terça-feira, 21 de março de 2006

Bahá'ís do Irão: o pior está para vir?

É triste publicar um post destes num dia festivo, mas tem mesmo de ser.

Ontem, um documento apresentado pela Relatora Especial das Nações Unidas para a Liberdade Religiosa, Asma Jahangir, fez soar o alarme entre os representantes da Comunidade Internacional Baha'i junto da ONU. Ao descrever as acções do governo iraniano contra os Baha'is daquele país, a Relatora afirmou estar profundamente preocupada e expressou a sua preocupação num comunicado à imprensa relativo a "uma carta confidencial enviada em 29 de Outubro de 2005 pelo presidente do Quartel-General das Forças Armadas Iranianas a várias organismos governamentais".

"A carta", declarou a Sra Jahangir, "que é dirigida ao Ministério da Informação, aos Guardas da Revolução e às forças policiais, afirma que o Líder supremo, o Ayatollah Khamenei, deu instruções ao Quartel-General para identificar as pessoas que aderem à Fé Bahá’í e monitorizar as suas actividades. A carta prossegue solicitando aos destinatários para que recolham toda e qualquer informação sobre membros da Fé Bahá’i." A Sra. Jahangir também afirmou que "considera que uma tal monitorização constitui uma intolerável e inaceitável interferência com os direitos dos membros das minorias religiosas."

Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Baha’i junto da ONU, reagiu: "Estamos gratos à Sra. Jahangir por ter dado a conhecer esta actividade. Partilhamos a sua preocupação pelo bem-estar dos baha’is e receamos pensar no que isto pode significar. Tratando-se de uma acção governamental sem precedentes, dirigimos ao Embaixador Iraniano um pedido de explicações." E acrescentou: "A preocupação da Relatora Especial no sentido de que essa informação possa ser «usada como base para um aumento das perseguições e discriminações contra membros da Fé Bahá'í» está claramente bem fundamentada".

"Sabemos bem a que é que a propaganda de ódio pode levar; a história recente apresenta muitos exemplos dessas horríveis consequências. E em nome dos baha’is iranianos, apelamos a todas as nações e povos para que não permitam que esta comunidade pacífica enfrente as consequências de um ódio cego", disse a Sra Dugal. "Não devemos permitir que os actos horríveis que surgiram de circunstâncias similares no passado, se repitam novamente. Nunca mais".

ATAQUES NOS MEDIA IRANIANOS

Nos últimos meses, vários jornais e programas de rádio têm prosseguido uma intensa campanha anti-Baha'i. Entre Setembro e Novembro de 2005, o influente jornal governamental Kayhan publicou mais de trinta artigos difamando a Fé Bahá'í com a clara intenção de suscitar entre os leitores o preconceito, a suspeita e o ódio contra comunidade baha’i do Irão. Esses artigos fazem uma deliberada distorção histórica, apresentam documentos históricos forjados, e descrevem os baha’is como tendo princípios morais ofensivos para os muçulmanos.

Em 1955 e 1979, o governo iraniano organizou violentos ataques contra os Bahá’ís daquele país. Estes ataques sempre foram precedidos de campanhas nos jornais e na rádio que fizeram crescer a animosidade e preconceito, aparentemente com o objectivo de preparar o público com o que estava para vir.

A SOCIEDADE HOJJATIEH

A crescente influência nos meios governamentais da Hojjatieh (link Wikipedia) - uma organização assumidamente empenhada na destruição da Fé Bahá'í -, apenas aumenta os receios sobre o futuro dos baha’is. Esta organização, fundada em 1953, por um clérigo muçulmano xiita, desempenhou durante a revolução iraniana de 1979, um importante papel ao acicatar a animosidade contra os baha’is. No entanto, devido a algumas diferenças teológicas - entre outras coisas, a Hojjatieh acredita que um estado verdadeiramente islâmico não pode ser estabelecido antes do regresso do 12º Imam - a Sociedade caiu em desgraça e foi proibida pelo regime em 1984.

Alguns observadores externos têm associado o ressurgimento da Sociedade com o regresso dos extremistas aos meios governamentais, incluindo o Presidente que afirmou frequentemente que esperava para breve o regresso do 12º Imam.

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LINKS:

UN Religious Freedom Official expresses fears for Baha'is in Iran (notícia original no BWNS)
UN warns against moves to monitor Iran Bahais (IranMania.com)
Summary and Analysis of Recent Media Attack against Baha'is in Iran (bahai.org)
The press in Iran (BBC)


12 comentários:

João disse...

