sábado, 13 de Setembro de 2014

O "Estado Islâmico" e a Selvajaria Humana

Por David Langness.

Deus dotou-nos com intelecto, não com o propósito de nos fazer instrumentos de destruição, mas para que pudéssemos tornar-nos difusores de luz, criar o amor entre os corações, estabelecer a comunhão entre os espíritos e reunir o povo do oriente e do ocidente. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 182)
Não há nada tão desolador e terrível como uma explosão de selvajaria humana! ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 28)
Horrorizado, o mundo viu militantes do recém-formado "Estado Islâmico" no Iraque e na Síria a chacinar milhares de pessoas, e a filmar alguns desses assassinatos em massa e decapitações.

No Ocidente, muitas pessoas que se aperceberam deste tipo de selvajaria culpam o fundamentalismo islâmico, e atribuem-no "àqueles muçulmanos loucos". A comunicação social ocidental raramente dá cobertura aos milhões de muçulmanos pacíficos e devotos, preferindo focar-se numa pequena minoria de militantes armados e terroristas genocidas, que são motivo de notícias mais sensacionais. Revoltada com a crueldade bárbara e abominável dessas acções, e desconhecendo os ensinamentos islâmicos sobre paz e justiça, classificam - errada e injustamente - todos os muçulmanos como um grupo fundamentalista violento.

Militantes do "Estado Islâmico" na Síria
Se o leitor pensa assim, eu posso entender a forma como desenvolveu essa ideia. Mas eu gostaria de argumentar contra esse tipo de reacção, e tentar explicar porque é que isso desvaloriza e destrói a humanidade de milhões de pessoas muito boas, amáveis e pacíficas.

Primeiro, e mais importante, quero dizer que a selvajaria humana e barbárie não são pertença exclusiva de uma etnia, uma nacionalidade ou de um grupo "religioso".

E infelizmente, não faltam provas que demonstrem esse facto.

O genocídio Hutu contra os Tutsi no Ruanda, em 1994; o genocídio nazi nas décadas de 1930 e 1940; o genocídio dos Khmer Vermelhos contra a elite intelectual do Cambodja na década de 1970; o genocídio americano e canadiano contra os índios; o genocídio sérvio contra Kosovo na década de 1990; todos estes exemplos provam que selvajaria humana não pode ser confinada a um grupo. Existem centenas de outros exemplos deste tipo. Massacres brutais, selvagens e desumanos, se eles ocorrem numa hora ou num dia ou ao longo de um século, não são exclusivo dos muçulmanos, dos cristãos, dos judeus ou dos budistas; atravessam todas as barreiras e, ao longo da história da humanidade, quase todos os grupos já foram perpetradores ou vítimas.

Se não podemos identificar as origens desses surtos terríveis de selvajaria numa qualquer etnia, religião, nacionalidade, grupo racial ou ideologia política em particular, então de onde vem ela? E se potencialmente vem de dentro de qualquer pessoa, o que isso diz sobre nós? E se todos nós temos o potencial para a selvajaria, o que podemos fazer sobre isso?

Ian Robertson, professor de psicologia no Trinity College, em Dublin, na Irlanda, e ex-diretor e fundador do Instituto de Neurociências do Trinity College, estudou as origens da selvajaria humana, e, na sua pesquisa, descobriu que esta não pode ser atribuída a qualquer um religião ou ideologia. Na verdade, o professor Robertson diz que, como seres humanos, todos estamos potencialmente propensos a comportamentos selvagens e desumanos. A investigação de Robertson indica que as principais causas da selvajaria incluem os seguintes factores:

  1. Selvajaria gera selvajaria 
  2. Submersão no grupo 
  3. Os extra-grupo como objectos 
  4. A Vingança 
  5. Líderes

Neste pequeno conjunto de ensaios, vamos examinar essas cinco causas da selvajaria, explorar como se podem desenvolver e criar metástases, e, posteriormente, analisá-las através de uma perspectiva espiritual e humanitária dos ensinamentos Bahá’ís, que explicam como entender a selvajaria e o que podemos fazer para pará-la.

O professor Robinson diz:
A primeira parte de uma resposta pode ser terrivelmente simples: a selvajaria gera selvajaria. Brutalidade, agressividade e falta de empatia são respostas comuns de pessoas que foram mal tratadas. Nos campos de concentração nazis, por exemplo, muitos dos guardas mais cruéis eram eles próprios prisioneiros - os conhecidos "kapos". Crianças abusadas sexualmente - especialmente os homens - são mais propensos a tornarem-se abusadores sexuais quando se tornam adultos, embora isso não aconteça com a maioria. As vítimas, por outras palavras, muitas vezes respondem ao trauma tornando-se elas próprias vitimizadoras.
Os abusados, por outras palavras, tornam-se muitas vezes os abusadores. Na vida, quando se sofre abusos terríveis ou violência ou guerra ou condições desumanas na vida, é-se mais propenso a perder a sensibilidade a essas coisas e reconhecê-la nos outros. A investigação mostra que entre trinta a quarenta por cento das crianças abusadas tornam-se abusadores na idade adulta.

