domingo, 24 de maio de 2015

Rejeitar os Dogmas

Por Tom Tai-Seale.


Qual é o problema da maioria dos dogmas religiosos? Tendem a ser compromissos políticos, tentativas para conciliar pontos de vista diferentes.

Atanásio, Apolinário, e Cirilo - a facção de Alexandria nos primórdios da história cristã - defendiam a ideia de que o Logos era essencialmente Deus e, portanto, não podia ser dividido. Acreditavam que a divindade do Logos ficava comprometida se o Logos fosse visto como mais do que um; e que quaisquer limitações de Jesus como Logos deviam-se apenas ao facto de ter encarnado numa forma humana, e não eram atribuíveis ao Logos. Além disso, argumentavam que se Jesus tivesse duas naturezas então estaria em guerra consigo próprio. Assim, para este grupo o importante era afirmar que Jesus era uma única substância. Teodoro de Mopsuéstia e Nestório (que mais tarde se tornou arcebispo de Constantinopla) lideram o grupo de Antioquia. Acreditavam que o Logos encarnado não podia ser literalmente Deus, porque ele (Jesus) tinha sofrido. Além disso, consideravam que nós precisamos de um modelo humano de salvação em Jesus e ao fazê-Lo divino isso tornava-se impossível. Assim, para satisfazer estes dois grupos, o credo resultante afirmava que Jesus tinha duas naturezas.

Cirilo de Alexandria
Isto faz sentido? Maurice Wells, o teólogo cristão mencionado num post anterior, responde:
... quando se pede que acreditemos em algo que não se consegue descrever em termos inteligíveis, é altura de parar e recuar com a questão para uma fase anterior. Temos a certeza de que o conceito de um ser encarnado, que simultaneamente é plenamente Deus e plenamente homem, é apesar de tudo, um conceito inteligível? (The Myth of God Incarnate, p.5)
Outro teólogo cristão, Francis Young, prossegue:
Será que a fé cristã tem que estar presa a uma posição cristológica que nunca foi muito satisfatória e que certamente estava condicionada por um determinado ambiente cultural? (Ibid, p. 29)
Perante este cenário de controvérsia, vamos analisar a perspectiva Baha'i sobre a encarnação e a manifestação. Para começar, os Bahá'ís rejeitam, como muitos Cristãos o fizeram antes, acreditar que Deus transcendente, imutável e eterno, possa de alguma forma encarnar. Isto é uma consequência natural da definição de um Deus imutável. Bahá'u'lláh afirma:
Sabe tu com certeza que o Invisível pode em nenhum sábio encarnado Sua Essência e revelá-lo aos homens. (SEB, XX).
E noutro texto:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser divino, está imensamente enaltecido acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, ascensão e descida, saída e regresso. (Kitab-i-Iqán, p. 98)
O Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, resume:
Na verdade, à luz dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, o Deus que pudesse encarnar a Sua própria realidade, deixaria imediatamente de ser Deus. Uma teoria tão grosseira e fantástica de encarnação divina está muito longe, e é incompatível com os fundamentos da crença bahá'í, tal como as não menos inadmissíveis concepções panteístas e antropomórficas de Deus, que as palavras de Bahá'u'lláh repudiam enfaticamente e cuja falácia elas expõem." (The World Order of Baha’u'llah, pp 112-113)
Para os Bahá'ís e para muitos Cristãos, o que quer que nós podemos idealizar como sendo o Criador não é senão um conceito humano limitado. Imaginar um Ser Supremo numa forma mortal, por muito enaltecida que seja, é criar uma forma restrita e limitada de Deus. Além disso, assim que imaginamos Deus de uma forma, podemos sempre imaginar algo maior que não tem forma. Desta forma, o verdadeiro Criador estará sempre para além das nossas concepções, não importa o quanto tentemos. Mesmo que admitissemos que o Criador pudesse encarnar a Sua Essência, o que nós veríamos ainda estaria condicionado pelas limitações da nossa mente. Mesmo que houvesse uma encarnação da divindade, nós seríamos incapazes de percebê-la.
Não deixeis que as coisas do corpo obscureçam a luz celestial do espírito, para que, pela graça divina, possais entrar com os filhos de Deus no Seu Reino eterno. Esta é a minha oração por todos vós. (‘Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 44)

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Texto Original: Rejecting Dogma (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Brasil: Senador Paulo Paim em defesa dos dirigentes Baha'is presos no Irão

Brasil: declaração do Senador Paulo Paim (RS) acerca da situação dos sete dirigentes Bahá'ís presos no Irão. ‪
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Vahid Tizfahm

#7Bahais7years


Vahid Tizfahm é um optometrista e proprietário de uma loja de óptica em Tabriz, onde viveu até início de 2008, quando se mudou para Teerão.

Nasceu 16 de Maio de 1973 na cidade de Urumiyyih, onde passou a sua infância e juventude. Depois de concluir o ensino secundário, já com 18 anos, foi para Tabriz estudar oftalmologia. Mais tarde, também estudou sociologia no ABSI (Advanced Baha’i Studies Institute).

Com 23 anos, casou-se com Tizfahm Furuzandeh Nikumanesh. Têm um filho pequeno, que tinha 8 anos em 2008 quando o sr Tizfahm foi preso.

Desde sua juventude, o Sr. Tizfahm participou em várias actividades da Comunidade Baha’i. Foi membro de uma Comissão Nacional da Juventude Bahá'í, e posteriormente nomeado para o Corpo Auxiliar, um cargo que serve principalmente para inspirar, incentivar e promover a aprendizagem entre os bahá'ís.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Behrouz Tavakkoli



Behrouz Tavakkoli é um ex-assistente social que foi despedido do seu emprego na administração pública no início da década de 1980 por ser Baha'i. Foi detido e hostilizado várias vezes e em 2005 esteve preso durante quatro meses sem acusação, tendo passado a maior parte do tempo em isolamento. Durante esse período de detenção, começou a sofrer problemas renais e ortopédico.

Nascido em 1 de Junho de 1951, em Mashhad, o sr. Tavakkoli estudou psicologia na universidade e, seguidamente, cumpriu dois anos de serviço no exército, como tenente. Mais tarde, ele recebeu formação adicional e especializou-se no acompanhamento de deficientes físicos e mentais, tendo iniciado a carreira de assistente social. O sr. Tavakkoli casou com Tahereh Fakhri Tuski e tem dois filhos.

O sr. Tavakkoli foi eleito para o Conselho Administrativo local dos Baha'is de Mashhad no final de 1960, quando era estudante na universidade, e depois foi membro de outro conselho Baha'i local em Sari, antes dessas instituições terem sido proibidos no início da década de 1980. Também foi membro de várias comissões Bahá’ís e membro do Corpo Auxiliar, um cargo que serve principalmente para inspirar, incentivar e promover a aprendizagem entre os Bahá'ís. Foi nomeado para o Yaran (conselho administrativo informal para os Bahá’ís do Irão) no final da década de 1980

Depois de ter sido demitido do sem emprego, abriu uma pequena oficina de carpintaria na cidade de Gonbad. Nessa cidade também organizou diversas actividades para a comunidade Baha’i.


segunda-feira, 18 de maio de 2015

Saeid Rezaie

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Saeid Rezaie é engenheiro agrónomo e proprietário de uma empresa de maquinaria agrícola na província de Fars há mais de 20 anos. Também é conhecido pela sua vasta erudição sobre temas bahá'ís e é o autor de vários livros.

Nascido em Abadan em 27 de Setembro de 1957, o Sr. Rezaie passou a infância em Shiraz, onde completou o ensino secundário com distinção. Posteriormente, e graças a uma bolsa de estudo, licenciou-se em engenharia agrónoma na Universidade Pahlavi, em Shiraz.

Em 1981, casou-se com a Shaheen Rowhanian. Têm duas filhas e um filho.

O sr. Rezaie foi um membro activo da comunidade Baha'i desde a sua juventude. Deu aulas para crianças bahá'ís durante muitos anos e foi membro de vários Institutos Bahá’ís. Também foi conselheiro académico de vários estudantes bahá'ís.

domingo, 17 de maio de 2015

Ana Gomes e os Bahá'ís no Irão

Declaração da Eurodeputada portuguesa Ana Gomes sobre os 7 dirigentes Bahá'ís detidos no Irão.
Legendado em Português (prima o ícone Subtitles/Legendas na barra inferior)

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Afif Naeimi

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Afif Naeimi é um industrial a quem foi negado o sonho de ser médico, pois como Baha'i não lhe foi permitido ingressar no ensino superior. Como alternativa focou a sua atenção nos negócios, numa das poucas áreas em que os Baha’is podiam trabalhar, assumindo a direcção de uma fábrica textil pertencente ao seu sogro.

