sábado, 18 de Outubro de 2014

O que podemos aprender com Sobreviventes de Ataques Sexuais

Por Donna Hakimian.
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A coragem é um aspecto da condição humana que me tem intrigado há muito tempo. As maneiras como se constrói, as maneiras como se perde e, em seguida, se encontra novamente, e a forma como é simultaneamente tão comum à experiência humana, mas também, de alguma forma, milagrosamente sagrada.

A pessoa mais corajosa com que falei nas últimas semanas foi Lilly, uma sobrevivente de ataque sexual com 22 anos de idade. Lilly e eu conhecemo-nos em 19 de Setembro, na Casa Branca. Naquele dia, um grupo de pessoas reuniu-se para o lançamento da campanha "It’s On Us" (em português, É Connosco). A campanha aborda o tema da agressão sexual no campus, de uma forma multifacetada e com os diferentes elementos dispostos no site itsonus.org. Uma série correspondente de acções estão programadas para se realizarem nos campus de todo o país.


A beleza no interior da Casa Branca é cativante - arte, ornamentação e a história que se desenrolou dentro das suas paredes não se podem registar adequadamente em vários volumes de livros. Mas o que aumentava a beleza desse dia era o facto de estar rodeada por tantos indivíduos comprometidos. Homens e mulheres, jovens e idosos, de várias áreas, estavam todos lá em solidariedade com os sobreviventes e reuniam-se para garantir que a praga da agressão sexual, especialmente nos campus universitários, é debatida e termina.

Lilly, que apresentou o Vice-Presidente, subiu ao palco com a postura de uma rainha e narrou a sua história angustiante de ter sido violada durante o seu primeiro ano de faculdade. Depois partilhou graciosamente como reconstruiu a sua vida. Poder-se-ia ouvir um alfinete cair na sala. Esta história fez-me lembrar rapidamente, quando, há alguns anos na minha investigação de pós-graduação, ouvi muitas horas de histórias de mulheres que tinham sido presas e torturadas, e muitas que perderam os seus entes queridos no Irão, por serem membros da Fé Bahá'í. Testemunhei como o pior da capacidade humana para infligir crueldade foi enfrentada com coragem indescritível, a mesma coragem que Lilly também mostrou naquele dia. Já descrevi a minha obsessão com este tipo de coragem. Como é que as pessoas não desistem diante destas experiências? O que os incita a continuar?

Deixei a Casa Branca perguntando a mim própria: Como é que nós, enquanto sociedade, mudamos a nossa forma de retratar as mulheres e os homens? Como é que nos afastamos de um entendimento da natureza humana que assume que todos nós somos gananciosos, animalescos e egocentristas, para entender que a violência não é caracterizadora da nossa natureza enquanto seres humanos? O Presidente Obama também falou sobre o assunto no seu discurso, afirmando: "Desde as ligas desportivas à cultura pop e à política, a nossa sociedade não valoriza suficiente as mulheres", e acrescentou: "Ainda não condenamos agressão sexual tão veementemente como deveríamos."

Como ficou claro no evento, e desde o momento que comecei a fazer a defesa da igualdade de género, que isto é um assunto de todos. Mulheres e meninas são prejudicadas pela violência desenfreada e pelas injustiças estruturais e sociais que enfrentam; tal como são os homens e os rapazes, que também sofrem violência, marginalização e abuso. Ninguém está imune ao mal que a desigualdade provoca, mas a boa notícia é que, à medida que as nossas sociedades se tornam mais justas, todos beneficiam.

A minha própria experiência pessoal no ensino superior foi inestimável, marcada por altos e baixos, pelas novas amizades, desilusões e por um esforço académico pessoal maior do que alguma vez pensei ser possível. Tragicamente, para uma em cada cinco mulheres, e também para muitos homens, após uma experiência de ataque sexual, a atenção muda da busca da excelência académica para como reconstruir a vida.

Legislação governamental, como a The Violence Against Women Act, Title IX e a The Cleary Act tem proporcionado uma tremenda protecção social e psicológica na nossa sociedade, ao criar uma maior equidade de género. Estas ferramentas são valiosas como sempre, e o que é mais esperançoso é que agora, além das leis, há uma vaga de fundo constituída por pessoas, faculdades, empresas, entidades governamentais, celebridades e atletas que ecoam a necessidade de protecção e igualdade na nossa sociedade.

