Por David Langness.
Os sonhos são os pontos de referência dos nossos carácteres. (Thoreau)
Os sonhos são ilustrações… do livro que a sua alma está a escrever sobre si. (Marsha Norman)
Esquecemo-nos do antigo facto de que Deus comunica principalmente através de sonhos e visões. (C. G. Jung)
Que parte de nós sonha?
Os neurocientistas não sabem. Existem centenas de teorias sobre qual a parte do cérebro que realmente produz os sonhos — mas nunca nenhuma foi comprovada. Os sonhos, embora sejam universais, representam ainda um grande mistério para a ciência. Os ensinamentos Bahá’ís referem-se aos nossos sonhos como o repositório dos mistérios da alma:
Na verdade, ó Irmão, se meditarmos sobre cada coisa criada, testemunharemos uma miríade de sabedorias perfeitas e aprenderemos uma miríade de novas e maravilhosas verdades. Um dos fenómenos criados é o sonho. Vê quantos segredos estão depositados nele, quantas sabedorias guardadas, quantos mundos ocultos. Observa como estás a dormir numa morada, com as portas trancadas; de repente, encontras-te numa cidade distante, na qual entras sem mexer os pés, nem cansar o corpo; sem usar os olhos, vês; sem forçar os ouvidos, ouves; sem língua, falas. E talvez, quando tiverem passado dez anos, testemunharás no mundo exterior as mesmas coisas com que sonhaste nesta noite.
Ora, há muitas sabedorias a ponderar no sonho... Primeiro: que mundo é esse onde, sem olhos, ouvidos, mãos ou língua, o homem usa todos eles? Segundo: como é que vês hoje, no mundo exterior, a realização de um sonho que viste no mundo do sono uns dez anos passados? Considera a diferença entre esses dois mundos e os mistérios por eles ocultados, a fim de poderes atingir as confirmações divinas e as descobertas celestiais, e entrar nas regiões da santidade.
Deus, o Excelso, depositou estes sinais nos homens para que os filósofos não negassem os mistérios da vida do além, nem tivessem em pouca conta aquilo que lhes foi prometido. (Bahá’u’lláh, The Seven Valleys, 6.1-6.3)
Os ensinamentos Bahá’ís também sugerem que as nossas almas nos permitem sonhar:
O espírito, ou alma humana, é o cavaleiro; e o corpo é apenas o cavalo. Se algo afectar o cavalo, o cavaleiro não é afectado. O espírito pode ser comparado à luz no interior da lanterna. O corpo é simplesmente a lanterna exterior. Se a lanterna se partir, a luz permanece a mesma, pois a luz pode brilhar mesmo sem a lanterna. O espírito pode conduzir os seus assuntos sem o corpo. No mundo dos sonhos, ele é precisamente como esta luz sem o vidro da lanterna. Ela pode brilhar sem o vidro. A alma humana, através deste corpo, pode realizar as suas operações e, sem o corpo, pode também ter o seu controlo. Portanto, se o corpo estiver sujeito à desintegração, o espírito não é afectado por estas mudanças ou transformações. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 416-417)
Esta capacidade espiritual interior – frequentemente comparada nas Escrituras Bahá’ís a uma chama ou a uma luz – alimenta o nosso intelecto, os nossos sentidos e a nossa consciência. Numa carta ao conceituado cientista suíço Auguste Forel, ‘Abdu’l-Bahá escreveu:
Ora, quanto às faculdades mentais, elas são, na verdade, propriedades inerentes da alma, tal como a radiação da luz é a propriedade essencial do sol. Os raios solares renovam-se, mas o próprio sol permanece sempre o mesmo e é imutável. Considere como o intelecto humano se desenvolve e enfraquece, podendo por vezes chegar a nada, enquanto a alma permanece imutável. Para que a mente se manifeste, o corpo humano necessita de estar são; e uma mente sã só pode existir num corpo são, enquanto a alma não depende do corpo. É através do poder da alma que a mente compreende, imagina e exerce a sua influência, pois a alma é um poder livre. A mente compreende o abstracto com o auxílio do concreto, mas a alma possui manifestações ilimitadas próprias. A mente está circunscrita, a alma não está limitada. É com o auxílio de sentidos como a visão, a audição, o paladar, o olfacto e o tacto que a mente compreende, enquanto a alma está livre de qualquer influência exterior. A alma, como observas, seja em sono ou desperto, está em movimento e sempre activa. Possivelmente, num sonho, ela pode desvendar um problema complexo, impossível de ser resolvido estando desperto. Além disso, a mente não compreende quando os sentidos deixarem de funcionar, e na fase embrionária e na primeira infância a capacidade de raciocínio está totalmente ausente, enquanto a alma está sempre dotada de força plena. Em suma, são muitas as provas que demonstram que, apesar da perda da razão, o poder da alma continuará a existir. (Tablet to Auguste Forel, pp. 8-9)
“É através do poder da alma” que a mente compreende, imagina e exerce a sua influência, explicou ‘Abdu’l-Bahá. Por outras palavras, a alma fornece a verdadeira força motriz para o nosso intelecto, as nossas capacidades de pensamento e a nossa compreensão. É o motor da existência.
Consideremos desta forma: as nossas almas dão-nos vida. Tudo o que está para além do funcionamento meramente físico dos nossos corpos provém da força animadora do espírito humano, da centelha da alma.
É isto que nos diferencia dos animais: temos a capacidade de pensar de forma abstracta, de criar arte, de contemplar o futuro, de imaginar e provar que a Terra orbita o Sol, de construir máquinas que nos transportam pelo mundo. Todas estas conquistas humanas, segundo os ensinamentos Bahá’ís, provêm do poder da alma:
O espírito não pode ser percebido pelos sentidos materiais do corpo físico, a não ser quando se exprime em sinais e obras exteriores. O corpo humano é visível, a alma é invisível. É a alma, porém, que dirige as faculdades do homem, que governa a sua humanidade.
A alma possui duas faculdades principais. (a) Tal como as circunstâncias externas são comunicadas à alma pelos olhos, ouvidos e cérebro do homem, também a alma comunica os seus desejos e propósitos através do cérebro às mãos e à língua do corpo físico, expressando-se desta forma. O espírito na alma é a própria essência da vida. (b) A segunda faculdade da alma exprime-se no mundo da visão, onde a alma habitada pelo espírito tem o seu ser e funciona sem o auxílio dos sentidos corporais materiais. Aí, no reino da visão, a alma vê sem o auxílio dos olhos físicos, ouve sem o auxílio do ouvido físico e desloca-se sem depender do movimento físico. Assim sendo, é claro que o espírito na alma do homem pode funcionar através do corpo físico utilizando os órgãos dos sentidos comuns, e que também é capaz de viver e agir sem o seu auxílio no mundo da visão. Isto prova, sem dúvida, a superioridade da alma do homem sobre o seu corpo, a superioridade do espírito sobre a matéria. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 85)
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Texto original: Dreams and Visions of the Soul (www.bahaiteachings.org)
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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

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