Por David Langness.
Alguma vez se perguntou de onde é que os filósofos obtiveram a sua sabedoria? Quando leio Aristóteles ou Sócrates, fico impressionado — as suas ideias ainda hoje parecem actuais e relevantes.
É claro que a cultura ocidental tem as suas raízes tradicionais naqueles grandes gregos, os filósofos da liberdade. Na maioria das descrições do crescimento e da evolução do pensamento ocidental, eles são as sementes que germinaram a planta que se tornou a árvore de toda a cultura. A sua sabedoria, percepção e profunda compreensão do espírito humano deram origem à forma como pensamos, como agimos uns com os outros e como vemos o mundo.
Por exemplo:
Considero mais corajoso aquele que supera os seus desejos do que aquele que conquista os seus inimigos; pois a vitória mais difícil é sobre si mesmo. (Aristóteles)
Aquele que é ofendido não deve retribuir a injúria, pois de modo algum pode ser correcto cometer uma injustiça; e não é correcto retribuir uma ofensa ou fazer mal a qualquer homem, por mais que tenhamos sofrido com ele. (Sócrates)
Em termos de pura compreensão da natureza humana, os antigos filósofos gregos — Platão, Sócrates, Aristóteles, Plínio, Galeno e outros — tiveram um enorme impacto na sua época, e até nos dias de hoje. Alguns afirmam que toda a estrutura da cultura ocidental foi construída com base nas suas percepções. O grande estudioso e filósofo contemporâneo Alfred North Whitehead afirmou: "A caracterização geral mais segura da tradição filosófica europeia é que ela consiste numa série de notas de rodapé de Platão".
Se traçarmos a influência histórica dos filósofos gregos clássicos, descobriremos que estes fizeram uma série notável de contribuições para a filosofia islâmica primitiva, depois para o Renascimento europeu e para o Iluminismo, e, por fim, para a nossa cultura moderna. Baseamos grande parte da nossa governação, da nossa ciência e do nosso modo de vida básico na filosofia grega clássica.
Então, de onde é que os antigos filósofos gregos obtiveram as suas ideias incríveis, férteis, profundamente sábias e duradouras? Eram inteiramente originais, embora poucas ideias o sejam? Ou os gregos incluíram no seu pensamento ideias de outros?
Muitos estudiosos do período chegaram à conclusão de que a base conceptual da filosofia grega era proveniente do Oriente. Um dos mais respeitados estudiosos modernos da área, Martin Litchfield West, de Oxford, escreveu um livro baseado numa extensa investigação sobre o tema, intitulado "A Face Oriental de Helicon: Elementos Asiáticos Ocidentais na Poesia e nos Mitos Gregos". O livro de West concluiu que houve uma longa e rica interacção entre as culturas grega e romana no período pré-cristão e os profetas e praticantes do judaísmo do Oriente:
O contacto com a cosmologia e a teologia orientais ajudou a libertar a imaginação dos primeiros filósofos gregos; deu-lhes certamente muitas ideias sugestivas…
Esta conclusão fascinante – que ainda é tema de intenso debate entre os historiadores – subverte uma boa parte do pensamento ocidental tradicional. E se os fundamentos e as raízes da cultura ocidental remontassem a um passado anterior aos gregos?
Os ensinamentos Bahá’ís afirmam claramente que sim:
Em verdade, os filósofos não negaram o Ancião de Dias... Considerai Hipócrates, o médico. Foi um dos filósofos eminentes que acreditavam em Deus e reconheciam a Sua soberania. Depois dele, veio Sócrates, que, de facto, era sábio, talentoso e honrado. Praticava a abnegação, reprimia as inclinações por desejos egoístas, e afastava-se dos prazeres materiais. Retirou-se para as montanhas, onde morava numa caverna. Dissuadiu os homens de adorar ídolos e ensinou-lhes o caminho de Deus, o Senhor da Misericórdia, até que os ignorantes se levantaram contra ele. Prenderam-no e mataram-no na prisão. Assim te relata esta Pena veloz. Que visão penetrante na filosofia este homem eminente possuía! Ele é o mais distinto entre todos os filósofos e era altamente versado em sabedoria. Testemunhamos que ele é um dos heróis neste campo e um defensor excepcional, dedicado a ela. Ele tinha um conhecimento profundo das ciências correntes entre os homens, bem como daquelas que estavam veladas das suas mentes. Parece-Me que ele bebeu uma porção quando o Mais Grandioso Oceano transbordava de águas cintilantes e vivificadoras. Foi ele que se apercebeu de uma natureza única, temperada e abrangente nas coisas, que se assemelha muito ao espírito humano, e descobriu que esta natureza era distinta da substância das coisas na sua forma refinada. Tem uma declaração especial sobre este importante tema…
Depois de Sócrates veio o divino Platão, que foi aluno do primeiro e ocupou a cátedra da filosofia como seu sucessor. Ele reconheceu a sua crença em Deus e nos Seus sinais que impregnam tudo o que foi e será. Depois veio Aristóteles, o célebre homem de conhecimento. Foi ele que descobriu o poder da matéria gasosa. Estes homens, que se destacam como líderes do povo e são preeminentes entre eles, reconheceram todos a sua crença no Ser imortal que detém nas Suas mãos as rédeas de todas as ciências. (Bahá’u’lláh, Epístola da Sabedoria, ¶28-¶29)
Os ensinamentos Bahá’ís elogiam os filósofos gregos clássicos em diversas ocasiões e realçam também que se inspiraram no Oriente. Sobre este tema, ‘Abdu’l-Bahá cita as histórias do Oriente:
Está registado nas histórias do oriente que Sócrates viajou para a Palestina e para a Síria e aí, com homens versados nas coisas de Deus, adquiriu certas verdades espirituais; que, ao regressar à Grécia, promulgou duas crenças: uma, a unidade de Deus, e a outra, a imortalidade da alma após a separação do corpo; que estes conceitos, tão estranhos ao seu pensamento, causaram grande comoção entre os Gregos, até que, por fim, o envenenaram e mataram.
E isso é autêntico; pois os gregos acreditavam em muitos deuses, e Sócrates estabeleceu o facto de que Deus é uno, o que obviamente entrava em conflito com as crenças gregas. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 54)
Devemos muito a Sócrates e à filosofia que nos legou, mas talvez esta dívida seja, na verdade, para com Abraão e Moisés, os verdadeiros fundadores das verdades espirituais em que baseamos as nossas civilizações.
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Texto original: Where Do Philosophers Get their Wisdom? (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

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