religião cairá rapidamente no atoleiro da superstição, enquanto se tentar apenas com a asa da ciência não conseguirá qualquer progresso, mas cairá no lamaçal desesperante do materialismo. Todas as religiões do dia actual caíram em práticas supersticiosas, não tendo concordância com os verdadeiros princípios dos ensinamentos que representam, nem com as descobertas científicas da época. Muitos líderes religiosos acabaram por acreditar que a importância da religião reside essencialmente na adesão a um certo conjunto de dogmas, práticas de ritos e cerimónias! Aquelas almas que eles pretendem curar são igualmente ensinadas a acreditar e a aderir obstinadamente a formas exteriores e confundindo-os com a verdade interior.

Acontece que estes rituais e formas são diferentes nas várias igrejas e entre as diferentes seitas, e até se contradizem umas às outras; dão azo a discórdia, ódio e união. O resultado de toda esta contenda é a convicção de muitos homens cultos de que a religião e ciência são contraditórias, de que a religião não precisa dos poderes da reflexão, e que não deve de modo algum ser regulada pela ciência, e que devem necessariamente opor-se uma à outra. O resultado infeliz disto é que a ciência se afastou da religião, e que a religião se tornou cega, e segue de forma mais ou menos apática os preceitos de alguns professores religiosos, que insistem que os seus dogmas favoritos devem ser aceites mesmo se forem contrários à ciência. Isto é disparate, pois é evidente que a ciência é luz, e sendo assim, a chamada verdadeira religião não se opõe ao conhecimento. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 142-143)
Para os Bahá’ís, a verdade é só uma. Na perspectiva Bahá’í, a verdade científica e a verdade espiritual não operam apenas em áreas separadas - têm a mesma base, a mesma veracidade, e mesma substância:
Não existe contradição entre a verdadeira religião e a ciência. Quando a religião se opõe à ciência torna-se mera superstição; o contrário do conhecimento é a ignorância.

Como pode um homem acreditar num facto que a ciência provou ser impossível? Se ele acredita apesar da sua razão, é mais superstição do que fé. Os verdadeiros princípios de todas as religiões estão em conformidade com os ensinamentos da ciência.

A Unidade de Deus é lógica, e esta ideia não é antagónica às conclusões obtidas pelo estudo científico. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 141)
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Texto original: The Long War - and the Recent Truce - Between Science and Religion (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 21 de julho de 2018

A Fé Bahá’í: uma Religião Científica?

Por David Langness.

Louvado seja Deus, pois este século é o século das ciências! Este ciclo é o ciclo da realidade! As mentes desenvolveram-se; os pensamentos assumiram uma visão mais ampla; os intelectos tornaram-se mais profundos; as emoções tornaram-se mais sensíveis; as invenções transformaram a face da terra, e esta era adquiriu uma capacidade gloriosa para a revelação majestosa da unicidade do mundo da humanidade. ('Abdu’l-Baha, Divine Philosophy, pAG. 162-163)
Vivemos, sem dúvida, na era da ciência.

Há apenas um grupo muito reduzido de pessoas na face da Terra que ainda vive em condições intocadas pela ciência moderna. A vasta maioria da população mundial, durante os últimos dois séculos, teve a sua vida revolucionada por descobertas científicas e progressos tecnológicos que hoje tomamos como garantidos.

As invenções científicas, tal como ‘Abdu’l-Bahá sugeriu há mais de cem anos atrás, “transformaram a face da terra”. A ciência tem tido um impacto profundo em todos nós, prolongando a esperança de vida, proporcionando a muitos de nós fontes de alimentação relativamente baratas e seguras, erradicando e controlando doenças mortais que costumavam flagelar a humanidade, e dando-nos a possibilidade de viajar, comunicar e criar amizades com praticamente todos os grupos de pessoas no planeta.

É claro que os avanços da ciência contemporânea também trouxeram a massificação e modernização da guerra e do genocídio, a proliferação das armas nucleares e a vasta poluição da biosfera da Terra.

Podemos então perguntar: como é que as pessoas que se interessam pelas realidades espirituais da vida se relacionam com a ciência? Devemos considerá-la um grande benefício ou uma grande ameaça? Se acreditamos na ciência, será que isso exclui Deus? Como devemos tomar decisões - devemos dar prioridade à religião ou à ciência? A ciência representa uma esperança para as gerações futuras ou será um perigo para o nosso futuro?

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a ciência e a religião são “as duas forças mais poderosas na vida humana”. De facto, a Fé Bahá’í tem uma relação única com a ciência – em vez de se opor, de a ignorar ou de negar o seu impacto profundo, o princípio Bahá’í de harmonia e concordância fundamental entre ciência e religião apresenta uma visão completamente nova de como o progresso científico e a religião progressiva podem potencialmente coexistir e cooperar.

