sábado, 14 de fevereiro de 2026

Como é que uma comunidade religiosa pacífica resiste à repressão?

Por Caroline Fowler.


As diferenças absolutas entre a Fé Bahá’í e do regime nazi no que toca às perspectivas políticas e sociais são evidentes nas cartas da liderança da Fé à comunidade Bahá’í alemã.

Esta orientação - que respondeu directamente aos acontecimentos repressivos cada vez mais preocupantes que tiveram início da década de 1930 e eram dirigidos à comunidade Bahá’í alemã pelo regime nazi - pode ajudar-nos a compreender como reage uma comunidade religiosa pacífica à repressão.

Em 1934, Shoghi Effendi escreveu à Comunidade Bahá’í da Alemanha, respondendo às suas perguntas sobre como proceder sob o regime nazi no contexto da Fé. Na sua carta, Shoghi Effendi enfatizou a suprema importância da obediência e da paz, mas reconheceu que as políticas e ideias de Hitler "não podem ser totalmente reconciliadas" com a "filosofia Bahá'í de organização social e política".

O Guardião alertou ainda que a “onda de nacionalismo, tão agressiva e tão contagiosa”, que “varre não só a Europa, mas grande parte da humanidade”, contradiz fundamentalmente os ensinamentos Bahá’ís de “paz e fraternidade”. Advertiu ainda que “o mundo está cada vez mais perto de uma catástrofe universal” porque os governos estão a caminhar numa direcção extremista. Afirmou que, embora a obediência seja crucial, a crença e a prática da Fé não devem ser comprometidas de forma alguma, mesmo que isso possa resultar na morte. Aconselhou que os Bahá'ís:

...devem obedecer ao governo sob o qual vivem, mesmo correndo o risco de sacrificar todos os seus assuntos e interesses administrativos, e em caso algum devem permitir que as suas crenças e convicções religiosas mais íntimas sejam violadas e transgredidas por qualquer autoridade.

Em 1938, um ano após os nazis terem proibido a Fé Bahá’í na Alemanha, Shoghi Effendi escreveu aos Bahá’ís alemães (através do seu secretário) para delinear uma estratégia de resposta às autoridades locais alemãs e à Gestapo. Os Bahá’ís tinham escrito ao Guardião a pedir conselhos sobre como proceder depois de terem sido notificados de que as actividades Bahá’ís estavam proibidas e dos seus objectos religiosos terem sido confiscados permanentemente. Em resposta, o Guardião alertou os Bahá'ís alemães, particularmente na região de Estugarda, de que uma insubordinação contra o regime poderia "desagradar" à polícia secreta e que os seguidores deveriam "manter total silêncio e não insistir mais no seu caso ao dirigir qualquer apelo às autoridades de Estugarda ou de Berlim". O Guardião sugeriu, em vez disso, que, se viável e seguro, os seguidores deveriam "procurar novas formas de abordagem", contactando oficiais de alto de topo da Gestapo, considerando que a sua organização "é soberana na Alemanha de hoje".

Tal como na sua carta anterior, o Guardião terminou a sua mensagem dizendo que o mundo está a tornar-se cada vez mais tenso e dividido, instando as pessoas a "prepararem-se para desenvolvimentos ainda muito mais sérios".

Contudo, o Guardião afirmou que os Bahá’ís da Alemanha podiam estar "seguros e confiantes" na sua Fé e na promessa de 'Abdu'l-Bahá de um futuro brilhante para a sua comunidade. Ambas as cartas de Shoghi Effendi reflectem uma perspectiva de profunda preocupação e esperança, e serviram de guia aos Bahá’ís alemães sobre as atitudes pessoais e as suas actividades religiosas sob opressão. A fé inabalável patente nos textos de Shoghi Effendi estava também presente em muitos Bahá’ís alemães, especialmente naqueles que sofreram as consequências mais severas devido às suas crenças.

Lídia Zamenhof
Um exemplo da extrema perseguição que os Bahá’ís enfrentaram sob o regime nazi foi a prisão e execução de Lídia Zamenhof na Polónia controlada pelos nazis. Lídia, nascida em 1904 em Varsóvia, foi professora, escritora e tradutora, e envolveu-se com a Fé Bahá’í ainda jovem. Filha do oftalmologista de Varsóvia Zamenhof, criador do esperanto, a língua auxiliar universal, Lídia foi responsável pela tradução de vários textos essenciais da Fé Bahá’í e escrevia e viajava frequentemente para ensinar os princípios da Fé. Depois de ter passado algum tempo nos Estados Unidos com a comunidade Bahá’í americana, Zamenhof regressou à sua terra natal, a Polónia, em 1938, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Após a invasão alemã da Polónia, a casa de Zamenhof foi bombardeada, e ela e a sua família foram presas.

Lídia passou cinco meses na prisão antes de ser enviada para o Gueto de Varsóvia. O seu tempo no gueto foi marcado pelas suas tentativas de conseguir alimentos e medicamentos para os mais vulneráveis. Ela recusou uma oferta de fuga de um soldado alemão Bahá’í, a fim de proteger os outros residentes do gueto das represálias nazis.

A recusa de Zamenhof em partir acabou por resultar no seu trágico fim, quando foi transportada num vagão de gado do Gueto de Varsóvia para Treblinka em 1942, onde foi morta na câmara de gás logo à chegada. Na sua última carta conhecida, ela escreveu: “… Sei que devo morrer, mas sinto que é meu dever permanecer com o meu povo. Deus permita que, dos nossos sofrimentos, possa surgir um mundo melhor. Acredito em Deus. Sou Bahá’í e morrerei Bahá’í. Tudo está nas Suas mãos.

Eva Toren, uma jovem conhecida de Zamenhof e sobrevivente de Treblinka, esteve com Lídia nas suas últimas horas. Enquanto os nazis gritavam e agrediam as suas vítimas, Toren descreveu Lídia como "caminhando majestosamente, direita, com orgulho, ao contrário da maioria das outras vítimas que estavam compreensivelmente em pânico". A história de Lídia Zamenhof é apenas um exemplo trágico das consequências que os Bahá’ís enfrentaram simplesmente por praticarem a sua Fé, mas as suas comunicações e conduta finais demonstram uma recusa absoluta em comprometer as suas crenças, sabendo que isso significaria a sua morte.

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Texto original: How Does a Peaceful Faith Community Resist Repression? (www.bahaiteachings.org)

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Caroline Fowler é natural de Austin, Texas. Está a fazer um doutoramento em Neurociência Comportamental na Universidade de Baylor. Recentemente, licenciou-se pelo Austin College, após ter concluído a sua tese de honra em neurociência. A sua investigação futura irá explorar a relação entre o cérebro e o sistema imunitário, especificamente no que diz respeito à fadiga e à depressão relacionadas com o cancro. Embora seja uma apaixonada pela ciência, tem um profundo amor pela história, com particular ênfase na Europa de Leste e na Alemanha.

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