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sábado, 30 de novembro de 2024

Unidade Eterna: Somos Todos Imortais

Por David Langness.


Ó Filho do Homem! A Minha eternidade é a Minha criação, criei-a para ti. Faze-a o traje do teu templo. A Minha unidade é obra das Minhas mãos; fi-la para ti; veste-te com ela, para que possas ser por toda a eternidade a revelação do Meu ser eterno.

Ó Filho do Homem! A Minha majestade é a Minha dádiva para ti, e a Minha grandeza é o sinal da Minha misericórdia para contigo. Aquilo que é digno de Mim ninguém compreenderá, nem pessoa alguma poderá relatar. Em verdade, preservei-o nos Meus relicários ocultos e nos tesouros do Meu mandamento, como sinal da Minha benevolência para com os Meus servos e da Minha misericórdia para com o Meu povo. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #64, #65)

“A Minha eternidade é a Minha criação”, diz-nos Bahá’u’lláh nas Palavras Ocultas, “criei-a para ti”.

Acha que a sua vida chegará ao fim em algum momento? A morte parece-lhe definitiva e irrevogável?

Os ensinamentos Bahá’ís dizem, inequivocamente, que esses pensamentos são pura imaginação. Todas as almas humanas, dizem-nos todas as religiões, vivem para sempre:

Incumbe, pois, a todo o homem de discernimento fixar o seu olhar no objectivo da eternidade, para que porventura, pela graça d’Aquele que é o Rei Antigo, possa alcançar o Reino imortal e permanecer à sombra da Árvore da Sua Revelação. (Bahá’u’lláh, The Summons of the Lord of Hosts, p. 169)

A essência dos Ensinamentos de Bahá’u’lláh é o amor que tudo abrange, pois, o amor inclui todas as excelências da humanidade. Faz com que cada alma progrida. Concede a cada um, por herança, a vida imortal. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, nº 31)

Sim, cada um de nós sofre uma morte física – mas os ensinamentos Bahá’ís asseguram-nos que a morte representa apenas o nosso nascimento para uma segunda vida, uma existência intemporal, eterna e perpétua:

A primeira vida, que pertence ao corpo elementar, terá um fim, tal como foi revelado por Deus: “Toda a alma provará a morte”. Mas a segunda vida, que surge do conhecimento de Deus, não conhece a morte, como já foi revelado no passado: “Nós certamente o despertaremos para uma vida abençoada”. (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, p. 49)

Estas duas citações d’As Palavras Ocultas de Bahá’u’lláh, apresentadas no início deste texto, utilizam uma bela linguagem poética para se referirem directamente àquela segunda vida, a vida eterna, que nos espera a todos:

A Minha unidade é obra das Minhas mãos; fi-la para ti; veste-te com ela, para que possas ser por toda a eternidade a revelação do Meu ser eterno.

A Minha majestade é a Minha dádiva para ti, e a Minha grandeza é o sinal da Minha misericórdia para contigo.

Falando aqui como profeta e voz de Deus, Bahá’u’lláh revela uma grande verdade mística: que o Criador, com majestade e grandeza, forjou a unidade da existência para a nossa edificação eterna. Como seres humanos, diz-nos Bahá’u’lláh, Deus pede-nos que usemos os trajes da obra da unidade, a dádiva eterna de Deus à humanidade. Esta unidade, e a certeza de que ela perdura para além das nossas vidas físicas, ensina-nos que a realidade não pode perecer:

A condição do homem é elevada, grandiosa. Deus criou o homem à Sua própria imagem e semelhança. Dotou-o de um poder enorme que é capaz de descobrir os mistérios dos fenómenos. Através do seu uso o homem é capaz de chegar a conclusões ideais em vez de ficar restrito ao mero plano das impressões sensoriais. Como possui dotes sensoriais em comum com os animais, é evidente que se distingue deles pelo seu poder consciente de compreender realidades abstratas. Ele adquire a sabedoria divina; ele investiga os mistérios da criação; ele testemunha o brilho da omnipotência; alcança o segundo nascimento – isto é, nasce do mundo material tal como nasce da mãe; ele atinge a vida eterna; ele aproxima-se de Deus; o seu coração está repleto do amor de Deus. Este é a base do mundo da humanidade; esta é a imagem e semelhança de Deus; esta é a realidade do homem…

Deveis esforçar-vos para compreender os mistérios de Deus, alcançar o conhecimento ideal e chegar à condição da visão, adquirindo directamente do Sol da Realidade e recebendo uma parte destinada da antiga dádiva de Deus. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 262-263)

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Texto original: Everlasting Unity: We Are All Immortal (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 23 de novembro de 2024

Como evitar o cansaço, os problemas e a morte

Por David Langness.


Ó Filho do Homem! Muitos dias passaram por ti enquanto te ocupavas com as tuas fantasias e vãs imaginações. Quanto tempo vais permanecer adormecido no teu leito? Levanta a cabeça do sono, pois o Sol subiu ao zénite, talvez possa brilhar sobre ti com a luz da beleza.

Ó Filho do Homem! A luz brilhou sobre ti vinda do horizonte do Monte sagrado e o espírito da iluminação soprou no Sinai do teu coração. Por isso, liberta-te dos véus das vãs fantasias e entra na Minha corte, para que possas estar preparado para a vida eterna e ser digno de Me encontrar. Assim, a morte não te poderá alcançar, nem o cansaço, nem os problemas. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #62, #63)

Passaram vários meses desde que escrevi o último texto desta série de artigos sobre o belo e místico livro de Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas. Peço desculpa pela demora – por vezes, exalto-me com a beleza destas palavras e tento meditar nelas todos os dias, e depois uma destas frases fica gravada na minha mente e parece habitar nos meus pensamentos durante meses. Quando isto acontece, levo muito tempo a processar e depois a tentar compreender os significados profundos dos impressionantes aforismos de Bahá’u’lláh.

Foi o que aconteceu com estas duas citações d’As Palavras Ocultas.

Depois de reflectir sobre elas durante algum tempo, parecem resumir e conter a própria essência daquilo que é acreditar. Achei-as tão profundas; e ainda estou a lutar para conseguir entendê-las.

Bahá’u’lláh apela-nos, na primeira citação, a despertar do nosso sono: “Levanta a tua cabeça…” Ele pede-nos para deixarmos para trás as nossas “fantasias e vãs imaginações” e emergirmos da longa noite da alma. Porquê? Porque “o Sol subiu ao zénite, talvez possa brilhar sobre ti com a luz da beleza”.

A noite e a escuridão simbolizam, obviamente, sempre o estado inconsciente; por outro lado, o dia representa a iluminação e o despertar da mente consciente. Nestas frases, Bahá’u’lláh diz-nos que chegou uma nova era de consciência e que o Sol brilha sobre todos nós – que Deus enviou mais uma vez um mensageiro sagrado à humanidade. Anuncia que a luz nasceu de novo, se ao menos acordássemos e olhássemos.

Na segunda citação, Bahá'u'lláh continua a alusão à luz que brilha sobre nós “do Monte sagrado”.

Muitas vezes, nas Escrituras religiosas, o Monte Sinai, ou o Monte sagrado – um dos lugares mais sagrados do Judaísmo, do Cristianismo e do Islão, onde Moisés recebeu os Dez Mandamentos – simboliza o próprio profeta de Deus. A palavra Sinai representa também o coração humano puro, que recebe a luz do profeta.

