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sábado, 10 de novembro de 2018

Um Plano Bahá’í para a Paz




Segundo os ensinamentos Bahá’ís, a humanidade chegou a um ponto do seu desenvolvimento evolutivo em que o mundo necessita de um governo mundial:

Virá o tempo em que a necessidade imperativa de realizar uma vasta e ampla assembleia de homens será universalmente percebida. Os governantes e reis da terra devem estar presentes e, participando nas suas deliberações, considerar as formas e os meios que estabelecerão as fundações da Grande Paz mundial entre os homens. Essa paz exige que as Grandes Potências resolvam, para bem da tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si. Se algum rei pegar em armas contra outro, todos se devem levantar unidos e impedi-lo. Se isto for feito, as nações do mundo não necessitarão de quaisquer armamentos, salvo com o propósito de salvaguardar a segurança dos seus reinos e de manter a ordem interna nos seus territórios. Isto garantirá a paz e a serenidade de todos os povos, governos e nações. (Baha’u’llah, Tablets of Baha’u’llah, p.164)

A Fé de Bahá’u’lláh foca-se na criação de um mundo onde pessoas pacíficas vivem num planeta sem guerra.

Como característica central desta visão sagrada – e crucial para a sua realização – os ensinamentos Bahá’ís advogam a criação de uma federação de nações do mundo que assegure a paz mundial. No livro “O Segredo da Civilização Divina”, escrito em 1875, ‘Abdu’l-Bahá delineou plenamente a visão Bahá’í de um mundo pacífico e sustentável:

A verdadeira civilização desfraldará o seu estandarte no centro do coração do mundo, quando um certo número de soberanos distintos de carácter nobre – exemplos brilhantes de devoção e determinação – decidirem, para o bem e para a felicidade de toda a humanidade, levantar-se com determinação firme e visão clara, e estabelecer a Causa da Paz Universal. Devem fazer da Causa da Paz o objecto de consulta geral e procurar por todos os meios ao seu alcance estabelecer a União das nações do mundo. Devem concluir um tratado vinculativo e estabelecer um pacto, cujas provisões sejam claras, invioláveis e definitivas. Devem proclamá-lo a todo o mundo e conseguir-lhe a aprovação de toda a raça humana. Este empreendimento nobre e supremo – a verdadeira fonte de paz e bem-estar para todo o mundo – deve ser considerado sagrado por todos os que habitam na terra. Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para garantir a estabilidade e permanência deste Mais Grandioso Pacto. Neste Pacto global, os limites e fronteiras de todas as nações devem ser claramente fixadas, os princípios subjacentes às relações entre governos devem ser definitivamente estabelecidos, e todos os acordos e obrigações internacionais cumpridos. De igual modo, o volume de armamentos de cada governo deve ser estritamente limitado, pois se for permitido aumentar os preparativos de guerra e forças militares de qualquer nação, isso levantará suspeitas das outras. O princípio fundamental subjacente a este Pacto solene deve ser tão forte que se qualquer governo violar posteriormente as suas provisões, todos os governos da terra se levantarão para o reduzir à completa submissão; ou melhor, a raça humana, como um todo, deve decidir, com todo o poder ao seu dispor, destruir esse governo. Se este que é o maior de todos os remédios for aplicado ao corpo doente do mundo, este certamente recuperará das suas enfermidades e permanecerá eternamente são e salvo.

Veja-se que, se essa feliz situação acontecer, nenhum governo necessitará de armazenar continuamente armas de guerra, nem se sentirá obrigado a produzir constantemente novas armas militares para dominar a raça humana. Uma pequena força para fins de segurança interna, punição do crime e de elementos desordeiros e prevenção de desordens locais, seria necessária – não mais do que isso. Desta forma toda a população ficará, primeiramente, libertada do fardo esmagador das despesas impostas para fins militares, e, posteriormente, um grande número de pessoas deixaria de dedicar o seu tempo à concepção contínua de novas armas de destruição – esses testemunhos de ganância e sede de sangue tão inconsistentes com o dom da vida – e, em vez disso, voltariam os seus esforços para a produção de tudo o que pudesse fomentar a paz, o bem-estar e a existência humana, e pudesse tornar-se causa de desenvolvimento e prosperidade universais. Então toda a nação na terra reinaria em honra, e todo o povo seria criado na tranquilidade e contentamento. (‘Abdu’l-Bahá, The Secret of Divine Civilization, pag. 65-67)

Será que esse “maior de todos os remédios” é eficaz - ou parece um sonho distante e inimaginável? Há quem não acredite que a humanidade possa alcançar uma civilização assim tão segura, pacífica e tranquila - mas os Bahá’ís acreditam:

Alguns, desconhecendo o poder latente no esforço humano, consideram este tema altamente impraticável, ou melhor, para lá do âmbito do maior esforço humano. Contudo, este não é o caso. Pelo contrário, graças à infalível graça de Deus, à amorosa bondade de Seus favorecidos, aos esforços incomparáveis de almas sábias e capazes, e aos pensamentos e ideias dos líderes inigualáveis desta era, absolutamente nada pode ser considerado inatingível. Esforço - incessante esforço - é necessário. Nada menos do que uma determinação invencível poderá consegui-lo. Numerosas causas que em tempos passados eram consideradas puramente visionárias, neste dia tornaram-se muito acessíveis e praticáveis. Por que deveria esta mais grandiosa e sublime Causa – o sol do firmamento da verdadeira civilização e a causa da glória, do progresso, do bem-estar e do sucesso de toda humanidade – ser considerada um feito impossível? Seguramente, virá o dia virá em que a sua bela luz irradiará esplendor sobre a assembleia do homem.

Com os preparativos continuarem ao ritmo actual, o aparato do conflito atingirá um ponto em que a guerra se tornará algo intolerável para a humanidade.

É claro, a partir do que já foi dito, que a glória e grandeza do homem não consiste em ser ávido por sangue e ter garras afiadas, em arrasar cidades e espalhar devastação, em massacrar militares e civis. O que seria um futuro brilhante para ele seria a sua reputação pela justiça, a sua bondade para com toda a população, fosse rica ou pobre, a sua atitude de edificar países e cidades, aldeias e bairros, tornar a vida fácil, pacífica e feliz aos seus semelhantes, estabelecer os princípios fundamentais para o progresso, elevar os padrões e incrementar a riqueza de toda a população. (Idem)

O mundo continua a mover-se para esta visão de realização da paz universal. A comunidade das nações fez a sua primeira dessas tentativas com a Sociedade das Nações, após a Primeira Guerra Mundial; e tentou de forma mais empenhada, com mais países e criando o conceito de direitos humanos universais, ao criar as Nações Unidas, após a Segunda Guerra Mundial. No entanto, nenhuma destas organizações implementou plenamente a visão de Bahá’u’lláh de um mundo verdadeiramente unido, desarmado e pacífico. Ainda temos um longo caminho à nossa frente antes de conseguirmos a verdadeira unidade global.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 3 de novembro de 2018

Quais as Verdadeiras Causas da Guerra?

Por David Langness.


“Qual a maior necessidade do mundo da humanidade?”, perguntou um Bahá’í a ‘Abdu’l-Bahá em 1914, pouco antes de rebentar a Primeira Guerra Mundial.

Falando pouco antes do início do conflito mais mortífero da história da humanidade até então - onde morreriam 19 milhões de pessoas no espaço de quatro anos - ‘Abdu’l-Bahá disse:
Hoje no mundo da humanidade, o assunto mais importante é a questão da Paz Universal. A concretização deste princípio é a necessidade gritante deste tempo. As pessoas tornaram-se impacientes e descontentes. O mundo político de toda a nação civilizada tornou-se uma vasta arena para exibição de militarismo e exibição de espírito marcial. As mentes dos estadistas e dos ministros, de todo o governo, estão principalmente ocupadas com a questão da guerra, e nos municípios ecoa o apelo à guerra.

