sexta-feira, 7 de maio de 2004

Onde está o "novo mundo" prometido por essas ideologias?

A propósito do aniversário do nascimento de Karl Marx, referido no BDE e no Bota-Acima, recordei-me imediatamente de uma mensagem de 1985, da Casa Universal de Justiça (o órgão dirigente da Comunidade Internacional Bahá’í). Esta mensagem é ainda muito actual. Uma tradução (em português do Brasil) completa desta mensagem encontra-se aqui.

Como já escrevi anteriormente, nunca li nada de Karl Marx (prometo que um dia o farei!); apenas conheço o resultado da aplicação das suas teorias. O Marxismo foi-nos pregado como um "substituto de religião". O resultado ficou bem patente aos olhos do mundo. O que se escreve nesta carta aplica-se a todas as teorias políticas que nos foram apresentadas como derradeiras panaceias para os males da humanidade. Coloquei a bold as frases que considero mais relevantes.

Por mais vital que tenha sido a sua força ao longo da história da humanidade, e por mais dramático que seja o actual ressurgimento do fanatismo religioso militante, a religião e as instituições religiosas, no decorrer das últimas décadas, estão ser consideradas por um número crescente de pessoas como irrelevantes em relação às principais preocupações do mundo moderno. Em seu lugar, as pessoas voltaram-se ou para a procura hedonista da satisfação material, ou para a devoção a ideologias fabricadas pelos homens com o objectivo de salvar a sociedade dos males evidentes de que padece. Lamentavelmente, muitas dessas ideologias, em vez de abraçarem o conceito de unidade da humanidade e promoverem o aumento da concórdia entre os diversos povos, manifestaram tendência a deificar o Estado, a sujeitar o resto da humanidade ao domínio de uma nação, raça ou classe, a procurar suprimir toda a discussão e o intercâmbio de ideias, ou a abandonar friamente milhões de seres humanos à sorte de um sistema de mercado que, de forma mais que patente, esta agravando as agruras em que se encontra a maioria da humanidade, ao mesmo tempo que permite que pequenas parcelas vivam em condições de riqueza, com que nossos antepassados dificilmente poderiam sonhar.

Como são trágicos os resultados da fés substitutas que os sábios mundanos da nossa era criaram! Na desilusão maciça de populações inteiras que foram ensinadas a venerar nos seus altares, pode ler-se o veredicto irreversível da História acerca do seu valor. Os frutos que essas doutrinas produziram, após décadas de um exercício cada vez mais irrestrito do poder por aqueles que lhes devem a sua ascensão no mundo dos homens, são as enfermidades sociais e económicas que invadem todas as regiões do mundo nos anos finais deste século XX. Na base de todas essas aflições exteriores estão os danos espirituais, reflectidos na apatia que se apossou da massa dos povos de todas as nações e na extinção da esperança nos corações de milhões de destituídos e angustiados.

Chegou o momento em que aqueles que pregam os dogmas do materialismo, quer do Leste ou do Oeste, tanto o capitalismo quanto o socialismo, terão de apresentar contas da tutela moral que têm presumido exercer. Onde está o "novo mundo" prometido por essas ideologias? Onde está a paz internacional a cujos ideais proclamaram a sua devoção? Onde estão os avanços para novos domínios de progresso cultural, produzidos pelo enaltecimento desta raça, daquela nação ou de determinada classe? Por que é que a vasta maioria dos povos do mundo está se afundando cada vez mais na fome e na miséria, enquanto os árbitros actuais dos afazeres humanos têm a sua disposição riquezas incalculáveis, numa escala jamais concebida pelos Faraós e pelos Césares, e nem mesmo pelas potências imperialistas do século passado?


Há que ter calma e moderação na aplicação das teorias políticas. Há ideias políticas que são aplicáveis numa época e num lugar; mas não são aplicáveis em todas as épocas e em todos os lugares. E acima de tudo, não nos deixemos escravizar ou destruir por ideias políticas. Como é triste ver militantes e dirigentes políticos, arvorados em defensores de nobres ideais, mas cuja integridade moral é trucidada nos meandros de intrigas e golpadas a que eufemisticamente chamam "combate político".

Acho bem que as pessoas tenham ideais políticos e os defendam. Mas lembrem-se, por exemplo, do que disse Gandhi, sobre uma das suas causas preferidas (a independência da Índia): "Estou disposto morrer por esta causa; mas não estou disposto a matar ninguém por esta causa".

Sem comentários: