sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Construiram o Centro Cultural Khavaran sobre as ruínas de um Cemitério Bahá’í

Por Shadi Sadri. (originalmente publicado em persa no Facebook; traduzido para inglês por IranPressWatch)

Centro Cultural Khavaran, Teerão
Decorria o ano escolar de 1995-1996. Estava no último ano do curso de Direito e preparava-me para apresentar o meu trabalho final. Tinha um emprego no jornal Aftabgardan, uma publicação dependente do jornal Hamshahri. Passei a trabalhar em part-time e fiquei responsável pela página “Setareha” (Estrelas). O meu trabalho consistia em escolher artigos para um público juvenil, editando-os e publicando-os. Decidiu-se organizar uma Feira do Livro para Crianças e Jovens numa 6ª feira. Anunciámos o evento dizendo às crianças que podiam trazer livros usados para vender e também podiam comprar livros.

Nessa época vivia-se o momento alto dos Projectos de Desenvolvimento Cultural de Karbaschi, na sede do município de Teerão. O Centro Cultural de Khavaran tinha sido recentemente inaugurado.

Foi decidido que a “Feira do Livro” teria lugar no Centro. No dia anterior, fui com os meus colegas organizar o local, colocar preços nos livros e garantir que apenas havia livros infantis e juvenis em exposição. A caminho do Centro todos falavam como Karbaschi tinha convertido uma zona deserta e um matadouro num Centro Cultural elegante e moderno. Pouco depois cheguei ao local e fiquei surpreendida com a beleza do Centro, com as suas salas e auditórios, naqueles anos tristes e cinzentos.

As pessoas tinham trazido tantas caixas de livros que ficámos durante toda a noite a colocar preços, a elaborar listas de livros e a remover livros que não eram para crianças.

Vinte anos mais tarde estou em 2015 e a quilómetros de distância daqueles dias de trabalho na Secção Infantil e Juvenil do Centro Cultural. Recentemente iniciei no Justice for Iran um projecto de investigação sobre Bahá'ís que desapareceram e foram executados. Numa conversa via Skype com um Baha'i bem informado, ele explicou-me a história do actual cemitério Baha’i de Teerão e afirmou: “Quando o antigo cemitério foi arrasado e destruído, fizeram o novo Centro Cultural nesse local”. Interrompi-o e corrigi-o. Disse-lhe que o Centro Cultural Khavaran tinha sido construído numa zona deserta. A resposta foi clara: “Não, o Centro Cultural foi construído sobre as ruínas do cemitério Bahá’í”. Calei-me. Vieram-me as memórias daquela noite de trabalho no Centro Cultural em que classifiquei e coloquei preços nos livros. Ele continuou: “A minha mãe estava lá sepultada”.

Continuámos a conversa e disse-lhe: “Sempre nos foi dito que Karbaschi converteu um matadouro e um deserto num Centro Cultural.” Ele ficou em silêncio. Ambos recordávamos aqueles dias do passado. Acrescentei: “Fizemos lá uma Feira do Livro”. Ele fez um sorriso amargo e disse: “Desenvolveram a vossa cultura em cima de campas profanadas dos Bahá’ís...” e depois ficámos calados. Passado um momento continuámos a falar sobre o principal tema da nossa conversa.

Nesse dia, e muitos dias depois, pensei naquela frase terrível e na história que tinha sido censurada, sempre distorcida aqui e ali. O passado parecia ter linhas paralelas que nunca se encontravam.

O sentimento de vergonha por não conhecer a história do terreno daquele edifício moderno em que trabalhei tão orgulhosamente nunca me abandonou. E nunca me abandonará.

Será possível que estas linhas paralelas alguma vez se encontrem?

A construção do Centro Cultural Khavaran nas ruínas do cemitério Bahá'í juntou estas linhas paralelas.

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FONTE: Building Khavaran Cultural Centre on Ruins of Baha’i Cemetery! (IranPressWatch)

* O seguinte link mostra o Centro Khavaran. Este edifício ganhou o prémio Agha Khan de Arquitectura em 2007. Este prémio exige que os arquitectos respondam a um questionário detalhado sobre o uso, o custo, os factores ambientais e climáticos, os materiais de construção, o calendário de actividades, o desenho e o significado do projecto.

domingo, 23 de agosto de 2015

Laudato Si': Riqueza Extrema e a Pobreza Extrema

Por Arthur Lyon Dahl.


Deus criou o mundo como um só – as fronteiras foram marcadas pelo homem. Deus não dividiu as terras ... É por isso que Bahá'u'lláh diz: "Que vão se vanglorie o homem que ama o seu país, mas que aquele que ama a sua espécie." Todos são uma família, uma raça; todos são seres humanos. ('Abdu'l-Baha, Abdu'l-Bahá in London, p. 55)
Ao longo da sua nova encíclica sobre a pobreza e o ambiente, o Papa entrelaça preocupações ecológicas e sociais:
Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver, no coração, ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos… exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade. (¶91)

Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes isto torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos. O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma regra de ouro do comportamento social… (¶93)
No capítulo 3 da Laudato Si ', o Papa explora as raízes humanas da crise ecológica, com foco no paradigma tecnocrático dominante, no lugar dos seres humanos e na acção humana no mundo. Aqui, a consciência social do Papa é particularmente evidente:
... deveriam indignar-nos sobretudo as enormes desigualdades que existem entre nós, porque continuamos a tolerar que alguns se considerem mais dignos que outros. Deixámos de notar que alguns se arrastam numa miséria degradante, sem possibilidades reais de melhoria, enquanto outros não sabem sequer o que fazer ao que têm, ostentam vaidosamente uma suposta superioridade e deixam atrás de si um nível de desperdício tal que seria impossível generalizar sem destruir o Planeta. Na prática, continuamos a admitir que alguns se sintam mais humanos que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos. (¶90)
Este foco na enorme desigualdade entre as pessoas, tão fortemente proclamado na Laudato Si' , é um eco claro do mesmo que encontramos nos ensinamentos Bahá'ís:
Um financeiro com riqueza colossal não deveria existir, enquanto perto dele houver um homem pobre em necessidade extrema. Quando vemos que se deixa a pobreza chegar a uma situação de fome, isso é um sinal certo de que em algum lugar se encontra a tirania. Os homens devem agir nesta matéria, e não devem adiar mais a alteração das condições que trazem a miséria da pobreza opressiva a um vastíssimo número de pessoas. Os ricos devem doar parte da sua abundância, suavizar os seus corações e cultivar uma inteligência compassiva, pensando naqueles pobres seres que sofrem com a falta de meios elementares de subsistência.

Devem existir leis especiais que tratem destes extremos de riqueza e pobreza. Os membros do Governo devem considerar as leis de Deus quando elaborarem planos para dirigir os povos. Os direitos gerais da humanidade devem ser protegidos e preservados.

Os governos dos países devem seguir a Lei Divina que confere justiça igual para todos. Este é o único meio pelo qual podem ser abolidas a deplorável superabundância de grande riqueza e a miserável, desmoralizante e degradante pobreza. Enquanto isto não for feito, a Lei de Deus não será obedecida. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 153-154.)
Taxa de Pobreza, baseada na Paridade de Poder de Compra

Ao isolarmo-nos da realidade natural e espiritual, caímos na armadilha da sociedade de consumo. O nosso excessivo antropocentrismo atravessa-se no caminho da compreensão mútua e impede qualquer esforço para fortalecer os laços sociais. "Se o ser humano se declara autónomo da realidade e se se constitui dominador absoluto, desmorona-se a própria base da existência." (¶117) Centrámo-nos em nós próprios e demos prioridade absoluta às nossas conveniências imediatas, e relativizámos todo o resto. Qual foi o resultado? Individualismo desenfreado, com muitos problemas sociais relacionados com a actual cultura egocêntrica de satisfação imediata. O mercado tenta promover o consumismo extremo num esforço para vender os seus produtos; por isso, somos facilmente apanhados num consumismo compulsivo de compras e gastos desnecessários. Quando as pessoas se tornam egocentristas, a sua ganância aumenta:
...quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir. Num tal contexto, parece não ser possível para uma pessoa, que a realidade lhe imponha limites… a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando pouco têm possibilidade de o manter, só poderá violência e destruição recíproca. (¶204)

O ser humano não é plenamente autónomo. A sua liberdade desvanece-se quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal. Neste sentido, ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro de um lúcido domínio de si. (¶105)
Qualquer sociedade que se foca exclusivamente na vida material da humanidade - afirmam o Papa e os ensinamentos Bahá'ís - interrompe o seu progresso espiritual e ignora o enorme impacto negativo que tem sobre a própria Terra.

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Texto original: Extreme Poverty and Extreme Wealth, Explained (bahaiteachings.org)

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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Carta de uma estudante Baha’i expulsa da Universidade

Dorsa Gholizadeh, estudante de Arquitectura na Universidade Roozbehan em Sari, foi convocada para o Gabinete de Comunicação do Ministério da Informação e posteriormente expulsa durante os exames finais do semestre de Primavera. Dorsa escreveu uma carta para descrever os acontecimentos que levaram a esta violação do seu direito à educação. Essa carta foi publicada no site da agência HRANA (Human Rights Activist News Agency) e traduzido para inglês pelo IranPressWatch.

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"Você sabia que os estudantes Bahá'ís são expulsos! Você sabia que tinha uma possibilidade de ser expulsa! No entanto, você insistiu em continuar a sua educação. Isso significa que você não tinha outro objectivo senão ensinar o Bahaismo". Estas foram as palavras que me dirigiu o interrogador do Gabinete de Comunicação do Ministério da Informação .

Com este tipo de lógica (pensei para mim própria), se algum dia eu quiser abrir uma loja, não vou poder fazê-lo porque eles podem dizer-me: "Você sabia que em Sari há mais de 25 lojas pertencentes a Bahá'ís que foram fechadas e seladas. Você sabia que havia uma possibilidade da sua loja ser fechada e selada porque você é Baha'i. No entanto, você insistiu em abrir um negócio; isso significa que você não tinha outro objectivo senão ensinar o Bahaismo na sua loja."

Com este tipo de mentalidade, serei acusada de ensinar a minha Fé e proibida de exercer qualquer actividade independente. Agora compreendo porque o interrogador me disse: "Você intitula-se cidadã? Você devia agradecer a Deus por nós lhe darmos o direito de estar viva!"

