sábado, 25 de março de 2017

A Tolerância Religiosa é suficiente?

Por David Langness.


Você já ouviu este conselho: vivemos num mundo religioso diversificado; por isso, precisamos de tolerância. Mas a tolerância será suficiente?

Para saber, vamos ver a definição da palavra no dicionário:
Tolerância: acto de admitir sem reacção agressiva ou defensiva; atitude que consiste em deixar aos outros a liberdade de exprimirem opiniões divergentes e de actuarem em conformidade com tais opiniões; aceitação; possibilidade que se dá a cada um de praticar a religião que professa.
Parece inofensivo, certo? Afinal, porque não haveríamos de tolerar as crenças dos outros? Bem, para entender o que realmente significa a tolerância, podemos olhar para a origem desta palavra, que vem do latim tolerare, que significa "suportar":
Tolerar: suportar (coisa desagradável); aceitar, admitir ou consentir (algo com que não se concorda); aceitar e conviver com (a diferença de ideias, de comportamentos, etc.) sem se sentir ameaçado
Deste modo, a tolerância religiosa pode significar ignorar e continuar a não gostar das outras religiões e dos seus seguidores, enquanto se suporta a sua existência. Não é uma maneira muito apelativa para nos relacionarmos com os outros, pois não?

Diana Eck, do Harvard Pluralism Center, tem a seguinte opinião sobre a tolerância religiosa:
... o pluralismo não é apenas tolerância, mas a busca activa da compreensão através das linhas de diferença. A tolerância é uma virtude pública necessária, mas não exige que Cristãos e Muçulmanos, Hindus, Judeus e secularistas fervorosos se conheçam uns aos outros. A tolerância é uma base muito frágil para um mundo de diferença e proximidade religiosa. Não faz nada para remover a nossa ignorância sobre os outros, permitindo a criação de estereótipos, meias-verdades e medos que subjacentes velhos padrões de divisão e violência. No mundo em que vivemos hoje, a nossa ignorância sobre os outros terá um custo cada vez maior.
Certamente que quando existe muita diversidade religiosa, e se simplesmente nos toleramos uns aos outros, isso pode parecer uma espécie de paz, amor e compreensão - à distância. Mas visto mais de perto, isso muitas vezes significa que criamos guetos religiosos, com linhas de separação rígidas que nos dividem imediatamente. Isso significa que realmente não conseguimos grande coisa na forma como compreendemos e construímos pontes reais entre religiões.

Quer testar pessoalmente esta ideia? Pergunte a si próprio: Quando foi a última vez que estive com uma pessoa ou um grupo de pessoas pertencentes a um sistema de crença totalmente diferente do meu?

Albaneses em fuga, no Kosovo, 1999.
No mundo moderno, temos muitos, muitos exemplos deste tipo de segregação religiosa. Quando o Kosovo se desintegrou há menos de duas décadas, por exemplo, imediatamente se dividiu de acordo com linhas religiosas - sérvios "Cristãos" contra albaneses "Muçulmanos". Apesar dos dois grupos religiosos terem vivido lado a lado na mesma sociedade durante muitos anos e terem conseguido um relacionamento relativamente pacífico, alguns fanáticos e déspotas, instalados em posições de liderança no governo e entre os militares, conseguiram rapidamente trazer as antigas divisões de volta à superfície e começar uma guerra genocida. Na África, no Médio Oriente e em muitos outros lugares do mundo de hoje, vemos acontecer os mesmos problemas.

Portanto, se membros de diferentes confissões religiosas quiserem encontrar-se para dialogar, falar das suas diferentes crenças e resolver os seus conflitos, precisarão de definir um terreno comum.

Como fazemos isso? Primeiro, com o conhecimento.

O que é que você sabe sobre os seus vizinhos budistas ou hindus ou muçulmanos - e sobre as suas crenças? Você já passou algum tempo investigando as outras religiões além da sua? Alguma vez foi a um culto de adoração ou reunião de outra Fé? Alguma vez leu algum livro sobre as outras religiões, ou sabe apenas aquilo que os meios de comunicação lhe dizem? Você tem relações de amizade frutíferas com alguém fora dos seus grupos familiares, culturais ou religiosos?

Adquirir conhecimentos sobre outras crenças não é difícil - agora, mais do que em qualquer outro momento da história, todos nós temos acesso a uma enorme riqueza de conhecimento sobre as outras religiões e crenças. Esse rico repositório de conhecimento - em escolas, bibliotecas, casas de culto, grupos comunitários e meios on-line - significa que não temos desculpas para continuar ignorantes em relação à religião.