Estes dados estatísticos contêm dor e esperança. Dizem-nos que a interrupção do ciclo de selvajaria e abuso pode ser uma difícil tarefa multi-geracional; mas também nos diz que os seres humanos podem conscientemente parar o ciclo, e que muitos conseguem fazê-lo.

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Texto original: The ISIS Crisis and Human Savagery (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de Setembro de 2014

Os Bahá’ís acreditam no inferno?

Por Maya Bohnhoff.


Se existe um "paraíso" na religião Bahá’í, como se vai para lá? Há alguma coisa que se deva fazer? Ou toda a gente pode entrar?

Bahá'u'lláh afirmou que os conceitos de céu e inferno não representam lugares físicos, mas sim estados de existência que podemos experimentar aqui neste mundo físico - e na próxima vida. Em qual destes estados habitamos depende inteiramente de nós, e da graça de Deus.

O conceito Bahá'í de "paraíso" ou “céu” não nada semelhante ao conceito de “céu” que me foi transmitido quando era jovem e frequentava igrejas. Os ensinamentos Bahá’ís não descrevem o céu como um lugar para onde se vai se Deus autoriza, ou se se acredita numa doutrina, numa igreja ou num sistema específico.

Em vez disso, Bahá'u'lláh compara o céu com proximidade de Deus, e o inferno com afastamento de Deus.

Do ponto de vista Bahá’í, temos de fazer escolhas - aqui neste nível de existência - sobre que tipo de pessoa que vamos ser e que qualidades espirituais (ou vícios animais) vamos desenvolver. Se nos esforçamos por desenvolver qualidades divinas (amor, perdão, lealdade, justiça, etc) isso irá nutrir e estimular faculdades espirituais que nos permitirão prosperar na próxima vida. Se não as desenvolvermos, não iremos prosperar - em vez disso, entraremos na vida futura com deficiências espirituais significativas.

E além disso, se não as desenvolvermos, não vamos crescer espiritualmente neste mundo. Nem vamos ajudar os outros a crescer.

A minha opinião pessoal sobre isto é semelhante à minha opinião sobre as leis da física. Quem tenta violar uma das leis da física, pode sofrer um choque violento. Um passo fora do telhado de um edifício e lei da gravidade entra em acção - podemos acabar com uma perna partida. Buda disse que "O ódio não cessa com o ódio; o ódio cessa com o amor. Esta é uma lei eterna". Outros professores Divinos também ensinaram que o amor é a primeira lei. Se violarmos essa lei espiritual fundamental, então podemos estragar ou destruir alguma coisa - uma amizade, uma família, uma comunidade, uma nação, o nosso próprio espírito. Violar essa lei tem consequências. Vemos essas consequências expostas todos os dias nas notícias. Eu vejo-as sempre que falo com pessoas envoltas em ódio contra outros seres humanos. Penso que isso é uma boa definição de inferno.

Bahá'u'lláh também diz que as pessoas têm diferentes capacidades para crescer espiritualmente:
O dever integral do homem neste Dia, é atingir aquela parte do fluxo de graça que Deus derrama para ele. Que ninguém, portanto, considere a grandeza ou pequenez do recipiente. A porção de alguns pode estar na palma da mão de um homem, a porção de outros pode encher uma taça, e a de outros, pode até ter a medida de um galão. (SEB, V)
Por este motivo, não estamos autorizados, nem obrigados, a julgar os outros. Um pequeno teste para uma alma pode ser uma imensa tarefa para outra, e só Deus sabe a diferença.

Jesus falou sobre a "porta estreita" que conduz à vida eterna: "estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e como são poucos os que o encontram." (Mateus 7:14). Essa porta estreita, no contexto das Suas palavras, é este mandamento que Ele dá imediatamente antes de advertir sobre a estreiteza da porta. Este existe nas escrituras de todas as religiões reveladas: "... o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas" (Mateus 7: 12)

Assim, nós não adoramos a Deus porque desejamos o "céu" ou porque temos medo do "inferno". O Báb escreveu:
Adora tu a Deus de tal maneira que, se a tua adoração te levasse ao fogo, nenhuma alteração se mostraria na tua adoração, e, o mesmo aconteceria se o paraíso fosse a recompensa. Assim - e somente assim - deveria ser a adoração digna do Deus Uno e Verdadeiro. Fosse tu adorá-Lo por medo, isso seria impróprio na Corte santificada da Sua presença, e não poderia ser considerado como um acto teu dedicado à Unicidade do Seu Ser. Ou se o teu olhar fixasse no paraíso, e tu O adorasses nutrindo essa esperança, estarias a fazer da criação de Deus um parceiro d’Ele, não obstante o facto de o paraíso ser desejado pelos homens. (Selecção das Escrituras do Báb)
Bahá’ís não acreditam que apenas os Bahá’ís "vão para o céu", mas simplesmente que Bahá'u'lláh tem os ensinamentos de Deus para esta época - tal como Cristo tinha os ensinamentos adequados para um povo de outra época e também falou sobre a próxima etapa do seu desenvolvimento. Bahá'u'lláh descreve a situação desta forma:
O Médico Omnisciente tem o Seu dedo no pulso da humanidade. Ele percebe a doença e, na Sua sabedoria infalível, prescreve o remédio. Cada era tem o seu próprio problema, e cada alma a sua aspiração particular. O remédio a que o mundo necessita nas suas aflições actuais nunca poderá ser o mesmo exigido numa era posterior. Preocupai-vos impacientemente com as necessidades da era em que viveis e concentrai as vossas deliberações nas suas exigências e nos seus requisitos. (SEB, CVI)

