sábado, 22 de setembro de 2018

Seitas, Cristianismo e Dinheiro: em que acreditam os Bahá’ís?

Por Kathy Roman.


Tornei-me Bahá’í na minha adolescência, quando descobri esta Fé terna e bondosa. Desde então, ocasionalmente ouvi e li algumas noções erradas sobre a minha religião.

Na primeira parte deste artigo, escrevi sobre três dessas afirmações falsas: “A Fé Bahá’í é uma seita do Islão”, “A Fé Bahá’í tem clero" e “uma pessoa nasce Bahá’í”. Todas são falsas; algumas são ridículas; e a maioria é apenas desconhecimento.

Além destas, ouvi, durante a minha vida Bahá’í, outras três afirmações ainda mais falsas e também sem fundamento: “A Fé Bahá’í é uma seita”; “os Bahá’ís não acreditam em Cristo”; e “os Bahá'ís querem o seu dinheiro”. Estas além de falsas, são caluniosas - porque são exactamente o oposto da realidade. Vamos analisá-las.

Afirmação falsa nº 4: "A Fé Bahá’í é uma seita"

Quando eu e a minha irmã éramos jovens adolescentes Bahá’ís, morávamos em Los Angeles, onde existia uma das maiores comunidades Bahá’ís nos Estados Unidos. A minha tia costumava realizar na sua casa reuniões introdutórias sobre a Fé, os chamados fire-sides. Naqueles dias, podíamos ouvir conversas fascinantes de actores, artistas, músicos e teólogos vindos de todo o mundo. Todas as noites de domingo, uma vaga de gente aparecia à sua porta; todos estavam curiosos e interessados em investigar por si próprios essa nova e intrigante Fé.

Costumávamos ficar surpreendidas quando ouvíamos coisas chocantes sobre a Fé. Um homem com quem falámos perguntou: “Eu ouvi um vizinho a falar sobre a Fé Bahá’í. Não é uma seita de amor persa?” Rimo-nos as duas com a surpresa!

Contámos-lhe que, na verdade, a Fé Bahá’í é uma religião global e independente, fundada em 1863, com seguidores em todo o mundo. Embora contenha os ensinamentos espirituais profundos comuns às religiões do passado, como os do Cristianismo, Islão, Budismo, Hinduísmo e Judaísmo, a Fé Bahá’í é uma nova revelação dos ensinamentos religiosos:
(…) Bahá'u'lláh, o Fundador da Fé Bahá'í, proclamou clara linguagem clara e inequívoca, aos reis e governantes do mundo, aos seus líderes religiosos e à humanidade em geral que a prometida era de paz e fraternidade mundiais tinha finalmente chegado e que Ele próprio era o Portador da nova mensagem e poder de Deus que transformaria o sistema prevalecente de antagonismo e inimizade entre os homens, e criaria o espírito e a forma da ordem mundial destinada. (A Casa Universal de Justiça, in the introduction to The Proclamation of Baha’u’llah, p. viii).
As seitas normalmente têm líderes carismáticos - os Bahá’ís têm uma liderança eleita democraticamente; não têm autoridades individuais. As seitas normalmente existem num determinado ambiente cultural - os Bahá’ís vêm de todos os países e culturas do mundo. As seitas são sociedades fechadas - a Fé Bahá’í está aberta a todos. As seitas têm práticas e rituais secretos - a Fé de Bahá’í não tem nenhum. As seitas usam técnicas enganosas de persuasão e controle - os princípios Bahá'ís exigem a investigação independente da verdade para toda a gente. Assim, a Fé Bahá’í é exactamente o oposto de uma seita.

Afirmação falsa nº 5: "Os Bahá’ís não acreditam em Cristo”

Ninguém pode dizer que é Bahá’í a não ser que também acredite também na condição de Cristo como profeta e mensageiro de Deus. Os Bahá’ís aceitam inequivocamente os ensinamentos de Cristo e acreditam na divindade de Jesus.
Sabe que quando o Filho do Homem entregou o espírito a Deus, toda a criação chorou num grande pranto. Ao sacrificar-Se, porém, uma nova capacidade infundiu-se em todas as coisas criadas. As suas evidências, como se testemunha em todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de ti. A sabedoria mais profunda que os sábios pronunciaram, o conhecimento mais profundo que qualquer mente explicou, as artes que as mãos mais hábeis produziram, a influência exercida pelo mais poderoso dos governantes, são apenas manifestações do poder vivificador libertado pelo Seu Espírito transcendente, omnipresente e resplandecente.