Os ensinamentos Bahá’ís pedem a cada um de nós que se torne um "investigador da realidade" explorando activamente e aprendendo sobre as crenças dos outros:
Bahá'u'lláh incita continuamente o homem a libertar-se das superstições e tradições do passado e a tornar-se um investigador da realidade, pois assim verá que Deus revelou a Sua luz muitas vezes para iluminar a humanidade no caminho da evolução, em vários países e através de muitos e diferentes profetas, mestres e sábios. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, pp. 8-9)
Qual é a única forma de ir além da simples tolerância? Para transcender a mera tolerância, é necessário o conhecimento:
... a religião de Deus é a promotora da verdade, a criadora da ciência e da aprendizagem, a defensora do conhecimento, a civilizadora da raça humana, a descobridora dos segredos da existência e a iluminadora dos horizontes do mundo. ... aos olhos de Deus o conhecimento é a maior virtude humana e a mais nobre perfeição humana. ... Pois o conhecimento é luz, vida, felicidade, perfeição e beleza, e faz com que a alma se aproxime do limiar divino. É a honra e glória do reino humano e a maior das dádivas de Deus. O conhecimento é idêntico à orientação, e a ignorância é a essência do erro.

Felizes os que passam os seus dias na busca do conhecimento, na descoberta dos segredos do universo e na meticulosa investigação da verdade! ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 154-155)
Quando se começa a adquirir algum conhecimento sobre os sistemas de crenças do mundo, percebemos - tal como os ensinamentos Bahá'ís sugerem - que o conhecimento é luz, vida, felicidade, perfeição e beleza.

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Texto original: Why Religious Tolerance Isn’t Enough (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de março de 2017

Pode a Religião renunciar à Exclusividade e à Finalidade?

Por David Langness.


Para dar o salto do pluralismo religioso para a unicidade, cada uma das grandes religiões do mundo deve renunciar às suas pretensões de exclusividade e finalidade.

Aquelas pretensões de acesso privilegiado e absoluto à verdade - do tipo "somos o único caminho para Deus" ou "somos a palavra final e absoluta de Deus" - criaram alguns dos mais amargos conflitos entre os povos da Terra. As religiões que insistem na finalidade ou na exclusividade têm causado incontáveis mortes e tragédias como resultado dessas pretensões sectárias, opondo-se a outras religiões, governos ou povos, e criando ódio em vez de harmonia:
Vimos que aquilo que traz divisão no mundo da existência causa a morte. De igual modo, no mundo do espírito, opera a mesma lei. Portanto, cada servo do Deus Único deve ser obediente à lei do amor, evitando todo o ódio, a discórdia e o conflito. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp. 139-140)
Os ensinamentos Bahá’ís, que sempre renunciaram ao carácter destrutivo dessas pretensões, afirmam que estas não surgiram originalmente com os Profetas e Mensageiros que fundaram cada Religião, mas com as interpretações posteriores influenciadas pelo poder do clero de cada tradição. Além disso, os seguidores das religiões têm muitas vezes permitido que uma devoção excessivamente zelosa aos seus fundadores os leve a acreditar que a sua fé particular é a palavra final ou exclusiva de Deus, e seguidamente negam a possibilidade de aparecimento de qualquer religião posterior.

Ironicamente, os fundadores das grandes Religiões mundiais não reivindicaram exclusividade ou finalidade para seus ensinamentos; em vez disso, todos eles reconheceram as Religiões que tinham aparecido anteriormente e anunciaram futuras Religiões. Toda a religião tem profecias que prometem novos profetas, e toda religião se baseia também nas suas predecessoras. Todas as religiões aguardam o reaparecimento dos seus Mensageiros, porque todos os Mensageiros prometeram regressar.

É por isso que os Bahá’ís não reivindicam finalidade, exclusividade ou superioridade para a sua Fé; e é por isso que Bahá'u'lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá'í - exorta a humanidade à unidade:
Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião que sejam, derivam a sua inspiração de uma única Fonte Celestial e são súbditos de um único Deus. A diferença entre os preceitos sob os quais vivem deve ser atribuída aos diversos requisitos e exigências da época em que foram reveladas. Todas elas, exceptuando-se apenas umas poucas que são o resultado da perversidade humana, foram decretadas por Deus e são um reflexo da Sua Vontade e do Seu Propósito. Levantai-vos e, armados com o poder da fé, despedaçai os deuses das vossas imaginações vãs, os semeadores da dissensão entre vós. Apegai-vos àquilo que vos aproxima e vos une. (SEB, CXI)
Em 2002, a Casa Universal de Justiça - o corpo eleito democrática e globalmente, que administra a Fé Bahá'í - enviou uma declaração sobre este importante assunto aos líderes religiosos do mundo de todas as Fés. A declaração reflectiu sobre o apelo de Bahá'u'lláh, acima citado, e concluía pedindo a todas as religiões que renunciem às suas reivindicações de exclusividade ou finalidade:
Tal apelo não exige o abandono da fé nas verdades fundamentais de qualquer um dos grandes sistemas de crenças do mundo. Bem pelo contrário. A fé tem o seu próprio imperativo e é a sua própria justificação. O que os outros acreditam - ou não acreditam - não pode ser a autoridade em qualquer consciência individual digna do nome. O que as palavras acima instam inequivocamente é à renúncia a todas as pretensões de exclusividade ou finalidade que, ao envolver as suas raízes em torno da vida do espírito, se tornaram o principal factor na sufocação dos impulsos à unidade e na promoção do ódio e da violência. (A Casa Universal da Justiça, Abril de 2002, Aos Líderes Religiosos do Mundo)
Este urgente apelo Bahá’í aos líderes das Religiões do mundo vai muito além da mera tolerância religiosa, diversidade ou pluralismo. Vai ao coração da nossa compreensão de Deus. Desafia todos os líderes religiosos a compreender mais profundamente a verdade das suas próprias crenças, a considerar o futuro do mundo nesse contexto e, finalmente, a reconhecer e agir segundo a promessa básica de toda a religião - a promessa de Deus de trazer a paz e a unidade à humanidade:
Que o fanatismo e a intolerância religiosa sejam desconhecidos, que toda a humanidade adira ao vínculo da fraternidade, que as almas se associem em perfeito acordo, que as nações da terra hasteiem o estandarte da verdade e as religiões do mundo entrem no templo divino da unicidade, pois as fundações das religiões celestiais são uma realidade única. A realidade não é divisível; ela não admite a multiplicidade. Todos os Santos Manifestantes de Deus proclamaram e promulgaram a mesma realidade. Convocaram a humanidade para a própria realidade, e a realidade é uma só. As nuvens e as brumas das imitações obscureceram o Sol da Verdade. Devemos abandonar essas imitações, dissipar essas nuvens e brumas e libertar o Sol das trevas da superstição. Então o Sol da Verdade brilhará mais gloriosamente; todos os habitantes do mundo estarão unidos, as religiões serão uma só; seitas e denominações reconciliar-se-ão; todas as nacionalidades fluirão para o reconhecimento de uma única Paternidade e todos os níveis da humanidade se reunirão ao abrigo do mesmo tabernáculo, sob o mesmo estandarte. (’Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 95-96)

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Texto original: Can Religion Renounce its Claims to Exclusivity and Finality? (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Deputados Europeus apelam ao fim do "apartheid económico" contra os Bahá’ís no Irão

Treze Deputados do Parlamento Europeu (incluindo a portuguesa Ana Gomes) e dezanove deputados de parlamentos de nações europeias assinaram uma declaração que exige às autoridades iranianas que ponham um fim imediato a todas as actividades repressivas sobre as pequenas empresas pertencentes a Bahá’ís naquele país. A expressão “apartheid económico” foi usada para descrever a actual situação de descriminação e hostilização dos Bahá’ís no Irão.

Federica Mogherini
A declaração, que foi enviada no passado dia 14 de Março ontem para Federica Mogherini a a Alta Representante da UE para Política Externa e Segurança - começa por destacar que as autoridades iranianas encerraram 132 empresas pertencentes a Bahá'ís durante o ano passado. Esses encerramentos são uma das "muitas tácticas" que visam minar a comunidade bahá'í como uma "entidade viável", afirma a declaração.

"Outras medidas de apartheid económico deliberado e conduzido pelo governo contra os Bahá'ís incluem a exclusão absoluta do acesso de Bahá’ís a empregos na administração pública, o atrasar ou negar a emissão de licenças profissionais privadas, pressionar as empresas para despedir empregados Bahá’ís, forçar os bancos a bloquear as contas de clientes Bahá’ís e privar os Bahá’ís de acesso à educação universitária formal", diz a declaração.