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Texto original: Do Baha’is Believe in Hell? (bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Os Bahá’ís acreditam na vida depois da morte?

Por Maya Bohnhoff.



Os Bahá’ís têm algum conceito sobre vida após a morte? Se sim, em que consiste?

A resposta a esta pergunta - um SIM muito claro e enfático - flui ao longo das Escrituras Bahá’ís.

Bahá’u’lláh ensinou que existem inumeráveis de “mundos de Deus”, incluindo aquele em que entramos quando abandonamos a nossa forma física. Mas os Bahá’ís também acreditam que a vida seguinte não é algo com que nos devamos preocupar ao ponto de reduzir a nossa vida neste mundo a uma espécie de sala de espera.

Primeiramente, Bahá’u’lláh afirma que não podemos compreender como será a próxima existência, tal como a criança no ventre materno não consegue compreender o que é este mundo. Por este motivo, não temos um modelo de comparação. Os Bahá’ís acreditam que essa existência após a morte não é um local estático, mas, em vez disso, uma evolução em direcção a Deus.

Várias pessoas fizeram perguntas a Bahá’u’lláh sobre a vida após a morte. Aqui fica a resposta que Ele deu a uma dessas perguntas:
E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe tu, em verdade, que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. Perdurará enquanto perdurar o Reino de Deus, a Sua soberania, o Seu domínio e poder. Manifestará os sinais de Deus e os Seus atributos, e revelará a Sua amorosa generosidade e bondade. (SEB, LXXXI)
Nessa mesma epístola, Bahá’u’lláh escreve um pouco sobre o poder espiritual das almas puras que já faleceram:
A natureza da alma após a morte nunca poderá ser descrita, não é conhecida, nem é permissível revelar todo o seu carácter aos olhos do homem. Os Profetas e Mensageiros de Deus foram enviados com o único propósito de guiar a humanidade ao íntegro Caminho da Verdade. O propósito subjacente da Sua revelação tem sido educar todos os homens para que eles possam, na hora da morte, ascender - com a maior pureza e santidade, e com absoluto desprendimento - ao trono do Altíssimo. A luz que estas almas irradiam é responsável pelo progresso do mundo e pela evolução dos seus povos. Elas são como o fermento que leveda o mundo do ser, e constituem a força motriz através da qual as artes e as maravilhas do mundo se manifestam. (SEB, LXXXI)
A alma humana, afirmam os ensinamentos Bahá’ís, é eterna. Todos nós temos um ser interior eterno, uma realidade espiritual que retém a nossa individualidade, o nosso carácter e o nosso nível de maturidade e desenvolvimento, quando o nosso corpo morre:
Se o corpo sofre uma mudança, o espírito não tem de ser afectado. Quando se quebra um vidro onde brilha o sol, o vidro parte-se, mas o sol continua a brilhar! Se uma gaiola com um pássaro for destruída, o pássaro fica ileso. Se uma lâmpada se parte, a chama ainda pode arder com brilho! A mesma coisa se aplica ao espírito do homem. Apesar da morte destruir o seu corpo, ela não tem poder sobre o seu espírito. Este é eterno, imortal, sem nascimento, nem morte ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 65-66)
Os Bahá’ís aguardam com expectativa a transição deste mundo para o próximo, o nosso inevitável nascimento naquilo a que ’Abdu’l-Bahá chamou “a segunda vida”.

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Texto original: Do Baha’is Believe in Life After Death? (bahaiteachings.org) 

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

A capacidade das crianças para a compaixão



As crianças são as mensagens vivas que enviamos para um tempo que não veremos. (Neil Postman)
Sentei-me num restaurante sombrio, irritada, e exausta. O meu marido carinhosamente ia dizendo palavras de encorajamento enquanto terminávamos a refeição e acabávamos de beber os nossos chás gelados. Uma menina com rabo de cavalo, cerca de oito anos, passou pela nossa mesa a caminho dos lavabos; sorriu para mim e perguntou:-me "Como estava? Estava bom?" Retribui o sorriso e respondi: "Sim". Quando voltou, ela parou novamente perto da nossa mesa e deu-me um sorriso ainda maior. Desta vez, ela fez também o gesto do polegar para cima, muito cómico e entusiasmado. O meu marido e eu começámos a rir. Ela apagou a minha tristeza.