Triste noticia de facto a ensombrar este dia de festa!

Pedro Reis disse...

Acho que no Irão está a acontecer o mesmo que nos EUA, os fanáticos vão para o poder e assim o processo de destruição da velha ordem mundial vai acelerar. Não quero com isto dizer que seja bom ter governos destes, completamente o contrário, mas o que é certo é que assim as coisas vão mudar mais depressa... no fundo é a tal 'quimioterapia' em acção, que falei no último meu comentário.

É claro que muita gente inocente vai sofrer com este tipo de governos, uns directa outros indirectamente, mas parece não haver outra forma. Estamos no ponto de viragem mais significativo da historia da humanidade, e infelizmente parece que o estado das coisas não vai mudar da forma pacífica.

João Moutinho disse...

Ainda estão à espera do 12.º Imame...
Toda esta aberrante intolerância na terra de Zaratustra e Ciro é triste.

Mas Pedro, essa de dizeres que o que está a acontecer no Irão é o mesmo que nos EUA não me parece justo, mesmo que a discorância por certas políticas seguidas pela administração norte-americana seja mais do que óbvia.

Elise disse...

muito triste.

Anónimo disse...

Entretanto no Afganistão é um cristão que pode ser condenado á morte por causa da sua opção religiosa - http://news.bbc.co.uk/2/hi/south_asia/4823874.stm.
Quando está em maioria o Islão pode ser um problema sério para os não muçulmanos.

Pedro Reis

Comparar o incomparável só enfraquece o seu argumento.

Anónimo disse...

Opps, o comentário anterior é do anonymous #2.

Marco disse...

Anonymous #2,
Isto leva-me à velha questão: como é possível uma civilização (neste caso a islâmica) cair a este nível?

Anónimo disse...

Marco

Concerteza que há várias razões. Eu, talvez puxando a brasa à minha sardinha, diria que uma delas é a não separação entre Estado e Religião. E isso não é conjuntural, é estrutural. No Islão, o poder político está intimamente ligado ao poder religioso. A própria palavra muçulmano pode-se traduzir (e aqui peço a tua confirmação) por cidadão. Não sei se é possível uma reforma nesta área. Não sei se Maomé disse qualquer coisa parecida com "A Deus o que é de Deus, a César o que é de César". Mas enquanto se mnativer esta situação os problemas vão continuar a surgir.

Anonymous #2

João Moutinho disse...

Anónimo 2
Maomé, conforme sabes, foi um líder religioso e político - um pouco à semelhança de Moisés.
Não há nada no escrito no Alcorão, tanto quanto eu sei, semelhante a "A Deus o que é de Deus, a César o que é de César".
Não sei até que ponto a junção do religioso e temporal é necessariamente estrutural.
Não nos podemos esquecer que na altura de Jesus havia uma estrutura política fortíssima, a organização romana. Realidade essa que era estranha aos árabes de outrora.
No Império Bizantino o poder político e religioso também eram (praticamente) inseparáveis - julgo eu. O Inmperador era o chefe da Igreja.
Se estiver incorrecto corrijam-me.

Marco disse...

Joao Moutinho,

Os tempos mudaram. As sociedades ocidentais evoluíram. Nessa evolução sentiu-se a necessidade de separar o poder político do religioso. Isto não significa que os governos devam ignorar a existência de religiões ou de comunidades religiosas. Os governos podem (e na minha opinião, devem!) cooperar com as religiões, desde que a sua autoridade não fique subjugada ao poder religioso.

É essa separação que falta fazer nas sociedades islâmicas. Em alguns casos, tentou-se fazer essa separação de forma radical, e deu mau resultado (veja-se o caso do Xá do Irão).

João Moutinho disse...

O Pahlevi queria ser o Ataturk lá do sítio. Só que nem Ata(pai) nem Turk (até porque eram persas).
Não me parece que a tentativa de secularização da sociedade tenha sido a única razão para a queda do anterior regime iraniano, mas isso já é outra conversa.

David Wilson disse...

obrigado pela informacao, normalmente eu ja conheco apenas um pouco antes de fazer um posto, esta vez foi minha irma que falou pra mim porque ela esta bahai e sabia, logo vou mudar, obrigado plea correcao

mas ... de verdade, e demais para mim, eu nao quero ouvir mais das tragedias que eu nao posso fazer nada ajudar, entendeu?

ai ai, desculpe de queixar

esteja bem, david.