quarta-feira, 4 de junho de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (2)

A HIPÓTESE DE DEUS

No livro "A Desilusão de Deus" ("Deus, um delírio", na edição brasileira) o Professor Richard Dawkins defende que é quase certa a inexistência de um Deus sobrenatural. O tipo de divindade que pretende criticar nem sempre é claro; primeiro afirma que vai "...falar apenas de deuses sobrenaturais, dos quais o mais familiar à maioria dos leitores é Javé, o Deus do Antigo Testamento" [p. 45] e posteriormente proclama que pretende "...atacar Deus, todos os deuses, tudo o que seja sobrenatural, onde e sempre que tenha sido ou venha a ser inventado"[p. 62].


Com bons argumentos lógicos Richard Dawkins questiona o tipo de Deus revelado no Antigo Testamento [p. 55], a Trindade [p. 58-59], os santos [p. 60], o marianismo [p. 60]. Seguidamente refuta diversos argumentos a favor da existência de Deus: as Cinco Vias de S. Tomás, o argumento ontológico, o argumento da beleza, o argumento da experiência pessoal, o argumento das Escrituras, etc...

O mais interessante dos seus argumentos é a forma como demonstram a debilidade de algumas ideias de Deus (incluindo aquelas que assentam em interpretações literais do Antigo Testamento ou em conceitos antropomórficos). Apesar destas posições, o autor parece disposto a debater uma ideia de Deus, desde que não haja ideias preconcebidas:
Os meus amigos teólogos voltam repetidamente à sua ideia de que tinha de haver uma razão pela qual existe algo em vez de nada. Deve ter havido uma causa primeira para tudo, e então dê-se-lhe o nome de Deus… sim, disse eu, mas deve ter sido algo simples, e por isso, seja lá o que for que lhe chamemos, Deus não é um nome adequado (a menos que explicitamente lhe retiremos toda a carga que a palavra Deus comporta nas mentes da maior parte dos crentes). [p. 195]
E como fica um bahá'í face a estas críticas? Será que a posição do Prof. Dawkins é uma rejeição do conceito de Deus que encontramos nas Escrituras Bahá’ís?

Bahá'u'lláh descreve Deus como “essência incognoscível”, “santificado acima de todos os atributos”, e “enaltecido acima e para lá de proximidade e afastamento”; o criador transcende todas as características humanas e não existe nenhuma relação directa entre Ele e a criação (por outras palavras, a Sua essência não se manifesta directamente ao ser humano). Além disso, possuímos uma compreensão limitada e nunca perceberemos a verdadeira natureza de Deus; nem vale a pena tentar! Sendo assim, as provas tradicionais sobre a existência de Deus (como as Cinco Vias de S. Tomás de Aquino) não são convincentes, pois apenas tentam demonstrar a existência de um ser.

Segundo a religião Bahá’í a vontade de Deus é transmitida ciclicamente à humanidade pelos Profetas fundadores das grandes religiões mundiais. Mas as Escrituras Baha’is também sugerem que a acção de Deus e as leis da natureza estão interligadas entre si; desta forma, podemos considerar as leis naturais que regulam a evolução como uma extensão da vontade de Deus.

Note-se que este conceito baha'i não é estanho a algumas correntes do Cristianismo. Ainda recentemente Frei Bento Domingues escrevia no jornal Público: «De Deus tanto mais saberemos quanto mais nos apercebermos que excede tudo o que dele pensamos saber. Daí a importância da chamada "teologia negativa".»

Em resumo: as críticas e os argumentos do Professor Dawkins na refutação de diversos conceitos humanos sobre Deus, deviam, no mínimo, convidar à reflexão.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Deus, a Essência Incognoscível
Deus e os Profetas
Provas da Existência de Deus (Moojan Momen)

10 comentários:

Orlando disse...

1.Ver como se chama “burro” a Dawkins em .


2.Sobre o “algo simples”, em vez de “Deus”, escrevi no meu blogue:

Para Dawkins o nome “Deus” é inapropriado, porque o que quer esteja na origem do universo, deveria ser ainda mais simples e mais básico do que o próprio universo, e não mais complexo do que o universo – porque assim estaria no “lado correcto da evolução”. Dawkins sente-se extremamente orgulhoso pela originalidade deste seu raciocínio que considera brilhante, e é nesta base que ele refuta a probabilidade da existência de Deus.

Portanto, o próprio raciocínio de Dawkins fala por si e dispensaria mais palavras. Para Dawkins, é impossível a existência do que quer que seja que não se submeta às leis do darwinismo – Deus incluído. Ponto final. Contudo, num livro publicado há uma dúzia de anos, (“Unweaving the Rainbow”) Dawkins admite a teoria de Hawking de que o Tempo começou com o Big Bang, isto é, reconheceu que o Tempo começou num determinado momento, embora, segundo ele, seja difícil compreender o fenómeno do princípio do Tempo Universal (ou Tempo Total) devido à “limitação da mente humana” (sic). Se Dawkins admite que o Tempo começou num determinado momento, fico sem saber onde é que o seu darwinismo aplicado a Deus e à formação do universo entra na equação.

GH disse...

Orlando,
Um dos segredos da popularidade do Dawkins é o facto de ser "demonizado". O livro há de ter coisas boas e coisas más. Não é possivel que seja todo mau.

Pedro Reis disse...

Não é propriamente a "pensar" com a cabeça que chegamos ao conhecimento e fé na existência de Deus. Como bahá'í sempre pensei dessa forma, já cheguei a pensar que podemos provar a existência de Deus por algum tipo de conceito racional, mas hoje em dia penso que essa pretenção só nos leva por caminhos incorrectos, no fundo não leva a nada.

Deus conhece-se, percebe-se e nele se acredita através da reflexão que vem do "coração" não da mente...

iuri disse...

Só queria aqui dizer em relação ao post do orlando:
Darwinismo NAO EQUIVALE a Ateismo, isto é, podemos acreditar na teoria da evolução e acreditar em Deus. (Eu acredito)
Também é preciso nao cairmos na falacia que só há duas hipotesses, evolução ou criacionismo, pode muito bem haver outras, mesmo que se prove que a teoria da evolução está de alguma forma errada, isso nada prova em relação a existencia de Deus.

o argumento COMO É QUE UMA VACA SE TRANSFORMA NUMA BALEIA é uma argumento comum usando por fundamentalistas , é na minha opiniao (e de muitas pessoas com certeza) RIDICULO e mostra uma grande ignorancia sobre a teoria da evolução.

Esta pergunta traduzida correctamente quer dizer "Como é que um primo pode ser neto de outro primo?" ??, a resposta obviamente é: não pode!

da mesma forma que dois primos tem um antepassado em comum, a baleia e a vaca tem tb eles um antepassado em comum, mas um nao se transfomou no outro.

GH disse...

Pedro Reis escreveu : "Deus conhece-se, percebe-se e nele se acredita através da reflexão que vem do "coração" não da mente..."

Mas isto é uma coisa totalmente subjectiva. Além disso é contrário ao que afirma Baha'u'llah; se Deus é trancendente, como é que alguem diz que se pode conhecer e perceber?

Daniella disse...

Iuri rele o q escreveu e se ainda concorda com ele o esclraça por favor:
"Esta pergunta traduzida correctamente quer dizer "Como é que um primo pode ser neto de outro primo?" ??, a resposta obviamente é: não pode!"
- Um primo q é neto de outro primo é o primo terceiro grau!!! não é?
;-)
"da mesma forma que dois primos tem um antepassado em comum, a baleia e a vaca tem tb eles um antepassado em comum, mas um nao se transfomou no outro."
- Acha mesmo q vaca e baleia tem um antepassado em comum???!!! ou tem algum base científico?

iuri disse...

Olá Daniella,

>"Um primo q é neto de outro primo é o primo terceiro grau!!! não é?"

podemos mudar a analogia para irmaos em vez de primos, o que realmente importante aqui é compreender que sao ramos de uma só arvore e que um não vem necessariamente do outro.

>- Acha mesmo q vaca e baleia tem um antepassado em comum???!!! ou tem algum base científico?

Cientificamente , Sim, tem uma antepassado em comum, obviamente não tao perto como por exemplo, o cão e o lobo, mas lá para tras, no inicio da arvore, tem um antepassado em comum. Isto não é só teoria, há mesmo fosseis transitivos (milhoes deles) que demonstram a especiação, e transição de especie para especie, note-se que isto nao acontece de um dia para outro, mas ao longo de milhoes de anos. pode ver alguns exemplos aqui

Abdul´Baha concorda com a teoria de evolução, não concorda é com argumento (filosofico) que isso "prova" de alguma forma que o homem é apenas um animal como outro qualquer (sem alma),o homem sempre foi, mesmo em estados evolutivos diferentes, *potencialmente* humano:

"But at all times, even when the embryo resembled a worm, it was human in potentiality and character, not animal. The forms assumed by the human embryo in its successive changes do not prove that it is animal in its essential character. Throughout this progression there has been transference of type, a conservation of species or kind. Realizing this we may acknowledge the fact that at one time man was an inmate of the sea, at another period an invertebrate, then a vertebrate and finally a human being standing erect. Though we admit these changes, we cannot say man is an animal. In each one of these stages are signs and evidences of his human existence and destination." - Abdul´Baha

Marco disse...

Gente boa,

Alguns links interessantes sobre evolucionismo e a Fé Baha'i:

The Origin of Complex Order in Biology
Human Evolution: Directed?
Is the Baha'i view of evolution compatible with modern science?
Evolution and Baha'i Belief: Abdu'l-Baha's Response to Nineteenth Century Darwinism

Pedro Fontela disse...

Sinceramente para uma posição ateista o Onfray é mais interessante de ler - na minha opinião claro.

Héliocoptero disse...

Falando unicamente em nome pessoal - e não por referência a uma escola ou corrente teológica - a ideia de provar cientificamente a existência de deuses parece-me descabida.

Crença religiosa é algo que me surge como sendo passional, emocional e até irracional. Querer sujeitá-la ao crivo racional da Ciência é um pouco como querer desmentir que, quando eu me apaixono, são as hormonas e não o coração o elemento responsável pelo sentimento. Eu sei que as minhas paixões são causadas por processos químicos, mas não é por isso que eu deixo de ter uma vivência passional da realidade em vez de mostrar os resultados de uma análise ao sangue em resposta à pergunta "gostas de mim?".

Um pouco em linha com o que disse o Pedro Reis, religião para mim é essa vivência emocional e irracional da realidade. Não faço dela Ciência exacta, logo também não lhe exigo conformidade com os parâmetros científicos.