Espero que essa vaga de fundo continue a crescer e a ganhar força, e que todos possamos conhecer as Lillys do mundo não apenas como sobreviventes de ataques sexuais, mas antes como amigas, colegas e concidadãos.

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Texto original (em inglês): What We Can Learn From Survivors of Sexual Assault (HuffingtonPost.com)

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Donna Hakimian, é representante dos Bahá'ís dos Estados Unidos para Igualdade de Género e Avanço das Mulheres. Tem um Mestrado em Women's Studies pela Universidade de Toronto um um bacharelato em Religious and Middle Eastern Studies pela McGill University. Tem trabalhado em temas relacionados com violência de género e escrito diversos trabalhos sobre direitos das mulheres no Irão.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Bring Back Our Girls

Foi exactamente há 6 meses que 230 meninas foram raptadas de uma escola no estado de Borno, na Nigéria.


sábado, 11 de Outubro de 2014

6 Lições Importantes do Prémio Nobel da Paz

Por Homa Sabet Tavangar.


Esta manhã, enquanto esperava que o meu café aquecesse, tive um sobressalto ao ler as notícia no meu telemóvel quando vi o título “Malala Yousafzay e Kailash Satyarthi recebem Prémio Nobel da Paz”. Fiquei com o coração aos saltos e senti que o meu cérebro quase já não precisava de café. Isto é fantástico. E quem é o Kailash não-sei-quantos?

Malala Yousafzay recebida na Casa Branca pelo Presidente Obama
Li rapidamente a notícia e fiquei a saber mais alguma coisa sobre os vencedores e porque motivo ambos constituem uma escolha ponderada pelo Comité Nobel norueguês. É também um fantástico momento de aprendizagem, um estudo de contrastes que demonstra que o mundo tem, de facto, capacidade para a paz, apesar dos títulos das notícias que usualmente apontam o contrário.

Leia-se todo o anúncio do Prémio Nobel da Paz para compreender a ideia por detrás da escolha. Explica-se que o prémio vai para "Kailash Satyarthi e Malala Yousafzay pela sua luta contra a supressão de crianças e jovens e pelo direito de todas as crianças à educação. O Comité Nobel ... considera isso como um aspecto importante para um hindu e uma muçulmana, um indiano e uma paquistanesa,juntarem-se numa luta comum pela a educação e contra o extremismo".

Esta escolha tem seis lições importantes para reflectir sobre os ingredientes da paz:

1.   Todas as idades podem causar impacto: Aos 17 anos, Malala é a mais jovem vencedora do Prémio Nobel da Paz por décadas. (O vencedor mais jovem seguinte do Prémio Nobel da Paz foi a iemenita Tawakkol Karman, que tinha 32 anos na época, também muçulmana, mulher, e do Médio Oriente). O sr. Satyarthi tem 60 anos de idade. Com idade suficiente para ser avô de Malala, ele passou décadas num serviço paciente e protesto pacífico pelos direitos das crianças na tradição de Gandhi.

2.   Mulheres e homens devem trabalhar juntos: quando homens e mulheres trabalham juntos para promover a paz, a educação e os direitos de todos, todos nós nos beneficiamos. São como as duas asas de um pássaro que se complementam, trabalhando em conjunto para a humanidade voar mais alto. Com o encorajamento do seu pai, Malala estabeleceu a sua voz em nome dos direitos da educação das meninas, e tem voado cada vez mais alto desde então. 
O mundo da humanidade tem duas asas - uma são as mulheres e a outra são os homens. Só quando ambas as asas estiverem igualmente desenvolvidas, o pássaro poderá voar. Se uma asa continuar fraca, é impossível voar. Só quando o mundo das mulheres se tornar igual ao mundo dos homens na aquisição de virtudes e perfeições, podem o sucesso e a prosperidade ser alcançados como deveriam ser. (’Abdu’l-Bahá, A Compilation on Women, pp. 8)
3.   Respeitar a diversidade de religiões: como salienta a declaração Prémio Nobel da Paz, os dois laureados são hindu e muçulmana, trabalhando para objetivos semelhantes, de forma pacífica. Durante décadas, os extremistas e os líderes lutaram uns contra os outros, mas nunca falaram em nome de muitas pessoas.