Aquela menina mostrava uma característica que muitas vezes vejo em crianças: uma incrível capacidade para a compaixão. Ela parecia ter percebido que eu me sentia em baixo e que precisava de uma palavra amável e um sorriso feliz. Também percebeu a minha angústia e agiu imediatamente.

Ao longo da minha carreira como psicóloga escolar, vi frequentemente exemplos inspiradores de compaixão das crianças para com outras pessoas. Por exemplo, tive dias especialmente agitados quando eu estava no meu escritório, ocupada com prazos de entrega de relatórios, papelada aparentemente interminável, e telefonemas, e aparecia um aluno que me dava um abraço inesperado.

Eu dizia: "Estava a precisar disso."

E o aluno respondia: "Eu sei, a senhora Campbell. Eu podia adivinhar."

Os ensinamentos Bahá’ís dizem:
As crianças são o tesouro mais precioso que uma comunidade pode possuir, pois nelas está a promessa e a garantia do futuro. Eles têm as sementes do carácter da sociedade futura, que é em grande parte moldado por aquilo que os adultos membros da comunidade fazem - ou deixam de fazer - em relação às crianças. Eles são uma esperança que nenhuma comunidade pode negligenciar impunemente. (A Casa Universal de Justiça)
Esta citação parece dizer-nos que as crianças possuem um enorme potencial, e que os adultos desempenham um papel importante para as guiar no desenvolvimento desse potencial. De facto, esta citação parece salientar que orientar as crianças da nossa comunidade é um imperativo moral.

A Fé Bahá'í também possui muitas - e belas - orações sobre (e para) crianças que fazem alusão ao seu potencial, à sua necessidade de orientação, e à sua importância para o mundo. Aqui ficam alguns exemplos:
Ó Deus! Educa estas crianças. Estas crianças são as plantas do Teu pomar, as flores do Teu prado, as rosas do Teu jardim. Permite que sobre elas caia a Tua chuva; permite que o Sol da Realidade brilhe sobre elas com o Teu amor. Permite que a Tua brisa as refresque, para que sejam educadas, cresçam e se desenvolvam e manifestem a maior beleza. Tu és o Generoso! Tu és o Compassivo! ('Abdu’l-Bahá)

Ó Senhor! Eu sou uma criança. Permite-me a crescer à sombra da Tua Amorosa Generosidade. Sou uma pequena planta; deixa-me ser alimentada pelas efusões das nuvens da Tua generosidade. Sou um rebento do jardim do amor; torna-me uma árvore frutífera. Tu és o Omnipotente e Poderoso, e Tu és o Todo-Amoroso, o Omnisciente, Aquele que tudo vê. ('Abdu'l-Bahá)
Se as crianças são os nossos "tesouros", as nossas "pequenas planta[s]", e, em última análise, a nossa "promessa e garantia" do futuro, não deveremos protegê-las, orientá-las e tratá-las como entidades preciosa que são ?

Não deveremos tratar todas as crianças com compaixão?
A terra é uma única pátria, um único lar; e todas as pessoas são filhos de um único Pai. Deus criou-os, e eles são os destinatários da Sua compaixão. Portanto, se alguém ofende outro, ele ofende a Deus. É desejo do nosso Pai celestial que cada coração se alegre e fique cheio de harmonia, e que vivamos juntos em felicidade e alegria. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 468).
Podemos ser pais, mães, tias, tios, avós, avôs, padrinhos, madrinhas, tutores, pais adoptivos, professores, mentores, treinadores, baby-siters, monitores de jovens, ou instrutores de aulas infantis; todos temos um papel na protecção, educação e orientação das crianças do mundo. E porque as crianças aprendem com o exemplo, com as nossas palavras e com o nosso comportamento, devemos reflectir as nossas crenças na igualdade entre mulheres e homens, e as nossas crenças na unidade mundial. Vamos ensinar às crianças virtudes como a bondade, o amor, o respeito e a compaixão. Vamos incentivá-las a desenvolver o seu potencial, enquanto tratamos e cuidamos delas. Talvez, através dos nossos esforços combinados, consigamos ver ainda mais exemplos de compaixão, semelhante à compaixão que aquela menina mostrou quando me sorriu, me deu um sinal positivo, e iluminou o meu dia.


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Texto original: Children’s Capacity for Compassion (bahaiteachings.org)

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Jennifer Campbell é psicóloga escolar e escritora. Ela e o marido Kurt são Bahá'ís e vivem no Colorado (EUA).

quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

A lição d’Os Miseráveis: toda a verdade é relativa.

Por David Langness.


A maioria das pessoas concorda que roubar é errado. Mas quantos de nós roubariam um pedaço de pão para alimentar uma família com fome?

Essa é a questão ética e filosófica do conhecido escritor francês Victor Hugo coloca apresenta no seu magnífico monumental Os Miseráveis. Provavelmente os leitores já viram a peça ou alguma versão no cinema; ou talvez tenham lido as 1400 páginas do livro. Literalmente, milhões de pessoas em todo o mundo têm sido profundamente influenciadas por esta grandiosa obra de arte. Se não a conhecem , então aqui fica um breve resumo: Jean Valjean, um ex-presidiário, libertado após cumprir uma pena de prisão de 19 anos por roubar um pedaço de pão para alimentar os filhos da sua irmã, tenta mudar de vida e fazer o bem aos outros, enquanto foge à perseguição do implacável do polícia Javert, um homem cego pela lei.

