sábado, 20 de maio de 2017

Espiritual mas não Religioso? Qual a diferença?

Por Rebecca Sherry Eshraghi.


Muitos dos meus amigos mais próximos dizem-me: "Eu sou boa pessoa, uma pessoa espiritual; por isso não preciso de religião, especialmente de religião organizada..."

Admiro essa atitude. Sim, os meus amigos são boas pessoas que vivem vidas admiráveis e virtuosas. Ao longo da minha vida conheci muitas pessoas que não pertencem a qualquer religião e são mais bondosas do que outros que se intitulam religiosos e causam conflitos e divisões.

Na verdade, se eu não conhecesse a Fé Bahá’í e os seus ensinamentos, também não gostaria de pertencer a uma religião tradicional. Na realidade, a religião aparente tem sido e ainda é a causa de muitas guerras e muito sofrimento. Mas, ao estudar os ensinamentos Bahá'ís, percebi que, na sua essência mais profunda, todas as religiões só pretendem criar unidade e progresso.

Os ensinamentos Bahá'ís dizem que cada dispensação religiosa tem dois tipos diferentes de leis transformadoras. Uma categoria de leis são os ensinamentos espirituais e a outra são as leis e normas sociais. As leis e normas sociais são condicionais e mudam ao longo do tempo. As leis sociais das várias religiões diferem porque, no fundo, cada revelação divina ocorreu num momento diferente e num lugar diferente com circunstâncias distintas.

Por outro lado, os ensinamentos espirituais imutáveis de todas as religiões são iguais ou muito semelhantes: orientam-nos para o propósito e sentido da vida; mostram-nos como ser e agir; incentivam a oração e a meditação; estimulam o desprendimento do mundo material; fomentam a bondade e o serviço para com os nossos semelhantes; e explicam-nos e ensinam-nos sobre a nossa verdadeira essência. Esses ensinamentos espirituais enfatizam as verdades eternas - que Deus existe, ama a Sua criação e quer que cada uma das nossas almas cresça e se desenvolva.

Não sabendo isto, os meus amigos - que dizem que não são religiosos, mas espirituais - estão a aproveitar essa realidade espiritual eterna que os inspira a serem bons e espirituais. Quem faz isso, pode ser Bahá’í - alguém que aceita a unicidade de todas as Fés.

Mesmo as pessoas como os meus amigos - que não pertencem formalmente a uma religião - ainda tentam seguir os ensinamentos espirituais que tiveram origem e se difundiram ao longo da história através de revelações divinas como o Budismo, o Hinduísmo, o Judaísmo, o Cristianismo, o Islão, e agora, nesta era, os ensinamentos da Fé Bahá’í:
A realidade não admite a multiplicidade, embora cada uma das religiões divinas seja separável em duas divisões. Uma diz respeito ao mundo da moralidade e da formação ética da natureza humana. Foca-se no avanço do mundo da humanidade em geral; revela e inculca o conhecimento de Deus e torna possível a descoberta das verdades da vida. Este é o ensinamento ideal e espiritual, a qualidade essencial da religião divina, e não está sujeito a mudanças ou transformações. É o fundamento único de todas as religiões de Deus. Portanto, as religiões são essencialmente uma e a mesma coisa. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pag. 364-365)
As leis sociais religiosas visam criar ordem e justiça para permitir o avanço da civilização; no entanto, porque são condicionais, o caos e a confusão ocorrem quando os tempos e circunstâncias mudam, e as pessoas apegam-se às anteriores leis sociais que já não se adaptam mais às necessidades dos novos tempos:
A segunda classificação ou divisão inclui leis e normas sociais aplicáveis à conduta humana. Esta não é a qualidade espiritual essencial da religião. Está sujeita a mudanças e transformações de acordo com as exigências e requisitos de tempo e lugar. Por exemplo, no tempo de Noé alguns requisitos tornaram necessário que toda a comida do mar fosse permitida ou legal... Outras leis anteriormente válidas foram anuladas durante o tempo de Moisés... Tais mudanças e transformações nos ensinamentos da religião são aplicáveis às condições gerais da vida, mas não são importantes ou essenciais. Moisés viveu no deserto do Sinai, onde o crime exigia punição directa. Não havia prisões ou penas de prisão. Portanto, de acordo com a exigência do tempo e do lugar, havia uma lei de Deus de olho por olho e dente por dente. Não seria praticável aplicar esta lei no momento actual... Na Torá há muitos mandamentos sobre a punição de um assassino. Não seria permitido ou possível cumprir hoje estes mandamentos. As condições e as exigências humanas são tais que até mesmo a questão da pena de morte - a única pena que a maioria das nações continuou a impor por assassinato - está agora em discussão por sábios que estão a debater a sua adequabilidade. Na verdade, as leis para as condições normais de vida só são válidas temporariamente. As exigências do tempo de Moisés justificaram cortar a mão de um homem por roubo, mas tal pena não é agora permitida. O tempo muda as condições e as leis mudam para responder às condições. Devemos lembrar que estas leis em mudança não são o essencial; elas são os acessórios da religião. Os mandamentos essenciais estabelecidos por um Manifestante de Deus são espirituais; estes dizem respeito às moralidades, ao desenvolvimento ético do homem e à fé em Deus. São ideais e necessariamente permanentes - expressões de um fundamento e não passíveis de mudança ou transformação. Portanto, a base fundamental da religião revelada de Deus é imutável, permanente ao longo dos séculos, e não sujeita às diferentes condições do mundo humano. (Idem, pag. 365-366)
Escolhi ser Bahá’í porque as suas leis sociais e espirituais progressistas e inovadoras são as necessárias para este tempo e idade. Como Bahá’í, e crente na unicidade essencial de todas as religiões, posso trabalhar activamente no avanço de uma nova civilização mundial unificada.