4.   Respeitar a diversidade de nacionalidades: apesar de vizinhos (e por vezes, parentes), indianos e paquistaneses têm estado envolvidos em conflitos durante décadas. Mais uma vez, podemos fazer melhor. Queremos paz.

5.   Respeitar a diversidade de abordagens: depois escrever em blogs e defender os direitos da educação das meninas, Malala, seguidamente, sobreviveu a um violento, tornando-se uma porta-voz inspiradora ao nível global durante a sua dramática convalescença; ela ainda está na escola secundária. O sr. Satyarthi desistiu da sua carreira como engenheiro elétrico há mais de três décadas atrás, para criar o Bachpan Bachao Andolan, ou Movimento Salvem a Infância, liderando o caminho para eliminar o tráfico de crianças e o trabalho infantil na Índia.

6.   Respeitar a diversidade da fama: Malala é um dos rostos e nomes mais conhecidos no mundo, respeitada pela sua coragem, pela sua eloquência e pelos seus apoios. Satyarthi, apesar de ter dedicado décadas ao assunto, é praticamente um desconhecido fora do seu país e da causa, mostrando que não é preciso ser famoso para causar impacto.

À medida que aprendemos mais sobre a escolha do Nobel, tenho certeza que vamos descobrir muitas mais lições nos exemplos inspiradores e contrastantes destas duas vidas incríveis. No seu todo, pude ler outra mensagem nas entrelinhas: o princípio Bahá'í de que todos são necessários para construir a paz. Precisamos de compromisso, tal como estes dois heróis têm mostrado, e precisamos de respeitar as nossas diferenças, aumentando a persistência, a probabilidade e a força de paz numa escala global. Acima de tudo, precisamos de unidade.

Parabéns Malala e sr. Satyarthi! E que os nossos próprios esforços vos deixem orgulhoso.

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Texto original: 6 Important Lessons from the Nobel Peace Prize (bahaiteachings.org)

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Homa Tavangar Sabet é autora do conhecido livro Growing Up Global: Raising Children to Be At Home in the World. Este livro foi muito bem recebido pela crítica da BBC, NBC, ABC, Washington Post.com, Chicago Tribune, Boston Globe, PBS, FoxNews.com e Huffington Post. Este livro tem servido de base para diversas iniciativas nos EUA que pretendem ajudar diversas audiências (desde administradores de empresas a educadores de infância) a viver melhor num mundo global.

Fareed Zakaria: Sejamos honestos; hoje, o Islão tem um problema

Excertos de um artigo de opinião de Fareed Zakaria no Washington Post (09/Outubro/2014).
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Conheço os argumentos contra as vozes que falam do Islão como sendo violento e reacionário. Tem 1.6 mil milhões de seguidores. Locais como a Indonésia ou a Índia têm centenas de milhões de muçulmanos que não encaixam nestas representações. É por isso que [Bill] Maher e [Sam] Harris erram ao fazer generalizações grosseiras. Mas sejamos honestos. Hoje, o Islão tem um problema. Os lugares que têm dificuldade em acomodar-se no mundo moderno são desproporcionalmente muçulmanos.

Em 2013, dos 10 principais grupos que realizaram ataques terroristas, 7 eram muçulmanos. Dos 10 principais países onde ocorreram ataques terroristas, 7 têm maioria muçulmana. O Pew Research Center classifica países de acordo com o nível de restrições que os governos impõem ao livre exercício da religião. Dos 24 países mais restritivos, 19 têm maioria muçulmana. Dos 21 países que têm leis contra apostasia, todos têm maioria muçulmana.

Existe um cancro de extremismo no Islão de hoje. Uma pequena minoria de muçulmanos festeja a violência e a intolerância, e acolhe atitudes profundamente reacionárias contra as mulheres e as minorias. Apesar de alguns confrontarem os extremistas, não são suficientes, e os protestos não são suficientemente sonoros. Quantas manifestações gigantescas se realizam hoje contra o Estado Islâmico (também conhecido como ISIS) no mundo Árabe?