Foi no dia 9 de Junho de 2015. Estava no auge dos exames finais. Tinha acabado de regressar do exame de "Materiais de Construção", quando recebi um telefonema do Ministério da Informação e fui chamada ao Gabinete de Comunicação para responder a algumas perguntas. Tinha exames de "Visão Islâmica" e "Física" marcados para o dia seguinte. Não tinha certeza se deveria concentrar-me em "Física", "Visão Islâmica" ou em ser Baha'i; na verdade, as perguntas que me foram feitas estavam relacionadas com este último. Eu pensei que o dia seguinte poderia ser a última vez que iria fazer os exames na universidade; tentei concentrar-me nos meus próximos exames. No dia seguinte, o telefone de casa tocou quando eu estava a sair para a universidade. A identificação de chamada mostrou o número 1, e isso significava que a chamada era do Ministério da Informação. A minha mãe atendeu o telefone. Eles disseram: "Por que você não trouxe hoje a sua filha? Você quer que ela seja expulsa da escola? "

Fui para ao Gabinete de Comunicação com a minha mãe, confiante de que ia ser expulsa. Duas pessoas entraram na sala e começaram um interrogatório que durou cerca de três horas e meia.

Como mencionei, fui interrogada por ter divulgado as de crenças na universidade, algo que eu nunca fizera no campus - nem me foi apresentada qualquer prova credível em relação a essa acusação. Perguntei: "A quem foi que eu ensinei [a Fé Bahá’í]? E quando, onde e como foi que eu fiz isso?" A resposta a todas estas perguntas foi: "Você não tem direito a fazer perguntas - você está aqui apenas para responder às nossas perguntas". Percebi então que além de não ter direito a receber educação superior, também não tinha o direito de fazer perguntas, nem de compreender as acusações, nem de me defender. É claro que percebi que tenho apenas um direito: responder às perguntas do interrogador! Quando perceberam a minha paixão pelos estudos, apresentaram-me três sugestões. Nesse momento, não tinha esperança de que essas sugestões pudessem fornecer qualquer solução para continuar os meus estudos. No entanto, eu tinha uma ideia na minha mente, a ideia de que nenhum ser humano pode ser impedido de estudar devido às suas crenças. As sugestões foram as seguintes:

  1. Manter minhas crenças e ser impedida de estudar. 
  2. Deixar o Irão. 
  3. Negar as minhas crenças.

O interrogador fez esta última proposta da seguinte forma: "Veja, Sra. Gholizadeh, se você está tão interessada em estudar, podemos levá-la ao Imam. Você recita o versículo: «Dou testemunho que não há outra divindade senão Deus; dou testemunho que Maomé é o mensageiro de Deus». O seu nome será depois publicado nos jornais, e então você poderá viver da forma que desejar e continuar a sua educação. É isso, e nada mais lhe vai acontecer."

Respondi: "Sabe... a crença de uma pessoa está na sua cabeça, na sua mente, no seu coração. Você não lhe pode tirar a sua crença."

Ele disse: "Então, fique com a sua crença e será impedida de estudar."

A única resposta que tive foi: "Eu nunca vou me arrepender de não continuar a minha educação se isso é devido à minha crença."

Universidade Roozbehan, em Sari
Enquanto ia para a universidade para os meus dois últimos exames, estava preocupada com o que estava prestes a acontecer; a minha preocupação poderia ser facilmente vista no meu rosto. O que poderia dizer aos meus colegas quando eles me perguntassem em que estava a pensar? Deveria esconder dos meus amigos tudo o que tinha acontecido? Eu não tinha feito nada de errado; os meus interrogadores consideravam as suas acções legais. Não queria que surgissem mal-entendidos ou ambiguidades com os meus amigos depois de ser expulsa; mas não poderia voltar a vê-los. O que poderia dizer-lhes a não ser que tinha sido contactada pelo Ministério da Informação e podia ser expulsa?

Continuo a recordar várias manifestações de afecto que me foram repetidas no meu último dia por aqueles que se tinham tornado meus amigos ao longo dos últimos meses: "Na vida, é importante ser um bom ser humano. Lamento que pessoas com as minhas crenças te tenham impedido de continuar a estudar."

Apesar dos meus sentimentos agridoces, a minha expulsão ensinou-me uma grande lição. Percebi que um grande grupo de amigos e colegas de turma me amava apesar das minhas crenças diferentes, da mesma forma que eu os amava tal como eles eram. Mesmo que exista um número limitado de pessoas que não reconhecem nossa humanidade comum, que tentam considerar a mim e ao meu sistema de crenças como “não-oficiais”, que não consideram uma cidadã deste país e acreditam que eu deveria agradecer-lhes porque eles permitem-me apenas estar viva, eu sei que eu tenho que agradecer a Deus que me deu vida e me deu a oportunidade de desfrutar de liberdade de preconceitos, e passar a minha vida a contribuir para o desenvolvimento do meu país.

E a imagem que retenho dos seus rostos é como as crianças nos meus desenhos animados de infância cujas lágrimas eram como...

No último dia, eu fui à universidade para tratar dos meus assuntos finais e encerrar a minha conta. Disseram para preencher um formulário, o que fiz porque estava muito perturbada. No entanto eu percebi mais tarde que o formulário declarava que eu tinha decidido abandonar a escola, embora eu nunca tivesse a intenção de abandonar. Os funcionários sugeriram que o preenchimento deste formulário podia ajudar-me a reaver parte da propina que eu tinha pago. No entanto, o que eu estava a perder ao assinar esse formulário - o meu direito à educação - era muito mais valioso para mim do que o dinheiro.

Disse: "Mas eu não quero preencher este formulário". Responderam: "Você tem que preenchê-lo."

Inicialmente, eu fiquei em choque. E foi em stress que peguei nas minhas coisas e fui para casa.