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Texto original: Spiritual but not Religious? How to Tell the Difference (www.bahaiteachings.org)

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Rebecca Sherry Eshraghi é uma Bahá'í que vive na Flórida. É casada e tem dois filhos. Cresceu na Alemanha num ambiente multicultural, onde obteve o seu diploma em Negócios Internacionais. Recentemente concluiu o doutoramento em Medicina Natural.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Iémen: Líderes tribais em solidariedade com os Bahá’ís

Centenas de iemenitas - liderados por chefes tribais e activistas de direitos humanos - manifestaram-se em Sana'a, na manhã do passado dia 15 de Maio de 2017, para denunciar o recente apelo à prisão de vários Bahá’ís iemenitas e exigir a sua libertação imediata.

Actualmente, cinco Bahá’ís, incluindo o líder tribal Walid Ayyash, continuam presos ou detidos sob a direcção de autoridades em Sana'a. Os detidos não foram autorizados a receber visitantes. Muitos outros Bahá’ís estão sob a ameaça de virem a ser presos.

"Há indicações claras provenientes de informações vindas de dentro do país que algumas autoridades receberam ordens do Irão para realizar essas acções injustas e não têm outro objectivo senão perseguir a comunidade Bahá'í", disse Bani Dugal, a principal representante da Comunidade Internacional Bahá’í junto das Nações Unidas.

"Não surpreendentemente, essa interferência de outro país está a despertar a solidariedade entre o povo iemenita numa escala sem precedentes em defesa dos Bahá'ís, que são seus amigos, irmãos, irmãs, vizinhos e companheiros de tribos. Isto também criou uma consciência sobre a Fé Bahá’í entre o povo do Iémen. E, claro, a história mostra que se perseguem inocentes, a sua causa vai-se espalhar."

Um dos líderes da campanha contra os Bahá'ís no Iémen tem sido um membro do Ministério Público em Sana'a, Rajeh Zayed. Várias informações indicam que, durante as manifestações pacíficas na manhã de segunda-feira, Zayed ameaçou a multidão com uma arma e tentou, sem sucesso, incitar à violência contra os presentes.

"Apesar dos seus esforços, a multidão permaneceu tranquila, e felizmente, os guardas da segurança abstiveram-se de violência", explicou Dugal.

"Esses tribos e activistas iemenitas mostraram corajosamente o seu apoio aos Bahá’ís, apesar de se tornarem alvo de ataques", disse Dugal. "A sua expressão de solidariedade, especialmente durante um período tão difícil para o seu país, é apreciada sinceramente pela comunidade internacional Bahá’í".

"De facto, as suas acções testemunham o princípio da unicidade da humanidade e mostram que estamos intimamente ligados, de modo que a dor e a alegria de um se tornam a dor e a alegria de outro. Esperamos que a perseguição descabida aos Bahá’ís no Iémen termine e as energias possam ser dirigidas para objectivos mais elevados, como o fim da violência que assola o país e a erradicação das doenças e desnutrição que afligem agora grandes segmentos da população nesse país."

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FONTE: Tribal leaders stand in solidarity with Yemeni Baha'is (BWNS)

sábado, 13 de maio de 2017

Em busca da Arca da Aliança

Por David Langness.


Provavelmente já viram o filme “Os Salteadores da Arca Perdida” (“Os Caçadores da Arca Perdida”, no Brasil), de Steven Spielberg, onde Indiana Jones vive aventuras emocionantes e cheias de acção, em busca da Arca da Aliança.

Nos “Salteadores”, a arca que Indiana Jones procura tem uma longa história de veneração e ocultação, e possui poderes notáveis devido às suas antigas origens religiosas. No filme, todos querem ficar com ela, e essa perseguição competitiva estimula a acção implacável do filme.


