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sábado, 29 de agosto de 2026

Haverá na história uma força sobre-humana?

Por David Langness.


Adoro filosofia — eleva a mente, conduz a pensamentos nobres e alimenta a chama da curiosidade.

Se quisermos saber mais sobre filosofia, no entanto, podemos facilmente dedicar-lhe a vida inteira. Só a leitura dos filósofos gregos antigos e a tentativa de compreender a sua sabedoria podem levar várias décadas de estudo a tempo inteiro, para não falar da tentativa de absorver e compreender as grandes obras filosóficas que surgiram do budismo, do judaísmo, do cristianismo, do islamismo e de muitas outras tradições. Os filósofos modernos também têm muito para oferecer — na verdade, precisaríamos de várias vidas de trabalho sério para absorver tudo o que é filosófico. Assim, aqui está uma forma que descobri para tornar a filosofia um pouco mais acessível: dê uma vista de olhos aos sites e publicações relacionados com a filosofia das principais universidades do mundo.

Oxford, Harvard, Stanford e muitos outros centros académicos de renome dedicaram-se a compreender o percurso da filosofia humana e a explicá-lo de forma acessível e racional. Um dos meus sites favoritos, por exemplo, é a Stanford Encyclopedia of Philosophy. Aprendi muito com este site em particular e costumo recomendá-lo a outros entusiastas da filosofia. No entanto, no outro dia, enquanto lia algo neste site, deparei-me com um texto com o qual discordei imediata e veementemente, escrito por um historiador marxista:

A história consiste em acções humanas dentro de instituições e estruturas corporizadas por seres humanos. Não existe nenhuma força sobre-humana na história. Não existe significado ou progresso sobre-humano na história; existe apenas uma série de eventos e processos impulsionados por processos causais concretos e acções individuais. (Philosophy of History, Stanford Encyclopedia of Philosophy 2016)

Como Bahá’í, discordo profundamente, pois acredito que o Criador desempenhou, e continua a desempenhar, um papel fundamental na história da humanidade. Você concorda?

Praticamente qualquer pessoa com convicções religiosas, místicas ou espirituais provavelmente sente o mesmo. Por conseguinte, é-me difícil imaginar como é que alguém familiarizado com a longa trajectória da investigação filosófica pode descartar completamente qualquer "acção sobre-humana" em toda a extensão da história humana. Na verdade, quando li esta ideia, achei-a extremamente egocêntrica.

Para acreditar nesta premissa, suspeito que seria necessário atribuir o fundamento de todas as religiões a um único ser humano meramente iludido ou desequilibrado, que teria estabelecido uma religião que enganou milhões de pessoas ao longo dos milénios seguintes. Será que Cristo, por exemplo, através da força da Sua personalidade ou do Seu carisma, simplesmente induziu em erro milhares de milhões de seguidores que se tornaram cristãos — e será que não tiveram qualquer impacto na história? Como seria isso possível?

Mas não me interpretem mal — não estou a defender que Deus controla todos os aspetos da história da humanidade. Nós, humanos, também precisamos de assumir a nossa responsabilidade. Realisticamente, sabemos que uma das forças mais poderosas da história da humanidade — a religião — nem sempre produziu resultados positivos. Aliás, as instituições religiosas em decadência produziram alguns dos piores resultados imagináveis:

As religiões do passado entraram em decadência por causa de líderes ávidos de poder que, com o passar do tempo, se apropriaram de todos os direitos e poderes para si próprios e desprezaram o resto dos seus correligionários, considerando-os ignorantes e privados do conhecimento de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 180)

Aquilo que deveria ser propício à vida tornou-se causa de morte; aquilo que deveria ser evidência de conhecimento é agora prova de ignorância; aquilo que era factor na sublimidade da natureza humana revelou-se a sua degradação. Por conseguinte, o domínio do religioso estreitou-se e obscureceu-se gradualmente, e a esfera do materialista ampliou-se e avançou; pois o religioso agarrou-se à imitação e à falsificação, negligenciando e descartando a santidade e a realidade sagrada da religião. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 179)

Infelizmente, o fundamento da realidade desapareceu e surgiram imitações, costumes e cerimónias que são a base da discórdia, a causa da obstinação, os meios da guerra e da luta. Perdeu-se o propósito original do aparecimento dos Santos Manifestantes e do estabelecimento dos ensinamentos divinos... Quando considerares a verdade ou a realidade, verás que estas antigas e decadentes limitações da religião se tornam a causa do derramamento de sangue entre os povos e as nações. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 5, p. 135)

Sabemos, portanto, que os seres humanos, como indica a Stanford Encyclopedia of Philosophy, possuem de facto uma significativa capacidade de agir e influenciar o mundo. Podemos assumir a responsabilidade pelo muito bom e pelo muito mau. Contudo, o facto de os humanos possuírem livre-arbítrio não elimina Deus da equação, segundo os ensinamentos Bahá’ís:

...cada vez que os Profetas de Deus iluminaram o mundo com o brilho esplendoroso do Sol do conhecimento Divino, eles, invariavelmente, convocaram os seus povos a abraçar a luz de Deus através dos meios que melhor satisfizessem as exigências do tempo em que apareceram. Assim eles puderam dissipar as trevas da ignorância e derramar sobre o mundo a glória do Seu próprio conhecimento. É para a mais íntima essência desses Profetas, portanto, que a visão de todo homem de discernimento se deve dirigir, pois o seu único e exclusivo propósito sempre foi guiar os errantes e dar paz aos aflitos... (Bahá’u’lláh, Gleanings, XXXIV)

A maioria dos historiadores entende que toda a nova civilização nasce de uma nova religião e que cada nova religião surge porque aparece um novo profeta ou mensageiro de Deus, trazendo essa nova religião para a humanidade. Os ensinamentos Bahá’ís baseiam toda a sua teoria da história neste processo evidente.

No próximo artigo desta série, na nossa busca para compreender as forças maiores que impulsionam a história da humanidade, analisaremos como determinar se algum dos grandes sábios, filósofos e mestres foi, na realidade, um profeta de Deus.

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Texto original: Does History Have Any Super-Human Agency? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Aristóteles

Na próxima 6ª feira (28-Agosto), teremos a 3ª sessão do curso "A Fé Bahá'í e os Pensadores Gregos: um Diálogo através dos Séculos".

Nesta sessão vamos ver os principais momentos da vida de Aristóteles e explorar os paralelismos entre os seus ensinamentos e os ensinamentos Bahá'ís.

Link de acesso directo aqui.



quinta-feira, 20 de agosto de 2026

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Platão

Hoje, 6ª feira, teremos a 2ª sessão do curso "A Fé Bahá'í e os Pensadores Gregos: um Diálogo através dos Séculos".

Nesta sessão vamos ver os principais momentos da vida de Platão e explorar os paralelismos entre os seus ensinamentos e os ensinamentos Bahá'ís.

Link de acesso directo aqui.



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Sócrates

 O vídeo da minha apresentação sobre Sócrates, que Bahá'u'lláh referiu como “o mais distinto entre todos os filósofos” .


sábado, 8 de agosto de 2026

Uma resposta Bahá'í a Platão

Por John Hatcher.


A explicação de Platão sobre a base da justiça no mundo material consiste em duas observações gerais.

Em primeiro lugar, Platão afirma a crença de que a realidade física corresponde à realidade espiritual e é um reflexo dela. Para Platão, esta correspondência não é um acidente ou uma qualidade fortuita da criação física, mas constitui a própria natureza e o propósito de todas as coisas criadas.

Em segundo lugar, Platão acreditava que o ser humano – ao confiar no seu eu superior – pode discernir as mensagens espirituais que a criação física tem para transmitir. Estas mensagens consistem nas qualidades espirituais, nas virtudes ou atributos abstractos, que existem num estado etéreo no reino espiritual, mas que são apresentadas ao ser humano sob formas concretas para que estas abstrações possam ser inicialmente percebidas e assimiladas.

De acordo com Platão, esta dupla estrutura é a base da justiça em todo o mundo físico. A justiça individual humana consiste na adequação, harmonia e integridade entre todas as nossas faculdades – cada faculdade ou pode funciona precisamente como foi concebido para funcionar. A mente governa o todo, e tudo o resto (incluindo as nossas paixões e desejos) assume uma relação de subordinação com aquilo que o eu “superior” decide ser para nós o melhor rumo de acção. Só quando estamos nesta condição “justa” é que somos capazes de nos tornarmos o melhor indivíduo que podemos ser.