O sr. Naeimi nasceu em 6 de Setembro de 1961, em Yazd. O seu pai morreu quando ele tinha três anos e ele foi criado pelos tios. Quando estava na escola primária, viveu na Jordânia com uns familiares e, apesar de inicialmente não saber a língua árabe, tornou-se um dos melhores alunos na escola. Casou com Shohreh Khallokhi no início de 1980 e têm dois filhos.

O sr. Naemi foi um membro activo da Comunidade Bahá’í. Deus aulas bahá'ís para crianças, leccionou no BIHE (Instituto Bahá’í de Ensino Superior) e foi membro do Corpo Auxiliar, um cargo cujas funções são inspirar, incentivar e promover a aprendizagem entre Bahá’ís.

sábado, 16 de maio de 2015

Jamaloddin Khanjani

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Jamaloddin Khanjani era proprietário de uma fábrica próspera e perdeu o seu negócio após a revolução islâmica de 1979 por ser Bahá'í. Seguidamente, passou a maior parte da década de 1980 sob a ameaça de morte por parte das autoridades iranianas.

Nascido a 27 de Julho de 1933 na cidade de Sangsar, o sr. Khanjani cresceu numa propriedade rural na província de Semnan e concluiu o ensino secundário. A sua personalidade dinâmica permitiu-lhe desenvolver uma carreira de sucesso como empresário e como um líder Baha'i.

Na sua carreira profissional, trabalhou como um empregado da Pepsi Cola Company no Irão, onde era supervisor de compras. Mais tarde, deixou Pepsi Cola e começou um negócio de produção de carvão vegetal. Posteriormente, construiu a primeira fábrica de tijolos automatizado no Irão que empregava centenas de pessoas.

No início de 1980, foi acusado de ser Baha'i e forçado a encerrar a fábrica (deixando no desemprego a maioria de seus funcionários). A fábrica foi depois confiscada pelo governo.

Na sua actividade como Baha’i, o Sr. Khanjani foi várias vezes membro da Assembleia Espiritual Local de Isfahan e membro do Corpo Auxiliar (um cargo que serve principalmente para inspirar, incentivar e promover a aprendizagem entre os Baha'is). No início de 1980, foi eleito para o conselho nacional que governava os Bahá'ís do Irão (a chamada "Assembleia Espiritual Nacional"). Em 1980, todos os membros dessa Assembleia foram raptados e desapareceram. Os seus sucessores foram presos e executados em 1981. O Sr. Khanjani foi, portanto, membro da chamada "terceira" Assembleia Espiritual Nacional, que acabou por ver quatro dos seus nove membros executados pelo governo em 1984.

Na década de 1990, o Sr. Khanjani conseguiu criar uma exploração agrícola mecanizada numa propriedade da sua família. No entanto, as autoridades colocaram-lhe muitas dificuldades, tornando muito difícil a actividade empresarial. Estas restrições foram alargadas aos seus filhos e familiares, e incluiram a recusa de empréstimos bancários, o encerramento de estabelecimentos e a proibição de viagens para fora do país.

O sr. Khanjani casou com a sra Ashraf Sobhani em meados dos anos 1950. Tiveram quatro filhos. A sua esposa faleceu Março de 2011, quando ele estava na prisão. As autoridades não permitiram que o Sr. Khanjani saísse temporariamente da prisão para participar no funeral da esposa.

Antes de 2008, o sr. Khanjani foi detido e preso pelo menos outras três vezes. Depois de anos de hostilização, foi preso durante dois meses no final de 1980. Durante esse tempo foi intensamente interrogado. No entanto, ao longo desses interrogatórios, foi capaz de convencer a autoridades sobre a natureza não ameaçadora da Fé Bahá'í, tendo acabado por ser libertado juntamente com outros Bahá’ís.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Fariba Kamalabadi

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Fariba Kamalabadi é psicóloga e mãe de três filhos; quando era jovem foi-lhe negada a oportunidade de estudar numa universidade pública por ser Bahá'í. Antes de ser presa em 2008, já tinha sido detida duas vezes (por períodos de um e dois meses) devido ao seu trabalho voluntário para a comunidade Bahá'í.

