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domingo, 17 de agosto de 2025

sábado, 10 de maio de 2025

O que significa o “Regresso” de Cristo?

Por Christopher Buck.


Agora vamos falar sobre o regresso de Cristo — e ver se conseguimos descobrir o que a palavra “regresso” realmente significa. É literal ou simbólica?

Isto pode parecer uma pergunta disparatada. Porquê? Porque cerca de dois mil milhões de cristãos no mundo de hoje acreditam que o regresso de Cristo significa que o próprio Jesus Cristo regressará à Terra, derrotará Satanás e reinará durante 1000 anos. Vários cristãos propõem cenários diferentes para este drama do fim dos tempos, mas os elementos básicos são os mesmos.

Então porquê esta questão, especialmente se o regresso de Cristo é inquestionável para dois mil milhões de cristãos? Para reconsiderar o que realmente significa o “regresso” de Cristo, temos de nos afastar do entendimento universal dos cristãos no passado e no presente. Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma perspectiva diferente.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que uma das melhores formas de compreender o regresso de Cristo é compreender o “regresso” do profeta Elias. Qual é a ligação, perguntam você? É a própria noção de “regresso”.

Deixem-me contar-vos uma história de como cheguei a este entendimento. Embora mais tarde tenha obtido um doutoramento na área da religião da Universidade de Toronto em 1996 (graças ao apoio e incentivo da minha querida esposa, Nahzy), nem sempre fui um académico. Tornei-me Bahá'í quando tinha 22 anos, a 15 de dezembro de 1972. Tinha-me licenciado no início desse ano na Pacific Lutheran University (PLU) em Tacoma, Washington.

Tendo sido educado como cristão — temendo a Deus e a Satanás ao mesmo tempo — tinha algumas dúvidas persistentes sobre se Bahá’u’lláh era de facto o regresso de Cristo, como afirmam os Bahá’ís. Afinal, a salvação da minha alma estava em causa. Esta era uma questão de vida ou de morte para mim, espiritualmente falando.

Nessa altura, estava a ler o livro Respostas a Algumas Perguntas, no qual 'Abdu'l-Bahá responde a perguntas que lhe foram feitas por uma Baha’i no início do século XX. Eis o que li, agora numa nova tradução, no Capítulo 33:

O Regresso dos Profetas

Pergunta: Pode explicar o assunto do Regresso?

Resposta: Bahá’u’lláh apresentou uma longa e detalhada explicação sobre este assunto [no Livro da Certeza]. Leia-o e a verdade sobre este assunto tornar-se-á clara e manifesta. Mas já que levantou a questão, uma breve explicação será também aqui apresentada.

Começaremos as nossas observações com o texto do Evangelho. Está ali registado que, quando João, filho de Zacarias, apareceu e anunciou ao povo a vinda do Reino de Deus, perguntaram-lhe: "Quem és tu? És o prometido Messias?". Ele respondeu: “Não sou o Messias”. Então perguntaram-lhe: “És o Elias?” Ele respondeu: “Não sou”. [Cf. João 1:19–21.] Estas palavras demonstram claramente que João, filho de Zacarias, não era o prometido Elias.

Mas no dia da transfiguração no Monte Tabor, Cristo disse explicitamente que João, filho de Zacarias, era o Elias prometido. Em Marcos 9:11, lemos: “Foram então perguntar a Jesus: «Porque é que os doutores da lei dizem que Elias tem de vir primeiro?» Jesus respondeu: «É verdade que Elias vem primeiro preparar tudo. Mas porque será que as Escrituras dizem que o Filho do Homem há de sofrer muito e ser desprezado? Pois eu afirmo que Elias já veio e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como está nas Escrituras a respeito dele.»” E em Mateus 17:13 diz-se: “Os discípulos compreenderam então que Jesus se referia a João Baptista.”

Então, perguntaram a João Batista: “Tu és Elias?” e ele respondeu: “Não sou”, enquanto no Evangelho está escrito que João era o próprio Elias prometido, e Cristo também o afirmou claramente. Se João era Elias, porque é que disse que não era? E se não era Elias, porque é que Cristo disse que era?

A razão é que consideramos aqui não a individualidade da pessoa, mas a realidade das suas perfeições — isto é, as mesmas perfeições que Elias possuía tornaram-se reais também em João Baptista. Assim, João Baptista era o prometido Elias. O que está aqui a ser considerado não é a essência, mas os atributos. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 149–150)

Vamos analisar mais detalhadamente as provas por detrás da admirável explicação de ‘Abdu’l-Bahá’. No Evangelho de João, foram colocadas três questões distintas a João Baptista:

Questão (e resposta) nº 1:

E este é o testemunho de João, quando os judeus mandaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu? E confessou, e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo. (João 1:19-20)

Questão (e resposta) nº 2:

E perguntaram-lhe: Então quê? És tu Elias? E disse: Não sou. (João 1:21a)

Questão (e resposta) nº 3:

És tu profeta? E respondeu: Não… E perguntaram-lhe, e disseram-lhe: Por que baptizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? (João 1:21b, 25)

Estas três questões, duas das quais são mencionadas por ‘Abdu’l-Bahá no excerto anterior, surgem da expectativa, no tempo de Cristo, não de um Messias, mas de três messias: (1) o Rei messiânico (um governante como o Rei David); (2) o sacerdote messiânico (regresso de Elias); (3) e o profeta messiânico (o regresso de Moisés).

Isto é comprovado por evidências nos Manuscritos do Mar Morto (aproximadamente 150 a.C.– 68 d.C.), que falam do tempo futuro quando “o profeta virá, e os Messias de Aarão e de Israel”. (*)

A “cristologia” cristã primitiva — crenças sobre a identidade de Jesus — via Jesus como todos os três messias num só. Por outras palavras, Jesus era o rei, sacerdote e profeta messiânico combinados num só. Isto significa, na perspectiva das expectativas messiânicas na época de Jesus, que ele foi visto pelos seus primeiros discípulos como o “regresso” de Moisés, enquanto João Batista, segundo o próprio Jesus, foi o “regresso” de Elias: “E, se quereis dar crédito, este é o Elias que havia de vir”. (Mateus 11:14)

Por isso, deixem-me contar-vos o que aconteceu logo depois de ter terminado de ler a anterior explicação de ‘Abdu’l-Bahá: fiquei atordoado — completamente atónito! Esta profunda percepção espiritual sobre o que significa o “regresso” de Elias (e, portanto, de Cristo) foi tão surpreendente para mim que experimentei este espanto tanto no corpo como na alma. Depois de perceber de repente o que significa “regresso”, caí na minha cama e comecei a hiperventilar de surpresa e espanto.

Queria contar aos meus pais espirituais a minha descoberta pessoal ao vivenciar esta realização espiritual. Eram cerca das 2h da manhã; estava frio e húmido em Parkland, Washington (bairro onde se situa a PLU). Enquanto deambulava pelas ruas, coloquei as mãos sobre a cabeça e puxei-a com força para baixo, para não flutuar no ar! Sim, estava tonto. Mas, nessa altura, pensava que era mais leve do que o ar.

Sentia-me espiritualmente elevado num transporte místico.

Fui a casa dos meus pais espirituais. Atirei algumas pinhas macias à janela do quarto deles para os acordar. Eles não acordaram. Foi isso. Regressei ao meu humilde quarto alugado.

Ao contar esta história, espero que percebam o quão seriamente eu considerava para esta questão do significado do “regresso” de Cristo. (Eu ainda considero)

Portanto, para resumir, os ensinamentos Bahá’ís apresentam um novo entendimento do “regresso” de Cristo. Não é um regresso literal de Jesus Cristo. Porquê? Porque isso seria reencarnação — uma doutrina estranha ao Cristianismo, histórica e doutrinariamente.

