segunda-feira, 31 de julho de 2006

Sahba Sanai

Baha'i, iraniano e português

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Texto da entrevista de Maria João Seixas a Sahba Sanai, publicada na revista Pública (suplemento do jornal Público) de ontem. A sombreado amarelo assinalei as ideias que me parecem ser mais interessantes. A "carta aberta" referida nesta entrevista encontra-se aqui.
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Tem 20 anos e estuda Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. É cidadão português, nascido em Faro. O seu nome é de origem iraniana. Por circunstâncias familiares, religiosas e políticas, os pais de Sahba encontraram em Portugal, há já mais de duas décadas, um lugar de acolhimento para o traçado de um futuro novo.

Sahba é alto, de figura atlética, e pratica com grande desenvoltura um modo de sorrir (quando fala e quando ouve quem com ele fala), que abre de par em par qualquer portada que tenha pela frente. Conhecedor e utilizador das novas tecnologias, Sahba convive desassombradamente com blogues e “sites”, como todos os da sua geração.

Em Novembro de 2005 “e-mailou” aos seus “queridos amigos” uma carta, partilhando a notícia da morte da avó paterna. Começava assim: “Para os que não sabem, a ‘amiga’ que vos dizia estar doente era ela - a minha melhor amiga, companheira de todas as horas, solidária comigo na alegria (sobre tudo!) e na tristeza. É uma alma mágica que trouxe luz à nossa casa quando, há cerca de 11 anos, veio para Portugal…”

Sahba, como os pais, professa a fé baha’i. O respeito pelos outros é um postulado da sua religião, que Sahba vive com a mesma absoluta naturalidade com que respira. Tenta exigir de si o melhor cumprimento dos preceitos de Bahá'u'lláh, fundador desta religião (a mais jovem do mundo).

Trata-se de uma religião sincretista, que preza e venera os profetas de todas as grandes religiões. Sem ritos e sem clero, teve o seu começo na segunda metade do século XIX e conta com sete milhões de crentes espalhados pelos sete cantos da terra. Bahá'u'lláh era filho de uma família nobre da Pérsia e a Pérsia do seu tempo perseguiu-o, e aos seus seguidores, tendo muitos sido torturados e mortos. No Irão de hoje e pela mesma razão de fé, os baha’is continuam a sofrer ameaças e prisões. Já em Março de 2006, Sahba voltou a escrever outra carta: “Carta aberta aos meus amigos”. Principiava desta maneira: “Olá! Se és meu amigo recomendo-te seriamente que leias esta carta, pois espero que a partir de agora baseies o teu relacionamento comigo no que aqui está escrito.” Seguem-se depois algumas clarificações sobre o que é ser baha’i e o que é ser filho de pais iranianos. Se Sahba é português deve-se justamente ao facto de ser filho de pais iranianos e baha’is. Vieram a Portugal, há mais de 20 anos, festejar o reencontro com familiares dispersos por vários continentes. Durante essa estadia, o Irão endureceu e uma nova intolerância política e religiosa começou a ser estabelecida. Os pais de Sahba queriam continuar a ser o que eram, fiéis à fé em que acreditavam, sem por isso terem de viver atemorizados e serem maltratados. Por esse motivo não regressaram à pátria amada. Portugal assumiu-se como lugar de refúgio, dando-lhes a alegria de poderem viver segundo as suas convicções, em paz e liberdade. Sahba já nasceu entre nós.

Sahba, diz-me quem és.

Quem sou? Boa pergunta. Suponho que sou mais um. Esta é a melhor definição, no meu entender.

Mas ao seres “mais um” deves reconhecer em ti algumas características próprias. É sobre elas que gostava que falasses.

Uma coisa que me ocorre tem a ver com aquela pergunta que às vezes se faz aos gémeos: “Como é ser-se gémeo?” E eles muitas vezes respondem que não sabem como é não se ser gémeo. Também não sei o que dizer, quando me perguntam se me sinto mais português ou mais iraniano. Acho que a melhor abordagem é a que me leva a dizer que me sinto cidadão do mundo. E que me vejo como alguém que aprecia a perfeição que procura.

Tens dupla nacionalidade?

Não. Sou português. Nasci em Faro há 20 anos e um bocadinho.

Que língua falas com a tua família?

Em casa fala-se uma mistura de persa (farsi), português, e até um pouquinho de inglês.

Escolheste o curso de Engenharia por convicção e gosto?

