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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Sobre Ahmadinejad e o Regime Iraniano

Estimado Professor João César das Neves,

Relativamente à sua crónica de hoje no Diário de Notícias, permita-me alguns comentários:

1 – Penso que a atitude do reitor Lee Bollinger ao receber o Presidente Iraniano foi correcta. Foram palavras duras, é verdade. Mas o presidente Ahmadinejad não é nenhum Mandela ou um Gandhi. Com os ditadores devemos usar a linguagem adequada. Lembro-lhe que a cortesia de Neville Chamberlain para com Adolfo Hitler produziu resultados horríveis.

2 – Não me parece correcto comparar as verdades ditas ao presidente iraniano com a “crise dos cartoons”. A denúncia pública de um ditador nada tem de semelhante com o insulto a uma religião (que pessoalmente considero divinamente inspirada). Por acaso Ahmadinejad é um dirigente religioso ou um teólogo conhecido? É uma figura prestigiada do Islão? Ou será apenas um presidente de um regime pretensamente teocrático?

3 – Acredita realmente que o actual regime iraniano não é uma ditadura desmiolada e se assemelha a uma democracia? Lembro-lhe que o facto de um qualquer regime político usar métodos democráticos não o torna automaticamente uma democracia; até em Portugal, antes do 25 de Abril já se realizavam eleições. Sabe quantos prisioneiros políticos existem hoje no Irão? Sabe quantos prisioneiros de consciência foram executados nestes “30 anos de democracia iraniana”? Eu podia-lhe dar uma lista com os nomes de centenas de baha’is (a maior minoria religiosa daqueles país) que foram executados desde 1979.

4 – Alguns aspectos da vida moral e social do Irão permitem-nos de facto concluir que estamos na presença de um país “desmiolado” (para usar a sua expressão). Recordo-lhe uma lei recente que visa os cães e os respectivos donos. Em Teerão, a polícia criou uma “prisão para cães”. Se algum cidadão passeia um cão em público, corre o risco de ver o seu animal levado preso. Os donos são acusados de passear cães em público e podem libertar os animais mediante o pagamento de uma fiança. Como esta poderia indicar outras leis actualmente vigentes no Irão que roçam a irracionalidade. Acredita mesmo que o Irão não é hoje governado por um regime “desmiolado”?

Sem querer parecer pretensioso, recomendo-lhe a leitura de um livro de Shirin Ebadi, O Despertar do Irão (publicado este ano no nosso país), onde se descreve de forma clara o objectiva o que são as aspirações do iranianos e como têm sido grandes as desilusões destes 30 anos de “democracia iraniana”.

Com os melhores cumprimentos,

Marco Oliveira

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A RESPOSTA RECEBIDA HOJE DE MANHÃ

Agradeço a sua mensagem e permita-me que responda com alguns comentários:

1- Penso que a atitude de Lee Bollinger durante a sessão pode ser muitas coisas. Mas corajosa não vejo como. Ele foi muito corajoso antes, por ter resistido às terríveis pressões contra a visita do presidente. Depois, quando talvez para compensar isso, insultou um convidado em sua casa, debaixo de aplausos dos seus, não vejo onde está coragem.

2- O senhor chama várias vezes a Ahmadinejad «ditador» e protesta com o facto de eu dizer que o Irão é uma democracia. É claro que quando escrevi essa frase era para ser provocador. Evidentemente que no Irão não se trata de uma democracia como nós a entendemos. Mas é uma democracia quando comparada com o resto do mundo muçulmano. Por outro lado, o Irão nem sequer é uma ditadura como nós a entendemos, quando mais na forma de ver dos muçulmanos. Nem Ahmadinejad, que é presidente durante um pequeno mandato e depois volta à vida privada (como aconteceu aos seus antecessores), pode ser classificado como um verdadeiro ditador. É preciso levar em conta as enormes diferenças entre Ahmadinejad e Kadhafi, por exemplo.

Penso que «Democracia» significa coisas diferentes em culturas diferentes e nós queremos impôr a nossa visão como única possível. Por exemplo, o senhor poderia repetir muitas das coisas que diz do Irão ao falar da democracia ateniense ou romana, as quais tinham mais semelhanças com a iraniana do que com a nossa.

O facto de não concordarmos com muitos traços de outras culturas (e eu repudio no Irão exactamente o mesmo que o senhor repudia) não nos dá o direito de insultar essas culturas, como fez Bollinger. Uma coisa é defender uma democracia. Outra muito diferente é achar que o nosso modelo é o único possível. Isso fazem Ahmadinejad e Bollinger e é esse erro que eu critico.

Respeitosamente

João César das Neves

terça-feira, 22 de maio de 2007

O Iluminismo

Uma resposta ao Prof. João César das Neves

Não tenho por hábito comentar os artigos do Prof. João César das Neves; apesar de o considerar uma pessoa esclarecida na área económica, as suas análises sobre assuntos religiosos sempre me pareceram eclesiocêntricos, e uma espécie de eco das correntes mais conservadoras da Igreja Católica. Neste aspecto, o Padre Anselmo Borges e Frei Bento Domingues são claramente mais interessantes, apresentando temas e perspectivas que frequentemente convidam à reflexão e ao debate.