Tal como João Batista, de acordo com a própria Bíblia, viria “no espírito e poder de Elias” (Lucas 1:17), Bahá’u’lláh veio “no espírito e poder” de Jesus Cristo; é nisto que acreditam os Bahá’ís.

Este entendimento sobre o “regresso” tem implicações profundas para perceber o que os Bahá’ís querem dizer quando se referem a Bahá’u’lláh como o “regresso” de Cristo.

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(*) NOTA: Os Manuscritos do Mar Morto (aproximadamente 150 a.C.–68 d.C.) falam do tempo futuro em que três messias aparecerão: ou seja, “o profeta vem, e os Messias de Aarão e Israel” (“Regra da Comunidade”, 1QS 9:9–11; ver “Antologia Messiânica”, 4QTestimonia (ou 4Q175 ou 4QTest) e paralelos).

Os textos bíblicos que comprovam esta tripla expectativa messiânica são os seguintes: (1) o Rei messiânico: Nm 24,15-17; (2) o Sacerdote messiânico: Dt 33,8-11; (3) o Profeta messiânico: Dt 18,18-19. (Ver John C. Poirier, “The endtime return of Elijah and Moses at Qumran” [O regresso de Elias e Moisés em Qumran, no fim dos tempos], Dead Sea Discoveries 10.2 (2003): 221-242, p. 223).

Embora haja certeza se os essénios que escreveram os Manuscritos do Mar Morto estavam realmente à espera do "regresso" do Rei David, eles certamente esperavam o "regresso" de Moisés e Elias.

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Texto original: The “Return” of Christ: What Does it Mean? (www.bahaiteachings.org)


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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuiu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

domingo, 20 de abril de 2025

Na Páscoa, consideremos a pergunta de Cristo: "E vocês, quem acham que eu sou?"

Por Christopher Buck.
 

Lembram-se quando Jesus fez a famosa pergunta: “Quem diz o povo que eu sou?” no Evangelho de Marcos, seguido da pergunta seguinte: “E vocês, quem acham que eu sou?

É claro que nenhum de nós testemunhou Jesus a fazer realmente estas perguntas - mas Jesus fez estas duas perguntas não só em Marcos 8:27-29, mas também nas suas passagens paralelas, em Mateus 16:13-16 e Lucas 9:18-20.

Na verdade, na sua essência, estas duas questões são a mesma questão, mas de uma perspectiva social (“as pessoas dizem”) e pessoal (“vocês dizem”).

Hoje, no Domingo de Páscoa, a pergunta convida à nossa reflexão mais profunda, como se Jesus a tivesse feito de novo a cada um de nós directamente.

O dia 30 de Março de 1997 foi um Domingo de Páscoa que nunca esquecerei. Poucos dias antes, um jornalista, editor de religião do The Ottawa Citizen, ligou-me e disse que estava a escrever um artigo de destaque para ser publicado no Domingo de Páscoa com o título: “Domingo de Páscoa: Como os outros o vêem: Jesus pergunta a todas as pessoas: ‘Quem é que as pessoas dizem que eu sou?’ Eis as respostas de vários não-cristãos.

Porque é que o jornalistra me ligou? Provavelmente porque, nessa época, eu era professor auxiliar na Universidade Carleton, em Ottawa, e era conhecido como membro da Comunidade Bahá’í, que não tem clero. Durante este período, eu era também estudante de doutoramento na Universidade de Toronto, mas tinha-me mudado para Ottawa, onde a minha querida esposa, Nahzy Abadi Buck, conseguiu um emprego como analista de informações.

Assim, escrevi o texto abaixo, que foi publicado no The Ottawa Citizen sob o título “Bahá’í e Jesus” (o título é do editor de religião, não é meu):

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Bahá'í e Jesus

O Dr. Christopher Buck é Bahá'í e professor de Religião na Universidade de Carleton. Ele escreve:

...Bahá’u’lláh, que fundou a Fé Bahá’í na Pérsia no século XIX e sofreu prisão e exílio pelas suas crenças [escreveu]:

“Sabei que quando o Filho do Homem entregou o espírito a Deus, toda a criação chorou num grande pranto. Ao sacrificar-Se, porém, uma nova capacidade infundiu-se em todas as coisas criadas. As suas evidências, como se testemunha em todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de vós. A sabedoria mais profunda que os sábios proferiram, o conhecimento mais vasto que qualquer mente desvendou, as artes que as mãos mais hábeis produziram, a influência exercida pelo mais poderoso dos governantes, são apenas manifestações do poder vivificador libertado pelo Seu Espírito transcendente, omnipresente e resplandecente.

Testemunhamos que quando Ele veio ao mundo, derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas. Através d’Ele, o leproso recuperou da lepra de perversidade e da ignorância. Através d'Ele o ímpio e rebelde foram curados. Através do Seu poder, nascido do Deus Todo-Poderoso, os olhos dos cegos abriram-se e a alma do pecador santificou-se.

A lepra pode ser interpretada como qualquer véu que se interpõe entre o homem e o reconhecimento do Senhor, seu Deus. Aquele que se deixa afastar d’Ele é de facto um leproso, que não será lembrado no Reino de Deus, o Poderoso, o Todo-Louvado. Testemunhamos que através do poder do Verbo de Deus todo o leproso foi purificado, toda a enfermidade foi curada, toda a debilidade humana foi banida. Ele é Quem purificou o mundo. Bem-aventurado o homem que, com um rosto radiante de luz, se volveu para Ele.

Esta afirmação é notável pois Bahá’u’lláh atribui a ascensão da civilização ocidental ao poder espiritual libertado pela paixão de Cristo na Cruz. As obras-primas da arte, as grandes obras da filosofia, as descobertas da ciência e até a ascensão das grandes potências na Europa do século XIX são atribuídas à influência de Cristo. Isto faz parte da teoria de Bahá’u’lláh sobre a civilização e do papel que Jesus Cristo desempenhou nela.

Em termos comparativos, esta parece-me ser uma cristologia bastante singular. Bahá'u'lláh tem uma cristologia muito elevada. Nas suas características básicas, difere pouco de uma perspetiva cristã, excepto que os Bahá’ís veem Cristo como Deus na natureza, mas não na essência. (Bahá'u'lláh propôs uma doutrina de Manifestação no lugar da doutrina cristã da Encarnação). Há ainda o facto de a cristologia de Bahá'u'lláh não ser exclusiva, pois reconhece a autenticidade e a grandeza de Muhammad, Zoroastro, Krishna e também do Buda. Ainda assim, Bahá’u’lláh atribui claramente uma enorme importância ao acontecimento de Cristo.

A Cruz é vista como um acontecimento cósmico, e a pessoa e a obra de Cristo são vistas como um ponto de viragem na história humana. A ligação de Bahá’u’lláh entre o acontecimento de Cristo e a história da civilização ocidental vai muito para além de qualquer noção de salvação pessoal no sentido tradicional, de tal modo que, no meu próprio entendimento, Bahá’u’lláh estende aquilo a que os teólogos sistemáticos chamam a ordem da salvação à própria civilização. Os Bahá'ís estão bastante preocupados com aquilo a que os teólogos chamam salvação mútua, que os Bahá'ís vêem como um complemento à salvação pessoal.

Falando pessoalmente, e não como académico, como ex-Cristão, descobri que fui capaz de levar a minha crença e amor por Cristo para a minha fé como Bahá’í. Os Bahá’ís consideram Bahá’u’lláh como aquele que foi predito por Cristo, pelo que não há realmente nenhuma razão para um Bahá’í desejar diminuir a grandeza de Cristo. Fazê-lo seria diminuir a grandeza de Bahá’u’lláh e violar a doutrina de Bahá’u’lláh da fraternidade das grandes figuras religiosas da história e a natureza acumulativa dos seus ensinamentos, a que os Bahá’ís chamam “revelação progressiva”.

