terça-feira, 11 de abril de 2006

O Massacre dos Judeus (Lisboa, 1506)

Ao longo das últimas semanas o Nuno Guerreiro veio-nos recordando do episódio sangrento do massacre dos judeus de Lisboa, em 1506 (ver 500 anos: O massacre de Lisboa I, II, III, IV, V, VI, VII). E o Lutz apelou a uma discussão sobre o assunto. Aqui fica a minha opinião.

Como qualquer outro povo, os portugueses ao longo da sua história foram cometendo as suas proezas e os seus erros. É claro que nos devemos orgulhar das proezas; mas não devemos esquecer os erros. As perseguições a minorias étnicas e religiosas são um aspecto comum à história de muitos povos; Portugal não foi excepção.

Admito que a evocação de um episódio destes possa assombrar alguma boa consciência colectiva ou até uma imagem agradável que tentamos fazer de nós próprios. Mas ao recordar um episódio muito triste da história de Portugal, não estamos a denegrir a nossa história, nem a flagelar a nossa consciência. Estamos a dar um sinal da nossa maturidade como povo e a dizer que não queremos que estas coisas se repitam.

Como alguém disse um dia, "quem esquece os seus erros, está condenado a repeti-los".

Mas não é apenas porque sou português que sinto que devo recordar este momento da nossa história. É também porque sou baha'i. Já descrevi neste blog alguns dos massacres a que os primeiros baha'is foram sujeitos; ainda recentemente referi a situação que hoje vivem os baha'is do Irão. Trata-se de uma situação em tudo semelhante à minoria judaica que vivia entre nós na idade média.

Por estes motivos, no dia 19 de Abril irei à Baixa homenagear as vítimas do massacre de 1506.

5 comentários:

Joaquim Baptista disse...

Eu pessoalmente não vou por estar muito afastado de Lisboa, mas estarei lá em espirito.

GH disse...

Pois é. Também há certos crimes na nossa história que são tabu para muita gente: Porto de S.Tomé (1953), Pindjiguiti (Guiné Bissau, 1959), Baixa de Kassanje (Angola, 1961) e Wiriamu (Moçambique, 1972). Mas esses ainda estão muito próximos no tempo para serem homenageados, certo?

Pedro Reis disse...

Tá certo, é bonito e sei que é do coração não é demagogia. Devemos olhar para o "sofrimento" dos outros e não apenas do(s) nosso(s).

Arrebenta disse...

A Paixão de Israel


Como Cidadão do Mundo, e, particularmente, como exilado interno lusitano, venho, através deste texto, associar este blogue a um dos momentos mais negros da nossa História Nacional.

Como está largamente documentado na Rua da Judiaria, celebram-se, no dia 19 de Abril, os 500 anos do infame massacre perpetrado pelos nossos antepassados sobre os antepassados dos nossos concidadãos de credo judaico. Um pouco por todo o lado se pede que nos associemos, e nesse dia acendamos, no Rossio, uma vela evocativa. Contudo, mais importante do que essa vela, convém que saibamos reacender a vela de uma memória interior.

Não me vou ater aqui a pormenores históricos, estão devida, e lapidarmente, descritos na Rua da Judiaria: em 1506, terão, por alto, sido chacinados e queimados vivos cerca de 4 000 dos nossos compatriotas, mais do que compatriotas, vizinhos de Lisboa, tão-só por uma diferença de credo, algumas referências de texto, e diferentes denominações daquele deus único dos 3 Monoteísmos.

Quando me falam de Judeus, de Cristãos e de Muçulmanos, imediatamente me acorre à ideia o Califado de Córdoba, onde, nos tempos intermédios da Reconquista, essas três religiões se uniram, para dar lugar a uma das mais espantosas florações culturais da Península, onde os pensares eram comuns, as sinagogas moçárabes, os príncipes cristãos versados nas línguas mouras, o filosofar árabe assimilado por todas as teologias, e as Igrejas de Cristo um lugar de cultos partilhados. Tudo o resto foi, depois, uma mera sombra cultural.

Portugal, país ingrato, mostrou-se sempre exímio em mutilar as suas melhores cabeças: num tempo de acolhimento, começou por juntar os restos dos perseguidos Templários com o ancestral Saber Judeu. Daí terá resultado a nossa única epopeia, a dos Descobrimentos, até que príncipes mal aconselhados, ao sabor das conveniências, resolveram substituir a Convivência pela Intolerância, obrigando ao exílio, à mentira da pele de uma religião forçada (o que é um cristão-novo, senão mais uma alma humilhada?...), e, por fim, a essa indesculpável hecatombe, iniciada em 19 de Abril de 1506.

Toda a nossa épica sucumbe nessa forçada Segunda Diáspora, onde as melhores mentes judaicas acabaram por levar o seu saber para as terras da tolerante Holanda, tornando-a na nova potência, que rapidamente substituiu o soçobrado Império Português.

Faz parte da cruz judaica a régua de dois saberes: 1) a de que mais tarde, ou mais cedo, ele será perseguido; 2) a de que, posto que essa perseguição inexoravelmente virá, lhe convém estar, ao máximo, preparado para ela. Isto gerou Judeus ricos, e Judeus sábios, e à volta disto, semeou-se sempre uma infindável história de mal disfarçadas invejas.

Quando ligo a televisão, tudo o que sinto de repulsa pelo presente xadrez de ódios do Próximo e do Médio Oriente consegue estender-se até esse dia de há 500 anos atrás. Dir-se-á que estão distantes, e que são povos que nos são quase alheios; todavia para quem invoca, repetidamente, o lema do país dos brandos costumes, relembro que esses bárbaros de há meio milénio atrás, também foram nossos antepassados, ou, por palavras outras, para que conste, que todos nós, Portugueses de hoje, deles descendemos, e descendemos em linha directa de culpa.

Fernanda disse...

Eu acho que esse Massacre foi muito cruel,
os da Raça "ariana"(alemãos)parecia ter inveja deles si la
bjs galera....