Aposto que quando o leitor era criança, aprendeu os nomes dos antigos governantes do seu país, as pessoas que foram reis, rainhas, presidentes ou primeiros-ministros.
Eu tive que aprender isso. Como rapaz americano, aprendi sobre George Washington, o homem que não conseguia mentir depois de cortar uma cerejeira, o primeiro presidente do jovem país, o herói militar da Revolução Americana. Todos os alunos do ensino básico nos Estados Unidos conhecem a vida de Washington. Poucos sabem, no entanto, que George Washington era também um agricultor abastado que escreveu que não acreditava na instituição da escravatura — mas era dono de 200 escravos.
E isto leva-me a uma boa pergunta, uma pergunta que fiz mais do que uma vez na escola primária: porque é que memorizamos os nomes dos nossos governantes do passado, enaltecemos o seu estatuto e estudamos as suas vidas? Porque é que a história enfatiza os famosos e os conhecidos, mas ignora todos os outros?
A razão deve-se, provavelmente, a Thomas Carlyle, escritor, filósofo e historiador escocês da década de 1840. Ele formulou a "Teoria do Grande Homem" no seu livro " Hero-Worship and the Heroic in History" [N.T. “Os Heróis”, na edição portuguesa de 2002], escrevendo que "A história do mundo é apenas a biografia de grandes homens". Carlyle acreditava que os indivíduos heroicos e imponentes moldam a história, não só pessoalmente através dos seus atributos de carácter e da força da sua vontade, mas também através da inspiração divina. No seu livro, enumerou poetas como Dante e Shakespeare, religiosos como Lutero, governantes como Cromwell e Napoleão, e até o profeta Muhammad, como os principais agentes de mudança no mundo.
Assim, a teoria do Grande Homem propõe o conceito de que os indivíduos ou pequenos grupos de pessoas, através do poder do seu carácter, do seu intelecto ou da força da sua vontade, determinam o curso da história.
Temos de admitir que é uma teoria fascinante: a de que alguns indivíduos alteraram fundamentalmente o rumo da história ao viverem as suas vidas de forma única e poderosa.
A teoria da primazia dos grandes homens de Carlyle dominou a era vitoriana, mas caiu em desuso no início do século XX por várias razões — nomeadamente, a exclusão das mulheres. Entretanto, aqui ficam algumas perguntas contemporâneas que os historiadores têm feito sobre a Teoria do Grande Homem: Será que os nossos líderes nacionais têm realmente muita influência a longo prazo? Têm alguma? Os grandes homens e as grandes mulheres fazem realmente história — ou será que a história os faz? Os nossos líderes políticos realmente lideram ou seguem?
Para responder a estas questões, podemos considerar Abraham Lincoln — o maior presidente americano por aclamação universal, que os historiadores e o público concordam que preservou o país, defendeu a democracia e libertou os escravos. As qualidades de liderança de Lincoln, as suas capacidades de negociação e de gestão de crises, e a integridade do seu carácter, fazem dele o líder mais venerado da história dos Estados Unidos.
Mas os historiadores também concordam que o legado de Lincoln não durou muito após a sua morte. Ainda no início do século XX, quatro décadas após o assassinato de Lincoln, o Congresso americano e os seus tribunais criaram e aplicaram as chamadas leis Jim Crow, que reinstituíram funcionalmente a escravatura, pelo menos economicamente. O racismo voltou em força. O Sul dos Estados Unidos, embora tecnicamente reunido com a sua mãe-pátria, continuou a revoltar-se, resistindo à integração com todas as suas forças. Um século depois de Lincoln nos ter deixado, ainda travávamos as mesmas batalhas. Lincoln teve impacto, mas foi um impacto limitado.
Os ensinamentos Bahá’ís dizem que o poder de um líder temporal não consegue persistir muito tempo depois da sua inevitável morte:
Todas as criaturas dependem de Deus, por maior que possa parecer o seu conhecimento, poder e independência.
Vejam os poderosos reis da Terra, pois eles têm todo o poder do mundo que o homem lhes pode dar, e, no entanto, quando a morte os chama, eles têm de obedecer, tal como os camponeses às suas portas. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pags. 19-20)
Se quiser verificar este conceito, tente o seguinte: tente lembrar-se do nome do governante que, há algumas centenas de anos, governou a terra onde agora vive. Na minha cidade, na Califórnia, isso envolvia provavelmente um governador espanhol que concedia terras ou um chefe indígena tribal — e não faço ideia de quem eram. As pessoas podem ter-se curvado perante estes governantes na altura, ou até mesmo tê-los venerado como semideuses durante algum tempo, mas uma visão de longo prazo da história esquece-os e desconsidera-os completamente. O tempo sepulta todos — os fracos, os mansos e os fortes:
Sabei, em verdade, que as condições deste mundo mortal, mesmo que seja a realeza de toda a extensão deste globo, são efémeras. É uma ilusão. Termina em nada; nem têm quaisquer resultados, nem, aos olhos de Deus, se compara à asa de um mosquito.
Onde estão os reis e as rainhas? Onde estão os palácios e as suas amantes? Onde estão os tronos imperiais e as coroas adornadas com joias? Onde estão os poderosos governantes da Pérsia, da Grécia e de Roma? Na verdade, os seus palácios estão em ruínas e desolados, os seus tronos destruídos, e as suas coroas lançadas ao pó. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, pags. 252-253)
Eis a questão central sobre a Teoria do Grande Homem: temos alguma evidência de que as pessoas mais influentes da nossa história colectiva causaram verdadeiras mudanças? Se acredita na causalidade, então sabe que cada grande homem ou mulher teve forças históricas significativas a actuar sobre eles, e eles próprios foram efeitos dessas forças.
Todo este conceito — o impacto e a influência duradoura de qualquer indivíduo sobre todos os outros — é fascinante e controverso. Voltaremos a ele no final desta série de artigos; e no próximo artigo, aprofundaremos um pouco mais os ensinamentos Bahá’ís para ver como a teoria da história do Grande Homem se apresenta quando vista de longe.
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Texto original: Challenging the “Great Man Theory” of History (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.
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