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sexta-feira, 19 de abril de 2019

Ridvan e Páscoa

Por Preethi.


Este ano, a celebração da Páscoa coincide com o Ridvan. O que é que a Páscoa tem a ver com o Ridvan, poderíamos perguntar. Na verdade, à primeira vista, parece não haver qualquer ligação entre estas duas celebrações. Mas ao longo dos últimos dias, dei por mim a ler sobre a perspectiva Bahá’í referente aos eventos que os Cristãos celebram durante a Páscoa, e percebi que se retirarmos as tradições e rituais que se tornaram sinónimos de Páscoa, então o verdadeiro significado da Páscoa está muito próximo do significado do Ridvan.

Para os Cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus três dias após a Sua crucificação na Sexta-Feira Santa. Como fui criada numa família Cristã, lembro-me de ler histórias da Bíblia que falavam da profunda dor e perda que os discípulos sentiram após a Sua crucificação. Uma das minhas histórias favoritas é sobre Maria Madalena, que estava a chorar em frente ao túmulo vazio de Jesus.

11 E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro.
12 E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.
13 E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.
14 E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus.
15 Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.
16 Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni (que quer dizer, Mestre).
17 Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai: mas vai para os meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.
18 Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira o Senhor, e que ele lhe dissera isto.
(Jo 20:11-18)

Nós, Bahá’ís, entendemos a história da ressurreição como uma alegoria espiritual e não uma verdade literal. ‘Abdu’l-Bahá explica o significado da história bíblica no livro “Respostas a Algumas Perguntas”:

... Após o martírio de Cristo, os Apóstolos ficaram perplexos e assustados. A realidade de Cristo, que consiste nos Seus ensinamentos, nas Suas bênçãos, nas Suas perfeições e no Seu poder espiritual, ficou oculta e desapareceu durante dois ou três dias após o Seu martírio, e não teve aparecimento ou manifestação externa - de facto, era como se estivesse totalmente perdida. Pois aqueles que verdadeiramente acreditavam eram poucos em número, e mesmo esses estavam perplexos e assustados. A Causa de Cristo era, pois, como um corpo sem vida. Após três dias, os Apóstolos tornaram-se firmes e decididos, levantaram-se para ajudar a Causa de Cristo, resolveram promover os ensinamentos divinos e praticar os conselhos do seu Senhor, e esforçaram-se por servi-Lo. Então a realidade de Cristo tornou-se resplandecente, a Sua graça brilhou, a Sua religião encontrou uma nova vida, e os Seus ensinamentos e conselhos tornaram-se manifestos e visíveis. Por outras palavras, a Causa de Cristo, que era como um corpo sem vida, despertou para a vida e ficou rodeada pela graça do Espírito Santo. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newlyrevised edition, pp. 117)

Não é difícil imaginar a dor que os primeiros seguidores dos Manifestantes de Deus devem ter sentido quando testemunharam o sofrimento infligida a esses Mensageiros Divinos. Em cada Dispensação, temos histórias sobre como estes seguidores se sentiram quando se separaram do Manifestante, e não sabiam o que fazer. Isto não foi diferente no tempo de Bahá’u’lláh.

Após o martírio do Báb e a perseguição contra a comunidade Bábi, o exílio de Bahá’u’lláh – que era visto pelos Bábis como o líder da sua comunidade – entristeceu e perturbou profundamente os Bábis. Tal como os discípulos de Cristo após a crucificação, devem ter considerado todos aqueles acontecimentos como um golpe fatal na sua Causa e ficaram sem saber o que fazer.

No entanto, no jardim de Ridvan – tal como três dia após a crucificação de Jesus – a dor que os Babis devem ter sentido ao despedirem-se de Bahá’u’lláh deve-se ter transformado em alegria inimaginável ao saberem que Bahá’u’lláh tinha anunciado ser “Aquele que Deus tornará manifesto”.

A Páscoa, tal como o Ridvan, é, portanto, uma celebração do triunfo da Causa divina - onde a dor é transformada em alegria e a perseguição em vitória. E agora que iniciamos a celebração dos 12 dias do Festival de Ridvan, desejamos uma Páscoa feliz a todos os nossos amigos Cristãos!