Testemunhamos que quando Ele veio ao mundo, Ele derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas. Através d’Ele, o leproso recuperou da lepra de perversidade e da ignorância. Através d'Ele o ímpio e rebelde foram curados. Através do Seu poder, nascido do Deus Todo-Poderoso, os olhos dos cegos abriram-se e a alma do pecador santificou-se… Testemunhamos que através do poder do Verbo de Deus todo o leproso foi purificado, toda a enfermidade foi curada, toda a debilidade humana foi banida. Ele é Quem purificou o mundo. Bem-aventurado o homem que, com um rosto radiante de luz, se volveu para Ele." (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXXVI)

Afirmação falsa nº 6: "Os Bahá’ís querem o seu dinheiro”

Pelo contrário, os Bahá’ís nunca aceitaram, nem nunca aceitarão, donativos externos para a sua Fé. Desculpem, mas a Fé Bahá’í recusa contribuições de quem não é Bahá’í. Contribuir para o fundo Bahá’í é uma bênção reservada apenas para Bahá’ís. Apesar das instituições e templos Bahá’ís terem por objectivo beneficiar e unir toda a humanidade, os Bahá’ís excluem a política e interesses especiais de qualquer tipo. Como Bahá’í, este é outro dos princípios da Fé que me enche de orgulho.

Espero que o leitor, na sua busca independente pela verdade e pela sabedoria, encontre todas as verdades maravilhosas da Fé Bahá’í – a mais importante das quais é a unificação dos corações no nosso planeta:
Se desejais com todo o vosso coração a amizade com todas as raças da terra, o vosso pensamento espiritual e positivo espalhar-se-á; tornar-se-á o desejo dos outros, tornando-se cada vez mais forte, até atingir as mentes de todos os homens. ('Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 29-30)

-----------------------------
Texto original: Cults, Christianity and Cash: What the Baha’is Believe (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 15 de setembro de 2018

3 Equívocos comuns sobre a Fé Bahá’í

Por Kathy Roman.


Desde que conheci a Fé Bahá’í quando tinha 14 anos - e agora sou bastante mais velha - ouvi as mais diversas falsidades - definições, afirmações e acusações - sobre minha religião.

Nestes dois artigos, vamos abordar directamente algumas das inverdades mais óbvias: a Fé Bahá’í é uma seita ou um ramo do Islão; existe clero Bahá’í; quem nasce numa família Bahá’í é Bahá’í; os Bahá’ís não acreditam em Cristo; e os Bahá’ís querem o seu dinheiro. Nenhuma destas possui uma nesga de verdade – de facto, são todas completamente falsas.

Afirmação falsa nº 1: "A Fé Bahá’í é um ramo do Islão"

Na verdade, a Fé Bahá’í é uma religião distinta, reconhecida como tal pela vasta maioria das nações e intelectuais do mundo. Embora o profeta e fundador da Fé, Bahá’u’lláh, tenha nascido numa família muçulmana, Ele fundou uma religião completamente independente. A sua ligação ao Islão é a mesma que liga Cristo ao Judaísmo. Tendo nascido judeu, Jesus cumpriu a profecia judaica e fundou o Cristianismo. Embora o Cristianismo contenha as mesmas verdades básicas que a fé judaica, elas são duas religiões distintas. Bahá’u’lláh veio para unir as religiões:
Cristo foi o profeta dos Cristãos, Moisés dos Judeus - porque é que os seguidores de cada profeta não devem também reconhecer e honrar os outros profetas? Se os homens pudessem apenas aprender a lição da tolerância mútua, da compreensão e do amor fraterno, a unidade do mundo seria rapidamente um facto estabelecido. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pags. 48-49)

Uma vez que a realidade essencial das religiões é apenas uma e a sua aparente diferença e multiplicidade encontra-se na adesão a modelos e imitações que foram surgindo, então é evidente que essas causas de diferença e desacordo devem ser abandonadas para que a realidade subjacente possa unir a humanidade, esclarecendo-a e edificando-a. Todos os que se agarram à realidade única estarão em concordância e unidade. Assim, as religiões devem convocar as pessoas para a unicidade do mundo da humanidade e para a justiça universal; desta forma, proclamarão a igualdade de direitos e exortarão os homens à virtude e à fé na misericórdia amorosa de Deus. A base subjacente das religiões é uma; não existe diferença intrínseca entre elas. Portanto, se os mandamentos essenciais e fundamentais das religiões forem cumpridos, a paz e a união manifestar-se-ão, e todas as diferenças de seitas e denominações desaparecerão. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 99)
Afirmação falsa nº 2: “A Fé Bahá’í tem um clero tal como as outras religiões”