Uma vez que os Bahá'ís aceitam Bahá’u’lláh como o novo profeta de Deus – o mais recente de uma longa linhagem de mensageiros sagrados como Abraão, Krishna, Buda, Moisés, Cristo e Maomé – estas frases d’As Palavras Ocultas convidam todos “para a Minha corte… ”

A utilização da palavra “Minha” em maiúscula indica que aqui Deus fala directamente connosco através de Bahá’u’lláh, pedindo a cada um de nós que alcance a vida eterna, reconhecendo a efusão de luz que o novo profeta traz. Bahá’u’lláh convida-nos a reconhecer a Sua revelação, a compreender que Deus voltou a falar, a abrir os nossos olhos e a deixar entrar a luz.

Este convite, que Bahá’u’lláh fez a toda a humanidade, contém uma promessa: “Assim, a morte não te poderá alcançar, nem o cansaço, nem os problemas.

Como é que isto é possível? O que significa esta promessa?

Diz-nos que quando reconhecemos o mais recente chamamento de Deus, Ele começa a preparar as nossas almas para poderem estar preparadas para a vida eterna e dignas de O encontrar. Não promete algum tipo de salvação ou recompensa instantânea – em vez disso, Bahá’u’lláh diz que devemos libertar-nos dos “véus das vãs fantasias” para podermos ver claramente e reconhecer a “luz da beleza”.

Assim, a morte não te poderá alcançar …”, escreveu Bahá’u’lláh, oferecendo a todos a vida eterna.

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Texto original: How to Avoid Weariness, Trouble and Death (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 16 de novembro de 2024

Aspirando ao Templo Místico do Ser

Por David Langness.


Ó Filho do Homem! O templo do ser é o Meu trono; purifica-o de todas as coisas, para que ali Eu Me possa estabelecer e habitar.

Ó Filho do Ser! O teu coração é o meu lar; santifica-o para a Minha descida. O Teu espírito é o Meu lugar de revelação; limpa-o para a Minha manifestação.

Ó Filho do Homem! Coloca a tua mão no Meu peito, para que Eu Me possa erguer acima de ti, radiante e resplandecente.

Ó Filho do Homem! Ascende ao Meu céu, para que possas alcançar a alegria da reunião, e do cálice da glória imperecível beber o vinho incomparável. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #58, #59, #60, #61)

Estas quatro citações do livro de Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, centram-se todas num tema: a santidade e a beleza espiritual do coração humano.

Nos ensinamentos místicos de todas as religiões e nas Escrituras de Bahá’u’lláh, é-nos dito que Deus é o dono dos nossos corações:

Ele... escolheu os corações dos homens como o Seu próprio domínio. (Bahá’u’lláh, Tablets of Baha’u’llah, pp. 220-221.)

O Deus uno e verdadeiro sempre considerou os corações dos homens como Seus, como Sua propriedade exclusiva – e também apenas comouma expressão da Sua misericórdia insuperável, para que, porventura, as almas mortais possam ser purificadas e santificadas de tudo o que pertence ao mundo do pó, e possam ser admitidas nos domínios da eternidade. (Bahá’u’lláh, Súriy-i-Haykal, ¶214)

Assim, estas quatro citações das Palavras Ocultas, do magnânimo livro de Bahá’u’lláh, contendo pequenos aforismos de sabedoria eterna, contêm alguns conselhos profundos para cada ser humano. Pedem-nos para limpar e santificar a paisagem interior do nosso próprio coração, e fazer dela a morada de pensamentos e emoções sublimes e espirituais. Pedem-nos para guardar os afectos dos nossos corações para o que realmente perdura, em vez das bugigangas brilhantes e das atracções que desaparecem rapidamente do mundo material. Pedem-nos para nos desligarmos do mundo material e voltarmos o nosso olhar para o reino espiritual:

Ó amigo, o coração é a morada dos mistérios eternos, não faças dele o lar das fantasias efémeras; não desperdices o tesouro da tua vida preciosa ocupado com este mundo que se desvanece depressa. Tu vens do mundo da santidade – não prendas o teu coração à terra; és um morador da corte da proximidade – não escolhas a pátria do pó. (Bahá’u’lláh, The Seven Valleys, p. 34.)

O que significa isto?

Numa perspetiva Bahá’í, significa transcender o eu inferior e ascender a um eu superior. Significa elevar-se acima do temporário, aspirar ao permanente e procurar o templo místico do ser:

Abandona os teus próprios desejos, volta a tua face para o teu Senhor e não sigas os passos daqueles que tomaram as suas inclinações corruptas como o seu deus, para que talvez possas encontrar abrigo no coração da existência, sob a sombra redentora d’Aquele que forma todos os nomes e atributos. (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, pp. 48-49)

Todos viemos de Deus e todos voltamos para Deus. Todas as grandes religiões afirmam esta verdade eterna. Para permanecermos nessa morada eterna, dizem as Escrituras Bahá’ís, devemos “procurar os sopros sagrados do espírito…” Mas o que significa abandonar os nossos próprios desejos e renunciar ao eu inferior? 'Abdu'l-Bahá explica:

Quanto à afirmação n’As Palavras Ocultas, de que o homem deve renunciar a si próprio, o significado é que ele deve renunciar aos seus desejos desmesurados, aos seus propósitos egoístas e aos impulsos do seu eu humano, e procurar os sopros sagrados do espírito, e seguir os anseios do seu eu superior e mergulhar no mar do sacrifício, com o coração fixado na beleza do Todo-Glorioso. (Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, p. 206)

Este amor profundo, constante e incessante pela “beleza do Todo-Glorioso”, que só pode vir do reino invisível, tem uma pretensão profunda em relação aos nossos corações:

Dá ouvidos, ó povo, àquilo que Eu, em verdade, vos digo. O único Deus verdadeiro, exaltada seja a Sua glória, sempre considerou, e continuará a considerar, os corações dos homens como Seus, a Sua posse exclusiva. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, p. 206)

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Texto original: Aspiring to the Mystical Temple of Being (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 9 de novembro de 2024

Com o Fogo testamos o Ouro

Por David Langness.


Ó Filho do Ser! Não te ocupes com este mundo, pois com fogo testamos o ouro, e com ouro testamos os nossos servos.

Ó Filho do Homem! Tu desejas o ouro e eu desejo que te libertes dele. Tu consideras-te rico ao possuí-lo, e eu reconheço a tua riqueza ao santificares-te dele. Pela Minha vida! Este é o Meu conhecimento, e essa é a tua fantasia; como pode a Minha vontade estar em harmonia com a tua?

Ó Filho do Homem! Concede a Minha riqueza aos Meus pobres, para que no céu possas obter abundância de esplendor imperecível e tesouros de glória imortal. Mas pela Minha vida! Ofereceres a tua alma é a coisa mais gloriosa, se apenas o pudesses ver com os Meus olhos. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, #55, #56, #57)

Estes três excertos do livro místico de Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, centram-se na enorme diferença entre a riqueza mundana e as verdadeiras riquezas, entre a atracção temporária pelo ouro e o brilho permanente da alma pura.