Victor Hugo
O romance de Hugo causou uma grande polémica quando surgiu pela primeira vez na década de 1860; nesse mesmo período surgiu a Fé Bahá'í. Os Miseráveis desafiou o pensamento convencional, ao questionar a crueldade do primado absoluto da lei, praticado pela aristocracia europeia e autoridades religiosas. Jean Valjean defendida a democracia, o humanismo, a justiça misericordiosa e o homem comum, e elevou esses valores acima abordagem rigorosa e absolutista de Javert, que exemplificava os princípios legais e religiosos praticados nessa época pela maioria dos governos despóticos do mundo. Os Miseráveis ficou famoso pela forma como apresentou a terrível situação das classes desfavorecidas parisienses, defendendo uma abordagem humana e inteligente para resolver problemas sociais.

A história d’Os Miseráveis tem um enorme eco nos ensinamentos Bahá’ís. Não só aborda princípios semelhantes aos Bahá’ís - amar a todos, a unidade da humanidade, a futilidade da guerra, a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza - mas também abrange um tema central enfatizado pelos ensinamentos Bahá’ís: a relatividade.

Não… não se trata da teoria da relatividade de Einstein. Os Miseráveis torna-se famoso ao colocar-nos uma grande questão: A verdade é absoluta ou relativa?

Até meados do século XIX, a maioria das pessoas teria, provavelmente, escolhido a primeira resposta. Até essa época, as autoridades governamentais e religiosas exerciam o poder com punhos de ferro e detinham autoridade absoluta sobre os seus súbditos. Proliferavam as mais inflexíveis leis e regras de conduta. Tipicamente, a dissidência, ou a discordância, recebiam uma resposta dura e até mesmo fatal. As pessoas acreditavam, em grande parte, que a inflexibilidade da verdade absoluta tornava necessário um regime autoritário.

Então, subitamente, deu-se uma mudança gigantesca. Surgiu a revelação Bahá'í, trazendo consigo um novo conjunto de pressupostos sobre a natureza da verdade. Apareceu uma nova visão da ciência, gerada pelos avanços do Iluminismo e pensadores como Darwin. A era da modernidade, com toda a sua glória perturbadora, começou a florescer. E no meio de todas essas mudanças, em vez de adoptar a abordagem absolutista da época, Bahá'u'lláh afirmou que a própria verdade não é absoluta, mas relativa:
O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh... é que a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa, que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo, que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina, que os seus princípios básicos estão em completa harmonia, que os seus objectivos e propósitos são uma e a mesma coisa, que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade, que as suas funções são complementares, que diferem apenas nos aspectos não-essenciais das suas doutrinas, e que as suas missões representam etapas sucessivas na evolução espiritual da sociedade humana .... (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. v.)
Bahá'u'lláh não nos deu apenas uma nova forma de olhar para a evolução da própria verdade; os Seus ensinamentos apresentam uma maneira completamente revolucionária para ver a evolução da humanidade:
... A Sua missão é proclamar que as idades da infância e da meninice da raça humana já passaram, que as convulsões associadas à actual fase da sua adolescência estão lenta e dolorosamente a prepará-la para atingir o fase da maturidade, e que anunciam o Tempo dos Tempos, em que as espadas serão transformadas em arados, em que o Reino prometido por Jesus Cristo será estabelecido e a paz do planeta será assegurada de forma definitiva e permanente. Bahá'u'lláh não proclama que a Sua própria Revelação tenha um carácter final, mas declara que uma medida mais completa da verdade Lhe foi delegada pelo Todo-Poderoso para ser concedida à humanidade, num momento tão crítico do seu destino, devendo necessariamente ser revelada em futuras etapas da evolução constante e ilimitada da humanidade. (Idem)
Da mesma forma, os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão de uma nova sociedade global concebida para banir o absolutismo e o despotismo da face da Terra:
A Fé Bahá'í sustenta a unidade de Deus, reconhece a unidade dos Seus Profetas e inculca o princípio da unidade e integridade de toda a raça humana. Ela proclama a necessidade e a inevitabilidade da unificação da humanidade, declara que esta se está gradualmente aproximando, e afirma que apenas o espírito transformador de Deus, operando através do Seu Porta-Voz eleito neste dia, poderá consegui-lo. Além disso, impõe aos seguidores o dever primordial de procurar irrestritamente a verdade, condena todas as formas de preconceito e superstição, declara que o propósito da religião é a promoção da amizade e concórdia, proclama que esta deve estar em harmonia com a ciência, e reconhece-a como o agente principal para a pacificação e o progresso tranquilo da sociedade humana... (Idem, pags. v-vi)
Gostava que Victor Hugo e os seus Miseráveis tivessem vivido para ver isto.