A sra Kamalabadi nasceu em Teerão em 12 de Setembro de 1962. Foi uma excelente aluna e concluiu o ensino secundário com distinção; no entanto, foi impedida de ingressar na universidade. Quando tinha pouco mais de 30 anos começou a estudar Psicologia no BIHE, tendo obtido uma pós-graduação. O BIHE (Instituto Bahá'í de Ensino Superior) era uma instituição alternativa de ensino superior criada pelo Baha'i comunidade do Irão que oferecia ensino superior aos seus jovens.

A sra Kamalabadi casou com o sr. Ruhollah Taefi em 1982. Têm três filhos, o mais novo dos quais tinha apenas 13 anos quando ela foi presa em 2008.

Na década de 1980, a Sra Kamalabadi teve o seu primeiro contacto directo com a perseguição religiosa no Irão, quando o seu pai foi demitido do seu trabalho como médico no serviço público de saúde por ser Baha'i, tendo sido preso e torturado.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Mahvash Sabet

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Mahvash Sabet, 62 anos, é uma professora e directora escolar que foi demitida do ensino público por ser Baha'i. Nos últimos 15 anos, ela dirigiu o BIHE (Instituto Bahá'í de Ensino Superior), que oferecia uma alternativa ao ensino superior para os jovens Bahá'ís iranianos. Também trabalhou como membro do Yaran (“Amigos que ajudam”), um grupo informal administrativo da comunidade do Irão.

Nascida a 4 de Fevereiro de 1953, em Ardestan, a sra Sabet mudou-se para Teerão quando tinha 10 anos. Na universidade, estudou psicologia, e obteve um bacharelato. Em Maio de 1973 casou-se com Siyvash Sabet. Deste casamento nasceram um filho e uma filha.

Iniciou a sua carreira profissional como professora e foi directora de várias escolas. Durante a sua carreira profissional colaborou com a Comissão Nacional de Alfabetização do Irão. Após a revolução islâmica, como milhares de outros professores bahá'ís iranianos, foi demitida do seu emprego e impedido de trabalhar nas escolas públicas. Seguidamente tornou-se directora do BIHE, onde leccionou psicologia e gestão.

Em Março de 2008, foi chamada à cidade de Mashad pela delegação do Ministério da Segurança, alegadamente para responder a perguntas relacionadas com o enterro de uma pessoa no cemitério Bahá'í daquela cidade. Foi detida nessa cidade no dia 5 de Março. Os restantes membros do Yaran foram detidos no dia 14 de Maio nas suas residências em Teerão.

sábado, 9 de maio de 2015

Como é que o Dogma surge na Religião?

Por Tom Tai-Seale.


Os primeiros cristãos não acreditam que Cristo era Deus. Só no final do primeiro século do Cristianismo - quase cem anos depois da crucificação - quando o Evangelho de João foi escrito, é que o dogma da teologia do Logos floresceu plenamente. O evangelho começa assim:
No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus.
No princípio Ele estava em Deus.
Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência.
Nele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir. E a Vida era a Luz dos homens (João 1:1-4)
Somente no evangelho de João encontramos Jesus a dizer: "Antes de Abraão existir, Eu sou!" e " Eu e o Pai somos Um" (Jo 8:58 e Jo 10:30). Profundamente estudado, o evangelho de João sempre foi mais entendido como uma teologia do que uma história. É a interpretação de João sobre a missão e a condição de Jesus, expressa nas palavras do próprio João, ou seja, em termos do Logos (Palavra). É necessário cautela para não aceitar cegamente interpretações de João como sendo de Jesus.

Na teologia cristã, o que encarnou foi o Logos, a Palavra de Deus - e não Deus. Com base neste entendimento, um cristão pode sentir-se tentado a concluir que a mente de Jesus era a Palavra de Deus encarnada. Infelizmente, isso também é uma heresia - parte da heresia do Apolinarianismo. A mente brilhante de Jesus não era Deus ou o Logos encarnado.