Senti as pernas fracas. E pensava para mim: porque é que a nossa sociedade está feita de maneira que os seres humanos são impedidos de aceder ao conhecimento científico devido às suas crenças? Sentei-me no chão e chorei espontaneamente.

Sabias que legalmente não tens direito a frequentar a universidade?

Ele repetiu esta pergunta várias vezes (eu nunca vi uma lei que estipulasse que os Bahá'ís não têm o direito à educação). Nunca ouvi nada específico sobre os Baha'is não terem o direito a frequentar a universidade, e sabia que legalmente todos os cidadãos iranianos têm o direito ao ensino superior. No entanto, cada vez que invoquei isso, eles faziam-me a mesma pergunta mais enfaticamente.

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FONTE: Letter from an Expelled Baha’i Student (IranPressWatch.org)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Kamran Rahimian libertado após 4 anos de prisão


Kamran Rahimian, Baha’i e professor do BIHE (Baha'i Institute of Higher Education), foi libertado da prisão de Rajai Sahr (perto de Teerão) após cumprir 4 anos de prisão. A sua esposa Faran Hesami ainda se encontra detida na prisão de Evin, também por ser professora do BIHE. Ambos são pais do pequeno Artin.

O pai do Sr. Rahimian foi martirizado há 32 anos na prisão de Evin, após a revolução Islâmica de 1979.

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FONTE: Kamran Rahimiyan freed after 4 years in prison (Sen's Daily)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Laudato Si' - Juntar Religião e Ciência

Por Arthur Lyon Dahl.


A religião deve estar de acordo com a ciência, de modo que a ciência possa sustentar a religião e a religião explicar ciência. As duas devem unir-se, indissoluvelmente, na realidade. Até aos dias actuais tem sido costume o homem aceitar cegamente aquilo a que se chama religião, mesmo quando não estava de acordo com a razão humana. (Abdu'l-Baha, Divine Philosophy, p. 26)
Em 18 de Junho de 2015, o Papa Francisco publicou a muito aguardada encíclica "Laudato Si ': sobre o cuidado da casa comum". O título vem do cântico de S. Francisco de Assis, "LAUDATO SI ', mi' Signore" - "Louvado sejas, meu Senhor", e define o tema para um longo acréscimo aos ensinamentos da Igreja Católica que aborda os desafios ambientais enfrentados pelo mundo e pobreza persistente, entrelaçando os dois temas como aspectos da mesma doença espiritual que o mundo enfrenta hoje.

O Papa apresenta a sua encíclica como uma perspectiva de sistemas integrados sobre os desafios materiais e espirituais que o mundo enfrenta e sobre a necessidade de soluções espirituais. Os Bahá'ís saúdam uma posição tão clara da Igreja Católica nestas questões; aqui partilhamos a crença que estes problemas merecem prioridade e acreditamos no mesmo diagnóstico de doença espiritual fundamental subjacente a estes assuntos.

A encíclica, que tem 246 parágrafos (aqui identificados pelo seu número de parágrafo e este símbolo ¶), inicia-se com uma introdução de dezasseis parágrafos; seguem-se seis capítulos que começam com onde estamos no nosso tratamento da nossa casa planetária e terminam com o tipo de educação espiritual necessária para enfrentar os desafios ambientais e da pobreza. Os títulos dos capítulos são: "O que está a acontecer à nossa casa"; "O Evangelho da Criação"; "A Raiz Humana da Crise Ecológica"; "Uma Ecologia Integral"; "Algumas Linhas de Orientação e Acção"; "Educação e Espiritualidade Ecológicas". Cada capítulo tem entre três a nove subsecções. A encíclica conclui com uma oração para a nossa terra e uma oração Cristã em união com a criação.

O Papa dirige a sua carta a todos os povos do mundo, e não apenas aos católicos. Inicia-se com uma revisão de declarações anteriores da Igreja Católica sobre o meio ambiente, mencionando São Francisco de Assis e referindo as iniciativas do Patriarca Ecuménico Bartolomeu da Igreja Ortodoxa, e citando fontes Ortodoxa (nota nº 15) e Sufi (nota nº159). Resume os principais desafios ambientais, conforme definidos pela ciência, e explora as suas causas mais profundas numa sociedade materialista, em que os interesses egoístas de curto prazo se curvam perante o lucro sem ter em conta as necessidades dos pobres ou o domínio ambiental. As questões discutidas incluem a poluição e as alterações climáticas, a água (cujo acesso é um direito humano elementar), a perda de biodiversidade, a diminuição da qualidade de vida humana e do colapso da sociedade, a desigualdade global, as fracas respostas governamentais, e a variedade de opiniões. A encíclica avança com fortes críticas ao consumismo, à economia e às empresas multinacionais, fazendo recordar as declarações e publicações da Comunidade Internacional Bahá'í, nomeadamente a declaração “Uma Fé Comum” (sobre a unidade essencial e harmonia de todas as religiões; elaborada sob a supervisão da Casa Universal de Justiça, 2005), entre outras.

Entre os temas desenvolvidos pelo Papa estão a íntima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo no mundo está interligado, a crítica a novos paradigmas e formas de poder derivadas da tecnologia, o apelo à busca outras formas de entendimento sobre economia e progresso, o valor adequado a cada criatura, o significado humano da ecologia, a necessidade de um debate franco e honesto, a grave responsabilidade das políticas internacionais e locais, a cultura do descartável e a proposta de um novo estilo de vida.