A expressão “Islão de hoje” é importante. O problema central das análises de Maher e Harris é que pegam numa realidade - o extremismo no Islão - e descrevem-na de forma que sugere que é inerente ao Islão. Bill Maher afirma que “o Islão é a única religião que actua como a Mafia, que mata se alguém diz o contrário, se faz um desenho errado ou se escreve o livro errado”. Ele tem razão sobre o aspecto maligno, mas está errado quando o liga ao Islão - em vez de o ligar a “alguns muçulmanos”.

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Harris devia ler o livro de Zachary Karabell Peace Be Upon You: Fourteen Centuries of Muslim, Christian and Jewish Conflict and Cooperation. Ali descobriria que houve guerras mas também muitos séculos de paz. O Islão esteve por vezes na vanguarda da modernidade, mas tal como hoje, também já o grande retardatário. Como Karabel me disse: “Se excluirmos os últimos 70 anos, em geral o mundo islâmico foi mais tolerante com as minorias do que o mundo cristão. É por isso que viviam mais de um milhão de Judeus no mundo árabe até à década de 1950 - só no Iraque eram 200.000”

Se existiram períodos em que o mundo islâmico era aberto, moderno, tolerante e pacífico, isso pressupõe que o problema não está na essência da religião e que as coisas podem mudar mais uma vez. Então porque é que Maher faz estes comentários? Compreendo que como público intelectual ele sinta necessidade de falar daquilo que vê como uma verdade elementar (apesar da sua “verdade” estar simplificada e exagerada). Mas existe certamente outra tarefa para um público igualmente intelectual: tentar mudar o mundo para melhor.

(...)

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Texto original (em inglês): Fareed Zakaria: Let’s be honest, Islam has a problem right now

sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

Violência contra Meninas



A violência contra meninas é frequentemente tolerada devido à desigualdade de género. E é tão comum que muita gente não a considera como um abuso, e nem sequer a denuncia.

Para acabar com a violência contra as meninas, é urgente capacitá-las com conhecimento, aptidões e dar-lhes opções de escolha, para que possam desenvolver o seu potencial.

Para saber mais: http://uni.cf/endviolence #dayofthegirl

quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Reza Aslan, entrevistado por Rainn Wilson

Reza Aslan é entrevistado por Rainn Wilson, numa Igreja Presbiteriana, e falam sobre o livro “O Zelota”. O autor reitera o seu respeito e admiração por Jesus. Depois refere-se o outro livro sobre Maomé e menciona-se a Fé Bahá’í.

Reza Aslan é um dos mais prestigiados académicos irano-americano. No ano passado apoiou apelos à liberdade de educação dos Bahá’ís no Irão

Note-se a forma respeitosa como Wilson fala com Aslan (em contraste com os apresentadores da CNN e da FOX).

Esta entrevista teve lugar em 25/Julho/2013.


Reza Aslan in conversation with Rainn Wilson from Ted Habte-Gabr on Vimeo.

sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

Acabar com a Selvajaria e a Vingança

Por David Langness.


Olho por olho e o mundo acabará cego - Mahatma Gandhi

… a vingança, segundo a razão, também é condenável, pois não traz proveito algum ao vingador. Se um homem atacar outro, e este se vingar, retribuindo o golpe, qual será a vantagem conseguida? Será isso um bálsamo para sua ferida, ou um remédio para a sua dor? Não, Deus nos proteja! Na verdade, os dois actos são iguais; ambos são ofensas. A única diferença é que um ocorreu primeiro e o outro ocorreu depois. Se, pelo contrário, aquele que foi atacado perdoar, e agir de forma contrária àquilo que lhe foi feito, isso será louvável... Quando aquele que foi atacado perdoa, ele mostra a maior misericórdia. Isto é digno de admiração (‘Abdu'l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap 76)
Algumas das culturas ainda valorizam a vingança e a retaliação. O desejo de retaliar - para retribui os mesmos danos a quem nos magoou - atravessa toda a história da sociedade humana. Em alguns lugares, ainda é ensinada às crianças: se ele te bate, bate-lhe também!

De facto, muitos dos antigos códigos de conduta invocam a antiga regra de retaliação, a lei de talião (olho por olho).

Mas retribuição apenas perpetua a selvajaria.