Na carta de apresentação desta declaração, Rachel Bayani, a Representante da Comunidade Internacional Bahá’í em Bruxelas, escreveu:

"Confiamos que a União Europeia, ao envolver-se com o Irão numa conversa substancial sobre os direitos humanos, dará a devida atenção à opressão sistemática da comunidade Bahá’í nesse país (que dura há quase quatro décadas) e incluirá, no seu diálogo com o Irão, um plano de medidas concretas para eliminar gradualmente os obstáculos, para que a comunidade Bahá’í iraniana possa contribuir, em pé de igualdade com os seus concidadãos, para o progresso do seu país".

Além dos 13 deputados do Parlamento Europeu, há deputados nacionais da Áustria, de França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suécia, dos Países Baixos e do Reino Unido entre os signatários da declaração. A declaração completa e a lista de signatários podem ser lidas aqui.

A carta de apresentação da Sra. Bayani à Sra. Mogherini pode ser lida aqui.

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FONTE: Thirty-two European parliamentarians call for an end to “economic apartheid” against Baha’is in Iran (BIC)

domingo, 12 de março de 2017

Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?

Por David Langness.


Quem é pessimista consegue ver conflitos religiosos por toda a parte – mas quem é optimista, vê o surgimento do movimento inter-religioso.

As acções sensacionais e violentas de extremistas religiosos podem dominar capas de jornais e noticiários, mas isso representa apenas as opiniões contundentes e radicais de uma pequena minoria. O que as capas dos jornais muitas vezes não reflectem - e que a maioria das pessoas não sabe - é o crescente poder de uma nova tendência global para a cooperação e intercâmbio inter-religioso, conhecido como o movimento inter-religioso.

Já passou mais de um século desde o Parlamento das Religiões do Mundo, em Chicago, em 1893, onde membros e líderes de todas as religiões se uniram para pedir a compreensão global, cooperação e paz entre as religiões. Muitos dos Hindus, Budistas, Sikhs, Muçulmanos, Judeus, Bahá'ís e Cristãos (Católicos, Ortodoxos, Protestantes e Evangélicos) do mundo participaram nesse apelo. Ajudaram a formar o movimento inter-religioso, o que permitiu que se fizesse o apelo para aliança e colaboração. O movimento começou mesmo ter impacto na teologia e nas políticas das maiores entidades religiosas do mundo. A Igreja Católica declarou formalmente que os muçulmanos são parte do plano de salvação de Deus, e o Papa recentemente referiu-se ao povo judeu como os "nossos queridos e amados irmãos mais velhos". Está a nascer uma nova era de paz religiosa, e quem olhar com atenção verá que está a acontecer por toda a parte.

Em milhares de cidades por todo o planeta, membros de todas as religiões uniram-se para formar um movimento inter-religioso único, novo, descentralizado e difuso, sem precedentes em qualquer outro momento da história humana. Pastores, sacerdotes, rabinos, mulláhs, imãs e monges, juntamente com milhões de fiéis, começaram a reunir-se e a trabalhar em conjunto com seus parceiros de outras religiões. Os encontros devocionais inter-religiosos, os serviços inter-religiosos e as apresentações inter-religiosas tornaram-se comuns. Cada vez mais, as barreiras que costumavam manter as religiões separadas estão a diminuir e desaparecer.

Existem agora diversas organizações inter-religiosas, incluindo o Parlamento das Religiões do Mundo, Religions for Peace, United Religions Initiative, Interfaith Youth Core e muitas mais.