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Texto original: Ridvan and Easter (www.bahaiblog.net)

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Na sua vida profissional, Preethi tem-se envolvido em áreas como a educação, o desenvolvimento comunitário e o direito. No entanto, no seu coração, ela é uma criança que vê o mundo como um enorme parque de brincadeiras. Actualmente está a desenvolver um projecto educativo para levar histórias e culturas do mundo aos jovens, com recursos no One Story Classroom.

sábado, 24 de março de 2018

Uma Aliança eterna com Deus

Por David Langness.


Em todas as religiões, Deus faz uma promessa à humanidade.

Quando, no Antigo Testamento, Deus fala a Moisés, essa promessa explícita tem a seguinte forma:
E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade particular entre todos os povos, porque é minha a terra inteira. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Estas são as palavras que transmitirás aos filhos de Israel. (Êxodo, 19: 5-6)
Designada como Aliança Mosaica, Deus deu a Moisés os Dez Mandamentos e, por Seu lado, exigiu que as pessoas concordassem em adorar um único Criador e obedecessem àquelas leis morais. No Novo Testamento da Bíblia, surge um pacto semelhante entre Deus e a humanidade, a que os Cristãos chamam Nova Aliança:
Se, na verdade, a primeira fosse perfeita, não haveria lugar para a segunda. De facto, censurando-os, diz: Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que farei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova, não como a aliança que fiz com os seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os fazer sair do Egipto; porque eles não permaneceram na minha aliança, também Eu me desinteressei deles - diz o Senhor. Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, depois daqueles dias. Diz o Senhor: Porei as minhas leis na sua mente e as imprimirei nos seus corações; serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Ninguém ensinará o seu próximo nem o seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor’; porque todos me conhecerão, do mais pequeno ao maior, pois perdoarei as suas iniquidades e não mais me lembrarei dos seus pecados. Ao falar de uma aliança nova, Deus declara antiquada a primeira; ora, o que se torna antiquado e envelhece está prestes a desaparecer. (Hebreus 8:7-13)
Podemos encontrar a visão Cristã elementar da Nova Aliança no Evangelho de João; Jesus Cristo inicia esse pacto na Última Ceia, dando um novo mandamento - "o décimo primeiro":
Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (João 13:34-35)
No Islão, o conceito de aliança aparece novamente, distinguindo a fé da hipocrisia e pedindo aos fiéis que mantenham as suas promessas de cumprir os mandamentos de Deus:
Em verdade, Deus pede-vos que façam justiça e bem, e dêem aos familiares (o que é devido), e Ele proíbo-vos de pecar, fazer o mal e de oprimir; Ele adverte-vos para que possais estar atentos!

Obedecei à aliança de Deus com que vos comprometeste, e não quebreis os vossos juramentos depois de os afirmar, porque assim tereis a Deus como vossa garantia; em verdade, Deus sabe o que fazeis. (Alcorão 16:90-91)
Os ensinamentos Bahá’ís levam o conceito de aliança ainda mais longe, associando-a directamente ao alcançar de uma existência eterna:
Hoje, o poder vibrante nas artérias do corpo do mundo é o espírito da Aliança - o espírito que é a causa da vida. Quem for vivificado com este espírito, manifestará a frescura e a beleza da vida, estará baptizado com o Espírito Santo, nascerá de novo, estará libertado da opressão e da tirania, da negligência e da dureza que enfraquece o espírito, e alcançará vida eterna. Louvado seja Deus, pois estás firme na Aliança e no Testamento, e volves o teu rosto para o Luminar do mundo, Sua Alteza, Bahá’u’lláh. ('Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 6, pp. 263-264)
Os Bahá'ís acreditam que existe - e sempre existiu - apenas uma Aliança eterna. Todos os profetas de Deus renovam essa Aliança permanente de maneira diferente, mas todos se ligam numa corrente progressiva de revelações sucessivas. Para distinguir as diferentes versões dessa Aliança, designamo-las como aliança de Abraão, a aliança de Moisés, a nova aliança de Cristo ou a aliança de Maomé; mas, na realidade, Deus apresenta-nos a mesma aliança em cada nova dispensação religiosa. Ele promete nunca deixar a Sua criação sem a Sua sabedoria e orientação.

