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sábado, 2 de maio de 2026

Kant e a visão Bahá’í: Uma República Mundial para Cidadãos Globais

Por Ingo Hofmann.


Com várias guerras regionais em curso, o mundo parece estar a afastar-se cada vez mais do objectivo da paz mundial. Será que a razão e a ciência podem inverter esta tendência alarmante?

As palavras de Einstein, "A ciência sem religião é coxa; a religião sem ciência é cega", ainda se aplicam no século XXI.

Contudo, nos últimos séculos da nossa história, a razão e a ciência não parecem ter sido antídotos suficientes para a guerra. Apesar das nossas grandes conquistas tecnológicas, intelectuais e educacionais, as guerras ainda nos matam.

O que podemos aprender com os grandes filósofos sobre como impedir guerras?

A confiança do influente filósofo Immanuel Kant (1724-1804) na razão sustentava a sua visão do futuro da humanidade: só com cidadãos globais numa república mundial federal, afirmava ele, poderíamos pôr fim a todas as guerras e construir uma paz duradoura.

Immanuel Kant viveu no século XVIII, mas a sua visão tornou-se relevante para os nossos dias. Se os filósofos têm o direito de olhar profeticamente para o futuro, os fundadores das religiões também o devem fazer.

Bahá'u'lláh, o profeta fundador da Fé Bahá'í, fez exatamente isso quando revelou este mandamento: "Ordenamos a toda a humanidade que estabeleça a Mais Grandiosa Paz — o meio mais seguro de todos para a protecção da humanidade."

Vamos, então, explorar este objectivo primordial — a paz e a segurança da humanidade — tanto de uma perspectiva filosófica como religiosa, e examinar os notáveis paralelismos entre elas.

A visão do futuro, segundo Kant

As guerras sangrentas fizeram parte de todas as épocas. Em contraste, na sua obra "A Paz Perpétua" (1795), Kant desenvolveu a ideia da "união civil perfeita da espécie humana" numa república mundial federal.

Kant baseou a sua receita para a paz não apenas na confiança na bondade das pessoas ou mesmo na providência divina, mas unicamente na razão e na lei. Segundo Kant, a razão é um dom comum a todos, enquanto a religião — nas suas palavras, “eclesiástica” — servia os interesses dos poderosos. A razão e a lei, afirmava a filosofia de Kant, podiam dar três passos em direcção a um mundo pacífico:

  1. Para Kant, o primeiro passo deveria ser a garantia dos direitos de cidadania entre um povo. Os Estados-nação emergentes do século XIX já estavam a caminhar nesse sentido com as suas constituições.
  2. Num segundo momento, Kant afirmou que os litígios entre Estados deveriam ser regulados pelo direito internacional. Isto foi conseguido inicialmente, mas apenas de forma breve e parcial, com a Sociedade das Nações após a catástrofe da Primeira Guerra Mundial, que teve origem na Europa.
  3. O terceiro passo de Kant recomendava uma “cidadania mundial” em que todos seriam “… cidadãos de um Estado humano geral”. Nesta comunidade global, afirmava que um “poder legislativo, governamental e judicial supremo” garantiria que os conflitos pudessem ser resolvidos de forma não violenta, com cada nação a aderir voluntariamente a uma república mundial federal. O direito soberano do mais forte seria então finalmente substituído por uma lei baseada na razão e, portanto, universalmente válida.


Após a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento das Nações Unidas e a sua "Declaração Universal dos Direitos Humanos" os direitos do indivíduo começaram a alargar-se para além das fronteiras nacionais.

É claro que a época de Kant não foi de todo propícia às suas ideias avançadas. A reputação de Kant, e de outros que pensavam como ele, cedo se dissipou no meio do caos da Revolução Americana de 1776 e da Revolução Francesa de 1789, seguidas pelas sangrentas rivalidades dos emergentes Estados-nação europeus. Iniciava-se uma era global de soberanias nacionais.

Meio século depois, o poeta alemão Heinrich Heine, romântico e de espírito rebelde, também se preocupava com o bem-estar na Terra no seu poema provocador de 1844: “… Queremos estabelecer o reino dos céus aqui na Terra… Deixamos o céu para os anjos e os pardais.” Heine morreu exilado em França em 1856, odiado por alemães nacionalistas e anti-semitas.

Nem mesmo o “filósofo do declínio”, Friedrich Nietzsche, se contentava com a tradicional consolação das religiões relativamente a uma vida melhor depois da morte. Os poetas e filósofos do seu tempo fortaleceram a vontade de “progresso na Terra”, exigida pelo Iluminismo e pela industrialização. Entretanto, as ideologias do nacionalismo, do imperialismo e o crescente materialismo impulsionavam o desenvolvimento da civilização. As ideias religiosas tradicionais adaptaram-se a esta tendência ou resistiram-lhe.

A visão de futuro, segundo Bahá’u’lláh: O momento é oportuno.

De certa forma, o mundo parece estar actualmente a caminhar no sentido oposto às ideias de Kant sobre uma nova ordem: os sucessos no combate às alterações climáticas globais estão a ser bloqueados por interesses nacionais; o pensamento sobre a segurança global e a ideia de paz mundial são frequentemente subjugados pela geopolítica.

Mas qualquer pessoa que tenha assistido recentemente ao filme vencedor de um Óscar “Oppenheimer” compreende que as armas nucleares mudaram fundamentalmente o nosso mundo. Mesmo que se fale apenas das chamadas “armas nucleares tácticas”, que soam triviais, mas não o são, o potencial para a utilização de armas nucleares é mais perigoso do que nunca num mundo armado até aos dentes e a fervilhar com tensões cada vez maiores. Isto significa que a visão de Kant da paz mundial numa “república mundial federal” habitada por cidadãos globais já não é um mero devaneio filosófico — tornou-se um imperativo, absolutamente necessário e inevitável como o próximo passo na evolução humana.

As Escrituras Bahá’ís consideram a paz uma etapa futura inevitável, do interesse de toda a humanidade, e apresentam à humanidade um caminho para o estabelecimento de uma ordem mundial pacífica. Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í, reiterou os ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre a unidade humana global, alertando o mundo contra o apego a Estados-nação soberanos e invioláveis:

A unificação de toda a humanidade é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e da nação foram sucessivamente tentadas e completamente conseguidas. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade perturbada se encaminha. A construção das nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado caminha em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida. (The World Order of Bahá'u'lláh, p. 202)

Nos ensinamentos Bahá’ís, o foco no futuro deste mundo pode parecer estranho para muitos, dado que a ideia de uma ordem governamental global é um conceito novo na história da religião. Mas é uma resposta, na linguagem do Iluminismo, à há muito esperada emancipação da razão humana da compreensão tradicional da religião pela Igreja. A verdade não pode ser encontrada através da tradição; depende da razão, e além disso, depende da palavra revelada. Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que:

A unidade da raça humana, tal como antecipada por Bahá'u'lláh, implica o estabelecimento de uma comunidade mundial em que todas as nações, raças, credos e classes estão íntima e permanentemente unidas, e em que a autonomia dos seus Estados membros, e a liberdade e iniciativa pessoais dos indivíduos que as compõem, estão definitiva e completamente salvaguardadas. Esta comunidade deve, tanto quanto a podemos visualizar, incluir um parlamento mundial, cujos membros, enquanto fideicomissários de toda a humanidade, irão, em última análise, controlar todos os recursos de todas as nações que a integram, e promulgar leis que sejam necessárias para regular a vida, satisfazer as necessidades e organizar as relações entre todas as raças e povos. (The World Order of Bahá’u’lláh, p. 203)

Uma compreensão tão precisa de uma ordem mundial que abrange a humanidade como um todo pode soar invulgar para uma religião. No entanto, as Escrituras Bahá’ís afirmam que as pessoas não têm apenas necessidades materiais — em vez disso, a nossa natureza espiritual, que inclui a razão, serve como tarefa central da humanidade, mantendo o equilíbrio entre os mundos material e espiritual. Para termos paz, devemos concentrar a nossa atenção em ambos. Portanto, não foi a razão que nos falhou. O mundo está agora mais preparado do que nunca para a visão kantiana da paz mundial dentro da estrutura de uma república mundial federal. Para isso, deve ser restabelecido o equilíbrio entre as duas asas do "pássaro da humanidade" — fé e razão, religião e ciência. Só assim o ensinamento primordial de Bahá'u'lláh — "A Terra é um só país, e a humanidade, os seus cidadãos" — poderá tornar-se realidade.

Uma versão anterior deste artigo foi originalmente publicada em alemão aqui: https://www.perspektivenwechsel-blog.de/bahai-artikel/kant-prophet-vernunft-2

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Texto original: Kant and the Baha’i View: A World Republic for Global Citizens (www.bahaiteachings.org)

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Ingo Hofmann estudou física em Munique e trabalhou em investigação e como professor universitário na região de Frankfurt durante mais de três décadas. É pai de quatro filhos e vive em Potsdam, Brandemburgo, há vários anos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Hans Kung: Provas da Existência de Deus

Assim como rejeita as provas em favor de Deus, Kant também rejeita as provas contra Deus. Porquê? Porque também elas ultrapassam o horizonte da experiência. A ideia de Deus não é nenhuma contradição em si, e os que querem provar que Deus não existe incorrem num erro maior ainda: “As mesmas provas” que demonstram a incapacidade da razão para provar a existência de Deus são suficientes, segundo Kant, “para demonstrar que toda a afirmação em contrário também é inadequada”: “Pois de onde poderia alguém, por pura especulação racional, concluir que não existe nenhum ser supremo, como fundamento de tudo...” Kant está convencido de que a ideia de Deus é um limite necessário, que, qual uma estrela distante, não pode ser atingido pelo processo do conhecimento, mas que de qualquer modo pode ser visado como um ideal a ser atingido.

Uma imagem: quando alguém admite que não consegue ver nenhuma coisa atrás da cortina, ele também não pode afirmar que por detrás da cortina não existe nada. Aqui também o ateísmo se depara com seus limites. Todas as provas e demonstrações de grandes ateus são suficientes para tornar questionável a existência de Deus, mas não para provar cabalmente que Deus não existe.

É lamentável termos conhecimento de tantas falsas batalhas , travadas já nos séculos 19 e 20, entre a fé em Deus e a ciência, entre teologia e ateísmo. E mais lamentável ainda é que no século 21 muito cientistas da natureza ainda se deixam prender pelos argumentos dos séculos 19 e 20 da crítica ateísta à religião, argumentos já resolvidos, mas por eles muitas vezes poucas vezes reflectidos. Ainda hoje o ateísmo tem alguns profetas entre os cientistas da natureza.

Hans Küng, O Princípio de Todas as Coisas, pags. 74-75
(Editora Vozes, Petropolis, 2007)