Os interesses pessoais estão na base de toda a guerra. Ganância, comércio, exploração, alargamento de fronteiras do reino, colonização, a preservação de direitos estabelecidos, protecção de vidas e interesses dos cidadãos, são alguns dos pretextos para lançar uma guerra. E tem sido provado pela experiência que os resultados da guerra são ruinosos, tanto para conquistadores como para conquistados. Os países são devastados, o património público é espezinhado, o comércio fica paralisado, os campos rubros com o sangue inocente e o progresso do mundo é retardado. Como pode uma pessoa corrigir um mal cometendo um mal ainda maior, derramando o sangue dos seus irmãos? A maior parte do rendimento de cada país é gasta na preparação de máquinas militares infernais, enchendo os arsenais com pólvora e munições, na construção de armas de disparo rápido, na construção de fortificações e aquartelamentos militares, e na manutenção anual do exército e da marinha. Desde os camponeses até ao topo, toda a classe social é fortemente tributada para alimentar esse monstro insaciável de guerra. Às pessoas pobres é retirado tudo o que conseguiram com o suor do seu rosto e o trabalho das suas mãos.

Na realidade, a guerra é contínua. O efeito moral das despesas com estas somas colossais de dinheiro em meios militares é tão prejudicial quanto a guerra em si e o seu séquito de carnificinas e horrores. As forças ideológicas e morais das partes em conflito tornam-se bárbaras e brutais, os poderes espirituais ficam atrofiados e as leis da civilização divina são desrespeitadas. Um tamanho sorvedouro financeiro seca as veias e os músculos do corpo político, e congela as sensibilidades delicadas do espírito.

Não existe a menor dúvida que a nação ou governo que faz um esforço extraordinário na promoção da paz universal será cercada por confirmações divinas, e será objecto de honra a respeito entre todos os habitantes da terra. Essa acção será conducente à prosperidade e ao bem-estar da espécie humana. Sobre esta questão da paz universal, há cinquenta anos, sua santidade Bahá’u’lláh escreveu a todos os soberanos e monarcas do mundo explicando em detalhe os benefícios da paz e os males das carnificinas. Entre outras coisas, Ele disse: originalmente, a espécie humana era uma família, unida e compacta; posteriormente, os membros desta família foram divididos e subdivididos através da ignorância e do preconceito. Agora chegou novamente o momento da sua unificação final. A paz universal trará esta consumação há muito desejada. (Star of the West, Volume 4, pp. 41-42)

Na sua notável resposta a esta questão, ‘Abdu’l-Bahá fez várias observações fascinantes e incisivas. Primeiro, Ele salienta que “na realidade a guerra é contínua”, especialmente quando “a maior parte do rendimento de cada país é gasta na preparação de máquinas militares...”

‘Abdu’l-Bahá fez uma observação presciente. Hoje, intelectuais e historiadores referem este tipo de abordagem militarista continuada aos conflitos nacionalistas como “guerra perpétua” ou “guerra eterna”. Muitos escritores perspicazes e especialistas militares - como Dexter Filkins, James Chace, David Keen, James Pinckney Harrison, Tran Van Don e Robert Fisk - concluíram que esta guerra é mentalmente contínua e descreveram-na como factor determinante em locais flagelados pela guerra, como o Médio Oriente, o Afeganistão e outros locais do mundo; é também um grande actor nas tensões globais entre as nações mais poderosas do mundo.

Assim, quando muitos países industrializados levam as suas instalações fabris a centrar as suas energias na produção de armas e gastam a maior parte dos seus orçamentos e recursos nacionais nas suas forças militares – tal como ‘Abdu’l-Bahá previu – isto conduz-nos inevitavelmente a uma guerra:
Considerai agora que os países mais avançados e civilizados do mundo foram transformados em arsenais de explosivos, que os continentes do globo foram transformados em enormes campos de batalha, que os povos do mundo formaram eles próprios nações armadas, e que os governos do mundo estão a competir uns com os outros sobre quem dará o primeiro passo para o campo da carnificina e do massacre, sujeitando assim a espécie humana ao grau extremo de aflição. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #225)
Os ensinamentos Bahá’ís advertem a humanidade e os seus líderes que fazer uma guerra perpétua leva à ruína, tanto de indivíduos como de nações. Em qualquer competição pela supremacia de armamentos, nenhum poder de fogo é suficiente. Quando um país tenta apenas ficar à frente dos outros, cada adversário gasta enormes quantias numa corrida fútil e guiada pelo medo – que geralmente termina com o mesmo “equilíbrio de poder” com que começou. Ninguém vence uma corrida aos armamentos.

Bahá’u’lláh, nas Suas epístolas aos reis e governantes do mundo, advertiu-nos repetidamente sobre as corridas aos armamentos:
Harmonizai as vossas diferenças e reduzi os vossos armamentos, para que o fardo das vossas despesas possa ser aliviado e para que as vossas mentes e corações possam ficar tranquilos. Sarai as dissensões que vos dividem e não mais precisareis de armamentos, salvo naquilo que exigir a protecção das vossas cidades e territórios. Temei a Deus e acautelai-vos para não ultrapassar os limites da moderação e serdes contados entre os extravagantes.

Ficámos a saber que aumentais as vossas despesas todos os anos e que colocais o respectivo fardo sobre os vossos súbditos. Em verdade, isto é mais do que eles podem suportar e é uma penosa injustiça. Decidi com justiça entre os homens e sede símbolos da justiça entre eles. Isto, se julgardes honestamente, é a coisa que vos convém e é digna da vossa condição. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXVIII)

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Texto original: What Really Causes War? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 27 de outubro de 2018

Ninguém vence uma corrida aos armamentos

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá’ís apelam aos dirigentes da humanidade que desarmem – que abdiquem dos seus enormes depósitos de armamento - reconhecendo colectivamente que a era da guerra está a chegar ao fim:
Através de um acordo geral, todos os governos do mundo devem desarmar simultaneamente e ao mesmo tempo. Isto não terá efeito se um depuser as armas e outro recusar fazê-lo. As nações do mundo devem acordar umas com as outras sobre este assunto de importância suprema, para que assim possam abandonar em conjunto as armas mortais de carnificina humana. Enquanto uma nação aumentar os seus gastos militares e navais, outra nação será forçada a entrar neste despique louco pelos seus supostos interesses naturais. (‘Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 3, p. 116)
Devemos chegar a um acordo para nos unirmos e pormos fim à guerra, dizem os ensinamentos Bahá’ís, não só devido à sua carnificina, morte e destruição, mas também devido aos seus custos ocultos para as sociedades que fazem a guerra. As guerras aparentemente intermináveis no mundo – aquelas onde estamos agora a combater e as que estamos a planear e preparar para combater no futuro – custam-nos enormes quantidades de dinheiro e de vidas humanas. Por exemplo, no meu país, os Estados Unidos, as despesas com guerra excedem as despesas de todas as outras áreas.

Aqui fica o detalhe: os EUA gastam 6% do seu orçamento anual na educação das suas crianças; 6% no próprio governo; 5,5% em habitação e despesas comunitárias; 5% em saúde e cuidados de saúde; 4% em assuntos internacionais, incluindo toda a ajuda externa; 3% em energia e ambiente; 2,5% em ciência e investigação médica; 2,5% em trabalho; 2% em transportes; 1% em alimentação e agricultura - e 62,5 % no Departamento de Defesa, guerras, programas de armamento e apoio a militares veteranos.

Por outras palavras, os Estados Unidos gastam mais de três quintos do seu dinheiro em despesas militares.

Consegue imaginar o que poderia ser feito com esse dinheiro se reduzíssemos as nossas despesas militares para um nível mais razoável?

O tremendo volume das despesas militares em algumas culturas belicistas pode chocar a maioria de nós, porque - a menos que sejamos militares ou trabalhemos numa instalação militar – temos pouco ou nenhum conhecimento sobre os custos de um empreendimento dessa natureza.

Depósito de aviões militares retirados do serviço
O Exército dos Estados Unidos deu-me uma formação directa dobre despesas militares. Alguns dias após ter iniciado a recruta num campo de treino inserido numa base militar do tamanho de uma cidade, comecei a pensar nos custos de manutenção de uma grande força permanente de combate. Via os milhares de soldados com quem treinava; comia em enormes refeitórios; compreendia quanto custava construir, equipar e manter tanques, helicópteros e aviões de combate; e comecei a compreender a enorme dimensão das nossas despesas militares. Em pouco tempo percebi como se poderia usar aquele dinheiro para construir um futuro pacífico e não belicista.

