Mostrar mensagens com a etiqueta Cristianismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cristianismo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de julho de 2026

O Pão, o Vinho e o Significado da Metáfora

Por John Hatcher.

O que acontece quando não percebemos as metáforas na religião?

Um exemplo dos resultados desastrosos de não reconhecer o processo metafórico presente na natureza dos mensageiros de Deus está evidente nas amplas consequências da votação realizada no Concílio de Niceia em 325 d.C. Os seguidores de Atanásio, um teólogo e eclesiástico egípcio, afirmavam que Cristo e Deus eram a mesma essência. Os seguidores de Ário, um sacerdote cristão de Alexandria, acreditavam que Cristo era essencialmente inferior a Deus e fora enviado para cumprir a vontade divina.

Após um debate aceso, foi realizada uma votação — e Ário perdeu.

A instituição da igreja aprovou a teologia de Atanásio, condenou como heresia as ideias de Ário e, efectivamente, separou-se para sempre dos ensinamentos fundamentais de Cristo. Como Muhammad afirmou aos cristãos trezentos anos mais tarde, equiparar Cristo a Deus é acrescentar deuses a Deus — em suma, acreditar em mais do que um Deus, como faziam os idólatras do tempo de Muhammad.

Infiéis são aqueles que dizem: “Deus é o Messias, Filho de Maria”; pois o Messias disse: “Ó filhos de Israel! Adorai a Deus, meu Senhor e vosso Senhor”. Quem associar outros deuses a Deus, Deus proibir-lhe-á o Paraíso, e a sua morada será o Fogo; e os ímpios não terão quem os ajude. (Alcorão 5:76)

O uso da metáfora é também a chave para perceber o significado dos actos físicos dos Mensageiros, os Manifestantes de Deus. Uma vez que nenhum dos profetas aspira à autoridade ou ao domínio material, qualquer expressão de poder material por parte deles tem, claramente, uma importância limitada. Ao curar os doentes, Cristo não estava a tentar livrar a terra das doenças nem a demonstrar uma técnica médica inovadora. 'Abdu'l-Bahá explica que os actos milagrosos dos Mensageiros de Deus têm como finalidade primordial a dramatização metafórica ou analógica de uma verdade espiritual:

Estes milagres exteriores não têm qualquer importância para os seguidores da verdade. Por exemplo, se um cego for curado, no fim perderá novamente a visão, pois morrerá e ficará privado de todos os seus sentidos e faculdades. Assim, curar um cego não tem importância duradoura, dado que a faculdade da visão se perderá inevitavelmente de novo. E se um corpo morto for ressuscitado, o que se ganha com isso, uma vez que voltará a morrer? O importante é conceder a verdadeira compreensão e a vida eterna, isto é, uma vida espiritual e divina…

Considere que Cristo considerou mortos aqueles que, no entanto, estavam exterior e fisicamente vivos; pois a verdadeira vida é a vida eterna e a verdadeira existência é a existência espiritual. Assim, se as Sagradas Escrituras falam da ressurreição dos mortos, o significado é que eles alcançaram a vida eterna; se dizem que um cego passou a ver, o significado dessa visão é a verdadeira compreensão; se dizem que um surdo passou a ouvir, o significado é que adquiriu um ouvido interior e alcançou a audição espiritual...

O nosso objectivo não é afirmar que os Manifestantes de Deus são incapazes de realizar milagres, pois isso, de facto, está dentro do Seu poder. Mas o que importa e tem importância aos Seus olhos é a visão interior, a audição espiritual e a vida eterna. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 114-115)

Existe também uma tentação óbvia, por parte dos seguidores dos Manifestantes de Deus, em adorá-Lo por causa daquilo que percebem como acções físicas impressionantes ou milagrosas. Ao fazê-lo, percebem-No como uma figura de poder temporal em vez de autoridade espiritual. É compreensivelmente mais fácil para alguns seguidores sentirem-se atraídos pelo veículo — as personalidades dos Manifestantes ou os actos literais que realizam — do que reconhecer a semelhança entre estes veículos e as forças e atributos espirituais que metaforizam para nós.

Um dos exemplos mais óbvios desta percepção errada, para além do apego quase inevitável à figura física do mensageiro, é o episódio em que Cristo multiplica os pães e os peixes. Depois de realizar o milagre de alimentar a multidão com apenas cinco pães de cevada e dois peixes, as pessoas convenceram-se subitamente de que Ele era um profeta. Quando Cristo percebeu que o queriam levar à força e fazê-Lo rei, fugiu para as montanhas. Explicou o motivo da Sua acção aos Seus discípulos no dia seguinte, quando O encontraram do outro lado do Mar da Galileia:

«Em verdade, em verdade vos digo: procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna e que o Filho do Homem vos dará; pois foi a Ele que Deus, o Pai, marcou com o seu selo». (Jo 6:26)

Quando as pessoas não conseguiram compreender o significado metafórico ou a importância intrínseca do acto de Cristo e quiseram tornar-se Seus seguidores por causa do milagre que Ele parecia ter feito, Ele ficou inconsolável e deixou-as. A importância que dava à compreensão do significado " intrínseco" das suas acções materiais é ainda mais evidente na paciência com que continuou a Sua explicação:

Os nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: «Deu-lhes a comer pão do céu». Disse-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés que vos deu o pão do céu; o meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é o que desce do céu e dá a vida ao mundo». Disseram-lhe, então: «Senhor, dá-nos sempre esse pão!». Jesus replicou-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a mim jamais terá fome; quem acredita em mim jamais terá sede. (Jo 6:31-35)

Se pensarmos que Cristo se alonga na imagem do pão do céu, estamos enganados. Mesmo quando repete e amplia a metáfora, os judeus não compreendem a intenção metafórica das Suas acções ou das Suas palavras:

Eu sou o pão vivo que desceu do céu: se alguém comer deste pão, viverá para sempre. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo». Altercavam, então, os judeus entre si, dizendo: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?» (Jo 6:51-52)

Criados numa tradição religiosa legalista, muitos judeus tinham dificuldade em compreender ensinamentos transmitidos através de metáforas, embora os seus próprios ensinamentos e rituais tivessem origem na expressão simbólica ou metafórica de conceitos espirituais.

Assim, num sentido muito real, as acções e os métodos de ensino de Cristo visavam precisamente romper com o literalismo do seu público principal, o povo judeu. Ele ensinava-os a pensar “espiritualmente” ou metaforicamente, a perceber o significado intrínseco das Suas palavras e das Suas próprias Escrituras, bem como o significado subjacente às formas exteriores das suas práticas religiosas. Por exemplo, um dos actos simbólicos mais poderosos realizados por Cristo tornou-se para os cristãos o sacramento mais importante, o sacramento da Eucaristia.

Como uma das Suas últimas acções entre os Seus discípulos, Cristo empregou mais uma vez a metáfora ou o símbolo da nutrição ao falar da imagem do vinho e do pão na Última Ceia:

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei: isto é o meu corpo». Depois tomou um cálice, deu graças e deu-lho, dizendo: «Bebei todos dele, pois isto é o meu sangue da aliança, derramado por muitos para o perdão dos pecados. (Mt 26:26-28)

Neste caso, uma metáfora verbal não foi suficiente. Cristo fez com que os Seus próprios discípulos encenassem a metáfora. E, no entanto, apesar da clareza deste exercício de ensino, a igreja cristã do século XIII adoptou a doutrina da transubstanciação — a crença de que o vinho e o pão, quando benzidos pelo sacerdote, se transformam literalmente no sangue e no corpo de Cristo (embora existam variações na explicação desta doutrina).

-----------------------------
Texto original: The Bread, the Wine, and the Meaning of the Metaphor (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

sábado, 27 de junho de 2026

Porque devemos memorizar os versículos de Deus?

Por Jennifer Boles.