Spielberg não inventou a Arca da Aliança para desenvolver a sua história; ele pegou numa verdadeira lenda que tem raízes profundas em toda a história religiosa e cultural. A verdadeira Arca da Aliança aparece nas escrituras sagradas de diversas religiões, e define um rumo em todas as religiões abraâmicas. O Livro do Êxodo no Antigo Testamento descreve a Arca da Aliança como um cofre construído para guardar as duas tábuas da lei, as duas placas de pedra que continham os Dez Mandamentos revelados a Moisés:
E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele, no monte de Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus. (Êxodo 31:18)
Essas duas "placas" de pedra (referidas como “tábuas”) e o cofre de madeira banhada a ouro que as guardava desempenham papéis importantes no Antigo Testamento, no Novo Testamento e no Alcorão. No Livro do Êxodo, Deus ordena a Moisés que construa uma Arca para guardar a lei de Deus, e depois a Arca faz acontecer milagres poderosos, separando o Rio Jordão e ajudando a derrubar os muros de Jericó. A descrição detalhada no Êxodo diz-nos exactamente como é a Arca da Aliança – as suas medidas exactas, o seu revestimento de ouro, os seus dois querubins que adornam um kapporet ou uma capa de ouro, a que os cristãos chamam Propiciatório. Guardado no Santo dos Santos, o santuário interior do antigo Templo de Jerusalém, a Arca serviu como a representação física da lei de Deus e do pacto divino entre o Criador e a Sua criação.

Há milhares de anos que historiadores e teólogos debatem a realidade física da Arca da Aliança, e existem centenas de livros sobre o assunto. Moisés gravou - verdadeiramente - as duas placas de pedra com os Dez Mandamentos enquanto as recebia de Deus, e depois guardou-as numa verdadeira caixa de ouro?

Muitas seitas e denominações religiosas assumem esta história bíblica como literalmente verdadeira. Essa interpretação literal produziu dúzias de alegações e teorias sobre o paradeiro actual da Arca perdida, incluindo o Monte Nebo, perto do Rio Jordão, o túmulo do rei Tut no Egipto, numa caverna nas montanhas Dumghe, na África Austral, sob o Monte do Templo, em Jerusalém, escondido na catedral de Chartres, em França, enterrada numa colina na Irlanda ou disfarçada perto da Igreja Cristã Abissínia de Nossa Senhora do Monte Sião em Axum, na Etiópia. (Ninguém parece ter encontrado a Arca, excepto Indiana Jones.)

Outros vêem a Arca da Aliança apenas como um símbolo poderoso, representando a presença de Deus e a promessa aos hebreus. Mas porque as histórias bíblicas dizem que os seguidores de Moisés transportaram a Arca durante os quarenta anos em que andaram pelo deserto, depois de se libertarem da escravidão, ela acabou por representar o "receptáculo" da promessa de Deus, a Sua aliança sagrada mutuamente vinculativa com os Filhos de Israel. Esse pacto primordial declara essencialmente que Deus continuará a guiar os Seus filhos, desde que estes sigam os Seus mandamentos e "não tenham outros deuses além de Mim".

Mas, independentemente da sua existência real ou alegórica, a Arca da Aliança representa um acordo amplo e eterno em todos os ensinamentos religiosos - a continuidade eterna da orientação de Deus para a humanidade:
... é um princípio básico da Lei de Deus que, em cada Missão Profética, Ele estabeleça uma Aliança com todos os crentes - uma Aliança que perdura até ao fim dessa Missão, até ao dia prometido quando a Personagem estipulada no início do Missão se manifesta. Considere-se Moisés, Aquele que conversou com Deus. Na verdade, no Monte Sinai, Moisés estabeleceu uma Aliança relativa ao Messias, com todas aquelas almas que viveriam no dia do Messias. E essas almas, apesar de terem surgido muitos séculos depois de Moisés, estavam, no entanto, - no que diz respeito à Aliança, que é intemporal - ali presentes com Moisés. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of ’Abdu’l-Bahá, nº 181)
Este princípio místico - que todo ser humano tem a oportunidade de participar numa aliança com Deus - existe também nos ensinamentos Bahá’ís. Na verdade, os Bahá’ís acreditam em dois tipos de alianças religiosas:
Existe... a Aliança Maior que cada Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores, prometendo que na plenitude dos tempos um novo Manifestante será enviado, e obtendo deles o compromisso de O aceitar quando isto ocorrer. Há também a Aliança Menor que um Manifestante de Deus faz com os Seus seguidores para que eles aceitem o Seu sucessor depois d’Ele. Se assim fizerem, a Fé poderá permanecer unida e pura. Caso contrário, a Fé divide-se e a sua força gasta-se. (A Casa Universal da Justiça, Messages 1963 to 1986, p. 737)
Então, como podemos encontrar a Arca da Aliança? Os ensinamentos Bahá'ís dizem que cada um dos profetas, mensageiros e manifestantes de Deus trazem essa aliança com eles, para garantir aos seus seguidores e aos seus descendentes que Deus não os abandonará desprovidos de orientação agora e no futuro:
O Senhor do universo jamais levantou um profeta, nem fez descer um Livro, sem que tivesse estabelecido a Sua aliança com todos os homens, apelando à sua aceitação da Revelação seguinte e do Livro seguinte, na medida em que as efusões da Sua generosidade são incessantes e sem limites. (O Bab, Selections from the Writings of the Bab, p. 87)
Esta garantia, renovada em cada revelação, dá-nos uma sequência contínua de alianças espirituais ao longo da história. Todas as alianças proféticas do Antigo Testamento de Noé, Abraão, Moisés, Arão e David, prometem uma orientação e bênçãos divinas duradouras em troca da fidelidade do povo. Também prometem a vinda do Messias, e o Reino de Deus na Terra.