Conhecemos esta aliança permanente por muitos nomes. No Génesis, a história de Adão e Eva e o Jardim do Éden descreve a história da aliança, tal como a narrativa de Noé e o Dilúvio. A Arca de Noé representa a aliança, e a aliança de Noé com Deus - que inclui uma promessa de nunca mais destruir toda a vida na Terra - usa um arco-íris como símbolo desse acordo eterno. No Cristianismo, Jesus fez uma aliança com os Seus seguidores para se dirigirem para Pedro, "a rocha" base da Sua igreja. No Islão, a famosa narrativa de Fama-Gadeer ordena aos seguidores de Maomé para se dirigirem ao seu sucessor Ali. Na Fé Bahá'í, a aliança de Bahá’u’lláh - que promete uma revelação posterior, e nomeia ‘Abdu’l-Bahá como intérprete autorizado e exemplo dos Seus ensinamentos - pede a cada crente que se dirija fielmente a esse Centro da Aliança para orientação e inspiração.

Visto nesta perspectiva contínua e perpétua, os ensinamentos Bahá’ís dizem-nos que a nossa actual aliança com Deus representa a fonte inspiradora e espiritual de progresso e ordem no mundo:
A Aliança é um Orbe que brilha e resplandece para o universo. Em verdade, as suas luzes dissiparão a escuridão, o seu mar lançará a espuma da dúvida sobre as praias da perdição. Em verdade, nada no mundo pode resistir ao poder do Reino. Se toda a humanidade se unisse, poderia impedir que o sol desse a sua luz, que os ventos soprassem, que as nuvens dessem chuva, que as montanhas fossem firmes ou que as estrelas brilhassem? Não! Pelo Senhor, o Clemente. Tudo (no mundo) está sujeito à corrupção, mas a Aliança do teu Senhor continuará a permear todas as regiões. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 170)

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Texto original: One Continuous Covenant with God (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 4 de março de 2017

Pode alguma Religião ter o Exclusivo da Verdade?

Por David Langness.


Muitas e diversificadas instituições religiosas afirmam ter acesso exclusivo à verdade - como podem estar todas certas?

Quando eu era criança - cresci numa denominação protestante que proclamava a sua verdade cristã exclusiva - fiz essa mesma pergunta. Quando o meu ministro Luterano disse que somente os Luteranos possuíam o verdadeiro e autêntico entendimento de Cristo e um amigo meu católico me disse que o padre lhe tinha dito exactamente a mesma coisa sobre a Igreja Católica, isso deixou-me ainda mais confuso. Então, perguntei ao meu ministro: "Porque é que a nossa religião diz que está certa e todas as outras religiões estão erradas?" Eu apenas não conseguia entender como aquilo podia fazer algum sentido.

O meu ministro levou-me para um local à parte e contou-me uma história longa e complicada sobre o papado e a corrupção da Igreja na Idade Média e o seu afastamento dos verdadeiros ensinamentos de Cristo e do aparecimento de Martinho Lutero; percebi algumas coisas mas não percebi a maioria do que ele disse (eu só tinha 8 anos!) Basicamente, entendi a essência do seu argumento: "Nós estamos certos e os outros estão todos errados." Isso não parecia possível; mas, sendo criança, esforcei-me para tentar aceitar isso.

Quando voltei a encontrar o meu amigo católico, contei-lhe o que o meu ministro tinha dito. Escusado será dizer que ele não aceitou muito bem. Na verdade, ele tentou bater-me e deixamos de ser amigos naquele dia.

Sem o saber, naquela tenra idade, eu tinha tropeçado na raiz causadora da maioria de desavenças, conflitos e guerras religiosas: as pretensões ao exclusivismo da verdade. À medida que crescia, comecei a ver esse mesmo exclusivismo a manifestar-se em todos os tipos de fronteiras religiosas e entre quase todas as seitas, denominações e religiões que eu encontrava. Isso levou-me a antipatizar activamente com a religião, porque via como aquelas pretensões de verdade exclusiva criavam divisões entre as pessoas e hostilidades entre elas.