Sinto-me profundamente abençoada pelas minhas irmãs Bahá’ís. Graças a uma conversa recente que tivemos durante o nosso encontro devocional, Deus recordou-me como e por que razão, na minha jornada, a memorização das Escrituras bíblicas tem sido fundamental na minha vida. A Sua Palavra, que nos foi revelada em cada um dos textos sagrados, é a carta de amor de Deus para nós. Quando verdadeiramente compreendemos isto, tudo muda.

Através do Espírito Santo, a palavra de Deus foi escrita no meu coração enquanto orava e meditava sobre os textos, tornando-se uma influência profunda na minha pessoa. Ao longo dos anos, Deus deu-me discernimento para reconhecer a verdade. Não a minha verdade - a verdade d’Ele.

E aqui está a parte realmente incrível: conhecer intimamente as Escrituras através desta memorização permitiu-me imediatamente conhecer a verdade e a validade de Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í, por causa das próprias palavras sagradas, e compreender inerentemente a revelação progressiva de Bahá’u’lláh, o mais recente mensageiro divino.

Na Bíblia, no Salmo 89:4-5, Deus diz: “Fiz uma aliança com o meu escolhido, fiz um juramento em favor de David, meu servo: Estabelecerei a tua descendência para sempre e firmarei o teu trono de geração em geração”.

Bahá'u'lláh escreveu: "Se observares com olhar criterioso, verás todos habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo as mesmas palavras e proclamando a mesma Fé. Assim é a unidade dessas Essências do ser, esse Luminares de esplendor infinito e imensurável. " (Kitab-i-Iqan, ¶162)

Para mim, este não foi um processo académico. Em vez disso, consigo ver claramente como Deus planeou a minha própria jornada "progressiva" para o "regresso a casa!"

Literalmente, as palavras, em alguns casos, são as mesmas.

Numa oração, Bahá'u'lláh escreveu: "Cria em mim um coração puro, ó meu Deus, e renova em mim uma consciência tranquila, ó minha Esperança! Com o espírito de poder, confirma-me na Tua Causa, ó meu Amado, e pela luz da Tua glória revela-me o Teu caminho, ó Tu, Alvo do meu desejo!"

No Salmo 51:10-12, a Bíblia diz-nos: “Cria para mim, ó Deus, um coração puro; e renova dentro de mim um espírito firme. Não me afastes da tua presença, nem retires de mim o teu santo espírito. Dá-me de novo a alegria da tua salvação e apoia-me com um espírito generoso.”

Há uma infinidade de versículos, reflexões e orações que se assemelham uns aos outros. Os versículos que aqui partilhei são alguns dos que mais me têm impactado, permitindo-me reconhecer e até comparar ambos os textos para perceber a convergência — a continuidade da dispensação. E também sentir o impulso do Espírito Santo para avançar neste próximo passo.

Numa palestra em Paris, em 1911, 'Abdu'l-Bahá, filho de Bahá'u'lláh e Seu sucessor designado, disse: "É o Espírito Santo que, através da mediação dos Profetas de Deus, ensina as virtudes espirituais ao homem e o capacita para alcançar a Vida Eterna. Todas estas bênçãos são concedidas ao homem pelo Espírito Santo; portanto, podemos compreender que o Espírito Santo é o Intermediário entre o Criador e a criação. A luz e o calor do sol tornam a terra fértil e criam vida em todas as coisas que crescem; e o Espírito Santo vivifica as almas dos homens."

E em João 14:26, Jesus diz-nos: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, Ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse”.

Através da memorização, a palavra de Deus ficou gravada no meu coração, intensificando assim o Seu chamamento para mim. Havia também a sensação, ou a intuição, de que algo estava errado na forma como, muitas vezes, a igreja ensinava ou "praticava" a palavra sagrada, criando assim uma santidade artificial. Ou, em alguns casos, a lealdade através do «discipulado» - não a Deus, mas à própria igreja – excluindo simultaneamente aqueles que não se conformavam com as suas regras, leis ou critérios de filiação. Quantos são afastados por isso, ou, infelizmente, desviados do caminho certo?

No meu coração, surgiu o anseio pela plenitude do "voltar a casa" (Zacarias 1:3), e o pedido pela paz que supera todo a inteligência (Filipenses 4:7), e pela forma como o Espírito Santo revela os segredos do Senhor.

A Bíblia diz-nos:

“Porei as minhas leis na sua mente e gravá-las-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.” (Hebreus 8:10)

“Os segredos pertencem ao SENHOR, nosso Deus, mas as coisas reveladas são para nós e para os nossos filhos para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta instrução.” (Deuteronómio 29:28)

Quando pedi novamente a Deus que honrasse o meu pedido, que me dissesse sempre a verdade e me mostrasse o Seu caminho, mesmo agora, que me mostrasse, que me confirmasse, quando desse o próximo passo — eis que surgiu o chamamento.

Bahá’u’lláh afirma: “Este é o Dia em que o testemunho do Senhor se cumpriu, o Dia em que a Palavra de Deus se manifestou e as Suas evidências foram firmemente estabelecidas. A Sua voz chama-vos para aquilo que vos será proveitoso e ordena-vos que observeis aquilo que vos aproximará de Deus, o Senhor da Revelação.”

Mesmo agora, sendo ainda mais abençoada pela sabedoria divina e pelo amor de Deus por mim, Ele mostrou-me, através de Cristo e agora através de Bahá’u’lláh, onde posso finalmente libertar-me de quaisquer correntes que me prendiam.

Tal como disse Santo Agostinho:

“Portanto, não desanimes, Pedro; responde uma vez, responde duas vezes, responde uma terceira vez. A tríplice confissão do teu amor serve para recuperar o que foi perdido três vezes pelo teu medo. Deves soltar três vezes o que prendeste três vezes; desatar pelo amor o que o teu medo prendeu.”

Devo continuar a avançar em liberdade e em amor. Bahá'u'lláh diz-nos:

Aqueles que abandonaram a sua pátria com o propósito de ensinar a Nossa Causa – a esses o Espírito Fiel fortalecerá com o seu poder. Uma companhia dos Nossos anjos eleitos partirá com eles, conforme ordenado por Aquele que é o Todo-Poderoso, o Sábio. Quão grande é a bem-aventurança que aguarda aquele que alcançou a honra de servir o Todo-Poderoso!

Sou constantemente lembrada, através da Sua palavra, e agora especificamente em Bahá’u’lláh e através da amizade e do parentesco espiritual reais dos meus irmãos e irmãs da comunidade Bahá’í, que Deus, na Sua eterna tolerância e paciência para connosco, nos recorda gentilmente, no fundo do nosso coração, que Deus é amor e que Lhe pertencemos.

‘Abdu’l-Bahá escreveu:

Sabe com certeza que o Amor é o segredo da santa Dispensação de Deus, a manifestação do Todo-Misericordioso, a fonte das efusões espirituais. O Amor é a luz benevolente do céu, o sopro eterno do Espírito Santo que vivifica a alma humana. O Amor é a causa da revelação de Deus ao homem, o vínculo vital inerente, em conformidade com a criação divina, às realidades das coisas. O Amor é o único meio que assegura a verdadeira felicidade tanto neste mundo como no vindouro. O Amor é a luz que guia nas trevas, o elo vivo que une Deus ao homem, que garante o progresso de toda a alma iluminada.

Ámen.

------------------------------------------------------------
Texto original: Why We Should Memorize the Verses of God (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Jennifer Boles é socióloga e educadora, com foco especial na formação espiritual e espiritualidade no envelhecimento. Tem uma vasta experiência em educação musical na primeira infância e com idosos que enfrentam problemas relacionados com a demência. A sua paixão é ligar famílias multigeracionais a recursos comunitários através de relações inter-religiosas e programas inter-geracionais.

sábado, 13 de junho de 2026

O que simbolizam “o Lobo e o Cordeiro”?

Por Christopher Buck.

Observa como aqueles que no meio do Satã do ego semearam, durante anos, as sementes da malícia e do ódio, se uniram e misturaram na sua lealdade a esta maravilhosa e transcendente Revelação, que parecia que eles tinham nascido das mesmas entranhas. Tal é o poder unificador do Verbo de Deus, que une os corações daqueles que renunciaram a tudo salvo Ele, que acreditaram nos Seus sinais...

Este é o significado das conhecidas palavras: “O lobo e o cordeiro se pastarão juntos.” [Isaías 65:25] Vê a ignorância e a insensatez daqueles que, tal como as antigas nações, aguardam que estes animais se alimentem juntos numa pastagem! Tal é a sua baixa condição... Além disso, que benefício haveria para o mundo se uma coisa dessas acontecesse? (Bahá’u’lláh, Kitab-i-Iqan, ¶118-119)

A imagem do lobo e do cordeiro a conviver em perfeita harmonia está na conhecida profecia bíblica de Isaías:

O lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á com o cabrito, o vitelo, o leãozinho e o animal de engorda estarão juntos, e um menino os conduzirá. (Isaías, 11:6)

Como é que as Escrituras Bahá’ís interpretam esta profecia? Recordemos o nosso modelo de quatro passos:

Passo 1. Se impossível, então não é literal.
Porque é que a leitura literal não é possível aqui?

Passo 2. Se não é literal, então é figurado.
Que comparação ou analogia é feita aqui?

Passo 3. Se é figurado, então é simbólico.
Que qualidades estão presentes nesse símbolo?

Passo 4. Se é simbólico, então é espiritual e social.
O que representam essas qualidades?

Primeiramente, um breve conselho: a maioria das profecias descreve eventos espirituais, não físicos. Eventos espirituais envolvem pessoas, individual e colectivamente. Sempre que encontramos menção de um animal numa profecia, o próprio animal simboliza a natureza do animal. Por exemplo, se a profecia menciona um cordeiro, geralmente se refere à natureza pacífica e dócil do cordeiro. Em alguns excertos do Novo Testamento, quando "cordeiro" é escrito com inicial maiúscula ("Cordeiro"), trata-se de uma clara referência a Jesus Cristo.

Agora, vejamos o “lobo” como outro exemplo. Animal ou pessoa? Ou uma pessoa com natureza animalesca?

Aqui, a profecia refere-se à natureza própria de um lobo. Por outras palavras, pessoas com características viciosas, predatórias e agressivas podem ser facilmente descritas como tendo uma natureza semelhante a um lobo.

Agora, vamos aplicar os quatro passos a esta profecia. Recordemos que o primeiro passo na interpretação de uma profecia descarta uma leitura literal, demonstrando sua impossibilidade.

Passo 1: Na citação inicial acima, Bahá'u'lláh recorre ao absurdo para excluir uma interpretação literal dos versículos referidos em Isaías 65:25:

«O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá palha como o boi, e quanto à serpente, o pó será o seu alimento. Não farão nenhum mal nem causarão destruição por todo o meu monte santo», diz o Senhor.

Bahá'u'lláh critica a interpretação literal:

Vê a ignorância e a insensatez daqueles que, tal como as antigas nações, aguardam que estes animais se alimentem juntos numa pastagem! Tal é a sua baixa condição... Além disso, que benefício haveria para o mundo se uma coisa dessas acontecesse? (Bahá’u’lláh, Kitab-i-Iqan, ¶119)

A resposta é óbvia: não só é impossível imaginar um lobo vegetariano a comer ao lado de um cordeiro, ou um leão comendo palha, como isso não traria benefício algum.

'Abdu'l-Bahá também refere Isaías 11:1-9 num capítulo do livro Respostas a Algumas Perguntas. Se as profecias em Isaías 11:1-9 tivessem de ser "interpretadas literalmente", diz 'Abdu'l-Bahá, então essas mesmas profecias "não se realizaram de forma alguma nos dias de Cristo" (cap. 12).

Passo 2: Tendo agora descartado uma interpretação literal de Isaías 11:1–9, ‘Abdu’l-Bahá afirma que estas profecias devem ser interpretadas de forma figurada. Tal como uma interpretação literal pode ser descartada se não fizer sentido, também uma interpretação figurativa deve ser razoável. Nem toda a interpretação figurada está correcta.

Passo 3: Os principais atributos representados pelo “lobo” e pelo “cordeiro” estão nas nações hostis e pacíficas (incluindo as nações cristãs), que continuam a frustrar e a atrasar o cumprimento integral desta profecia.

Sabemos que o cristianismo primitivo uniu cristãos de povos que eram considerados "hostis", em comunhão pacífica como irmãos na fé.

Passo 4: Ao excluir o sentido literal (Passo 1), ao estabelecer o sentido figurado (Passo 2) e ao explicar a natureza simbólica destas palavras (Passo 3), mostrando o cumprimento parcial de Isaías 11:1–9 no início do Cristianismo, ‘Abdu’l-Bahá completa a interpretação demonstrando o aparente cumprimento espiritual e social (Passo 4) da profecia de Isaías, que simbolicamente ocorreu devido à influência de Bahá’u’lláh:

Mas estes versículos aplicam-se palavra por palavra a Bahá'u'lláh... Fortes e fracos, ricos e pobres, clãs rivais e nações hostis — que são como o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, o leão e o bezerro — tratar-se-ão uns aos outros com o máximo amor, unidade, justiça e equidade...

Considere-se também que, no curto espaço de tempo desde o advento de Bahá’u’lláh, pessoas de todas as nações, tribos e raças colocaram-se sob a proteção desta Causa. Cristãos, judeus, zoroastrianos, hindus, budistas e persas convivem em perfeita harmonia e amizade… Este é um dos significados da comunhão entre o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, e o leão e o bezerro. (Respostas a Algumas Perguntas, Cap. 12)

------------------------------------------------------------
Texto original: What Do “the Wolf and the Lamb” Symbolize? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 10 de maio de 2025

O que significa o “Regresso” de Cristo?

Por Christopher Buck.


Agora vamos falar sobre o regresso de Cristo — e ver se conseguimos descobrir o que a palavra “regresso” realmente significa. É literal ou simbólica?

Isto pode parecer uma pergunta disparatada. Porquê? Porque cerca de dois mil milhões de cristãos no mundo de hoje acreditam que o regresso de Cristo significa que o próprio Jesus Cristo regressará à Terra, derrotará Satanás e reinará durante 1000 anos. Vários cristãos propõem cenários diferentes para este drama do fim dos tempos, mas os elementos básicos são os mesmos.

Então porquê esta questão, especialmente se o regresso de Cristo é inquestionável para dois mil milhões de cristãos? Para reconsiderar o que realmente significa o “regresso” de Cristo, temos de nos afastar do entendimento universal dos cristãos no passado e no presente. Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma perspectiva diferente.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que uma das melhores formas de compreender o regresso de Cristo é compreender o “regresso” do profeta Elias. Qual é a ligação, perguntam você? É a própria noção de “regresso”.

Deixem-me contar-vos uma história de como cheguei a este entendimento. Embora mais tarde tenha obtido um doutoramento na área da religião da Universidade de Toronto em 1996 (graças ao apoio e incentivo da minha querida esposa, Nahzy), nem sempre fui um académico. Tornei-me Bahá'í quando tinha 22 anos, a 15 de dezembro de 1972. Tinha-me licenciado no início desse ano na Pacific Lutheran University (PLU) em Tacoma, Washington.

Tendo sido educado como cristão — temendo a Deus e a Satanás ao mesmo tempo — tinha algumas dúvidas persistentes sobre se Bahá’u’lláh era de facto o regresso de Cristo, como afirmam os Bahá’ís. Afinal, a salvação da minha alma estava em causa. Esta era uma questão de vida ou de morte para mim, espiritualmente falando.