Mas na sua crónica de ontem no Diário de Notícias, um pequeno parágrafo chamou a minha atenção:
O Iluminismo foi o único movimento cultural mundial que tentou fundar uma seita ateia e anti-religiosa. O fiasco é hoje evidente mas a sua sanha e fanatismo, da guilhotina ao gulag, estiveram entre os piores da História. E deixaram sequelas. Muitos leitores, mesmo crentes, continuam a ficar incomodados com um artigo destes neste local. Todos os temas são aceitáveis numa coluna destas, mas religião fica mal.
Não poderia discordar mais.

Considerar o Iluminismo apenas como sendo a semente de movimentos ateus, ou anti-religiosos, de movimentos políticos sangrentos é uma distorção grosseira da história. Estranho que um Professor Universitário utilize este tipo de discurso maniqueísta que nos dias de hoje encontra paralelo no fundamentalismo islâmicos (onde tudo o que não é muçulmano é considerado inimigo e fonte de mal) ou no radicalismo ateu (onde se abomina tudo o que cheire a religião).

A minha religião surgiu no Médio Oriente no século XIX, numa altura em que os filósofos e intelectuais muçulmanos começaram a perceber as limitações da jurisprudência islâmica e das formas de governo absolutistas. Por esse motivo, um bahá’í reconhece facilmente o papel fundamental do Iluminismo na eliminação do preconceito religioso no mundo ocidental. Para mim, o Iluminismo e o período de modernidade a que este deu origem, devem ser entendidos como parte de um processo histórico de evolução colectiva da humanidade.

Um bahá'í detido pelo governo Persa (aprox. 1880)
Por defenderem a liberdade, os baha'is enfrentaram a oposição de regimes tirânicos.

Evidentemente que não nego que o Iluminismo produziu frutos amargos na forma de teorias políticas dogmáticas tão prejudiciais à humanidade como as ortodoxias religiosas que o precederam. Dando preferência a um princípio de “Direitos Iguais para Todos”, os baha’is rejeitaram as correntes políticas como o fascismo e o comunismo do século passado.

Segundo Bahá'u'lláh, o fundador da religião bahá'í, a liberdade é a chave do progresso social e do desenvolvimento científico. O Seu filho, ‘Abdu’l-Bahá, comparou o contraste entre a intolerância medieval e as reformas iluministas do séc. XVIII:
"Quando [os Ocidentais] eliminaram estas diferenças, perseguições e fanatismo do seu seio, e proclamaram a igualdade de direitos em todos os assuntos e a liberdade das consciências dos homens, as luzes da glória e do poder ergueram-se e brilharam sobre os horizontes desse reino, de tal forma que esses países fizeram progressos em todas as direcções... Isto são provas claras e suficientes que a consciência do homem é sagrada e deve ser respeitada; e que a sua liberdade ideias mais amplas, correcções à moral, melhoramentos na conduta, revelação dos segredos da criação e manifestação das verdades ocultas no mundo contingente"
A história da religião Bahá'í possui muitos episódios de luta contra a opressão que encontram paralelo nas lutas dos ideólogos e filósofos americanos e franceses que no séc. XVII lutaram contra a tirania e o absolutismo. Hostilizados pelo clero muçulmano e por burocratas do séc. XIX do Médio Oriente, os primeiros bahá’ís enfrentaram restrições à liberdade, foram perseguidos por delitos de opinião (e por isso prezam a liberdade de pensamento), não podiam publicar os seus livros (e por isso valorizam a liberdade de imprensa) e foram alvo de leis injusta de governos absolutistas (e por isso compreendem as vantagens da democracia e do primado da lei).

Jefferson, Lock e Montesquieu, figuras de referência do Iluminismo

É importante, porém, ter presente que alguns ensinamentos bahá’ís vão um pouco mais longe e criticam alguns aspectos da modernidade iluminista. Não aceitam os direitos de propriedade como absolutos (como fazia Locke) e demonstram muito maior preocupação pelos trabalhadores e pelos pobres do que aquilo que é típico do Liberalismo. Não aceitam a escravatura como Locke ou Jefferson, pois consideram que isso é um atentado contra os direitos humanos; e entendem que os direitos humanos são universais e não um estatuto inerente aos "livres" ou aos "brancos".
Além disso, 'Abdu'l-Bahá defendeu o direito de voto das mulheres anos antes deste ter sido incluído na Constituição Americana. E quando as potências europeias justificavam o colonialismo como uma acção civilizadora e libertadora, Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá criticaram o colonialismo europeu como sendo ganancioso e desastroso.

Percebe-se, portanto, que a aceitação da herança das ideias de Locke, Montesquieu e Jefferson nos ensinamentos bahá’ís não foi um acto de assimilação passiva; tratou-se antes de uma apropriação activa, sendo estes ideais vistos como parte integrante de uma nova etapa do desenvolvimento da humanidade. Entender esta nova etapa e perceber o papel da religião no mundo moderno é um desafio que as religiões não podem ignorar, sob risco de se tornarem um obstáculo ao progresso.