sexta-feira, 9 de julho de 2004

Há 154 anos, numa praça de Tabriz...

No dia 9 de Julho, ao início da manhã, o Governador de Tabriz, Mirzá Hasan Khan, deu ordens para que o Báb fosse levado a casa dos principais sacerdotes muçulmanos de Tabriz, com o objectivo de obter o seu consentimento escrito para a execução.

O chefe da prisão entrou na cela do Báb, num momento em que Ele falava com o Seu secretário. Interrompeu a conversa e forçou o Báb a sair da cela. "Antes de Eu lhe dizer todas aquelas coisas que desejo dizer," disse o Báb ao guarda, "nenhum poder terreno haverá de Me silenciar. Embora o mundo inteiro se arme contra Mim, porém, serão impotentes para Me impedir de cumprir até a última palavra Minha intenção."(1)

Tabriz, a cidade onde o Báb foi executado
Foram então colocados colares de ferro e grilhões no pescoço e nos pulsos do Báb e de Anis; o secretário ficou na cela. Atravessaram as ruas de Tabriz, apinhadas de gente que aguardava a execução. Ouviam-se gritos e insultos. Os Sacerdotes já tinham assinado as sentenças de morte. Ainda tentaram demover Anis, mas não conseguiram.

Algumas tradições islâmicas afirmavam que o Prometido (Qa’im) seria morto pelos próprios muçulmanos. O Báb tinha afirmado ser Ele o Prometido; para tentar demonstrar a falsidade do Báb, os sacerdotes ordenaram que a execução fosse realizada com um fuzilamento por um regimento arménio (cristão).

O comandante do regimento, o coronel Sam Khan, ficou muito desagradado com a tarefa. Tinha ouvido muitas coisas sobre o Báb e temia que a execução despertasse a ira de Deus. Assim que lhe entregaram o Báb, disse-lhe: "Eu professo a Fé Cristã, e não vos desejo qualquer mal. Se a Vossa Causa for a Causa da Verdade, livrai-me da obrigação de derramar o vosso sangue." O Báb tranquilizou-o: "Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da Vossa dificuldade."(2)

Pouco tranquilo, Sam Khán prosseguiu a sua tarefa; a execução iria decorrer na praça principal da cidade, que já estava apinhada de gente. Ordenou aos seus homens que colocassem um prego no muro e neste amarrassem duas cordas; nestas cordas o Báb e Anís foram suspensos. Depois, o regimento colocou-se em três fileiras, cada uma com duzentos e cinquenta homem; à ordem de fogo, as fileiras dispararam uma após outra. O barulho e o fumo dos disparos encheram a praça.

Quando o fumo dissipou, a multidão ficou perplexa com o que via. Anís estava em pé diante deles, ileso e sorrindo, e o Báb desaparecera. As balas apenas tinham cortado as cordas em que eles tinham sido suspensos.

Começou então uma frenética busca do Báb. Por fim, encontraram-No sentado na Sua cela, concluindo a conversa, que fora interrompida, com o Seu secretário. "Terminei a Minha conversa. Agora podeis proceder ao cumprimento da Vossa intenção"(3), foram as Suas palavras quando O encontraram.

Profundamente perturbado com o ocorrido, Sám Khán recusou-se a permitir que os seus homens disparassem de novo e ordenou-lhes que abandonassem a praça. Foi então necessário chamar outro regimento para realizar o fuzilamento; para isso foi necessário recorrer a um regimento muçulmano. Uma vez mais o Báb, e Anís foram suspensos no pátio. Quando o regimento se preparava para disparar, o Báb dirigiu estas últimas palavras à multidão que O fitava:

"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado em Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco."(4)

Desta vez as balas acertaram no alvo. Os corpos do Báb e de Anís ficaram cravados de balas e horrivelmente mutilados; mas as suas faces permaneceram quase intactas.

Algumas horas mais tarde, os dois cadáveres foram lançados numa lixeira no exterior da cidade. Durante a noite, alguns Babís conseguiram recuperar o corpo do Báb; este permaneceu escondido em diversos locais do Irão, durante várias décadas. Em 1909, os restos mortais do Báb foram finalmente colocados no Santuário numa encosta do Monte Carmelo. Hoje esse Santuário é um ex-libris da cidade de Haifa (ver foto seguinte).

Santuário do Báb no Monte Carmelo
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NOTAS:
(1) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 252
(2) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 254
(3) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 256
(4) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 257