Nessa altura, estava a ler o livro Respostas a Algumas Perguntas, no qual 'Abdu'l-Bahá responde a perguntas que lhe foram feitas por uma Baha’i no início do século XX. Eis o que li, agora numa nova tradução, no Capítulo 33:

O Regresso dos Profetas

Pergunta: Pode explicar o assunto do Regresso?

Resposta: Bahá’u’lláh apresentou uma longa e detalhada explicação sobre este assunto [no Livro da Certeza]. Leia-o e a verdade sobre este assunto tornar-se-á clara e manifesta. Mas já que levantou a questão, uma breve explicação será também aqui apresentada.

Começaremos as nossas observações com o texto do Evangelho. Está ali registado que, quando João, filho de Zacarias, apareceu e anunciou ao povo a vinda do Reino de Deus, perguntaram-lhe: "Quem és tu? És o prometido Messias?". Ele respondeu: “Não sou o Messias”. Então perguntaram-lhe: “És o Elias?” Ele respondeu: “Não sou”. [Cf. João 1:19–21.] Estas palavras demonstram claramente que João, filho de Zacarias, não era o prometido Elias.

Mas no dia da transfiguração no Monte Tabor, Cristo disse explicitamente que João, filho de Zacarias, era o Elias prometido. Em Marcos 9:11, lemos: “Foram então perguntar a Jesus: «Porque é que os doutores da lei dizem que Elias tem de vir primeiro?» Jesus respondeu: «É verdade que Elias vem primeiro preparar tudo. Mas porque será que as Escrituras dizem que o Filho do Homem há de sofrer muito e ser desprezado? Pois eu afirmo que Elias já veio e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como está nas Escrituras a respeito dele.»” E em Mateus 17:13 diz-se: “Os discípulos compreenderam então que Jesus se referia a João Baptista.”

Então, perguntaram a João Batista: “Tu és Elias?” e ele respondeu: “Não sou”, enquanto no Evangelho está escrito que João era o próprio Elias prometido, e Cristo também o afirmou claramente. Se João era Elias, porque é que disse que não era? E se não era Elias, porque é que Cristo disse que era?

A razão é que consideramos aqui não a individualidade da pessoa, mas a realidade das suas perfeições — isto é, as mesmas perfeições que Elias possuía tornaram-se reais também em João Baptista. Assim, João Baptista era o prometido Elias. O que está aqui a ser considerado não é a essência, mas os atributos. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 149–150)

Vamos analisar mais detalhadamente as provas por detrás da admirável explicação de ‘Abdu’l-Bahá’. No Evangelho de João, foram colocadas três questões distintas a João Baptista:

Questão (e resposta) nº 1:

E este é o testemunho de João, quando os judeus mandaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu? E confessou, e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo. (João 1:19-20)

Questão (e resposta) nº 2:

E perguntaram-lhe: Então quê? És tu Elias? E disse: Não sou. (João 1:21a)

Questão (e resposta) nº 3:

És tu profeta? E respondeu: Não… E perguntaram-lhe, e disseram-lhe: Por que baptizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? (João 1:21b, 25)

Estas três questões, duas das quais são mencionadas por ‘Abdu’l-Bahá no excerto anterior, surgem da expectativa, no tempo de Cristo, não de um Messias, mas de três messias: (1) o Rei messiânico (um governante como o Rei David); (2) o sacerdote messiânico (regresso de Elias); (3) e o profeta messiânico (o regresso de Moisés).

Isto é comprovado por evidências nos Manuscritos do Mar Morto (aproximadamente 150 a.C.– 68 d.C.), que falam do tempo futuro quando “o profeta virá, e os Messias de Aarão e de Israel”. (*)

A “cristologia” cristã primitiva — crenças sobre a identidade de Jesus — via Jesus como todos os três messias num só. Por outras palavras, Jesus era o rei, sacerdote e profeta messiânico combinados num só. Isto significa, na perspectiva das expectativas messiânicas na época de Jesus, que ele foi visto pelos seus primeiros discípulos como o “regresso” de Moisés, enquanto João Batista, segundo o próprio Jesus, foi o “regresso” de Elias: “E, se quereis dar crédito, este é o Elias que havia de vir”. (Mateus 11:14)

Por isso, deixem-me contar-vos o que aconteceu logo depois de ter terminado de ler a anterior explicação de ‘Abdu’l-Bahá: fiquei atordoado — completamente atónito! Esta profunda percepção espiritual sobre o que significa o “regresso” de Elias (e, portanto, de Cristo) foi tão surpreendente para mim que experimentei este espanto tanto no corpo como na alma. Depois de perceber de repente o que significa “regresso”, caí na minha cama e comecei a hiperventilar de surpresa e espanto.

Queria contar aos meus pais espirituais a minha descoberta pessoal ao vivenciar esta realização espiritual. Eram cerca das 2h da manhã; estava frio e húmido em Parkland, Washington (bairro onde se situa a PLU). Enquanto deambulava pelas ruas, coloquei as mãos sobre a cabeça e puxei-a com força para baixo, para não flutuar no ar! Sim, estava tonto. Mas, nessa altura, pensava que era mais leve do que o ar.

Sentia-me espiritualmente elevado num transporte místico.

Fui a casa dos meus pais espirituais. Atirei algumas pinhas macias à janela do quarto deles para os acordar. Eles não acordaram. Foi isso. Regressei ao meu humilde quarto alugado.

Ao contar esta história, espero que percebam o quão seriamente eu considerava para esta questão do significado do “regresso” de Cristo. (Eu ainda considero)

Portanto, para resumir, os ensinamentos Bahá’ís apresentam um novo entendimento do “regresso” de Cristo. Não é um regresso literal de Jesus Cristo. Porquê? Porque isso seria reencarnação — uma doutrina estranha ao Cristianismo, histórica e doutrinariamente.

Tal como João Batista, de acordo com a própria Bíblia, viria “no espírito e poder de Elias” (Lucas 1:17), Bahá’u’lláh veio “no espírito e poder” de Jesus Cristo; é nisto que acreditam os Bahá’ís.

Este entendimento sobre o “regresso” tem implicações profundas para perceber o que os Bahá’ís querem dizer quando se referem a Bahá’u’lláh como o “regresso” de Cristo.

---------------------------------  

(*) NOTA: Os Manuscritos do Mar Morto (aproximadamente 150 a.C.–68 d.C.) falam do tempo futuro em que três messias aparecerão: ou seja, “o profeta vem, e os Messias de Aarão e Israel” (“Regra da Comunidade”, 1QS 9:9–11; ver “Antologia Messiânica”, 4QTestimonia (ou 4Q175 ou 4QTest) e paralelos).

Os textos bíblicos que comprovam esta tripla expectativa messiânica são os seguintes: (1) o Rei messiânico: Nm 24,15-17; (2) o Sacerdote messiânico: Dt 33,8-11; (3) o Profeta messiânico: Dt 18,18-19. (Ver John C. Poirier, “The endtime return of Elijah and Moses at Qumran” [O regresso de Elias e Moisés em Qumran, no fim dos tempos], Dead Sea Discoveries 10.2 (2003): 221-242, p. 223).

Embora haja certeza se os essénios que escreveram os Manuscritos do Mar Morto estavam realmente à espera do "regresso" do Rei David, eles certamente esperavam o "regresso" de Moisés e Elias.

------------------------------------------------------------
Texto original: The “Return” of Christ: What Does it Mean? (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuiu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 26 de abril de 2025

As profecias provam alguma coisa?

Por Christopher Buck.


Todos nós já ouvimos falar de falsas profecias; mas, e as verdadeiras? As profecias verdadeiras são profecias genuínas — aquelas que realmente cumprem uma visão real do futuro.

É claro que as profecias podem ser cumpridas por várias pessoas e podem ser cumpridas mais do que uma vez. É preciso fé e discernimento para distinguir entre afirmações verdadeiras e falsas sobre o cumprimento das profecias.