Vivo no sopé da Sierra Nevada, no norte da Califórnia, na região conhecida como Gold Country, onde houve a histórica corrida ao ouro no final da década de 1840. Estudando essa época da história, aprendi que os incontáveis de mineiros e exploradores que em meados de 1800 que vieram para o oeste em busca de ouro, encontraram grupos de índios nativos americanos que sabiam há séculos sobre as brilhantes pepitas de metal que cobriam o chão. Para os índios aquelas pepitas de ouro não tinham qualquer valor; mas para os mineiros, a riqueza material representada pelo ouro fez com que morressem aos milhares quando chegaram à Califórnia; e depois mataram à fome e massacraram os índios que eram um obstáculo na sua “febre do ouro”. Como resultado, seguiram-se massacres e fome em massa, com a população nativa da Califórnia a cair a pique – de 150.000 pessoas em 1845 para 30.000 em 1870. Os historiadores concordam agora que a Corrida ao Ouro se transformou num genocídio.

Após a criação de um estado em 1850, o primeiro governador da Califórnia, Peter Burnett, declarou o Estado como um campo de batalha entre brancos e índios, dizendo: “É de esperar que uma guerra de extermínio continuará a ser travada entre as duas raças até que a raça indígena seja extinta”.

Ainda se pode ver o brilho das manchas douradas incrustadas entre o granito e o quartzo nas montanhas aqui próximas. Estas grandes pepitas de ouro, outrora encontradas no solo à vista de todos, desapareceram, tal como a maioria dos povos nativos, cujas culturas, se tivessem prosperado, poderiam ter temperado e moderado o materialismo desenfreado do Estado Dourado de hoje.


As Escrituras Bahá’ís dizem: “Tu desejas o ouro e eu desejo que te libertes dele.” Cada profeta de todas as grandes religiões reiterou este tema do desprendimento da riqueza material para a humanidade:

A vida do além nunca surge diante dos olhos da criança descuidada, iludida pela ilusão da riqueza. “Este é o mundo”, pensa, “não há outro”. Assim, cai repetidamente sob o meu domínio. (A Morte a Falar, do Katha Upanishad Hindu)

Quem ama o dinheiro nunca tem dinheiro suficiente; quem ama a riqueza nunca está satisfeito com o seu rendimento. (Ecclesiastes 5:10)

Há pessoas que é necessário considerar ricas - uma é aquela que é perfeita em sabedoria; a segunda é aquela cujo corpo é saudável e vive sem medo; a terceira é a que está contente com o que aconteceu; a quarta é aquela cujo destino é um ajudante na virtude; a quinta é aque é famosa aos olhos das coisas sagradas, e pelas línguas dos bons; a sexta é aquela cuja confiança está na religião pura e boa … e a sétima é aquela cuja riqueza provém da honestidade. (Zoroastro, Zend-Avesta.)

Fé é riqueza! Obediência é riqueza! Modéstia também é riqueza! Ouvir é riqueza e caridade também! (Gautama Buddha, The Dhammapada)

Porém os que desejam enriquecer caem na tentação e na armadilha, e são vítimas de muitos desejos insensatos e prejudiciais, fazendo com que se afundem na ruína e na perdição. A raiz de todos os males é a ganância do dinheiro. (1 Timóteo 6:9-10)

É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. (Mateus 19:24)

As riquezas não provêm de uma abundância de bens materiais, mas de uma mente satisfeita. É difícil a um homem carregado de riquezas subir o caminho íngreme que conduz à felicidade. (The Sayings of Muhammad)

O mérito do homem reside no serviço e na virtude e não na ostentação de bens e riquezas. (Tablets of Baha’u’llah, p. 138)

Este tema consistente, que está presente em todas as religiões, pede-nos que olhemos para além da riqueza material transitória deste mundo e em direcção à riqueza espiritual duradoura do mundo da alma.

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Texto original: With Fire We Test the Gold (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 26 de outubro de 2024

A Firmeza, a Paciência e o Amor

Por David Langness.


Ó Filho do Homem! Para tudo há um sinal. O sinal do amor é a firmeza sob o Meu decreto e a paciência sob as Minhas provações.

Ó Filho do Homem! O verdadeiro amante anseia pela tribulação, tal como o rebelde pelo perdão e o pecador pela misericórdia. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #48, #49)

Nesta série de artigos sobre As Palavras Ocultas, a obra mística de Bahá’u’lláh, explorámos os mistérios da linguagem elevada do livro, a compreensão espiritual dos Seus conselhos nobres e os significados das Suas metáforas e alusões.

Ficámos a saber que cada frase deste belo livro poético tem múltiplos significados. Vimos como as leituras mais literais d’ As Palavras Ocultas não estão à altura da elevada paisagem verbal das muitas camadas simbólicas de consequências e intenção do livro. Tentámos descobrir algumas destas camadas de significados e compreender pelo menos parte do que a voz profética de Bahá’u’lláh nos deu.

Mas aqui, nestes dois aforismos simples e curtos, o significado místico das palavras de Bahá’u’lláh parece tão profundo que resiste a qualquer explicação.

O sinal do amor é a firmeza sob o Meu decreto e a paciência sob as Minhas provações” e “O verdadeiro amante anseia pela tribulação”, ambas ligam o amor às dificuldades, às provações e à tolerância.

No mundo material, nem sempre pensamos no amor desta forma. Muitas pessoas têm uma visão romântica do amor como um mar calmo e tranquilo de estabilidade emocional. Mas, na verdade, o amor pode trazer turbulência, problemas e lágrimas. O verdadeiro amor por outra pessoa significa, geralmente, que o amante sacrificaria qualquer coisa – paz, prosperidade, vida – pela pessoa amada:

Um dos requisitos do verdadeiro amor é a prontidão para suportar todo o sofrimento e tribulação que ocorreu no passado ou que possa ocorrer no futuro. Consequentemente, um amante apaixonado está sempre manchado de sangue, e aquele que anseia por encontrar o Amado é um peregrino constante. (Bahá’u’lláh, Fire and Light, p. 25)

O amor traz consigo mais do que apenas um pequeno incómodo, diz-nos Bahá’u’lláh. Em vez disso, produz provações e tribulações, sofrimento, dor e agitação emocional.

Buda afirmou que existir é sofrer. De muitas maneiras, a existência moderna aparentemente mitigou grande parte do sofrimento físico da vida – com a nossa electrónica, os nossos transportes, a forma como obtemos os nossos alimentos, os milagres da medicina moderna, a relativa tranquilidade da nossa vida quotidiana.

Mas cada um de nós, não importa quem somos ou como vivemos, sofre por dentro. Nenhuma vida prossegue sem dor. Espiritualmente, esta dor faz-nos ansiar por uma ligação profunda para além deste plano físico. Estimula-nos na nossa busca por significado e faz-nos desejar uma compreensão duradoura das nossas próprias almas.

Então, o nosso sofrimento tem significado?

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que sim – que a tristeza e o sofrimento encontram o seu significado no poder de transformar a alma individual de um ser material num ser espiritual. O nosso sofrimento, se o olharmos à luz de um processo educativo, tem o potencial de nos refazer.

Os grandes poetas sufis, Hafez e Rumi, recordavam-nos constantemente esta poderosa verdade metafórica: “O amor vem com uma faca, não com uma pergunta tímida”, e também “O amor é um louco, a trabalhar nos seus esquemas loucos”.

Bahá’u’lláh utiliza um conceito ainda mais surpreendente quando diz: “O verdadeiro amante anseia pela tribulação”.