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Texto original: Finding the Ark of the Covenant (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 6 de maio de 2017

As religiões mentem?

Por Tim Wood.


Certo dia, o grande especialista em mitologia Joseph Campbell, estava numa entrevista de rádio sobre o seu trabalho em religião e mitologia comparadas, quando lhe foi dito que as religiões mentem.

Campbell disse ao entrevistador que as religiões não mentem porque falam em metáforas. O entrevistador contestou essa noção até que Campbell pôs à prova o seu entendimento e lhe pediu que desse um exemplo de uma metáfora. O entrevistador, julgando que se tratava de um pedido simples, respondeu: "O meu amigo John corre tão depressa que algumas pessoas dizem que ele é uma gazela." Campbell, numa resposta rápida, disse: "Não. Uma metáfora seria: ‘John é uma gazela’". O entrevistador de rádio afirmou em resposta: "Isso não é uma metáfora, é uma mentira", e com essa frase terminou a entrevista.

No seu livro Thou Art That, Campbell escreveu sobre essa entrevista, dizendo:
... levou-me a pensar que metade das pessoas no mundo pensa que as metáforas das suas tradições religiosas, por exemplo, são factos. E a outra metade contesta que elas não são factos. Como resultado, temos pessoas que se consideram crentes porque aceitam metáforas como factos, e temos outras que se classificam como ateus porque pensam que as metáforas religiosas são mentiras.
As metáforas funcionam como a poesia, em termos de conotações e não de denotações. As metáforas apontam para os significados internos para lá dos símbolos designados. Campbell diz:
A referência nas tradições religiosas aponta para algo transcendente que não é verdadeiramente uma coisa qualquer. Se você pensa que a metáfora é uma referência para si própria, seria como ir a um restaurante, pedir um menu, e vendo lá escrito “Bife”, começar a comer o menu.
A sugestão de que uma pessoa se senta e come um menu quando ela quer comida é completamente absurda, neste caso, porque sabemos que a mente da pessoa se foca no significado da palavra escrita “bife”, e no pedaço real de carne. No entanto, nas situações em que o objecto de pensamento não é físico, a metáfora desempenha um papel crucial, ajudando a mente a concentrar-se em algo que não podemos perceber com os nossos cinco sentidos.

As metáforas concentram a mente num significado pretendido. Quando permitimos que as nossas mentes interpretem a afirmação "John é uma gazela" como metáfora, podemos ver o John correndo sobre pedras e saltando um ribeiro com agilidade e facilidade. É claro que o John não é uma gazela, mas se toda a nossa atenção consciente se foca nisso, perdemos a capacidade para perceber o significado mais profundo da frase.

Os ensinamentos Bahá’ís convidam-nos a aumentar a nossa compreensão do espírito humano através das metáforas. 'Abdu'l-Bahá diz:
... quando se deseja explicar a realidade do espírito e as suas condições e graus, é-se obrigado a descrevê-las em termos de coisas sensíveis, pois exteriormente nada existe salvo o sensível. Por exemplo, a dor e a felicidade são coisas inteligíveis, mas quando se deseja expressar essas condições espirituais, diz-se: "O meu coração ficou pesado", ou "O meu coração ergueu-se", embora o coração não seja literalmente pesado nem se erga. Pelo contrário, é uma condição espiritual ou inteligível, cuja expressão requer o uso de termos sensíveis. (Some Answered Questions, newly revised edition, p. 94)
Sabemos pelos ensinamentos Bahá’ís que o caminho da consciência leva do sensível ao inteligível. Podemos compreender aqueles aspectos da vida que estão fora do alcance dos sentidos, apenas referindo a realidade sensível, como diz 'Abdu'l-Bahá, "naquele reino de fenómenos através do qual o caminho consciente nos conduz ao reino de Deus."

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Texto original: Do Religions Lie? (www.bahaiteachings.org)

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Tim Wood é um estudante e trabalhou em mediação, reforma da justiça criminal, defesa dos direitos humanos e educação. É membro da comunidade Bahá’í desde 2007.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

18 lojas de Bahá’ís encerradas no Irão

Segundo a página Bahainews, 18 estabelecimentos comerciais na cidade de Shahin Shahr (província de Isfahan) foram encerrados e selados, no dia 1 de Maio, por agentes do Gabinete Provincial de Espaços Públicos. Os encerramentos ocorreram apesar dos proprietários terem apresentado toda a documentação legal, incluindo autorizações comerciais, aos agentes.

Uma fonte relatou ao Bahainews: “No dia anterior, os agentes apareceram nestas lojas pedindo aos proprietários que lhes mostrassem toda a documentação relacionada com a sua actividade comercial, incluindo as autorizações comerciais. Adicionalmente, disseram que na próxima visita selariam as lojas. E hoje regressaram e encerraram a maioria das lojas pertencentes a Bahá’ís.”

Segundo a mesma fonte, “os agentes apenas tinham como alvo as lojas pertencentes a Bahá’ís e acusaram os donos de não cumprirem as leis de trabalho nas suas actividades; mas eles selaram as lojas devido às festividades dos feriados Bahá’ís, quando os Bahá’ís fecham os seus estabelecimentos por sua própria vontade. Este selar das lojas Bahá’ís acontece sistematicamente todos os anos.

Durante o ano passado, muitos estabelecimentos comerciais pertencentes a Bahá’ís foram encerrados pelas autoridades. Um cidadão Bahá’í acrescentou: “Shahin Shahr é a cidade onde vivo há 19 anos. Nos anos anteriores, a primeira loja a ser selada foi na in Azadi Arcade na Imam Boulevard e era uma loja de reparações electrónicas. A loja pertencia ao nosso pai sr. Abdollah Memari e aos seus filhos que ali estavam diariamente.” O falecido sr. Abdollah Memarifoi preso e levado pelas autoridades; depois foi libertado. Tornou-se Bahá’í, amava verdadeiramente a Fé e suportou corajosamente vários sofrimentos.

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FONTE: Closure of 18 Baha’i-Owned Businesses in Shaheen-Shahr (IPW)

sábado, 29 de abril de 2017

O Culto no Altar do Nacionalismo

Por David Langness.


Sou uma patriota universal... o meu país é o mundo – Charlotte Bronté
Sabe qual a diferença entre nacionalismo e patriotismo? O jornalista e autor americano Sydney J. Harris descreveu essa diferença:
A diferença entre patriotismo e nacionalismo é que o patriota tem orgulho do seu país por aquilo que faz e o nacionalista tem orgulho pelo seu país independentemente daquilo que faz; a primeira atitude cria uma sensação de responsabilidade, mas a segunda cria um sentido de arrogância cega que leva à guerra.
O nacionalismo exagerado e tacanho, como todos nós testemunhámos durante o século passado, já esteve muito perto de destruir o mundo tal como o conhecemos. O fervor nacionalista raivoso levou à corrida aos armamentos que iniciou a Primeira Guerra Mundial, e resultou no assassinato sem sentido de milhões de pessoas. Depois, as questões não resolvidas da Primeira Guerra Mundial e o nacionalismo flagrante da Alemanha nazi e do Japão imperialista provocaram a Segunda Guerra Mundial. Tornando-se os pontos mais baixos da história humana - com quase cem milhões mortos -, essas duas guerras provaram ao mundo que o nacionalismo já não podia responder às nossas necessidades na era internacional.

Do ponto de vista Bahá’í, o nacionalismo tornou-se um dos três ídolos que os humanos construíram e depois adoraram, para nosso grande mal e vergonha. O nacionalismo - porque procura exaltar uma nação acima de todas as outras - só pode levar à morte e à destruição. Os outros dois ídolos que construímos - o racismo e o comunismo - procuraram exaltar uma raça dominante ou uma classe dominante acima das outras. O Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, destinou a sua crítica mais severa para aqueles que reverenciam e promovem o nacionalismo, o racismo e o comunismo:
O próprio Deus foi, de facto, destronado dos corações dos homens, e um mundo idólatra saúda e adora apaixonada e clamorosamente os falsos deuses que as suas próprias fantasias fúteis criaram fatuamente e as suas mãos mal guiadas tão impiamente exaltaram. Os principais ídolos no templo profanado da humanidade não são senão os triplos deuses do nacionalismo, do racismo e do comunismo, em cujos altares governos e povos, sejam democráticos ou totalitários, estejam em paz ou em guerra, sejam do Oriente ou do Ocidente, cristãos ou islâmicos, estão, de várias formas e em diferentes graus, agora a adorar. Os seus sumo-sacerdotes são os políticos e os doutores mundanos, os chamados sábios da época; o seu sacrifício, a carne e o sangue das multidões massacradas; os seus encantamentos, pregões antiquados e fórmulas insidiosas e irreverentes; o seu incenso, o fumo da angústia que emana dos corações dilacerados dos despojados, dos estropiados e dos desabrigados. As teorias e as políticas, tão doentias, tão perniciosas, que deificam o Estado e exaltam a nação acima da humanidade, que procuram subordinar as raças irmãs do mundo a uma única raça, que discriminam o preto e o branco e que toleram o domínio de uma classe privilegiada sobre todas as outras - essas são as doutrinas obscuras, falsas e tortuosas, pelas quais qualquer homem ou pessoa que acredite nelas ou que aja de acordo com elas, mais cedo ou mais tarde, sujeitar-se-á à ira e ao castigo de Deus. (The Promised Day is Come, pag. 113-114)
Então, como é que os ensinamentos Bahá'ís sugerem que se combatam estes três ídolos sombrios e destrutivos?