As falsas profecias que analisámos até agora nesta série de artigos foram muitas vezes escritas após os factos. De um modo geral, as verdadeiras profecias são de natureza mais genérica. Regra geral, quanto mais detalhada e específica for a profecia, mais duvidosa poderá ser e, por conseguinte, exigirá uma verificação mais minuciosa.

As verdadeiras profecias realizam-se quando um verdadeiro profeta, que fala a verdade ao poder, proclama que a profecia se cumpriu. Os estudiosos da religião designam essa declaração como afirmação da verdade. A verdade ou falsidade de uma dada afirmação de verdade não pode ser determinada objectivamente, em termos gerais. Em vez disso, se uma afirmação é amplamente aceite pelos seguidores de uma fé, então é geralmente considerada verdadeira.

Algumas profecias - sobretudo as militantes - serviram até de carne para canhão para os líderes revolucionários e para as revoluções que lideraram.

Para evitar interpretações erradas, devemos primeiro determinar se uma profecia é literal ou figurada (i.e., simbólica).

Um discurso pode ser literal, ou figurado, ou ambos. Normalmente estas duas características combinam-se no discurso. O discurso literal - quando o falante pretende que as suas palavras sejam interpretadas literalmente - significa que não há necessidade de interpretação envolvida. No discurso literal, as palavras significam o que dizem e as palavras dizem o que significam.

O discurso figurado é diferente. Mais uma vez, as palavras significam o que dizem, mas nem sempre dizem o que querem dizer. Por exemplo, considere-se as seguintes palavras de Jesus:

Mas Jesus respondeu: «Vão lá dizer a essa raposa que eu expulso espíritos maus e faço curas hoje e amanhã, mas ao terceiro dia termino. (Lc 13:32)

Aqui, Jesus está a falar do Rei Herodes, e chama-lhe “raposa”. Obviamente, Jesus não o quis dizer literalmente. Os leitores compreendem intuitivamente que Jesus está a falar metaforicamente. Por outras palavras, Jesus usa uma metáfora.

Quando aplicado ao Rei Herodes, a palavra “raposa” é entendida como referindo-se ao carácter do Rei, que entendemos como astuto, esperto, manhoso, trapaceiro, evasivo, tortuoso, evasivo, dúbio, falso, enganoso, dissimulado, indigno de confiança, desonesto e traiçoeiro. Esta interpretação, no entanto, pode estar errada. Como diz um estudioso:

Ao tentar compreender o que Jesus disse, a questão crítica para o tradutor é que ideia ele [Jesus] transmitiu aos seus ouvintes através do uso da metáfora “Herodes é uma raposa”. Em particular, qual era o ponto de semelhança que Jesus estava a estabelecer entre uma raposa e Herodes? …

Jesus não pretendia que os seus ouvintes compreendessem que Herodes era astuto quando respondeu lhe disseram de que Herodes o queria matar. Em vez disso, estava a comentar a inépcia ou incapacidade de Herodes para cumprir a sua ameaça. Jesus questionou a linhagem, a estatura moral e a liderança de Herodes, rebaixando-o e colocando-o no seu devido lugar. …

Esta conclusão está de acordo com a compreensão da metáfora conhecida como teoria da metáfora conceptual, onde a metáfora “Herodes é uma raposa” é vista como uma extensão de uma metáfora mais básica, “As pessoas são animais”. No Antigo Testamento há outra extensão da metáfora básica “As pessoas são animais”, ou seja, “O rei é um leão” (ver, por exemplo, 2 Sam 17.10; Pv 19.12; 20.2; 28.15), mostrando que esta é uma metáfora reconhecida no hebreu bíblico.

Assim sendo, é muito provável que quando Jesus se referiu a Herodes como "essa raposa", aqueles com quem estava a falar tivessem em mente a metáfora básica habitual para um rei e reconheceriam imediatamente que, ao utilizar a metáfora "Herodes (o rei) é uma raposa", Jesus pretendesse transmitir que Herodes estava em extremo contraste com alguém que se conformava com o seu conceito normal de rei: "O rei é um leão". (E.A. Hermanson, “Kings are Lions, but Herod is a Fox: Translating the Metaphor in Luke 13.32,” The Bible Translator, pp. 235, 237)

Bahá’u’lláh afirmou que as profecias são um “teste”, de tal modo que só os puros de coração podem verdadeiramente perceber a natureza da profecia em si e a verdade do seu cumprimento. No Livro da Certeza, Ele escreveu:

Sabe tu, em verdade, que o propósito subjacente a todos estes termos simbólicos e alusões abstrusas que emanam da Causa sagrada dos Reveladores de Deus tem sido testar e provar os povos do mundo, para que a terra dos corações puros e iluminados se distinga do solo árido e perecível. Desde os tempos imemoriais esse tem sido o caminho de Deus entre as Suas criaturas e disto dão testemunho os registos dos livros sagrados. (¶53)

Assim, em vez de provarem verdadeiras ou falsas, as profecias provam se o entendimento do leitor é verdadeiro ou não. Ou seja, o propósito das verdadeiras profecias, segundo Bahá’u’lláh, “tem sido testar e provar os povos do mundo”.

Isto leva-nos a uma questão importante: por que razão são utilizadas metáforas nas Escrituras? Segundo Hermanson, “a metáfora é frequentemente utilizada porque é a forma mais precisa pela qual o autor pode expressar o que quer dizer, e não apenas para efeito retórico”.

Com estes princípios interpretativos em mente, o próximo artigo considerará o regresso de Jesus. O que “regresso” realmente significa é mais bem compreendido pelo que não significa, como ‘Abdu’l-Bahá explicou:

Mas voltemos ao nosso tema original. Nos Livros Sagrados e nas Sagradas Escrituras é mencionado de um “regresso”, mas os ignorantes não conseguiram compreender os seus significados e imaginaram que se referia à reencarnação. Pois o que os Profetas de Deus queriam dizer com “regresso” não é o retorno da essência, mas dos atributos; não é o regresso do próprio Manifestante, mas das Suas perfeições.

No Evangelho é dito que João, filho de Zacarias, é Elias. Com estas palavras não se quer dizer o regresso da alma racional e da personalidade de Elias no corpo de João, mas sim que as perfeições e os atributos de Elias se tornaram claros e manifestos nele. (Some Answered Questions, newly revised edition, p. 333)

Portanto, regresso não é reencarnação. No próximo artigo desta série, exploraremos o que significa realmente o regresso.

------------------------------------------------------------
Texto original: Do Prophecies Prove Anything? (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuiu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Jesus é Deus? A resposta Bahá'í

Por Maya Bohnhoff.


Ela não era realmente Cristã.” Esta foi a conclusão de um encontro que a minha filha em idade universitária teve com um amigo Cristão, Eli, que conversou com ela e com vários outros estudantes Bahá’ís.

A pessoa em questão (“Ela”) era eu.

A opinião surgiu da curiosidade do Eli sobre como a minha filha se tornou Bahá’í. Ela explicou que nasceu numa família Bahá’í, mas que a sua mãe tinha vindo para a Fé a partir de uma formação Cristã.

O Eli perguntou “Qual era igreja?

A resposta foi “muitas” por causa da forma como a minha mãe se sentia ao ouvir mensagens do púlpito sem fundamento no texto bíblico. Quando eu era criança, a nossa família frequentou igrejas baptistas, católicas, presbiterianas, metodistas, episcopais, congregacionalistas e não denominacionais.

Depois o Eli perguntou: “As igrejas dela ensinavam que Jesus era Deus?

A minha filha disse-lhe que pensava que as minhas igrejas ensinavam que Jesus Cristo era o Filho de Deus, e isso provocou a resposta simples e imediata de Eli de que eu nunca tinha sido realmente Cristã.