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Texto original: The Lesson of Les Miserables: All Truth is Relative (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 26 de Julho de 2014

Indonésia admite reconhecimento oficial da Fé Bahá’í

Lukman Saifuddin, Ministro dos Assuntos Religiosos da Indonésia
O novo Ministro dos Assuntos Religiosos da Indonésia afirmou que a Fé Bahá’í deve ser a sétima religião a ser reconhecida oficialmente no país. "A [fé] Bahá'í é uma religião; não é uma seita" escreveu Lukman Saifuddin na sua conta no Twitter @lukmansaifuddin na passada quinta-feira. "Há 220 crentes em Banyuwangi, 100 em Jacarta, 100 em Medan, 98 em Surabaya, 80 em Palopo, 50 em Bandung, 30 em Malang e em outras regiões."

Lukman esclareceu posteriormente que fez o comentário, como resultado de uma carta enviada pelo Ministério do Interior solicitando esclarecimentos sobre a religião: "Eu disse [ao Ministério do Interior] que a [fé] Bahá'í é uma religião protegida por artigos 28E e 29 da Constituição".

O Ministro acrescentou ainda que os Bahá’ís devem ter direito a identificar-se como tal nos seus cartões de identidade nacionais - e que esse reconhecimento que tornaria mais fácil a obtenção de documentos oficiais, tais como cartas de condução, certidões de nascimento, certidões de casamento e registo de propriedades.

Recorde-se que alguns governos locais assumem uma linha dura contra as minorias na Indonésia, não lhes dando documentos oficiais por não pertencerem a uma das seis religiões reconhecidas no país: islão, budismo, catolicismo, protestantismo, o confucionismo e hinduísmo.

O Ministro do Interior, Gamawan Fauzi, tinha afirmado que aguardava uma resposta do Ministério de Assuntos Religiosos antes de reconsiderar se a Fé Bahá’í deveria ser incluída como opção nos cartões de identidade.

"Se for declarada como uma das religiões aqui reconhecidas, então vamos colocá-la nos cartões de identidade", disse na sexta-feira Gamawan citado pelo jpnn.com. "Se houver necessidade de a acrescentar [às seis religiões existentes] por favor informem-nos, pois há apenas seis opções de religião no cartão de identidade."

O porta-voz da Comunidade Bahá’í na Indonésia não quis fazer comentários sobre o assunto.

Na Indonésia - o mais populoso dos países muçulmanos - este assunto não é pacífico. São cada vez mais visíveis sinais de hostilidade contra grupos xiitas e Ahmadiyahs. E, recentemente, sobre a Fé Bahá’í, o secretário do Indonesian Ulema Council, Amirsyah Tambunan, afirmou-se contra o reconhecimento da fé Bahá’í, acrescentando que as religiões devem ser provenientes de uma revelação, como as religiões abraâmicas.

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Sobre este assunto:
Acceptance of Baha’i faith welcomed (Jakarta Post)
New Religious Affairs Minister Supports State Recognition of Baha’i Religion (Jakarta Globe)

domingo, 20 de Julho de 2014

Este pequeno planeta não merece ser dividido

Por David Langness.


A guerra civil na Síria já atravessou a fronteira e entrou no Iraque. Mas quem fez essa fronteira?

Para perceber a resposta a esta pergunta, é importante conhecer o significado de duas palavras: Levante e al-Jazira.

Governada ao longo dos séculos por persas, gregos, romanos e árabes, a Al-Jazira tem sido descrita como o berço da civilização, e corresponde ao território da antiga Mesopotâmia, onde os seres humanos fizeram as primeiras colheitas agrícolas e domesticaram animais. Os arqueólogos descobriram evidências consistentes na região sobre o estabelecimento de sociedades de caçadores-colectores que lentamente se tornaram agrícolas, por volta de 9000 aC. Foi aqui que as pessoas começaram a fazer culturas agrícolas; e como consequência, as suas civilizações prosperaram e espalharam-se em todas as direções.

Toda a região que circunda a Al-Jazira é conhecida desde o século VXI como Levante ou Mediterrâneo Oriental; esta região inclui as actuais nações de Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Palestina, a Província de Hatay do Sul da Turquia e a ilha de Chipre. A região tem o seu nome da palavra francesa "levant", que significa "nascente." A palavra designado a região como o lugar no Oriente onde o sol nasce, onde a luz tem origem e onde surgem as religiões.

Guerra Civil na Síria
Após a Primeira Guerra Mundial, os governos britânico e francês criaram a fronteira actual entre a Síria e o Iraque na parte da al-Jazira, no Levante. A Grã-Bretanha e a França dividiram uma região desértica, rural e contígua entre os rios Tigre e Eufrates, que constitui a região central da al-Jazira. Quando desenharam aquela fronteira arbitrária, dividiram uma população árabe sunita predominantemente rural com fortes afinidades tribais, em duas nacionalidades diferentes.