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Olhando para trás, muitos anos mais tarde, hoje, a minha resposta ao convite do editor de religião do The Ottawa Citizen para apresentar uma perspetiva Bahá'í sobre a questão histórica, mas intemporal e perene de Jesus, seria provavelmente a mesma de antes, com esta reflexão pessoal adicional sobre uma profecia de Jesus no “Discurso da Despedida” (João, capítulos 14-17).

Todavia, digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei. E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. Do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado.

Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar. (Jo:16:7-14)

Na passagem citada no artigo em destaque no The Ottawa Citizen no Domingo de Páscoa, Bahá’u’lláh fala do impacto espiritual fortalecedor de Jesus, que deu origem à civilização ocidental (acreditando que li as palavras de Bahá’u’lláh e as entendi correctamente). Não há forma de Jesus ter sequer dado a entender este desenvolvimento futuro, que teria sido incompreensível para os discípulos imediatos de Cristo naquela época. Ao fazê-lo, Bahá’u’lláh cumpriu a profecia de Cristo: “Ele me glorificará”.

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Texto original: On Easter, Consider Christ’s Question: “Who Do You Say I Am”? (www.bahaiteachings.org)


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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 12 de abril de 2025

A Ressurreição – Através dos Olhos de Cristo

Por Alex Gottdank.


Alguém consegue imaginar um evento mais incrível e inspirador do que ver um ente querido ser trazido de volta à vida?

Considere-se, por exemplo, o quão espantadas devem ter ficado as pessoas no tempo de Cristo ao testemunhar alguns dos seus entes queridos regressarem à vida no exacto momento da crucificação de Cristo: “Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. A terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, que estavam mortos, ressuscitaram; e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.” (Mt 27:50-53)

A emoção e o interesse gerados por este incrível acontecimento terão tido um impacto profundo, não só nos judeus, mas também nos seus contemporâneos. No entanto, estranhamente, nenhuma fonte fora da Bíblia regista este fenómeno surpreendente, embora os santos que ressuscitaram tenham tido muito a dizer sobre a experiência da morte, com inúmeras pessoas ansiosas por ouvir e registar os seus relatos. No mínimo, os membros da família teriam passado histórias orais às gerações futuras, mas tais relatos não existem. Uma vez que não o fizeram, talvez devêssemos considerar a possibilidade de, em vez de detalhar uma ressurreição física, a Escritura descrever em linguagem figurada uma ressurreição espiritual — uma ressurreição em que os corações de alguns judeus santos foram influenciados pela mensagem e crucificação de Cristo para se levantarem dos túmulos da “morte espiritual” (descrença) para “renascer espiritualmente” ou serem “ressuscitados” como crentes n’Ele.

Além disso, se entendermos esta ressurreição como tendo uma natureza simbólica, o que significa isto sobre a natureza da própria ressurreição de Cristo?

Cristo profetizou: “Assim como Jonas esteve no ventre da baleia, três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da terra, três dias e três noites.” (Mt 12:40)

Estranhamente, o corpo físico de Cristo não passou “três noites no seio da terra”, pois a Bíblia diz que Cristo foi crucificado na sexta-feira e ressuscitou no domingo. Então, estaria Cristo a sugerir que o seu “corpo metafórico” seria ressuscitado? Se sim, o que poderá ser esse corpo?

O apóstolo Paulo equipara “o corpo de Cristo” aos crentes em Cristo:

Os muitos que somos formamos um só corpo em Cristo…” (Rm 12:5)

Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro.” (1 Cor 12:27)

Se o corpo ressuscitado de Cristo for realmente o conjunto dos crentes ressuscitados, então a profecia sobre a ressurreição de Cristo após três dias faz sentido, pois parece que os discípulos perderam a fé na quinta-feira à noite no Jardim do Getsémani e a recuperaram-na domingo - exactamente três dias e três noites depois. Por outras palavras, os crentes (o corpo de Cristo) estavam no seio da terra (espiritualmente mortos) durante aquele período de três dias, como exemplificado pela traição de Judas, a negação de Pedro e os discípulos fugindo com medo no momento da prisão e crucificação de Cristo. George Townshend, arcediago da Igreja Anglicana, explica a extensão do desânimo dos discípulos:

A crucificação lançou-os no… desespero profundo… Durante três dias, a causa e a realidade de Cristo (os Seus Ensinamentos, bençãos, perfeições e poder espiritual) permaneceram nos seus corações, mortos e sepultados. Quando, passados três dias, os discípulos se tornaram seguros e firmes, e começaram a servir a causa de Cristo, e decidiram espalhar os ensinamentos divinos... a Realidade de Cristo tornou-se resplandecente e encontrou vida. (The Heart of the Gospel, pp. 140-141)

Assim, a narrativa da ressurreição de Cristo não descreve literalmente o que aconteceu, mas mostra que o corpo de Cristo, os crentes, perderam brevemente a sua fé e depois recuperaram-na, tornando-se tão fiéis e comprometidos que espalharam a mensagem de Cristo por todo o mundo. Os ensinamentos Bahá’ís deixam claro este importante ponto simbólico:

A Causa de Cristo era como um corpo sem vida; e quando, passados três dias, os discípulos se tornaram seguros e firmes, e começaram a servir a Causa de Cristo, e decidiram espalhar os ensinamentos divinos, pondo em prática os Seus conselhos e levantando-se para servi-Lo, a Realidade de Cristo tornou-se resplandecente e a Sua generosidade apareceu; a sua religião encontrou vida; os Seus ensinamentos e as Suas advertências tornaram-se evidentes e visíveis. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, p. 104)

O Homem Rico e Lázaro, por Frans Francken d. J. (1581 - 1642)

Alguns poderão argumentar que este entendimento enfraquece a base da fé cristã, que se baseia na crença de que Cristo ressuscitou fisicamente. Em resposta, considere-se uma das parábolas mais desafiadoras, onde Cristo diz que a ressurreição física não serve de base para a fé.

A parábola de Cristo descreve o destino de um homem rico e de um mendigo depois de morrerem. O mendigo, Lázaro, obtém conforto de Abraão no céu, enquanto o homem rico lamenta a sua condição no inferno, implorando a Abraão que envie um Lázaro ressuscitado aos seus irmãos, para que não acabem no inferno como ele. Abraão responde: “Têm Moisés e os profetas; que eles [os irmãos] os ouçam”. O homem rico replica: “Não, pai Abraão; mas se alguém dentre os mortos for ter com eles, irão arrepender-se”. Abraão responde: “Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.” (Lc 16:19-31)

Em resumo, o homem rico deseja que os seus irmãos alcancem a fé e evitem o tormento do inferno. Acredita que uma visita do ressuscitado Lázaro garantiria a sua fé. Cristo, porém, explica que se os irmãos do homem rico não foram persuadidos pela Palavra de Deus, a ressurreição dos mortos não teria poder para produzir tal influência. Na sua essência, Cristo realça que a “fé” deve repousar seguramente e somente na Palavra de Deus, e descarta o poder das ressurreições físicas milagrosas.

Assim, no essencial, a realidade da ressurreição de Cristo é espiritual, e as Escrituras transmitem-na usando linguagem figurada. Claramente os discípulos perderam a fé em Cristo durante três dias, mas posteriormente esta reacendeu-se, e transformou-se numa chama de fogo que nunca poderia ser apagada. Depois, os seguidores de Cristo espalharam a Sua mensagem redentora, a Sua Palavra transformadora, por todo o mundo, abençoando todos os que a abraçaram.

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Texto original em inglês: The Resurrection–Through Christ’s Eyes (www.bahaiteachings.org)


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Alex Gottdank é um Bahá’í de origem judaica e cristã, autor do livro Preparing for Christ’s New Name, uma análise da natureza do regresso de Cristo. Como pioneiro bahá'í, ele foi membro da Assembleia Espiritual Nacional das Western Caroline Islands entre 1988 e 2000. Actualmente é professor de história em San Juan Capistrano, na Califórnia.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Jesus é Deus? A resposta Bahá'í

Por Maya Bohnhoff.