Alguns de vós podem pensar que deveria ser uma resposta fácil e imediata. Ou Jesus é Deus, ou não é Deus; e podem pensar que acreditar numa ou noutra é o critério para a salvação. Mas a realidade é que esta certeza binária só existe na distinção entre a realidade espiritual infinita de Deus e a nossa capacidade de a compreender do nosso ponto de vista muito finito, físico – atrevo-me a dizer, materialista.

A resposta que eu teria dado ao Eli se ele me tivesse feito a pergunta directamente é esta: na medida em que podemos compreender Deus, Jesus Cristo é Deus. Na medida em que Deus está santificado acima das limitações humanas, Jesus não é Deus… mas reflecte perfeitamente a realidade divina de Deus porque o seu próprio Espírito — o Espírito que fala no Livro do Apocalipse — é gerado por Deus.

Vejamos a Bíblia para validar isto, começando pelo que Cristo nos diz no Evangelho de João sobre o tipo de Ser que Deus é: “Deus é espírito e os que o adoram devem fazê-lo no Espírito e em verdade.” (4:24)

A Bíblia afirma também na Epístola aos Hebreus (cap. 1) que embora apareça como ser humano, Jesus Cristo é o filho e “imagem expressa” deste Espírito:

Nos tempos antigos, Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras aos nossos antepassados pelos profetas. Mas agora, que o fim está perto, falou-nos por meio do seu Filho. Foi por meio dele que Deus criou o Universo… Ele é o reflexo da glória de Deus e a imagem perfeita da sua pessoa... ele tomou o seu lugar no trono celeste à direita da majestade divina.

A maioria das traduções portuguesas da Bíblia diz que Cristo é “o reflexo da glória de Deus”. Não é uma descrição que sugira sequer que Deus, a derradeira realidade espiritual, deixou o reino espiritual e desceu literalmente a um corpo humano, ou que o Infinito se tornou finito. Na verdade, todas as traduções mantêm Deus no “céu” ao descreverem Cristo como um selo, uma marca, uma expressão, um reflexo do Espírito de Deus em forma humana.

Quando fui confrontada com a Fé Bahá'í aos 19 anos, naturalmente refugiei-me nas minhas próprias Escrituras Cristãs para lidar com as suas implicações. Fiquei impressionada com a forma como Bahá’u’lláh explicou aquilo que o autor da Epístola aos Hebreus lutou por captar – a natureza divina, mas humana, de Cristo. Eis uma dessas passagens, do Livro da Certeza de Bahá’u’lláh:

Assim, estando a porta do conhecimento do Ancião dos Dias fechada perante a face de todos os seres, a Fonte da graça infinita… fez surgir aquelas Joias luminosas da Santidade vindas do reino do espírito, na forma nobre do templo humano, e manifestarem-se a todos os homens, para pudessem transmitir ao mundo os mistérios do Ser imutável... Estes Espelhos santificados, estes Alvoreceres da antiga glória, são, cada um e todos, os Expoentes na terra d’Aquele que é o Orbe central do universo, a Sua Essência e o Seu Propósito derradeiro. Dele provêm os seus conhecimentos e o poder; d’Ele deriva a sua soberania. A beleza dos seus semblantes é apenas um reflexo da Sua imagem, e a Sua revelação, um sinal da Sua glória imortal. … Estes Tabernáculos da Santidade, estes Espelhos primordiais que reflectem a luz da glória inextinguível, são apenas expressões d’Aquele que é o Invisível dos Invisíveis. Com a revelação dessas Joias de virtude Divina todos os nomes e atributos de Deus, como conhecimento e poder, soberania e domínio, misericórdia e sabedoria, glória, bênção e graça, tornam-se manifestos. (¶106, ¶110)

Aqui, Bahá'u'lláh descreve os Eleitos que Deus envia para nos guiar como espelhos perfeitos apontados directamente para a Luz Primordial, reflectindo a realidade espiritual de Deus de tal forma que possamos reconhecê-la, e voltar os espelhos dos nossos próprios corações para ela. O agente pelo qual esta Luz Grandiosa se reflecte no espelho de carne e sangue é o Espírito Santo.

Com esta descrição, Bahá’u’lláh afirma as palavras que Cristo e os Seus discípulos usaram para explicar a união da divindade e da humanidade que Ele representava. No Jardim do Getsémani, Cristo orou ao Seu divino Pai com estas palavras: “Manifestei o Teu nome aos homens que do mundo Me deste; eram Teus, e Tu mos deste, e guardaram a Tua palavra.” (Jo 17:6)

E na 2ª Epístola aos Coríntios, o apóstolo Paulo também escreveu sobre esta relação entre Deus e Cristo:

Ora o Senhor Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Mas, todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. (3:17-18)

A mensagem de Paulo é clara: ao contemplar a glória de Deus no espelho de Jesus Cristo, os próprios crentes são transformados em reflectores (embora imperfeitos) das qualidades divinas de Cristo. Esta é a mesma analogia que Bahá’u’lláh sobre o “mistério” da manifestação divina: o espelho humano reflecte a glória do Espírito que é Deus.

Chegamos agora a uma diferença crucial na forma como o Eli e eu entendemos a relação de Cristo com Deus. Eli acredita, como eu já acreditei, que o Espírito de Cristo se manifestou apenas uma vez em toda a tormentosa história da humanidade. Manifestou-Se apenas numa pequena região capturada rapidamente pelas garras do Império Romano. Manifestou-Se por um breve período de três anos entre milhões de anos. Apenas alguns indivíduos foram agraciados com a Sua presença. Aqueles que viviam outras partes do mundo – Índia, Américas, Europa e Ásia – viveram e morreram nas trevas, fora do alcance da luz de Cristo.

Pior do que isso: não receberam qualquer manifestação do Ser a quem Bahá’u’lláh chama “o Orbe Central do Universo”, e a quem Jesus Cristo retrata como o Pai amoroso e omnipotente de todos, e foram deixados a inventar os seus próprios deuses, e por esse motivo as suas almas foram para o inferno (conforme me ensinaram). Isto, apesar do facto de que o seu Grande Espírito ou Espírito Supremo ou Ahura Mazda ou o Absoluto ou Aten-Amen-Ra ou Allah terem uma notável semelhança com o Deus que, por qualquer razão, não os guiou nem Se manifestou a eles.

Esta foi a minha grande questão sem resposta, que levei comigo de igreja em igreja. Era uma questão que colocava o Deus que Cristo revela no Evangelho de Mateus (cap. 7) contra o Deus do púlpito; e isso perturbava-me, perseguia-me: Como poderia o Deus que Cristo revelou fazer o que uma tantos pastores e sacerdotes afirmaram que Ele tinha feito – privar milhões dos Seus filhos humanos da generosidade da Sua palavra, da Sua orientação e do Seu amor porque nasceram no lugar errado e num momento errado?

Penso que esta questão merece uma resposta.

-----------------------------------------------------------
Texto original: Is Jesus God? A Baha’i Answers (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 28 de setembro de 2024

O Verdadeiro Significado da Parábola do Bom Samaritano

Por Maya Bohnhoff.


Num website inter-religioso, uma ensaísta criticou o envolvimento Bahá’í com as Nações Unidas, com base no que ela entendia serem os ensinamentos Bahá’ís sobre como e quem criaria a unidade e a paz mundiais.

A sua crítica – baseada em várias percepções erradas, sobre o que a Fé Bahá’í ensina, e sobre o que Cristo ensinou – merece uma resposta.

No seu texto, a mulher a quem chamarei “Jen” explicou, erradamente, aquilo que pensava serem crenças Bahá’ís. Dizia:

... não deve haver tolerância para com as instituições e iniciativas educativas, ou políticas e programas de comunicação social que promovam atitudes e comportamentos intolerantes. Lembremo-nos que, fazer proselitismo, reivindicar um caminho exclusivo para a salvação, ou condenar um estilo de vida como a homossexualidade é considerado intolerante; isto aplicar-se-ia às escolas religiosas privadas e muito possivelmente às igrejas.