Esta nova encíclica papal também propõe várias vias construtivas para o diálogo e acção. Nesta pequena série de ensaios, vamos explorar essas propostas e analisar a sua congruência e coerência com os ensinamentos Bahá'ís sobre a pobreza global e o nosso meio ambiente planetário.

O capítulo 2 da encíclica papal - sobre o Evangelho da Criação - começa com um apelo para um diálogo entre ciência e religião, e à luz oferecida pela fé religiosa sobre os desafios identificados pela ciência. O nosso relacionamento com Deus, com os outros seres humanos e com a natureza foi quebrado, diz o Papa, e devemos voltar à nossa obrigação de utilizar os bens da terra de forma responsável, e respeitar os outros seres vivos e toda a criação. "Tudo está inter-relacionado, e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros." (¶70) As escrituras descrevem Deus como o criador, e retratam o amor de Deus pela Sua criação.

O Papa é crítico de todo o domínio tirânico e irresponsável dos seres humanos sobre as outras criaturas, tal como são os ensinamentos Bahá'ís:
Se reconhecemos o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito do moderno do progresso material ilimitado. Um mundo frágil, com um ser humano a quem Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa inteligência para reconhecer como devemos orientar, cultivar e limitar o nosso poder. (¶78)
No que diz respeito à natureza, cada criatura tem o seu propósito. A contemplação da criação permite-nos descobrir em cada coisa um ensinamento que Deus nos quer entregar. Podemos compreender melhor a importância e o significado de cada criatura se a contemplarmos na totalidade do plano de Deus. Como parte do universo, chamado à existência por um Pai, todos nós estamos ligados por laços invisíveis e, juntos, formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos enche de um respeito sagrado, afectuoso e humilde. O ambiente natural é um bem colectivo, património de toda a humanidade e responsabilidade de todos.

Estes princípios de unidade, administração e unicidade humana, primeiramente ensinados por Bahá'u'lláh em meados do século XIX, começaram agora a influenciar todo o planeta.

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 Texto original: Laudato Si’- Religion and Science Come Closer Together (bahaiteachings.org)

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Arthur Lyon Dahl foi investigador do Museu de História Natural de Washington e consultor da UNCED (United Nations Conference on Environment and Development). É autor de diversas publicações e actualmente é Presidente do Forum Ambiental Internacional, em Genebra (Suiça)

domingo, 16 de agosto de 2015

Dez Bahá’ís condenados em Hamadan (Irão)

Dez Bahá’ís da cidade de Hamadan foram condenados a um ano de prisão, tendo dois deles sido também condenados a dois anos de exílio na cidade de Khash (a 1800 de distância). Estas dez foram julgadas no passado dia 29 de Julho e condenados por “propaganda contra o regime”. Curiosamente, o anúncio inicial do tribunal afirmara que eles seriam absolvidos por falta de provas.

Os condenados são Shahin Rashedi (شاهین راشدى), `Atefeh Zahedi (عاطفه زاهدى), Roumina Tabibi (رومینا طبیبى), Mina Hemmati (مینا همتى), Parvaneh Ayoubi (پروانه ایوبى), Mozafer Ayoubi (مظفر ایوبی), Farida Ayoubi (فریده ایوبی), Mehran Khandel (مهران خاندل), Hamid Adharnoush [Azarnoush] (حمید آذرنوش) e Masoud Adharnoush (مسعود آذرنوش). Hamid e Masoud Adharnoush também foram condenados a dois anos de exílio.

Estes Bahá’ís foram presos no final de Março e libertados no mês seguinte após o pagamento de uma fiança. Vários destes Bahá’ís também tiveram as suas empresas e estabelecimentos comerciais encerrados pelas autoridades.

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FONTE: Sentences announced for 10 Bahais in Hamadan (Sen’s daily)

sábado, 1 de agosto de 2015

A graça de Deus é uma só

Por Christopher Buck.


Quem acredita num Deus único, é monoteísta. Mas que tipo de monoteísta?

No seu artigo "Notas para uma Tipologia do Monoteísmo" (1957, em italiano), o ilustre académico italiano Alessandro Bausani apresentou e expôs o seu conceito de monoteísmos primários e secundários.

No texto anterior, descrevemos os "monoteísmos primários" (Judaísmo e Islão) que nasceram em ambientes politeístas (que Bausani designa como "naturalismo pagão") e os "monoteísmos secundários" (Cristianismo e Fé Bahá'í) que surgiram em ambientes monoteístas.

Portanto, de acordo com Bausani, historicamente o Judaísmo e o Islão foram mais agressivos na disseminação da sua Fé, uma vez que cada uma teve que lutar contra as sociedades idólatras prevalecentes. Judaísmo e Islão, além disso, começaram inicialmente por enfatizar os atributos divinos dos tremenda majestas (a tendência para causar enorme medo ou horror). Os monoteísmos secundários (Cristianismo e a Fé Bahá'í), em geral, foram menos agressivos e salientavam os atributos divinos dos fascinans (a tendência de atrair ou fascinar). Por outras palavras, o Judaísmo e o Islão salientam a natureza omnipotente de Deus, enquanto o Cristianismo e a Fé Bahá'í destacam a natureza mística de Deus.

No Judaísmo e no Islão, Deus ocupa a posição central. No Cristianismo e na Fé Bahá'í, a atenção desloca-se um pouco, e está centrada nos seus Fundadores (isto é, Jesus Cristo e Bahá'u'lláh).