Ela não era realmente Cristã.” Esta foi a conclusão de um encontro que a minha filha em idade universitária teve com um amigo Cristão, Eli, que conversou com ela e com vários outros estudantes Bahá’ís.

A pessoa em questão (“Ela”) era eu.

A opinião surgiu da curiosidade do Eli sobre como a minha filha se tornou Bahá’í. Ela explicou que nasceu numa família Bahá’í, mas que a sua mãe tinha vindo para a Fé a partir de uma formação Cristã.

O Eli perguntou “Qual era igreja?

A resposta foi “muitas” por causa da forma como a minha mãe se sentia ao ouvir mensagens do púlpito sem fundamento no texto bíblico. Quando eu era criança, a nossa família frequentou igrejas baptistas, católicas, presbiterianas, metodistas, episcopais, congregacionalistas e não denominacionais.

Depois o Eli perguntou: “As igrejas dela ensinavam que Jesus era Deus?

A minha filha disse-lhe que pensava que as minhas igrejas ensinavam que Jesus Cristo era o Filho de Deus, e isso provocou a resposta simples e imediata de Eli de que eu nunca tinha sido realmente Cristã.

Alguns de vós podem pensar que deveria ser uma resposta fácil e imediata. Ou Jesus é Deus, ou não é Deus; e podem pensar que acreditar numa ou noutra é o critério para a salvação. Mas a realidade é que esta certeza binária só existe na distinção entre a realidade espiritual infinita de Deus e a nossa capacidade de a compreender do nosso ponto de vista muito finito, físico – atrevo-me a dizer, materialista.

A resposta que eu teria dado ao Eli se ele me tivesse feito a pergunta directamente é esta: na medida em que podemos compreender Deus, Jesus Cristo é Deus. Na medida em que Deus está santificado acima das limitações humanas, Jesus não é Deus… mas reflecte perfeitamente a realidade divina de Deus porque o seu próprio Espírito — o Espírito que fala no Livro do Apocalipse — é gerado por Deus.

Vejamos a Bíblia para validar isto, começando pelo que Cristo nos diz no Evangelho de João sobre o tipo de Ser que Deus é: “Deus é espírito e os que o adoram devem fazê-lo no Espírito e em verdade.” (4:24)

A Bíblia afirma também na Epístola aos Hebreus (cap. 1) que embora apareça como ser humano, Jesus Cristo é o filho e “imagem expressa” deste Espírito:

Nos tempos antigos, Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras aos nossos antepassados pelos profetas. Mas agora, que o fim está perto, falou-nos por meio do seu Filho. Foi por meio dele que Deus criou o Universo… Ele é o reflexo da glória de Deus e a imagem perfeita da sua pessoa... ele tomou o seu lugar no trono celeste à direita da majestade divina.

A maioria das traduções portuguesas da Bíblia diz que Cristo é “o reflexo da glória de Deus”. Não é uma descrição que sugira sequer que Deus, a derradeira realidade espiritual, deixou o reino espiritual e desceu literalmente a um corpo humano, ou que o Infinito se tornou finito. Na verdade, todas as traduções mantêm Deus no “céu” ao descreverem Cristo como um selo, uma marca, uma expressão, um reflexo do Espírito de Deus em forma humana.

Quando fui confrontada com a Fé Bahá'í aos 19 anos, naturalmente refugiei-me nas minhas próprias Escrituras Cristãs para lidar com as suas implicações. Fiquei impressionada com a forma como Bahá’u’lláh explicou aquilo que o autor da Epístola aos Hebreus lutou por captar – a natureza divina, mas humana, de Cristo. Eis uma dessas passagens, do Livro da Certeza de Bahá’u’lláh:

Assim, estando a porta do conhecimento do Ancião dos Dias fechada perante a face de todos os seres, a Fonte da graça infinita… fez surgir aquelas Joias luminosas da Santidade vindas do reino do espírito, na forma nobre do templo humano, e manifestarem-se a todos os homens, para pudessem transmitir ao mundo os mistérios do Ser imutável... Estes Espelhos santificados, estes Alvoreceres da antiga glória, são, cada um e todos, os Expoentes na terra d’Aquele que é o Orbe central do universo, a Sua Essência e o Seu Propósito derradeiro. Dele provêm os seus conhecimentos e o poder; d’Ele deriva a sua soberania. A beleza dos seus semblantes é apenas um reflexo da Sua imagem, e a Sua revelação, um sinal da Sua glória imortal. … Estes Tabernáculos da Santidade, estes Espelhos primordiais que reflectem a luz da glória inextinguível, são apenas expressões d’Aquele que é o Invisível dos Invisíveis. Com a revelação dessas Joias de virtude Divina todos os nomes e atributos de Deus, como conhecimento e poder, soberania e domínio, misericórdia e sabedoria, glória, bênção e graça, tornam-se manifestos. (¶106, ¶110)

Aqui, Bahá'u'lláh descreve os Eleitos que Deus envia para nos guiar como espelhos perfeitos apontados directamente para a Luz Primordial, reflectindo a realidade espiritual de Deus de tal forma que possamos reconhecê-la, e voltar os espelhos dos nossos próprios corações para ela. O agente pelo qual esta Luz Grandiosa se reflecte no espelho de carne e sangue é o Espírito Santo.

Com esta descrição, Bahá’u’lláh afirma as palavras que Cristo e os Seus discípulos usaram para explicar a união da divindade e da humanidade que Ele representava. No Jardim do Getsémani, Cristo orou ao Seu divino Pai com estas palavras: “Manifestei o Teu nome aos homens que do mundo Me deste; eram Teus, e Tu mos deste, e guardaram a Tua palavra.” (Jo 17:6)

E na 2ª Epístola aos Coríntios, o apóstolo Paulo também escreveu sobre esta relação entre Deus e Cristo:

Ora o Senhor Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Mas, todos nós, com cara descoberta, refletindo, como um espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor. (3:17-18)

A mensagem de Paulo é clara: ao contemplar a glória de Deus no espelho de Jesus Cristo, os próprios crentes são transformados em reflectores (embora imperfeitos) das qualidades divinas de Cristo. Esta é a mesma analogia que Bahá’u’lláh sobre o “mistério” da manifestação divina: o espelho humano reflecte a glória do Espírito que é Deus.

Chegamos agora a uma diferença crucial na forma como o Eli e eu entendemos a relação de Cristo com Deus. Eli acredita, como eu já acreditei, que o Espírito de Cristo se manifestou apenas uma vez em toda a tormentosa história da humanidade. Manifestou-Se apenas numa pequena região capturada rapidamente pelas garras do Império Romano. Manifestou-Se por um breve período de três anos entre milhões de anos. Apenas alguns indivíduos foram agraciados com a Sua presença. Aqueles que viviam outras partes do mundo – Índia, Américas, Europa e Ásia – viveram e morreram nas trevas, fora do alcance da luz de Cristo.

Pior do que isso: não receberam qualquer manifestação do Ser a quem Bahá’u’lláh chama “o Orbe Central do Universo”, e a quem Jesus Cristo retrata como o Pai amoroso e omnipotente de todos, e foram deixados a inventar os seus próprios deuses, e por esse motivo as suas almas foram para o inferno (conforme me ensinaram). Isto, apesar do facto de que o seu Grande Espírito ou Espírito Supremo ou Ahura Mazda ou o Absoluto ou Aten-Amen-Ra ou Allah terem uma notável semelhança com o Deus que, por qualquer razão, não os guiou nem Se manifestou a eles.