Todos estes pormenores servem para mostrar como a doutrina da encarnação foi sendo construída e se tornou complexa. O seu desenvolvimento foi um trabalho duro, que envolveu centenas de intervenientes, (alguns dos quais odiavam-se mutuamente), com rivalidades entre cidades e política perversa, excomunhões e denúncias públicas. Custou a vida a algumas pessoas e a muitas outras custou o seu conforto. Exigiu a utilização de dezenas de palavras especializadas e técnicas, muitas das quais ainda estão por definir, se quisermos entender esta contenda. E terminou - se é que terminou mesmo - com uma doutrina: um pedaço de papel.

Uma comissão elaborou a posição oficial da Igreja sobre a natureza de Cristo, em Calcedónia, junto ao estreito do Bósforo, em Outubro de 451. A doutrina é tão técnica que poucos entendem e concordam sobre o seu significado. A doutrina afirma:
Seguindo os santos padres, nós, em uníssono, definimos que se deve confessar um único e o mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Divindade e perfeito na natureza humana, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem; tendo alma racional e corpo; consubstancial [homoousios] ao Pai segundo a Divindade; consubstancial [homoousios] a nós segundo a natureza humana; semelhante a nós em todos os aspectos, exceptuando o pecado; gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nestes últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, a Mãe de Deus [Theotokos] de acordo com a sua natureza humana; um único Cristo, Filho, Senhor, Unigénito, com duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas não é, de modo algum anulada pela união, mas antes as particularidades de cada natureza são preservadas e reunidas numa pessoa [prosopon] e uma substância [hipóstase]; não se dividem ou separam em duas pessoas; mas um único e o mesmo Filho Unigénito, Verbo de Deus [Theon Logon], o Senhor, Jesus Cristo; conforme desde o início os profetas declararam a Seu respeito, e o Senhor Jesus Cristo nos ensinou, e o credo dos santos padres nos transmitiu. (Citado em The Christologic Controversy p. 10)
Alguns termos exigem esclarecimentos. Homoousios é geralmente traduzido como "mesma substância" ou "mesma natureza", mas tem diferentes significados filosóficos. Segundo Aristóteles, existem a substância principal (uma coisa individual) e as substâncias secundárias (uma propriedade partilhada). Hipóstase também se refere à substância, mas a substância da experiência - um objecto anterior a nós. Já estamos a ver as coisas complicarem-se. Para simplificar, a doutrina encarnação talvez possa ser adequadamente apresentada desta forma: Jesus tinha duas naturezas, uma da mesma substância que o Pai e outra da mesma substância que o homem, mas reunidas numa pessoa e tendo uma substância. Se isso parece incompreensível, então você não está só. Os ensinamentos bahá'ís têm a dizer sobre o dogma da teologia Logos:
O Senhor Jesus Cristo disse: 'Aquele que vê a mim, vê o Pai "- Deus manifestou-Se no homem. O sol não deixar o seu lugar nos céus e descer para o espelho, pois as acções de subir e descer, ir e voltar; não pertencem ao Infinito, mas são métodos de seres finitos. No Manifestante de Deus, o espelho perfeitamente polido, surgem as qualidades do Divino numa forma que o homem é capaz de compreender. Isto é tão simples que todos podem entendê-lo, e que o que somos capazes de entender devemos necessariamente aceitar.

O nosso Pai não nos responsabilizará pela rejeição de dogmas que somos incapazes de acreditar ou compreender, pois Ele é sempre infinitamente justo para os Seus filhos. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 25

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Texto Original: How Does Dogma Develop in Religion? (bahaiteachings.org

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Os Bahá’ís e a Teologia do Logos

Por Tom Tai-Seale.



Cristo é Deus?

Para entender como se desenvolveu a noção de um Deus encarnado, temos que começar com a teologia Logos. A ideia e o significado da Palavra de Deus (Logos) pode ter tido a sua origem na literatura judaica sapiencial (por exemplo, em Provérbios 8) ou no pensamento platónico; no Cristianismo, surge pela primeiramente nas cartas de Paulo. Por volta de 56 EC. Paulo escreveu que Jesus:
Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; (Filipenses 2: 6-9)
Esta tradução de João Almeida Ferreira não só dá uma forma a Deus, como também faz Jesus igual a ele: Jesus está na "forma de Deus". A tradução dos Capuchinhos é mais interessante: "... Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus".