Os ensinamentos Bahá'ís encaram as provações e o sofrimento como uma dádiva para o espírito humano:

Para a alma leal, um teste não é mais do que a graça e o favor de Deus; pois o valente avança alegremente para a batalha furiosa no campo da angústia, quando o cobarde, chorando de medo, ficará agitado e estremecerá. Da mesma forma, o aluno hábil, que com grande competência dominou as suas matérias e as memorizou, exibirá alegremente as suas capacidades perante os seus examinadores no dia dos seus testes. Da mesma forma, o ouro maciço brilhará maravilhosamente e ficará resplandecnete no fogo do ensaiador.

É claro, portanto, que os testes e as provações são, para as almas santificadas, apenas a generosidade e a graça de Deus… ('Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, pp. 181-182)

A nossa atracção e amor pelo divino, pelo espiritual, pelo transcendente e pelo semelhante a Deus, irão inevitavelmente testar-nos, parecem dizer estas Palavras Ocultas. Se verdadeiramente amamos a realidade espiritual da vida, desejaremos prová-lo. Assim, o fogo destas provações revelará, tal como o ouro faz quando aquecido pelo fogo, a verdadeira natureza e pureza do nosso amor.

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Texto original: Fortitude, Patience and Love (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 19 de outubro de 2024

O físico ou o espiritual – escolher o que prevalece

Por David Langness.


Ó Filho do Ser! Se o teu coração estiver voltado para este domínio eterno e imperecível e para esta vida antiga e eterna, abandona esta soberania mortal e efémera. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, #54)

Na faculdade, conheci um rapaz a quem todos chamavam monogâmico em série. Dizendo de uma forma simpática, ele era agressivamente solteiro. Cada vez que o via estava com uma moça diferente e raramente faltava a uma festa. Vamos chamar-lhe Cliff.

Eu vez perguntei-lhe sobre disso. Ele riu-se e deu-me uma variante do velho lugar-comum: “A variedade é o tempero da vida, e eu estou apenas a jogar em campo”.

Durante algumas aulas de literatura, percebi que o Cliff não costumava falar em lugares-comuns; ele conseguia mesmo pensar. As perguntas que ele fazia aos nossos professores durante as aulas revelavam uma pessoa mais profunda e atenciosa do que eu poderia imaginar. Fiquei também a perceber que o Cliff não parecia muito feliz, apesar de todas as festas.

Depois da faculdade, estive alguns anos sem ver o Cliff, até que um dia o encontrei numa loja.

Cliff, como estás?”, disse eu, enquanto reparava que ele usava uma aliança de casamento. Se tivesse entrado na loja a passear um leão pela trela, talvez não me tivesse surpreendido tanto.

Casei-me”, disse, com um grande sorriso.

Parabéns”, respondi, apertando-lhe a mão. “Não pensei que fosses do tipo de pessoa que iria casar...”

Nem eu”, retorquiu.

O que é que mudou?” perguntei-lhe.

Bem, tive uma epifania. Percebi que, com toda aquela corrida frenética atrás de mulheres, estava apenas a tentar negar a minha própria mortalidade.

A visão filosófica e espiritual de Cliff sobre si próprio pareceu-me bastante profunda.

Mais tarde, dei ao Cliff esta citação das Escrituras Bahá’ís:

Tendo, nesta viagem, mergulhado no oceano da imortalidade, libertado o seu coração do apego a qualquer coisa que não seja Ele, e alcançado os mais sublimes cumes da vida eterna, o buscador não verá aniquilação nem para si nem para qualquer outra alma. Beberá do cálice da imortalidade, pisará a sua terra, voará na sua atmosfera, associar-se-á àqueles que são as suas encarnações, tomará os frutos imperecíveis e incorruptíveis da árvore da eternidade, e será contado para sempre nos sublimes cumes da imortalidade, entre os habitantes do reino eterno. (Baha’u’llah, Gems of Divine Mysteries, p. 72)

Para mim, este pequeno excerto e a frase das Palavras Ocultas de Bahá’u’lláh acima exemplificam o cerne da verdadeira religião.

São duas citações que exprimem e examinam a própria raiz da condição humana: vivemos e respiramos hoje, mas amanhã morreremos. A certeza absoluta da nossa morte obriga todos os seres humanos a responder a uma questão fundamental sobre as nossas vidas: O que é que prevalece?

Quem acredita – como Cliff fez durante da fase da folia – que a vida termina quando o corpo morre, então será levado a concluir que nada tem muito valor duradouro. Por outras palavras, poderia concluir que tudo morre, e que somos todos apenas mamíferos sem alma, destinados ao esquecimento eterno no final das nossas vidas físicas. Perante esta opinião, a maioria das pessoas tenta simplesmente encontrar o máximo de prazer, satisfação e conforto material possíveis.

Mas quem percepcionar a presença de algo mais na vida, uma realidade mística e imortal que se estende para além do túmulo, então vai querer planear a longo prazo e não focar toda a sua vida no mundo material.

As pessoas que acreditam que a nossa consciência humana continua após a morte biológica, evocam frequentemente essa fase seguinte da existência vida após a morte. Mas a expressão pode ser enganadora, pois sugere que este mundo físico é onde temos a nossa vida real; e o mundo espiritual que se segue é apenas uma nota de rodapé.

Os ensinamentos Bahá’ís descrevem-no de forma diferente.

Esta fase terrena da nossa existência, diz-nos Bahá’u’lláh, é uma “soberania mortal e efémera”. Transcender essa soberania temporária e livrar os nossos corações do apego a ela, diz Ele, requer reorientar os nossos afectos para a eternidade. Em vez de amar o mundo físico, que acabará por perecer, deveríamos estender o nosso amor aos aspetos espirituais da vida – o infinito e o imperecível. Em vez de nos agarrarmos a este mundo, onde permanecemos apenas por um curto período de tempo, o nosso olhar deve contemplar o horizonte mais amplo e procurar uma visão mais longa.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que cada uma de nós é uma alma imortal, uma essência indestrutível. Esta existência física, que dura algumas dezenas de anos, serve apenas como a primeira fase do nosso crescimento espiritual – mas é uma fase muito importante. Aqui, neste plano material da realidade, devemos escolher entre focar-nos no que é efémero ou no que é duradouro.

Escolham bem.

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Texto original: The Physical or the Spiritual–Choosing What Lasts (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 12 de outubro de 2024

Como a Alma lida com o Sofrimento

Por David Langness.


Ó Filho do Homem! Se a adversidade não te sobrevier no Meu caminho, como poderás seguir os caminhos daqueles que estão satisfeitos com o Meu agrado? Se as provações não te afligirem no teu desejo de Me encontrares, como alcançarás a luz no teu amor pela Minha beleza?

Ó Filho do Homem! A Minha calamidade é a Minha providência, exteriormente é fogo e vingança, mas interiormente é luz e misericórdia. Apressa-te para que te possas tornar uma luz eterna e um espírito imortal. Este é o meu mandamento para ti, cumpre-o.

Ó Filho do Homem! Se a prosperidade te sobrevier, não te regozijes, e se a humilhação cair sobre ti, não te lamentes, pois, ambas passarão e não mais existirão.