Marsel (6 anos) é orfão devido uma vingança do tipo Kanun
Vivi durante algum tempo nos Balcãs, onde muitos povos rurais ainda praticam o Kanun, conhecido como o código das montanhas. Este antigo código de conduta, que provavelmente tem origens na Idade do Bronze, é muito parecido com o conceito italiano de vendetta - exige uma retribuição igual por um assassinato. Se alguém assassina um membro de uma família, então o autor do crime, ou alguém da sua família, deve ser assassinado. É claro que estes actos de vingança (chamados Gjakmarrja) nunca acabam, e as famílias vão-se matando umas às outras, literalmente, durante séculos; a vingança só é considerada concluída quando todos os homens de uma família estiverem mortos. O governo albanês estima que mais de 3000 famílias rurais que vivem nas montanhas, estão hoje envolvidas em vinganças do tipo Kanun, e que estas provocaram mais de 10.000 mortos nas últimas duas décadas.

Quando fui militar no Vietname aprendi que este tipo de vingança aumenta sempre e nunca termina. Vi isso acontecer durante quase todos os dias da guerra. E funciona assim: você vê um amigo ser ferido ou morto. Você experimenta a sua agonia ou a sua morte, e isso deixa-o furioso. Você quer vingança, e assim você mata o primeiro "inimigo" que vê. Muitas vezes, essa pessoa não é nem sequer é um soldado do outro lado, mas apenas um pobre civil. Alguém do outro lado vê essa a morte, e quer vingança. E as mortes vão-se somando.

São exactamente estes mesmos padrões que ocorrem na violência de gangues, no terrorismo selvagem que mata o inocente, e na guerra.

O professor e psicólogo Ian Robertson, que estudou a selvajaria humana, afirma que alguma da selvajaria e brutalidades recentes praticada pelos combatentes do “Estado Islâmico”, no norte da Síria e no Iraque pode ser atribuída a esse tipo de vingança retributiva:
A vingança, que é um valor forte na cultura árabe, pode desempenhar um papel na perpetuação da selvajaria. Claro que a vingança devido a uma selvajaria gera mais selvajaria num ciclo interminável. Mas se a vingança é um motivador poderoso, ela também é enganadora, porque as evidências mostram que a vingança contra alguém, longe de aplacar a angústia e raiva, na verdade perpetua-a e amplia-a.
Do ponto de vista bahá'í, acabar com vinganças define a própria razão pela qual a humanidade educa os seus filhos e desenvolve sociedades civis. As leis de todas as civilizações avançadas impedem hoje a vingança, limitam a aplicação da justiça ao sistema jurídico e proíbem a violência contra outros. Mas sem inculcar os valores de misericórdia, amor e bondade, a sociedade humana, volta a cair, inevitavelmente, na velha lei da selva ou no código das montanhas:
Se queremos iluminar este plano escuro da existência humana, devemos retirar o homem do cativeiro desesperante da natureza, educá-lo e mostrar-lhe o caminho da luz e do conhecimento, até que, elevado acima da sua condição de ignorância, ele torna-se sábio e conhecedor; não mais selvagem e vingativo, ele torna-se civilizado e bondoso; outrora malvado e sinistro, ele é dota-se de atributos celestiais. Mas abandonado na sua condição natural, sem educação ou formação, é certo que ele se tornará mais depravado e cruel do que o animal... ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 309)
Se não houvesse um educador, todas as almas permaneceriam selvagens; e se não fosse o professor, as crianças seriam criaturas ignorantes. ('Abdu'l-Bahá, Selecção dos Escritos de 'Abdu'l-Bahá, nº 98)
Então, como é que vamos parar tamanha selvajaria? Os ensinamentos Bahá’ís vêem a solução para a violência e brutalidade humanas na aplicação da mensagem de Bahá'u'lláh para a humanidade:
Os santos Manifestantes de Deus vêm ao mundo para dissipar as trevas da natureza animal, ou física, do homem e purificá-lo das suas imperfeições, para despertar a sua natureza celestial e espiritual, despertar as suas qualidades divinas, para tornar visíveis as suas perfeições, para revelar as suas potencialidades e para trazer à existência todas as virtudes do mundo humano nele latentes. Estes santos Manifestantes de Deus são os Educadores e Instrutores do mundo da existência e Professores do mundo humano. Eles libertam o homem das trevas do mundo da natureza, salvam-no do desespero, do erro, da ignorância, das imperfeições e de todas as qualidades malignas. Eles vestem-no com o traje das perfeições e virtudes elevadas. (Abdu’l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, pp. 465-466.)