Primeiro, Bahá'u'lláh ensinou, podemos trabalhar humildemente para desenvolver uma nova consciência como cidadãos globais, como membros de uma família humana, recusando-nos a exaltar a nós próprios acima de qualquer outra pessoa:
... eliminem as diferenças e apaguem a chama do ódio e da inimizade, para que toda a terra possa vir a ser vista como um único país. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 122)

... habitamos num único globo terrestre. Na realidade somos uma família e cada um de nós é um membro desta família. ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 41) 
Todos podem viver em qualquer lugar no globo terrestre. Portanto, mundo inteiro é o lugar de nascimento do homem... Toda a área limitada a que chamamos o nosso país natal, consideramos a nossa pátria; mas o globo terrestre é a pátria de todos e não é uma qualquer área restrita. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of 'Abdu'l-Bahá, p. 300)

Então, ao envolvermo-nos no processo de destruição dos falsos ídolos do nacionalismo, do racismo e do comunismo nos nossos corações e na nossa consciência humana colectiva, podemos começar a antecipar e a trabalhar para alcançar a unidade orgânica da humanidade, da religião e do mundo:
Uma comunidade mundial na qual todas as barreiras económicas terão sido permanentemente demolidas e a interdependência do Capital e do Trabalho definitivamente reconhecida; em que o clamor da luta e do fanatismo religioso terá sido silenciado para sempre; em que a chama da animosidade racial terá sido finalmente extinta; em que um único código de direito internacional - o produto da opinião ponderada dos representantes federados do mundo - terá como a sua pena a intervenção instantânea e coerciva das forças combinadas das unidades federadas; e, finalmente, uma comunidade mundial onde a fúria de um nacionalismo caprichoso e militante terá sido transformada numa consciência permanente de cidadania mundial – aparenta ser, de facto, num esboço mais amplo, a Ordem antecipada por Bahá'u'lláh, uma Ordem que virá a ser considerada como o fruto mais apreciado de uma era de amadurecimento lento. (Shoghi Effendi, The World Order of Bahá'u'lláh, p. 40)

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Texto original: Worshipping at the Altar of Nationalism (www.bahaiteachings.org

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 22 de abril de 2017

Unir o Mundo com Patriotismo e Federalismo

Por David Langness.


Vivemos um momento crítico na história humana e enfrentamos uma nova questão: devemos governar-nos como nações distintas ou como um planeta unido.

Essa escolha histórica - globalismo ou nacionalismo - decidirá o futuro.

Este desafio de importância vital - inicialmente apresentado por Bahá'u'lláh em meados do século XIX, quando Ele apelou aos líderes políticos e religiosos do mundo para que se unissem e desarmassem as suas nações - tornou-se agora a questão central do nosso tempo. Continuamos pelo antigo caminho e bem conhecido do nacionalismo, o meio que dominou a organização política do planeta nos últimos 228 anos; ou vamos seguir por uma nova estrada e vamos além das fronteiras nacionais para estabelecer um sistema de governação global?

Os ensinamentos Bahá'ís defendem fortemente a opção pela nova estrada:
O nacionalismo desenfreado, distinto de um patriotismo são e legítimo, deve dar lugar a uma lealdade mais ampla, ao amor à humanidade como um todo. A afirmação de Bahá’u’lláh é: “A terra é um só país e a humanidade e os seus cidadãos”. O conceito de cidadania mundial é um resultado directo da contracção do mundo num único bairro, através de avanços científicos e da indiscutível interdependência entre as Nações. O amor a todos os povos do mundo não exclui o amor ao próprio país. A vantagem da parte numa sociedade mundial fica melhor servida com a promoção da vantagem do todo. (A Casa Universal da Justiça, Outubro de 1985, The Promise of World Peace, p. 3)
Assim, para os Bahá'ís, o patriotismo e o amor à pátria não são obsoletos - apenas foram substituídos pelo reconhecimento de um patriotismo maior e supranacional, o que significa desenvolver uma lealdade mais ampla, que abrange toda humanidade, e um amor pela Terra que nos sustenta a todos:
Não haja dúvidas quanto ao propósito que anima a Lei mundial de Bahá'u'lláh. Longe de visar a subversão das fundações existentes da sociedade, procura alargar a sua base, remodelar as suas instituições de forma harmoniosa com as necessidades de um mundo em constante mudança. Ela não pode entrar em choque com nenhuma lealdade legítima, nem pode debilitar as lealdades essenciais. O seu propósito não é abafar a chama de um patriotismo inteligente e são nos corações dos homens, nem abolir o sistema de autonomia nacional tão essencial para evitar os males da centralização excessiva. Não ignora, nem tenta suprimir a diversidade de origens étnicas, de clima, de história, de língua e tradição, de pensamento e hábitos, que diferenciam os povos e as nações do mundo. Ela exige uma lealdade mais ampla, uma aspiração maior do que qualquer outra que tem animado a raça humana. Insiste na subordinação dos impulsos e interesses nacionais às necessárias exigências de um mundo unificado. Rejeita a centralização excessiva por um lado, e renuncia a todas as tentativas de uniformidade por outro. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, pags. 41-42)
Mas como chegamos lá? Como construímos esse sentimento de patriotismo maior e mais inclusivo, que possa abranger todas as pessoas, em toda a parte? Sem a "centralização excessiva", que os ensinamentos Bahá’ís excluem, como podemos estabelecer um sistema de governação global que proteja os direitos de cada cidadão, mantendo a paz mundial e a estabilidade económica? Como podem as nossas estruturas governamentais servir verdadeiramente os interesses de cada ser humano?