Se o movimento inter-religioso tem um lema, ele provavelmente vem de Hans Kung, o teólogo e presidente da Fundação para a Ética Global:
Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões.
Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões.
Mas muito antes de o movimento inter-religioso ter começado, os ensinamentos Bahá’ís recomendavam exactamente a mesma coisa:
Na medida em que a realidade essencial das religiões é apenas uma e a sua aparente desconformidade e pluralidade está na adesão às formas e às imitações que surgiram, torna-se evidente que essas causas de diferença e divergência devem ser abandonadas para que a realidade subjacente possa unir a humanidade no seu esclarecimento e desenvolvimento. Todos os que se apegam à realidade única estarão de acordo e unidos. Assim, as religiões convocarão as pessoas para a unicidade do mundo da humanidade e para a justiça universal; assim, proclamarão a igualdade de direitos e exortarão os homens à virtude e à fé na misericórdia amorosa de Deus. A base subjacente das religiões é uma única; não há diferença intrínseca entre elas. Portanto, se observarmos os mandamentos essenciais e fundamentais das religiões, a paz e a unidade amanhecerão, e todas as diferenças de seitas e denominações desaparecerão. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 98)
Porque é que tudo isso começou a acontecer agora? Os Bahá’ís acreditam que isso aconteceu devido à revelação de Bahá'u'lláh, que apela à unidade de todas as religiões:
É evidente que um número crescente de pessoas está a começar a perceber que a verdade subjacente a todas as religiões é - na sua essência – apenas uma. Este reconhecimento não surge através de uma resolução de disputas teológicas, mas como uma consciência intuitiva nascida da experiência cada vez mais alargada dos outros e de uma aceitação do nascimento da unicidade da própria família humana. Fora da confusão das doutrinas religiosas, dos rituais e dos códigos legais herdados de mundos desaparecidos, surge a sensação de que a vida espiritual - tal como a unidade manifesta em diversas nacionalidades, raças e culturas - constitui uma realidade ilimitada igualmente acessível a todos...

... a Comunidade Bahá’í tem sido uma vigorosa promotora de actividades inter-religiosas desde a sua criação. Além das associações estimadas que estas actividades criam, os Bahá’ís vêem no esforço das diversas religiões para se aproximarem uma resposta à Vontade Divina para uma raça humana que está a entrar na sua maturidade colectiva. Os membros da nossa comunidade continuarão a ajudar de todas as maneiras possíveis. Contudo, devemos afirmar claramente aos nossos parceiros neste esforço comum a nossa convicção de que o discurso inter-religioso - se quiser contribuir de maneira significativa para curar os males que afligem uma humanidade desesperada - deve agora abordar honestamente e sem mais subterfúgios - as implicações daquela verdade abrangente que trouxe o movimento à existência: que Deus é um só e que, para lá de toda a diversidade de expressão cultural e interpretação humana, a religião é igualmente uma só. (A Casa Universal da Justiça, Abril de 2002, To the World’s Religious Leaders, pp. 4-6)
O que será necessário para alcançar essa meta sublime da unificação da religião? Pode parecer um sonho impossível, mas que passos no caminho rumo à unificação poderíamos dar agora?

No mesmo documento citado acima, escrito aos líderes religiosos do mundo em 2002, o corpo administrativo eleito da comunidade internacional Bahá’í - a Casa Universal de Justiça - apelou para um único e importante primeiro passo: a "renúncia a todas as pretensões de exclusividade ou finalidade que, ao envolver as suas raízes em torno da vida do espírito, têm sido o principal factor no sufocar dos impulsos à unidade e na promoção do ódio e da violência." (Idem, p. 4)

Como podem as religiões - agora que entraram numa nova era de discurso inter-religioso e colaboração - renunciar às suas pretensões de exclusividade ou finalidade? No próximo artigo desta série, vamos explorar essa questão crucial.

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Texto original: Can We Possibly Have a Pluralistic, Interfaith Future? (www.bahaiteachings.org)

Artigo seguinte: Pode a Religião renunciar à Exclusividade e à Finalidade?
Artigo anterior: Pode alguma Religião ter o Exclusivo da Verdade?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 4 de março de 2017

Pode alguma Religião ter o Exclusivo da Verdade?

Por David Langness.


Muitas e diversificadas instituições religiosas afirmam ter acesso exclusivo à verdade - como podem estar todas certas?

Quando eu era criança - cresci numa denominação protestante que proclamava a sua verdade cristã exclusiva - fiz essa mesma pergunta. Quando o meu ministro Luterano disse que somente os Luteranos possuíam o verdadeiro e autêntico entendimento de Cristo e um amigo meu católico me disse que o padre lhe tinha dito exactamente a mesma coisa sobre a Igreja Católica, isso deixou-me ainda mais confuso. Então, perguntei ao meu ministro: "Porque é que a nossa religião diz que está certa e todas as outras religiões estão erradas?" Eu apenas não conseguia entender como aquilo podia fazer algum sentido.