Depois, quando era adolescente, decidi ver se conseguia encontrar uma fé que não tivesse pretensões ao exclusivismo da verdade. Perguntei-me se existiria um tal sistema de crenças, mas estava determinado a procurar.

Gastei um pouco de tempo e energia a investigar o Budismo Zen, o Hinduísmo e muitas outras religiões orientais. Pareciam ter maior compreensão e tolerância para com outras religiões, mas quando chegava ao fundo da questão até mesmo os budistas e hindus reivindicavam alguma exclusividade. "Se alguém não segue o Caminho Óctuplo de Buda", disse-me um amigo budista, "ele irá repetir o ciclo de sofrimento infinitamente."

Foquei-me no Judaísmo e conheci almas maravilhosas; mas aquele ensinamento do "povo eleito de Deus" parecia bastante exclusivista. Estudei o Islão, mas as mesquitas que visitei também me pareceram exclusivistas, especialmente com a sua ênfase no "povo do livro", o que significava que o Islão só reconhecia as religiões abraâmicas.

Depois, procurei algumas igrejas cristãs mais liberais, como os Unitários-Universalistas, e descobri que a maioria delas não tinha pretensões de exclusividade. Isso parecia promissor. A maioria dos Unitaristas que conheci tinha uma compreensão ampla e ecuménica da fé; mas as igrejas que eu frequentava também pareciam aceitar qualquer coisa que alguém quisesse acreditar, e isso também não me pareceu satisfatório. Eu queria uma religião verdadeira.

Também percebi gradualmente que muitas dessas denominações não tinham muita diversidade. Elas pareciam atrair os mesmos tipos e classes de pessoas, o que me frustrava - eu queria encontrar uma Fé que recebesse toda a gente, que não tivesse reivindicações exclusivas, nem políticas exclusivas de adesão.

Assim, após vários anos nessa busca contínua pela inclusão, decidi que iria praticar as minhas próprias crenças pessoais como eu achasse conveniente, aceitando os belos ensinamentos espirituais de todas as tradições que eu tinha encontrado e rejeitando aqueles que não gostava. Por fim, esse caminho também não me satisfazia muito, porque não oferecia nenhuma comunidade, nenhum encontro, nenhuma unidade. Descobri que nós, seres humanos, podemos ter as nossas próprias crenças individuais; mas a menos que possamos reunir-nos em grupo, essas religiões solitárias e individuais jamais poderiam realizar muito ou inspirar muito.

Entretanto, enquanto estudava e tentava entender todas essas tradições, algo surgiu gradualmente em mim. As afirmações de verdade de todas essas diferentes religiões, conforme as examinei de perto, revelaram-se pequenas variações de verdades maiores e mais universais. Quanto mais olhava, mais encontrava semelhanças e paralelismos entre todas as tradições de fé. Parecia haver um conjunto comum de princípios e um fio comum de verdade espiritual em cada uma das religiões que eu tinha investigado. Claro, que as suas práticas e rituais diferiram, mas no seu núcleo encontrei algumas das mesmas verdades. Rapidamente, percebi que essa percepção não era apenas minha, e que muitas pessoas já a tinham descoberto. Chamava-se perenialismo: reconhece a comunhão e a convergência de todos os verdadeiros ensinamentos espirituais e tradições.

Nesse momento encontrei a Fé Baha'i, e descobri o que procurava:
... "Há tantos caminhos para Deus quanto o número de Suas criaturas!"

Um professor deve conhecer estas estradas e esforçar-se para entrar em contacto compreensivo com os peregrinos cansados que se esforçam ao longo de cada estrada, e pouco a pouco ensinar-lhes que aquilo a que eles chamam estrada não é uma estrada, mas um caminho duro e inexplorado que conduz às selvas, aos desertos e aos precipícios. Quando estiverem preparados, ele poderá então gritar em voz alta: "Ó homens! Apareceu a Estrada do Senhor dos Exércitos. A Grande Avenida do Reino de Deus está pavimentada. Vejam! Observem!"

