Por Christopher Buck.
Observa como aqueles que no meio do Satã do ego semearam, durante anos, as sementes da malícia e do ódio, se uniram e misturaram na sua lealdade a esta maravilhosa e transcendente Revelação, que parecia que eles tinham nascido das mesmas entranhas. Tal é o poder unificador do Verbo de Deus, que une os corações daqueles que renunciaram a tudo salvo Ele, que acreditaram nos Seus sinais...
Este é o significado das conhecidas palavras: “O lobo e o cordeiro se pastarão juntos.” [Isaías 65:25] Vê a ignorância e a insensatez daqueles que, tal como as antigas nações, aguardam que estes animais se alimentem juntos numa pastagem! Tal é a sua baixa condição... Além disso, que benefício haveria para o mundo se uma coisa dessas acontecesse? (Bahá’u’lláh, Kitab-i-Iqan, ¶118-119)
A imagem do lobo e do cordeiro a conviver em perfeita harmonia está na conhecida profecia bíblica de Isaías:
O lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á com o cabrito, o vitelo, o leãozinho e o animal de engorda estarão juntos, e um menino os conduzirá. (Isaías, 11:6)
Como é que as Escrituras Bahá’ís interpretam esta profecia? Recordemos o nosso modelo de quatro passos:
Passo 1. Se impossível, então não é literal.
Porque é que a leitura literal não é possível aqui?
Passo 2. Se não é literal, então é figurado.
Que comparação ou analogia é feita aqui?
Passo 3. Se é figurado, então é simbólico.
Que qualidades estão presentes nesse símbolo?
Passo 4. Se é simbólico, então é espiritual e social.
O que representam essas qualidades?
Primeiramente, um breve conselho: a maioria das profecias descreve eventos espirituais, não físicos. Eventos espirituais envolvem pessoas, individual e colectivamente. Sempre que encontramos menção de um animal numa profecia, o próprio animal simboliza a natureza do animal. Por exemplo, se a profecia menciona um cordeiro, geralmente se refere à natureza pacífica e dócil do cordeiro. Em alguns excertos do Novo Testamento, quando "cordeiro" é escrito com inicial maiúscula ("Cordeiro"), trata-se de uma clara referência a Jesus Cristo.
Agora, vejamos o “lobo” como outro exemplo. Animal ou pessoa? Ou uma pessoa com natureza animalesca?
Aqui, a profecia refere-se à natureza própria de um lobo. Por outras palavras, pessoas com características viciosas, predatórias e agressivas podem ser facilmente descritas como tendo uma natureza semelhante a um lobo.
Agora, vamos aplicar os quatro passos a esta profecia. Recordemos que o primeiro passo na interpretação de uma profecia descarta uma leitura literal, demonstrando sua impossibilidade.
Passo 1: Na citação inicial acima, Bahá'u'lláh recorre ao absurdo para excluir uma interpretação literal dos versículos referidos em Isaías 65:25:
«O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá palha como o boi, e quanto à serpente, o pó será o seu alimento. Não farão nenhum mal nem causarão destruição por todo o meu monte santo», diz o Senhor.
Bahá'u'lláh critica a interpretação literal:
Vê a ignorância e a insensatez daqueles que, tal como as antigas nações, aguardam que estes animais se alimentem juntos numa pastagem! Tal é a sua baixa condição... Além disso, que benefício haveria para o mundo se uma coisa dessas acontecesse? (Bahá’u’lláh, Kitab-i-Iqan, ¶119)
A resposta é óbvia: não só é impossível imaginar um lobo vegetariano a comer ao lado de um cordeiro, ou um leão comendo palha, como isso não traria benefício algum.
'Abdu'l-Bahá também refere Isaías 11:1-9 num capítulo do livro Respostas a Algumas Perguntas. Se as profecias em Isaías 11:1-9 tivessem de ser "interpretadas literalmente", diz 'Abdu'l-Bahá, então essas mesmas profecias "não se realizaram de forma alguma nos dias de Cristo" (cap. 12).
Passo 2: Tendo agora descartado uma interpretação literal de Isaías 11:1–9, ‘Abdu’l-Bahá afirma que estas profecias devem ser interpretadas de forma figurada. Tal como uma interpretação literal pode ser descartada se não fizer sentido, também uma interpretação figurativa deve ser razoável. Nem toda a interpretação figurada está correcta.
Passo 3: Os principais atributos representados pelo “lobo” e pelo “cordeiro” estão nas nações hostis e pacíficas (incluindo as nações cristãs), que continuam a frustrar e a atrasar o cumprimento integral desta profecia.
Sabemos que o cristianismo primitivo uniu cristãos de povos que eram considerados "hostis", em comunhão pacífica como irmãos na fé.
Passo 4: Ao excluir o sentido literal (Passo 1), ao estabelecer o sentido figurado (Passo 2) e ao explicar a natureza simbólica destas palavras (Passo 3), mostrando o cumprimento parcial de Isaías 11:1–9 no início do Cristianismo, ‘Abdu’l-Bahá completa a interpretação demonstrando o aparente cumprimento espiritual e social (Passo 4) da profecia de Isaías, que simbolicamente ocorreu devido à influência de Bahá’u’lláh:
Mas estes versículos aplicam-se palavra por palavra a Bahá'u'lláh... Fortes e fracos, ricos e pobres, clãs rivais e nações hostis — que são como o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, o leão e o bezerro — tratar-se-ão uns aos outros com o máximo amor, unidade, justiça e equidade...
Considere-se também que, no curto espaço de tempo desde o advento de Bahá’u’lláh, pessoas de todas as nações, tribos e raças colocaram-se sob a proteção desta Causa. Cristãos, judeus, zoroastrianos, hindus, budistas e persas convivem em perfeita harmonia e amizade… Este é um dos significados da comunhão entre o lobo e o cordeiro, o leopardo e o cabrito, e o leão e o bezerro. (Respostas a Algumas Perguntas, Cap. 12)
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Texto original: What Do “the Wolf and the Lamb” Symbolize? (www.bahaiteachings.org)
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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

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