Quando um congressista dos Estados Unidos colocou essa questão a 'Abdu'l-Bahá em 1912, Ele respondeu que o modelo americano de um sistema de estados federado poderia dar ao mundo um modelo valioso para a unificação:
Numa hora tão crítica na história da civilização, compete aos líderes de todas as nações do mundo, sejam grandes e pequenas, sejam do Oriente ou do Ocidente, vencedoras ou vencidas, prestar atenção ao aviso trombeta de Bahá'u'lláh e, completamente imbuídos com um sentido de solidariedade mundial, o sine qua non da lealdade à Sua Causa, levantarem-se para realizar na sua totalidade o esquema reparador que Ele, o Médico Divino, prescreveu para uma humanidade doente. Que rejeitem definitivamente todas as ideias preconcebidas, todos os preconceitos nacionais, e prestem atenção ao sublime conselho de 'Abdu'l-Bahá, o Intérprete autorizado dos Seus ensinamentos. Você pode servir melhor o seu país - foi a resposta de 'Abdu'l-Bahá a um alto funcionário do governo federal dos Estados Unidos da América, que o questionou sobre a melhor maneira como poderia promover os interesses do seu governo e povo - se se empenhar, na sua qualidade de cidadão do mundo, a ajudar na aplicação derradeira do princípio do federalismo subjacente ao governo do seu país nas relações agora existentes entre os povos e as nações do mundo. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, pag. 36-37)
Quem vive nos Estados Unidos, ou já os visitou, sabe como funciona o seu federalismo. Cada um dos cinquenta estados americanos tem fronteiras autónomas, governos eleitos democraticamente e o direito de seguir uma política estadual consoante os seus melhores interesses. Mas não têm direito de ir entrar em guerra contra outros, de manter exércitos estaduais ou de violar a lei nacional.

Muitos outros governos nacionais e até regionais funcionam hoje como democracias federalistas, entre elas a Índia, o Canadá, o México, o Brasil, a Austrália e agora a União Europeia com seus 28 países membros. Hoje em dia, muitas das nações mais bem-sucedidas do mundo funcionam dessa forma. Assim, já temos experiência em implementar o federalismo pleno num âmbito global, pois já fizemos isso ao nível nacional e internacional. Sabemos que funciona.

Os Bahá’ís acreditam que este tipo de federalismo, quando aplicado numa escala global, pode levar-nos pelo caminho de um planeta pacífico, harmonioso e próspero.

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Texto original: How Big Patriotism and Full Federalism Can Unite the World  (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Mistério da Páscoa e o Túmulo Vazio

Por David Langness.

Ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras… (Credo Niceno)

E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé… (1 Coríntios 15:17)
Quem viveu a infância numa cultura Cristã lembra-se da magia e do mistério da Páscoa - os ovos de Páscoa, o coelho da Páscoa, as cerimónias na igreja ao nascer do sol e principalmente o conceito misterioso do Cristo ressuscitado dos mortos após três dias no túmulo.

Este evento milagroso - a ressurreição de Cristo após a sua crucificação - enchia-me de admiração quando era criança. Aceitava isso tal como as crianças em qualquer lugar acreditam no que lhes dizem e maravilham-se com a sua fantástica improbabilidade. Mas à medida que crescia e aprendia um pouco sobre ciência e razão, comecei a questionar seriamente este milagre. Como é que alguém podia morrer, e voltar novamente a viver? Parecia impossível.

E nos meus doze anos, quando era um rapaz curioso e conflituoso, comecei num projecto pessoal de Páscoa. Fui à biblioteca e procurei livros. Pedi à minha amiga, a Sra. Weston, a simpática e amável bibliotecária da nossa pequena cidade, para me mostrar onde é que eu podia saber mais coisas sobre a Páscoa. Ela acedeu, e o que eu aprendi deixou-me espantado.