O meu ministro levou-me para um local à parte e contou-me uma história longa e complicada sobre o papado e a corrupção da Igreja na Idade Média e o seu afastamento dos verdadeiros ensinamentos de Cristo e do aparecimento de Martinho Lutero; percebi algumas coisas mas não percebi a maioria do que ele disse (eu só tinha 8 anos!) Basicamente, entendi a essência do seu argumento: "Nós estamos certos e os outros estão todos errados." Isso não parecia possível; mas, sendo criança, esforcei-me para tentar aceitar isso.

Quando voltei a encontrar o meu amigo católico, contei-lhe o que o meu ministro tinha dito. Escusado será dizer que ele não aceitou muito bem. Na verdade, ele tentou bater-me e deixamos de ser amigos naquele dia.

Sem o saber, naquela tenra idade, eu tinha tropeçado na raiz causadora da maioria de desavenças, conflitos e guerras religiosas: as pretensões ao exclusivismo da verdade. À medida que crescia, comecei a ver esse mesmo exclusivismo a manifestar-se em todos os tipos de fronteiras religiosas e entre quase todas as seitas, denominações e religiões que eu encontrava. Isso levou-me a antipatizar activamente com a religião, porque via como aquelas pretensões de verdade exclusiva criavam divisões entre as pessoas e hostilidades entre elas.

Depois, quando era adolescente, decidi ver se conseguia encontrar uma fé que não tivesse pretensões ao exclusivismo da verdade. Perguntei-me se existiria um tal sistema de crenças, mas estava determinado a procurar.

Gastei um pouco de tempo e energia a investigar o Budismo Zen, o Hinduísmo e muitas outras religiões orientais. Pareciam ter maior compreensão e tolerância para com outras religiões, mas quando chegava ao fundo da questão até mesmo os budistas e hindus reivindicavam alguma exclusividade. "Se alguém não segue o Caminho Óctuplo de Buda", disse-me um amigo budista, "ele irá repetir o ciclo de sofrimento infinitamente."

Foquei-me no Judaísmo e conheci almas maravilhosas; mas aquele ensinamento do "povo eleito de Deus" parecia bastante exclusivista. Estudei o Islão, mas as mesquitas que visitei também me pareceram exclusivistas, especialmente com a sua ênfase no "povo do livro", o que significava que o Islão só reconhecia as religiões abraâmicas.

Depois, procurei algumas igrejas cristãs mais liberais, como os Unitários-Universalistas, e descobri que a maioria delas não tinha pretensões de exclusividade. Isso parecia promissor. A maioria dos Unitaristas que conheci tinha uma compreensão ampla e ecuménica da fé; mas as igrejas que eu frequentava também pareciam aceitar qualquer coisa que alguém quisesse acreditar, e isso também não me pareceu satisfatório. Eu queria uma religião verdadeira.

Também percebi gradualmente que muitas dessas denominações não tinham muita diversidade. Elas pareciam atrair os mesmos tipos e classes de pessoas, o que me frustrava - eu queria encontrar uma Fé que recebesse toda a gente, que não tivesse reivindicações exclusivas, nem políticas exclusivas de adesão.

Assim, após vários anos nessa busca contínua pela inclusão, decidi que iria praticar as minhas próprias crenças pessoais como eu achasse conveniente, aceitando os belos ensinamentos espirituais de todas as tradições que eu tinha encontrado e rejeitando aqueles que não gostava. Por fim, esse caminho também não me satisfazia muito, porque não oferecia nenhuma comunidade, nenhum encontro, nenhuma unidade. Descobri que nós, seres humanos, podemos ter as nossas próprias crenças individuais; mas a menos que possamos reunir-nos em grupo, essas religiões solitárias e individuais jamais poderiam realizar muito ou inspirar muito.

Entretanto, enquanto estudava e tentava entender todas essas tradições, algo surgiu gradualmente em mim. As afirmações de verdade de todas essas diferentes religiões, conforme as examinei de perto, revelaram-se pequenas variações de verdades maiores e mais universais. Quanto mais olhava, mais encontrava semelhanças e paralelismos entre todas as tradições de fé. Parecia haver um conjunto comum de princípios e um fio comum de verdade espiritual em cada uma das religiões que eu tinha investigado. Claro, que as suas práticas e rituais diferiram, mas no seu núcleo encontrei algumas das mesmas verdades. Rapidamente, percebi que essa percepção não era apenas minha, e que muitas pessoas já a tinham descoberto. Chamava-se perenialismo: reconhece a comunhão e a convergência de todos os verdadeiros ensinamentos espirituais e tradições.

