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sábado, 3 de maio de 2025

Que livros Bahá'ís devo ler?

Por David Langness.


Quanto mais ler, mais coisas saberá. Quanto mais aprender, a mais lugares irá. (Dr. Seuss)

Ler é o único meio através do qual nos apropriamos, involuntariamente, muitas vezes sem esperança, da pele, da voz e da alma de outra pessoa. (Joyce Carol Oates)

Que milagre é que, a partir destes pequenos quadrados de papel, planos e rígidos, se desdobram mundos e mais mundos, mundos que vos cantam, confortam, acalmam ou emocionam. Os livros ajudam-nos a compreender quem somos e como nos devemos comportar. Mostram-nos o que significam a comunidade e a amizade; mostram-nos como viver e morrer. (Anne Lamott)

No site www.bahaiteachings.org, recebemos constantemente estas três perguntas: Os Bahá’ís têm um livro que eu possa ler, um único volume, como a Bíblia ou o Alcorão? Que livro Bahá'í contém mais informação? Quero saber mais, então que livros Bahá’ís devo ler?

Bem, tem muito por onde escolher. As Escrituras Bahá'ís contêm uma enorme diversidade de estilos, recursos e assuntos — tratados místicos e poesia; livros de aconselhamento espiritual, percepção e sabedoria; textos sobre a mudança social e os princípios Bahá'ís; livros de leis e exortações; orações e meditações; mesmo narrativas inspiradoras da história Bahá'í e biografias de pessoas extraordinárias que arriscaram a vida pela primeira vez para seguir uma Fé tão revolucionária.

O próprio Bahá'u'lláh escreveu mais de cem volumes, e as Suas revelações ocorreram ao longo de quatro décadas. O seu filho, 'Abdu'l-Bahá, escreveu três livros, e os Seus discursos públicos, cartas e epístolas estão em muitos outros livros. O Guardião da Fé Bahá’í, Shoghi Effendi, traduziu vários livros para inglês, escreveu um livro sobre a história Bahá’í e escreveu também mais de 17.000 cartas, incluindo longos ensaios, tratados, monografias e compilações sobre uma vasta gama de assuntos relacionados com a Fé Bahá'í, muitos dos quais já foram publicados como livros completos.

Por todas estas razões, os Bahá'ís referem-se frequentemente às volumosas, extensas e profundas Escrituras Bahá'ís como tendo a profundidade e a extensão de um oceano:

As coisas divinas são demasiado profundas para serem formuladas em palavras comuns. Os ensinamentos celestiais são expressos em parábolas para serem compreendidos e preservados para as eras vindouras. Quando quem tem uma mente espiritualmente orientada, mergulha profundamente no oceano do seu significado, traz à superfície as pérolas do seu sentido interior. Não há maior prazer do que estudar a Palavra de Deus com uma mente espiritual. (‘Abdu’l-Bahá, ‘Abdu’l-Bahá in London, p. 80)

Estes textos — as obras líricas e belas de Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá — constituem as Escrituras Bahá'ís. Os Bahá'ís consideram estas obras como os seus livros sagrados e consideram-nas um oceano de palavras, orientação e sabedoria enviadas pelo Criador:

Esta é a Voz de Deus, se apenas ouvirdes. Este é o Amanhecer da Revelação de Deus, se apenas o soubésseis. Este é o Local de Alvorada da Causa de Deus, se o reconhecêsseis. Esta é a Fonte do mandamento de Deus, se apenas o julgásseis com justiça. Este é o Segredo manifesto e oculto; oxalá o pudésseis perceber. Ó povos do mundo! Rejeitai, em Meu nome que transcende todos os outros nomes, as coisas que possuís, e mergulhai neste Oceano em cujas profundezas jazem ocultas as pérolas da sabedoria e da expressão, um oceano que surge em Meu nome, o Todo-Misericordioso. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XIV)

Se está apenas a começar a conhecer os ensinamentos Bahá'ís e gostaria de começar a mergulhar no oceano das Escrituras Bahá'ís, pode começar pelo livro curto, único e poderoso de aforismos espirituais de Bahá'u'lláh, chamado "As Palavras Ocultas". Nele, Bahá'u'lláh escreveu:

É isto que desceu do reino da glória, proferido pela língua do poder e da força, e revelado aos Profetas da antiguidade. Tomámos a sua essência interior e vestimo-la com o traje da brevidade, como sinal de graça para os justos, para que permaneçam fiéis à Aliança de Deus, cumpram nas suas vidas a Sua confiança e, no reino do espírito, obtenham a joia da virtude Divina. (The Hidden Words, p. 3)

Se quiser realizar um estudo mais extenso das Escrituras Bahá’ís, siga as recomendações de leitura do Guardião a dois visitantes do Centro Mundial Bahá’í na Terra Santa:

Shoghi Effendi recomendou um estudo intensivo do "Kitab-i-Iqan [O Livro da Certeza], de Bahá'u'lláh, e "Respostas a Algumas Perguntas", de 'Abdu'l-Bahá. Estes livros recompensarão através do estudo aprofundado, o domínio, e mesmo memorização de certas partes. Também é bom ler livros contemporâneos, seleccionando os melhores, que abordem os mesmos temas, a fim de se familiarizar profundamente com o assunto, e ser capaz de esclarecer os ensinamentos Bahá'ís. "Os Rompedores da Alvorada", uma narrativa dos primeiros acontecimentos do movimento Bahá'í recentemente traduzida por Shoghi Effendi, também recompensará o estudo cuidadoso. (Mabel and Sylvia Paine, Star of the West, Volume 10, p. 144)

Como se pode constatar por este conselho, Shoghi Effendi aconselhou os Bahá'ís a estudarem cuidadosamente três livros: "O Livro da Certeza", de Bahá'u'lláh; "Respostas a Algumas Perguntas", de 'Abdu'l-Bahá; e a história de Nabil, "Os Rompedores da Alvorada". Mas também recomendou a leitura ampla e extensiva de livros novos e contemporâneos, e não se focar apenas nas Escrituras Bahá'ís. Os Bahá'ís acreditam que devem preocupar-se principalmente com o que beneficiará a humanidade, porque os Escrituras Bahá'ís encorajam todos a instruírem-se constantemente nas áreas mais úteis do esforço humano.

Quando navegar no oceano das Escrituras Sagradas Bahá’ís, lembre-se de uma coisa: procure os significados interiores, simbólicos e espirituais em cada passagem:

As Palavras divinas não devem ser interpretadas de acordo com o seu sentido exterior. São simbólicas e contêm realidades de significado espiritual. Por exemplo, no livro dos Cânticos de Salomão, lemos sobre a noiva e o noivo. É evidente que não se pretende significar a noiva e o noivo físicos. Obviamente, isto são símbolos que transmitem um significado oculto e interior. Da mesma forma, as Revelações de S. João não devem ser interpretadas literalmente, mas sim espiritualmente. Estes são os mistérios de Deus. Não é a leitura das palavras que vos beneficia; é a compreensão dos seus significados. Por isso, orem a Deus para que sejam capazes de compreender os mistérios dos Testamentos divinos. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 458)

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Texto original: What Baha'i Books Should I Read? (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 5 de abril de 2025

Porque é que a Fé Bahá'í proíbe a queima de livros?

Por David Langness.


Como sinal da graça de Deus, o Revelador deste Mais Grandioso Anúncio, removemos das Sagradas Escrituras e Epístolas a lei que prescrevia a destruição de livros. (Tablets of Baha’u’llah, p. 25)

Há alguns anos, militantes do Estado Islâmico (ISIS) saquearam e queimaram a biblioteca central de Mossul, destruindo cerca de 100.000 livros, incluindo uma rara coleção de manuscritos da era otomana. A destruição prosseguiu atingindo bibliotecas de várias universidades da cidade do norte do Iraque.

Irina Bokova, Directora-Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) reagiu chamando-lhe “um dos actos mais devastadores de destruição de coleçcões de bibliotecas na história da humanidade. Esta destruição”, disse ela, “marca uma nova fase na limpeza cultural perpetrada nas regiões controladas por extremistas armados no Iraque. A isto junta-se a destruição sistemática do património e a perseguição de minorias que pretende acabar com a diversidade cultural que é a alma do povo iraquiano.”

Na sua interpretação fanática do Islão, o ISIS acreditava que a queima de livros iria de alguma forma eliminar os pensamentos “não islâmicos” da sociedade. Este tipo de censura pelo fogo e de “limpeza cultural” tem uma longa história, não só entre os muçulmanos, mas também nas culturas cristã, judaica, hindu e em algumas culturas chinesas. A queima de livros foi utilizada pelas legiões romanas quando queimaram a Biblioteca de Alexandria; pelo imperador cristão Constantino na sua supressão de crenças não trinitárias; pelos conquistadores espanhóis no Iucatão Maia e Azteca; e pelos nazis antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Na Guerra de 1812, as tropas inglesas empilharam todos os 3.000 livros da Biblioteca do Congresso junto aos muros de pedra do Capitólio dos EUA para os queimar, com a intenção de humilhar e degradar os americanos rebeldes. A queima de livros também costuma acompanhar o genocídio — resultante da oposição cultural, religiosa ou política a uma etnia, raça ou civilização inteira — e tenta destruir a memória e a herança cultural de um povo.

Em muitas religiões antigas tolerava-se a queima de livros, mas os ensinamentos Bahá’ís proíbem-na completamente:

Nas religiões antigas, mandamentos como a guerra santa, a destruição de livros, a proibição de associação e a convivência com outros povos ou de leitura de certos livros foram estabelecidas e afirmadas de acordo com as exigências da época; no entanto, nesta poderosa Revelação, neste importante Proclamação, as múltiplas dádivas e favores de Deus ofuscaram todos os homens, e do horizonte da Vontade do Senhor Sempiterno, o Seu decreto infalível prescreveu aquilo que estabelecemos acima. (Idem, p.28)

Os descrentes e os infiéis fixaram o seu pensamento em quatro coisas: primeiro, o derramamento de sangue; segundo, a queima de livros; terceiro, evitar os seguidores de outras religiões; quarto, o extermínio de outras comunidades e grupos. Agora, porém, através da graça fortalecedora e da potência da Palavra de Deus, estas quatro barreiras foram demolidas, estas ordens claras foram obliteradas da Epístola, e mandamentos brutais foram convertidos em atributos espirituais. (Tablets of Bahá’u’lláh, p. 91)

Porque é que continuamos a ver queimas de livros? Os ensinamentos Bahá’ís dizem que isto deve-se à superstição e à ignorância:

A verdadeira religião é a fonte de amor e da concórdia entre os homens, a causa do desenvolvimento das qualidades louváveis; mas o povo agarra-se à simulação e à imitação, negligenciando a realidade que unifica; e assim, ficam despojados e privados do esplendor da religião. Seguem superstições herdadas dos seus pais e antepassados. Isto prevaleceu a tal ponto que eles fizeram desaparecer a luz celestial da verdade divina, e ficaram na escuridão das imitações e imaginações. Aquilo que deveria ser conducente à vida tornou-se a causa da morte; o que deveria ser uma evidência de conhecimento é agora uma prova de ignorância; aquilo que era um factor na sublimidade da natureza humana revelou-se ser a sua degradação. Por isso, o mundo do crente estreitou-se e escureceu gradualmente, e o campo do materialista ampliou-se e avançou; pois o crente agarrou-se à imitação e à simulação, negligenciando e descartando a santidade e a realidade sagrada da religião. ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 71)

Para os Bahá’ís, nenhuma religião legítima é estrangeira ou questionável, porque os ensinamentos Bahá’ís dizem que “a verdadeira religião é a fonte de amor e da concórdia…” De facto, os Bahá’ís acreditam que a destruição dos livros, especialmente das Escrituras Sagradas de qualquer sistema de crenças, destrói os próprios alicerces da civilização humana:

Pelo Senhor Deus - e não há Deus senão Ele! Até os mais ínfimos pormenores da vida civilizada derivam da graça dos Profetas de Deus. Que coisa de valor para a humanidade já surgiu e que não tenha sido primeiramente apresentada, directa ou implicitamente, nas Sagradas Escrituras? (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, p. 96)

Todos os Livros Sagrados foram escritos para conduzir e encaminhar o homem nos caminhos do amor e da unidade… (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 107)

Numa perspectiva Bahá’í, destruir livros seria como destruir uma parte de nós próprios. Como todas as religiões provêm da mesma fonte, e como todas as Escrituras Sagradas são capítulos do mesmo livro, e como o progresso final da humanidade vem de um Deus, os Bahá’ís trabalham para unir um mundo dividido, e travar pacificamente a destruição deliberada de livros, povos e culturas.