Os monoteísmos secundários (Cristianismo e a Fé Bahá'í) atribuem um significado especial à dor e ao sofrimento, especialmente no caso do seu Fundador ou de personagens especiais, como, por exemplo, o "filho sacrificado de Deus" (Jesus Cristo) no Cristianismo, e o martírio do Bab na história Bahá'í (o Báb foi o arauto de Bahá'u'lláh, tal como João Baptista preparou o caminho para o advento de Jesus Cristo).

Os monoteísmos secundários concentram o divino - e a graça da salvação - na pessoa do fundador da religião. Portanto, quem afirma “Cristo é o Senhor" ou "Bahá'u'lláh é o manifestante de Deus” encontra a regeneração espiritual nessa mesma crença, e torna-se uma parte da comunidade universal dos crentes.

Poderia escrever muito mais sobre este assunto. Mas penso que já identificámos vários pontos-chave, e gostaria de acrescentar outros igualmente importantes. Quando Bausani analisa o Cristianismo e a Fé Bahá'í, ele diz que existe aqui uma "vasta semelhança entre estes dois monoteísmos". Vejamos porquê:

  • Em primeiro lugar, no que toca às suas origens históricas, Bausani assinala que "ambos surgem como o cumprimento de uma «expectativa escatológica»”. Por outras palavras, Jesus Cristo e Bahá'u'lláh apareceram cumprindo as profecias das suas religiões-mãe, o Judaísmo e o Islão.
  • Em segundo lugar, Bausani explica ainda que "ambos surgem em áreas espirituais dos monoteísmos primários" e nota "a influência de outras culturas". O Cristianismo nasceu de uma "cultura helenística-neoplatónica: o Judaísmo do tempo de Cristo”. Da mesma forma, a Fé Bahá'í surgiu a partir de uma "cultura maniqueísta-gnóstica iraniana”: o Irão xiita. "Assim o Cristianismo e a Fé Bahá'í surgiram cada uma sob a influência de uma forma especial de religiosidade monoteísta especialmente propícia ao nascimento de um «monoteísmo secundário»", afirma Bausani.
  • Em terceiro lugar, afirma Bausani, "em ambos a ideia de Deus estava psicologicamente, se não teoricamente, subordinada à ideia do Fundador". Isso não significa que Jesus Cristo e Bahá'u'lláh, como fundadores do Cristianismo e da Fé Bahá'í, eram mais importantes do que Deus. Deus nos livre! Bausani simplesmente nota que, numa cultura onde a crença num Deus supremo existe há muito tempo, o advento de um novo profeta ou mensageiro de Deus atrairia naturalmente mais atenção.
  • Em quarto lugar, continua Bausani, o Judaísmo e o Islão enfatizam a majestade e poder de Deus, enquanto o Cristianismo e a Fé Bahá'í dão mais importância à natureza misteriosa e amorosa de Deus. 
  • Em quinto lugar, prossegue Bausani, “em ambos os monoteísmos secundários, os martírios e os sofrimentos do Fundador e dos seus seguidores assumem uma importância vital, em nítido contraste com o que acontece nos monoteísmos primários". Salientando a importância da crucificação de Cristo, o martírio do Báb e os sofrimentos de Bahá'u'lláh, Bausani sugere: "Estes martírios e sofrimentos vão ao ponto de assumir um valor redentor no Cristianismo e uma importância mais genericamente purificadora e redentora no Babi-Bahaismo”. E destaca que, no caso de a crucificação de Cristo e do martírio do Báb (co-fundador da Fé Bahá'í), "a maior intensidade sagrada da pessoa do fundador" deve-se ao facto de que "os profetas não são mortos por pagãos, mas por pessoas que, para o bem e para o mal, são os representantes do Deus Uno, o povo de Deus."
  • Em sexto lugar, Bausani observa que “ambos os monoteísmos secundários fundam instituições sagradas", apontando a "Igreja Carismática no Cristianismo" e "a «Ordem Administrativa», a Arca Redentora, Safina Hamra ["Arca Carmesim"], no Bahaismo”. Em português: a Igreja é uma instituição importante no Cristianismo. Também, na Fé Bahá'í, a "Ordem Administrativa" - uma série de conselhos locais, nacionais e internacionais eleitos pelos Bahá'ís em todo o mundo - é o centra da vida da comunidade Baha'i.

Para os Cristãos que exploram os ensinamentos Bahá'ís, ou para os Bahá'ís que vêm de origens cristãs, esses paralelismos fascinantes podem explicar muita coisa sobre a relação entre as duas religiões, e fazer eco dos apelos de Cristo e Bahá'u'lláh para o amor e a unidade:
Agora é o momento para os que amam Deus erguerem bem alto os estandartes da unidade, de entoarem, nas congregações do mundo, os versículos da amizade e do amor e para demonstrar a todos que a graça de Deus é uma só. Assim os tabernáculos da santidade serão erguidos nos pontos mais altos da terra, reunindo todos os povos à sombra protectora da Palavra da Unidade. (‘Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #7).
Os meus agradecimentos ao investigador Baha'i Julio Savi pela sua tradução do segundo artigo de Bausani, a partir da qual foram obtidas as citações anteriores.

Espero que estes textos sobre os dois artigos de Alessandro Bausani lancem uma nova luz sobre as religiões monoteístas, sobre os seus diferentes tipos, e sobre a sua ligação orgânica entre si.

A graça de Deus é uma só.