Esta foi a minha grande questão sem resposta, que levei comigo de igreja em igreja. Era uma questão que colocava o Deus que Cristo revela no Evangelho de Mateus (cap. 7) contra o Deus do púlpito; e isso perturbava-me, perseguia-me: Como poderia o Deus que Cristo revelou fazer o que uma tantos pastores e sacerdotes afirmaram que Ele tinha feito – privar milhões dos Seus filhos humanos da generosidade da Sua palavra, da Sua orientação e do Seu amor porque nasceram no lugar errado e num momento errado?

Penso que esta questão merece uma resposta.

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Texto original: Is Jesus God? A Baha’i Answers (www.bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 12 de agosto de 2023

Jesus fez muitos milagres. E Bahá’u’lláh fez milagres?


Os textos e as tradições de todas as religiões estão repletos de histórias de milagres atribuídos aos seus Fundadores e a outras figuras sagradas. As vidas de Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda e Muhammad estão tecidas com milagres extraordinários. Mas serão essas narrativas verdadeiramente convincentes sobre o seu poder divino?

Curiosamente, a Bíblia sugere que os milagres por vezes podem levar à descrença, e não à fé. Nos seus textos está a narrativa sobre como o Faraó, quando confrontado com os milagres de Moisés e Aarão, ordenou que os seus mágicos replicassem cada um desses milagres, aparentemente para provar que ele podia igualar o poder de Deus. E mesmo quando os seus homens já não conseguiam imitar os milagres divinos, o Faraó permaneceu firme no seu desafio, continuando a resistir à Vontade de Deus. (Êxodo 7:10ss)

Apesar da Bíblia referir milagres realizados por feiticeiros, mágicos, espíritos demoníacos e falsos profetas, é fascinante que os Cristãos ainda dêem importância significativa a esses eventos milagrosos.

A história da Fé Bahá'í é rica em relatos de eventos que podem ser considerados milagres realizados por Bahá'u'lláh e pelo Báb, os Fundadores da Fé. No entanto, os Bahá'ís, seguindo o pedido explícito de Bahá'u'lláh, não dão importância a estes eventos, nem os usam para propagar a sua Causa espiritual.

Rogamos aos Nossos bem-amados que não manchem a orla das Nossas vestes com o pó da falsidade, nem permitam que referências ao que consideram milagres e prodígios rebaixem a Nossa condição e dignidade, ou desfigurem a pureza e a santidade do Nosso nome. (Epístola ao Filho do Lobo, ¶58)

O raciocínio é simples: os milagres físicos realizados por um Profeta Divino têm significado apenas para aqueles que os testemunham presencialmente. Para outros, esses relatos podem ser rejeitados como mero folclore ou truque astuto, semelhante aos actos impressionantes realizados por ilusionistas qualificados na televisão e nos espectáculos em palco.

Bahá'u'lláh explica que os Mensageiros de Deus, tendo o conhecimento e o poder de Deus, podem realizar milagres físicos, se assim o desejarem. No entanto, a maioria dos milagres nas Escrituras são simbólicos, representando eventos espirituais. Bahá'u'lláh enfatiza que o milagre mais notável de um Profeta Divino é sua capacidade de transformar os corações humanos - do negativo para o positivo, do ódio para o amor transbordante, e dos interesses mundanos para o crescimento espiritual.

Se Jesus tivesse executado apenas milagres físicos, sem transmitir os Seus ensinamentos espirituais transformadores, poder-se-ia questionar se a Sua vida tinha causado alguma transformação significativa e duradoura no mundo. Jesus enfatizou a importância dos Seus ensinamentos espirituais sobre os milagres físicos quando declarou:

O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita: as palavras que eu vos disse são espírito e vida. (João 6:63)

Durante a sua existência terrena, os Mensageiros de Deus muitas vezes parecem ter uma influência mínima nas sociedades que os rodeiam. Mesmo os que não são martirizados, a maioria dos Profetas chega ao fim das suas vidas com aparente modéstia e humildade. No entanto, quando, em retrospectiva, examinamos as civilizações (com as suas notáveis artes, literatura, música) que surgiram inspiradas por essas Figuras eminentes e pelos Seus ensinamentos, e consideramos os milhões de pessoas que ao longo dos séculos que viveram e morreram reverênciando os Seus Nomes, percebemos que estamos realmente testemunhando milagres!

A única força capaz de transformações tão profundas nas mentes e nos corações é o poder das Palavras e dos Ensinamentos Divinos dos Manifestantes de Deus. Nenhuma outra força - sejam leis, punições, investimentos ou mesmo milagres físicos - pode efetuar mudanças tão extensas e impactantes nos indivíduos e nas sociedades.

‘Abdu’l-Bahá afirma o seguinte:

Não desejo mencionar os milagres de Bahá'u'lláh, pois talvez se possa dizer que são tradições, sujeitas tanto à verdade quanto ao erro, como os relatos dos milagres de Cristo, no Evangelho, que nos chegaram através dos apóstolos, e não de qualquer outra pessoa, e são negados pelos judeus. Se bem que, se desejasse mencionar os actos sobrenaturais de Bahá'u'lláh, eles são numerosos; eles são reconhecidos no Oriente e até mesmo por alguns não-Bahá'ís. Mas essas narrativas não são provas e evidências decisivas para todos; o ouvinte talvez possa dizer que esse relato pode não estar de acordo com o ocorrido, pois é sabido que outras seitas contam milagres realizados pelos seus fundadores. Por exemplo, os seguidores do bramanismo relatam milagres. Com que evidência podemos saber que aqueles são falsos e que estes são verdadeiros? Se estas são fábulas, as outras também são fábulas; se estes são geralmente aceites, também os outros são geralmente aceites. Consequentemente, estes relatos não são provas satisfatórias. Sim, os milagres são provas apenas para a testemunha ocular, e mesmo ela pode considerá-los não como um milagre, mas como um encantamento. Feitos extraordinários também foram relatados sobre alguns mágicos.

Resumidamente, quero dizer que muitas coisas maravilhosas foram feitas por Bahá'u'lláh, mas não as relatamos, pois não constituem provas e evidências para todos os povos da terra, e não são provas decisivas mesmo para aqueles que as viram: eles podem pensar que são apenas encantamentos.

Além disso, a maioria dos milagres dos Profetas que são referidos tem um significado interior. Por exemplo, no Evangelho está escrito que no martírio de Cristo prevaleceu a escuridão, e a terra tremeu, e o véu do Templo rasgou-se em dois de alto a baixo, e os mortos saíram dos seus túmulos. Se esses eventos tivessem acontecido, eles teriam sido realmente impressionantes, e certamente teriam sido registados na história dos tempos. Eles ter-se-iam tornado a causa de muitos problemas de coração. Ou os soldados teriam tirado Cristo da cruz, ou teriam fugido. Esses eventos não são relatados em nenhuma história; portanto, é evidente que não devem ser tomados literalmente, mas como tendo um significado interior.

O nosso propósito não é negar esses milagres; apenas pretendemos dizer que eles não constituem provas decisivas e que têm um significado interior.

(Respostas a Algumas Perguntas, cap. 10)

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Texto original: Jesus performed many miracles. What about Bahá’u’lláh, did He do any miracles? (www.upliftingwords.org)

sábado, 26 de setembro de 2020

Conhecer o Novo Nome de Cristo

Por Maya Bohnhoff.


Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome. (Apocalipse 3:12)
Este excerto do texto bíblico apresenta-me uma peça principal do quebra-cabeça divino. Em várias ocasiões, Jesus fala de futuros profetas ou defensores - a palavra grega é paráclito - ou fala de Seu próprio Regresso para Se sentar no Seu "trono glorioso". No excerto anterior do Livro do Apocalipse, o Espírito de Cristo fala do Seu regresso com um novo nome. É um excerto que nunca vi ser explicado adequadamente por um teólogo. Penso que, em parte, isso se deve ao facto de apresentar claramente uma ideia - que o Espírito de Cristo diz que Ele regressará com um nome diferente de 'Jesus' - que está em contradição total com a doutrina da exclusividade da igreja.