Ó Filho do Ser! Se a pobreza te atingir, não te entristeças; pois com o tempo o Senhor da prosperidade te visitará. Não temas a humilhação, pois a glória um dia repousará sobre ti. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, #50, #51, #52, #53)

Ninguém escapa ao sofrimento e à tragédia nesta existência física.

Nas relações familiares, nas preocupações relacionadas com a saúde, na pobreza ou na prosperidade, nenhum de nós está imune à dor e ao sofrimento. Como seres humanos, todos partilhamos a experiência de lidar com adversidades, problemas e tragédias. Este mundo físico apresenta-nos constantemente provações e tribulações; é uma parte inevitável da condição humana.

A verdadeira religião reconhece esta realidade e tenta ensinar-nos a lidar com o sofrimento inevitável da vida.

O Budismo, por exemplo, preocupa-se quase inteiramente em aliviar o impacto do sofrimento na alma humana. As Quatro Nobres Verdades do Budismo dizem-nos que o sofrimento existe; que a causa do nosso sofrimento é o desejo e a ignorância; e que a cura para o sofrimento humano passa pelo desenvolvimento da capacidade da mente para a compreensão e o discernimento; depois, deve-se percorrer o caminho das acções espirituais (a que Buda chamou Caminho Óctuplo) para procurar a verdadeira iluminação. A essência do remédio Budista para o sofrimento, tal como o remédio Bahá’í, envolve o desprendimento do mundo material, que Buda disse ser a fonte de todo o sofrimento:

Não sigais uma vida de maldade; não vivais na negligência; não tenhais opiniões falsas; não valorizeis as coisas mundanas. Desta forma podeis livrar-vos do sofrimento. (Gautama Buda, Dhammapada, v.)

Nas quatro citações das Palavras Ocultas acima, Bahá’u’lláh apresenta-nos um conjunto de ensinamentos espirituais com beleza e nuances semelhantes. “Se a prosperidade te sobrevier…” ou “Se a pobreza te atingir”, afirma Ele, devemos esforçar-nos por reconhecer que este mundo de impermanência acabará por desaparecer; e realmente devemos acolher as adversidades e calamidades pessoais como advertências, provações e desafios constantes para permanecermos desprendidos destas condições temporárias.

No sânscrito original dos ensinamentos Budistas, Buda utilizou a palavra dukkha – que não significa apenas sofrimento ou dor, mas também impermanência (viparinama) ou estados de ser condicionais e mutáveis (samkhara). Exactamente da mesma forma, as Palavras Ocultas de Bahá’u’lláh advertem-nos contra o apego dos nossos corações e almas a essas coisas, estados e condições transitórias que “passarão e não mais existirão”.

Bahá’u’lláh e Buda pedem-nos que compreendamos e interiorizemos que este mundo e as suas mudanças não duram. A nossa tarefa, através da dor e do sofrimento que estas mudanças trazem, passa por mudar o nosso foco, o nosso amor e a nossa lealdade deste mundo temporário e impermanente para o mundo espiritual eterno:

Ó amigo, o coração é a morada dos mistérios eternos, não faças dele o lar das fantasias fugazes; não desperdices o tesouro da tua preciosa vida envolvido com este mundo que passa depressa. Tu vens do mundo da santidade – não ligues o teu coração à terra; és um morador da corte da proximidade – não escolhas a pátria do pó. (Bahá’u’lláh, The Seven Valleys, p. 34)

Embora os cataclismos exteriores sejam difíceis de compreender e suportar, ainda assim existe uma grande sabedoria por detrás deles, que aparecerá mais tarde. Todos os acontecimentos materiais visíveis estão inter-relacionados com forças espirituais invisíveis. Os infinitos fenómenos da criação são tão interdependentes como os elos de uma corrente.

Quando certos elos enferrujam, eles são quebrados por forças invisíveis, para serem substituídos por outros mais novos e melhores. Existem certos acontecimentos colossais que ocorrem no mundo da humanidade e que são exigidos pela natureza dos tempos. Por exemplo, as exigências do inverno são o frio, a neve, o granizo e a chuva – mas as aves e os animais que vivem durante seis meses, desfrutando de um curto período de vida, não se apercebendo da sabedoria do inverno, repreendem e lamentam e ficam descontentes, dizendo: “Porquê esta geada horrível? Porquê este granizo e esta tempestade? Porque não o clima ameno? Porque não a eterna primavera? Porquê esta injustiça por parte do Criador? Porquê este sofrimento? O que fizemos para enfrentar esta catástrofe?

Contudo, aquelas almas que viveram muitos anos e adquiriram muita experiência e resistiram a muitos invernos rigorosos, percebem que, para aproveitarem a primavera que se aproxima, devem passar pelo frio do inverno. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, p. 115)

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Texto original: How the Soul Deals with Suffering (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 10 de agosto de 2024

Religião e Martírio

Por David Langness.



Ó FILHO DO SER!
Procura uma morte de mártir no Meu caminho, satisfeito com o Meu prazer e grato por aquilo que Eu ordeno, para que possas repousar Comigo sob o dossel da majestade, atrás do tabernáculo da glória.

Ó FILHO DO HOMEM!
Pondera e reflecte. Será o teu desejo morrer sobre o teu leito ou derramar o teu sangue sobre o pó, um mártir no Meu caminho, e assim tornares-te a manifestação do Meu mandamento e o revelador da Minha luz no paraíso mais elevado? Julga bem, ó servo!

Ó FILHO DO HOMEM!
Pela Minha beleza! Tingir o teu cabelo com o teu sangue supera, aos Meus olhos, a criação do universo e a luz de ambos os mundos. Esforça-te, pois, para conseguir isso, ó servo! (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #45, #46, #47)

A palavra “mártir” tem passado por dificuldades nos últimos tempos. Normalmente tendemos a pensar nos mártires como pessoas psicologicamente desequilibradas, que se queixam incessantemente dos seus problemas e nunca fazem nada para os mudar; ou bombistas suicidas fanáticos que se fazem explodir para matar outras pessoas.

Quando era mais novo, toda a noção de martírio me parecia completamente alheia; era um conceito verdadeiramente distante e estranho. Venho de uma mentalidade ocidental, por isso, quando crescia, não tive qualquer contexto real – intelectual ou cultural - sobre o martírio.

Na verdade, cresci a pensar que os mártires eram fanáticos. Dar a minha vida por alguma causa abstrata? Isso era absolutamente insensato, pensava. Depois aconteceram duas coisas na minha vida: a guerra do Vietname e o movimento dos direitos civis.

Thich Quang Duc imola-se em Saigão, 1963
Em 1963, o monge Budista Thich Quang Duc imolou-se em público e morreu para protestar contra o tratamento dado aos Budistas pelo regime Católico no Vietname do Sul, e para afirmar a oposição da comunidade Budista à guerra no Vietname. Lembro-me de ter visto este acto de suicídio altruísta na televisão e de ter ficado maravilhado com ele durante meses. Perguntava-me: como poderia alguém estar tão comprometido com uma causa ao ponto de estar disposto a dar tão dolorosamente a vida por ela? Ao princípio, pensei que o pobre monge devia estar louco, mas depois descobri que sacrificou a vida por um acto de consciência. As suas acções fizeram-me questionar tudo o que sabia sobre a vida e o compromisso com os outros.

