sábado, 8 de agosto de 2026

Uma resposta Bahá'í a Platão

Por John Hatcher.


A explicação de Platão sobre a base da justiça no mundo material consiste em duas observações gerais.

Em primeiro lugar, Platão afirma a crença de que a realidade física corresponde à realidade espiritual e é um reflexo dela. Para Platão, esta correspondência não é um acidente ou uma qualidade fortuita da criação física, mas constitui a própria natureza e o propósito de todas as coisas criadas.

Em segundo lugar, Platão acreditava que o ser humano – ao confiar no seu eu superior – pode discernir as mensagens espirituais que a criação física tem para transmitir. Estas mensagens consistem nas qualidades espirituais, nas virtudes ou atributos abstractos, que existem num estado etéreo no reino espiritual, mas que são apresentadas ao ser humano sob formas concretas para que estas abstrações possam ser inicialmente percebidas e assimiladas.

De acordo com Platão, esta dupla estrutura é a base da justiça em todo o mundo físico. A justiça individual humana consiste na adequação, harmonia e integridade entre todas as nossas faculdades – cada faculdade ou pode funciona precisamente como foi concebido para funcionar. A mente governa o todo, e tudo o resto (incluindo as nossas paixões e desejos) assume uma relação de subordinação com aquilo que o eu “superior” decide ser para nós o melhor rumo de acção. Só quando estamos nesta condição “justa” é que somos capazes de nos tornarmos o melhor indivíduo que podemos ser.

A concepção de Platão sobre a educação espiritual contém semelhanças notáveis com o conceito Bahá’í do propósito divino da criação física. Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, cujas palavras os Bahá’ís aceitam como tendo autoridade escritural, afirma que "toda a coisa criada é um sinal da revelação de Deus". Afirma ainda que todo o ser humano tem a capacidade de reconhecer a marca do Criador na própria criação.

Ele dotou cada alma com a capacidade de reconhecer os sinais de Deus. De que outra forma, como poderia Ele ter cumprido o Seu testemunho para com os homens, se sois daqueles que meditam na Sua Causa nos vossos corações? Ele nunca tratará ninguém injustamente, nem imporá a uma alma uma tarefa superior às suas forças. (Gleanings, LII)

Contudo, por mais gratificante e influente que a obra de Platão tenha sido ao longo dos séculos, ela permanece incompleta na sua resposta à questão do propósito da realidade física. Como justifica Platão a necessidade dos seres humanos passarem por experiências físicas para obterem conhecimento da realidade, sobretudo se – como afirma Sócrates – a nossa alma sobrevive após a morte do corpo?

Outro elemento ausente na descrição da realidade feita por Platão é um Ser Divino, um Criador que auxilia a criação e os indivíduos nela presentes em cada etapa. Pois, embora o conceito de "o Bem" em Platão aluda claramente à sua crença monoteísta, ele nunca atribui a essa entidade suprema qualquer consciência, preocupação ou poder cognitivo. O Bem é descrito mais como a amálgama, o epítome ou a fonte de toda a virtude do que como um criador e coordenador intencional da realidade criada, que acompanha o progresso da sua criação mais importante: o ser humano.

Certamente, poderíamos considerar os atributos do Bem platónico como apropriados a um Deus supremo, mas sem algum sentido de preocupação intencional com a criação que emanou desta Essência; esta “fonte” da realidade parece amorfa e pouco convincente, ou pelo menos não demasiado íntima, amorosa ou digna de ser amada. É certo que Platão apresenta a ascensão da caverna da ignorância para a luz do conhecimento como resultado da atracção pelo Bem ou da influência espiritual que dele emana. Mas a Fonte mística da realidade de Platão não exerce qualquer esforço consciente para provocar a transformação do rei-filósofo, nem o Bem oferece qualquer auxílio explícito ao desenvolvimento da humanidade, a não ser indirectamente através da influência dos reis-filósofos que, pelo seu próprio esforço de iluminação, descem de novo à caverna da ignorância para ensinar sobre a realidade a quem quer que esteja disposto a ouvir as suas observações. Consequentemente, a viagem das trevas para a luz parece ser o resultado da percepção e determinação individuais destas almas especiais, e não o resultado de um plano divino de Deus.

Platão não pretendia que a sua obra fosse um estudo de teologia, mas o seu modelo de transformação humana ainda diverge do conceito de um Deus que está consciente, que se preocupa e intervém activamente nas nossas vidas individuais, bem como na história. Além disso, mesmo que interpretemos os indivíduos especializados de Platão – os reis-filósofos – como representações metafóricas dos profetas ou mensageiros de Deus, a analogia não explica as repetidas declarações dos profetas de que não agem pela sua própria autoridade, mas falam e agem consoante a orientação de Deus. Na prática, enquanto os reis-filósofos de Platão emergem da ignorância graças à sua própria voz interior, os profetas reconhecem claramente que o seu conhecimento é um dom de Deus, concedido a eles como um meio através do qual se poderiam tornar mensageiros divinos.

Em defesa do que Platão possa ter pretendido com a República – talvez a obra mais influente da filosofia ocidental – é certamente possível que, na sua própria mente, Platão, ou o seu mentor Sócrates, estivesse a aludir aos reis-filósofos como intermediários entre Deus e os seres humanos comuns, que necessitavam da assistência de um educador. De facto, talvez seja precisamente isso que Bahá’u’lláh quis dizer quando afirmou o seguinte sobre Sócrates e o pensamento socrático:

Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um ilustre campeão dedicado a isso. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele quem se apercebeu de uma natureza única, temperada e penetrante nas coisas, tendo a maior semelhança com o espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Ele tem uma declaração especial sobre este importante tema. Se perguntasses aos sábios mundanos desta geração sobre esta explicação, testemunharias a sua incapacidade para a entender. (Epístola da Sabedoria, ¶28)

A dedicação dos profetas de Deus à instrução da humanidade, mesmo à custa das suas próprias vidas, poderia certamente ser um paralelo alegoricamente interessante ao sofrimento e à rejeição que o rei-filósofo experimenta ao descer à caverna para conduzir outros do mundo das sombras e da ilusão para uma visão cada vez mais ampla da realidade. Mas só podemos conjecturar até que ponto Sócrates estava consciente ou se referia a este conceito teológico e a este processo de iluminação gradual da humanidade, tanto mais que as obras do seu aluno Platão contêm apenas a representação dramática das recordações de Sócrates e do pensamento socrático, e não as próprias palavras de Sócrates.

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Texto original: A Baha’i Response to Plato (www.bahaiteachings.org)

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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

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