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Texto original: Why the Baha’i Faith Prohibits Book-Burning (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 15 de março de 2025

4 Conselhos para ler os Livros Sagrados de todas as Religiões

Por David Langness.


Não leia, como fazem as crianças, para se divertir, ou como os ambiciosos, com o propósito de instrução. Não, leia para viver. – Gustave Flaubert

Pensas que a tua dor e o teu desgosto não têm precedentes na história do mundo, mas depois lês. Foram os livros que me ensinaram que as coisas que mais me atormentavam eram exactamente aquelas que me ligavam a todas as pessoas que estavam vivas, ou que já viveram. – James Baldwin

Sente-se numa sala e leia, leia e leia. E leia os livros certos, pelas pessoas certas. A sua mente é levada a esse nível e sentirá um êxtase agradável, suave e lento o tempo todo. – Joseph Campbell

E tudo o que está na Sagrada Escritura foi escrito para nosso ensinamento, a fim de termos esperança por meio da paciência e da coragem que nos vêm da mesma Escritura. – Romanos 15:4

Assim, talvez, depois de ler os três primeiros artigos desta série sobre as Escrituras Sagradas, tenha decidido começar a ler os documentos base das grandes religiões do mundo. Como foi isso?

Isto não é uma pergunta simples.

O acto de nos sentarmos e lermos estes livros sequencialmente, do princípio até ao fim, pode nem sempre funcionar para todos. Porquê? Porque são escritos em estilos com os quais talvez não estejamos habituados; porque a linguagem arcaica que usam pode inicialmente confundir-nos; porque as histórias complexas que contam podem confundir-nos; porque podem parecer vêm de outro tempo e outra época. À partida, ler as Escrituras Sagradas pode parecer um trabalho árduo, entre termos, nomes e conceitos desconhecidos. À partida, as Escrituras podem parecer opacas, onde é difícil perceber facilmente o seu significado. A princípio, ler as Escrituras sagradas todos os dias pode causar indigestão espiritual, como comer rapidamente muita comida rica muito.

Mas não deixe que isso o impeça de começar, uma vez que as Escrituras sagradas têm muito para oferecer:

O propósito de Deus ao criar o homem sempre foi, e sempre será, permitir-lhe conhecer o seu Criador e alcançar a Sua Presença. Deste propósito excelso, deste objectivo supremo, dão testemunho inequívoco todos os livros celestiais e todas as poderosas Escrituras divinamente reveladas. (Bahá’u’lláh, Gleanings, XXIX)

A mensagem dos profetas, as revelações das sagradas Escrituras não têm outro objetivo senão o conhecimento de Deus e a unidade da humanidade. (Bahá’u’lláh, citado por 'Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 1, p. 5)

Ao começar, pode querer considerar estes quatro conselhos para a leitura das escrituras sagradas dos ensinamentos Bahá’ís. Em primeiro lugar, não tente ler demasiado rápido:

Não vos orgulheis da muita leitura dos versículos ou de uma infinidade de actos piedosos, de noite e de dia; pois se um homem lesse um único versículo com alegria e esplendor, seria melhor para ele do que ler com lassidão todos os Livros Sagrados de Deus, o Amparo no Perigo, o Subsiste por Si Próprio. Lede os versículos sagrados com tal medida que não sejais dominados pela languidez e pelo desânimo.

Não coloqueis sobre as vossas almas algo que as canse e oprima, mas sim aquilo que as ilumine e eleve, para que possam voar nas asas dos versículos Divinos em direcção ao Lugar de Alvorada dos Seus sinais manifestos; isso aproximá-la-á de Deus, se apenas o compreendêsseis. (Baha’u’llah, The Most Holy Book, pp. 73-74)

O primeiro requisito é o desejo intenso e o amor das almas santificadas pela leitura da Palavra de Deus. Ler um versículo, ou mesmo uma palavra, com espírito de alegria e de brilho, é preferível à leitura de muitos livros. (Baha’u’llah, The Most Holy Book, pp. 126-127)

Em segundo lugar, leia o significado interior das palavras, e não o seu significado exterior:

...em todas as eras, a leitura das Escrituras e dos livros sagrados, não tem outro propósito salvo permitir ao leitor perceber o seu significado e deslindar os seus mistérios mais profundos. De outra forma, a leitura sem compreensão não tem qualquer proveito duradouro para o homem. (Bahá'u'lláh, Kitab-i-Iqan, ¶185)

Não vos contenteis com palavras. Procurai compreender os significados das Escrituras ocultos no coração das palavras. É difícil compreender as palavras até de um filósofo; então, podeis ver como é difícil compreender a palavra de Deus. ('Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 7, pp. 147-148)

Em terceiro lugar, leia bastante e procure cuidadosamente temas e ensinamentos comuns – tente não concentrar toda a sua atenção num livro ou numa religião:

Lede o evangelho e os outros livros sagrados. Vereis que os seus fundamentos são os mesmos. (‘Abdu’l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 50)

Pedistes para adquirir conhecimento: lede os Livros e as Epístolas de Deus, e os artigos escritos para demonstrar a verdade desta Fé. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, nº 160)

Em quarto lugar, tente compreender os livros sagrados com o coração e com a mente:

É fácil ler as Sagradas Escrituras, mas só com um coração limpo e uma mente pura se pode compreender o seu verdadeiro significado. Peçamos a ajuda de Deus para nos capacitar a compreender os Livros Sagrados. Rezemos para que os olhos vejam e os ouvidos ouçam , e pelos os corações que anseiam pela paz… O Espírito que respira através das Sagradas Escrituras é alimento para todos os que têm fome. Deus, que deu a revelação aos Seus Profetas, dará certamente o seu abundante pão de cada dia a todos aqueles que Lhe pedirem fielmente. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 57-58)

Quando começar a ler e a compreender as Escrituras sagradas, vai querer fazer disto uma prática para toda a vida.