Os Bahá’ís acreditam que intermediários, tais como pastores, sacerdotes, mulás ou rabinos, já não são necessários para aprender sobre Deus e comunicar com Ele. E visto que os ensinamentos da Fé Bahá'í afirmam que toda a humanidade é igual sem excepção, os Bahá’ís acreditam que atingimos um estado de maturidade colectiva da humanidade e que qualquer pessoa pode procurar e investigar a verdade, de forma independente. Cada um de nós tem uma relação individual com Deus que é sagrada e pessoal - chegámos a uma fase de maturidade humana que já não requer as antigas formas de fé:
Este é também o ciclo de maturidade e reforma na religião. As imitações dogmáticas de crenças ancestrais estão desaparecer. Elas foram o eixo em torno do qual a religião rodava, mas agora já não são frutíferas; pelo contrário, neste dia elas tornaram-se a causa da degradação e bloqueio humano. Fanatismo e adesão dogmática às crenças antigas tornaram-se a fonte principal de animosidade entre os homens, o obstáculo ao progresso humano, a causa da guerra e da luta, o destruidor da paz, da serenidade e do bem-estar no mundo. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 439)
Assim, apesar da Fé Bahá’í não ter qualquer clero, existe uma administração Bahá’í que é eleita. Todos os anos, os Bahá’ís elegem democraticamente uma Assembleia Espiritual Local de nove pessoas em cada cidade – uma eleição realizada sem propaganda ou politiquices. Estas Assembleias Espirituais focam-se nas necessidades espirituais da comunidade.

Afirmação falsa nº3: "Uma pessoa nasce Bahá’í"

Embora muitos filhos de famílias Bahá’ís acabem por tomar a decisão pessoal de aceitar a Fé, esse processo não é automático. Ao contrário de outras religiões, as crianças de famílias Bahá’ís são encorajadas a estudar todas as tradições espirituais e, depois dos 15 anos, podem fazer - por si próprias - uma opção consciente e informada. Uma vez que a Fé Bahá’í valida os ensinamentos espirituais de muitas tradições do passado, e reconhece e honra todas as grandes religiões do mundo, isto raramente é um problema. Um dos princípios essenciais da Fé Bahá'í - a investigação independente da verdade - garante que ninguém se torna ou permanece um Bahá’í contra a sua própria vontade:
...Deus criou no homem o poder da razão, com o qual o homem é capaz de investigar a realidade. Deus não desejou que o homem imitasse cegamente os seus pais e antepassados. Ele dotou-o com a mente - ou a faculdade do raciocínio - com cujo exercício ele deve investigar e descobrir a verdade, e ele deve aceitar aquilo que descobre ser real e verdadeiro. Ele não deve ser um imitador ou um seguidor cego de qualquer alma. Ele não deve confiar implicitamente na opinião de qualquer homem, sem investigar; pelo contrário, cada alma deve procurar de forma inteligente e independente, e chegar a uma conclusão real e limitada apenas por essa realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 291)
-----------------------------
Texto original: 3 Common Misconceptions about the Baha’i Faith (www.bahaiteachings.org)

 - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Kathy Roman é educadora reformada, aspirante a escritora, esposa e mãe de dois filhos que vive em Elk Grove, California (EUA), onde serve como responsável de Informação Pública Bahá’í.

sábado, 8 de setembro de 2018

Obrigado aos Jornalistas!

Por Jaine Toth.


A preocupação e a valorização das pessoas que nos protegem - militares, bombeiros e policias - é comum e por bons motivos. A nossa segurança é sua principal prioridade.

Eles protegem a nossa integridade física e os nossos bens; e porque o medo pode ter efeitos prejudiciais, as suas acções também servem como protecção para nossa saúde psicológica e emocional.

Poucos de nós têm o mesmo apreço pelos jornalistas - mas devíamos ter. Jornalistas de investigação e fotojornalistas colocam-se frequentemente em perigo para manter as nossas mentes livres e informadas - e também, para manter as nossas sociedades livres de mentiras e corrupção.