Se quer ter uma noção da magnitude das despesas militares, comece por imaginar o que é alimentar, alojar, fornecer roupa, transportes e cuidados de saúde a 1,3 milhões de homens e mulheres. Depois imagine o custo de pagar e treinar (e re-treinar) esses homens e mulheres. E depois, em cima de tudo isso, tente estimar o custo tremendo dos sistemas de armamento, o armamento avançado, de alta-tecnologia, as chamadas “armas inteligentes” que hoje se usam na guerra. Um míssil guiado por computador custa um milhão de dólares. Um bombardeiro B-2 custa 2 mil milhões de dólares.

Além disto, as despesas militares não seguem as leis normais da economia. O ritmo acelerado das evoluções científicas e tecnologias leva a que os chamados “custos de defesa” tipicamente cresçam de forma mais rápida do que as despesas não-militares. A corrida global aos armamentos para construir sistemas de armas maiores, mais mortíferos e temíveis levam-nos a orçamentos militares cada vez mais elevados. E por fim, estes sistemas de armamentos tornam-se obsoletos quando tecnologias mais recentes e mais caras acabam inevitavelmente por aparecer.

Esta interminável competição armamentista entre nações, e a constante prontidão para uma guerra global que as nações sentem dever estar preparadas, tornou-se um dos maiores falhanços da nossa civilização moderna, um ciclo vicioso que constitui um abominável crime colectivo contra a humanidade. Leva-nos a prosperidade, rouba comida da boca das crianças e gasta enormes quantidades de dinheiro na morte e não na vida.

As armas não produzem o que quer que seja. Quando uma fábrica produz um camião, por exemplo, esse camião realiza trabalho, e continua a fazê-lo ao longo da sua vida útil, contribuindo para a economia e para as pessoas que o utilizam. Mas quando uma fábrica produz uma arma, esta não dá qualquer contributo. Essa arma fica estática – um míssil num silo não faz qualquer trabalho útil – não tendo qualquer proveito para a sociedade que o produz, excepto no momento em que é usada e produz morte. O último presidente militar dos EUA, o general Dwight D. Eisenhower, afirmou:
Cada arma que é produzida, cada navio de guerra que é lançado, cada míssil que é disparado, significa, no fundo, um roubo aos que têm fome e não são alimentados, aos que têm frio e não têm roupa. Um mundo com armas não está só a gastar dinheiro. Está a consumir o suor dos seus operários, o génio dos seus cientistas, as esperanças das suas crianças. O custo de um bombardeiro moderno é este: uma escola moderna em mais de 30 cidades; são duas centrais eléctricas que servem cidades de 60.000 pessoas; são dois hospitais completamente equipados; são 75 quilómetros de estrada pavimentada. Pagamos por um único avião de combate meio milhão de alqueires de trigo. Pagamos por um único cruzador uma quantidade de casas que podia alojar 8000 pessoas. Esta é, repito, a melhor forma de vida que encontramos no caminho que o mundo está a tomar. Mas isto não é sequer uma forma de vida, em qualquer verdadeiro sentido. Sob as nuvens de uma guerra ameaçadora, é a humanidade que se coloca numa cruz de ferro. (…) Não haverá outra forma para o mundo viver? (“The Chance for Peace,” from a speech given to the American Society of Newspaper Editors, April 16, 1953.)
Os ensinamentos Bahá’ís concordam, dizendo que cada uma destas armas e sistemas de armamento representam um falhanço espiritual e proporções épicas, designando-os como “os frutos malignos da civilização material”:
...entre os ensinamentos de Bahá’u’lláh está o de apesar da civilização material ser meio de progresso do mundo da humanidade, enquanto não se combinar com a civilização Divina, o resultado desejado – que é a felicidade da humanidade - não será alcançado. Pensem! Estes couraçados que reduzem uma cidade a ruínas no espaço de uma hora são o resultado da civilização material; igualmente, os canhões Krupp, as espingardas Mauser, a dinamite, os submarinos, torpedos, aviões armados e bombardeiros - todas estas armas de guerra são os frutos malignos da civilização material. Se a civilização material tivesse sido combinada com a civilização Divina, estas armas de fogo nunca teriam sido inventadas. Pelo contrário, a energia humana teria sido totalmente dedicada a invenções úteis e ter-se-ia concentrado em descobertas louváveis. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 303)
Então o que pode transformar a nossa civilização material altamente militarizada numa civilização divinamente unida, pacífica e produtiva, tal como previsto pelos ensinamentos Bahá’ís? No próximo artigo vamos tentar responder a esta pergunta fundamental, analisando as principais causas da guerra.

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Texto original: No One Wins an Arms Race (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 2 de setembro de 2017

A verdadeira Religião nunca apela à guerra

Por David Langness.


Uma amiga minha perguntou-me uma vez: "Como é que distingues uma religião verdadeira de uma falsa?" Tive que pensar um pouco na resposta.

E depois de pensar durante alguns dias, respondi-lhe: "As verdadeiras religiões pedem sempre a paz. Se alguém quer guerra – seja um indivíduo, uma organização, ou uma nação – então isso é uma falsa religião. Deus não quer a guerra".

A minha amiga adorou esta definição, mas não conseguia acreditar nela. Expliquei-lhe que era uma explicação dos ensinamentos Bahá'ís:
... a guerra é destruição, enquanto a paz universal é a construção; A guerra é a morte enquanto a paz é a vida; a guerra é a rapacidade e a sede de sangue, enquanto a paz é a beneficência e a humanidade; a guerra é uma pertença do mundo da natureza, enquanto a paz é a base da religião de Deus; a guerra são trevas sobre trevas, enquanto a paz é luz celestial; a guerra é o destruidor do edifício da humanidade, enquanto a paz é a vida eterna do mundo da humanidade; a guerra é como um lobo devorador, enquanto a paz é como os anjos do céu; a guerra é a luta pela existência, enquanto a paz é a ajuda mútua e a cooperação entre os povos do mundo e o motivo do bom-agrado do Verdadeiro no reino celestial. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #227)
"A paz", escreveu ‘Abdu’l-Bahá, é "a base da religião de Deus". Apesar de sabermos que os seguidores das religiões do passado nem sempre agiram pacificamente, também sabemos que os ensinamentos originais da maioria das grandes religiões do mundo aconselharam os fiéis a dar a outra face; para dominar os nossos instintos violentos; para estar em paz com todas as pessoas; para ser, e fazer, o bem no mundo.

Os textos de Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá falam abertamente sobre a paz universal e o caminho a seguir para a alcançar. Na verdade, os ensinamentos Bahá’ís dizem claramente que Bahá’u’lláh trouxe uma nova mensagem de paz para o mundo, enfatizando a não-violência, a desmilitarização e um sistema global de governação - tudo em nome do estabelecimento de um sistema que elimine a guerra de forma universal e permanente:
O Sol da Verdade surgiu no horizonte deste mundo e lançou os seus raios de orientação. A graça eterna é ininterrupta, e um fruto dessa graça eterna é a paz universal. Tende a certeza que, nesta era do espírito, o Reino da Paz levantará o seu tabernáculo nos cumes do mundo, e os mandamentos do Príncipe da Paz dominarão plenamente as artérias e os nervos de todos os povos, para atrair para a Sua sombra protectora todas as nações na terra. (Idem, #201)
Quem procurar nas escrituras de Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá, perceberá que eles deram muita atenção à paz e à sua realização. Em Outubro de 1914, por exemplo, após o início da Primeira Guerra Mundial, ‘Abdu’l-Bahá escreveu uma poderosa carta anti-guerra para uma Bahá’í britânica chamado Beatrice Irwin, de Londres. Actriz, inventora, autora, viajante e conhecida poetisa, Irwin escreveu pela primeira vez a ‘Abdu’l-Bahá sobre a queda da Europa nos campos de batalha antes do início da guerra nos Balcãs.

‘Abdu’l-Bahá iniciou a sua famosa resposta a Beatrice Irwin com as seguintes palavras:
Ó filha amada! A tua carta foi recebida e por tua causa escrevi esta Mensagem. Este artigo, em resposta à tua questão, é muito importante. Faz o maior esforço para a sua publicação. (Star of the West, Volume 4, p. 243)
Depois parece que ‘Abdu’l-Bahá escreveu a sua carta para Beatrice Irwin como mais do que uma simples carta - pediu-lhe para fazer " o maior esforço" para encontrar quem publicasse o seu importante artigo.

O Seu texto começa assim, com alguma história pessoal e um grave aviso:
Após a proclamação do regime constitucional no turco em 1908, pelos membros do Comissão para a União e Progresso, este prisioneiro de quarenta anos [‘Abdu’l-Bahá refere-se a si próprio], andou e viajou durante três anos - de 1910 a 1913 - pelos países da Europa e pelo vasto continente da América. Não obstante a idade avançada com as suas consequências naturais, com uma voz sonora, fiz intervenções detalhadas perante grandes convenções e em igrejas históricas. Enumerei todos aqueles princípios contidos nas Epístolas e Ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre Guerra e Paz.

Há cerca de cinquenta anos atrás, Sua Santidade Bahá’u’lláh proclamou certos Ensinamentos e fez ouvir o Cântico da Paz Universal. Em inúmeros textos e diversas Epístolas, Ele pressagiou, na linguagem mais explícita, os actuais eventos cataclísmicos, afirmando que o mundo da humanidade estava a enfrentar o perigo mais poderoso e declarando categoricamente que a realização da Guerra Universal era, infelizmente, inevitável e inescapável. Pois os materiais combustíveis que foram armazenados nos arsenais infernais da Europa explodirão por contacto com uma faísca. Entre outras coisas, "os Balcãs tornar-se-ão um vulcão e o mapa da Europa será alterado". Por estas razões e outras semelhantes, Ele (Bahá’u’lláh) convidou o mundo da humanidade para a Paz Universal. Ele escreveu uma série de Epístolas aos reis e governantes e, nessas epístolas, explicou os males destrutivos da guerra e alongou-se sobre os sólidos benefícios e as nobres influências da Paz Universal. A guerra desfaz os alicerces da humanidade; matar é um crime imperdoável contra Deus, pois o homem é um edifício construído pela Mão do Omnipotente. A paz é a vida encarnada; a guerra é a morte personificada. A paz é o espírito divino; a guerra é uma sugestão satânica. A paz é a luz do mundo; a guerra são as trevas estigeanas e a escuridão ciméria. Todos os grandes profetas, antigos filósofos e Livros celestiais têm sido os precursores da paz e monitores contra a guerra e a discórdia. Este é o fundamento Divino; esta é a efusão celestial; esta é a base de todas as religiões de Deus. (Idem, Pp. 243-244)

(...)

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Texto original: True Religion Never Calls for War (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 31 de outubro de 2015

Ensinar Crianças a Odiar

Por Shirin Sabri.


Há muito exemplos históricos de sociedades que se esforçam por manter os seus preconceitos mais profundos.

Morris Fraser, um psicólogo infantil que trabalhou em Belfast com crianças traumatizadas pelo conflito na Irlanda do Norte, descreveu uma situação em que as crianças de cada lado viam as pessoas do outro lado como criaturas monstruosas:
... os equívocos e os preconceitos das crianças, como seria de esperar, reflectem os dos mais velhos - a sua única fonte de informação na ausência de experiência. Para a criança Protestante, o católico é um preguiçoso, desonesto, sujo, um criador de grandes famílias, gerador de pobreza comunitária... Na atitude da criança católica há um medo mais consciente. Para ela, o protestante é a pessoa que quer queimá-la, matá-la, privá-lo do seu lar e dos seus pais (Children in Conflict, p. 139)
Esta percepção preconceituosa e exagerada tornou-se uma parte significativa do trauma infantil.

Na Irlanda do Norte,
uma criança tenta falar com um militar britânico
Se pegarmos na citação anterior e substituirmos a palavra "Católica" por "Preto" e a palavra "Protestante" por "Branco", o texto poderia igualmente descrever de forma correcta as crianças em algumas áreas dos Estados Unidos. E poderíamos, igualmente, substituir a palavra "católica" por "Cigana" ou "Palestiniana", e a palavra "protestante" por "Checa" ou "Israelita". A imagem preconceituosa parece encaixar-se sempre. Isso dá-nos sinais fortes de que o preconceito não é sobre o grupo-alvo. Quando os fanáticos lançam os mesmos insultos humilhantes através das linhas de separação, sabemos que esses insultos são criados pelos sentimentos e desejos pessoais, e têm pouco a ver com as características observáveis nos alvos em causa.

Quando crianças irlandesas do doutor Fraser conheceram e falaram pela primeira vez com pessoas católicas (ou pessoas protestantes, conforme o caso) o seu terror e ódio desapareceram. No fundo, eram apenas pessoas; não eram as criaturas repugnantes e más que tinham imaginado. No seu livro, Fraser afirma que as crianças da Irlanda (e sociedade irlandesa como um todo) beneficiariam muito com uma educação integrada. Quando o livro foi escrito, todas as crianças católicas frequentavam a escolas católicas e todas as crianças protestantes frequentavam escolas públicas. Fraser salientou que todos os esforços para mudar esta situação enfrentaram uma resistência vigorosa, tanto do Estado como da Igreja. E acrescenta:
Os líderes da Igreja em Ulster não gostam da palavra "segregação"; preferem dizer que o sistema é simplesmente de "educação separada." Dizem-nos que as crianças podem brincar nas ruas depois da escola, pois não existe qualquer proibição sobre isso. "Lamentável absurdo", escreveu um professor no Irish News. "Lamentável, porque soa como a justificação agradável para qualquer leitor que não conhece o Ulster. Absurdo, porque, num sistema de gueto, isso é uma impossibilidade física." - Ibid., P. 168.
Cada grupo quis manter o que entendia ser o seu território, a sua área de poder e de controlo. Era contra os seus próprios interesse deixar que as crianças se misturassem, vissem as coisas com os seus próprios olhos e aprendessem por si próprias.

Preconceitos, deliberadamente atiçados por quem está no poder, criam uma atmosfera que produz atrocidades. No período que antecedeu os 1994 massacres de Tutsis e Hutus moderados em Ruanda, "foram distribuídos cartazes e folhetos que desumanizadas Tutsis como «cobras», «baratas» e «animais»" (Leia uma crónica dos acontecimentos que ocorreram no Ruanda, em 1994). Esta desumanização deliberada permitiu o genocídio que ocorreu depois.

Os Bahá'ís compreendem esse tipo de preconceito, porque eles próprios, por vezes, sofrem com essa eliminação deliberada da sua humanidade. Desde a revolução no Irão, por exemplo, os trabalhadores de recenseamento muitas vezes informam que aldeias predominantemente ou exclusivamente Baha'is não têm população. E quando lhes pedem para explicar a discrepância, respondem friamente: "eles não são humanos seres" ou "eles são apenas Bahá'ís" (Peter Smith, In Iran: Studies in Babi and Baha’i History, p. 218).

'Abdu'l-Bahá sugere:
Não se enalteçam acima dos outros, mas considerem todos como vossos iguais, reconhecendo-os como servos do Deus uno. Saibam que Deus é compassivo para com todos; portanto, amem a todos das profundezas dos vossos corações, dêem preferência aos seguidores de todas as religiões antes de vós próprios, tenham pleno amor por todas as raças e sejam amáveis com pessoas de todas as nacionalidades. Nunca falem de modo depreciativo sobre os outros, mas elogiem sem distinção. Não manchem as vossas línguas a falar mal dos outros. (The Promulgation of Universal Peace, p. 452)
Nestes tempos, temos muitas oportunidades para observar os resultados da educação das crianças numa atmosfera de preconceito, e da sua alimentação com imagens manipuladas e fantasiosas sobre "o mal dos outros." Quando as crianças não podem investigar a verdade por si próprias, elas aprendem a ver o outro lado como o bicho-papão, pois eles são facilmente doutrinadas. Muitos tornaram-se crianças-soldados, tragicamente incapazes de ver os seus inimigos como seres humanos. Um jovem que fugiu à vida de criança-soldado no Sudão recorda: "O meu desejo era matar o maior número possível de muçulmanos e árabes, e o segundo era que eu queria uma bicicleta" (leia esse relato a partir de uma ex-criança-soldado no Sudão).

Estas atitudes desenvolvem-se numa atmosfera de desconfiança e ódio entre adultos. As crianças da comunidade absorvem as atitudes dos adultos. Isso não surpreende, nem assusta, os adultos envolvidos, até que eles percebam que a criança reflecte algo bizarro, distorcendo e exagerando tudo o que vê, por vezes transformando uma simples aversão e desprezo num desejo selvagem de aniquilação, tal como acontece em muitas comunidades divididas. Em todo o mundo, os filhos de adultos preconceituosos e intolerantes entram na sua própria vida adulta cheios de necessidade de justificar as suas próprias acções repletas de ódio, culpando ainda mais as suas vítimas. E depois, a sociedade que semeou ventos começa a colher tempestades.

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Texto original: Teaching Children to Hate (www.bahaiteachings.org)

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Shiring Sabri é professora de história e Literatura na Townshend International School na Republica Checa. Tem vários ensaios e poemas publicados, nomeadamente The Incomparable Friend: The Life of Bahá’u’lláh Told in Stories (2006), The Pinckelhoffer Mice (1992) e  The Purpose of Poetry (the Journal of Bahá’í Studies Vol.1, no.1).

sábado, 18 de julho de 2015

Podemos acabar com o Terrorismo?

Por Rodney Richards.


O terrorismo, segundo a utilização contemporânea mais amplamente aceite deste termo, é fundamental e inerentemente político. É também inevitavelmente sobre o poder: a busca do poder, a conquista do poder e o uso do poder para conseguir a mudança política. O terrorismo é, portanto, a violência - ou, igualmente importante, a ameaça da violência - usada e dirigida em busca de, ou ao serviço de, um objectivo político. Com este ponto essencial claramente esclarecido, pode-se apreciar o significado da definição adicional de “terrorista” fornecido pelo dicionário: “Pessoa que tenta promover os seus pontos de vista através de um sistema de intimidação coerciva". Esta definição destaca claramente outra característica fundamental do terrorismo: trata-se de um acto planeado, calculado, e metódico. (Inside Terrorism, por Bruce Hoffman)
Todo o tipo terrorismo destrói a paz mundial e a ordem mundial.

O terrorismo é o epítome da desumanidade do homem para com o homem. O terrorismo é também tomar deliberadamente a vida e os bens dos nossos semelhantes. Faz uso aleatório da violência e ameaça intimidar ou coagir, especialmente com objectivos políticos ou religiosos. A guerra aberta, a prisão justa ou injusta e a tortura, ainda mantêm mantenha a esperança de um fim ou de uma libertação; mas isso não acontece com o terrorismo.

Estação de Bolonha (Itália), 1980
O terrorismo está enraizado na necessidade de cada ser humano de pertencer a um grupo de parceiros. Nestes tempos, tornou-se ideologicamente aceitável matar indiscriminadamente inocentes para alcançar o objectivo terrorista: a ordem social baseada na sua única concepção do que é bom para eles e para todos os outros, sem excepções. Exigem obediência imediata, exacta e completa às suas ordens e princípios, como se verifica pelas acções de bombistas suicidas. Entre 1982 e Janeiro de 2015, foram documentados mais de 4283 ataques suicidas em 40 países, provocando dor e destruição indescritíveis.

A maioria dos actos terroristas que vemos hoje já não encaixa no velho ditado "Terrorista para uma pessoa é combatente pela liberdade para outra". Veja-se, por exemplo, a atitude da Alemanha nazi contra os grupos de resistência que se opunham à ocupação dos seus países pela Alemanha, rotulando-os de "terroristas". Nem as antigas tácticas de guerrilha perdoavam isso. Lutar pela liberdade, pela justiça e pela igualdade não é o mesmo que lutar pela repressão e pela subjugação.

O terrorista, tal como o egoísta, não considera importantes os sentimentos ou as vidas dos outros:
O homem que só pensa em si próprio e desconsidera os outros... [Ele] ... é sem dúvida inferior ao animal, porque o animal não possui da faculdade de raciocínio. O animal tem desculpa; mas no homem existe a razão, a faculdade de justiça, a faculdade de misericórdia. Possuindo todas essas faculdades ele não deve deixar de utilizá-las. Quem tem o coração tão endurecido que apenas pensa no seu próprio conforto, não será chamado homem. (‘Abdu’l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 42)
Até agora, as falsidades das ideologias e das acções terroristas revelaram-se como evidentes e auto-destrutivas. É reconhecido aos governos e às pessoas de bem em todos os lugares o dever expor as suas filosofias fúteis e justificações infundadas para matar inocentes. Os ensinamentos Bahá'ís dizem que a propagação do terrorismo expõe um dos falhanços mais profundos na forma como a humanidade tratou dos seus assuntos:
Os defeitos na ordem prevalecente estão patentes na incapacidade dos Estados soberanos, organizados nas Nações Unidas, em exorcizar o espectro da guerra, na ameaça de colapso da ordem económica internacional, no alastramento da anarquia e do terrorismo, e no sofrimento intenso que estas e outras aflições causam a milhões crescentes. (A Casa Universal de Justiça, A Promessa da Paz Mundial)
É claro, que os governos também matam pessoas inocentes com bombas, mísseis e drones. Os Bahá’ís acreditam que todas essas acções - perpetradas com a máscara do terrorismo ou do governo - devem parar. Como vimos no passado, destruição e morte só produzem mais destruição e morte.

Em vez disso, os ensinamentos Bahá'ís dizem que devemos adoptar uma estrutura genuína e universal que pode regular, conter e, por fim, parar as violentas explosões terroristas no mundo. Essa estrutura exige uma nova forma de organizar o mundo, baseada na justiça e na unidade:
A aceitação da unidade da humanidade é o primeiro pré-requisito fundamental para a reorganização e administração do mundo como um só país, o lar da humanidade. A aceitação universal deste princípio espiritual é essencial para o sucesso de qualquer tentativa para estabelecer a paz mundial. Por isso, deve ser universalmente proclamado, ensinado nas escolas, e constantemente afirmado em todas as nações como preparação para a transformação orgânica da estrutura da sociedade que isso implica.

Na perspectiva Baha'i, o reconhecimento da unidade da humanidade "exige nada menos do que a reconstrução e a desmilitarização de todo o mundo civilizado - um mundo organicamente unificado em todos os aspectos essenciais da sua vida, na sua máquina política, na sua ambição espiritual, no seu comércio e nas suas finanças, na sua escrita e língua, e também na infinita diversidade das características nacionais das suas unidades federadas" (Idem)

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Texto original: How Can We End Terrorism? (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 11 de julho de 2015

Democratização e Agitação Civil

Por Rodney Richards.


Durante as últimas duas décadas, os povos do mundo propagaram e experimentaram uma vaga de fundo de agitação civil devido a múltiplos motivos.

Revista Time, 2011
Há um motivo que se destaca: a desobediência civil usada para derrubar os líderes perversos e governos corruptos que esmagam os direitos humanos. Este tipo de agitação civil - por vezes designada como “Primavera” - tenta instalar a democracia onde a autocracia ou teocracia governaram há muito tempo. Ao longo do processo, perdem-se vidas em defesa dos direitos humanos, e perdem-se vidas a tentar suprimi-los. Estas batalhas são travadas internamente, dentro de fronteiras nacionais, com o objectivo de estabelecer repúblicas democráticas. Algumas dessas batalhas já deram resultados, e provavelmente outras também darão, criando um modelo de federalismo democrático que os ensinamentos Bahá'ís recomendam fortemente:
Podeis servir melhor o vosso país - foi a resposta de ‘Abdu'l-Bahá a um alto funcionário do governo federal dos Estados Unidos da América, que o tinha questionado sobre a melhor maneira como poderia promover os interesses do seu Governo e do povo - se vos empenhardes, na vossa qualidade de cidadão do mundo, para ajudar na derradeira aplicação do princípio do federalismo que existe no governo do vosso país às relações agora existentes entre os povos e nações do mundo. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 37)
A federação de Estados (inicialmente, colónias) na América tornou-se um modelo de organização que muitas outras nações adoptaram posteriormente. No mundo do século XVIII, enquanto reis, rainhas e governantes autoritários lutavam para expandir os seus territórios e fronteiras, a ascensão da democracia na América e em França surpreendeu o mundo. Hoje, esses autocratas desapareceram, tal como Bahá'u'lláh prometeu que aconteceria se eles resistissem ao espírito da época. Desde então, o crescimento das democracias representativas superou qualquer outra forma de governo. Na imagem seguinte vemos como a democracia cresceu durante o século XX:



Além revelar a ascensão meteórica de nações democráticas, este gráfico também mostra, de forma clara, a crescente agitação, anarquia e guerras civis nos países sem representação democrática.

No fundo, a democratização tornou-se o processo genérico padrão que todas as nações e povos acabam por atravessar. O choque de opiniões fortes e a agitação civil parecem inevitáveis, a menos que os governantes autoritários abdiquem voluntariamente do seu poder e permitam que o povo governe. Este tipo de revoluções pacíficas já aconteceu em vários países: Filipinas, Polónia, Checoslováquia, Equador, etc. Mesmo depois de uma revolução não-violenta, porém, é difícil alcançar a democracia, leva-se anos para estabilizar o país, surgem conflitos (por vezes, sangrentos), e é necessário criar meios políticos para implementar as decisões sensatas de qualquer novo governo.

Mas as recompensas, quando alcançadas, são demasiado significativas para serem ignoradas. Igualdade de tratamento perante a lei, liberdade de expressão, liberdade de reunião, direito à propriedade, fim da escravidão e direito ao trabalho. Muitas pessoas morreram por estes direitos desde muito antes da Revolução Americana.

Num discurso público a uma congregação de uma igreja americana em 1912, 'Abdu'l-Bahá disse:
Considerai a grande diferença existente entre democracia moderna e as velhas formas de despotismo. Sob um governo autocrático as opiniões dos homens não são livres e o desenvolvimento é asfixiado, enquanto que na democracia, porque o pensamento e a expressão não são restringidos, testemunha-se o maior progresso. O mesmo acontece no mundo da religião. Quando a liberdade de consciência, a liberdade de pensamento e a liberdade de expressão prevalecem - isto é, quando cada pessoa segundo a sua própria idealização pode expressar as suas crenças - o desenvolvimento e o crescimento são inevitáveis. (The Promulgation of Universal Peace, p. 197)
A plena democratização de todos os 196 (ou mais) países do mundo de hoje ainda não foi plenamente realizada, mas a tendência é clara. Como 'Abdu'l-Bahá predisse nos Estados Unidos em 1912, o século XX "este século de luz" e as décadas iniciais do século XXI, criaram o cenário e colocaram em movimento as forças necessárias para realizar essa tarefa gigantesca .

A agitação civil, com o objectivo de criar nações totalmente independentes, totalmente soberanas democraticamente eleitas, conforme evidenciam os surtos globais de movimentos de protestos, está agora a atingir o seu clímax.

Este clímax físico, infelizmente, deu origem ao terrorismo nos nossos tempos.

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Texto original: A Democratic Upsurge: Wars of Civil Unrest (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 27 de junho de 2015

Podemos acabar com a guerra?

Por Rodney Richards.


GUERRA, substantivo feminino. 1.conflito armado entre grupos ou estados que envolve mortes e destruição; luta; 2.conflito entre estados ou no interior de um estado que se caracteriza por coacção política, económica, psicológica ou militar; 3. conjunto de operações militares entre nações ou grupos; campanha; 4. situação de hostilidade entre pessoas ou grupos políticos; oposição.
Finalmente, a humanidade começou a ficar cansada da guerra.

Guerra Colonial Portuguesa - Guiné-Bissau
Até agora, no século 21 não tivemos qualquer guerra global generalizada, graças a Deus. Claro, que desde a Segunda Guerra Mundial, os governantes desencadearam dezenas de guerras: as guerras indo-paquistanesas, a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietname, a Guerra dos Seis Dias, a Guerra Colonial Portuguesa, a Guerra Suja na Argentina, e até mesmo a Guerra do Futebol, em 1969. Mas desde o início deste século, as guerras têm vindo a diminuir e têm surgido pequenas "revoltas", "guerras de independência", "acções militares", e especialmente "agitações civis". Mas não nos enganemos: estas guerras "menores" ainda provocam o mesmo sofrimento absoluto que as grandes guerras. Miséria e destruição contínuas, êxodos de populações ao longo de grandes distâncias, e morte para dezenas de milhares. Mas neste século, o mundo ainda não teve uma guerra com os números de mortos na casa dos milhões.

Não há guerras ou conflitos de qualquer tipo na América do Norte, a menos que contemos os conflitos raciais e sociais e a "guerra das drogas" no México. A América Central e do Sul mantiveram-se relativamente tranquilas, com excepção de várias guerras civis, agora terminadas, na Nicarágua e em El Salvador, e a Guerra das Malvinas, de curta duração em 1982. A Europa, o progenitor da maioria das guerras na Terra no século 20, tem estado relativamente incólume. O Bloco de Leste e a sua ideologia desfez-se em 1989; vários conflitos de pequena dimensão surgiram na região, mas ainda não surgiu nenhuma guerra de grande dimensão. China tem estado calma. Em África têm ocorrido várias rebeliões e golpes, mas a maior parte do continente permanece calmo.

Porquê?

Os Bahá'ís acreditam que a humanidade está a atingir a sua maioridade - para trás ficam seis mil anos de guerra e derramamento de sangue constantes - e a tornar-se uma espécie mais cautelosa, compreensiva e espiritual:
... é nosso dever fazer os nossos maiores esforços e reunir todas as nossas energias, para que os laços de unidade e harmonia possam ser estabelecidos entre a humanidade. Durante milhares de anos, tivemos carnificinas e conflitos. Foi bastante; já chega. Agora é o momento de nos associarmos em amor e harmonia. Durante milhares de anos usámos a espada e a guerra; deixemos a humanidade viver em paz, pelo menos durante algum tempo. Revejam a história e considerem quantas selvajarias, quantas carnificinas e batalhas o mundo testemunhou. Foi devido a guerras religiosas, guerras políticas ou alguns outros choques de interesses humanos. O mundo da humanidade nunca teve a bênção da Paz Universal. Ano após ano, as ocorrências de guerra foram aumentando e aperfeiçoando-se. Consideremos as guerras dos séculos passados; apenas dez, quinze ou vinte mil, no máximo, foram mortos; mas agora é possível matar cem mil num único dia. Nos tempos antigos, a guerra era executada com a espada; hoje é com armas sem fumo. Antigamente os navios de guerra eram veleiros; hoje são couraçados. Consideremos o aumento e aperfeiçoamento das armas de guerra. Deus criou-nos todos humanos e todos os países do mundo são partes de um mesmo globo. Somos todos Seus servos. Ele é bondoso e justo para todos. Porque devemos ser cruéis e injustos uns com os outros? Ele ampara todos. Porque devemos despojar-nos uns aos outros? Ele protege e preserva todos. Porque devemos matar os nossos semelhantes? ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 50)
As guerras em que nos envolvemos dão para escrever milhares de livros. No entanto, a humanidade pode-se alegrar! Podemos regozijar-nos! As guerras, no sentido tradicional de manter ou expandir as fronteiras de um país contra outro, estão quase a acabar. As consequências da guerra moderna e das armas nucleares tornaram-se demasiado terríveis de suportar - ou desencadear. As escrituras Bahá'ís destacam isso:
Unificação da humanidade inteira é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e nação foram sucessivamente tentadas e completamente estabelecida. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade aflita se encaminha. A construção de nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado está a dirigir-se em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u'llah, p. 282)
É verdade que tivemos algumas guerras no século 21 - Iraque, Afeganistão, Síria, para citar apenas três – mas estas assumiram a forma de um novo tipo de guerra travada por uma coligação de forças militares de diversos países. Estas guerras não pretendiam alterar fronteiras.

Guerras militares para colonizar ou construir nações praticamente acabaram, e hoje as disputas territoriais são feitas pela via diplomática ou nos tribunais. Podemos estar gratos pelo desaparecimento das guerras mundiais globais; no entanto, a agitação da humanidade cresce com o seu descontentamento em relação à velha Ordem Mundial, como tem sido claramente demonstrado por apelos de cidadãos em todo o mundo que reúnem em gigantescas manifestações de agitação civil.

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Texto original: Can we end War? (bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

sábado, 27 de setembro de 2014

Demonizar os "Outros": os tormentos do inferno

Por David Langness.


Pensai no amor e no bom companheirismo como as delícias do céu; pensai na hostilidade e no ódio como os tormentos do inferno. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 244.)
Há milénios que as pessoas se organizam em unidades exclusivas, chamadas tribos, raças, etnias ou nacionalidades. Parece natural que as pessoas façam isso; basta pensar nos grupos que muitas vezes se formam nas escolas, para perceber o que quero dizer.

Hoje sabemos que todas essas identidades de grupo tinham originalmente um propósito, nomeadamente, a protecção e a auto-defesa; mas além disso tinham tendência a provocar uma divisão entre as pessoas. Quem pertence a um "grupo" cria também os “fora do grupo”, os inimigos, ou aquilo a que os psicólogos chamam os "outros".

O professor Ian Robertson do Trinity College descobriu na sua investigação que à medida que este mecanismo de divisão se desenvolve algumas pessoas começam a ver o “outro” como menos humano:
Quando as pessoas se unem, os níveis de oxitocina aumentam no seu sangue, mas a consequência disso é uma maior tendência para demonizar e desumanizar quem está fora do grupo. Esse é o paradoxo da entrega altruísta ao grupo: torna-se mais fácil anestesiar a empatia para com os fora do grupo e vê-los como objetos. E fazer coisas terríveis a objetos é aceitável, porque eles não são humanos.
O holocausto foi um exemplos flagrante de desumanização
Esta desumanização é mais flagrante na guerra. Quando estamos em guerra, os outros - os "inimigos" - tornam-se sub-humanos, monstros do mal, e são retratados como criaturas terríveis e desprezíveis que não merecem viver. Todos os militares conhecem este mecanismo para demonizar o inimigo. Durante a guerra do Vietname, por exemplo, os soldados norte-americanos chamavam “gooks” (chinos) aos soldados vietnamitas, uma alcunha depreciativa que pretendia diminuir a sua humanidade e torná-los - na consciência - mais fáceis de matar.

Os Bahá'ís não acreditam em qualquer forma de separação dos seres humanos uns dos outros. Em vez disso, os ensinamentos Bahá’ís enfatizam a unidade da humanidade - que não tem fronteiras raciais, étnicas, religiosas ou nacionais. Os ensinamentos Bahá’ís declaram que as antigas divisões de religião já não se aplicam mais, que não se pode simplesmente afirmar pertencer a uma religião e fugir aos seus ensinamentos morais, e que um sistema de crenças é definido pelas acções dos indivíduos:
Nos tempos antigos, os homens ou se tornavam crentes, ou se tornavam inimigos da causa de Deus... A fé consistia na aceitação cega destas verdades; aqueles que aceitavam eram considerados salvos, os outros eram sentenciados à condenação eterna. Mas, neste dia, a questão é muito mais importante. A fé não consiste na crença; consiste em acções. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, p. 38)
A psicologia de grupo que nos permite demonizar outros pode transformar o mundo inteiro num campo de guerra, onde o antagonismo se torna normativo e começamos a pensar nas pessoas, não como seres humanos, mas como inimigos. Quando isso acontece, segue-se o conflito.

Como alternativa, as escrituras Bahá’ís exortam-nos a banir completamente o próprio conceito de inimigo dos nossos corações:
Bahá'u'lláh afirmou claramente nas Suas Epístolas que se você tem um inimigo, não deve considerá-lo como um inimigo. Não seja apenas paciente; não, pelo contrário, ame-o… Nem diga que ele é seu inimigo. Não veja quaisquer inimigos. Apesar de ele ser o seu assassino, não o veja como inimigo. Veja-o com os olhos da amizade. Tenha em mente que se o deixar de considerar como um inimigo e apenas o tolerar, isso é simplesmente um estratagema e hipocrisia. Considerar um homem como inimigo e amá-lo é hipocrisia. Isto não é digno de nenhuma alma. Você deve encará-lo como amigo. Você deve tratá-lo bem. Isso está certo. ('Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 267)

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Texto original: Demonizing the “Other”—The Torments of Hell

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 20 de setembro de 2014

A Multidão e a Perda de Consciência Humana

Por David Langness.


No texto anterior desta pequena série, iniciámos uma exploração psicológica e espiritual de um dos mais sombrios e terríveis aspectos do comportamento humano: a selvajaria. Como exemplo mais recente de guerras brutais em vários lugares do mundo, a crise do “Estado Islâmico” no norte da Síria e no Iraque chamou a atenção do mundo com selváticos assassinatos em massa, decapitações e genocídio sectário.

Quando estes crimes terríveis contra a humanidade ocorrem, fazem-nos muitas vezes querer culpar um determinado grupo étnico, seita religiosa ou nacionalidade. Mas os instintos selvagens nos seres humanos são muito mais profundos do que essas filiações; segundo com os ensinamentos Bahá’ís encontram-se, potencialmente, em todos nós:
... mas quando o homem não abre o seu coração e a sua razão para a bênção do espírito, mas volta a sua alma para o lado material, para a parte física da sua natureza, então ele cai da sua posição elevada e ele torna-se pior que os habitantes do reino animal. Neste caso, o homem encontra-se numa situação miserável! Porque, se as qualidades espirituais da alma, aberta ao sopro do Espírito Divino, nunca são usadas, atrofiam-se, enfraquecem, e, por fim, tornam-se inúteis; quando as qualidades materiais da alma se exercitam isoladamente tornam-se terrivelmente poderosas - e homem, infeliz e perdido, torna-se mais selvagem, mais injusto, mais vil, mais cruel, mais maléfico do que os próprios animais inferiores. Todas as suas aspirações e desejos são fortalecidos pela sua natureza inferior, ele torna-se cada vez mais brutal, até que todo o seu ser deixa de ser superior à dos animais que perecem. Homens assim, pretendem fazer o mal, magoar e destruir; eles estão totalmente desprovidos do espírito da compaixão divina, pois a natureza celestial da alma foi dominada pela material. Se, pelo contrário, a natureza espiritual da alma tiver sido tão fortalecida ao ponto de dominar o lado material, então o homem aproxima-se do Divino; a sua humanidade torna-se tão gloriosa que as virtudes da Assembleia Celestial se manifestam nele; ele irradia a Misericórdia de Deus, estimula o progresso espiritual da humanidade, pois tornou-se uma lâmpada que ilumina o seu caminho com luz. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 97-98.)
As qualidades materiais da alma, como salienta ‘Abdu'l-Bahá, podem levar a um existência brutal e selvagem. Os psicólogos sabem que quando essas qualidades são socializadas num grupo ou até mesmo uma multidão sem lei, estas tendem a reforçar cada membro e a contribuir para uma identidade de grupo agressiva, violenta e cruel. O professor Ian Robertson do Trinity College, em Dublin, que estudou essas tendências dos seres humanos para a brutalidade, diz que a imersão numa identidade de grupo pode produzir uma enorme selvajaria:
Quando o Estado entra em colapso, e com ele a lei e a ordem e da sociedade civil, há apenas um recurso para a sobrevivência: o grupo. Seja definido pela religião, raça, política, tribo ou clã - ou mesmo pelo domínio brutal de um líder - a sobrevivência depende da segurança mútua oferecida pelo grupo. 
A guerra une as pessoas nos seus grupos e esta ligação alivia um pouco o medo terrível e sofrimento que o indivíduo sente quando o Estado colapsa. Também oferece auto-estima às pessoas que se sentem humilhadas pela sua perda de lugar e estatuto numa sociedade relativamente ordenada. À medida que isto acontece, as identidades individuais e de grupo fundem-se parcialmente e as acções da pessoa tornam-se tanto uma manifestação do grupo, como da vontade individual. Quando isso acontece, as pessoas podem fazer coisas terríveis que nunca teria imaginado fazer noutras circunstâncias: a consciência individual tem pouco espaço num grupo aguerrido e hostilizado, porque as identidades individuais e de grupo tornam-se uma, enquanto existir a ameaça externa. São os grupos que são capazes de selvajaria, muito mais do que qualquer indivíduo isolado.

Podemos ver isso nos rostos dos jovens militantes do Estado Islâmico, quando desfilam nos seus veículos, agitando bandeiras negras, com grandes sorrisos, erguendo punhos cerrados, recém-chegados de uma matança de infiéis que não se converteram ao Islão. O que podemos ver é uma elevada concentração bioquímica combinando a hormona oxitocina de pertença e a hormona testosterona de dominância. Muito mais do que a cocaína ou o álcool, estas drogas naturais levantam o humor, induzem o optimismo e estimulam uma acção agressiva por parte do grupo. E porque a identidade individual se encontra fortemente imersa na identidade do grupo, o indivíduo estará muito mais disposto a sacrificar-se numa batalha - ou num atentado suicida. Porquê? Porque se eu estiver imerso grupo, eu vivo no grupo mesmo que o "eu individual" morra.
Esta perda de vontade individual - e da consciência humana individual - pode ocorrer de forma rápida e completa num contexto de grupo. Quando nos entregamos a nossa própria humanidade a um qualquer grupo - uma milícia violenta, uma multidão, um exército, um gangue, uma seita - arriscamo-nos a perder a nossa própria humanidade.

Testemunhei pessoalmente a forma como esta mentalidade de multidão e a selvajaria se pode desencadear - entre soldados e guerrilheiros de ambos os lados durante a guerra do Vietname; em motins urbanos em Los Angeles e Manila; no comportamento bárbaro dos esquadrões da morte patrocinados pelo governo durante a guerra civil em El Salvador; e nos terríveis crimes de guerra cometidos pelos sérvios e depois pelas forças albanesas durante, e após, a limpeza étnica no Kosovo. Depois de ver essas coisas acontecerem, percebi que quase toda a gente - se a crueldade, a miséria e depravação desumana os estimularem suficientemente - pode cair no pântano espiritual de mentalidade de multidão e perder a sua consciência humana.

E quem pensa: "A mim, não. Eu sou uma boa pessoa! Eu nunca faria essas coisas!", então não está sozinho. Quase todas as pessoas cujo comportamento caiu na selvajaria, provavelmente também sentiu uma vez o mesmo sobre si próprio, até que as circunstâncias das suas vidas lhes fizeram sentir que não tinham escolha.

A única coisa que eu sei que pode impedir tal queda face a uma dificuldade extrema é uma fé clara e inabalável.

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Texto original: Mob Mentality and the Loss of Human Conscience (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 13 de setembro de 2014

O "Estado Islâmico" e a Selvajaria Humana

Por David Langness.

Deus dotou-nos com intelecto, não com o propósito de nos fazer instrumentos de destruição, mas para que pudéssemos tornar-nos difusores de luz, criar o amor entre os corações, estabelecer a comunhão entre os espíritos e reunir o povo do oriente e do ocidente. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, p. 182)
Não há nada tão desolador e terrível como uma explosão de selvajaria humana! ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 28)
Horrorizado, o mundo viu militantes do recém-formado "Estado Islâmico" no Iraque e na Síria a chacinar milhares de pessoas, e a filmar alguns desses assassinatos em massa e decapitações.

No Ocidente, muitas pessoas que se aperceberam deste tipo de selvajaria culpam o fundamentalismo islâmico, e atribuem-no "àqueles muçulmanos loucos". A comunicação social ocidental raramente dá cobertura aos milhões de muçulmanos pacíficos e devotos, preferindo focar-se numa pequena minoria de militantes armados e terroristas genocidas, que são motivo de notícias mais sensacionais. Revoltada com a crueldade bárbara e abominável dessas acções, e desconhecendo os ensinamentos islâmicos sobre paz e justiça, classificam - errada e injustamente - todos os muçulmanos como um grupo fundamentalista violento.

Militantes do "Estado Islâmico" na Síria
Se o leitor pensa assim, eu posso entender a forma como desenvolveu essa ideia. Mas eu gostaria de argumentar contra esse tipo de reacção, e tentar explicar porque é que isso desvaloriza e destrói a humanidade de milhões de pessoas muito boas, amáveis e pacíficas.

Primeiro, e mais importante, quero dizer que a selvajaria humana e barbárie não são pertença exclusiva de uma etnia, uma nacionalidade ou de um grupo "religioso".

E infelizmente, não faltam provas que demonstrem esse facto.

O genocídio Hutu contra os Tutsi no Ruanda, em 1994; o genocídio nazi nas décadas de 1930 e 1940; o genocídio dos Khmer Vermelhos contra a elite intelectual do Cambodja na década de 1970; o genocídio americano e canadiano contra os índios; o genocídio sérvio contra Kosovo na década de 1990; todos estes exemplos provam que selvajaria humana não pode ser confinada a um grupo. Existem centenas de outros exemplos deste tipo. Massacres brutais, selvagens e desumanos, se eles ocorrem numa hora ou num dia ou ao longo de um século, não são exclusivo dos muçulmanos, dos cristãos, dos judeus ou dos budistas; atravessam todas as barreiras e, ao longo da história da humanidade, quase todos os grupos já foram perpetradores ou vítimas.

Se não podemos identificar as origens desses surtos terríveis de selvajaria numa qualquer etnia, religião, nacionalidade, grupo racial ou ideologia política em particular, então de onde vem ela? E se potencialmente vem de dentro de qualquer pessoa, o que isso diz sobre nós? E se todos nós temos o potencial para a selvajaria, o que podemos fazer sobre isso?

Ian Robertson, professor de psicologia no Trinity College, em Dublin, na Irlanda, e ex-diretor e fundador do Instituto de Neurociências do Trinity College, estudou as origens da selvajaria humana, e, na sua pesquisa, descobriu que esta não pode ser atribuída a qualquer um religião ou ideologia. Na verdade, o professor Robertson diz que, como seres humanos, todos estamos potencialmente propensos a comportamentos selvagens e desumanos. A investigação de Robertson indica que as principais causas da selvajaria incluem os seguintes factores:

  1. Selvajaria gera selvajaria 
  2. Submersão no grupo 
  3. Os extra-grupo como objectos 
  4. A Vingança 
  5. Líderes

Neste pequeno conjunto de ensaios, vamos examinar essas cinco causas da selvajaria, explorar como se podem desenvolver e criar metástases, e, posteriormente, analisá-las através de uma perspectiva espiritual e humanitária dos ensinamentos Bahá’ís, que explicam como entender a selvajaria e o que podemos fazer para pará-la.

O professor Robinson diz:
A primeira parte de uma resposta pode ser terrivelmente simples: a selvajaria gera selvajaria. Brutalidade, agressividade e falta de empatia são respostas comuns de pessoas que foram mal tratadas. Nos campos de concentração nazis, por exemplo, muitos dos guardas mais cruéis eram eles próprios prisioneiros - os conhecidos "kapos". Crianças abusadas sexualmente - especialmente os homens - são mais propensos a tornarem-se abusadores sexuais quando se tornam adultos, embora isso não aconteça com a maioria. As vítimas, por outras palavras, muitas vezes respondem ao trauma tornando-se elas próprias vitimizadoras.
Os abusados, por outras palavras, tornam-se muitas vezes os abusadores. Na vida, quando se sofre abusos terríveis ou violência ou guerra ou condições desumanas na vida, é-se mais propenso a perder a sensibilidade a essas coisas e reconhecê-la nos outros. A investigação mostra que entre trinta a quarenta por cento das crianças abusadas tornam-se abusadores na idade adulta.

Estes dados estatísticos contêm dor e esperança. Dizem-nos que a interrupção do ciclo de selvajaria e abuso pode ser uma difícil tarefa multi-geracional; mas também nos diz que os seres humanos podem conscientemente parar o ciclo, e que muitos conseguem fazê-lo.

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Texto original: The ISIS Crisis and Human Savagery (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.