segunda-feira, 5 de março de 2007

Provas da Existência de Deus

Considerando que Deus é uma realidade supranatural – não imediatamente aparente aos sentidos – nas religiões Ocidentais tem sido feito um grande esforço para provar a sua existência. As linhas mais comuns de argumentação usadas pelos filósofos ocidentais incluem as seguintes:

1. O argumento do Consenso Geral tenta provar a existência de Deus apelando para o facto de que a crença nalguma forma de divindade tem sido sustentada por todas as culturas em todos os tempos. Não surpreendentemente, este argumento tem sido considerado algo fraco. Primeiro, a universalidade da crença em Deus pode ser questionada em relação a todas as culturas (por exemplo, é duvidoso que se possa dizer que o Budismo Theravada afirme a crença em Deus) e em todas as épocas (o mundo moderno tem sido caracterizado pelo declínio da crença em Deus). Segundo, outras ideias aceites pela generalidade das pessoas (como a crença de que o sol gira em torno da terra) mostraram ser falsas.

2. O argumento Cosmológico expressa-se de diferentes formas. Estas têm em comum o facto de se basearem em factos observáveis e sustentarem a existência de Deus como a entidade que está por detrás destes factos observáveis. Por exemplo, uma forma simples deste tipo de argumentação segue as seguintes linhas: é um facto observável no universo que todo o movimento no universo tem um impulsionador, todo o efeito tem uma causa; desde que o próprio universo existe, tem estado em movimento. Por isso tem de existir um Primeiro Impulsionador, uma Primeira Causa, e esta é Deus. Neste tipo de argumentação há que salientar o facto de se afirmar que Deus é radicalmente diferente do resto da criação. Deus, como Primeira Causa, não tem uma causa; Deus, como Primeiro Impulsionador, não é resultado de um impulso. Isto também expressa diferenças radicais: Deus é eterno e tudo na criação é efémero; Deus é auto-suficiente e tudo na criação é dependente; Deus é imutável e tudo na criação está em mutação.

Pode o argumento cosmológico ter sucesso ao levar-nos do observável (o mundo) para o não observável (Deus)? Os críticos deste tipo de argumentação afirmam que se trata estabelecer uma linha puramente arbitrária entre Deus e a criação. Porque é que deve haver uma entidade que é a primeira causa? Porque é que não pode existir uma regressão infinita de causas?

3. O argumento Teleológico é uma extensão do argumento Cosmológico e baseia-se na analogia entre o universo e uma máquina. Um exemplo simples deste argumento afirma que se encontrarmos um relógio no chão (e supondo que nunca tínhamos visto relógios) seriamos forçados a concluir que aquele objecto tão complexo e tão bem organizado não podia ter sido chamado à existência por mero acaso; devia ser produto de uma mente. O nosso universo também é complexo e está bem organizado; da mesma forma, é provável que exista uma Mente Cósmica que seja fonte desta complexidade e ordem. Esta Mente Cósmica, este Grande Arquitecto, é Deus. O universo como um todo tem um propósito para o qual se move. É Deus que está na origem e que sustenta este propósito.

Os críticos deste argumento questionam o facto de se poder comparar o universo a uma máquina. Um relógio tem um propósito que podemos identificar e cada peça do relógio pode ser vista como estando a trabalhar para esse propósito. Mas nós não estamos em posição de conseguir identificar o propósito do universo ou observar como é que as suas partes interagem para atingir esse propósito.. Além disso, mesmo que se pudesse responder a estas objecções, não estamos em posição para conseguir observar todo o universo. Existem muitas partes do universo onde reina o caos. Também existe o problema da existência do mal que parece lançar dúvidas sobre se o mundo foi criado por um ser moralmente perfeito.

4. O argumento Ontológico assume várias formas, e todas à priori tentam provar que Deus tem necessariamente que existir. Assim, em vez de partir da nossa experiência ou de fenómenos observáveis, esta linha de raciocínio tenta provar que Deus existe, porque postular que Ele não existisse, isso levaria à contradição ou a factos ilógicos. Uma forma deste argumento, apresentada por Stº Anselmo e por Descartes, parte do facto do nosso conceito de Deus ser o de um ser supremamente perfeito, acima do qual não é possível existir mais perfeição. Se a existência é um atributo da perfeição, então Deus deve necessariamente possuir este atributo; caso contrário não seria aquela entidade “acima da qual não é possível existir mais perfeição”... Assim, o nosso conceito de Deus leva-nos à conclusão de que Ele deve necessariamente existir.

Os que criticam este tipo de argumentação afirmam que a existência não é um atributo de perfeição como a sabedoria ou a clemência e tratá-lo como tal é falacioso. Além disso, a mesma linha de argumentação pode ser usada para provar a existência de coisas que sabemos que não existem, por exemplo um ilha que é maior do que todas as outras.

Pode ser logicamente satisfatório desenvolver estas linhas de argumentação, mas usá-las como prova da existência de Deus implica uma identificação completa entre o mundo real e os mundos conceptuais, uma identificação que poucos poderão garantir automaticamente. Assim, quaisquer que tenham sido as provas que o mundo medieval considerasse satisfatórias, o mundo moderno percebeu que não existem provas puramente racionais (ou combinações de provas) da existência de Deus que sustentem uma convicção universal.

Uma reacção a este falhanço tem sido o contra-ataque dos fundamentalistas. Estes insistem que não podem existir provas humanas da existência de Deus pois os seres humanos apenas podem conhecer de Deus aquilo que Ele quiser revelar, em particular, nas escrituras. Afirmam ainda que “a nossa religião á a única verdadeira religião se se basear na fé , e não na razão e no intelecto humano”. Esta reacção encontra-se na “teologia dialética” protestante de figuras como Karl Barth, produzida em reacção à teologia natural católica de Aquinas e Anselmo; e também se encontra na reacção Ash’ari teologia racionalista de Mutazila, no islão medieval.


Moojan Momen, The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pags 189- 191

4 comentários:

Alexandre Nuno disse...

Olá,

Esta questão é muito importante, porque por aí começa a base de qualquer casa religiosa que se fundamenta na crença em um Criador Omnipotente. O problema é que para alguns, todas as provas e argumentos apreentados não valem nada, porque, por ex: tiveram más experiências religiosas na sua vida, ou preconizam a liberdade individual acima de tudo, e portanto : Deus para quê?, etc...Para outros, por outro lado,tudo o que existe, é em si uma prova incomensurável de da existência de Deus. Para uns, são necessários argumentos racionais , para outros filosóficos, etc. No fim de tudo, quem tem razão? Uma coisa eu acredito: para reconhecer-mos a existência de um Deus que criou e anima todo o universo e nos deu livre arbítrio, é necessários consequentemente atestarmos a nossa humildade e imperfeição, a nossa gratidão e a nossa obediência, ...e isso...isso é que é mais difícil.

Abraços

GH disse...

O Carl Sagan acreditava que existiam extra-terrestres, apesar de reconhecer que não existiam provas capazes de demonstrar esse facto. Era uma fé, algo que a sua intuição o levava a acreditar. Creio que quem acredita na existência de Deus tem uma atitude semelhante.

Pedro disse...

Boa Alexandre Nuno, bem dito e melhor terminado.

Elfo disse...

E conseguiremos provar a nossa exist^encia?