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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Uma perspectiva Bahá'í sobre Sócrates

Durante o mês de Agosto o grupo "O Rouxinol canta..." organiza o curso "A Fé Bahá'í e os Pensadores Gregos: um Diálogo através dos Séculos".

Este curso foca-se nos três grandes filósofos gregos - Sócrates, Platão e Aristóteles - identifica a proximidade/semelhança entre muitos dos seus ensinamentos e os ensinamentos Bahá'ís, e mostra que a Fé Bahá'í está muito próxima das nossas raízes culturais.

Link de acesso ao curso aqui.



sábado, 7 de fevereiro de 2026

De onde vem a Sabedoria dos Filósofos?

Por David Langness.


Alguma vez se perguntou de onde é que os filósofos obtiveram a sua sabedoria? Quando leio Aristóteles ou Sócrates, fico impressionado — as suas ideias ainda hoje parecem actuais e relevantes.

É claro que a cultura ocidental tem as suas raízes tradicionais naqueles grandes gregos, os filósofos da liberdade. Na maioria das descrições do crescimento e da evolução do pensamento ocidental, eles são as sementes que germinaram a planta que se tornou a árvore de toda a cultura. A sua sabedoria, percepção e profunda compreensão do espírito humano deram origem à forma como pensamos, como agimos uns com os outros e como vemos o mundo.

Por exemplo:

Considero mais corajoso aquele que supera os seus desejos do que aquele que conquista os seus inimigos; pois a vitória mais difícil é sobre si mesmo. (Aristóteles)

Aquele que é ofendido não deve retribuir a injúria, pois de modo algum pode ser correcto cometer uma injustiça; e não é correcto retribuir uma ofensa ou fazer mal a qualquer homem, por mais que tenhamos sofrido com ele. (Sócrates)

Em termos de pura compreensão da natureza humana, os antigos filósofos gregos — Platão, Sócrates, Aristóteles, Plínio, Galeno e outros — tiveram um enorme impacto na sua época, e até nos dias de hoje. Alguns afirmam que toda a estrutura da cultura ocidental foi construída com base nas suas percepções. O grande estudioso e filósofo contemporâneo Alfred North Whitehead afirmou: "A caracterização geral mais segura da tradição filosófica europeia é que ela consiste numa série de notas de rodapé de Platão".

Se traçarmos a influência histórica dos filósofos gregos clássicos, descobriremos que estes fizeram uma série notável de contribuições para a filosofia islâmica primitiva, depois para o Renascimento europeu e para o Iluminismo, e, por fim, para a nossa cultura moderna. Baseamos grande parte da nossa governação, da nossa ciência e do nosso modo de vida básico na filosofia grega clássica.

Então, de onde é que os antigos filósofos gregos obtiveram as suas ideias incríveis, férteis, profundamente sábias e duradouras? Eram inteiramente originais, embora poucas ideias o sejam? Ou os gregos incluíram no seu pensamento ideias de outros?

Muitos estudiosos do período chegaram à conclusão de que a base conceptual da filosofia grega era proveniente do Oriente. Um dos mais respeitados estudiosos modernos da área, Martin Litchfield West, de Oxford, escreveu um livro baseado numa extensa investigação sobre o tema, intitulado "A Face Oriental de Helicon: Elementos Asiáticos Ocidentais na Poesia e nos Mitos Gregos". O livro de West concluiu que houve uma longa e rica interacção entre as culturas grega e romana no período pré-cristão e os profetas e praticantes do judaísmo do Oriente:

O contacto com a cosmologia e a teologia orientais ajudou a libertar a imaginação dos primeiros filósofos gregos; deu-lhes certamente muitas ideias sugestivas…

Esta conclusão fascinante – que ainda é tema de intenso debate entre os historiadores – subverte uma boa parte do pensamento ocidental tradicional. E se os fundamentos e as raízes da cultura ocidental remontassem a um passado anterior aos gregos?

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam claramente que sim:

Em verdade, os filósofos não negaram o Ancião de Dias... Considerai Hipócrates, o médico. Foi um dos filósofos eminentes que acreditavam em Deus e reconheciam a Sua soberania. Depois dele, veio Sócrates, que, de facto, era sábio, talentoso e honrado. Praticava a abnegação, reprimia as inclinações por desejos egoístas, e afastava-se dos prazeres materiais. Retirou-se para as montanhas, onde morava numa caverna. Dissuadiu os homens de adorar ídolos e ensinou-lhes o caminho de Deus, o Senhor da Misericórdia, até que os ignorantes se levantaram contra ele. Prenderam-no e mataram-no na prisão. Assim te relata esta Pena veloz. Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um defensor excepcional, dedicado a ela. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele que se apercebeu de uma natureza única, temperada e abrangente nas coisas, que se assemelha muito ao espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Tem uma declaração especial sobre este importante tema…