Ao contrário de qualquer outra religião, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a própria religião deve estar de acordo com os ditames da ciência e da razão:
Até agora dizia-se que todas as religiões eram constituídas por doutrinas que tinham de ser aceites, mesmo que parecessem contrárias à ciência. Graças a Deus, neste novo ciclo o conselho de Bahá’u’lláh é que na procura da verdade o homem deve avaliar questões religiosas na balança da ciência e da razão. Deus deu-nos mentes racionais com este propósito: para que compreendamos todas as coisas, para encontrar a verdade. Se alguém renuncia à razão, o que lhe resta? Os textos sagrados? Como podemos compreender os mandamentos de Deus e que aplicação lhes podemos dar, sem o equilíbrio da razão?

Os sacerdotes estão apegados a antigas superstições e quando estas não estão de acordo com a ciência, eles denunciam a ciência. Quando a religião é sustentada pela ciência e pela razão, podemos acreditar com certeza e agir com convicção, pois a faculdade racional é a maior força no mundo. Através dela, criaram-se indústrias, o passado e o presente revelam-se e as realidades ocultas são trazidas à luz. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pags. 102-103)
Por este motivo, há muitos observadores e comentadores que chamam “religião científica” à Fé Bahá’í. Essa expressão salienta o princípio básico de concordância essência entre ciência e religião, e também caracteriza a atitude da Comunidade Bahá’í face às questões modernas sobre ciência, tecnologia, medicina e ética; além disso, explica porque é que tantos Bahá’ís optam por cursos educativos científicos e técnicos e se tornam cientistas, engenheiros, médicos e investigadores; e por último, descreve de forma genérica a atitude dos Bahá’ís para com as explicações lógicas e racionais sobre a existência de uma realidade espiritual.

Nesta série de artigos sobre ciência e religião, vamos analisar detalhadamente alguns assuntos específicos: como é que os Bahá’ís encaram as controversas questões modernas que a ciência coloca? E a afirmação de ateus e agnósticos de que a ciência tornou obsoleta a crença em Deus? Porque é que a comunidade científica não aproveitou plenamente as contribuições das mulheres nos campos científicos? Como é que os Bahá’ís vêem a pseudociência? Como podem os ensinamentos espirituais da Fé Bahá’í ajudar a aliviar os estragos feitos pela perspectiva científica mundialmente dominante que vê os humanos como um exército que conquista, domina, mecaniza e industrializa o mundo natural?

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Texto original: The Baha’i Faith: The Scientific Religion? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 15 de julho de 2018

Deus faz perguntas; nós também devemos fazer

Por Christopher Buck.


Sabia que Deus faz perguntas? Poderíamos responder a esta questão com outras perguntas: “Onde? Como?”.

Nesta série de artigos temos tentado mostrar como as perfeições divinas - que o próprio calendário Baha’i apresenta - podem ser transformadas em boas acções.

Surpreendentemente, “Perguntas” (em árabe, masa’il) é apresentado pelo Báb - que criou o calendário Bahá'í - como um atributo de Deus. Assim, vamos analisar este “Nome de Deus” que é simultaneamente invulgar e notável.

Ao dizermos que “Deus faz perguntas”, isto refere-se às várias Escrituras que representam Deus a colocar uma questão com um propósito divino. Na verdade, não é Deus que pessoalmente faz uma pergunta, porque Deus não é uma pessoa (apesar de podermos ter uma relação pessoal com Ele).

As Escrituras Bahá’ís vêem Deus como uma Essência incognoscível. Eu costumo dizer que “Deus é o supremo mistério com o maior número de pistas!”. Estas pistas - vestígios maravilhosos da grandeza do Grande Ser que se encontram por todo o mundo - reflectem a inteligência suprema que concebeu o nosso universo.

A “pessoa” de Deus é aquilo a que os Bahá’ís chamam o “Manifestante de Deus” - os profetas e mensageiros que fundaram as religiões mundiais. Por outras palavras, Deus comunica connosco através de vários mensageiros que têm aparecido em momentos chave da história para espiritualizar e guiar a humanidade.

Entre estes embaixadores, interlocutores, representantes, professores e exemplos de Deus estão os fundadores das grandes religiões do mundo, que revelaram as Escrituras que tomaram a forma dos vários livros sagrados que hoje podemos ler facilmente na Internet.

Assim, ao dizer “Deus faz perguntas”, isto significa apenas que, ciclicamente, em várias Escrituras, Deus é representado a fazer perguntas, levando-nos a fazer uma pausa para pensar. Aqui temos um exemplo:
Ouviram, então, a voz do Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim. Mas o Senhor Deus chamou o homem e disse-lhe: «Onde estás?» Ele respondeu: «Ouvi a tua voz no jardim e, cheio de medo, escondi-me porque estou nu.» O Senhor Deus perguntou: «Quem te disse que estás nu? Comeste, porventura, da árvore da qual te proibi comer?» O homem respondeu: «Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi.» O Senhor Deus perguntou à mulher: «Porque fizeste isso?» A mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi.» (Genesis 3:8–13; perguntas a sublinhado)
Aqui, a frase que refere o “Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde” é uma metáfora para descrever a “presença do Senhor Deus”. De outra forma, a ideia de que Deus ia caminhar pelo Jardim do Eden à procura de Adão e Eva, tentando saber onde estavam e não os conseguindo encontrar, não tem credibilidade. A interpretação literal destas palavras leva-nos a alguns absurdos. Para compreender o seu significado mais profundo, devemos ler esta narrativa numa perspectiva espiritual.

Este exemplo em que Deus faz perguntas é conhecido para a maioria dos Judeus e Cristãos. Vejamos agora um outro exemplo, conhecido para a maioria os Muçulmanos: “Moisés, o que é isso que tens na tua mão direita?” (Alcorão 20:17)

O Báb referiu-Se a esta pergunta num breve comentário revelado em árabe (disponível on-line aqui Javāb-i Su’āl az Istifhāmāt-i Qur’ān). Este texto ainda aguarda tradução. Na versão online, o texto árabe é difícil de ler. No entanto, um estudioso Baha’i, Armin Eschraghi, elaborou um breve resumo.

Este pequeno resumo diz o seguinte: O Báb afirma que as perguntas colocadas por Deus no Alcorão (tais como: “Moisés, o que é isso que tens na tua mão direita?”) na realidade não são perguntas. Estas possuem diferentes níveis de significados (que o Báb descreve como sendo oito) e, segundo o Báb, quem tiver percepção perceberá que as questões são simultaneamente respostas claras, tal como as alusões são afimações claras. (Armin Eschraghi, numa conferência)

A pergunta feita por Deus, nos exemplos anteriores, parecem ser questões de responsabilidade e auto-consciência. As respostas às questões são bastante óbvias. É óbvio que Deus estava a fazer perguntas em benefício do próprio Adão (no excerto dos Genesis anteriormente citado) e em benefício de Moisés (no excerto do Alcorão também citado).

Assim, isto leva-nos: “Se Deus faz perguntas, também deveremos nós fazê-las?” A resposta é, obviamente, um “Sim!” Isto leva-nos, então, para o tema da responsabilidade.

O que significa “responsabilidade”? O dicionário da Porto-Editora diz:
Qualidade de quem é responsável; obrigação de responder por actos próprios ou alheios, ou por uma coisa confiada.
Por outras palavras, trata-se de ser responsável pelas próprias acções. Fazer perguntas a nós próprios é uma forma de reflectir sobre o que fizemos, o que precisamos de fazer e a melhor maneira de o fazer.

Segundo os ensinamentos Bahá’ís, existe uma forma muito prática de fazer isto. Bahá'u'lláh escreveu:
Ó Filho do Ser! Avalia-te a ti próprio, em cada dia, antes de seres chamado ao juízo final, porque a morte chegar-te-á sem aviso, e serás chamado a responder pelos teus actos. (As Palavras Ocultas, do árabe, #31)
No fundo, o que temos de fazer - até morrer - deve ser feito na vida real, enquanto temos tempo para agir sobre qualquer problema que sejamos chamados a resolver. Avaliar as nossas próprias acções inclui perguntarmos a nós próprios se as nossas acções diárias foram boas ou más, se foram úteis ou não, como prosseguir, como nos melhorarmos a nós próprios e melhorar o mundo ao nosso redor.

Pensemos nas questões como se se tratasse de uma busca de conhecimento. Com excepção das coisas que aprendemos passivamente, a aquisição de conhecimento começa com questões. Quando a curiosidade é viva e dinâmica, perseguimos os nossos interesses com entusiasmo e energia. Assim, o conhecimento começa com perguntas. E quando uma pergunta nos leva a uma resposta, a resposta pode levar a outra questão. As duas estão ligadas.

Fazer perguntas desperta e expande a nossa consciência. Por exemplo, podemos questionar-nos com perguntas existenciais que estão relacionadas com a existência - e sobre o propósito e significado da própria vida. Podemos também fazer as perguntas práticas: como resolver problemas, cumprir metas, melhorar-nos a nós próprios, servir a humanidade e contribuir para uma civilização em constante progresso

As perguntas motivam. As perguntas geram conhecimento. As perguntas cumprem um primeiro princípio Bahá’í: “Procurar a verdade”. As perguntas ajudam cada um de nós na sua investigação independente da realidade. As perguntas abrem as mentes. As perguntas alimentam para o pensamento. As perguntas nutrem a alma. As perguntas mantêm-nos activos e mentalmente aptos, espiritualmente despertos, conscientes de que há muita coisa por descobrir, muito a aprender e muito a ensinar.

Quando encontramos respostas para as perguntas, adquirimos conhecimento; então podemos servir como recursos para as perguntas dos outros. Como ex-professor, aprendi rapidamente que uma das melhores maneiras de envolver os alunos é fazer-lhes perguntas interessantes - não as perguntas temidas sobre os trabalhos de casa ou as leituras obrigatórias atribuídas na aula anterior, mas perguntas sobre questões relevantes e importantes.

As perguntas estão no coração do conhecimento. As perguntas inspiram. Fazem-nos crescer. As perguntas são divinas.

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Texto original: God Asks Questions: We Should, Too (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.