Foi uma decisão complicada. Não sei sequer se passei pela fase de os miúdos quererem ser bombeiros ou polícias, porque estive sempre, desde pequeno, fixado em olhar para o céu, ver as estrelas e seguir o que se passava lá fora, na grande abóbada. A astronomia ou a astrofísica deviam ser os domínios que, quando crescesse, me deveriam interessar. Mais tarde, por volta do 9º e 10º ano, pus-me a pensar que em Portugal ou talvez em qualquer outro país, não conseguiria atingir algo de muito extraordinário, que era o que eu mais desejava, e comecei a viciar-me literalmente, em computadores. Cheguei a pensar tirar um curso profissional e desistir até de qualquer licenciatura. Andava completamente obcecado. Os meus pais é que não andavam nada satisfeitos com a ideia e eu senti, e sinto, que não podia tomar uma decisão tão drástica sobre o meu futuro sem o apoio deles. Consultei-os sobre as razões daquele desagrado relativamente ao que eu queria fazer no mundo dos computadores, ouvimo-nos mutuamente e, entre tudo o resto de que eu também gostava, escolhi Engenharia Civil. Olhando para trás, ainda bem, os computadores não eram de facto o melhor para mim e é curioso como, por não querer ir contra a vontade dos meus pais, acabei por encontrar o sítio certo, aquele onde queria mesmo chegar.

Sendo a formação do teu pai em Arquitectura, terá sido esse universo ligado às construções a influenciar a tua escolha?

Penso que não. Para além de ser arquitecto, o meu pai domina outros saberes que, no sue conjunto, sempre exerceram em mim um grande fascínio. Não foi especificamente esse “universo ligado às construções” que me levou à decisão de ser engenheiro. Não sendo aquilo que eu mais gostava no momento, acreditei que seria bom aprender a gostar mais. É o que está a acontecer, posso dizê-lo, agora que estou a acabar o 3º ano do curso.

Quando a tua avó morreu, escreveste uma carta dando a notícia da partida da tua melhor amiga; na escolha do teu curso deste a entender que as tuas opções passaram e devem passar pelo assentimento dos teus pais. Esse culto e respeito pelos mais velhos é uma característica dominante da educação que recebeste, de preceitos iranianos praticados na tua família?

Sinto, de facto, alguma diferença de atitude em relação aos mais velhos quando olho em volta e comparo os comportamentos das pessoas que me rodeiam. Há uma coisa na cultura iraniana e, em geral, em todas as culturas orientais, que sempre me fascinou – a ideia de que atingimos o nosso melhor grau de perfeição quando, por assim dizer, inexistimos. Deste princípio decorre talvez o natural respeito que sentimos por quem temos diante de nós, pelos outros. É uma atitude transmitida desde a infância e que, para os ocidentais, pode parecer quase formal, mas não é nada, é antes próxima de uma dimensão mística, de devoção e cortesia. A relação com a minha avó paterna, por exemplo, foi de uma intensidade e importância incríveis para mim.

Há uma história de amor oriental, entre Laylí e Madjnún, que conta como duas pessoas que desejam estar uma com a outra devem absolutamente estar uma com a outra. Esta história, um pouco como a de Romeu e Julieta para os ocidentais, não acaba bem, os amantes não se juntam. Podem ouvir-se canções na Pérsia que continuam a dizer que se Laylí e Madjnún se tivessem unido, o mundo sofreria menos, porque o seu equilíbrio não teria sido mais alterado.

Sem saber explicar muito bem o significado profundo dos versos desta história, sei, com absoluta convicção, que o tal equilíbrio do mundo foi poupado a mais alterações pelo simples facto de eu ter chegado à minha avó. Teria nove anos quando ela veio do Irão para a nossa casa no Algarve. Logo no dia seguinte, após acordar, quando os meus pais saíram para o trabalho, disseram-me: “Vai estar algum tempo com a tua avó que está na cozinha.” Senti-me inibido de início, porque, afinal, não a conhecia! Entretanto, lá fui e ela começou a contar-me histórias da sua vida no Irão. Não tive a imediata consciência do que estava a acontecer, mas o incrível era que a minha avó não fazia nenhum esforço para “simplificar” ou tornar mais impressionante o que me ia contando. Cabia-me a mim o esforço de estar à altura dos extraordinários eventos cujas histórias partilhava comigo. Isso transmitia um conforto e uma serenidade incríveis. Havia nela uma majestade interior que lhe dava uma autoridade fantástica. Em todas as circunstâncias, e até ao fim da vida, foi assim.

Interessas-te pela história do Irão?

A sua história actual interessa-me pouco, acho que é um mísero ponto nesta linha do tempo. O que me fascina é a filosofia mística da Pérsia antiga, os sufis, os derviches… Embora não conhecendo a realidade iraniana, imagino que seja possível no Irão, ainda hoje, um rapaz da minha idade responder a uma pergunta do pai com uns versos de um poeta místico de há sete séculos. Não seria comum, mas também, parece-me, não seria incomum uma situação destas acontecer. Eu, como português, quando falo do quotidiano, não cito Sócrates, ou Kant ou Fernando Pessoa, para traduzir o que quero dizer. Não temos esse hábito entranhado entre nós. Falta-nos essa dimensão da espiritualidade.