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Texto original: Stopping Savagery and Revenge (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 27 de Setembro de 2014

Demonizar os "Outros": os tormentos do inferno

Por David Langness.


Pensai no amor e no bom companheirismo como as delícias do céu; pensai na hostilidade e no ódio como os tormentos do inferno. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 244.)
Há milénios que as pessoas se organizam em unidades exclusivas, chamadas tribos, raças, etnias ou nacionalidades. Parece natural que as pessoas façam isso; basta pensar nos grupos que muitas vezes se formam nas escolas, para perceber o que quero dizer.

Hoje sabemos que todas essas identidades de grupo tinham originalmente um propósito, nomeadamente, a protecção e a auto-defesa; mas além disso tinham tendência a provocar uma divisão entre as pessoas. Quem pertence a um "grupo" cria também os “fora do grupo”, os inimigos, ou aquilo a que os psicólogos chamam os "outros".

O professor Ian Robertson do Trinity College descobriu na sua investigação que à medida que este mecanismo de divisão se desenvolve algumas pessoas começam a ver o “outro” como menos humano:
Quando as pessoas se unem, os níveis de oxitocina aumentam no seu sangue, mas a consequência disso é uma maior tendência para demonizar e desumanizar quem está fora do grupo. Esse é o paradoxo da entrega altruísta ao grupo: torna-se mais fácil anestesiar a empatia para com os fora do grupo e vê-los como objetos. E fazer coisas terríveis a objetos é aceitável, porque eles não são humanos.
O holocausto foi um exemplos flagrante de desumanização
Esta desumanização é mais flagrante na guerra. Quando estamos em guerra, os outros - os "inimigos" - tornam-se sub-humanos, monstros do mal, e são retratados como criaturas terríveis e desprezíveis que não merecem viver. Todos os militares conhecem este mecanismo para demonizar o inimigo. Durante a guerra do Vietname, por exemplo, os soldados norte-americanos chamavam “gooks” (chinos) aos soldados vietnamitas, uma alcunha depreciativa que pretendia diminuir a sua humanidade e torná-los - na consciência - mais fáceis de matar.

Os Bahá'ís não acreditam em qualquer forma de separação dos seres humanos uns dos outros. Em vez disso, os ensinamentos Bahá’ís enfatizam a unidade da humanidade - que não tem fronteiras raciais, étnicas, religiosas ou nacionais. Os ensinamentos Bahá’ís declaram que as antigas divisões de religião já não se aplicam mais, que não se pode simplesmente afirmar pertencer a uma religião e fugir aos seus ensinamentos morais, e que um sistema de crenças é definido pelas acções dos indivíduos:
Nos tempos antigos, os homens ou se tornavam crentes, ou se tornavam inimigos da causa de Deus... A fé consistia na aceitação cega destas verdades; aqueles que aceitavam eram considerados salvos, os outros eram sentenciados à condenação eterna. Mas, neste dia, a questão é muito mais importante. A fé não consiste na crença; consiste em acções. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, p. 38)
A psicologia de grupo que nos permite demonizar outros pode transformar o mundo inteiro num campo de guerra, onde o antagonismo se torna normativo e começamos a pensar nas pessoas, não como seres humanos, mas como inimigos. Quando isso acontece, segue-se o conflito.

Como alternativa, as escrituras Bahá’ís exortam-nos a banir completamente o próprio conceito de inimigo dos nossos corações:
Bahá'u'lláh afirmou claramente nas Suas Epístolas que se você tem um inimigo, não deve considerá-lo como um inimigo. Não seja apenas paciente; não, pelo contrário, ame-o… Nem diga que ele é seu inimigo. Não veja quaisquer inimigos. Apesar de ele ser o seu assassino, não o veja como inimigo. Veja-o com os olhos da amizade. Tenha em mente que se o deixar de considerar como um inimigo e apenas o tolerar, isso é simplesmente um estratagema e hipocrisia. Considerar um homem como inimigo e amá-lo é hipocrisia. Isto não é digno de nenhuma alma. Você deve encará-lo como amigo. Você deve tratá-lo bem. Isso está certo. ('Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 267)

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Texto original: Demonizing the “Other”—The Torments of Hell

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.