Talvez isso explique por que a cidade iraquiana de Mosul, recentemente "tomada" pelas forças do ISIL, caiu tão rapidamente. As províncias iraquianas de Anbar, Nínive e Diyala, são regiões predominantemente sunitas com profundas ligações à Síria, têm mais simpatia e afinidade com seus correligionários sunitas na Síria do que com os que formam o governo xiita de Bagdade. Mosul, historicamente, tinha laços mais fortes com a região síria de Aleppo do que alguma vez teve com Bagdade.

Mas podemos dizer que a queda de Mosul e outras cidades iraquianas na região da Al-Jazira é culpa da partição Europeia de há quase um século? Não totalmente. Também temos de ter em conta a crescente divisão sectária entre muçulmanos sunitas e xiitas no Iraque, agravada pelas opções políticas do governo iraquiano do pós-guerra, liderado por xiitas.

Quando qualquer governo privilegia uma comunidade ou grupo religioso acima de outro, então as tensões aumentam inevitavelmente. Tanto na Síria como no Iraque, os governos actuais e anteriores favoreceram grupos religiosos e tribais minoritários, mantendo o seu poder através de uma repressão brutal e da força militar. Os ensinamentos Bahá'ís falam claramente sobre as soluções para estes problemas aparentemente insolúveis:
Nestes dias deve existir um grande poder de entendimento incutido nas nações. Os princípios da unidade do mundo da humanidade devem ser proclamados, compreendidos e postos em prática, de modo que todas as nações e religiões possam lembrar-se novamente do facto, há muito esquecido, que são todos descendentes de uma primeira humanidade, Adão, e habitantes de uma única terra. Não respiram todos o mesmo ar? Não é o mesmo sol que brilha para todos? Não são todos ovelhas de um único rebanho? Deus não é o pastor universal? Ele não é bondoso para com todos? Vamos banir os pensamentos irreais sobre oriente e ocidente, norte e sul, europeus e americanos, ingleses e alemães, persas e franceses.

Considerai a criação do universo infinito. Este nosso mundo é um dos mais pequenos planetas. Esses corpos fantásticos giram num espaço imensurável, a abóbada celeste azul infinita de Deus, são muitas vezes maior do que a nossa pequena terra. Aos nossos olhos este globo parece vasto; no entanto, quando olhamos para ele com olhos divinos, este fica reduzido ao mais pequeno átomo. Este pequeno planeta não merece ser dividido. Não é uma única casa, uma única terra natal? Não é toda a humanidade uma única raça? Na criação não existe qualquer diferença entre os povos.

Que visão acanhada teríamos se tentássemos dividir uma sala em zonas oriental e ocidental. A divisão geográfica deste mundo é um paralelismo igual. Com a nossa ignorância e falta de visão dividimos esta casa comum, dividimos os membros desta família em várias raças, dividimos a religião em diferentes seitas e depois com essas supostas divisões fazemos guerra uns contra os outros; derramamos o sangue dos outros e saqueamos os seus bens. Não é isto uma ignorância imperdoável? Não é isto o cúmulo da injustiça? ('Abdu'l-Baha, Divine Philosophy, pp. 177-179)
 
Aquilo que 'Abdu'l-Bahá designa como "supostas divisões" é descrito agora por estudiosos como "identidades políticas" modernas. Muitas nações e facções em todo o mundo aprenderam a usar os conflitos inerentes a algumas políticas de identidade para obter vantagens. Ao reforçar o impulso sectário em populações específicas e ao fomentar divisões entre as pessoas, utilizando os meios de comunicação modernos, os líderes políticos e militares de países como o Iraque, a Síria, o Irão, muitos países dos Balcãs e lugares como Ruanda e Sudão usam as origens étnicas cultural e religiosas para dividir e conquistar. Depois transformam estas divisões sectárias profundas em guerra, fome e caos.

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Texto original: This Small Planet, Not Worthy of Division (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Cristo é Deus?

Por Alex Gottdank.


Aparentemente as Escrituras Bíblicas contêm um paradoxo: Cristo é, e não é, Deus.

Vejamos as seguintes citações:
"... Cristo Jesus... não considerou como uma usurpação ser igual a Deus" (Filipenses 2:5-6).

Cristo declarou: "... o Pai é mais do que eu" (João 14:28).

Cristo proclamou: "Eu e o Pai somos Um" (João 10:30).

Cristo perguntou: "... Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só... " (Mateus 19:17).

"Jesus disse-lhe... Quem me vê, vê o Pai.... "(João 14:9).

"A Deus jamais alguém o viu... " (João 1:18).

"No princípio existia o Verbo... e o Verbo era Deus... E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco..." (João 1:1, 14).

"Porque é nele que habita realmente toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9).

"Será que Deus poderia mesmo habitar sobre a terra? Pois se nem os céus nem os céus dos céus te conseguem conter! Quanto menos este templo que eu edifiquei?" (1 Reis 08:27).
A Igreja tentou conciliar estas frases, e outras como estas, declarando que Cristo era homem e Deus, um mistério que teríamos de aceitar com base na fé. Mas a frase passagem bíblica - "[Cristo] é a imagem do Deus invisível..." (Colossenses 1:15) e os ensinamentos Bahá'ís que comparam Cristo a um espelho perfeito apresentam-nos uma maneira de compreender este mistério com clareza. Basta apenas pensar como funciona um espelho para compreender o papel de Cristo como um espelho espiritual, ou como imagem de Deus.