Um repórter que conheço, David Leeson, trabalhou como fotógrafo (para um jornal) e como fotojornalista de 1977 a 2008. Mesmo depois de ter sido ferido quando cobria os protestos no Panamá durante o período que antecedeu a queda de Manuel Noriega, Leeson continuou a cobrir acontecimentos em todo o mundo, e também aqui nos EUA. Recebeu prémios famosos, incluindo o Pulitzer em 2004 para Reportagem Fotográfica pela sua cobertura da guerra no Iraque, da qual a sua esposa e amigos ficaram aliviados quando ele regressou vivo e ileso.

No Arizona, onde eu vivo, basta dizer o nome Don Bolles e as pessoas fecham os olhos e abanam a cabeça, lembrando o seu assassinato. A maioria dos leitores pode não conhecer a história de Bolles; aqui fica um breve resumo do AZCentral.com:
Em 2 de Junho de 1976, uma bomba explodiu debaixo do carro do jornalista do Arizona Republic Don Bolles. Onze dias depois, ele morreu. Hoje, ainda há quem acredite que o assassinato de Bolles é um mistério. Os procuradores dizem que ele foi morto devido às suas histórias que atacavam o poderoso empresário Kemper Marley. Outros pensam que ele morreu devido ao que escreveu sobre o crime organizado. E há ainda quem acredite que o crime foi combinado pelos dois. A verdade está enterrada nas mentes, ou nos túmulos, dos que estiveram envolvidos.
Em numerosos países, os jornalistas geralmente não podem escrever ou filmar nada que não esteja de acordo com a posição oficial do governo; é o governo que decide aquilo que as pessoas podem (ou não) saber. Há criminosos que não querem que os seus crimes sejam divulgados; e também há políticos corruptos com a mesma atitude.

Os ensinamentos Bahá’ís elogiam o jornalismo e enaltecem o seu papel numa sociedade livre e desenvolvida:
Podemos determinar o progresso, ou retrocesso, de uma nação pelo seu jornalismo... Os jornalistas devem escrever artigos relevantes, artigos que fomentem o bem-estar público. Se o fizerem, serão os primeiros agentes do desenvolvimento da comunidade. (‘Abdu’l-Bahá, from the Pennsylvania Public Ledger.  Texto de Mina Yazdani’s no livro Abdu’l-Baha’s Journey West)
Em todo o mundo, os jornalistas que concordam com estas palavras de ‘Abdu'l-Bahá e que arriscam as suas vidas para descrever factos reais aos seus leitores, por vezes acabam na prisão ou são executados. Morrem em guerras. Arriscam tudo para nos trazer a verdade.

Mesmo aqui nos Estados Unidos, há muitas pessoas poderosas que tentam subverter o trabalho dos jornalistas. E há jornalistas que enfrentam perigos para descobrir segredos incómodos que o público deve - e precisa - conhecer.

David Gilkey
Em 2016, um ataque no Afeganistão tirou a vida do fotógrafo e editor de vídeo da NPR, David Gilkey, e do repórter afegão Zabihullah Tamanna. Encontravam-se com um pequeno grupo de jornalistas da NPR e viajavam com uma unidade do exército afegão quando a sua coluna foi atacada.

O general do exército dos EUA, John W. Nicholson, comandante da missão de apoio dos EUA-NATO no Afeganistão emitiu uma declaração sobre os jornalistas mortos. Dizia: "Temos o maior respeito pelo seu trabalho, bem como o de outros que suportam as dificuldades que surgem quando se faz cobertura noticiosa em zonas de conflito".

Gilkey, que fazia a cobertura noticiosa da situação no Afeganistão desde os ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos, e que começou a trabalhar para a NPR em 2007, recebeu a honra de ser eleito Fotógrafo do Ano de 2011 pela Associação de Fotógrafos da Casa Branca.

Funcionários da NPR também falaram sobre a importância do trabalho feito por estes jornalistas e pelos seus colegas. "Ele dedicou-se a ajudar o público a ver essas guerras e as pessoas apanhadas por elas", disse Michael Oreske, vice-presidente e director da NPR. “Ele morreu mantendo esse compromisso... Como homem e como fotojornalista, o David trouxe a humanidade de todos ao seu redor. Ele permitiu-nos ver o mundo e ver-nos uns aos outros através dos seus olhos. ”

Jarl Mohn, presidente e CEO da NPR, afirmou: “Eventos horríveis como este lembram-nos o papel importante que os jornalistas têm na vida cívica dos Estados Unidos. Eles ajudam-nos a entender além dos cabeçalhos e títulos, e a ver a humanidade nos outros”.