Não é a forma de Deus - um aspecto físico - mas é a sua natureza metafísica e espiritual que Ele conferiu a Jesus. Paulo, portanto, não estava a falar da encarnação física. Paulo retoma esta linha de raciocínio numa carta escrita entre 61-63 EC dizendo sobre o Filho (Jesus):
Deus, o Geómetra
É Ele a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura;
porque foi nele que todas as coisas foram criadas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis, os Tronos e as Dominações, os Poderes e as Autoridades, todas as coisas foram criadas por Ele e para Ele.
Ele é anterior a todas as coisas e todas elas subsistem nele.
É Ele a cabeça do Corpo, que é a Igreja. É Ele o princípio, o primogénito de entre os mortos, para ser Ele o primeiro em tudo;
porque foi nele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude (Colossenses 1: 15-19)
Aqui, vemos claramente que, para Paulo, Jesus não é Deus, mas que foi criado à imagem - ou à semelhança - de Deus. As imagens não são a mesma coisa que o original, embora possam refletir a intenção do original. Além disso, apesar do Cristo (ou o Filho, em algumas traduções) anteriormente descrito existir antes de Jesus aparecer na história, este Cristo pré-existente é aqui descrito como um ser criado, gerado por Deus. Assim, é feita uma distinção dupla entre Deus e a Sua criatura semelhante. Não está implícita a encarnação de Deus.

Noutros textos Paulo reafirma a noção de pré-existência ao falar de Jesus como sendo "enviado" à terra. Por exemplo, em Romanos 8:3 diz: "Deus fez o que era impossível à Lei, por estar sujeita à fraqueza da carne: ao enviar o seu próprio Filho, em carne semelhante à do pecado e como sacrifício de expiação pelo pecado, condenou o pecado na carne". Aqui, novamente, Deus não foi enviado na carne; pelo contrário, o seu Filho (Logos) é que foi enviado à "semelhança" da carne. Jesus era carne, com certeza, mas o Deus dentro de si não era uma encarnação física. Pelo contrário, a realidade espiritual de Jesus, a Realidade Divina, só tinha uma semelhança (associação) com a carne de Jesus.

Um pouco depois destas epístolas terem sido escritas, o primeiro evangelho, o evangelho de Marcos, foi escrito por volta de 70 EC. Este evangelho enfatiza a diferença entre Deus e do Filho. Jesus é caracterizado como o enigmático Filho do homem, e não o Filho transcendente de Deus. Os títulos messiânicos são sempre atribuídos a Jesus; não são proclamados por Ele; e a questão do significado destes títulos nunca é abordada.

A perspectiva Bahá’í sobre a condição de Cristo honra os ensinamentos originais de Cristo, e rejeita o dogma que os intérpretes e clérigos desenvolveram posteriormente:
É um facto estabelecido que os seguidores de todas as religiões acreditam numa realidade cujos benefícios são universais; e que a realidade é um meio de comunicação entre Deus e o homem. Os judeus chamam Moisés a essa realidade; os cristãos chamam-lhe Cristo; os muçulmanos chamam-lhe Maomé; os budistas chamam-lhe Buda; e os zoroastrianos chamam-lhe Zoroastro. Agora note-se bem que nenhum desses religiosos alguma vez viu os fundadores; apenas ouviram o seu nome. Se eles tivessem dado menos importância aos nomes teriam percebido simultaneamente que todos acreditam numa realidade perfeita, que é intermediária entre o Todo-Poderoso e as criaturas... A religião deve ser o instrumento de bom companheirismo e do amor. Deve levantar o estandarte da harmonia e da solidariedade...

Sua Santidade, o Cristo sacrificou a sua vida, não para que as pessoas pudessem acreditar na doutrina de que ele é a palavra de Deus; não, pelo contrário, ele desejava conceder a consciência da existência contínua. É por isso que ele disse: "Jesus, o filho do homem, veio para dar a vida ao mundo". O seu objectivo foi totalmente eliminado e a doutrina do Pai, Filho e Espírito Santo foi fabricada... Quando nos seguramos firmemente às bases da religião, as diferenças desaparecerão. ('Abdu'l-Baha, Divine Philosophy, pp 155-157)

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Texto Original: How Baha’is Understand Logos Theology (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A & M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press