Vários excertos dos Evangelhos convenceram-me que Jesus nunca pretendeu que a Sua manifestação, ocorrida há 2000 anos, fosse entendida como a única para todo o sempre. Já partilhei alguns desses excertos em artigos anteriores, mas Mateus 7 é um dos meus favoritos. Todo o capítulo faz uma afirmação profunda sobre a natureza de Deus, mas eu refiro-me especialmente às conhecidas frases em que Cristo revela a natureza de Deus como Pai:
Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á. Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem? (Mateus 7:7-11)
Considerando a natureza de Deus, conforme revelada nas palavras de Cristo – o Deus que dá aos Seus filhos de acordo com as suas necessidades – será razoável acreditar que a Sua revelação terminou há 2000 anos?

Após estas palavras, Cristo pronuncia a Regra de Ouro, salienta como é difícil pô-la em prática, e depois descreve como distinguir os profetas verdadeiros dos falsos – pelos seus “frutos”. Se não existissem profetas verdadeiros, porque teria Ele necessidade de descrever como distingui-los dos falsos?

A Cristandade fragmentou-se em milhares de grupos e seitas, cada uma acreditando ter a verdade (algumas pensavam ter o exclusivo da verdade), cada uma tentando responder a questões que Cristo nunca abordou, pois não se colocavam na Sua época – coisas que Ele afirmou que os discípulos não poderiam suportar, mas que seriam reveladas por um futuro defensor. Passaram mais de dois mil anos sobre o advento de Jesus Cristo. Podemos acreditar que Deus ficou silencioso desde então, apesar de termos procurado continuamente a Sua guia?

Cristo descreve a natureza de Deus ao pedir-nos que consideremos o nosso próprio comportamento para com as crianças que amamos. Imaginemos que temos várias crianças. Será que daríamos alimentos, roupas, carinho, educação e amos apenas a algumas crianças e deixaríamos outras famintas, nuas, ignorantes e carentes? Quem daria apenas os restos de uma refeição a um filho? Penso que todos concordamos que um pai que fizesse isso seria negligente, abusivo ou pior. No fundo, Cristo pergunta-nos: se nós que somos meramente humanos não fazíamos isso, poderemos imaginar o que faria o nosso Pai celestial?

Será que um progenitor humano falaria apenas uma vez a filho de dez anos e depois nunca mais lhe falaria, nem lhe daria qualquer assistência até ao momento em que estivesse no leito de morte? Podemos imaginar o que faria o nosso Pai celestial?

Jesus refere directamente a natureza da revelação contínua de Deus à humanidade em João 10:14-16:
Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor.
Para mim este excerto das Escrituras foi a gota final que me levou a acreditar que Bahá’u’lláh – com a Sua mensagem de unidade – era o Bom Pastor de que Jesus falou, que Ele tinha a mesma voz que Cristo, e que Ele tinha o novo nome referido no livro do Apocalipse.

Pedro diz que Deus tem falado à humanidade “desde o começo do mundo”. Podemos realmente imaginar que o Deus revelado por Jesus ficaria em silêncio até ao fim do mundo?

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Texto original: Learning Christ’s New Name (www.bahaiteachings.org)


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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.


sábado, 14 de dezembro de 2019

Porque é que eu acredito que Cristo regressou

Por Vahid Houston Ranjbar.


Há muito tempo que as pessoas aguardam o regresso de Cristo ou o Dia do Juízo Final; isto significa que qualquer pretensão de cumprimento dessas profecias é vista com uma dose saudável de cepticismo.

Temos boas razões para esse cepticismo: muitas previsões de cataclismos, afirmações fantásticas, e pretensos messias que congregam seguidores ao seu redor e satisfazem com práticas e crenças bizarras. No entanto, na maioria das vezes, nada acontece.

Como Bahá’í, estou plenamente convicto que este momento extraordinário ocorreu em meados do século XIX.

Na verdade, vou ao ponto de dizer que o regresso de Cristo é quase óbvio para quem quer que examine as circunstâncias, a história e o carácter de Bahá’u’lláh, do Báb e dos Seus seguidores. O evento em si nada tem a ver com as visões espectaculares de estrelas a cair do céu e de um ser luminoso a descer fisicamente à Terra, como algumas pessoas imaginam. Este tipo de imagens populares e fantasistas fazem parte do entendimento comum sobre este evento – uma interpretação literal e não-metafórica do Novo-Testamento.

Longe deste cenário fantástico, os acontecimentos que rodeiam o nascimento da Fé Bahá’í são compreensíveis – pelo menos superficialmente.

Começou em 1844, quando um comerciante com 24 anos de idade, residente na cidade de Shiraz, na Pérsia, assumiu o título de “O Báb” – uma palavra árabe que significa “Porta”. Ele afirmou ser o Prometido do Islão Xiita e disse que vinha preparar o caminho de alguém ainda maior, tal como João Baptista fizera em relação a Cristo. Ele declarou que a Sua revelação anunciava o advento de “Aquele que Deus tornará Manifesto”, o mensageiro divino que cumpriria as profecias de todas as religiões do passado.

Surpreendentemente, o breve e tumultuoso ministério do Báb tem muitos paralelismos com a vida de Cristo. Ele reuniu ao seu redor muito discípulos devotos, realizou milagres (apesar do Báb ter proibido que fossem atribuídos milagres à Sua pessoa), pregou contra as instituições clericais corruptas e foi executado em 1850 por um governo que temia a rápida disseminação da sua Fé. Mais tarde, em 1863, um jovem da nobreza persa com o título “Bahá’u’lláh” – que significa “a glória de Deus” – que tinha apoiado a causa do Báb e sido encarcerado e exilado, declarou ser Ele o prometido pelo Báb:
Ó povos do mundo! O Sol da Verdade ergueu-se para iluminar toda a terra e espiritualizar a comunidade do homem. Louváveis são os seus resultados e frutos, abundantes são as evidências sagradas que provêm da sua graça. Isto é misericórdia perfeita e a mais pura dádiva; é luz para o mundo e todos os seus povos; é harmonia e camaradagem, amor e solidariedade; de facto, é compaixão e unidade, e deixarmos de nos vermos como estranhos; é sermos um, em completa dignidade e liberdade, com toda a terra. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of ‘Abdu’l-Bahá, p. 1)
Esta história notável – com heróis que preenchem a história inicial da Fé Bahá’í – contém os grandes arquétipos que permanecerão durante eras na consciência humana; são a base de mitos e lendas.

A história das religiões Babi e Bahá’í inclui heróis como Tahirih, considerada a primeira mártir moderna pela emancipação feminina; Mulla Husayn, o estudioso, investigador, primeiro discípulo e combatente heróico pela Causa do Báb; e, mais tarde, ‘Abdu’l-Bahá - o filho mais velho de Bahá’u’lláh, nascido na mesma noite em que o Báb fez a Sua declaração, em 1844 - cuja vida personifica e própria essência dos ensinamentos de Cristo. Vale a pena ouvir a narrativa das suas histórias, nem que seja apenas pelo drama e felicidade que evidenciam. Estas almas notáveis parecem ter sido esculpidas em mármore, enquanto estiveram neste mundo mortal. Toda uma geração de iranianos de todas as classes sociais foi afectada pela força das revelações do Báb e de Bahá’u’lláh; milhares deram as suas vidas preferindo não renunciar à sua nova fé.

Frequentemente, quando falo com pessoas com tendência mais fundamentalistas, o seu cepticismo centra-se em torno da natureza não-extraordinária do advento de Bahá’u’lláh – e do princípio Bahá’í de aceitação de outras dispensações religiosas como parte do plano de Deus. Mas se pensarmos um pouco sobre qualquer uma destas objecções, elas desmoronam-se sob uma análise lógica.