A concepção de Platão sobre a educação espiritual contém semelhanças notáveis com o conceito Bahá’í do propósito divino da criação física. Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, cujas palavras os Bahá’ís aceitam como tendo autoridade escritural, afirma que "toda a coisa criada é um sinal da revelação de Deus". Afirma ainda que todo o ser humano tem a capacidade de reconhecer a marca do Criador na própria criação.

Ele dotou cada alma com a capacidade de reconhecer os sinais de Deus. De que outra forma, como poderia Ele ter cumprido o Seu testemunho para com os homens, se sois daqueles que meditam na Sua Causa nos vossos corações? Ele nunca tratará ninguém injustamente, nem imporá a uma alma uma tarefa superior às suas forças. (Gleanings, LII)

Contudo, por mais gratificante e influente que a obra de Platão tenha sido ao longo dos séculos, ela permanece incompleta na sua resposta à questão do propósito da realidade física. Como justifica Platão a necessidade dos seres humanos passarem por experiências físicas para obterem conhecimento da realidade, sobretudo se – como afirma Sócrates – a nossa alma sobrevive após a morte do corpo?

Outro elemento ausente na descrição da realidade feita por Platão é um Ser Divino, um Criador que auxilia a criação e os indivíduos nela presentes em cada etapa. Pois, embora o conceito de "o Bem" em Platão aluda claramente à sua crença monoteísta, ele nunca atribui a essa entidade suprema qualquer consciência, preocupação ou poder cognitivo. O Bem é descrito mais como a amálgama, o epítome ou a fonte de toda a virtude do que como um criador e coordenador intencional da realidade criada, que acompanha o progresso da sua criação mais importante: o ser humano.

Certamente, poderíamos considerar os atributos do Bem platónico como apropriados a um Deus supremo, mas sem algum sentido de preocupação intencional com a criação que emanou desta Essência; esta “fonte” da realidade parece amorfa e pouco convincente, ou pelo menos não demasiado íntima, amorosa ou digna de ser amada. É certo que Platão apresenta a ascensão da caverna da ignorância para a luz do conhecimento como resultado da atracção pelo Bem ou da influência espiritual que dele emana. Mas a Fonte mística da realidade de Platão não exerce qualquer esforço consciente para provocar a transformação do rei-filósofo, nem o Bem oferece qualquer auxílio explícito ao desenvolvimento da humanidade, a não ser indirectamente através da influência dos reis-filósofos que, pelo seu próprio esforço de iluminação, descem de novo à caverna da ignorância para ensinar sobre a realidade a quem quer que esteja disposto a ouvir as suas observações. Consequentemente, a viagem das trevas para a luz parece ser o resultado da percepção e determinação individuais destas almas especiais, e não o resultado de um plano divino de Deus.

Platão não pretendia que a sua obra fosse um estudo de teologia, mas o seu modelo de transformação humana ainda diverge do conceito de um Deus que está consciente, que se preocupa e intervém activamente nas nossas vidas individuais, bem como na história. Além disso, mesmo que interpretemos os indivíduos especializados de Platão – os reis-filósofos – como representações metafóricas dos profetas ou mensageiros de Deus, a analogia não explica as repetidas declarações dos profetas de que não agem pela sua própria autoridade, mas falam e agem consoante a orientação de Deus. Na prática, enquanto os reis-filósofos de Platão emergem da ignorância graças à sua própria voz interior, os profetas reconhecem claramente que o seu conhecimento é um dom de Deus, concedido a eles como um meio através do qual se poderiam tornar mensageiros divinos.

Em defesa do que Platão possa ter pretendido com a República – talvez a obra mais influente da filosofia ocidental – é certamente possível que, na sua própria mente, Platão, ou o seu mentor Sócrates, estivesse a aludir aos reis-filósofos como intermediários entre Deus e os seres humanos comuns, que necessitavam da assistência de um educador. De facto, talvez seja precisamente isso que Bahá’u’lláh quis dizer quando afirmou o seguinte sobre Sócrates e o pensamento socrático:

Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um ilustre campeão dedicado a isso. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele quem se apercebeu de uma natureza única, temperada e penetrante nas coisas, tendo a maior semelhança com o espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Ele tem uma declaração especial sobre este importante tema. Se perguntasses aos sábios mundanos desta geração sobre esta explicação, testemunharias a sua incapacidade para a entender. (Epístola da Sabedoria, ¶28)

A dedicação dos profetas de Deus à instrução da humanidade, mesmo à custa das suas próprias vidas, poderia certamente ser um paralelo alegoricamente interessante ao sofrimento e à rejeição que o rei-filósofo experimenta ao descer à caverna para conduzir outros do mundo das sombras e da ilusão para uma visão cada vez mais ampla da realidade. Mas só podemos conjecturar até que ponto Sócrates estava consciente ou se referia a este conceito teológico e a este processo de iluminação gradual da humanidade, tanto mais que as obras do seu aluno Platão contêm apenas a representação dramática das recordações de Sócrates e do pensamento socrático, e não as próprias palavras de Sócrates.