Quando falei com o meu pai sobre este acontecimento, percebi que o martírio talvez do monge não fosse assim tão invulgar. Afinal, o meu pai também colocou a sua própria vida em risco durante a Segunda Guerra Mundial. Fuzileiro norte-americano na campanha do Pacífico, foi gravemente ferido em Tarawa e quase não sobreviveu. Arriscou voluntariamente a vida pelos outros, e derramou o seu próprio sangue pelas suas convicções.

Depois, um ano mais tarde, tornei-me membro do Congress for Racial Equality (CORE) e da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP). Juntei-me a estes grupos por causa de três defensores dos direitos civis chamados Schwerner, Chaney e Goodman. Provavelmente, conhece a história deles – jovens, dois brancos e um negro, brutalmente assassinados por racistas brancos perto de Filadélfia, no Mississípi, em 1964. Faziam parte de um movimento chamado “Verão da Liberdade”, concebido para registar os negros como eleitores. Pagaram com a vida o seu compromisso com a igualdade racial, e tornaram-se um símbolo de morte por uma causa justa, tal como o Dr. Martin Luther King Jr.

A indignação nacional face ao martírio daqueles inocentes defensores dos direitos civis alimentou a aprovação bem-sucedida da Lei dos Direitos Civis e da Lei do Direito de Voto, duas conquistas legislativas marcantes que ajudaram a quebrar abertamente o antigo racismo institucionalizado da América.

Hoje podemos pensar nos mártires como fanáticos loucos que se fazem explodir, mas eu diria que essas pessoas não são mártires, e que os seus actos homicidas contra inocentes desonram uma palavra que já foi nobre. Na verdade, estes bombistas suicidas tendem a ser jovens, impressionáveis e mal orientados por aqueles que os usam como peões em lutas maiores, associadas apenas no nome à religião. Usados como armas inconscientes, estes bombistas tiram a vida a outras pessoas, algo que um verdadeiro mártir nunca faria.

O dicionário define mártir como “pessoa que sofreu tormentos ou a morte pela defesa dos seus ideais, de uma causa”.

Os Bahá’ís encaram o verdadeiro martírio – a vontade de sacrificar as suas próprias preocupações, conforto e segurança por uma causa boa, justa e nobre – como uma vocação elevada. Muitos Bahá’ís sofreram martírio físico, mais recentemente às mãos do governo do Irão, que prendeu, torturou e executou literalmente centenas de Bahá’ís apenas devido às suas crenças na unidade da humanidade e na unidade de todas as religiões. Mais de uma centena de Bahá’ís encontram-se actualmente nas prisões iranianas por causa destas crenças.

Mas, para a maioria de nós, o martírio não é físico, é psicológico. Quando nos posicionamos no mundo por uma boa causa, tomamos a decisão de nos opormos à injustiça e defender a justiça. Esta decisão pode implicar sofrimento. Esta decisão significa também que transcendemos os nossos interesses egocêntricos e mais mundanos, e os substituímos por interesses maiores; significa que “morremos para o eu” e procuramos um objectivo mais amplo. O termo simbólico “mártir” aplica-se, então, a qualquer pessoa que abnegadamente actue em nome de outrem.

Penso que é isso que Bahá’u’lláh quer dizer na linguagem alegórica das três anteriores citações das Palavras Ocultas – que Deus espera que comprometamos as nossas vidas com algo maior do que apenas as nossas preocupações pessoais; e que depois gastemos as energias da nossa vida nesse caminho.

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Texto original: Religion and Martyrdom (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 3 de agosto de 2024

Abrir os Nossos Olhos Espirituais

Por David Langness.


Ó FILHO DO TRONO!
Os teus ouvidos são os Meus ouvidos; escuta com eles. Os teus olhos são os Meus olhos; vê com eles, para que no mais íntimo da tua alma possas testemunhar a Minha exaltada santidade, e Eu dentro de Mim mesmo possa testemunhar uma posição elevada para ti. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, #44)
O pequeno, mas poderosamente convincente, livro de Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, dirige-se ao “mais íntimo da alma” de cada pessoa. Os aforismos místicos e as breves advertências na compilação transcendente de sabedoria de Bahá'u'lláh, disse 'Abdu'l-Bahá, representam a quintessência dos ensinamentos religiosos que nos falam novamente a partir da sua fonte:

Bahá’u’lláh reafirmou e restabeleceu a quinta-essência dos ensinamentos de todos os Profetas, pondo de lado aquilo que é acessório, e purificando a religião da interpretação humana. Ele escreveu um livro intitulado As Palavras Ocultas. O prefácio anuncia que o livro contém a essência das palavras dos Profetas do passado, vestidas com o traje da brevidade, para o ensino e orientação espiritual dos povos do mundo. Leiam-no para compreender os verdadeiros fundamentos da religião e reflectir sobre a inspiração dos Mensageiros de Deus. É luz sobre luz. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 86)

Se este pequeno livro dá voz à religião, então o que significa a passagem acima? Quando Bahá’u’lláh diz “Os teus ouvidos são os Meus ouvidos; escuta com eles” e “Os teus olhos são os Meus olhos; vê com eles”, como podemos compreender a que se referem estas palavras místicas?

Cada um dos cento e cinquenta e três versículos das Palavras Ocultas tem muitas interpretações diferentes, e um pequeno texto apenas pode abordar uma ou duas – mas esta passagem em particular contém um conjunto muito poderoso de significados que vão ao verdadeiro âmago da fé.

Quando Bahá’u’lláh escreveu “Os teus olhos são os Meus olhos; vê com eles”, a colocação da palavra “Meus” em maiúscula dá-nos a primeira pista. Nesta passagem, Bahá’u’lláh fala, como fazem todos os Profetas, do ponto de vista do Criador. A palavra “Meu” em maiúsculas significa Deus neste contexto – e Deus, diz-nos Bahá’u’lláh, deseja que cada ser humano transcenda os cinco sentidos e olhe mais profundamente.

Aqui ele pede a cada ser humano que veja para além da simples visão física – as coisas materiais que podemos ver com os nossos olhos exteriores – e que olhe para dentro. Deus envia-nos um pedido através do Seu Mensageiro, e reafirma novamente o pedido que Deus sempre fez às Suas criaturas: olhem para além do mundo físico e considerem a vossa realidade espiritual. Pensem profundamente, sugere gentilmente Bahá’u’lláh, sobre como reconhecer o seu verdadeiro eu.

Esta mensagem profunda, eterna no passado e eterna no futuro, representa a nossa mais elevada vocação humana. Pede-nos que nos relacionemos com a nossa origem; encontrar uma forma de comunicar com a essência espiritual eterna da vida, para construir uma relação verdadeira e duradoura com a realidade que só a nossa visão e audição interiores podem perceber. Ela chama-nos, como todas as religiões sempre fizeram, a procurar e a encontrar o que está para além das condições temporais e materiais desta vida passageira, e a prepararmo-nos para a próxima fase da nossa evolução espiritual. Pede-nos que consideremos a nossa própria imortalidade e que vivamos nela.

De uma forma simples e clara, Bahá’u’lláh escreve aqui que Deus pede o nosso reconhecimento e o nosso amor.

Que mais poderia ser tão profundamente cativante?

Só por vontade própria progredirmos para esta condição espiritual, e esta frase das Palavras Ocultas parece sugerir que Deus irá “testemunhar uma posição elevada” para cada um de nós.