Planeias visitar o país da tua avó, dos teus pais?

Desejo muito, mas de momento não planeio. Não penso que o meu pai possa ir ao Irão, por causa das perseguições aos baha’is, por terem o nome dele referenciado como parte das informações recolhidas sobre os baha’is. Nem sei se quererá ir lá, pelo estado das coisas actualmente. Não é esta a sua pátria natal. Houve perseguição muito intensa nas últimas décadas contra os baha’is - e continua a haver. Inclusive, um irmão do meu pai foi morto apenas por ser baha’i. No entanto, e embora não o diga, suponho que não lhe seria fácil ver-me ir ao Irão sem ele poder ir - “tão perto mas tão longe”.

Mas tu também és um baha’i Não corres riscos?

Sou um baha’i, mas sou também português. Faz toda a diferença. Não se vai capturar um português no Irão, pois não?

O que queres dizer quando dizes “Sou um baha’i”?

A designação Bahá'u'lláh significa “Glória de Deus”. “Baha’i” é uma palavra árabe que quer dizer, numa tradução pobre, “seguidor da Glória”. Ser baha’i é isso, procurar atingir a perfeição em tudo, não só individualmente, como socialmente. Procurar chegar à unidade do género humano é também ajudar e servir os outros. Não há ritos, nem uma hierarquia eclesiástica na fé baha’i - tento viver diariamente os princípios estabelecidos por Bahá'u'lláh e procuro também não falhar os nossos encontros, quer as Festas de 19 Dias, quer a Escola de Verão, quer outros que sinto serem, no fundo, encontros basilares da comunidade baha’i.

Escreveste e divulgaste uma “carta aberta” para corrigir alguns preconceitos de análise dos teus amigos sobre ti. Porquê?

A motivação essencial que me levou a escrever a carta e a publicá-la na Internet está assente no princípio de que qualquer relacionamento se deve basear na compreensão mútua. Não queria exactamente “corrigir preconceitos”, mas sim tentar esclarecer alguns equívocos que se tinham instalado. Tudo começou a surgir na minha cabeça enquanto assistia a uma palestra sobre “A Juventude e a Fé Baha’i”, dada por um amigo meu, também português e também baha’i. Este amigo chama-se André, gosta de carros, de “tuning” e de “hip-hop”. Se eu falasse aos meus amigos mais próximos sobre o André, eles achariam estranho, porque o único baha’i que eles conhecem sou eu, que me chamo Shaba e sou filho de pais iranianos. Pus-me a pensar mais no assunto e comecei a notar que talvez as piadas que os meus amigos fazem comigo – “Ah, o bombista”, “esse fundamentalista nuclear”, etc – fossem, na realidade, baseadas numa compreensão errónea de quem eu sou. E achei que devia propor-lhes algumas reflexões sobre a minha realidade e o facto de que ser-se iraniano e ser-se baha’i são coisas diferentes. E quis explicar-lhes que esta religião está longe de ser um obscuro movimento oriental. Bem pelo contrário. A carta passou a ser um assunto de conversa na minha turma, uns deixaram de dizer piadas de iranianos à minha frente (e não era isso que eu pretendia, queria apenas que não lessem a totalidade do real por um qualquer estereótipo), outros passaram a dizer ainda mais piadas (muito engraçadas) mas já com outra compreensão de quem eu sou - o que era o próprio objectivo da carta. Outros ainda disseram-me que pensavam que eu era da Índia ou de um outro país, ou que pensavam que ser-se iraniano e ser-se baha’i são coisas equivalente e iam procurar saber mais coisas sobre a fé baha’i.

E, do teu lado, tens alguns equívocos em relação ao Irão?

Não sei, é provável que tenha, mas… o Irão ainda não me dirigiu nenhuma “carta aberta”. Nunca se sabe ao certo se alimentamos dentro de nós equívocos e preconceitos sobre alguém, um país, um povo, um ideia, não é? Gostaria que isso não me acontecesse.

Foram recentemente presos pelas autoridades iranianas mais de 50 jovens baha’is que participavam num programa de escolarização. Como é que reages a isso?

Como qualquer pessoa reage a notícias destas, suponho – com espanto, consternação. Desde a Revolução Islâmica, em 1979, foram assassinados mais de 200 baha’is no Irão, simplesmente por serem baha’is. Uma dessas pessoas, como disse, era da nossa família. Parece uma ironia, uma vez que os baha’is não têm qualquer aspiração política, bem longe disso.

Reconheces qualidades de tolerância e acolhimento do “outro” na sociedade portuguesa?