Se olharmos para um espelho voltado para o sol, podemos ver o sol; mas que sabemos que a imagem não é o próprio sol; é apenas um reflexo, porque o sol não desce para o espelho. Em vez disso, é o seu atributo - a luz - que se reflecte no espelho.

Da mesma forma, se olharmos para o espelho espiritual de Cristo, veremos Deus; mas sabemos que Cristo é a imagem de Deus, e não o próprio Deus; é o reflexo de Deus, pois Deus não desce para o espelho. Em vez disso, os Seus atributos de amor, poder, omnisciência, etc. reflectem-se no espelho.

As Escritura sustentam este conceito, pois Salomão declarou que nem o seu templo, nem "o céu e o céu dos céus" poderiam "conter" Deus. Consequentemente, se Deus não pode ser contido na Terra, e logicamente descer a ela ou habitar nela, então quando Cristo "habitou entre nós", podemos inferir que não é a essência de Deus, mas os atributos de Deus, que habitaram entre nós.

As escrituras Bahá’ís declaram:
Se dissermos que se vê o sol no espelho, não queremos dizer que o próprio sol desceu das alturas sagradas do seu céu e entrou no espelho! Isso é impossível. A Natureza Divina vê-se nos Manifestantes e a sua Luz e Esplendor são visíveis em glória extrema.( 'Abdu'l-Bahá in London, p. 23)
Como tal, reconhecemos que Cristo, sendo uma imagem de Deus para a humanidade, reflecte os atributos de Deus, e não a essência de Deus. Com esta distinção clara, podemos agora conciliar as citações anteriores.

Quando a Escritura proclama Cristo como "igual" a Deus, mas ao mesmo tempo descreve Deus como "maior que" Cristo, fá-lo, porque Cristo é igual a Deus em propósito, espírito, palavra e qualidades, mas não em essência, porque a essência de Deus é "maior que" a essência de Cristo.

Da mesma forma, quando Cristo diz: "Eu e o Pai somos Um", isso significa que são um em espírito, propósito e atributos de Deus. No entanto, quando Cristo diz: "Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só", Ele quer dizer que a Sua essência não se pode comparar com a essência de Deus.

Da mesma forma, pode-se "ver o Pai", olhando para Cristo, pois vêem-se os atributos de Deus em Cristo, mas não se pode ver a essência de Deus, pois "a Deus jamais alguém o viu".

E, por último, Cristo enquanto imagem de Deus que se fez carne encarna "totalmente" os atributos de Deus, a Palavra, e o Espírito na Terra, mas não a essência de Deus, pois a essência de Deus não pode "habitar" no meio de nós.

Os ensinamentos Bahá'ís declaram de forma inquestionável que Cristo é, e não é, Deus, tal como a Bíblia ensina. Por um lado, Cristo é Deus, pois quando olhamos para Cristo vemos a imagem e a presença de Deus na terra. Por outro lado, Cristo não é Deus, pois enquanto "imagem do Deus invisível", Cristo reflecte os atributos de Deus para a humanidade, sem encarnar a essência de Deus. Por outras palavras:
... o homem perfeito [Cristo],... tem a pureza e a transparência de um espelho perfeito - aquele que reflecte o Sol da Verdade. De tal... podemos dizer que a Luz da Divindade com as perfeições celestes habita nele. ('Abdu'l-Bahá in London, p. 23)
Além disso, ao reconhecer Cristo como "imagem de Deus" sustentamos a crença monoteísta na unicidade de Deus (a essência de Deus), conforme descrito nas Escrituras Hebraicas: "Eu sou o Senhor... não existe outro Deus além de mim... (Isaías 45:5).

Em resumo, conhecemos Deus porque conhecemos e temos uma relação pessoal com nosso Senhor Jesus Cristo. Através do Seu reflexo perfeito de Deus, conhecemos as qualidades de Deus, o propósito de Deus, a Palavra de Deus e o Espírito de Deus. No entanto, apesar de Deus ser cognoscível dessa maneira, Ele permanece incognoscível na sua mais íntima essência.

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Texto original em inglês: Is Christ God? (bahaiteachings.org)

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Alex Gottdank é um Bahá’í de origem judaica e cristã, autor do livro Preparing for Christ’s New Name, uma análise da natureza do regresso de Cristo. Como pioneiro bahá'í, ele foi membro da Assembleia Espiritual Nacional das Western Caroline Islands entre 1988 e 2000. Actualmente é professor de história em San Juan Capistrano, na Califórnia.

sábado, 21 de Junho de 2014

Porque Sofremos? (5ª parte)

Quinta parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Estaremos a ser testados?
- Sofrimento” é sinónimo de Teste?
- Conclusões