Há muitas pessoas que abandonaram os seus caminhos e estão a caminhar ao longo desta Via Celestial.

Vocês não os vêem? Não estão a aprender com o exemplo deles? Abram os olhos! Vejam! Vejam! Quantas comitivas de pessoas de tantas nacionalidades se aglomeram no Caminho Dourado do Reino!

Eles marcham sem parar, e a cada passo aproximam-se do objectivo. O seu caminho está cheio de lírios de amor e os jacintos de afecto... e nos seus lábios há cânticos de acção de graças e os hinos de glorificação. Escutem! Escutem! Agora eles estão a cantar suavemente, murmuram harmoniosamente e em breve vão erguer as suas vozes, entusiasmadas e inspiradas com regozijo e felicidade. Não será melhor para ti, meu irmão, minha irmã, abandonar esse teu cominho estreito onde crescem espinhos de dogmas e ervas daninhas de crenças, e caminhar sobre este Caminho largo e brilhantemente iluminado do Reino? Aqui desfrutareis a companhia de homens e mulheres espirituais que deram tudo para servir o seu Deus e o mundo da humanidade. Este momento de ouro está a terminar; esta oportunidade divina está a passar. Aproveitem! (‘Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 4, p. 141)
Soube que a Fé Bahá'í não reivindica exclusividade. Em vez disso, ensina que todas as religiões vêm da mesma fonte e reflectem as mesmas verdades espirituais essenciais. Tinha encontrado o meu lar.

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Texto original: Can Any Religion Claim the Exclusive Truth? (www.bahaiteachings.org)

Artigo seguinte: Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?
Artigo anterior: Estaremos a viver num Mundo “Pós Verdade”?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Quantos são os caminhos para Deus?

Por David Langness.


Quantos são os caminhos para Deus? Há tantos caminhos para Deus quantas as almas na Terra. (Rumi)
Provavelmente, a maioria das pessoas concordará que cada um de nós molda o seu próprio caminho para Deus, tal como Rumi sugeriu. Além disso, a maioria também concordará que os muitos e diversificados caminhos religiosos têm, pelo menos, alguma validade.

Mas nem toda a gente pensa assim. Algumas pessoas discordam profundamente, afirmando que a sua religião - ou o seu caminho particular - é o único caminho para alcançar a salvação, ou a espiritualidade, ou qualquer verdadeira iluminação; e acrescentam que todos os outros caminhos para Deus são falsos.

E o leitor? Em qual dessas perspectivas acredita?

Se você favorecer a perspectiva de Rumi, então é o que se chama pluralista religioso. Pode nunca ter ouvido nunca a expressão ou pensado em si nesta forma; mas veja estas definições de pluralismo para ver se elas reflectem aquilo que pensa e acredita:
Pluralismo: Vários grupos étnicos, religiosos, etc. coexistindo numa nação ou sociedade.

Pluralismo religioso: Uma perspectiva da fé geralmente caracterizada pela humildade em relação ao nível de verdade e eficácia da própria religião, e aos objectivos de diálogo respeitoso e compreensão mútua com outras tradições.
Ultimamente, os filósofos e os teólogos tendem a agrupar cada vez mais as pessoas de fé em três categorias distintas de crença: pluralistas, exclusivistas e inclusivistas.

O autor britânico e teólogo anglicano Alan Race, apresentou este conceito de três categorias em 1983. Sendo um conhecido defensor do entendimento e das actividades inter-religiosas, escreveu:
Os estudos religiosos estão a corrigir as nossas visões estereotipadas sobre as outras religiões; o princípio ético de respeito nas relações com os nossos vizinhos exige que aprendamos com as outras religiões; o diálogo abre a porta para uma "comunhão crítica" com outras religiões...
Então, antes de explorarmos esta nova ideia, vamos definir o que significam as duas outras abordagens de fé:

Exclusivista: pessoa religiosa que acredita que apenas um conjunto de crenças, ou práticas, pode ser, em última instância, verdadeira ou correcta, e todas as outras estão erradas.

Inclusivista: pessoa religiosa que acredita que um conjunto de crenças é absolutamente verdadeiro, mas que outros são, pelo menos, parcialmente verdadeiras.