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Texto original: 4 Guidelines for Reading the Sacred Books of All Faiths (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 4 de janeiro de 2025

A Água Vivificadora das Palavras Sagradas

Por David Langness.


Escrituras, n. Os livros sagrados da nossa religião sagrada, diferentes dos textos falsos e profanos em que todas as outras religiões se baseiam. (Ambrose Bierce, O Dicionário do Diabo)

O famoso escritor satírico americano Ambrose Bierce alude à possibilidade de todos os livros sagrados serem verdadeiros na sua definição intencionalmente irónica da palavra “Escrituras”. No fundo, os dicionários comuns definem as Escrituras como “qualquer livro sagrado”.

Tente pensar da seguinte forma: e se as Escrituras Sagradas de todas as grandes religiões do mundo fossem capítulos do mesmo livro? E se todos estes capítulos com nomes distintos, tivessem o mesmo autor? E se as Escrituras Sagradas de todas as religiões narrassem uma revelação contínua para a humanidade? E se as Escrituras Sagradas de todas as religiões revelassem a sagrada palavra de Deus?

Os ensinamentos Baha'is definem a palavra “Escritura” exactamente desta forma, e aplicam a definição aos textos sagrados de todas as grandes religiões. Para os Baha'is, as sagradas Escrituras de todas as religiões testificam eloquentemente, não só a sua própria unidade essencial, mas também a unidade da humanidade:

Se alguém meditasse naquilo que revelaram as Escrituras, enviadas do céu da santa Vontade de Deus, reconheceria prontamente que o seu propósito é que todos os homens sejam considerados como uma só alma, de modo que o selo que contém as palavras “O Reino será de Deus” possa ser gravado em cada coração, e a luz da generosidade, da graça e da misericórdia Divinas possa envolver toda a humanidade. (Baha'u'llah, Gleanings, CXXII)

Vamos prosseguir com a nossa discussão sobre as Escrituras com esta definição em mente. Todas as Escrituras, escreveu Baha'u'llah, são “enviadas do céu da santa Vontade de Deus…”, o que afirma que estas Escrituras sagradas chegam até nós inspiradas pelo Criador.

Cada profeta de Deus, cada fundador de uma grande religião - dizem os ensinamentos Bahá'ís - traz um livro sagrado. As palavras sagradas reveladas nesse livro, iluminadas pela luz da generosidade divina, transcendem as simples palavras humanas. De facto, os ensinamentos Baha'is dizem que a “irresistível Verbo de Deus” é “a Causa de toda a criação…”

Aquele que comunica a influência geradora e aquele que recebe o seu impacto são de facto criados através do irresistível Verbo de Deus, que é a Causa de toda a criação, enquanto todo o resto para além do Seu Verbo são apenas as criaturas e os efeitos do mesmo. Em verdade, o teu Senhor é o Esclarecedor, o Sapientíssimo.

Sabe, além disso, que o Verbo de Deus – exaltada seja a Sua glória – está mais elevado e é muito superior àquilo que os sentidos podem perceber, pois está santificada de qualquer propriedade ou substância. Transcende as limitações dos elementos conhecidos e está exaltado acima de todas as substâncias essenciais e reconhecidas. Tornou-se manifesto sem qualquer sílaba ou som, e não é mais do que o Mandamento de Deus que permeia todas as coisas criadas. Nunca foi negado ao mundo da existência. É a graça omnipresente de Deus, da qual emana toda a graça. É uma entidade muito distante de tudo o que foi e será. (Baha'u'llah, Epístola da Sabedoria, ¶9 ¶10)

Se olharmos com atenção, podemos ver esta ideia fundamental do Verbo Criador em cada livro sagrado:

E disse Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca. E assim foi. E chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mares. E viu Deus que era bom. (Gen 1:9-10)

E a palavra de Deus crescia e multiplicava-se. (Actos 12:24)

Na verdade, foi Ele quem criou os céus e a terra; e no dia em que Ele disser: ‘SÊ’, então é. A Sua palavra é a verdade… (Alcorão, sura 6)

Glorificado seja o Teu nome, ó Senhor meu Deus! Suplico-Te pelo Teu poder que envolveu todas as coisas criadas, e pela Tua Soberania que transcendeu toda a criação, e pelo Teu Verbo que estava oculto na Tua sabedoria, e através do qual criaste o Teu céu e a Tua terra, ambos para nos capacitar a ser firmes no nosso amor por Ti e na nossa obediência ao Teu agrado, e a fixar o nosso olhar na Tua face e a celebrar a Tua glória. (Baha’u’llah, Baha’i Prayers, p. 159)

As palavras sagradas, as palavras santas, as palavras criativas nas Escrituras do mundo — são todas simbolizadas pela água vivificadora e corrente. Ilimitada e imortal, fonte de toda a vida na Terra, nunca estagnadas, mas sempre fluindo, a água representa a generosidade e o amor eterno do Criador:

Ó amigos do Deus Puro e Omnipotente! Ser puro e santo em todas as coisas é um atributo da alma consagrada e uma característica necessária da mente não escravizada. A melhor das perfeições é a imaculabilidade e libertarmo-nos de todos os defeitos. Quando o indivíduo estiver, em todos os aspectos, limpo e purificado, então tornar-se-á um centro focal que reflete a Luz Manifesta.

Primeiro, no modo de vida de um ser humano, deve haver pureza, depois vitalidade, decência e independência de espírito. Primeiro o leito do rio deve estar limpo, e depois as águas doces do rio podem ser conduzidas para ele. Os olhos castos desfrutam da visão beatífica do Senhor, e sabem o que significa este encontro; um sentido puro inala as fragrâncias que sopram dos jardins de rosas da Sua graça; um coração lustroso reflectirá a bela face da verdade.