Primeiramente, suponhamos que, de facto, aparecia mesmo um ser luminoso descendo dos céus e afirmando ser Cristo. Se este acto aparentemente miraculoso fosse a característica distintiva do salvador, então como teríamos a certeza de que ele era o verdadeiro salvado, tendo em conta aquilo que sabemos sobre as possibilidades da tecnologia humana? Como dizia o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. A possibilidade simples mortais tecnologicamente avançados criarem um tal espectáculo de efeitos especiais poderia ser posta de parte?

Se a capacidade para criar fenómenos físicos miraculosos é a medida para aceitar a autoridade espiritual, então não deveriam ser os cientistas os mais venerados, pois eles são os mais bem-sucedidos nesta área? Se lermos os Evangelhos nesta perspectiva, torna-se óbvio que o principal poder atribuído a Cristo e a base da Sua autoridade se baseiam nos atributos não físicos do amor, da bondade e compaixão que Ele manifestava – e não em supostos milagres que ele realizava.

As maravilhas físicas que a Bíblia descreve, podem ter alguma faceta histórica, mas são mais importantes se entendidas pelo seu conteúdo metafórico. Repetidamente, a espiritualidade é colocada acima da aparência física do mundo. Então faz sentido, que a realização ou o surgimento de “maravilhas físicas” não podem ser usadas como prova para justificar ou rejeitar pretensões.

Por outro lado, parece-me lógico que se Cristo regressou, Ele será o juiz final para decidir se as outras religiões são ou não inspiradas por Deus. É óbvio que o juízo humano sobre este assunto não poderá superar o Seu. Por exemplo, quando durante o Seu primeiro advento, Cristo quebrou o sábado ou proclamou a sua Divindade, aqueles que O rejeitaram com base nisso tiveram alguma razão? No fundo, aqueles que O rejeitaram e O crucificaram fizeram-no porque os Seus ensinamentos não pareciam estar de acordo com o seu entendimento das Escrituras.

Se um Cristão racional levar a sério a promessa do regresso de Cristo, não pode, de forma alguma, ter a arrogância de pensar que compreende a Escritura melhor que Deus ou o Seu Mensageiro. Primeiramente, deve libertar-se de ideias pré-concebidas sobre o que Ele dirá ou ensinará; caso contrário, irá rejeitá-Lo exactamente pelas mesmas razões que Ele foi rejeitado no Seu primeiro advento. Quando estiver livre desses preconceitos, pode reflectir na história e circunstâncias do nascimento da Fé Bahá’í e perceber como cumprem esta promessa de regresso.

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Texto original: Why I Believe Christ Has Returned (www.bahaiteachings.org)

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Vahid Houston Ranjbar é um físico que trabalha no Relativistic Heavy Ion Collider no Brookhaven National Labs.

sábado, 13 de julho de 2019

Eu sou...


No Evangelho de João, Jesus fala mais de Si próprio do que nos Sinópticos. Existem sete afirmações do tipo “Eu sou…” em que Jesus fala de Si próprio de forma simbólica. Todas estas afirmações descrevem Jesus como um caminho para Deus e para a vida eterna. Existem outros excertos no Evangelho de João em que Jesus afirma simplesmente “Eu sou”.

  • Eu sou o pão da vida (6:35)
  • Eu sou a luz do mundo (8:12)
  • Eu sou a porta (das ovelhas) (10:7,9)
  • Eu sou o bom Pastor (10:11,14)
  • Eu sou a ressurreição e a vida (11:25)
  • Eu sou o caminho, a verdade e a vida (14:6)
  • Eu sou a videira verdadeira (15:1)

É interessante notar que Bahá’u’lláh também Se descreve de forma simbólica. Aqui ficam alguns exemplos:

  • Eu sou o sol da Sabedoria e o Oceano do Conhecimento. Eu animo o débil e revivifico o morto. Eu sou a Luz que guia e ilumina o caminho. Eu sou o Falcão real no braço do Omnipotente. (Tabernacle of Unity, 1.14)
  • Eu sou Aquele Que a língua de Isaías enalteceu, Aquele com Cujo nome a Torá como o Evangelho se adornaram. (The Summons of the Lord of Hosts, ¶164)
  • Eu sou a Fidedignidade, e a sua revelação, e a sua beleza. Recompensarei quem quer que se ligue a Mim, e reconheça a Minha condição e posição, e se segure firmemente à Minha orla. Eu sou o mais grandioso ornamento do povo de Bahá, e a vestimenta da glória para todos os que estão no reino da criação. Eu sou o instrumento supremo para a prosperidade do mundo e o horizonte da confiança para todos os seres. (Tablets of Bahá’u’lláh, p.38)
  • Em verdade, Eu sou Aquele Que exorta com justiça. (Tablets of Bahá’u’lláh, p.78)
  • Nesta condição, se Ele Que é a Personificação do Fim dissesse: “Em verdade Eu sou o Ponto do Princípio”, Ele, de facto, estaria a dizer a verdade. (Gems of Divine Mysteries, ¶40)
  • Eu sou a verdadeira Fé de Deus entre vós. Acautelai-vos para não Me negarem. Deus manifestou-Me com uma luz que envolveu todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra. (Epistle to the Son of the Wolf, p.96)
  • Eu sou a Donzela do Céu, que permanece no centro do coração do Paraíso, oculta por trás do véu do Todo Misericordioso e guardada dos olhos dos homens. (Days of Remembrance, Súriy-i-Qalam, ¶17)

Podemos encontrar uma formulação semelhante nas Escrituras do Báb:

O Senhor, na verdade, inspirou-Me: Em verdade, em verdade, Eu sou Deus, Aquele além de quem não há outro Deus, e Eu sou de facto o Ancião de Dias...” (Selections from the Writings of the Bab, Chapter LVIII)

E sobre estas formas como os Manifestantes De descrevem a Si próprios, Bahá'u'lláh afirma que todas as definições simbólicas são aplicáveis a qualquer um dos Mensageiros de Deus:

Se algum dos Manifestantes de Deus, que abrangem tudo, declarasse: “Eu sou Deus!”, Ele, certamente, diria a verdade, e nenhuma dúvida haveria sobre isso. Pois tem sido repetidamente demonstrado que através da sua Revelação, dos seus atributos e nomes, a Revelação de Deus, os Seus nomes e os Seus atributos, manifestam-se no mundo. Assim, Ele revelou: “Aqueles dardos eram de Deus e não Teus!” E Ele também disse: “Em verdade, os que te prometeram lealdade, prometeram lealdade a Deus.” E se algum deles pronunciasse a frase: “Sou um Mensageiro de Deus,” Ele também teria dito a verdade, a indubitável verdade. (Kitab-i-Iqan, ¶196)

Uma epístola recentemente traduzida pelo Centro Mundial Bahá’í, a identidade de Bahá’u’lláh (e de todos os Manifestantes de Deus) também é repetidamente afirmada num paradoxo místico e poético com recurso à expressão “Eu sou…”:
Ele é.

Ó tu que foste atingido pela dor da separação depois de teres alcançado o teu objetivo! Eu sou Aquele que não hesita em criar o afastamento. Eu sou Aquele que não tem medo de causar a separação.

Se desejas conhecer-Me, sabe que Eu sou Aquele que impede aqueles que anseiam por Mim de alcançarem a Minha santa presença, e os impede de ter acesso ao lugar do Meu trono. Eu sou Aquele que consome os corações dos amantes ardentes no fogo da separação, e os abandona no deserto do mundo. Eu sou Aquele que não responde quando é invocado, e não dá ouvidos quando é chamado à lembrança. Eu sou Aquele que na Sua riqueza não ouve as lamentações dos pobres, e na Sua glória não olha para os fracos e miseráveis. Assim é quando estou sentado no trono do Meu nome, o Que Tudo Subjuga.