Esta oração Bahá’í de ‘Abdu’l-Bahá, que pede a Deus que nos dê olhos, nos dê ouvidos, que nos familiarize com os mistérios da vida, fala diretamente ao anseio de cada alma pelo reconhecimento, pelo amor, por uma ligação duradoura e permanente com a origem do nosso ser:

Ó Deus! Somos como as plantas, e a Tua generosidade é como a chuva; refresca e faz com que essas plantas cresçam através da Tua dádiva. Somos os Teus servos; liberta-nos dos grilhões da existência material. Somos ignorantes; torna-nos sábios. Estamos mortos; dá-nos vida. Somos materiais; dota-nos de espírito. Estamos carenciados; torna-nos íntimos dos Teus mistérios. Estamos necessitados; enriquece-nos e abençoa-nos com o Teu tesouro ilimitado. Ó Deus! Ressuscita-nos; dá-nos olhos; dá-nos ouvidos; familiariza-nos com os mistérios da vida, para que os segredos do Teu Reino nos sejam revelados neste mundo da existência, e possamos confessar a Tua unidade. Toda a dádiva emana de Ti; toda a bênção é Tua. Tu és forte. Tu és poderoso. Tu és o Doador e Tu és o Sempre Generoso. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 91)

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Texto original: Opening Our Spiritual Eyes (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 15 de abril de 2023

Faze menção de Mim na Minha Terra

Por David Langness.



Ó FILHO DO HOMEM!
Magnifica a Minha Causa para que possa revelar-te os mistérios da Minha grandeza e fazer brilhar sobre ti a luz da eternidade.

Ó FILHO DO TRONO!
Torna-te humilde perante Mim, para que Eu possa graciosamente visitar-te. Levanta-te para o triunfo da Minha Causa para que enquanto ainda na terra possas alcançar a vitória.

Ó FILHO DO SER!
Faze menção de Mim na Minha terra, para que no Meu paraíso Eu possa lembrar-Me de ti, e assim os Meus olhos e os teus sejam consolados.
(Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #43-#45)

Magnifica Minha causa”, “Torna-te humilde perante Mim” e “Faze menção de Mim” – o que será que Bahá'u'lláh quer dizer quando nos fala desta maneira?

Para entender esta forma de comunicação, é útil conhecer as duas maneiras importantes pelas quais Bahá'u'lláh proclama a Sua mensagem n’As Palavras Ocultas.

Primeiro: quando Bahá’u’lláh usa um pronome pessoal com maiúscula como "Eu" ou "Meu", refere-se directamente a Deus. Com este modo de discurso espiritual, Bahá’u’lláh fala como o Manifestante de Deus – o Profeta de uma nova Fé – e, através dessa exaltada posição, como o porta-voz do Criador.

Segundo: apesar dos Fundadores das grandes religiões falarem as verdades de Deus, os ensinamentos Bahá'ís de forma alguma misturam ou confundem esses Profetas com Deus. Para os Bahá'ís, a posição de Deus, muito acima de qualquer entendimento ou compreensão humana, estará sempre absolutamente incognoscível – e é por isso que Deus nos envia novos mensageiros como intermediários.

Aqui, Bahá'u'lláh refere a vasta distância que separa o Criador da criação:

“Quão desconcertante é para mim, insignificante que sou, tentar sondar as profundezas sagradas do Teu conhecimento! Quão fúteis os meus esforços para visualizar a magnitude do poder inerente à Tua obra - a revelação do Teu poder criador!” “Quando contemplo, ó meu Deus, a relação que me liga a Ti, sou levado a proclamar a todas as coisas criadas ‘em verdade, Eu sou Deus’; e quando considero o meu próprio ser, eis que o considero mais vulgar que o barro!” (citado por Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, p. 113)

Uma das formas místicas e metafóricas de entender a relação entre Deus e os Profetas envolve a relação do sol com um espelho – podemos ver o reflexo brilhante do sol num espelho perfeitamente polido, mas não podemos nem imaginar o poder daquele sol. 'Abdu'l-Bahá explica:

Vêde como o sol brilha sobre toda a criação, mas apenas as superfícies que são puras e estão polidas podem reflectir a sua glória e luz. A alma obscura não tem uma parte da revelação do esplendor glorioso da realidade; e o solo do ego, incapaz de aproveitar essa luz, não produz uma colheita. Os olhos do cego não conseguem ver os raios do sol; apenas os olhos puros com vista sã e perfeita os podem receber. As árvores vivas e verdejantes podem absorver a dádiva do sol; as raízes mortas e os ramos secos são destruídos por ela.

Por isso, o homem deve procurar aptidão e desenvolver prontidão. Enquanto ele for insensível às influências divinas, será incapaz de reflectir a luz e assimilar os seus benefícios. O solo estéril nada produz, mesmo que as nuvens da misericórdia derramem as suas chuvas sobre ele durante mil anos. Devemos tornar o solo dos nossos corações férteis e receptivos, lavrando-o, para que a chuva da misericórdia divina possa refrescá-lo e que produza rosas e jacintos do jardim celestial. Devemos ter olhos perspicazes para ver a luz do sol. Devemos limpar as narinas para podermos sentir as fragrâncias do jardim de rosas divino. Devemos tornar os nossos ouvidos atentos para escutar os chamamentos do Reino supremo. Por muito bela que seja a melodia, o ouvido surdo não pode escutá-la, não pode receber o chamamento da Assembleia Suprema. As narinas obstruídas pelo pó não podem inalar os odores perfumados das flores. Por isso, devemos sempre esforçar-nos em melhorar a nossa capacidade e presteza. Enquanto permanecermos insensíveis, as belezas e graças de Deus não nos podem atingir. (The Promulgation of Universal Peace, pp. 148-149)

Assim, quando Bahá'u'lláh pede à humanidade para “Magnificar a Minha causa” e “Fazer menção de Mim na Minha terra”, Ele na verdade pede a cada um de nós que promova e faça crescer o espírito de amor, unidade e harmonia de Deus neste mundo. Ele pede-nos para aprender que a proximidade com Deus acontece através da devoção, da unidade e do serviço aos outros. Ele quer que saibamos que podemos tornar-nos espelhos da luz do sol investigando a verdade, adquirindo virtudes e características humanas louváveis, e trabalhando pela causa da paz universal.

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Texto original: Make Mention of Me on My Earth (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 1 de abril de 2023

Pela imensidão do espaço

Por David Langness.


Ó FILHO DO HOMEM!
Se te fosses precipitar pela imensidão do espaço e atravessar a vastidão do céu, nem assim encontrarias descanso, salvo na submissão ao Nosso mandamento e na humildade perante a Nossa Face. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #41)

O nosso imenso universo contém tantos mistérios.

Na semana passada, eu e a minha esposa vimos um filme maravilhoso chamado Einstein e Eddington. Era sobre a relação entre o grande cientista alemão Einstein e seu colega britânico do qual provavelmente nunca ouviram falar, Sir Arthur Stanley Eddington. Ver este filme (uma produção conjunta da HBO e da BBC) fez-me querer saber mais e reacendeu o meu desejo nascente, mas persistente, de estudar física. Assim, fiz uma pequena pesquisa elementar e descobri que Eddington foi um verdadeiro cientista. Ele colaborou com Einstein na teoria da relatividade; tornou-se o primeiro a realmente provar que a gravidade desvia a luz; teorizou correctamente o primeiro entendimento verdadeiro sobre o que acontece dentro de uma estrela; e escreveu livros didáticos sobre física e astronomia que ainda hoje são usados.