Não conheço outra sociedade a fundo, não tenho por isso termo de comparação. Mas acho que sim, sobretudo pela experiência vivida pelos meus pais, quando há quase 30 anos vieram a Portugal. Eles não esquecem e fazem questão que a minha irmã e eu saibamos.

Sendo um baha’i de convicção profunda, tendo 20 anos, como é que lidas com a dominante materialista da vida de hoje?

Com muita atenção a ela, porque essa dominante faz-se sentir em tudo. Como exemplo, a água é um bem escasso e precioso, mas estamos mecanizados a pensar que desde que paguemos por ele, ele não se esgotará. Esquecemo-nos que pode chegar o dia em que já não temos água para pagar. O dinheiro e a velocidade da vida afastam-nos daquilo que, para mim é essência e que vem da vida espiritual. Esta exige tempo e interioridade, coisas difíceis que são normalmente substituídas pelo facilitismo do consumo. A maioria das pessoas sente falta de qualquer coisa mais, mas distrai-se dessa falta no centro comercial mais próximo. É importante não nos distrairmos, procuro estar atento a essa tentação. Não é fácil mas também não é impossível.

O que é que pensas fazer depois do curso?

Sempre me questionei sobre o que faria depois do curso. Acho que talvez tente fazer uma pós-graduação, depois trabalhar, ganhar alguns anos de experiência e, feito isso, ir em seguida para África.

África?

Sim. Fascinam-me os projectos de desenvolvimento sócio-económico e gostava de poder vir a colaborar num deles. Li uma vez um artigo sobre um senhor que tinha prestado o maior serviço a uma determinada aldeia em África, apenas por ter instalado uma bomba de água lá no poço. A noção de poder dar muito com tão pouco entusiasma-me. Ver como, com pequenos conhecimentos e poucos meios, se pode beneficiar realmente a vida de uma comunidade, deve dar uma satisfação enorme. Talvez seja por preguiça minha que gostaria de fazer coisas deste género! Mas acho que não. Acho que é tão importante o que fazemos como o modo como fazemos. E esse deve implicar uma grande entrega da nossa parte e uma clara definição dos objectivos a atingir. Não quero perder de vista a possibilidade de ajudar os outros, de contribuir concretamente para a melhoria das suas condições de vida.

És bom aluno?

Não, sou um aluno razoável.

Dá-me uma palavra de eleição?

Unidade. Acho que é menos danoso não se saber o que se fazer do que o não se tentar compreender o ponto de vista do outro. Sem esse passo conciliatório é muito difícil progredir. A unidade é fundamental para o progresso – é condição necessária e também suficiente.

6 comentários:

Maria Lagos disse...

Muito interessante a entrevista do Sahba!

Parabéns Sahba!

Beijinhos,

João Moutinho disse...

Faço minhas as palavras de Maria Lagos

GH disse...

Este post é grande; demora a ler.
Há uma coisa quer transparece na entrevista: ele é iraniano e português. Aquela história do respeito pelos pais é coisa de oriental. Mas pelo facto de pertencer a uma segunda geração (ele já nasceu cá) levam inevitavelmente a que ele assimile alguns aspectos da cultura portuguesa. Será um assimilado ou um produto do multiculturalismo?

Não quero ofender ninguém, mas pela primeira vez tenho curiosidade em conhecer um bahai. Também gostava de ver o Sahba a comentar alguns blogues.

Elizabeth disse...

Para os bahá'ís será suficiente mandar beijinhos e dar uma bela graxa aos pais do rapaz????
Talvez o gh tenha razão o post ou a entrevista em si seja tão grande que as pessoas só tomam gosto o facto de menininho já cresceu e dá entrevista!
E para gh, não se deve julgar um grupo por um indivíduo.
Se gosta de referir ao facto de ele ser iraniano/português, olha que eu conheço pessoas com mais multiculturismo e nem por isto são cidadãos do mundo e por outro lado também conheço pessoas de uma cultura só e que realmente são cidadãos do mundo.
Penso que chegou a hora de gh sair da sua casca e dar uma olhada ao mundo.

cartadosahba disse...

Olá,

Hoje li isto e pensei em comentar o que gh escreveu.

gh, quanto a gostar de me ver a comentar alguns blogues: em geral, evito activamente e propositadamente fazê-lo, em grande parte (mas não só) por considerar que é assustadoramente elevado o número de vezes que comentários em blogues
descarrilam em flaming e/ou discussões que perdem o seu sentido.

quanto a ter "curiosidade em conhecer um bahai", pois bem, que nos conheçamos, porque não? :)

deixo aqui um endereço de email: sahba_sanai[at]hotmail[dot]com

apercebi-me entretanto que não sei se gh voltará a visualizar os comentários deste post... caro Marco, há forma de contactar gh? (aguardo uma eventual
resposta por mail!)

nabilinho disse...

meu primo! nough said =)