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Texto original: A Baha’i Response to Plato (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

sábado, 6 de junho de 2026

As Fontes de Conhecimento dos Sábios do Passado

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que as ideias mais profundas da filosofia emanaram dos profetas e mensageiros que fundaram as religiões do mundo.

Os sábios do passado — que respeitamos pela sua sabedoria e discernimento, e nos quais baseamos os alicerces fundamentais da nossa cultura — adaptaram conceitos e ideias aprendidas com a escola dos profetas. Os Bahá’ís acreditam que a religião fornece, muitas vezes, a fonte original para a filosofia, para a ciência, para a ética e para o progresso do mundo:

Embora seja reconhecido que os homens de sabedoria contemporâneos são altamente qualificados em filosofia, artes e ofícios, se alguém observasse com um olhar criterioso, compreenderia prontamente que a maior parte deste conhecimento foi adquirido dos sábios do passado, pois foram eles que lançaram os alicerces da filosofia, ergueram a sua estrutura e reforçaram os seus pilares. Assim te informa o teu Senhor, o Ancião dos Dias. Os sábios de antigamente adquiriram o seu conhecimento dos Profetas, dado que estes eram os expoentes da filosofia divina e os reveladores dos mistérios celestiais. Uns beberam das águas cristalinas e vivas dos Seus ensinamentos, enquanto outros se contentaram com os sedimentos. Cada um recebe uma porção segundo a sua medida. Em verdade, Ele é o Equitativo, o Sábio. (Tablets of Baha’u’llah, pp. 144)

Neste fascinante excerto das Escrituras Bahá’ís, Bahá’u’lláh detalha a história das ideias de Empédocles e Pitágoras, filósofos gregos pré-socráticos que desenvolveram filosofias focadas no misticismo e no crescimento espiritual da alma individual:

Empédocles, que se destacou na filosofia, era contemporâneo de David, enquanto Pitágoras viveu nos dias de Salomão, filho de David, e adquiriu Sabedoria do tesouro da missão profética. Foi ele quem afirmou ter ouvido o sussurro dos céus e ter alcançado a posição dos anjos. Em verdade, o teu Senhor esclarecerá todas as coisas, se assim o desejares. Em verdade, Ele é o Sábio, o Todo-Predominante. (idem, pags. 144-145)

Pitágoras e Empédocles inspiraram-se e contribuíram para a compreensão espiritual do seu tempo, sendo fortemente influenciados pela tradição de sabedoria do rei David e do seu filho Salomão, ambos profetas menores da Bíblia. Por sua vez, as filosofias de Pitágoras e Empédocles foram adoptadas pelos judeus helenizados da cidade-estado de Alexandria, no Egipto, que, naturalmente, seguiam os ensinamentos dos profetas Abraão e Moisés — e que mais tarde se tornaram alguns dos primeiros cristãos. Estas filosofias influenciaram o mundo inteiro.

Os ensinamentos Bahá’ís reforçam esta concepção da história — de que os filósofos que respeitamos na cultura ocidental receberam a essência da sua sabedoria dos profetas, sábios e mestres espirituais do Oriente:

A essência e os fundamentos da filosofia emanaram dos Profetas. O facto de as pessoas divergirem quanto aos seus mistérios e significados profundos deve-se à divergência dos seus pontos de vista e mentalidades. (idem, pags. 146)

Isto enquadra-se no princípio Bahá’í de que a história e o progresso humano avançam como resultado da força motriz de uma série de revelações sucessivas. Da mesma forma, Aristóteles dizia que Deus é o motor primordial do universo e, por isso, o animador último de tudo o que nele existe. Nos tempos mais modernos, o grande filósofo Hegel tornou-se o principal expoente moderno da ideia de que o progresso da humanidade consiste na execução e consumação da vontade do Criador. Hegel escreveu: “O Espírito, ou Mente, é o único princípio motor da história”.

