segunda-feira, 20 de junho de 2005

Para que serve o simbolismo nas Escrituras?

Aqui fica o meu texto de hoje na Terra da Alegria.
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Em posts no Povo de Bahá, anteriores mencionei os simbolismos nas palavras que os evangelistas atribuem a Jesus e as interpretações simbólicas de S. Paulo. Mas é óbvio que alguns versículos das Escrituras contêm um significado literal. Por exemplo: "Não matarás" [Ex. 20:13] tem um significado literal. No entanto, o significado e a razão desta lei envolvem um significado espiritual intrínseco.

Existem outras passagens dos textos sagrados em que podemos reconhecer simbolismos, mas dificilmente compreendemos os respectivos significados. Por exemplo, quando Cristo se refere à Sua segunda vinda, são-lhe atribuidas as seguintes palavras: "Logo após a aflição daqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e as forças do céu serão abaladas" [Mt 24:29]. Os Cristãos discordam entre si sobre o significado deste versículo, demonstrando com isso - tal como disse Bahá'u'lláh - que o seu significado está oculto e velado. Neste caso específico, é impossível aceitar um significado literal, a menos que deixemos de acreditar na ciência. E mesmo que um Cristão reconheça que estas palavras são simbólicas, é difícil determinar com absoluta certeza o que elas significam.

Para nos ajudar a compreender os significados interiores das Escrituras, Bahá'u'lláh explicou-nos que os Manifestantes de Deus e os Apóstolos têm uma linguagem dupla: "É evidente a ti que as Aves do Céu e as pombas da eternidade falam um linguagem dupla". Uma, explica Bahá'u'lláh, é "a linguagem exterior", que é "destituída de alusões, ocultação ou véu". A outra linguagem é "velada e oculta".

Podemos então questionar: Para que servem os simbolismos? Não serão apenas meras figuras de estilo literário? E porque é que o texto sagrado não indica claramente quais são as passagens que devem ser interpretadas simbolicamente e quais devem ser interpretadas literalmente? A resposta a estas questões encontram-se nos próprios Livros Sagrados.

Cristo afirmou que falava em parábolas para que aqueles que têm sensibilidade espiritual e aqueles que procuram a verdade divina possam descobrir o seu significado, e aqueles que não são receptivos ou não procuram conhecimento espiritual não consigam apreciar o significado dos Seus ensinamentos [Mc 4:10-12; Mt 13:13- 16]. Por outro lado, o autor da Epístola aos Hebreus assegura que existe um propósito no modo como a Escritura é apresentada, isto é, mostrar as intenções do coração:
Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração. [Heb 4:12]
Talvez fosse à Palavra de Deus - essa linguagem dupla - que Jesus se referiu quando afirmou: "Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" [Mt 10:34]. Neste versículo, entendo o termo “espada” como simbolizando algo que corta e separa; não como instrumento de guerra ou agressão (mas isto é apenas uma interpretação pessoal).

Tal como a Bíblia, também as Escrituras Bahá'ís asseguram que Deus utiliza linguagem simbólica e alegórica para testar os Seus servos, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender.

Além deste objectivo da linguagem simbólica, devemos ter presente outro aspecto: uma decisão de fé baseia-se no exercício da livre vontade do indivíduo. Se todo o texto sagrado tivesse apenas significados literais, isso implicaria a ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem se veriam impedidos de exercer o livre exercício da sua livre vontade.

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NOTA
[1] - Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, pag 155.

4 comentários:

João Moutinho disse...

"Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" .
Uma outra interpretação poderá corresponder ao facto de Elequerer dizer que não era O Príncipe da Paz profetizado por Elias.

João Moutinho disse...

Não Elias mas Ísaias.

Anónimo disse...

Marco

Hoje não há muito para comentar. Concordo em parte e as discordâncias já foram comentadas em intervenções anteriores. Seja como for, vale a pena reafirmar que o significado da Palavra de Deus é diferente para o crente e para o descrente. Isto afirmo por experiência própria. As palavras são exactamente as mesmas mas um "novo entendimento" permite descobrir verdades que estavam ocultas. No entanto, isto é obra do Espírito Santo e não de um símbolo decifrado. Por exemplo, a Bíblia explica correctamente o que significa ser "pecador", estar "perdido", a necessidade da morte e ressurreição de Cristo, mas só com a conversão percebemos a realidade que lhes está sujacente. Podemos ler a Bíblia todos os dias e não perceber minimamente o que, depois, parece óbvio. Porque é assim? Não sei, mas reconheço a soberania absoluta de Deus.
E por falarmos do assunto, aproveito para te fazer mais uma pergunta (quem dá respostas claras sujeita-se a muitas perguntas :)). Como é a conversão bahai? É um processo intelectual ou está dependente da ajuda divina e sobrenatural (O Espírito Santo para os cristãos)?

Anonymous #2

P.S. - Outro dia fizeste uma intepretação literal da palavra "adversário". Era um símbolo... :)

Marco disse...

Anonymous #2,

Creio que a aceitação de uma religião (com o implícito reconhecimento da posição do respectivo Profeta fundador) é acima de tudo um processo pessoal, onde o ser humano descobre uma forma de relacionamento com o Criador.

Como se costuma dizer, cada pessoa é um mundo; portanto, é natural que cada "conversão" seja uma experiência diferente. Desta forma não posso generalizar sobre os processos que levam uma pessoa a aceitar a religião baha'i.

Já conheci pessoas que me apresentaram os mais diversos motivos para se terem tornados baha'is: o que teve um sonho, o que leu um livro de Baha'u'llah e ficou maravilhado, o que "herdou" a religião dos pais, o que queria namorar com uma moça que era baha'i, o que achava que isto era uma espécie de comunismo com componente espiritual, o que se desiludiu com todos os partidos e todas as religiões, o que ficou fascinado com uma foto de 'Abdu'l-Bahá, o que gostava das musicas cantadas pelos baha'is,...

Para mim começou por ser uma aceitação racional e por fim foi "experiência espiritual" em que dei o meu "salto de fé"; isto é, depois de muito ler, e debater sobre esta religião, houve um "click" qualquer que me fez perceber que Bahá'u'lláh é o Profeta de Deus para os dias de hoje. Poderia dizer que este "salto de fé" foi uma extensão do processo racional; não ia contra a razão, mas também não é baseado nela. É difícil encontrar as palavras certas para descrever o tal "click". :-)

A discussão se a conversão está dependente da vontade do indivíduo ou da vontade do Criador também existe entre os Baha'is. Na minha perspectiva a ajuda divina para este processo está disponível para todos os seres humanos (i.e., não acredito que a fé seja um dom concedido apenas a alguns indivíduos). A utilização dessa ajuda depende do livre arbítrio que Deus nos dotou.