sábado, 3 de janeiro de 2026

O que a Cremação nos diz sobre a Morte

Por David Langness.


Os ensinamentos Bahá'ís referem-se à morte como uma "mensageira da alegria" – como o princípio de uma maravilhosa viagem rumo à vida eterna. 'Abdu'l-Bahá chegou mesmo a comparar a alma humana libertada a um pássaro que sai da gaiola:

Considerar que o espírito é aniquilado após a morte do corpo é imaginar que um pássaro preso numa gaiola morre quando se destrói a gaiola, apesar do pássaro nada ter a temer com a destruição da gaiola. Este corpo é como uma gaiola e o espírito é como o pássaro: vemos que este pássaro, liberto da sua gaiola pode voar livremente… não há maior paraíso para os pássaros agradecidos do que serem libertados da sua gaiola. (Some Answered Questions, newly revised edition, p. 262)

Com o passar dos anos, aprendi a aceitar e a acolher a morte, e, na verdade, agora aguardo pelo desmoronar da minha própria prisão. A morte virá no seu devido tempo, claro, e eu adoro estar vivo neste plano de existência, por isso não tenho pressa. Mas quando ela chegar, certamente, saciará a minha intensa curiosidade e expectativa sobre o que espera o meu ser interior na próxima fase da vida.

Mas, infelizmente, a nossa cultura cada vez mais parece encarar a morte de uma forma diferente. As pessoas não só a temem, como também desejam permanecer jovens para sempre; negam a existência da morte e apagam os seus vestígios eliminando completamente os corpos dos falecidos. O rápido aumento da cremação, segundo os especialistas, ilustra esta negação.

O jornal Washington Post noticiou recentemente, numa ampla investigação sobre o assunto, que "O que o impressionante aumento da cremação revela a mudança na concepção de morte nos Estados Unidos".

Os dados estatísticos comprovam esta conclusão. Nos Estados Unidos, mais pessoas do que nunca estão a optar pela cremação. Em 2020, o Washington Post noticiou que “56% dos americanos que morreram foram cremados, mais do dobro dos 27% registados duas décadas antes…” e que estas “percepções em rápida transformação sobre o destino dos corpos também levaram a mudanças na forma como homenageamos os nossos entes queridos — e refletem uma nação cada vez mais secular, transitória e, segundo alguns, com fobia da morte”.

Assim, nesta breve série de artigos sobre a nossa morte física, sinto-me obrigado a examinar esta tendência, a debater os seus méritos e deméritos, e a apresentar o melhor argumento possível, tendo em mente os ensinamentos Bahá’ís, em defesa do enterro dos nossos corpos em vez da cremação.

Quando os Meus Pais Morreram

Recentemente, num belo dia de primavera, durante uma longa viagem de carro, à saída da minha casa nas florestas do norte da Califórnia, fiquei com fome. Parei num pequeno restaurante de comida para levar no caminho, pedi algo para comer num balcão e sentei-me no carro para almoçar.

Enquanto comia, através do para-brisas, pude ver do outro lado da rua, uma casa antiga, grande e bem conservada, num bairro residencial, rodeada de árvores frondosas e jardins impecáveis. Nas traseiras da casa, reparei numa grande chaminé e pude ver ondas de calor a sair dela, o que me fez pensar: porque é que alguém acenderia uma lareira ou um aquecedor num dia tão quente e ensolarado?

Intrigado, interrompi o almoço, saí do carro e atravessei a rua para dar a volta até à frente daquela curiosa casa. Já não era uma residência, como obviamente fora um dia, e a placa na frente dizia "Lakeside Colonial Chapel Funeral and Cremation Services" (Serviços Funerários e de Cremação da Capela Colonial Lakeside). Assim que vi a placa, percebi o que provocava aquelas ondas de calor que saíam daquela chaminé. Voltei para o carro, sem fome, deitei fora o resto do meu almoço e fui-me embora.