Os ensinamentos Bahá’ís concordam, afirmando que o Espírito Santo — a força motriz da vontade de Deus no mundo — é o verdadeiro motor para o progresso da humanidade:

...compreendemos que o Espírito Santo é o factor energético na vida do homem. Quem recebe esse poder é capaz de influenciar todos aqueles com quem contacta. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 165)

O “progresso” é a expressão do espírito no mundo da matéria. A inteligência do homem, a sua capacidade de raciocínio, o seu conhecimento, as suas conquistas científicas — sendo todas estas manifestações do espírito — participam da inevitável lei do progresso espiritual e são, por isso, necessariamente imortais.

A minha esperança para vós é que progridam no mundo espiritual, assim como no mundo da matéria; que a vossa inteligência se desenvolva, o vosso conhecimento aumente e a vossa compreensão se alargue. (Idem, p. 90)

Essencialmente, então, os Bahá’ís vêem a sequência de profetas e fundadores das principais religiões do mundo como os primeiros educadores da humanidade:

Jesus Cristo foi um Educador da humanidade. Os seus ensinamentos eram altruístas; A sua dádiva, universal. Ensinou a humanidade pelo poder do Espírito Santo e não através da acção humana, pois o poder humano é limitado, enquanto o poder divino é ilimitado e infinito. A influência e as realizações de Cristo comprovam-no. Galeno, o médico e filósofo grego que viveu no século II d.C., escreveu um tratado sobre a civilização das nações. Não era cristão, mas testemunhou que as crenças religiosas exercem um efeito extraordinário sobre os problemas da civilização. Em síntese, disse: “Há entre nós algumas pessoas, seguidores de Jesus, o Nazareno, que foi morto em Jerusalém. Estas pessoas estão verdadeiramente imbuídas de princípios morais que são a inveja dos filósofos. Acreditam em Deus e temem-No. Têm esperança nos seus favores; por isso, evitam todos os actos e acções indignas e predispõem-se a uma ética e moral louváveis. De dia e de noite, esforçam-se para que os seus actos sejam louváveis que possam contribuir para o bem-estar da humanidade; por isso, cada uma delas é, na prática, um filósofo, pois estas pessoas alcançaram aquilo que é a essência e o propósito da filosofia. Estas pessoas possuem uma moral louvável, mesmo que sejam analfabetas”.

O objetivo disto é mostrar que os santos Manifestantes de Deus, os profetas divinos, são os primeiros Mestres da raça humana. São educadores universais, e os princípios fundamentais que estabeleceram são as causas e os factores do progresso das nações. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 85-86)

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Texto original: Where the Sages of the Past Went to School (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

De onde vem a Sabedoria dos Filósofos?

Por David Langness.


Alguma vez se perguntou de onde é que os filósofos obtiveram a sua sabedoria? Quando leio Aristóteles ou Sócrates, fico impressionado — as suas ideias ainda hoje parecem actuais e relevantes.

É claro que a cultura ocidental tem as suas raízes tradicionais naqueles grandes gregos, os filósofos da liberdade. Na maioria das descrições do crescimento e da evolução do pensamento ocidental, eles são as sementes que germinaram a planta que se tornou a árvore de toda a cultura. A sua sabedoria, percepção e profunda compreensão do espírito humano deram origem à forma como pensamos, como agimos uns com os outros e como vemos o mundo.

Por exemplo:

Considero mais corajoso aquele que supera os seus desejos do que aquele que conquista os seus inimigos; pois a vitória mais difícil é sobre si mesmo. (Aristóteles)

Aquele que é ofendido não deve retribuir a injúria, pois de modo algum pode ser correcto cometer uma injustiça; e não é correcto retribuir uma ofensa ou fazer mal a qualquer homem, por mais que tenhamos sofrido com ele. (Sócrates)

Em termos de pura compreensão da natureza humana, os antigos filósofos gregos — Platão, Sócrates, Aristóteles, Plínio, Galeno e outros — tiveram um enorme impacto na sua época, e até nos dias de hoje. Alguns afirmam que toda a estrutura da cultura ocidental foi construída com base nas suas percepções. O grande estudioso e filósofo contemporâneo Alfred North Whitehead afirmou: "A caracterização geral mais segura da tradição filosófica europeia é que ela consiste numa série de notas de rodapé de Platão".

Se traçarmos a influência histórica dos filósofos gregos clássicos, descobriremos que estes fizeram uma série notável de contribuições para a filosofia islâmica primitiva, depois para o Renascimento europeu e para o Iluminismo, e, por fim, para a nossa cultura moderna. Baseamos grande parte da nossa governação, da nossa ciência e do nosso modo de vida básico na filosofia grega clássica.

Então, de onde é que os antigos filósofos gregos obtiveram as suas ideias incríveis, férteis, profundamente sábias e duradouras? Eram inteiramente originais, embora poucas ideias o sejam? Ou os gregos incluíram no seu pensamento ideias de outros?

Muitos estudiosos do período chegaram à conclusão de que a base conceptual da filosofia grega era proveniente do Oriente. Um dos mais respeitados estudiosos modernos da área, Martin Litchfield West, de Oxford, escreveu um livro baseado numa extensa investigação sobre o tema, intitulado "A Face Oriental de Helicon: Elementos Asiáticos Ocidentais na Poesia e nos Mitos Gregos". O livro de West concluiu que houve uma longa e rica interacção entre as culturas grega e romana no período pré-cristão e os profetas e praticantes do judaísmo do Oriente:

O contacto com a cosmologia e a teologia orientais ajudou a libertar a imaginação dos primeiros filósofos gregos; deu-lhes certamente muitas ideias sugestivas…

Esta conclusão fascinante – que ainda é tema de intenso debate entre os historiadores – subverte uma boa parte do pensamento ocidental tradicional. E se os fundamentos e as raízes da cultura ocidental remontassem a um passado anterior aos gregos?

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam claramente que sim:

Em verdade, os filósofos não negaram o Ancião de Dias... Considerai Hipócrates, o médico. Foi um dos filósofos eminentes que acreditavam em Deus e reconheciam a Sua soberania. Depois dele, veio Sócrates, que, de facto, era sábio, talentoso e honrado. Praticava a abnegação, reprimia as inclinações por desejos egoístas, e afastava-se dos prazeres materiais. Retirou-se para as montanhas, onde morava numa caverna. Dissuadiu os homens de adorar ídolos e ensinou-lhes o caminho de Deus, o Senhor da Misericórdia, até que os ignorantes se levantaram contra ele. Prenderam-no e mataram-no na prisão. Assim te relata esta Pena veloz. Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um defensor excepcional, dedicado a ela. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele que se apercebeu de uma natureza única, temperada e abrangente nas coisas, que se assemelha muito ao espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Tem uma declaração especial sobre este importante tema…

Depois de Sócrates veio o divino Platão, que foi aluno do primeiro e ocupou a cátedra da filosofia como seu sucessor. Ele reconheceu a sua crença em Deus e nos Seus sinais que impregnam tudo o que foi e será. Depois veio Aristóteles, o célebre homem de conhecimento. Foi ele que descobriu o poder da matéria gasosa. Estes homens, que se destacam como líderes do povo e são preeminentes entre eles, reconheceram todos a sua crença no Ser imortal que detém nas Suas mãos as rédeas de todas as ciências. (Bahá’u’lláh, Epístola da Sabedoria, ¶28-¶29)

Os ensinamentos Bahá’ís elogiam os filósofos gregos clássicos em diversas ocasiões e realçam também que se inspiraram no Oriente. Sobre este tema, ‘Abdu’l-Bahá cita as histórias do Oriente:

Está registado nas histórias do oriente que Sócrates viajou para a Palestina e para a Síria e aí, com homens versados nas coisas de Deus, adquiriu certas verdades espirituais; que, ao regressar à Grécia, promulgou duas crenças: uma, a unidade de Deus, e a outra, a imortalidade da alma após a separação do corpo; que estes conceitos, tão estranhos ao seu pensamento, causaram grande comoção entre os Gregos, até que, por fim, o envenenaram e mataram.

E isso é autêntico; pois os gregos acreditavam em muitos deuses, e Sócrates estabeleceu o facto de que Deus é uno, o que obviamente entrava em conflito com as crenças gregas. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 54)

Devemos muito a Sócrates e à filosofia que nos legou, mas talvez esta dívida seja, na verdade, para com Abraão e Moisés, os verdadeiros fundadores das verdades espirituais em que baseamos as nossas civilizações.

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Texto original: Where Do Philosophers Get their Wisdom? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.