sábado, 14 de abril de 2018

Tahirih: a Emancipadora das Mulheres no Médio Oriente

Por Linda Ahdieh.

Em meados do século XIX, um jovem persa chamado Siyyid Ali Mohammad - o Bab - anunciou ser o Prometido de Deus.

Os fiéis Muçulmanos, que durante anos desejaram a vinda do Prometido, viram-se subitamente perante dúvidas, alegria enorme e esperança desenfreada. O Báb (que significa “o Portão”) afirmava que tinha chegado uma nova Fé e desafiou as pessoas a investigarem livremente as Suas afirmações. Alguns ficaram inebriados de amor pelo Báb e abraçaram a sua causa. Outros, confusos, continuaram perdidos na procura da verdade. E houve ainda outros que, com o maior preconceito e descrença, e temendo perder o seu estatuto e autoridade, tentaram apagar a chama da recém-nascida Fé Bábi.

Inspirados por profecias dos textos sagrados e pela orientação e ensinamentos dos seus mestres espirituais, várias pessoas procuravam a verdade e viajavam em busca do Prometido. Antes do Bab proclamar publicamente a Sua nova Fé, dezoito seguidores (conhecidos na história como Letras dos Viventes) reconheceram-No de forma independente e levantaram-se para divulgar os Seus ensinamentos.

Entre as dezoito Letras dos Viventes havia uma única mulher. Ela aderiu à fé do Báb numa época em que as mulheres eram, na prática, servas dos homens e estavam absolutamente privadas de qualquer poder, reconhecimento ou voz. As pessoas acreditavam que as mulheres eram fracas, que eram criadas apenas para ter filhos e cuidar do lar, e que não tinham qualquer papel na sociedade.

Num ambiente desses, o aparecimento de uma mulher altamente educada, revolucionária e corajosa, com sabedoria e conhecimento incomparáveis, foi um acontecimento único e espantoso. Esta mulher nobre e distinta, chamada Fatimeh, era como uma estrela brilhante, iluminando a Pérsia com as suas palavras poéticas e acções corajosas. Tornou-se uma figura mítica, que ainda hoje é reverenciada.

Casa de Tahirih em Qazvin.
Fatimeh era filha de um conhecido clérigo muçulmano de Qazvin. O seu tio também era um clérigo particularmente influente e tinha autoridade absoluta na cidade. Desde muito nova, Fatimeh estudou profundamente os temas religiosos. Teve a sorte de poder aceder à biblioteca particular do seu pai e da sua prima, o que lhe permitiu passar grande parte do seu tempo a aprender, estudar e investigar. Rapidamente, a sua compreensão profunda e o poder das suas palavras eloquentes atraíram os corações de muitos dos seus familiares e amigos, e sua fama como erudita e pensadora poderosa cresceu.

Com os seus estudos - e apesar da forte oposição do pai e do tio - ela desenvolveu um interesse pelos ensinamentos dos Shaykhi Sufis. Por fim, reconheceu a verdade dos ensinamentos do Shaykh Ahmad Ahsai - que tinha previsto o aparecimento do Prometido - e começou a corresponder-se com o seu sucessor, Siyyid Kazim Rashti. O seu estilo de escrita e os temas da sua investigação foram tão convincentes e profundos que Siyyid Kazim lhe concedeu o título de “Consolo dos Olhos” (Qurratu'l-Ayn).

Os alunos de Siyyid Kazim, que sabiam sobre o seu profundo conhecimento, pediram-lhe que lhes fosse permitido aprender com ela. Ela aceitou o pedido deles e - porque uma mulher naquele tempo e lugar não podia enfrentar homens em público - deu as aulas por detrás de uma cortina, respondendo às muitas perguntas sobre religião e jurisprudência dos seus novos alunos. Isso aumentou a sua fama nos países vizinhos. Ter uma mulher professora na escola de jurisprudência era algo inédito!