Pessoas como Gilkey, Tamanna e os seus colegas jornalistas merecem o nosso mais profundo respeito e apreço. Os seus esforços mostram que o custo da guerra afecta as pessoas, especialmente as inocentes. Eles partilham as suas histórias para que o mundo preste atenção e entenda.

As escrituras Bahá’ís dizem-nos:
Incumbe a cada alma gastar estes poucos dias de vida na veracidade e justiça... (Bahá’u’lláh, Bahá’í Scriptures, p. 85)
… Devemos falar a verdade; de outra forma não agiremos com sabedoria… Os maiores talentos do homem são a razão e a eloquência de expressão. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 103)
Falar a verdade no jornalismo também pode ajudar a:
(…) extinguir, através do poder da sabedoria e da força da vossa palavra, o fogo da inimizade e do ódio que arde no coração dos povos do mundo. (Bahá’u’lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 12)
Assim, gostaria de agradecer a todos os jornalistas de investigação e fotojornalistas: vocês merecem a nossa mais profunda gratidão. A vossa coragem e integridade ajudam-nos a manter a nossa independência e ajudam-nos a dar-nos os factos que usamos para formar as nossas próprias opiniões e tomar as nossas decisões.

-----------------------------
Texto original: Thanking Journalists: First Responders for the Truth (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - -

Jaine Toth é actriz, escritora e formadora. Vive no Arizona (EUA), perto do Desert Rose Baha'i Institute. É autora de uma coluna semana num jornal.

sábado, 1 de setembro de 2018

Paradoxo: conhecer o Deus incognoscível

Por Ned Walker.


O médico, psiquiatra e filósofo suíço Carl Gustav Jung, afirmou:
Curiosamente, o paradoxo é um dos bens espirituais mais valiosos, pois a uniformidade de significados é um sinal de fraqueza. Assim, uma religião torna-se empobrecida interiormente quando perde, ou reduz, os seus paradoxos; mas a sua multiplicação enriquece-a porque só o paradoxo se aproxima da compreensão da plenitude da vida. A não-ambiguidade e a não-contradição têm uma faceta única e, portanto, são inadequadas para expressar o incompreensível. (Psychology and Religion, p. 18)
Os paradoxos servem para revelar significados profundos através de uma aparente contradição. Metafísicos por natureza, os paradoxos desafiam-nos a pensar em novos caminhos e a ver novas realidades.

Carl Jung
Quando um professor budista zen apresenta um koan intrigante a um aluno, ele espera uma resposta metafísica, e não racional. Mas a ambiguidade e a contradição também estão presentes na mentalidade científica ocidental. Por exemplo, o teste de hipóteses com metodologia científica rigorosa, em vez de resolver a questão em consideração, levanta muitas vezes uma infinidade de novas questões. O conhecimento na verdade expande-se em vez de se contrair; é como se quanto mais aprendêssemos, menos compreendêssemos o que sabemos. Qual a solução metafísica para esse paradoxo? O conhecimento é infinito.

Os paradoxos surgem prontamente nos ensinamentos da Fé Bahá'í. Um destes refere-se ao relacionamento entre o ser humano e Deus:
Em todos os momentos estou perto de ti, mas tu estás sempre longe de Mim. (Bahá'u'lláh, The Hidden Words, pág. 29)
Como podem duas entidades podem estar próximas e longe uma da outra? A expressão refere-se ao conhecimento e consciência; não à distância física. O conhecimento de Deus, inefável e sublime, exige um alargamento da consciência das nossas qualidades e atributos celestiais – mas exclui o conhecimento da natureza essencial de Deus. Assim, conhecedor e conhecido estão, simultaneamente, "próximos" e "distantes". Na sua Epístola intitulada "Cidade da Consentimento Radiante", Bahá'u'lláh explicou a razão e a função dos paradoxos:
As contradições aparentes em todas as coisas foram apenas estabelecidas para vos lembrar da impermanência dos vossos seres, de modo a que vos torneis conscientes disso e não sejais obstinados.
Sabemos pelos ensinamentos Bahá’ís que o único e derradeiro propósito da nossa existência é conhecer Deus e que temos capacidade para o fazer:
Dou testemunho, ó meu Deus, que me criaste para Te conhecer e adorar. (Orações Obrigatória Curta)
Ele, através da operação directa da Sua Vontade irrestrita e soberana, decidiu conferir ao homem a distinção e capacidade única de O conhecer e de O amar - uma capacidade que deve necessariamente ser considerada como o impulso gerador e o principal propósito subjacente a toda a criação… (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec. XXVII)
No entanto, num profundo paradoxo, ficamos a saber, nas mesmas escrituras, que Deus é incognoscível:
Para todo o coração perspicaz e iluminado, é evidente que Deus, a Essência incognoscível, o Ser Divino, está imensamente elevado acima todos os atributos humanos, tais como existência corpórea, subida e descida, saída e regresso. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec. XIX)
Desde tempos imemoriais, está Ele velado na santidade inefável do Seu Ser enaltecido e permanecerá eternamente envolto no impenetrável mistério da Sua Essência incognoscível. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec. XXVI)
Estes grandes paradoxos, os mistérios essenciais e eternos da existência, pedem-nos que continuemos a procurar a beleza inefável do incognoscível.

-----------------------------
Texto original: Paradoxically Speaking -The Unknowable God (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Ned Walker vive em East Lansing, no Michigan (Estados Unidos) e trabalha na Michigan State University. Tem trabalhado em investigação sobre malária e Mosquitos no Quénia e no Malawi. Conheceu a Fé Bahá’í através de um amigo na escola secundária e a sua vida mudou para sempre.

sábado, 25 de agosto de 2018

Os Bahá’ís e as Armas de Fogo

Por David Langness.


Cresci a caçar e a pescar no estado de Washington (EUA). Os meus pais tinham cinco filhos, e pouco dinheiro; por isso, durante minha infância, apanhávamos ou matávamos muita de nossa comida.

O meu pai, oficial de infantaria nos fuzileiros durante a Segunda Guerra Mundial, ensinou-me a disparar com armas de fogo. Era um atirador experiente e tinha treinado fuzileiros no campo de tiro; preocupava-se profundamente com a segurança das armas. Eu era o mais velho dos seus filhos e ele ensinou-me a conhecer e a compreender o poder das armas, a usá-las com cuidado extremo e a respeitar o perigo grave que representavam.

Quando eu vinha da escola, a minha mãe costumava pedir-me para ir buscar o jantar. Não ia à loja. Em vez disso, pegava na minha espingarda de calibre 16 e no Jinx (o meu cão de caça) e andava pelos campos da quinta à procura de um faisão, um pato ou um ganso que pudéssemos comer naquela noite.

Não passávamos fome. À mesa durante o jantar, tinha um jogo com os meus irmãos e irmãs - enquanto comíamos os pássaros que meu pai ou eu tínhamos caçado, tentávamos ver quem encontrava na sua comida o maior número de chumbos da munição da espingarda. Juntávamos os nossos pratos e contávamos os chumbos. Quem encontrava mais chumbos comia a sobremesa primeiro.

Quando fiz 12 anos, chegou o momento do ritual padrão de passagem na vida de um menino na América rural - caçar o meu primeiro veado. O meu pai, que trazia suficiente carne de veado para casa todos os anos para nos alimentar durante o inverno, levou-me a caçar. Depois de um dia frio na floresta, vimos um grande macho. Apontei a minha arma. Então, de repente, percebi, ao olhar para aquele animal lindo através da mira telescópica na espingarda do meu pai, que não conseguia puxar o gatilho. Sabia que o animal representava comida para a minha família - mas, por alguma razão desconhecida, tomei a decisão de não disparar. Senti-me muito mal, mas o meu pai – honra lhe seja feita - compreendeu. Agora, olhando para trás, acredito que aquele momento representou o surgimento de algo espiritual em mim.

Naquele dia, larguei as armas para sempre.

Seis anos mais tarde, quando tinha 18 anos, tomei duas decisões importantes. Tornei-me Bahá’í e registei-me no recrutamento militar como objector de consciência. Os ensinamentos Bahá'ís ensinaram-me claramente que eu deveria perder a minha própria vida em vez de tirar a vida de outra pessoa:
Que ninguém lute contra outro, e que nenhuma alma mate outra; isto, em verdade, é o que vos foi proibido… O quê? Mataríeis aquele a quem Deus vivificou, a quem Ele dotou de espírito através do seu sopro? Severa seria, então, a vossa transgressão perante o Seu trono! (Bahá’u’lláh, The Kitab-i-Aqdas,¶73)
Quando li estas palavras no Livro Mais Sagrado de Bahá’u’lláh, percebi imediatamente que não podia matar outro ser humano. Assim, com o apoio dos Bahá’ís e da minha nova Fé, solicitei e recebi o estatuto de objector de consciência; isto significava que podia ser chamado para o Exército, mas não usaria armas, nem seria treinado para matar.

Em Julho do ano seguinte, o Exército enviou-me para o Vietname e, durante um ano, vi o que as armas fazem aos seres humanos. Sim, elas matam pessoas, mas não apenas com balas. Elas também matam o espírito do assassino. A carnificina e a morte ao meu redor fizeram-me perceber a sabedoria do mandamento de Bahá’u’lláh.

Quarenta anos depois, infelizmente, as nossas sucessivas guerras ajudaram a transformar a América numa cultura de armas. Existem mais armas mortais do que pessoas no nosso país. As armas tornaram-se fáceis de obter e fáceis de usar, e nos EUA morrem mais pessoas devido a armas de fogo do que em qualquer outra nação industrializada.

Então, o que acreditam os Bahá’ís sobre armas? Primeiro, uma vez que Bahá’u’lláh disse que é melhor ser morto do que matar, os Bahá’ís não tiram a vida dos outros. Além disso, Bahá’u’lláh apelou ao desarmamento de todo tipo de armas, não apenas por nações, mas por indivíduos. Consequentemente, a lei Bahá’í apenas permite a posse e o porte de armas se for absolutamente necessário:
Bahá’u’lláh confirma uma determinação que torna ilegal o porte de armas, a menos que seja necessário fazê-lo. Em relação às circunstâncias em que o porte de armas pode ser “essencial” para um indivíduo, ‘Abdu’l-Bahá dá permissão a um crente para autoprotecção num ambiente perigoso. Há uma série de outras situações em que as armas são necessárias e podem ser legitimamente usadas; por exemplo, em países onde as pessoas caçam a sua comida e roupas, e em desportos como tiro desportivo, tiro com arco, e esgrima. (The Kitab-i-Aqdas, p. 240)
Descrevendo os Bahá’ís, Bahá’u’lláh disse:
Deus misericordioso! Estas pessoas não precisam de armas de destruição, na medida em que elas se prepararam para reconstruir o mundo. As suas hostes são as hostes das boas acções e as suas armas as armas da conduta íntegra. (Baha'u'llah and the New Era, p. 170)
-----------------------------
Texto original: Baha’is and Guns (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de agosto de 2018

Cientismo: Se não pode ser provado cientificamente, não existe?

Por David Langness.


Tenho um amigo que quando lhe perguntam qual é a sua religião, ele responde: “Acredito no cientismo”.

“O que é isso?” pergunta a maioria das pessoas.

E geralmente, dá a seguinte resposta: “É a crença de que nada é verdade a menos que possa ser provado cientificamente”.

Numa ocasião tivemos uma discussão sobre esta sua resposta tradicional.

Perguntei-lhe: “Consegues provar isso cientificamente?”

Ele pensou um pouco e acabou por admitir: “Não”.

O cientismo é provavelmente a religião prevalecente no mundo de hoje, especialmente entre as classes educadas na cultura ocidental; mas baseia-se num dogma irracional e contraditório. Defende que apenas podemos acreditar nas coisas palpáveis. Se podemos medir, quantificar ou observar uma coisa no mundo dos sentidos – afirma o crente no cientismo – isso significa que a coisa é verdadeira. Caso contrário, é falsa ou inexistente.

Este raciocínio lógico tem um problema grave – não consegue provar a premissa central do cientismo usando a ciência, razão ou empirismo. O seu ensinamento central – de que a ciência tem acesso a todas as verdades importantes da vida – nega a existência de qualquer coisa que não possamos observar no mundo físico.

Os filósofos do cientismo, que aceitam apenas e exclusivamente aquilo que se pode medir e avaliar, consideram a ciência e o método científico como a única forma aceitável para compreender toda a realidade. Os novos ateus – escritores como Sam Harris, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Daniel Dennett – geralmente aceitam a ideia de que Deus não pode ser provado cientificamente, e que tudo o que existe no universo físico pode ser explicado de forma científica. Os ensinamentos Bahá’ís definem este tipo de filósofos como materialistas:
Os filósofos do mundo estão divididos em duas categorias: os materialistas, que negam o espírito e a sua imortalidade, e os filósofos divinos, os sábios de Deus, os verdadeiros iluminados que acreditam no espírito e na sua continuidade. Os filósofos antigos ensinaram que o homem consistia apenas de elementos materiais que compunham a sua estrutura celular e que quando esta estrutura elementar se desintegrava, a vida extinguia-se. Defendiam que o homem é apenas um corpo, e que surgiu da composição elementar de órgãos e das suas funções, sentidos, poderes e atributos, e que estes desaparecem completamente com o corpo físico. Isto é praticamente a afirmação de todos os materialistas. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 239)
‘Abdu’l-Bahá ilustra a falácia desta ideia ao examinar a natureza dos seres humanos, e assinalando o facto inegável da nossa consciência humana provar que possuímos uma realidade superior e mais complexa do que a restante criação material:
O homem possui as emanações da consciência; ele tem percepção, imaginação e é capaz de descobrir os mistérios do universo. Todas as indústrias, invenções e recursos que rodeiam a nossa vida diária foram, em determinado momento, tesouros ocultos da natureza, mas descobriu-as todas e sujeitou-as aos seus propósitos. Segundo as leis da natureza deveriam ter permanecido latentes e ocultas; mas o homem, transcendendo estas leis, descobriu estes mistérios e trouxe-os do plano invisível para o reino do conhecido e do visível. Como é maravilhoso o espírito do homem! Um dos mistérios dos fenómenos naturais é a electricidade. O homem descobriu o seu poder ilimitado e usou-a para seu proveito… O homem compreendeu que o sol está imóvel enquanto a terra gira ao seu redor. O animal não pode fazer isto. O homem percebe que a miragem é uma ilusão. Isto está para lá do poder do animal. O animal apenas pode perceber através das impressões sensoriais e não pode perceber realidades intelectuais. O animal não pode conceber o poder do pensamento. Isto é um tema intelectual abstracto e não está limitado aos sentidos. O animal é incapaz de perceber que a terra é redonda. Em resumo, os fenómenos intelectuais abstractos são poderes humanos… O homem transcende a natureza, enquanto o mineral, o vegetal e o animar estão subordinados a ela. Isto apenas pode ser feito através do poder do espírito porque o espírito é a realidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 240)
As pessoas têm poderes, faculdades e virtudes que nenhuma outra criatura possui. Produzimos arte, construímos civilizações, criamos culturas, descobrimos verdades científicas que estavam ocultas, e percebemos o que existe para lá do imediato e do físico. E acima de tudo, a vasta maioria das pessoas acredita na existência de Deus, que cada um de nós tem uma alma imortal, e que o propósito da vida e a base da moralidade inclui conhecer Deus. Numa perspectiva Bahá’í, esta combinação de atributos e a sua expressão consistente ao longo de milhares de anos, demonstra de forma definitiva que os humanos possuem uma realidade espiritual que transcende as limitações físicas e palpáveis do mundo material:
Nos poderes físicos e dos sentidos, porém, o homem e o animal são parceiros. De facto, o animal é frequentemente superior ao homem na percepção dos sentidos. Por exemplo, a visão de alguns animais é extremamente precisa e a audição de outros é muito apurada. Considere-se o instinto de um cão: como é superior ao de um homem. Mas apesar do animal partilhar com o homem todas as virtudes e sentidos físicos, foi concedido ao homem um poder espiritual que os animais não possuem. Isto é uma prova de que existe algo no homem que esta acima a além do talento animal – uma faculdade e virtude inerente ao reino humano que está ausente nos reinos de existência inferior. Isto é o espírito do homem. Todas estas maravilhosas realizações humanas devem-se ao poder eficiente e avassalador do espírito do homem. Se o homem estivesse privado deste espírito, nenhuma destas realizações teria sido possível. Isto é evidente como o sol do meio-dia. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 241-242)

-----------------------------
Texto original: Scientism: If You Can’t Count It, Does It Count? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.