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Texto original: The Grace of God is One (bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

As ameaças do costume

Na noite de 25-26 Julho, nos muros da residência de uma família Bahá'í em Shahrak-e Gharb (distrito Noroeste de Teerão) surgiu o tristemente rotineiro slogan “Morte aos Bahá’ís!”

Esta residência é habitada pela família Aqdasi há muito anos e situa-se na Avenida Sazman Barnameh, num bairro próspero perto do Parque Eram. É a primeira vez que esta família enfrenta este tipo de ameaças.

Muitas outras famílias Bahá’ís no Irão têm recebido ameaças através de cartas anónimas; em diversos casos foram cometidos actos de vandalismo contra automóveis e incendiadas propriedades.

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FONTE: Fresh graffiti in Tehran (Sen's Daily)

sábado, 25 de julho de 2015

Quem acredita no Deus único?

Por Christopher Buck.


O leitor considera-se monoteísta? Monoteísmo é a crença num único Deus. Quais das principais religiões do mundo expressam essa crença? Ao responder a esta pergunta, a maioria das pessoas pensa nas chamadas "religiões abraâmicas": o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. Você sabia que há uma quarta religião abraâmica? Essa é a Fé Bahá'í.

"Quem disse isso?" poder-se-á perguntar. "Consegue provar isso?". Eu aceito o desafio. Aqui vamos.

O ilustre académico italiano Alessandro Bausani (1921-1988) defendeu essa ideia. E como começou a fama de Bausani? Ele traduziu todo o Alcorão do original em árabe para italiano. Além de ser um proeminente "orientalista", Bausani era Baha'i e foi membro da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da Itália.

Só para complicar as coisas: você sabia que existem outras religiões monoteístas não-abraâmicas? Sim, existem; Não estou a brincar. A religião monoteísta mais conhecida, fora das religiões abraâmicas, é Zoroastrismo. É antiga, e é também uma religião moribunda, tal como o Samaritanismo.

Em dois grandes artigos sobre o monoteísmo, Bausani publicou uma tipologia única (ou classificação geral) sobre as religiões monoteístas. O seu primeiro artigo - um dos textos mais brilhantes que eu já li - intitula-se "Podemos ensinar o Monoteísmo? (Considerações Adicionais sobre a tipologia do Monoteísmo)" Na sua investigação excepcional, Bausani apresentou uma tipologia dos monoteísmos mundiais que propõe três categorias de crença num Deus único. O seu "esquema triplo" pode ajudar-nos a compreender a relação do Cristianismo com a sua religião mãe, o Judaísmo e a relação da Fé Bahá'í com a sua religião mãe, o Islão. Vejamos como Bausani descreve as suas três categorias:
  1. Monoteísmos Genuínos (primários: o Judaísmo e o Islão; secundários: o Cristianismo e a Fé Bahá'í);
  2. Monoteísmos Falhados (primário: Zoroastrismo; secundário: Maniqueísmo; arcaico: a reforma de Akhenaton);
  3. Para-Monoteísmos (Kabīrpanthīs, Dadhūpanthīs, Sikhs, Din-Ilahi de Akbar, etc.).
Em linguagem de leigos, isto significa o seguinte:

1. Judaísmo e Islão são "monoteísmos primários." Isso significa que ambos surgiram em mundos sociais politeístas, onde as pessoas acreditavam em mais de um deus. O Cristianismo e a Fé Bahá'í são "monoteísmos secundários." Isto significa que cada uma nasceu de uma religião "mãe" monoteísta. A tipologia de Bausani considera o Cristianismo como "filha" do Judaísmo. Da mesma forma, ele descreve a Fé Bahá'í como a "filha" do Islão.

2. Depois temos os "monoteísmos falhados." Anteriormente referi que o Zoroastrismo é hoje uma "religião moribunda". Penso que isso é o que Bausani pretende dizer. O Maniqueísmo, que surgiu num ambiente mais ou menos Zoroastriano, é um monoteísmo secundário falhado. Falhou porque já não tem seguidores. E o mesmo aconteceu à reforma de Akhenaton, uma fé "arcaica" de vida curta que apareceu no Egipto antigo.

3. A terceira categoria de Bausani - os "para-monoteísmos" - descreve as religiões que acreditam numa divindade suprema, mas de alguma forma reconhecem também outros deuses. O único exemplo conhecido, para uma audiência não especializada, é a religião Sikh, que surgiu numa sociedade do subcontinente indiano, onde o Hinduísmo e o Islão coexistiram, mas onde hindus e muçulmanos não tinham boas relações (de vez em quando ainda vemos isso na Índia de hoje).

Onde é que você se encaixa na tipologia de Bausani? Se você acreditar num Ser Supremo, então Bausani provavelmente considerá-lo um monoteísta primário ou secundário. É por isso que Bausani incluiu a Fé Bahá'í entre as religiões monoteístas do mundo; porque Baha'is acreditam firmemente na existência de um Deus:
Confirma, no âmago do teu coração, esse testemunho que Deus - por Ele e para Ele - pronunciou, de que não há outro Deus senão Ele, que tudo o que não é Ele foi criado por Sua ordem, foi formado pela Sua vontade, está sujeito à Sua lei, é como algo esquecido quando comparado com as evidências gloriosas da Sua unicidade, e nada é quando colocado face a face com as poderosas revelações de Sua unidade. (Bahá'u'lláh, Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, XCIV)

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Texto original: Do You Believe in One God? (bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 18 de julho de 2015

Podemos acabar com o Terrorismo?