Como veterano de guerra, não tenho aversão à morte, mas aquela pira crematória em chamas fez-me lembrar a dolorosa morte dos meus pais, alguns anos antes. Os meus pais foram cremados, e embora eu tenha tentado dissuadi-los enquanto eram vivos, ambos insistiram na cremação por ser a opção mais barata e simples.

Lamento a sua decisão, não porque eu e a minha família não possamos visitar os túmulos dos meus pais, ou porque eu queira que exista algures uma recordação física da sua presença terrena, mas porque temo que isso possa ter dificultado o progresso das suas almas na próxima vida.

A Transição entre esta Vida e a Próxima

Se acredita que as nossas vidas terminam com a morte, então incinerar o corpo sem vida pode parecer fazer sentido. Mas e se a vida não terminar quando o coração deixa de bater? E se a alma humana seguir para uma existência espiritual superior, como prometem todas as religiões e filosofias metafísicas? E se este processo for gradual, com os nossos espíritos a desprenderem-se lentamente dos nossos corpos?

E se a morte for realmente um segundo nascimento?

Se for esse o caso, e lembrando que o nosso primeiro nascimento, saindo do ventre da nossa mãe, não foi uma transição fácil, então não faria sentido que a passagem deste mundo material para a vida após a morte, no reino espiritual, representasse também uma passagem difícil para a alma?

Muitas pessoas que tiveram experiências de quase-morte — que foram declaradas clinicamente mortas e depois reanimadas, regressando à vida — relatam que a sua consciência permaneceu, mas que a separação do corpo físico não foi fácil nem rápida. Tendemos a pensar nos nossos corpos como o nosso "eu" — mas quando o eu e o corpo se separam no final da nossa existência material, obviamente aprendemos que não é bem assim. Não somos os nossos corpos — em vez disso, temos consciência humana, uma realidade eterna a que alguns chamam alma.

Assim, quando a porta para a liberdade se abre, o pássaro, habituado apenas àquele ambiente restrito e familiar, pode sentir-se inclinado a permanecer ali, confinado na sua gaiola – mas, na hora da morte, não temos essa escolha.


Assim que soltamos o nosso último suspiro – o momento fatídico que, mais cedo ou mais tarde, chegará para cada um de nós – as nossas almas iniciam a sua viagem para o outro mundo. Os ensinamentos de todas as grandes religiões asseguram-nos, desde sempre, que o nosso espírito mais íntimo é imortal, destinado a continuar numa existência contínua e eterna. Nas Suas Escrituras, Bahá’u’lláh, o profeta e fundador da Fé Bahá’í, fez a mesma promessa clara e explícita:

E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe decerto que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. (SEB, LXXXI)

Os ensinamentos Bahá’ís afirmam que todas as pessoas farão esta viagem espiritual para o outro mundo, e ali, o que fizermos neste mundo determinará a nossa vida eterna. Os Bahá’ís não acreditam na existência de um lugar chamado inferno ou purgatório, e compreendem que cada alma entrará inevitavelmente no paraíso da existência seguinte. 'Abdu'l-Bahá escreveu: "...as almas dos filhos do Reino, após a sua separação do corpo, ascendem ao reino da vida eterna."

Devido à natureza da morte e à viagem espiritual que ela implica para cada um de nós, os ensinamentos Bahá’ís convidam-nos a ter uma atenção mais afectuosa, cuidadosa e gradual pela viagem transcendente que os nossos espíritos empreendem quando os nossos corpos expiram. De facto, estes ensinamentos oferecem sábias orientações e instruções sobre como garantir a passagem mais tranquila e pacífica do reino físico para o espiritual. Têm também em conta algo que poucas pessoas consideram quando pensam na morte: o importante impacto do destino dos nossos corpos físicos na teia interdependente da vida, da natureza e do ambiente.

No próximo ensaio desta série, começaremos a examinar esta orientação e tentaremos compreender a sua sabedoria.

------------------------------------------------------------
Texto original: What Cremation Tells Us about Death (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

Sem comentários: