Por Tom Tai-Seale.
Todos sabemos que a cultura ocidental contemporânea rejeitou amplamente a religião, apesar de, quando não deturpada ou vazia, a religião construir sociedades e confortar indivíduos.
É claro que a crença religiosa por vezes está errada e inspira acções incorrectas, geralmente devido a más interpretações e/ou zelo desmedido. Com o tempo, porém, as crenças falsas tendem a dissipar-se e perdem a sua capacidade de influenciar as acções, e os erros são geralmente reconhecidos e corrigidos.
Agora, porém, devo dizer-vos que a religião é muito mais do que apenas preceitos morais orientadores e belos desejos etéreos.
Embora noutros artigos eu tenha abordado o papel da verdadeira religião na construção e manutenção da sociedade, também é verdade que grande parte do poder da religião manifesta-se a nível individual e místico.
Vivenciei pessoalmente esse poder. À medida que me aproximava da pós-graduação, a minha educação espiritual tomou um rumo repentino e inesperado, e comecei a notar forças muito maiores na religião.
É claro que o percurso de cada um é diferente, e as experiências religiosas de uma pessoa podem parecer absurdas para outra, e isso é natural. Mas, como a religião pode causar efeitos individuais profundos, qualquer discussão sobre religião que os ignore é incompleta. Nestes tempos em que a luz da religião parece ter-se apagado em tantos lugares, ofereço a minha própria história como um pequeno exemplo do poder inspirador da religião.
Na faculdade, comecei a investigar seriamente as religiões. Eu não estava realmente à procura de me juntar a uma religião; apenas queria compreendê-las, ter mais conhecimento sobre o enorme impacto que a religião teve na humanidade. Investiguei desde o cristianismo carismático até pequenos cultos místicos com nomes estranhos que já não existem. Li Ouspensky, Gurdjieff e Krishnamurti. Participei na Koray Adventure, fui a encontros Hare Krishna, li livros sobre budismo, frequentei a Casa Quaker, participei na imposição de mãos cristã, visitei mosteiros cristãos e diversas igrejas.
Gradualmente, porém, um grupo começou a destacar-se para mim: os Bahá'ís. Têm uma história incomparável em drama e intensidade nos tempos modernos. A Fé Bahá’í possui vastas Escrituras Sagradas de beleza inigualável e intelecto sublime, uma mensagem progressista e oportuna, ensinamentos espirituais e sociais que fazem sentido racionalmente, líderes com carácter exemplar, uma diversidade global sem igual e membros imbuídos de bondade genuína. À medida que a sua singularidade se tornou clara para mim, passei a frequentar regularmente as reuniões Bahá’ís.
Por fim, atravessei um limiar, um ponto em que percebi que tinha um peso moral a zelar para responder às suas reivindicações – e decidi tornar-me Bahá’í. Nunca fui de me juntar a grupos, mas juntei-me.
Esta comunidade Bahá’í única, presente em todo o mundo, tornou-se então a base para o meu desenvolvimento espiritual contínuo e para o desenvolvimento da minha compreensão intelectual do plano de Deus. Os seus membros excepcionais tornaram-se também meus amigos, guias e mentores.
Quando decidi tornar-me Bahá'í, começaram a acontecer coisas extraordinárias. Logo no início da minha busca, enquanto lia as Escrituras Bahá'ís à noite, sentia frequentemente o meu quarto habitado por um ser que me "observava", por assim dizer, de um canto da sala. Não, não estava a consumir drogas, nem prescritas nem recreativas, nem esperava ou procurava uma visitação. O ser que sentia era majestoso, radiante, grande, poderoso e imanente – muito à semelhança dos grandes anjos que vemos em pinturas famosas. Não conseguia distinguir as suas feições (presumo que fosse um homem), apenas uma presença etérea. Mas ele estava ali, eu sentia-o, e preenchia o quarto com o que parecia ser uma santidade celestial.
Lembro-me de ter ficado perturbado, a princípio, com esta nova experiência e, embora não me sentisse ameaçado, achei melhor ignorá-la – mas ela regressou muitas vezes nas noites seguintes e, como me pareceu sagrada e radiante, aprendi a não ter medo e a desfrutar da sua presença. Seria tudo imaginação minha? Talvez – não há forma de provar o contrário. Contudo, não tenho nenhum desejo de inventar ou relatar histórias milagrosas. Estou apenas a partilhar o que me pareceu uma presença muito real e, dada a natureza das Escrituras, não posso descartar a possibilidade de existirem seres – anjos, por assim dizer – que possam, em certa medida, manifestar a sua presença entre nós. Talvez tenha sido isso que experimentei – quem sabe?
| Dr. Stanwood Cobb |
Lembro-me de ter ficado meio sem palavras e um pouco envergonhado, mas recordo-me de ter dito: "Não sei quanto à parte criativa, mas acho que se pode dizer que luto um pouco contra a depressão."
Isso foi um eufemismo. Naquela altura eu estava a passar por um momento muito difícil na minha vida. O meu pai estava envolvido em casos extraconjugais e abandonou a nossa família; a minha mãe sofria periodicamente de graves crises nervosas e tinha de ser hospitalizada ciclicamente durante meses. Além disso, os acontecimentos vertiginosos do final da década de 1960 e início da década de 1970, e a minha natureza sensível, conspiraram para garantir que, naquela altura, em 1974, me sentisse como se estivesse rodeado quase o tempo todo por uma densa nuvem. Precisava de três sessões de terapia por semana para combater a depressão e evitar pensamentos suicidas. Por isso, o comentário do Dr. Cobb surpreendeu-me verdadeiramente – especialmente porque eu sabia que a minha depressão não era geralmente visível para ninguém, muito menos para alguém que tinha acabado de conhecer e com quem tinha trocado apenas algumas palavras.
Então, o Dr. Cobb puxou-me para mais perto, levou a minha mão ao peito e disse: “Sabe, eu também costumava ficar deprimido com frequência”. Em seguida, contou-me uma história dos dias que passou na presença de ‘Abdu’l-Bahá — o grande exemplo da Fé Bahá’í: “Um dia, eu estava no meu quarto a tentar dormir à tarde — como as pessoas deprimidas costumam fazer. ‘Abdu’l-Bahá entrou sem avisar no meu quarto, caminhou até à minha cama, pegou na minha mão, segurou-a contra o peito durante um tempo que pareceu uma eternidade e, em seguida, devolveu-a, riu alto e disse em inglês (o Dr. Cobb não falava persa nem árabe): ‘Pronto, não ficará mais deprimido’”. O Dr. Cobb sorriu e depois disse: “E sabe, desde então, nunca mais fiquei”.
Achei a história muito bonita e curiosa. Mas não compreendi a relação com ela até que, ao fim de uma semana, percebi que já não estava deprimido. Passou mais uma semana e eu parecia estar cada vez mais feliz e confiante. Mais uma semana passou e descobri que não só não precisava de terapia, como também me apercebi claramente dos erros de um dos terapeutas que consultava. Na semana seguinte, comecei a dar uma ajuda mais activa e eficaz do que a terapeuta aos participantes do meu grupo de terapia.
Por essa altura, comecei a reflectir sobre a noite em que conheci o Dr. Cobb e lhe estendi a mão. Lembrei-me então do brilho dos seus olhos e, de repente, tornou-se claro para mim que ele, ou melhor, ‘Abdu’l-Bahá, me tinha curado de uma depressão muito longa e profunda. Durante os sete anos seguintes, não tive qualquer vestígio de depressão – nem por um instante. Desde então, a depressão surge fugazmente em momentos de grande stress, mas nunca se prolonga por mais do que algumas horas, e os episódios ocorrem geralmente com anos de intervalo. O que recebi naquela noite de 1974 foi um presente mágico, inesperado, monumental e transformador que mudou profundamente a minha vida. Concluí que a religião tem o poder de alterar e curar as nossas vidas interiores.
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Texto Original: Depression: an Alarm Clock for Spiritual Awakening (www.bahaiteachings.org)
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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas AM University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahá’í: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press.

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