Por Rodney Richards.


O terrorismo, segundo a utilização contemporânea mais amplamente aceite deste termo, é fundamental e inerentemente político. É também inevitavelmente sobre o poder: a busca do poder, a conquista do poder e o uso do poder para conseguir a mudança política. O terrorismo é, portanto, a violência - ou, igualmente importante, a ameaça da violência - usada e dirigida em busca de, ou ao serviço de, um objectivo político. Com este ponto essencial claramente esclarecido, pode-se apreciar o significado da definição adicional de “terrorista” fornecido pelo dicionário: “Pessoa que tenta promover os seus pontos de vista através de um sistema de intimidação coerciva". Esta definição destaca claramente outra característica fundamental do terrorismo: trata-se de um acto planeado, calculado, e metódico. (Inside Terrorism, por Bruce Hoffman)
Todo o tipo terrorismo destrói a paz mundial e a ordem mundial.

O terrorismo é o epítome da desumanidade do homem para com o homem. O terrorismo é também tomar deliberadamente a vida e os bens dos nossos semelhantes. Faz uso aleatório da violência e ameaça intimidar ou coagir, especialmente com objectivos políticos ou religiosos. A guerra aberta, a prisão justa ou injusta e a tortura, ainda mantêm mantenha a esperança de um fim ou de uma libertação; mas isso não acontece com o terrorismo.

Estação de Bolonha (Itália), 1980
O terrorismo está enraizado na necessidade de cada ser humano de pertencer a um grupo de parceiros. Nestes tempos, tornou-se ideologicamente aceitável matar indiscriminadamente inocentes para alcançar o objectivo terrorista: a ordem social baseada na sua única concepção do que é bom para eles e para todos os outros, sem excepções. Exigem obediência imediata, exacta e completa às suas ordens e princípios, como se verifica pelas acções de bombistas suicidas. Entre 1982 e Janeiro de 2015, foram documentados mais de 4283 ataques suicidas em 40 países, provocando dor e destruição indescritíveis.

A maioria dos actos terroristas que vemos hoje já não encaixa no velho ditado "Terrorista para uma pessoa é combatente pela liberdade para outra". Veja-se, por exemplo, a atitude da Alemanha nazi contra os grupos de resistência que se opunham à ocupação dos seus países pela Alemanha, rotulando-os de "terroristas". Nem as antigas tácticas de guerrilha perdoavam isso. Lutar pela liberdade, pela justiça e pela igualdade não é o mesmo que lutar pela repressão e pela subjugação.

O terrorista, tal como o egoísta, não considera importantes os sentimentos ou as vidas dos outros:
O homem que só pensa em si próprio e desconsidera os outros... [Ele] ... é sem dúvida inferior ao animal, porque o animal não possui da faculdade de raciocínio. O animal tem desculpa; mas no homem existe a razão, a faculdade de justiça, a faculdade de misericórdia. Possuindo todas essas faculdades ele não deve deixar de utilizá-las. Quem tem o coração tão endurecido que apenas pensa no seu próprio conforto, não será chamado homem. (‘Abdu’l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 42)
Até agora, as falsidades das ideologias e das acções terroristas revelaram-se como evidentes e auto-destrutivas. É reconhecido aos governos e às pessoas de bem em todos os lugares o dever expor as suas filosofias fúteis e justificações infundadas para matar inocentes. Os ensinamentos Bahá'ís dizem que a propagação do terrorismo expõe um dos falhanços mais profundos na forma como a humanidade tratou dos seus assuntos:
Os defeitos na ordem prevalecente estão patentes na incapacidade dos Estados soberanos, organizados nas Nações Unidas, em exorcizar o espectro da guerra, na ameaça de colapso da ordem económica internacional, no alastramento da anarquia e do terrorismo, e no sofrimento intenso que estas e outras aflições causam a milhões crescentes. (A Casa Universal de Justiça, A Promessa da Paz Mundial)
É claro, que os governos também matam pessoas inocentes com bombas, mísseis e drones. Os Bahá’ís acreditam que todas essas acções - perpetradas com a máscara do terrorismo ou do governo - devem parar. Como vimos no passado, destruição e morte só produzem mais destruição e morte.

Em vez disso, os ensinamentos Bahá'ís dizem que devemos adoptar uma estrutura genuína e universal que pode regular, conter e, por fim, parar as violentas explosões terroristas no mundo. Essa estrutura exige uma nova forma de organizar o mundo, baseada na justiça e na unidade:
A aceitação da unidade da humanidade é o primeiro pré-requisito fundamental para a reorganização e administração do mundo como um só país, o lar da humanidade. A aceitação universal deste princípio espiritual é essencial para o sucesso de qualquer tentativa para estabelecer a paz mundial. Por isso, deve ser universalmente proclamado, ensinado nas escolas, e constantemente afirmado em todas as nações como preparação para a transformação orgânica da estrutura da sociedade que isso implica.

Na perspectiva Baha'i, o reconhecimento da unidade da humanidade "exige nada menos do que a reconstrução e a desmilitarização de todo o mundo civilizado - um mundo organicamente unificado em todos os aspectos essenciais da sua vida, na sua máquina política, na sua ambição espiritual, no seu comércio e nas suas finanças, na sua escrita e língua, e também na infinita diversidade das características nacionais das suas unidades federadas" (Idem)

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Texto original: How Can We End Terrorism? (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.