Arthur Stanley Eddington
Eddington - Quaker, internacionalista, pacifista e objector de consciência durante a Primeira Guerra Mundial - também acreditava no que chamava visão idealista do mundo. O seu argumento científico, profundamente místico, é mais ou menos assim: tudo o que sabemos sobre o mundo objectivo é a sua estrutura, as coisas que podemos ver e medir. Mas a estrutura do mundo objetivo espelha precisamente a nossa própria consciência – o que significa que a realidade e a nossa consciência são uma realidade inseparável. Por outras palavras, pensou Eddington, não existe um “mundo real” separado da nossa mente consciente.

Perceberam?

Eu também não, mas acho isto fascinante. Tal como centenas de milhares de pessoas naqueles tempos anteriores à TV, aos jogos de vídeo e ao Facebook, que acorriam às palestras de Eddington, tornando-o imensamente popular entre o público na Inglaterra e noutros países. Eddington também escreveu e deu palestras sobre as implicações filosóficas e religiosas da nova física da relatividade e da teoria quântica. Escreveu livros populares, deu entrevistas para jornais e rádios e, em geral, fez a ligação, durante toda a sua vida, entre as fronteiras da ciência e as verdades mais significativas da fé. Tal como 'Abdu'l-Bahá quando visitou a Inglaterra uma década antes, Eddington proclamou a harmonia essencial entre a investigação científica e o misticismo religioso:

A religião e a ciência estão interligadas e não podem ser separadas. Estas são as duas asas com as quais a humanidade deve voar. Uma asa não é suficiente. Toda religião que não se preocupa com a ciência é uma mera tradição, e isso não é o essencial. Portanto, a ciência, a educação e a civilização são as necessidades mais importantes para a vida religiosa plena. ('Abdu'l-Bahá in London [1911], pp. 28-29)

Interpretar a religião do homem para a ciência do homem não apenas em termos mutuamente inteligíveis, mas mutuamente interdependentes, permanece, como acredito, a grande tarefa do nosso tempo se quisermos ver qualquer ordem estável nos eventos ou ter algum sentido consistente de experiência. (Eddington, The Gifford Lectures, 1927).

Como muitos físicos quânticos, o trabalho de Eddington levou-o às questões essencialmente espirituais do universo:

No sentido místico da criação ao nosso redor, na expressão da arte, no anseio por Deus, a alma eleva-se e encontra a realização de algo plantado na sua natureza. O desejo pela verdade tão proeminente na busca da ciência, um alargar do espírito do seu isolamento para algo mais além, uma resposta à beleza na natureza e na arte, uma Luz Interior de convicção e orientação! O espírito humano pertence ao mundo invisível. A alma alcança o mundo invisível. (Eddington, The Gifford Lectures, 1927).

Na frase citada das Palavras Ocultas, Bahá'u'lláh torna esta poderosa observação ainda mais profunda – “precipitar pela imensidão do espaço”, diz Ele, não daria descanso ao nosso espírito até que desenvolvêssemos “humildade perante a Nossa face”.

Bahá'u'lláh usa o pronome "Nosso" duas vezes neste aforismo místico. Ele quer dizer, presumivelmente, que Deus e os Profetas falam com uma única voz para a humanidade. Eles dizem-nos que nossa felicidade e descanso finais só podem vir quando começamos a ver além dos aspectos físicos da existência e a discernir a face de Deus em toda a criação. Assim, tal como a vastidão do céu nos olha com a sua imensidão quando olhamos para o universo, Deus olha para nós quando alcançamos interiormente o mundo invisível.

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Texto original: Speeding Through the Immensity of Space (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 17 de dezembro de 2022

A Encantadora Beleza de Deus

Por David Langness.
 

Ó FILHO DO HOMEM!
Não retires o Meu belo manto, nem abdiques da tua parte na Minha fonte maravilhosa, para que nunca mais tenhas sede.

Ó FILHO DO SER!
Segue nas Minhas leis, por amor a Mim, e nega a ti próprio o que desejas, se procuras o Meu prazer.

Ó FILHO DO HOMEM!
Não negligencies os Meus mandamentos, se amas a Minha beleza, nem te esqueças dos Meus conselhos, se quiseres alcançar a Minha complacência. (Bahá’u’lláh, As Palavras Ocultas, do árabe, #37, #38, #39)

Já alguma vez estiveram numa floresta de sequoias? Já subiram ao topo de uma montanha? Já caminharam no vale de Yosemite? Já voaram sobre o enorme oceano? Alguma vez encontraram um magnífico animal em repouso, viram uma baleia a nadar, ou um colibri iridescente a pairar?

Quem já teve uma destas experiências, ou qualquer outra coisa espetacular, inspiradora ou encantadora na natureza, então encontrou a beleza de Deus. Criado a partir de uma combinação perfeita de poeira das estrelas, do vento interestelar e dos gases que giram pelo universo, o nosso sol, esta terra encantadora e tudo o que nela existe vem de um Criador.

As escrituras Bahá’ís dizem-nos que Deus, o Criador, fez este reino físico:

Todo o louvor à unidade de Deus e toda a honra a Ele, o Senhor soberano, o Governante incomparável e todo glorioso do universo, Que do nada absoluto criou a realidade de todas as coisas, Que do nada trouxe para a existência os mais refinados e subtis elementos da Sua criação... (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, XXVII)

As escrituras Bahá’ís também nos dizem que o Criador incutiu um sinal do Seu conhecimento em todas as coisas:

Da fonte enaltecida e da essência da Sua graça e generosidade, Ele confiou a cada coisa criada um sinal do Seu conhecimento, de modo que nenhuma das Suas criaturas pudesse ser privada de expressar a sua parte desse conhecimento, cada uma de acordo com a sua capacidade e condição. Este sinal é o espelho da Sua beleza no mundo da criação. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXIV)

Todo o esplendor avassalador que podemos ver num magnífico pôr-do-sol, numa cordilheira acidentada ou nas misteriosas profundezas do oceano, diz Bahá’u’lláh, reflecte a "beleza de Deus no mundo da criação".

Estas três citações das Palavras Ocultas focam-se no amor a essa beleza inspiradora e na sua fonte.

Os Bahá'ís acreditam que o mundo físico apenas reflecte vagamente a verdadeira beleza espiritual do seu Criador. Ainda mais importante, os ensinamentos Bahá'ís dizem que o propósito de toda a beleza da criação física é o “conhecimento Daquele que é a Verdade Eterna”:

...quando as almas santificadas rompem os véus de todos os apegos terrenos e condições mundanas, e se apressam para o estado de contemplação da beleza da Presença Divina, e recebem a honra de reconhecer o Manifestante, e são capazes de testemunhar o esplendor do Mais Grandioso Sinal de Deus nos seus corações, então o propósito da criação, que é o conhecimento d’Aquele que é a Verdade Eterna, torna-se manifesto. (Baha’u’llah, The Kitab-i-Aqdas, p. 176)

Assim, na próxima vez que virem uma cena natural maravilhosa, cativante e inspiradora, lembrem-se do seu propósito – reflectir o conhecimento e a beleza de Deus.

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Texto original: Loving God’s Beauty (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.