Por John Hatcher.
Apesar de não estar bem documentado nas histórias das religiões mais antigas, um precursor ou arauto aparecia frequentemente antes do advento de um Manifestante divino para anunciar o início de uma nova era.
Esta pessoa era, por vezes, a primeira a reconhecer o novo Manifestante antes da experiência reveladora inicial que dava início à nova Fé, ou então alguém que reunia seguidores para lhes ensinar que o tempo para o advento do próximo profeta estava próximo.
Embora o Báb actualmente seja mais conhecido como o arauto ou precursor de Bahá’u’lláh, os Bahá’ís compreendem que Ele foi também um Manifestante de Deus por direito próprio:
A grandeza desta Dispensação reside não unicamente no carácter da revelação de Bahá’u’lláh, por mais estupenda que seja a Sua pretensão. Pois, entre as características distintivas da Sua Fé, destaca-se, como prova adicional da Sua singularidade, a verdade fundamental de que, na pessoa do seu Precursor, o Báb, cada seguidor de Bahá’u’lláh reconhece não apenas um anunciador inspirado, mas uma Manifestação directa de Deus. É sua firme convicção que, por muito curta que seja a duração da Sua Dispensação, e por mais breve que seja o período de vigência das Suas leis… Ele não foi meramente o precursor da Revelação de Bahá’u’lláh, que Ele foi mais do que uma pessoa divinamente inspirada, que a Sua condição era a de um Manifestante independente e autossuficiente de Deus, o que é abundantemente demonstrado por Ele mesmo, afirmado em termos inequívocos por Bahá’u’lláh e, finalmente, confirmado pelo Testamento de 'Abdu'l-Bahá. (The World Order of Bahá’u’lláh, p. 61)
Estas palavras decisivas, do livro de Shoghi Effendi, A Ordem Mundial de Bahá’u’lláh, definem claramente a revelação Bábí como equivalente às dispensações religiosas do passado.
Consequentemente, um presságio do advento do Báb ocorreu na forma de dois mestres proeminentes que proclamaram que tinha chegado o momento para o aparecimento de outro Manifestante.
A primeira destas figuras foi Shaykh Ahmad-i-Ahsa’i (1753–1826), e a segunda foi o seu sucessor, Siyyid Kazim-i-Rashti (1793–1843), dois eruditos muçulmanos místicos que anunciaram a vinda do Báb. Ambos escreveram e ensinaram abundantemente que estava próximo o tempo do aparecimento do prometido Qa’im (“Aquele que Se levantará”), por vezes referido como o Mahdi (“o Guiado”). De acordo com a crença xiita, o Qa’im seria um descendente directo de Muhammad que apareceria no mundo para inaugurar uma era de rectidão.
Entre os alunos de Kazim-i-Rashti em Karbila, no ano de 1840, encontrava-se um jovem de vinte anos, Siyyid Ali Muhammad Shirazi. Em peregrinação a Karbila, vindo da Sua cidade natal, Shiraz, Siyyid Ali-Muhammad – que quatro anos mais tarde assumiria o título de "o Báb", que significa "a Porta" – era então um jovem comerciante que trabalhava para o seu tio em Bushihr, uma cidade costeira no Golfo Pérsico. Diz-se que, durante estas aulas, Siyyid Kazim dedicava especial atenção a Siyyid Ali Muhammad, chegando mesmo a mencioná-Lo quando discutia o aparecimento iminente do Qa’im.
Esta não era a primeira vez que alguém reparava no estatuto especial do Báb. Tal como Cristo e Muhammad, a infância do Báb é marcada por momentos em que o Seu conhecimento transcendente era evidente tanto para os Seus colegas como para os Seus professores. Quando Ali-Muhammad tinha nove anos, o Seu pai, Muhammad-Rida, faleceu. A Sua mãe, Fatimih-Bagum, foi auxiliada pelos seus três irmãos na Sua educação, sendo o Seu tio, Haji Mirza Siyyid Ali, quem desempenhou o papel mais crucial. Um dos primeiros indícios da inteligência superior do rapaz ocorreu, segundo este relato na biografia "O Báb", de H.M. Balyuzi, quando foi enviado por esse mesmo tio para receber instruções do Shaykh Abid:
Quando começou a frequentar a escola, surpreendeu tanto o professor, Shaykh Abid, com a Sua sabedoria e inteligência, que o homem perplexo levou a criança de volta para o tio e disse que não tinha nada a ensinar a este aluno talentoso: "Ele, na verdade, não precisa de professores como eu." (The Báb, H. M Balyuzi, p.34, ed. 1973)
Contudo, por insistência do tio, o Báb continuou a estudar com o Shaykh Abid. Durante este período, muitos outros exemplos do Seu conhecimento inato tornaram-se evidentes. Por exemplo, o Shaykh Abid começou a observar que Ali-Muhammad Se preocupava pouco com as brincadeiras comuns da infância, preferindo concentrar-se nas orações e nas meditações. Consequentemente, quando o rapaz começou a chegar atrasado à escola, o professor ficou preocupado com o motivo pelo qual o seu melhor aluno Se estava a tornar negligente; por esse motivo, Shaykh Abid enviou alguns dos colegas do Báb a Sua casa para Lhe pedir que fosse à escola.