Resumindo:

  • Se você acredita que a sua religião é a verdade absoluta e que todas as outras são falsas, você é um exclusivista.
  • Se você acredita que sua religião é a mais verdadeira, mas que as outras também possuem alguma verdade, você é um inclusivista.
  • Se você acredita que sua religião é verdadeira, mas não a fonte exclusiva da verdade, e que as múltiplas crenças religiosas podem e devem coexistir no mundo, você é um pluralista.

Como é que o leitor se classifica?

Os Bahá’ís são pluralistas - na verdade, os Bahá’ís vão além do pluralismo religioso. Os ensinamentos Bahá’ís transcendem a tolerância e o pluralismo e defendem a unidade religiosa:
O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh - acreditam firmemente os seguidores de Sua Fé - é que a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa; que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo; que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina; que os seus princípios básicos estão em completa harmonia; que os seus objectivos e propósitos são um e o mesmo; que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade; que as suas funções são complementares; que diferem apenas nos aspectos não essenciais das suas doutrinas; e que as suas missões representam etapas sucessivas na evolução espiritual da sociedade humana. (Shoghi Effendi, The Baha’i Faith – The World Religion, A Summary of Its Aims, Teachings and History, presented to the United Nations, 1947)
Os Bahá’ís não pensam apenas na religião de forma pluralista - eles pensam na religião como uma entidade única, como um fluxo contínuo de revelação, como "facetas de uma verdade:"
As religiões divinas devem ser motivo de unidade entre os homens e instrumentos de unidade e de amor; devem promulgar a paz universal, libertar o homem de todo o preconceito, dar alegria e regozijo, exercitar bondade para com todos os homens e acabar com todas as diferenças e distinções. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #13)
Mas como podem as várias religiões - tantas vezes em desacordo umas com as outras - tornar-se sempre "motivo da unidade entre os homens" e "acabar com todas as diferenças e distinções?"

Nesta série de ensaios sobre o pluralismo religioso, vamos ver como os ensinamentos Bahá’ís se propõem resolver este antigo dilema humano.

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Texto original: How Many Paths to God? (www.bahaiteachings.org)

Artigo seguinte: Estaremos a viver num Mundo “Pós Verdade”?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Paris, U2, e “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True”

Por David Langness.


Nesta nova e maravilhosa dispensação os véus da superstição foram rasgados e os preconceitos dos povos orientais estão condenados. Entre certas nações do Oriente, a música era considerada repreensível, mas nesta nova era a Luz Manifesta, nas suas sagradas Epístolas, proclamou especificamente que a música, cantada ou tocada, é alimento espiritual para a alma e coração. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #74)
Quem foi ao recente concerto dos U2 no AccorHotel Arena, em Paris, juntamente com 20.000 de seus melhores amigos, ou viu o concerto na televisão em qualquer lugar do mundo, teve a oportunidade de viver um momento verdadeiramente notável. Muito mais do que apenas concerto de rock, esta actuação usou o poder da música para espalhar a verdade sobre a unicidade da religião.

Tudo começou a acontecer quando U2 tocaram os seus comoventes hinos à paz, igualdade e liberdade com paixão e vigor. Os concertos da banda em Paris, originalmente programados para começar no dia seguinte aos ataques de 13 de Novembro, assumiram uma nova e simbólica importância, com o seu regresso desafiador.

Os nomes de todas as vítimas dos atentados de Novembro foram projectados num
enorme ecrã onde se viam as cores da bandeira francesa e um símbolo da paz.
Bono criou a dinâmica ao falar (em francês e inglês) entre as músicas, sobre a tragédia dos ataques terroristas de Paris. "Somos todos parisienses", afirmou. E acrescentou que o terrorismo não pode parar a música e que tínhamos de transformar o medo em amor.

O entusiasmo e a intensidade na arena aumentaram ainda mais quando a banda tocou o tema icónico "Pride: In the Name of Love", sobre Martin Luther King, Jr. e outros defensores da liberdade. A canção foi um hino de homenagem às 130 pessoas que morreram nos ataques de Paris, ao mostrar os nomes de cada vítima num enorme ecrã de vídeo, juntamente com os símbolos da paz e do amor.