Ela não citou qualquer fonte para estas ideias, mas lembrei-lhe o que tinha dito anteriormente, que as leis Bahá’ís se aplicam apenas aos Bahá’ís e nunca devem ser impostas a mais ninguém. Isto está de acordo com um padrão que existe em todas as religiões reveladas, e é uma extensão lógica dos dois maiores Mandamentos dados por Moisés e Cristo. Em Mateus 22:35-40, Cristo esclareceu a resposta:

«...Mestre, qual é o mandamento mais importante da lei?» Jesus respondeu-lhe: «Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a alma e com todo o entendimento. Este é que é o primeiro e o mais importante dos mandamentos. O segundo é semelhante a este: Ama o teu próximo como a ti mesmo. O essencial de todo o ensino da lei e dos profetas está nestes dois mandamentos.»

Em Lucas 10:25-37, Cristo invocou de forma notável este mandamento para responder a uma questão profunda: Como posso alcançar a vida eterna? Depois de assegurar ao jovem questionador que a vida eterna é herdada pela obediência ao Maior Mandamento – “Faz isto e viverás” – Cristo prosseguiu com um exemplo em que a tolerância para com as diferenças extremas é central. Contou a história de um judeu ferido que, depois de ser ignorado por dois sacerdotes judeus, é resgatado por um odiado samaritano. Nessa época, os judeus e os samaritanos acreditavam ser o Povo Eleito e tinham tolerância zero entre si. No entanto, Cristo descreve o samaritano salvando a vida do judeu.

Uma das características principais desta história é que, embora as razões para os sacerdotes evitarem o contacto com o homem ferido sejam a pureza ritual e doutrinal, nem o judeu resgatado nem o seu salvador falam ao outro sobre a intolerância ancestral ou instam o outro a arrepender-se e a converter-se. Não há sermões, apenas compaixão – uma compaixão que está, como Cristo sublinha, em conflito com a lei religiosa judaica.

Na Parábola do Bom Samaritano, Jesus não está apenas a promover a tolerância para com as diferenças de visão do mundo, religião, crenças morais ou etnia. Ele está a dizer ao jovem estudioso – e, por extensão, a qualquer pessoa que o siga – para não só tolerar, mas amar esse próximo, a quem podem considerar pecador, ou apóstata, ou herege, ou impuro.

Pedi à Jen que compreendesse que os Bahá’ís estão tão dedicados a proteger as suas crenças da intolerância como se fossem as nossas. Reparei que ela tinha citado uma declaração Bahá’í na ONU que menciona: “…uma profunda transformação nas atitudes e nos comportamentos”. As atitudes e os comportamentos só podem ser transformados através de uma mudança de coração, e uma mudança de coração deve vir do desejo do indivíduo de mudar. Não pode ser provocado por uma força exterior. Recorde a afirmação do apóstolo Paulo em 2 Coríntios 3:18 de que:

Todos nós, porém, estamos de rosto descoberto e, como um espelho, somos um reflexo da glória do Senhor. Transformamo-nos assim numa imagem dele, com um brilho cada vez maior…

Esta é uma das muitas razões pelas quais a Comunidade Internacional Bahá’í trabalha em todas as organizações internacionais para garantir pacificamente a tolerância religiosa – tanto para os cristãos, como para qualquer outro grupo. Como os Bahá’ís são perseguidos pelas suas crenças em vários países, sabemos por experiência própria o quão dolorosa e mortal pode ser a intolerância religiosa.

Nas suas observações, Jen também parafraseou uma “proposta bahá’í” dizendo: “apenas os líderes religiosos que deixam claro aos seus seguidores que o preconceito, a intolerância e a violência não têm lugar na vida de uma pessoa religiosa devem ser convidados a participar do trabalho deste organismo.” Não ficou claro o que ela queria dizer com “este organismo”, e achei os seus comentários paradoxais porque implicavam que ela pensava que, para ser crente em Jesus, é preciso tolerar o preconceito, a intolerância e a violência em seu nome.

“Espero que não acredites nisto”, disse-lhe, e expliquei que a declaração Bahá’í significa simplesmente o que diz: que qualquer trabalho realizado ao serviço da unificação da humanidade não pode ter esperança de sucesso se for feito num espírito de preconceito, intolerância e violência.

Jesus Cristo deixou à humanidade instruções muito específicas sobre como viver de acordo com os Seus ensinamentos, como nesta passagem de Lucas 6:27-39:

Digo a todos os que me estão a ouvir: amem os vossos inimigos e façam bem a quem vos odeia. Abençoem quem vos amaldiçoa e orem por aqueles que vos tratam mal. Ao que te bater num lado da cara, deixa-o bater também no outro... Se amarem apenas aqueles que vos amam, que recompensa poderão esperar de Deus? Até os pecadores têm amor àqueles que os amam. Se fizerem bem somente aos que vos fazem bem, que recompensa poderão esperar? Até os pecadores procedem assim... Vocês, pelo contrário, tenham amor aos vossos inimigos, façam-lhes bem, e emprestem sem nada esperar em troca. Assim, receberão grande recompensa e serão filhos do Deus altíssimo, porque ele é bom até para as pessoas ingratas e más. Sejam misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso.» «Não julguem e não serão julgados. Não condenem e não serão condenados. Perdoem e serão perdoados... Pois a medida que usarem para os outros será usada também para convosco.

Este espírito — o espírito de Cristo — ecoa de época em época, encontrando expressão cada vez mais enfática e explícita nos ensinamentos Bahá'ís:

Agi de acordo com os conselhos do Senhor: isto é, levantai-vos (…) com aquelas qualidades que dotam o corpo deste mundo de uma alma vivente, e levam esta criança, a humanidade, à fase da idade adulta. Tanto quanto puderem, acendam uma vela de amor em cada reunião e, com ternura, regozijem-se e animem cada coração. Cuidai do estranho como se fosse um dos vossos; mostrai às almas estranhas a mesma bondade amorosa que concedeis aos seus amigos fiéis. Se alguém vos agredir, procurai ser seu amigo; se alguém vos apunhalar no coração, sede um bálsamo curativo para as suas feridas; se alguém vos provocar e troçar de vós, respondei-lhe com amor…. Talvez esses modos e palavras vindas de vós façam com que esta terra poeirenta se torne celestial... para que a guerra e o conflito cessem e não existam mais, e o amor e a confiança instalem as suas tendas nos cumes do mundo. Essa é a essência das advertências de Deus... (Selections from the Writings of ‘Abdu’l‑Bahá, #16)

À luz destas referências, a afirmação de Jen sobre a tolerância fez-me pensar, levando-me a perguntar: se o Espírito de Cristo é amor - mesmo pelos nossos inimigos e por aqueles que nos sentimos inclinados a desprezar - não serão a intolerância e o ódio o espírito do anticristo?

-----------------------------------------------------------
Texto original: What the Parable of the Good Samaritan Really Means (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

domingo, 21 de julho de 2024

Bahá'u'lláh: o “Espírito da Verdade” prometido por Jesus Cristo

Por Brent Poirier.
 

Os ensinamentos Bahá'ís oferecem à humanidade uma grande dádiva com a clarificação dos significados das Escrituras judaico-cristãs - e o cumprimento das suas promessas e profecias.

Apenas a título de exemplo, a revelação Bahá’í explica e cumpre a singular promessa de Cristo no Evangelho de João: “Quando vier o Espírito da verdade, Ele vai guiar-vos em toda a verdade”. (16:13)

Para percebermos como Deus promete e cumpre o aparecimento de um novo mensageiro divino, vejamos uma promessa na Bíblia Hebraica e o seu cumprimento no Evangelho. Nas seguintes palavras ditas por Deus a Moisés, vemos a terminologia que Deus utiliza para prometer o aparecimento de um futuro profeta, descrevendo a relação entre esse profeta e a Divindade. O Livro do Deuteronómio, versículo 18:18 diz: “Hei de fazer surgir, no meio deles e dentre os seus compatriotas, um profeta semelhante a ti. Hei de dar-lhe a conhecer a minha palavra e ele há de dar-vos a conhecer tudo o que eu lhe mandar.”.