Quando o rapaz chegou e Lhe perguntaram por que estava atrasado para a escola, o Báb respondeu que tinha estado em casa do avô. Como o Báb não tinha avôs vivos, o professor percebeu que Se referia ao profeta Muhammad. O Báb era um Siyyid, descendente do profeta Muhammad, e por vezes os Siyyids referiam-se a Muhammad como seu "avô". Além disso, o professor entendeu que estar "em casa do seu avô" significava que o Báb estivera a rezar, a meditar e em comunhão com a alma do profeta.
Considera-se que a religião Bábí teve início na noite de 23 de Maio de 1844, em Shiraz, quando Ali-Muhammad declarou a um fervoroso seguidor de Siyyid Kazim, de nome Mulla Husayn, que ele – Siyyid Ali-Muhammad – era o Qa’im e que o Seu título seria o Báb, pois o propósito da Sua revelação seria preparar o caminho para "Aquele que Deus tornará Manifesto", outro Manifestante ou mensageiro que transformaria toda a comunidade mundial.
A narrativa fascinante dessa noite, contada por Mulla Husayn, é um testemunho notável do poder e da influência do Báb. Mulla Husayn era extremamente erudito e versado nas tradições e nos requisitos que qualificariam a pessoa que reivindicasse a condição de Qa’im.
Uma das confirmações que Mulla Husayn procurava era o cumprimento de uma prova secreta que ele próprio concebera: que o verdadeiro Qa’im, sem que lhe fosse pedido, revelaria espontaneamente um comentário sobre a enigmática Sura de José, contida no Alcorão. Após Mulla Husayn se ter certificado de que todas as outras qualificações eram evidentes na pessoa de Ali-Muhammad, o Báb, sem que Lhe fosse pedido, começou a revelar o primeiro capítulo daquele que é "o primeiro, o maior e o mais poderoso" de todos os livros da Dispensação Bábí, o célebre comentário sobre a Sura de José.
A Epifania do Báb
Embora aquela fatídica noite tenha assinalado um momento no início da declaração explícita da posição e missão do Báb, este célebre acontecimento não marcou o momento em que o próprio Báb teve a Sua "epifania" ou despertar para o facto de que o tempo da Sua própria revelação tinha chegado. O acontecimento, comparável à visão da sarça ardente por Moisés, ao baptismo de Cristo no Jordão e à visão do anjo Gabriel por Muhammad, ocorreu ao jovem profeta num sonho, tal como descrito neste relato fidedigno de Shoghi Effendi em "A Presença de Deus ".
… num sonho, Ele aproximou-Se da cabeça ensanguentada do Imam Husayn e, bebendo o sangue que lhe escorria da garganta lacerada, acordou e descobriu que era o eleito para receber a graça divina. (God passes by, p. 93)
O próprio relato do Báb sobre este despertar para o início do Seu ministério, incluído na obra de Nabil, "Os Rompedores da Alvorada", é extremamente comovente. Teve esta visão onírica em 1843, um ano antes de declarar a Sua condição a Mulla Husayn, e escreveu uma recordação bastante detalhada desta experiência:
O espírito de oração que anima a Minha alma é consequência directa de um sonho que tive no ano anterior à declaração da Minha Missão. Na Minha visão, vi a cabeça do Imam Husayn, o Siyyidu’-sh-Shuhada’, pendurada numa árvore. Gotas de sangue escorriam profusamente da Sua garganta lacerada. Com sentimentos de insuperável êxtase, aproximei-me daquela árvore e, estendendo as Minhas mãos, recolhi algumas gotas daquele sangue sagrado e bebi-as devotamente. Ao despertar, senti que o Espírito de Deus tinha penetrado e tomado posse da Minha alma. O Meu coração vibrava com a alegria da Sua presença Divina, e os mistérios da Sua Revelação desvendaram-se perante os Meus olhos em toda a sua glória.
Semelhante em simbolismo ao pedido de Cristo para que os Seus discípulos bebessem do vinho como se fosse o Seu próprio sangue, este sonho relaciona-se obviamente com a herança do Báb como descendente directo do Imam Husayn, o terceiro Imam, bem como com a Sua herança do manto da autoridade que, segundo a crença xiita, recaiu sobre cada um dos doze Imames.
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Texto original: The Bab and the Beginning of the Baha’i Era (www.bahaiteachings.org)
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John S. Hatcher é formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Vanderbilt e Doutorado em Literatura Inglesa pela Universidade da Georgia (EUA). É professor Emérito na Universidade de South Florida (Tampa, EUA). É também conhecido como poeta, palestrante e autor de numerosos livros sobre literatura, filosofia e teologia e escrituras Baha’is. Entre as suas obras contam-se Close Connections; From the Auroral Darkness: The Life and Poetry of Robert E. Hayden; A Sense of History: The Poetry of John Hatcher; The Ocean of His Words: A Reader's Guide to the Art of Baha'u'llah; and The Purpose of Physical Reality; The Kingdom of Names.

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