A multidão ovacionou, obviamente inspirada pela solidariedade que sentia.

Então Bono surpreendeu todos os presentes quando teve a coragem de dizer: "Nós estamos com aqueles cujas vidas foram dilaceradas por uma ideologia que é uma perversão da bela religião do Islão."

E continuou: "Tanto quanto sei, o Islão significa ‘submissão’". E então pediu à multidão para alargar a sua simpatia e orações às famílias e parentes dos próprios terroristas, "por muito difícil que isso seja".

Esse momento unificador lembrou concertos dos U2 após os ataques terroristas do 11 de Setembro nos Estados Unidos e depois dos atentados de 2005 em Londres, quando Bono usou a faixa "Coexist" no cenário do palco, e num apelo à unidade religiosa, cantou “Jesus, Jew, Muhammad, it’s true. All sons of Abraham. Father Abraham, speak to your sons. Tell them ‘No More!’” ("Jesus, Judeu, Maomé, é verdade. Todos os filhos de Abraão. Pai Abraão, fala aos seus filhos. Diz-lhes 'Nunca Mais!'")

Membros da banda U2 colocaram flores junto ao Bataclan,
numa homenagem às vítimas dos atentados de Paris.
Para os Bahá'ís, a declaração de Bono tem um nível especial de percepção, não só sobre a descendência de Abraão, mas sobre a ligação progressiva de todas as religiões:
... os descendentes de Abraão receberam a bênção especial de todos os Profetas da Casa de Israel terem surgido no seu seio. Isto é uma bênção que Deus concedeu a essa linhagem. Moisés, tanto através do Seu pai e da Sua mãe; Cristo, através da Sua mãe; Maomé; O Bab, e todos os profetas e os Santos de Israel pertencem a essa linhagem. Também Bahá'u'lláh é descendente directo de Abraão, pois Abraão teve outros filhos além de Ismael e Isaac, que naqueles dias emigraram para as regiões da Pérsia e Afeganistão, e a Abençoada Beleza [Bahá'u'lláh] é um dos seus descendentes. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 246-247)
Depois veio o final, uma apoteose musical inspiradora em que os membros do público e da banda cantaram a plenos pulmões, com uma vontade profunda que o amor, a alegria e a música triunfem sobre o medo.

Há pouco mais de cem anos atrás, em Paris, a cidade dos corações, ‘Abdu'l-Bahá fez soar o apelo unificador da Fé Bahá'í, agora transmitido para todo o mundo:
Todos os Profetas de Deus vieram por amor a este único e grande objectivo.

Vede como Abraão se esforçou para trazer a fé e o amor entre o povo; como Moisés tentou unir o povo através de leis sólidas; como o Senhor Cristo sofreu a morte para levar a luz do amor e da verdade a um mundo em trevas; como Maomé tentou conseguir a unidade e a paz entre as várias tribos incivilizadas com quem Ele habitava. E por fim, Bahá'u'lláh sofreu quarenta anos pela mesma causa - o propósito nobre e único de espalhar o amor entre os filhos dos homens - e para a paz e a unidade do mundo o Bab deu a Sua vida.

Assim, esforçai-vos para seguir o exemplo destes Seres Divinos, bebei da Sua fonte, iluminai-vos com a Sua luz, e sede para o mundo como símbolos da Misericórdia e do Amor de Deus. Sede para o mundo como chuva e nuvens da misericórdia, como sóis da verdade; sede um exército celestial, e, na verdade, conquistareis a cidade de corações. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 171-172)
Por vezes é necessário partilhar experiências culturais e emocionais como esta para entender que a sociedade pode realmente reencontrar-se em amor, perdão, compaixão espiritual e unidade.

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Texto original: Paris, U2, and “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True” (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Porque Sofremos? (1ª parte)

Primeira parte de uma apresentação dedicada ao tema "Porque Sofremos?"

Conteúdo:
- Algumas questões possíveis sobre "Sofrimento";
- Perspectivas das grandes religiões Mundiais sobre o Sofrimento;
- O Sofrimento durante o Iluminismo.