Durante esses anos, a notícia do aparecimento do Báb espalharam-se pelas cidades e montanhas, e chegaram a Fatimeh, primeiramente num sonho, quando ela:
... jejuava de dia, praticava disciplinas religiosas, passava a noite em vigílias e entoava orações. Certa noite, quando se aproximava o amanhecer, deitou a sua cabeça na almofada, perdeu toda a consciência desta vida terrena e teve um sonho; na sua visão, um jovem, um Siyyid, vestindo um manto preto e um turbante verde, apareceu-lhe no céu; ele parado no ar, a recitar versículos e a rezar com as mãos erguidas. Imediatamente, ela memorizou um desses versículos e escreveu-o no seu caderno quando acordou. Depois do Bab anunciar a Sua missão... um dia, [ela] estava a ler uma parte de um texto, e encontrou o mesmo versículo, que tinha escrito após o sonho. Imediatamente deu graças, e caiu de joelhos curvando a testa no chão, convencida de que a mensagem do Bab era a verdade. (‘Abdu’l-Bahá, Memorials of the Faithful, pp. 193-194)
Numa carta e em algumas linhas de poesia, ela transmitiu ao Bab o seu reconhecimento da Sua mensagem. Ao receber a carta de Fatimeh, o Bab aceitou a sua fé - e ela tornou-se a única mulher entre as Letras dos Viventes.

Isto demonstrava que, na nova revelação, mulheres e homens são iguais, e que as mulheres rapidamente conquistariam um lugar central na sociedade.

Após reconhecer a nova revelação, Fatimeh dedicou a sua vida à divulgação os ensinamentos do Báb. Isso trouxe-lhe muitos problemas e enorme sofrimento. À medida que a sua fama crescia, aumentava a oposição pública da sua família contra ela. Fatimeh ignorou os ataques, e através das suas palavras escritas e proferidas, chegou a muitos Bábis em todo o país e regou a árvore da sua fé.

Em 1848, deslocou-se à aldeia de Badasht, onde participou numa importante conferência planeada por Bábis proeminentes para anunciar a nova revelação e revogar a lei muçulmana. Nesta conferência, recebeu o título de "Tahirih" - “a Pura”.

Durante a conferência de Badasht, Tahirih desempenhou um papel histórico que simbolizou a separação da Fé Bábi de anteriores dispensações religiosas. As suas acções ilustraram a absoluta independência da revelação do Báb e também elevaram o estatuto e a condição das mulheres em todo o Médio Oriente. Na conferência, Tahirih retirou o véu que lhe cobria o rosto em público - um acto simbólico absolutamente chocante para aquele tempo e lugar - e aconselhou todas as mulheres a levantarem-se e a reivindicarem os direitos humanos dados por Deus, encorajando-as a lutar na área da educação e serviço social. Defendeu aberta e radicalmente a emancipação das mulheres.

Dois anos após a conferência, foi detida e levada para Teerão; ficou presa e em 1852 foi assassinada por ordem da corte real. Como milhares de Bábis durante esse tempo, ela deu a sua vida pelas suas crenças. A história reconheceu a grande contribuição de Tahirih para a reforma social e colocou-a entre aquelas mulheres cujos nomes iluminarão para sempre a história da humanidade. Edward G. Browne, um conceituado orientalista britânico, escreveu:
O aparecimento de uma mulher como Qurratu'l-Ayn é em qualquer país e em qualquer época um fenómeno raro, mas num país como a Pérsia é um prodígio, ou melhor, quase um milagre. Igualmente devido à sua maravilhosa beleza, aos seus raros dons intelectuais, à sua fervorosa eloquência, à sua destemida devoção e ao seu glorioso martírio, ela destaca-se de forma incomparável e imortal entre as suas compatriotas. Se a religião Bábi não tivesse outra pretensão de grandeza, isto seria suficiente: produziu uma heroína como Qurratu'l-Ayn.

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Texto Original: Tahirih: the Great Emancipator of Middle Eastern Women (www.bahaiteachings.org)

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Linda Ahdieh Grant pertence à sétima geração de Bahá’ís. Tem Doutoramento na John Hopkins University School of Public Health e foi professor de epidemiologia. É casada em tem dois filhos. Actualmente é professora na School of Public Health at Emery University, em Atlanta, Georgia.

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