Mas quando estou estabelecido no trono do Meu nome, o Todo-Misericordioso, guio os rebeldes para as águas vivas da Minha presença, e faço-os entrar no paraíso da reunião Comigo, de onde nunca os banirei. Eu sou Aquele que admite os pobres no paraíso da Minha riqueza, e os fracos sob o tabernáculo do Meu poder, e os miseráveis na cidade da Minha antiga glória. Eu sou Aquele que responde quando é invocado, e Se lembra quando é chamado à lembrança. Desde toda a eternidade tenho respondido às orações dos necessitados. Eu sou Aquele que responde antes que Ele seja solicitado, e concede dádivas sem olhar ao mérito.

Essa é a Minha natureza. Eu sou Aquele que chora devido às lágrimas daqueles que O amam e Que se aproxima daqueles que d’Ele se aproximam. Eu abri os portais da Minha graça a todos os que estão no céu e na terra. Bem-aventurados os que ali entram!

Ele é.

Ó tu que estás perante o Meu trono! Ouvi o teu clamor e a tua lamentação na tua separação de Mim, e sofri com o que te sucedeu segundo o decreto inescrutável de Deus. Suplicamos a Deus que te permita chegar ao teu lar. Na verdade, Ele é mais misericordioso do que todos os que demonstram misericórdia.

sábado, 13 de abril de 2019

Onde está o Túmulo de Cristo?

Por David Langness.


Quem já leu e estudou a Bíblia tem conhecimento sobre as perseguições contra os profetas. Se querem uma prova, visitem a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

A citação seguinte é uma das muitas passagens da Bíblia que regista como os mensageiros de Deus são vítimas de escárnio e ultrajes:
O Senhor, Deus de seus pais, enviou-lhes constantemente advertências por meio de mensageiros, para os admoestar, pois queria perdoar ao seu povo e à sua própria casa. Eles, porém, escarneceram dos seus conselhos e riram-se dos seus profetas, até que a ira do Senhor caiu sem remédio sobre o seu povo. (2 Crónicas 36:15-16)
Cristo foi crucificado; os Seus discípulos esconderam-se, foram presos e estigmatizados; os Seus primeiros seguidores foram lançados aos leões. Os ensinamentos Bahá’ís homenageiam Cristo e os Seus seguidores, e recordam-nos que, com o passar do tempo, houve uma mudança radical na atitude em relação a eles:
Considerai como os Discípulos eram tratados. Enquanto eram vivos, as pessoas não queriam ter nada a ver com eles, mas depois sentiam-se profundamente glorificados se tivessem a mais remota ligação com eles. Tornaram-se respeitados e reverenciava-se até a terra que tinha sido tocada pelos seus pés. Agora as pessoas prostram-se perante os seus túmulos, mas eles foram perseguidos quando eram vivos. E naquele tempo as pessoas não gostavam de ser conhecidas como parentes destes Discípulos de Cristo (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 84)
‘Abdu’l-Bahá pôs em destaque esta mudança profundamente irónica quando contou a história de um encontro com um grupo de peregrinos Cristãos no século XIX:
Quando viajava na Palestina, encontrei um local com solo pedregoso. Vi que algumas pessoas se juntaram em torno de uma pedra, beijando-a, chorando e suplicando. Perguntei: “O que é isto?” Disseram-me que, há muito tempo, os Apóstolos de Cristo, tinham passado por este local e se tinham sentado numa destas pedras, mas que existiam tantas pedras que não sabiam em quais é que os Apóstolos se tinham sentado. Por isso, prostravam-se perante todas para que, por ventura, pudessem encontrar e beijar a pedra certa. No seu tempo, as pessoas batiam-lhes, prendiam-nos, ridicularizavam-nos, expulsavam-nos das suas cidades e por fim, martirizavam-nos. Nem sequer davam autorização para que fossem sepultados nos seus cemitérios (Idem)
Durante dezoito séculos, os historiadores identificaram o tradicionalmente aceite túmulo de Jesus como o Santo Sepulcro da Igreja, em Jerusalém. Todos os dias, milhares de pessoas visitam essa igreja para rezar e meditar sobre a vida e os ensinamentos de Cristo. Mas sabia que um dos lugares mais sagrados no mundo costumava ser uma lixeira?

Sabemos pelas narrativas bíblicas que Cristo foi crucificado perto de Jerusalém, no exterior das muralhas da cidade, em Gólgota, o local onde se realizavam as execuções. Os historiadores e os investigadores descrevem que o corpo de Jesus não foi levado para a cidade após a sua execução, porque ele era considerado um impostor. Em vez disso, ele foi sepultado fora das muralhas da cidade e o seu túmulo foi uma cova de entulho.

Depois, o imperador Constantino, o Grande, subiu ao trono, tornou-se o primeiro monarca Cristão no século IV e pediu à sua mãe Helena que procurasse o local do túmulo de Cristo. Ela procurou e julgou tê-lo encontrado, e nesse local, o Bispo Macário de Jerusalém construiu a Igreja do Santo Sepulcro, que hoje se encontra no interior das muralhas alargadas de Jerusalém. Depois desta descoberta, o imperador Constantino enviou ao Bispo Macário a seguinte carta:
Tamanha é a graça do nosso Salvador, que nenhum poder de linguagem parece adequado para descrever a maravilhosa circunstância a que me refiro. Pois, que o monumento desta mais sagrada Paixão, durante tanto tempo enterrado debaixo do solo, tenha permanecido oculto durante tantos anos, até ter reaparecido aos seus servos agora liberto do afastamento daquele que era o inimigo comum de todos [o anterior imperador], é um facto que verdadeiramente ultrapassa toda a admiração…
‘Abdu’l-Bahá apresentou uma explicação fascinante sobre este processo e a construção da Igreja do Santo Sepulcro que salienta a perseguição contínua contra Cristo e os seus seguidores – até mesmo depois da sua morte:
Eles não queriam que o corpo de Sua Santidade Jesus Cristo fosse sepultado num cemitério Judaico. Os Apóstolos foram comprar um pequeno terreno e sepultaram-no. Depois os Judeus levaram para lá o seu entulho. Posteriormente os homens vieram e construíram ali uma grande igreja. Esta foi construída pela mãe de um dos Césares, passados trezentos anos. Até hoje, em alguns locais, é conhecida como a Igreja do Entulho. Este é, verdadeiramente, o Túmulo de Cristo. Era o local onde, no tempo de Cristo, todo o entulho da cidade era depositado. Durante trezentos anos continuou assim. Podemos ir lá hoje e ver a mudança maravilhosa que ali existe, ver a maravilhosa igreja que ali construíram, quantas jóias e pedras preciosas ali recolheram. A estátua de Cristo está adornada com todos os tipos de pedras preciosas, tal como a estátua de Maria e outras. Como é diferente a atitude das pessoas nos dias dos Manifestantes. Perseguem-nos, insultam-nos e ridicularizam-nos; colocam uma coroa de espinhos nas suas cabeças, espancam-nos na rua, cospem nas suas faces e por fim, crucificam-nos. Mas depois adoram as suas imagens, beijam o chão que eles pisam ou as pedras em que eles se sentam. Esta é a atitude das pessoas. (Idem)
Esta maravilhosa e desconcertante cadeia de eventos – Cristo teve uma crucificação ignominiosa, foi executado como um criminoso, e vilipendiado até depois de morto; e tornou-se um dos profetas mais reverenciados em toda a história humana, hoje seguido e adorado por mil milhões de pessoas. A sua perseguição na terra tornou-se, por fim, gloriosa.

Este mesmo processo repete-se em toda a história da religião, e agora repete-se na história da Fé Bahá’í:
Deus enviou todos os Seus Profetas ao mundo com um propósito, para semear amor e boa vontade nos corações dos homens, e para este grande objectivo eles sofreram e morreram. ('Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 108)
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Texto original: Where is Christ’s Tomb? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.