quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (5)

Deus e a Criação

Tão antigas quanto a consciência humana, são as questões "Porque é que existimos? Seremos obra do acaso ou de uma qualquer Vontade Suprema?" Sábios, filósofos e Profetas foram apresentado respostas. O fundador da religião baha'i descreve toda a existência como resultado da vontade de um Criador; e acrescenta: "...a obra da Sua Mão não conhece princípio, nem fim"[178]

Segundo os ensinamentos bahá'ís, toda a criação reflecte, de alguma forma, os "atributos" e "nomes" de Deus, desde o mais pequeno átomo à mais grandiosa galáxia. "...qualquer coisa que esteja nos céus e qualquer coisa que esteja sobre a terra, é evidência directa da revelação, no seu imo, dos atributos e nomes de Deus, já que dentro de cada átomo estão encerrados os sinais que dão testemunho eloquente da revelação daquela mais grandiosa Luz."[107] Tal como numa obra de arte em que podemos identificar características do autor, também na criação podemos identificar o cunho pessoal do Criador. Este conceito é por vezes referido como a "Revelação Universal". No Alcorão declara-se: "Não há coisa alguma que não celebre o Seu louvor"[17:44].

O ser humano é "de todas as coisas criadas a mais nobre e mais perfeita" [109]; reflecte, potencialmente, todos os nomes e atributos de Deus; São muitos os textos dos Livros Sagrados que descrevem este tema e descrevem o ser humano como a mais nobre e perfeita de todas as coisas criadas: "Quem se tiver conhecido a si próprio, terá conhecido Deus"[107].

Tal como a obra de arte que nunca conseguirá compreender a vontade, nem a essência, do seu artista criador, também a inteligência humana não pode compreender toda a vastidão e implicações da vontade divina, nem esta pode ser descrita por qualquer língua humana. Deus transcende todos os elogios e concepções que o ser humano possa fazer a Seu respeito.

É esta situação em que o ser humano aparece como o expoente máximo da criação divina, mas em que simultaneamente não tem acesso directo ao Criador, levam Bahá'u'lláh a citar no Kitáb-i-Iqán uma tradição islâmica segundo a qual Deus teria afirmado: "O Homem é o Meu mistério e Eu sou o seu Mistério".[107]

Devemos ter presente que apesar de não termos acesso directo ao Criador, nem por isso Ele nos abandonou à nossa sorte. A benevolência de Deus sempre atingiu a humanidade; nunca estivemos privados da Sua Graça. Ele nunca a negou a qualquer povo da Terra. De tempos a tempos, um Profeta tem surgido entre os povos com o objectivo de elevar a sua condição social e espiritual. A maior graça concedida por Deus ao Ser Humano é a possibilidade de O reconhecermos através dos Seus Manifestantes. Quem o consegue, alcança uma posição suprema, referida frequentemente como "a presença de Deus".

Sobre a criação, a vontade de Deus e os Profetas (frequentemente designados nas escrituras baha'is como "Manifestantes de Deus"), Bahá'u'lláh revelou no Kitáb-i-Iqán:
O domínio de Seu decreto é vasto demais para ser descrito pela língua dos mortais, ou atravessado pela ave da mente humana; e as dispensações de Sua providência são tão misteriosas que a inteligência do homem não as pode compreender. Nenhum fim atingiu à Sua criação e desde o "Princípio que não tem princípio", ela existe; e os Manifestantes de Sua Beleza, princípio algum os viu, e eles continuarão até o "Fim que não conhece fim".[178]
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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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7 comentários:

João Moutinho disse...

Excelente texto!
Dás poucas hipóteses de contra-argumentar.

Marco disse...

Querias contra-argumentar?
Gostas da discussão, da polémica...
;-)

João Moutinho disse...

Polémica...
Sim, aquela dos sócios do Sporting atacarem o seu próprio clube. Não percebo o que é que eles querem.
Se o Presidente souber sê-lo mantêm o treinador até final da época. Caso contrário, voltamos ao mesmo. Quase tudo para o FCP, alguma coisa para o SLB, e o SCP "para o ano é que vai ser" e entretanto fica atrás do BFC.

Pitucha disse...

Gosto da frase "O Homem é o Meu mistério e Eu sou o seu Mistério". E acrescentaria "e cada um de nós é um mistério para os outros". E itso leva-nos à questão do conhecimento: conhecemo-no a nós? conhecemos os outros?
Há questões fundamentais mas eternas.

Marco disse...

Pituxa,
Conhecermo-nos integralmente a nós próprios me parece impossível. Somos uma combinação biológica, psicológica e espiritual demasiado complexa para conseguirmos a plenitude desse conhecimento.

Mas se tivéssemos respostas para estas perguntas, a vida não teria qualquer encanto.
:-)

João Moutinho disse...

"Quem se tiver conhecido a si próprio, terá conhecido Deus" - Quererá isto dizer, termos a noção de que temos algum propósito, mais ou menos, definido para a nossa vida?

Marco disse...

João,
Se nos lembrarmos que o ser humano é o elemento da natureza que melhor reflecte os atributos divinos (excluo os Profetas, claro), essa frase faz todo o sentido.
Convém também ter presente que o propósito da nossa existência é duplo: conhecer Deus e construir uma civilização em contínuo progresso.