Depois de Sócrates veio o divino Platão, que foi aluno do primeiro e ocupou a cátedra da filosofia como seu sucessor. Ele reconheceu a sua crença em Deus e nos Seus sinais que impregnam tudo o que foi e será. Depois veio Aristóteles, o célebre homem de conhecimento. Foi ele que descobriu o poder da matéria gasosa. Estes homens, que se destacam como líderes do povo e são preeminentes entre eles, reconheceram todos a sua crença no Ser imortal que detém nas Suas mãos as rédeas de todas as ciências. (Bahá’u’lláh, Epístola da Sabedoria, ¶28-¶29)

Os ensinamentos Bahá’ís elogiam os filósofos gregos clássicos em diversas ocasiões e realçam também que se inspiraram no Oriente. Sobre este tema, ‘Abdu’l-Bahá cita as histórias do Oriente:

Está registado nas histórias do oriente que Sócrates viajou para a Palestina e para a Síria e aí, com homens versados nas coisas de Deus, adquiriu certas verdades espirituais; que, ao regressar à Grécia, promulgou duas crenças: uma, a unidade de Deus, e a outra, a imortalidade da alma após a separação do corpo; que estes conceitos, tão estranhos ao seu pensamento, causaram grande comoção entre os Gregos, até que, por fim, o envenenaram e mataram.

E isso é autêntico; pois os gregos acreditavam em muitos deuses, e Sócrates estabeleceu o facto de que Deus é uno, o que obviamente entrava em conflito com as crenças gregas. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 54)

Devemos muito a Sócrates e à filosofia que nos legou, mas talvez esta dívida seja, na verdade, para com Abraão e Moisés, os verdadeiros fundadores das verdades espirituais em que baseamos as nossas civilizações.

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Texto original: Where Do Philosophers Get their Wisdom? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 13 de julho de 2024

Como devo viver?

Por David Langness.


Numa conceituada universidade britânica, uma placa colocada à entrada do departamento de filosofia ironizava: “Filosofia: temos todas as perguntas”.

Provavelmente, a maioria destas questões surgiram primeiramente com Sócrates, o filósofo grego, hoje conhecido como o Pai da Filosofia. Sócrates foi o primeiro a colocar muitas das questões filosóficas com as quais ainda hoje nos debatemos, mas colocou a famosa questão mais importante a que a ciência não consegue responder: “Como devemos viver?”

Naquela época, e agora, nenhum conhecimento científico nos pode ajudar com esta questão humana fundamental.

Desde 400 a.C. que as pessoas tentam responder a Sócrates. Poucos sabem que ele inicialmente colocou a questão devido ao desespero pessoal sobre a condição humana – especificamente, a nossa tendência para a violência e a guerra. Veterano da Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, Sócrates serviu como hoplita, um soldado cidadão ateniense que lutava com uma lança e um escudo num combate corpo a corpo, brutal e sangrento.

Depois da guerra, Sócrates começou a questionar todas as coisas relacionadas com a vida humana. Utilizou o seu famoso método de questionamento (o diálogo socrático), fazendo perguntas a todos os que encontrava na sua busca para encontrar a verdade. “A vida não examinada não vale a pena ser vivida”, disse ele; por isso os seus questionamentos tentavam levar as pessoas a olharem para dentro de si mesmas para responder à sua maior e mais séria questão:

Vês, portanto, sobre o que são as nossas discussões – e há algo sobre o qual um homem, mesmo com pouca inteligência, seria mais sério do que isto: de que maneira devemos viver? – Sócrates, conforme citado por Platão nos seus Diálogos.

Pela sua sabedoria e mente independente, os ensinamentos Bahá’ís elogiam Sócrates e os antigos filósofos gregos que ele orientou. Bahá’u’lláh referiu Sócrates como “sábio, talentoso e honrado”, dizendo:

Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um ilustre campeão dedicado a isso. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele quem se apercebeu de uma natureza única, temperada e penetrante nas coisas, tendo a maior semelhança com o espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. (Tablets of Baha’u’llah, p. 146)

'Abdu'l-Bahá, o exemplo Bahá'í, também elogiou Sócrates e a sua profunda compreensão da realidade:

... ele [Sócrates] promulgou duas crenças: uma, a unidade de Deus, e a outra, a imortalidade da alma após a sua separação do corpo; estes conceitos, tão estranhos ao seu pensamento, suscitaram grande comoção entre os Gregos, até que no final lhe deram veneno e o mataram... pois os gregos acreditavam em muitos deuses, e Sócrates estabeleceu o facto de que Deus é um, o que estava obviamente em conflito com as crenças gregas. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 54.)

Quanto aos filósofos deístas, como Sócrates, Platão e Aristóteles, eles são de facto dignos de apreço e dos mais altos elogios, pois prestaram serviços distintos à humanidade. (‘Abdu’l-Bahá, Tablet to August Forel, p. 7.)