 Estátua de Astaroth /Astarte
A Páscoa, em resumo, começou por ser um feriado que celebrava a chegada da primavera, a fertilidade e o amanhecer, tudo exemplificado por Eostre, a grande deusa-mãe do povo saxão no norte da Inglaterra. O seu nome veio da palavra arcaica para primavera: eastre. Compreendi que em todo o mundo antigo, existiam deusas semelhantes para a primavera e a fecundidade, e que eram conhecidas por outros nomes: Afrodite, em Roma; Astaroth, no antigo Israel; Astarte da antiga Grécia; Hator no Egipto; Istar da Assíria; Kali da Índia; Ostara, a deusa nórdica da fertilidade; e Vesta das regiões eslavas.

Então, perguntei à Sra. Weston, como é que esse nome se tornou um dia santo cristão? Ela mostrou-me uma tradução de um livro intitulado Mitologia Alemã de Jacob Grimm - que eu conhecia porque eu tinha lido uma colectânea de mitos e contos populares que ele e o seu irmão tinham reunido. Isto era o que Jacob Grimm tinha a dizer sobre Eostre:
Ostara, Eástre parece, portanto, ter sido a divindade do amanhecer radiante, da luz emergente, um espectáculo que traz alegria e bênçãos, cujo significado poderia ser facilmente adaptado ao dia da ressurreição do Deus cristão. As fogueiras acendiam-se na Páscoa e, de acordo com a antiga crença popular, no momento em que o sol nascia na manhã de domingo de Páscoa, ela dava três saltos de alegria e dançava de felicidade... Esta Ostara na religião pagã, como a [anglo-saxónica] Eástre, devia simbolizar um ser superior, cuja adoração estava tão firmemente enraizada, que os mestres cristãos toleraram o nome e aplicaram-no a um de seus próprios mais grandiosos aniversários. (Deutsche Mythologie, 1835)
Por fim, descobri que quando a expansão do cristianismo da terra santa para o Ocidente, chegou aos povos anglo-saxões, os líderes da igreja simplesmente adaptaram o nome, os símbolos e as tradições das suas celebrações locais, a fim de deixar os cristãos convertidos mais confortáveis com a sua nova religião,

Aprender tudo isso fez-me rejeitar toda a ideia da Páscoa. Tal como uma criança que descobre a verdade sobre o Pai Natal, senti-me, de certa forma, enganado. Quando investiguei um pouco mais sobre o milagre da ressurreição de Cristo, comecei a suspeitar que a Igreja também tinha simplesmente adaptado e embelezado este conto, tornando o milagroso túmulo vazio de Cristo num artigo de fé, em vez de algo real.

Foi só quando me tornei Bahá’í, mais tarde na minha adolescência, que comecei a entender o verdadeiro significado da Páscoa:
A ressurreição da Manifestante de Deus não é do corpo. Tudo o que lhes diz respeito - todas as Suas situações e condições, tudo o que Eles fazem, estabelecem, ensinam, interpretam, ilustram e instruem - é de carácter místico e espiritual e não pertence ao reino da materialidade.

Esse é o caso do Cristo vindo do céu... uma vez que está estabelecido que Cristo veio do céu espiritual do Reino divino, o Seu desaparecimento na terra durante três dias também deve ter um significado místico em vez de literal. Da mesma maneira, a Sua ressurreição do seio da terra é um assunto místico e expressa uma condição espiritual e não material. E a Sua ascensão ao céu, da mesma forma, é espiritual e não de natureza material.

... Após o martírio de Cristo, os Apóstolos ficaram perplexos e assustados. A realidade de Cristo, que consiste nos Seus ensinamentos, nas Suas bênçãos, nas Suas perfeições e no Seu poder espiritual, ficou oculta e desapareceu durante dois ou três dias após o Seu martírio, e não teve aparecimento ou manifestação externa - de facto, era como se estivesse totalmente perdida. Pois aqueles que verdadeiramente acreditavam eram poucos em número, e mesmo esses estavam perplexos e assustados. A Causa de Cristo era, pois, como um corpo sem vida. Após três dias, os Apóstolos tornaram-se firmes e decididos, levantaram-se para ajudar a Causa de Cristo, resolveram promover os ensinamentos divinos e praticar os conselhos do seu Senhor, e esforçaram-se por servi-Lo. Então a realidade de Cristo tornou-se resplandecente, a Sua graça brilhou, a Sua religião encontrou uma nova vida, e os Seus ensinamentos e conselhos tornaram-se manifestos e visíveis. Por outras palavras, a Causa de Cristo, que era como um corpo sem vida, despertou para a vida e ficou rodeada pela graça do Espírito Santo.

Este é o significado da ressurreição de Cristo, e esta foi uma verdadeira ressurreição. Mas como o clero não entendeu o significado dos Evangelhos e não compreendeu esse mistério, tem sido afirmado que a religião se opõe à ciência, pois, entre outras coisas, a ascensão de Cristo num corpo físico aos céus materiais é contrária à Ciências matemáticas. Mas quando a verdade deste assunto é exposta e este símbolo é explicado, ela não está de modo algum em contradição com a ciência, mas antes, está confirmada pela ciência e pela razão. (Abdu'l-Baha, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 117-119)

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Texto original: The Mystery of Easter and Christ’s Empty Tomb (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.