Nesse momento encontrei a Fé Baha'i, e descobri o que procurava:
... "Há tantos caminhos para Deus quanto o número de Suas criaturas!"

Um professor deve conhecer estas estradas e esforçar-se para entrar em contacto compreensivo com os peregrinos cansados que se esforçam ao longo de cada estrada, e pouco a pouco ensinar-lhes que aquilo a que eles chamam estrada não é uma estrada, mas um caminho duro e inexplorado que conduz às selvas, aos desertos e aos precipícios. Quando estiverem preparados, ele poderá então gritar em voz alta: "Ó homens! Apareceu a Estrada do Senhor dos Exércitos. A Grande Avenida do Reino de Deus está pavimentada. Vejam! Observem!"

Há muitas pessoas que abandonaram os seus caminhos e estão a caminhar ao longo desta Via Celestial.

Vocês não os vêem? Não estão a aprender com o exemplo deles? Abram os olhos! Vejam! Vejam! Quantas comitivas de pessoas de tantas nacionalidades se aglomeram no Caminho Dourado do Reino!

Eles marcham sem parar, e a cada passo aproximam-se do objectivo. O seu caminho está cheio de lírios de amor e os jacintos de afecto... e nos seus lábios há cânticos de acção de graças e os hinos de glorificação. Escutem! Escutem! Agora eles estão a cantar suavemente, murmuram harmoniosamente e em breve vão erguer as suas vozes, entusiasmadas e inspiradas com regozijo e felicidade. Não será melhor para ti, meu irmão, minha irmã, abandonar esse teu cominho estreito onde crescem espinhos de dogmas e ervas daninhas de crenças, e caminhar sobre este Caminho largo e brilhantemente iluminado do Reino? Aqui desfrutareis a companhia de homens e mulheres espirituais que deram tudo para servir o seu Deus e o mundo da humanidade. Este momento de ouro está a terminar; esta oportunidade divina está a passar. Aproveitem! (‘Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 141)
Soube que a Fé Bahá'í não reivindica exclusividade. Em vez disso, ensina que todas as religiões vêm da mesma fonte e reflectem as mesmas verdades espirituais essenciais. Tinha encontrado o meu lar.

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Texto original: Can Any Religion Claim the Exclusive Truth? (www.bahaiteachings.org)

Artigo seguinte: Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?
Artigo anterior: Estaremos a viver num Mundo “Pós Verdade”?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Estaremos a viver num Mundo “Pós Verdade”?

Por David Langness.


A verdade é uma; os caminhos são muitos. (Mahatma Gandhi)
Eis uma pergunta difícil: existem múltiplas verdades, ou apenas uma verdade? Não é a verdade, por definição - e em última análise - uma coisa única?

Estas questões importantes têm uma relevância enorme nos tempos modernos, porque chegámos a um ponto em que algumas pessoas afirmam que diferentes grupos podem ter "verdades diferentes" - o que é verdade para você pode não ser verdade para mim; os factos são substituíveis e a verdade é apenas uma questão de perspectiva.

Os defensores mais radicais desta teoria dizem agora que entrámos num mundo “pós-verdade” ou “pós-factual” - uma cultura política onde a "veracidade" (para usar o eufemismo cómico de Stephen Colbert) é enquadrada pelo apelo às emoções em vez do intelecto; e a verdade real e factual está completamente perdida ou irremediavelmente obscurecida.

Em 2016, os Oxford Dictionaries escolheram "pós-verdade" (post-truth) como a sua Palavra do Ano, em grande parte devido ao seu impacto nas muitas eleições e debates políticos em diversas nações e culturas.

Para descobrir as respostas a estas perguntas espinhosas sobre a verdade, vamos fazer uma breve caminhada pela floresta desconcertante daquilo que constitui a verdade no mundo, e ver se podemos encontrar qualquer sentido de tudo.

A maioria dos filósofos diz que os seres humanos reconhecem três tipos diferentes de realidade: 1. verdade subjectiva; 2. a verdade dedutiva ou lógica; 3. verdade indutiva ou científica.

A verdade subjectiva significa experiência pessoal: por exemplo, eu odeio beringela. Para mim, isso é a verdade, e por isso evito comer beringela sempre que puder. Mas tenho uma boa amiga que adora beringela, e usa-a em muitas das suas refeições. Por causa da nossa amizade, concordamos em discordar sobre assuntos relacionados com beringela. A verdade subjectiva, portanto, é simplesmente uma opinião pessoal, influenciada pela experiência de vida, pelo gosto e pelo condicionamento cultural e tão amplamente variável quanto as pessoas no mundo. Assim, a verdade subjectiva é válida - mas apenas de maneira pessoal.