Note-se aqui a relação entre o Criador e o Seu profeta: Deus colocará as Suas palavras na boca do profeta, e o profeta falará como Deus ordena. Este versículo do Deuteronómio é entendido pelos cristãos como uma profecia de Jesus Cristo. Veja como o profeta é predito neste versículo e compare-o com estas palavras de Jesus Cristo em João 12:49-50, cumprindo esta profecia e descrevendo a fonte da revelação de Cristo:

É que eu não falo por minha autoridade. O Pai que me enviou deu-me ordens sobre o que devia dizer e ensinar. E eu sei que aquilo que o Pai me ordena dá a vida eterna. Portanto, as coisas que eu digo tenho que as dizer como o Pai mas comunicou.

Comparando estes versículos, Jesus confirmou que a sua relação com Deus, o Pai, é exatamente como profetizada no Deuteronómio – que Deus coloca as Suas palavras na boca de Jesus e ordena a Cristo o que deve dizer.

Comparemos agora esta profecia de Jesus sobre aquele que virá depois dele, revelada em João 16:13 exactamente com o mesmo espírito:

Quando vier o Espírito da Verdade, Ele vai guiar-vos em toda a verdade. É que ele não falará por si próprio, mas comunicará o que lhe disserem e anunciar-vos-á as coisas que ainda estão para acontecer. Ele vos manifestará a minha glória…

Nos ensinamentos Bahá'ís, 'Abdu'l-Bahá interpreta estas palavras de Jesus, afirmando:

Agora considerai cuidadosamente o que a partir destas palavras, ‘ele não falará por si próprio, mas comunicará o que lhe disserem’, é claro que o Espírito da Verdade está corporizado num Homem que tem individualidade, que tem ouvidos para ouvir e uma língua para falar.

Assim, o Espírito da Verdade é uma pessoa, e não apenas a aparição do Espírito Santo a inspirar os discípulos no Pentecostes.

Bahá’u’lláh escreveu na Sua Epístola aos Cristãos que cumpriu esta promessa profética:

Em verdade, Aquele que é o Espírito da Verdade veio guiar-vos para toda a verdade. Ele não fala impelido pelo Seu próprio Ser, mas a mando d’Aquele que é o Omnisciente, o Sapientíssimo. Dize: este é Aquele que glorificou o Filho e exaltou a Sua Causa.

Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, disse que Bahá’u’lláh cumpriu esta aliança estabelecida por Jesus Cristo:

...em diversas passagens dirigidas a todo o corpo dos seguidores de Jesus Cristo [Bahá’u’lláh] identifica-se com o “Pai” de que fala Isaías, com o “Consolador” Cuja Aliança Aquele que é o Espírito [Jesus] tinha Ele próprio estabelecido, e com o “Espírito da Verdade” que os guiará “para toda a verdade”...

Shoghi Effendi também escreveu:

Não foi o próprio Cristo que, dirigindo-se aos Seus discípulos, proferiu estas palavras: “Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora. Contudo, quando Ele, o Espírito da Verdade, vier, irá guiar-vos em toda a verdade”? A partir… das palavras de Cristo, tal como atestadas pelo Evangelho, qualquer observador sem imparcial perceberá prontamente a magnitude da Fé que Bahá’u’lláh revelou, e reconhecerá o peso impressionante da afirmação que Ele fez…

É nosso dever ponderar estas coisas no nosso coração, esforçarmo-nos por alargar a nossa visão e aprofundar a nossa compreensão desta Causa, e levantarmo-nos, resolutamente e sem reservas, para desempenhar o nosso papel, por mais pequeno que seja, neste maior drama do mundo da história espiritual do mundo.

Bahá’u’lláh revelou estas palavras na sua última grande obra, dirigida a um clérigo muçulmano que perseguiu a comunidade Bahá’í na Pérsia do século XIX:

Em resumo, nas palavras d’Aquele que é o Espírito [Jesus], jazem ocultos inúmeros significados. Ele falou de muitas coisas, mas como não encontrou ninguém que possuísse ouvidos que ouvissem ou olhos que vissem, optou por ocultar a maior parte dessas coisas. Por isso Ele disse: “Mas vós não as podeis suportar agora”. Este Alvorecer da Revelação diz que nesse Dia Aquele que é o Prometido revelará as coisas que estão para vir. Do mesmo modo, no [Livro Sagrado] e nas Epístolas aos Reis... a maior parte das coisas que aconteceram nesta terra foram anunciadas e profetizadas pela Pena Mais Sublime.

O que é que Jesus Cristo poderia ter revelado, mas a humanidade não poderia suportar? Que novos ensinamentos trouxe Bahá’u’lláh que não estão no Evangelho?

Embora Cristo tenha dirigido os Seus ensinamentos ao indivíduo e não tenha fornecido orientação específica na condução das relações internacionais, a revelação de Bahá’u’lláh oferece uma orientação divina destinada a unificar os povos e as nações do mundo. Shoghi Effendi escreveu que a “… mensagem da Fé Bahá’í é aplicável não apenas ao indivíduo, mas preocupa-se principalmente com a natureza das relações essenciais que devem unir todos os estados e nações como membros de uma família humana”.

Entre os muitos exemplos dessa orientação da nova revelação de Bahá’u’lláh estão as Suas Epístolas aos monarcas e governantes do Seu tempo, primeiro colectivamente na Sua Epístola aos Reis. Mais tarde, Bahá’u’lláh dirigiu-se a vários monarcas individuais, incluindo a Sua Epístola à Rainha Vitória, que inclui as Suas orientações aos monarcas da Terra para estabelecerem um sistema de segurança colectiva:

Ó Governantes da terra! Reconciliai-vos para que não necessiteis mais de armamentos salvo na medida do que for necessário para a protecção dos vossos territórios e domínios. Acautelai-vos para não menosprezar o conselho do Omnisciente, o Fiel. Uni-vos, ó reis da terra, pois assim a tempestade da discórdia acalmar-se-á entre vós e os vossos povos encontrarão sossego, se sois dos que compreendem. Se alguém entre vós levantar armas contra outro, levantai-vos todos contra ele, pois isso não é senão justiça manifesta. (Súriy-i-Haykal, ¶181-182)

A orientação de Cristo sobre a conduta pessoal para com um inimigo exorta-nos a mostrar bondade, a retribuir o bem pelo mal feito, a dar a outra face e a “pôr de lado a espada”. Hoje, porém, uma tal conduta de um chefe de Estado em relação a uma nação agressora seria contraproducente. A orientação de Bahá’u’lláh para o conjunto das nações do mundo é a de se levantarem contra qualquer governo que ameace a paz – utilizando a força económica ou militar colectiva. Jesus dirigiu-Se ao indivíduo, enquanto Bahá’u’lláh Se dirigiu às nações e também ao indivíduo.

Se desejar mais informações sobre o plano Bahá’í para a paz global, encontrará a orientação de Bahá’u’lláh sobre o estabelecimento da paz resumida na notável mensagem de 1985 dirigida aos povos do mundo pela Casa Universal de Justiça - denominada A Promessa da Paz Mundial.

-----------------------------------
Texto original em inglês: Baha’u’llah: the “Spirit of Truth” Promised by Jesus Christ (www.bahaiteachings.org)


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Brent Poirier nasceu numa família católica e frequentou o seminário, antes de se formar na Loyola Marymount University. Advogado de profissão, tem trabalhado em escolas de verão bahá'ís em várias funções, inclusive como bibliotecário.