É por isso que, nas Sagradas Escrituras, os conselhos do céu são comparados à água, tal como diz o Alcorão: “E enviámos água pura do céu”, e o Evangelho: “Aquele que não for baptizado da água e do espírito, não pode entrar no Reino de Deus.” Assim torna-se claro que os Ensinamentos que vêm de Deus são efusões celestes de graça; são aguaceiros de misericórdia divina e purificam o coração humano. (Selections from the Writings of 'Abdu'l-Bahá, #129)

Se vemos os livros sagrados das grandes religiões como água vivificadora e corrente, capaz de nutrir e sustentar a alma, não gostaríamos de nos hidratarmos todos os dias? Não faria sentido refrescarmos e alegrarmos as nossas almas com a água da vida? No próximo artigo desta série, veremos exactamente como pode fazer isso acontecer.

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Texto original: The Living Water of the Sacred Words (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 14 de dezembro de 2024

O que dizem os hábitos de leitura sobre cada um de nós?

Por David Langness.


Uma pessoa que não lê não tem qualquer vantagem sobre aquela que não sabe ler. - Mark Twain

Muitas pessoas perguntam-me se eu naufragasse e pudesse ter apenas um livro, qual seria? Eu digo sempre: “Como construir um barco”. - Stephen Wright

Você lê muito?

Provavelmente não preciso de fazer esta pergunta – afinal, você está a ler agora. Mas vamos explorar um pouco mais a fundo e ver se conseguimos descobrir alguma coisa sobre os seus hábitos de leitura. Segundo os especialistas, os seus hábitos de leitura dizem muito sobre si.

Assim, vejamos um teste simples de cinco questões:
  • Qual foi o último livro que leu, do início ao fim?
  • Tem algum cartão de biblioteca/livraria? Se sim, quantos livros tem requisitados?
  • Quantos livros possui?
  • Em quantos dias numa semana costuma ler por prazer?
Se não se consegue lembrar do último livro que leu, não tem cartão da biblioteca, não possui livros ou nunca leu por prazer, talvez deva em entregar-se às alegrias da leitura. É fácil. É divertido. Pode até ser gratuito. Vá à sua biblioteca pública ou à sua livraria local ou compre um livro online e sente-se, talvez com uma chávena de café, e depois descontraia.

Se naufragou, veja se consegue encontrar um exemplar do “Como construir um barco” enterrado na areia. Se gosta, digamos, de histórias sobre feiticeiros e vassouras voadoras, leia um livro do Harry Potter. Se gosta de um grande mistério, leia James Lee Burke ou Walter Mosley. Se gosta de literatura lírica, leia Susan Straight, Cormac McCarthy ou Toni Morrison. Se gosta do amor, leia Shakespeare.

Se, por outro lado, se lembra claramente do último livro que leu (porque o terminou ontem à noite); se tem um cartão de biblioteca bem usado e uma pilha de livros na mesa de cabeceira; se possui mais de uma dezena de livros e precisa de construir novas estantes; se lê sempre que pode, então estas respostas significam que é um leitor genuíno. Talvez, como eu, seja um viciado em livros. Bem-vindo ao clube. Repitam comigo: admitimos que os livros são mais fortes que nós – que as nossas bibliotecas se tornaram incontroláveis. (os AA que me desculpem!)

Qualquer que seja a categoria em que se encontrem, gostaria de vos convidar cordial e humildemente a ler algo novo, algo que talvez não pense ler com muita frequência, algo verdadeiramente notável: os livros sagrados. Nesta série de ensaios sobre a leitura de algo sagrado todos os dias, tentarei convencer-vos de que este tipo de leitura vai realmente mudar as vossas vidas – porque vai mesmo.

Mas primeiro, vamos tratar por um momento o termo “sagrado”, que é um tanto assustador e desencorajador. É uma palavra com uma característica excessivamente preciosa e algo pretensiosa nos dias de hoje, não é verdade? O meu dicionário apresenta vários sinónimos para sagrado: “santo, puro, venerável, sublime e excelso”. Alguém se considera santo, puro, venerável, sublime ou excelso? Não? Nem eu. Nem de perto. Mas estou a trabalhar nisso …

Mas o que podemos considerar sagrado? Talvez a Torá, ou o Bhagavad Gita, ou a Bíblia, ou o Alcorão, dependendo da sua orientação religiosa? Poderíamos classificar estes livros como sagrados?

Quando eu era criança tinha uma avó luterana muito devota e piedosa, de quem eu gostava muito. Era uma das pessoas mais bondosas e doces que já conheci. Uma vez, quando eu tinha cerca de quatro anos, ela estava a ler-me um livro infantil no sofá da sala. Quando terminámos, coloquei o livro numa mesa próxima, em cima de outro livro. A minha avó pegou imediatamente no livro infantil, colocou-o noutro lugar da mesa e, com voz baixa e algo admirada, disse: “David, nunca colocamos outros livros em cima da Bíblia”.

Isto foi algo que me marcou, não tanto por causa da sua regra invulgarmente piedosa sobre empilhar livros, mas porque me mostrou que ela considerava a sua Bíblia como sagrada. Ela tinha a Bíblia em alta consideração, venerava-a e protegia-a de ser desvalorizada ou desrespeitada – ou mesmo ser coberta por outro livro. Com isso, ela transmitiu-me a minha primeira percepção do sagrado. Aprendi, com a minha querida avó, que algumas coisas têm uma grande importância, e que devemos respeitar essa importância.

E vocês? O que consideram sagrado?

Para mim, o mais sagrado do mundo não é uma coisa – em vez disso, penso nos grandes ensinamentos religiosos do mundo, na sua forma original, como verdadeiramente sagrados:

A essência de todas as religiões é o Amor de Deus, e é a base de todos os ensinamentos sagrados. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 83)

Os Bahá’ís acreditam que estes ensinamentos sagrados chegam à humanidade através dos profetas de Deus, mensageiros sagrados que personificam a luz do Divino. Cristo, Moisés, Buda, Krishna, Maomé, Zoroastro e agora Bahá’u’lláh vieram todos trazer alegria infinita a esta Terra e fazê-la florescer mais uma vez:

O homem é como uma árvore. Se estiver adornado com frutos, foi e será sempre digno de louvor e elogios. Caso contrário, uma árvore infrutífera só serve para o fogo. Os frutos da árvore humana são requintados, muito desejados e muito apreciados. Entre eles estão o carácter íntegro, as acções virtuosas e uma boa expressão. A primavera para as árvores terrestres ocorre uma vez por ano, enquanto a primavera para as árvores humanas aparece nos Dias de Deus – exaltada seja a Sua glória. Se as árvores da vida dos homens fossem adornadas nesta Primavera divina com os frutos que foram mencionados, o brilho da luz da Justiça iluminaria, com certeza, todos os habitantes da terra, e todos permaneceriam em tranquilidade e contentamento, sob a sombra protetora d’Aquele que é o Objecto de toda a humanidade. A Água para estas árvores é a água vivificadora das Palavras sagradas proferidas pelo Amado do mundo. (Tablets of Baha’u’llah, p. 257)

No próximo artigo desta série, vamos ver quais as palavras que são verdadeiramente sagradas.