A verdade dedutiva - que alcançamos através da lógica - provavelmente pode ser melhor explicada pelo exemplo de um silogismo: todos os peixes nadam; uma truta é um peixe; portanto, uma truta nada. Esse é um argumento rígido e lógico - se as premissas são verdadeiras, então a conclusão também deve ser verdadeira. Obrigado Aristóteles, Wittgenstein e Alfred North Whitehead. Então, quando queremos ter uma discussão produtiva sobre a verdade, normalmente usamos a estrutura razoável e racional de um caminho lógico para a alcançar. Assim, a verdade dedutiva é universalmente válida.

A verdade indutiva, ou científica, a terceira categoria de verdade, é um pouco mais complicada. A partir de observações científicas, feitas com cuidado e feitas repetidamente, extraímos conclusões indutivas sobre realidades maiores: por exemplo, sabemos que é verdade que a Terra está a ficar mais quente, porque medimos as temperaturas em muitos lugares, muitas vezes, durante um período de tempo muito longo. Temos os dados científicos para provar a verdade dessa afirmação.

Mas porque a ciência exige a constante revisão e re-imaginação das suas conclusões (basta perguntar a Newton ou Einstein), com a investigação científica, só podemos chegar a uma versão actual do que é "verdadeiro". Por exemplo, se eu for astrofísico, posso observar repetidamente que os buracos negros não têm massa; mas algum cientista mais inteligente e com melhor informação pode, no futuro, vir a provar que conseguiu medir a massa de um buraco negro. Lá se vai minha teoria. A ciência, portanto, pela sua própria natureza, nunca descobre uma verdade completamente estabelecida, porque a verdade indutiva, ou científica, irá inevitavelmente aprofundar-se, evoluir, expandir e mudará conforme nossa capacidade de a medir e de a entender. Por natureza, a verdade indutiva, ou científica, evolui sempre. Assim, a verdade científica ou indutiva é válida até ao momento em que muda.

Com essas três categorias de verdade em mente - subjectiva, dedutiva e indutiva - temos um problema: se ignorarmos, confundirmos ou baralharmos estes três tipos de verdade, obteremos o caos. Isso acontece quando a verdade pessoal, subjectiva começa a ultrapassar os seus limites e entra nos reinos dedutivos ou indutivos, e as pessoas começam a realmente acreditar que não existem factos, ou que as suas opiniões fortes significam que eles podem ter o seu próprio conjunto de factos.

As escrituras da Fé Bahá’í ajudam-nos a pôr ordem neste caos e confusão. Isso acontece porque uma verdade válida - dizem os ensinamentos Bahá’ís - é essencialmente uma realidade indivisível:
Primeiro, incumbe a toda a humanidade investigar a verdade. Se tal investigação for feita, todos devem concordar e estar unidos, pois a verdade - ou a realidade - não é múltipla; não é divisível. As diferentes religiões têm uma verdade subjacente; portanto, sua realidade é uma. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 105-106)
Não é múltipla e não é divisível, diz 'Abdu’l-Bahá sobre a verdade. Se isso é verdade, significa que toda a verdade e toda a realidade se combinam para fazer uma única verdade derradeira.

Assim, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, a verdade é uma, mas todos nós a experimentamos de forma diferente. O mundo tem um oceano, mas nós damos-lhe nomes diferentes consoante a nossa geografia. Todos nós vivemos num globo, num sistema solar, num universo, mas ninguém tem exactamente a mesma vida que qualquer outra pessoa. A realidade é uma, mas cada um de nós processa-a e compreende-a através da sua cultura, mentes e alma individualmente distinta das outras. As manifestações da verdade são uma, mas as Escrituras, os Profetas e os sábios variam de uma era para a outra. A religião é uma, embora nos venha de diferentes mensageiros que aparecem em diferentes épocas para diferentes povos.

Assim, a nossa tarefa como seres humanos individuais, inclui descobrir uma verdade mais elevada, e despertar para a consciência da sua unicidade. No próximo ensaio desta série, examinaremos como isso pode acontecer - se mantivermos uma mente aberta sobre o pluralismo da religião; e se dizemos a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade.

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Texto original: Are We Living in a “Post-Truth” World? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.