Viver simplesmente sem examinar profundamente o “porquê” de estarmos vivos, acreditava Sócrates, conduziria inevitavelmente a uma vida desperdiçada. Em vez disso, defendeu o auto-questionamento e o autodomínio, e ilustrou estes pontos com a analogia de um carro puxado por dois cavalos – um deles, teimoso e obstinado, representando o nosso desejo animal de perseguir o prazer egoísta sem restrições; e o outro cavalo, sensato e gentil, representando a nossa natureza superior e mais altruísta e a nossa capacidade humana de pensar e raciocinar.

Cada um de nós, dizia Sócrates, desempenha o papel de cocheiro desse carro, controlando um cavalo e deixando o outro correr. Nós decidimos qual deles controla o nosso movimento para a frente.

De acordo com os ensinamentos Bahá’ís, cada ser humano tem de lidar com essas mesmas duas forças ao longo do percurso da vida:

É evidente, portanto, que o homem tem um aspecto dual: enquanto animal, está sujeito à natureza, mas no seu ser espiritual ou consciente, transcende o mundo da existência material. Os seus poderes espirituais, sendo mais nobres e superiores, possuem virtudes das quais a natureza intrinsecamente não tem qualquer evidência; portanto, triunfam sobre as condições naturais. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 81.)

Na sua Apologia, Platão citou Sócrates perguntando:

Ó meu amigo, porque é que tu,... te preocupas tanto em acumular a maior quantidade de dinheiro, honra e reputação, e tão pouco com sabedoria, verdade e o maior aperfeiçoamento da alma, a qual tu nunca consideras ou dás atenção? Não tens vergonha disso?

Sócrates acreditava que esta busca – a perfeição da alma humana – era o mais elevado e o melhor objetivo da vida. Recomendou voltar os olhos da mente para dentro, e analisar tanto a sua verdadeira natureza como os valores que orientam a sua vida. Fazê-lo significa descobrir o estado da alma e avaliar o que realmente conduz à felicidade.

Muitas pessoas assumem ingenuamente que sabem lutar pela felicidade. Se levam uma vida não examinada, consideram frequentemente o sucesso, o estatuto, a autoindulgência e a aceitação social como os seus objetivos. Tendem a pensar no auto-sacrifício, na dor e na morte como coisas que devem ser evitadas a todo o custo. Sócrates discordou veementemente e viu esta visão do bem e do mal não só como errada, mas também prejudicial.

Naturalmente, fazemos o que fazemos nesta vida porque acreditamos que isso nos fará felizes. Para Sócrates, pensar neste tipo de felicidade material como boa, e em qualquer coisa que possa produzir algum sofrimento como má, significa que passaremos as nossas vidas procurando coisas que não nos podem trazer felicidade – mesmo quando as alcançamos.

Em vez disso, se nos dedicarmos ao autoconhecimento e à investigação independente da verdade, disse Sócrates, podemos começar a compreender o que realmente significa o verdadeiro bem. Na sua filosofia, Sócrates descreveu esse bem supremo como o desenvolvimento da virtude humana – a mesma perfeição da alma humana que é altamente elogiado pelos ensinamentos Bahá’ís:

... a honra do reino humano é o alcançar da felicidade espiritual no mundo humano, a aquisição do conhecimento e do amor de Deus. A honra atribuída ao homem é a aquisição das virtudes supremas do mundo humano. Esta é a sua verdadeira felicidade e felicidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 166.)

Em última análise, Sócrates ensinou o mesmo que a Fé Bahá’í e todas as outras religiões verdadeiras ensinam – que o aperfeiçoamento gradual da alma inclui o mais elevado esforço humano e a forma como todos devemos viver:

A vida de alguns homens está exclusivamente ocupada com as coisas deste mundo; as suas mentes estão tão circunscritas pelos costumes exteriores e pelos interesses tradicionais que ficam cegos para qualquer outro domínio da existência, para o significado espiritual de todas as coisas! Pensam e sonham com a fama terrena, com o progresso material. Prazeres sensuais e ambientes confortáveis delimitam o seu horizonte, as suas ambições mais elevadas centram-se nos sucessos das condições e circunstâncias mundanas! Não restringem as suas tendências mais baixas; comem, bebem e dormem! Tal como o animal, não pensam para além do seu próprio bem-estar físico. É certo que estas necessidades devem ser eliminadas. A vida é um fardo que deve ser carregado enquanto estamos na terra, mas não se deve permitir que os cuidados com as coisas inferiores da vida monopolizem todos os pensamentos e aspirações de um ser humano. As ambições do coração deveriam ascender a um objectivo mais glorioso, a actividade mental deveria elevar-se a níveis superiores! Os homens devem manter nas suas almas a visão da perfeição celestial e preparar aí uma morada para a generosidade inesgotável do Espírito Divino. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 98-99.)

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Texto original: How Should I Live? (www.bahaiteachings.org)


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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.