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Texto original: What Do Your Reading Habits Say About You? (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Terapia Divina - Excertos das Escrituras Bahá'ís


A expressão “Bom Pastor” é uma metáfora usada pelos textos bíblicos para descrever o papel dos mensageiros de Deus que guiam e protegem as ovelhas do seu rebanho. As Escrituras Bahá'ís propõem uma nova metáfora: os mensageiros de Deus são “Médicos Omniscientes”: examinam a condição da humanidade, percebem a complexidade e origem de todas as suas enfermidades e recomendam a terapia adequada.

O propósito deste livro é levar o leitor ao encontro de uma pequena colectânea das Escrituras Bahá'ís. Ao conhecer os princípios e ensinamentos da Fé Bahá’í, segundo as palavras dos seus fundadores, o leitor poderá identificar nestes ensinamentos as instruções de uma terapia divina para os actuais problemas da humanidade.
“Os Profetas de Deus devem ser vistos como médicos cuja tarefa consiste em promover o bem-estar do mundo e dos seus povos, para que, através do espírito da unidade, possam curar a doença de uma humanidade dividida…”

Bahá'u'lláh (1817-1892)

Este livro pode ser comprado ou encomendado em qualquer livraria em Portugal.

Também pode ser adquirido online nos seguintes sites:

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Biografia de Gandhi

Gandhi é uma das mais fascinantes personagens do séc. XX. O seu nome é evocado com regularidade e tornou-se um sinónimo de não-violência; os seus ensinamentos são tidos por muita gente como a receita para a construção de uma sociedade mais justa e pacífica; a sua vida foi tema de uma clássico do cinema.

Há alguns meses atrás foi publicado no nosso país, uma tradução da sua auto-biografia ("A minha vida e as minhas experiências com a verdade", Editorial Bizâncio). O livro foi escrito em 1925, quando o autor estava na prisão, e descreve a sua vida desde a infância até 1920. Este texto tornou-se um documento popular e influente, não apenas na Índia, mas também durante os anos da luta pelos Direitos Cívicos nos EUA e do movimento Solidariedade na Polónia.

Como o subtítulo indica, mais do que uma biografia, estamos na presença de um conjunto de relatos sobre experiências com a verdade. Segundo Gandhi, “a verdade é um princípio soberano , que engloba vários outros. Ela não é apenas a autenticidade da palavra, mas também a do pensamento. Não é a verdade relativa da nossa percepção, mas a Absoluta, o Princípio Eterno, que é Deus. Há inúmeras definições de Deus, porque são inúmeras as suas manifestações, que inundam o meu ser de admiração e respeito e, ao mesmo tempo, me atormentam.”

Ao descrever a sua vida como uma caminhada espiritual e moral, Gandhi tem a humildade suficiente para não omitir os seus erros, defeitos ou contradições. Desta forma, poderá ser surpreendente para muitos leitores ficar a saber que o relacionamento do autor com a esposa nem sempre foi um mar de rosas; que nas suas palavras se percebe algum arrependimento por não ter investido mais na educação dos filhos; e que o seu apoio às autoridades inglesas durante a Guerra dos Boers e durante a Primeira Guerra Mundial são atitudes difíceis de perceber.

Mas a humildade do relato também passa pelo facto de Gandhi não se vangloriar dos seus feitos, mas apenas descrever o que viveu à luz dos princípios da não violência apenas como se se tratasse de uma ilustração pessoal.

Uma obra para ler e reflectir.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Abraão


"E há milhões e milhões de herdeiros. Apesar das inúmeras revoluções na história do pensamento, Abraão continua a ser uma figura fulcral e decisiva de metade dos crentes do globo inteiro. Os muçulmanos invocam o seu nome todos os dias nas suas preces, tal qual os judeus. Ele surge repetidas vezes na liturgia cristã. A mais cativante história da vida de Abraão, a oferta do seu filho a Deus, tem um papel primordial na mais sagrada semana do ano cristão, a saber, a Páscoa. Esta história é recitada no início da mais sagrada quinzena do judaísmo, o Rosh-ha-Shana, ou «Cabeça do Ano». E o mesmo episódio é fonte de inspiração para o dia mais sagrado do islamismo, 'Id al-Adha, a Festa do Sacrifício, num momento culminante da Peregrinação, ou Hajj."
Abraão foi uma figura histórica, mitológica ou o resultado da colagem de várias tradições literárias? Os relatos que os livros sagrados contêm sobre esta personagem são fidedignos, ou uma montagem de diversas tradições orais? Poderemos considerá-lo um co-fundador grandes religiões monoteístas? E porque é que estas religiões se tentaram apropriar desta figura, e se apresentam como detentoras da verdade exclusiva da mensagem abraâmica? Será Abraão factor de unidade ou divisão entre os seguidores dos diversos monoteísmos?

Foi para tentar responder a muitas perguntas como estas que Bruce Feiler se lançou numa investigação/peregrinação pessoal em busca de Abraão, tendo viajado para a Terra Santa e entrevistado diversos lideres espirituais. O resultado desse trabalho foi um livro onde primeiramente se analisam as diferentes perspectivas das Escrituras Monoteístas, sobre a figura de Abraão, o seu conceito de Deus e os seus filhos; posteriormente a investigação alarga-se aos povos de Abraão (judeus, cristãos e muçulmanos), havendo espaço para entrevistas com lideres espirituais e visitas a diversos locais associados à vida daquele que é considerado o fundador do monoteísmo.

O autor descobre que as religiões monoteístas se apoderaram da figura de Abraão e reclamam possuir a verdade exclusiva da sua mensagem. É uma reivindicação que obrigas as religiões a adaptar Abraão à sua imagem. Seguidamente o autor perceber que essa imagem de Abraão varia no interior de cada religião, de acordo com a cultura e as gerações. Desta forma, deparamos com milhares de imagens mentais de Abraão, frequentemente incompatíveis entre si, salvo num aspecto: ele acreditava num Deus único e transcendente (posteriormente referido nos Textos Sagrados como “Deus de Abraão”).

Este livro foi publicado em Novembro do ano passado no nosso país (Ministério dos Livros). Recomendo-o vivamente a qualquer pessoa que queira perceber um pouco das origens e evoluções das religiões monoteístas.

NOTA: Apesar de não ser referido no livro, a religião Bahá'í considera Abraão como um Manifestante de Deus. Nas Suas Escrituras, Bahá'u'lláh alude a muitas tradições e escrituras islâmicas onde se menciona Abraão; no livro "Respostas a Algumas Perguntas" de 'Abdu'l-Bahá, existe um capítulo dedicado a Abraão.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Odon Vallet

Pequeno Livro das Ideias Falsas sobre as Religiões

O diálogo inter-religioso exige que pessoas de diferentes credos se conheçam melhor, desfazendo ideias preconcebidas e distorcidas que obstam a esse diálogo e entendimento. Mais do que uma moda, tornou-se uma necessidade de um mundo globalizado, sequioso de tranquilidade e bem-estar. Alguns crentes poderão questionar até que ponto as suas convicções religiosas poderão sobreviver a um diálogo de verdades plurais. Outros, em que me incluo, entendem que se exige um esforço a cada um de nós para compreendermos quem tem convicções diferentes das nossas.

O Pequeno Livro das Ideias Falsas sobre as Religiões, de Odon Vallet foi publicado há alguns meses no nosso país; é um livro que inevitavelmente desperta a atenção de quem se interessa pelo diálogo inter-religioso. O autor, licenciado em Direito e Ciência das Religiões pela Universidade Panthéon Sorborne (Paris) já publicou vários livros sobre religião, e propôs-se, nesta obra, desfazer uma série de equívocos – para não dizer disparates – que se tornam recorrentes entre muitas pessoas que abordam o tema da religião.

Veja-se por exemplo, quando se combinam temas como religião, pacifismo e violência. A maioria das pessoas no Ocidente associa a violência religiosa ao Islão e o pacifismo ao Budismo; logo no prefácio do livro o autor lembra o conceito de Jihad enquanto esforço de aperfeiçoamento interior e a existência de monges guerreiros tibetanos. Ao longo deste livro, Odon Vallet mostra-nos que as ideias falsas sobre religião surgem em diversas formas: simplificações abusivas (o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são três religiões monoteístas), anacronismos (Moisés era judeu), ideias sem sentido (A circuncisão é o sinal da aliança entre Deus e o povo judeu), erros geográficos e culturais (Os muçulmanos são árabes), contradições históricas (A Índia é a pátria da não-violência), e meias-verdades (A Igreja sempre defendeu os poderes estabelecidos).

Para quem gosta debater e estudar diversos temas de religião e frequentemente se depara com tanta ideia distorcida, este livro prometia ser uma agradável surpresa. Ao folheá-lo pela primeira vez, imaginei logo algumas pessoas conhecidas a quem gostaria de oferecer. Não demorei muito a comprá-lo.

Inevitavelmente, este livro reflecte também a formação e as origens do autor. As referências à experiência religiosa em França e a episódios ocorridos naquele país sucedem-se ao logo do texto (exemplos: pags. 98, 103, 110, 138, 143, 155-156). Também a forma como são apresentados alguns assuntos reflectem as raízes cristãs do autor. Por exemplo, a comparação entre o Papa e o Dalai Lama é considerada incorrecta sobretudo porque o primeiro tem mais seguidores do que o segundo [pag. 64]. Também ao referir-se ao pecado original [pag. 148] o autor não hesita em declarar que o ser humano é intrinsecamente pecador (uma perspectiva negativista muito querida a alguns cristãos).

Além disso, em alguns capítulos, Odon Vallet desmonta as ideias erradas sem, no entanto, procurar conceitos comuns e unificadores. Por exemplo, no capítulo com o título "O judaísmo, o cristianismo e o judaísmo são as religiões do livro" [pag. 106], demonstra-se o erro do sentido literal da expressão. Estas três religiões não possuem o mesmo Livro Sagrado; judaísmo e cristianismo possuem vários livros sagrados; o Islão possui um Livro Sagrado. Por seu lado, outras religiões como o Budismo e o Sikhismo também possuem livros sagrados. Estranhamente, o autor não desenvolve o significado da expressão "religião do livro" enquanto sinónimo de revelação divina. Na minha opinião, tão importante como afirmar o erro de uma interpretação distorcida de uma expressão, é sugerir significados alternativos para essa mesma expressão.

Também ao referir o Monoteísmo - para desmontar a ideia "o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são três religiões monoteístas" [pag. 112] - o autor apresenta as diferentes concepções de Divindade (o Deus único do Islão versus a trindade cristã; o Deus de Israel e a trindade hindu) para mostrar como a ideia está longe da realidade; no entanto, o autor dedica poucas linhas para mostrar como as religiões tendem para a unidade de culto.

Talvez o irónico deste livro seja o facto de ver Odon Vallet cometer alguns erros semelhantes aos que se propõe corrigir. Por exemplo, uma simplificação anacrónica verifica-se quando se usa a expressão "Estado de Israel" [pags. 61, 157] para designar os antigos Reinos de Judá e Israel; não será isto lançar uma semente de uma nova ideia falsa? Também o Sikhismo é referido como uma "religião guerreira" [pag. 118]; não será isto criar um estereótipo, ao associar uma religião com a violência? Será que o autor conhece os escritos do Guru Nanak? Se o autor consegue evitar este erro ao referir-se ao Islão, porque não consegue fazê-lo ao referir-se ao Sikhismo?

A religião bahá'í - mencionada nas pags. 57, 147, 179, 206 - é referida pelo autor como "um sincretismo entre islamismo, cristianismo, judaísmo e zoroastrismo" [pag. 57]; posteriormente, Odon Vallet afirma que "os cinco milhões de bahaístas veneram Abraão, Moisés, Zoroastro, Buda Jesus Cristo e Maomé, mas a sua religião fundada no Irão em meados do século XIX, não se assemelha a nenhuma outra"[pag. 206]. Se a religião baha'i não se assemelha a nenhuma outra, então como pode ser um sincretismo? E se o próprio autor assume que o termo sincretismo "tem má reputação nos meios científicos e religiosos" e é "sinónimo de confusão infantil e ignorância popular" [pag. 188], não estará ele a lançar um preconceito, uma ideia falsa, sobre uma religião? Afinal, quais foram os seus objectivos ao escrever este livro?

Em resumo: A palavra "religião" pode ser usada para designar diferentes aspectos do fenómeno religioso: os ensinamentos originais dos Manifestantes, as organizações religiosas, o clero, as comunidades dos crentes, as escrituras, as tradições, etc. Ao longo deste livro, Odon Vallet, raramente apresenta o seu entendimento da palavra religião antes de abordar algum ideia. Mesmo assim, o livro tem alguns capítulos muito interessantes, apesar de noutros sentirmos que o autor podia ter ido mais longe. Em algumas referências a religiões não-cristãs, o autor nem sempre consegue ser esclarecedor, chegando por vezes a sugerir ideias tão incorrectas quanto as que pretende esclarecer.

Uma nota final para a tradução. O texto usa o estrangeirismo Corão e vez de Alcorão; também os capítulos do Alcorão são referidos como “Salmos”.

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ABSTRACT: A commentary to the book Petit lexique des idées fausses sur les Religions (Little Book of False Ideas about Religions), by the French author Odon Vallet. The book has several interesting chapters, and in some cases Mr. Vallet seems able to explain misconceptions that originated from the use of popular expressions (such as "Religions of the Book"). He seldom sugests a correct meaning for such expressions. However, in some chapters Mr Vallet makes incorrect references to other religions: the ancient Hebrew kingdoms as "State of Israel", and to Sikhism as a "warrior religion". References to the Baha’i Faith are contradictory: "syncretism” and “not similar to any other".

terça-feira, 30 de maio de 2006

Religiões: História, Textos e Tradições


Com o lançamento do livro "Religiões: História, Textos e Tradições" concluiu-se um dos mais interessantes projectos inter-religiosos em que estive envolvido. O projecto tinha por objectivo a produção de uma obra que desse a conhecer as grandes religiões mundiais e fosse elaborado pelas diferentes comunidades religiosas que existem no nosso país.

Na cerimónia de lançamento, o Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, classificou o livro como "a semente de um nova etapa do diálogo inter-religioso". Na verdade, ao dar a conhecer num único volume (com quase 900 páginas) a história, os textos sagrados e as tradições das grandes religiões mundiais, as comunidades religiosas do nosso país lançaram uma obra capaz de fomentar o conhecimento e respeito mútuo entre as religiões.

Esta obra colectiva - expressão do entendimento entre as comunidades religiosas no nosso país – levará a estudantes e investigadores do fenómeno religioso um manancial de informações sobre o património religioso da humanidade. E se considerarmos que as grandes religiões mundiais sempre inspiraram diversas civilizações e condicionaram a organizações de tantas e tão diversificadas sociedades, percebemos que o livro pode ainda ser considerado um testemunho da evolução humana.

O facto do livro ter recebido o apoio da Presidência do Conselho de Ministros (através da Estrutura de Missão para o Diálogo com as Religiões) é um outro sinal positivo deste projecto. Por um lado, o Estado Português reconhece a importância do diálogo inter-religioso para a tranquilidade e bem-estar social; por outro, enfatiza uma linha de acção laica cooperativa com as comunidades religiosas que tem sido o apanágio desta 3ª República.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Porquoi le XXIe siècle est religieux

A edição Setembro-Outubro da revista francesa Le Monde des Religions, apresenta um conjunto de artigos e uma sondagem sobre o renascer do sentimento religioso em França. Deixo aqui alguns destaques de um dos artigos, assim como a sondagem publicada.

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Qui aurait pu imaginer, il y a une trentaine d'années, que le XXI siècle s'ouvrirait sur une telle omniprésent planétaire du religieux ? En Europe, le déclin des Eglises ne faisait que s'accentuer, la religion s'individualisait et se cantonnait de plus en plus à la sphère privée et on était convaincu que le modèle européen allait gagner le monde entier. Force est de constater qu'en ce début de siècle, le religieux est présent en l'Occident comme dans le reste du monde, de multiples manières: réaffirmations identitaires, développement du fondamentalisme et de l'intégrisme, renouveaux spirituels, multiplication des secte, succès de l'ésotérisme, etc.
(...)
Ce serait toutefois une erreur de réduire de réveil religieux à ses seules manifestations identitaires et à ses débordements extrémistes. On assiste également depuis une trentaine d'années à un renouveau spirituel qui renvoie quant à lui aux besoins individuels de sens et de transcendance, mais aussi de mystère et de symboles. Cette seconde manifestation du réveil religieux est d'abord apparue en Occident aux lendemains de l'effondrement des grandes idéologies politiques, dans le mouvement même de la contre-culture et du rejet des valeurs socio-économiques dominantes, qui accordaient plus de place à la réussite matérielle et sociale au détriment des valeurs d'accomplissement de soi valorisant la dimension spirituelle.

Or des individus, de plus en plus nombreux, cherchent à donner un sens à leur vie personnelle au-delà de la simple réussite sociale, à développer leur potentiel créatif, à trouver une paix e une sérénité intérieure, à mieux gérer les relations interpersonnelles. S'exprime aussi, dans un monde sans doute trop désenchanté, un besoin de mythes, de symboles, de rites initiatiques. La spiritualité, qui constitue un quelque sorte le versant individuel et intérieur des traditions religieuses, offre des méthodes, des rituels, un univers symbolique, des livre, des maîtres expérimentés, favorisant ce travail sur soi et répondant à ce besoin de sacré.
(...)


Frédéric Lenoir, Dieu dans tous ses états, Le Monde des Religions, septembre-octobre 2005

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