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sábado, 30 de janeiro de 2016

“Imagine” de John Lennon e os ensinamentos Bahá’ís

Por Michael Day.

Quando falamos de canções inspiradoras, poucas conseguem igualar a popularidade do tema Imagine do falecido ex-Beatle John Lennon (1940-1980).

Foi o single mais vendido de um único cantor-compositor e está na lista das 100 músicas mais tocadas do século XX [1].

Conheço muitos Bahá'ís que gostam de cantar essa música, embora por vezes se questionem sobre partes da letra. Por esse motivo, pensei que, neste 35º aniversário da morte de John Lennon (foi em 08 de Dezembro de 1980) seria interessante olhar para a canção Imagine e tentar perceber o quão de perto está das nossas amadas crenças Bahá'ís.

Vamos começar com o primeiro verso:

 Imagine there’s no heaven
 It’s easy if you try
 No hell below us
 Above us only sky
 Imagine all the people
 Living for today...
 Imagina que não há paraíso
 É fácil se tentares
 Nenhum inferno abaixo de nós,
 Acima de nós apenas o céu
 Imagina todas as pessoas
 A viver para o hoje...

Estes versos parecem sugerir que John Lennon pensava que a vida após a morte era uma ficção e que seria melhor se nós vivêssemos para o momento presente em vez de esperar por algo melhor no futuro.

Na minha opinião os Bahá'ís podem, de certa forma, concordar com seus sentimentos. Nós não acreditamos nas chamadas visões tradicionais de céu e de inferno, como um lugar de recompensa eterna ou de castigo eterno depois de passar num teste espiritual.

Tal como como está escrito numa carta escrita em nome de Shoghi Effendi:
Céu e inferno são condições interiores aos nossos próprios seres. [2]
Pelo que entendo, os Bahá’ís vêem o "céu" após a morte como uma metáfora sobre a proximidade espiritual em relação ao Criador. Quanto mais perto estivermos, mais felizes seremos. E acreditamos que isso acontecerá através da graça de Deus, e que o nosso progresso, será muito facilitado se, enquanto estivermos na terra, seguimos os princípios orientadores conforme foram proclamados por Bahá'u'lláh nas Suas leis.

Quanto ao inferno, a visão de que eu tenho como Bahá’í não é de um lugar de tormento eterno num poço de fogo, mas antes um afastamento penoso em relação a Deus.

Assim, parece-me que, como Bahá’ís, não acreditamos no tipo de céu e inferno que John Lennon também não acreditava.



E sobre o "viver para o hoje"? Certamente como Bahá’í, penso que temos que ser pessoas de acção e não dos que têm saudades dos anos dourados do passado ou simplesmente se sentam e esperam por um futuro confortável e próspero.

E quem não estaria de acordo com uma outra frase de John Lennon: "A vida é o que te acontece quando estás ocupado a fazer outros planos" [3]

Mas viver conscientemente o momento não significa que devemos esquecer as lições do passado. Na verdade, a sabedoria pode ser descrita como a capacidade para reconhecer padrões do passado e aprender com eles - é por isso que muitas vezes ela vem com a idade. Também não devemos permitir que o “viver para o hoje” nos leve a negligenciar os planos para o futuro.

Por isso, reflectimos sobre o passado para desenvolver as nossas personalidades, e planeamos o futuro, para poder contribuir para o objectivo que Bahá'u'lláh estabeleceu para a humanidade: a construção de uma sociedade global unificada baseada na justiça e no amor.

Agora, os versos seguintes:

 Imagine there’s no countries
 It isn’t hard to do
 Nothing to kill or die for
 And no religion too
 Imagine all the people
 Living life in peace...
 Imagina que não existem países
 Não é difícil fazê-lo
 Nada pelo que matar ou morrer
 E também nenhuma religião
 Imagina todas as pessoas
 A viver a vida em paz

Quando John Lennon nos pediu para imaginar que não existem países, ele podia estar a pensar no mal que surge com a adesão rigorosa ao conceito da soberania absoluta de uma nação, "o nosso país, esteja certo ou errado".

No meu entendimento, os Bahá’ís afirmam que as fronteiras nacionais não devem existir para nos separar do resto da humanidade. Pelo contrário, elas existem com o objectivo de criar uma sociedade em funcionamento numa determinada área do globo, capaz de contribuir para uma sociedade global mais ampla.

Deveria existir um "nada pelo que matar ou morrer"? John Lennon escreveu a canção no tempo dos horrores da guerra do Vietname; por isso é compreensível que tenha escrito esta frase.

No entanto, tenho a certeza que ele teria pensado que há algumas coisas em que vale a pena arriscar a morte - um pai a tentar salvar um filho, uma pessoa que protege os fracos e indefesos de um ataque assassino. Existe alguma coisa em que se justifique matar? A nossa resposta seria “normalmente, não”, embora esse acto possa ser considerado legítimo, como no caso de um polícia que mata um bandido que está prestes a assassinar outra pessoa.

E sobre as guerras? Os Bahá’ís não participam como combatentes nas guerras, embora estejam prontos para ajudar na prestação de cuidados médicos. Trabalhamos para evitar o “matar e morrer” nas guerras, construindo um mundo unido, criando bairros, cidades e países justos, amáveis e pacíficos.

Em seguida, temos a frase "E também nenhuma religião" que à primeira vista pode parecer contrária ao ponto de vista Bahá'í.

A Fé Bahá'í é uma religião mundial independente, com seu próprio Profeta-Fundador, lugares santos, leis e escrituras sagradas. Então, o que posso dizer sobre a frase "também nenhuma religião"?

A minha opinião é que quando John Lennon falava das religiões, referia-se a conjunto de interpretações humanas erradas, lei malignas e comportamentos prejudiciais dos homens; não se referia aos ensinamentos espirituais dos mensageiros divinos.

Como Baha'i, parece-me que é útil recordar as palavras de 'Abdu'l-Bahá que afirmou:
Qualquer religião que não seja uma causa de amor e unidade não é religião.[4]
Ao contrário desse tipo de "religião", uma fé de inspiração divina que seja fiel aos objectivos e às instruções do seu Profeta-Fundador é o elixir da vida, um guia para a felicidade, amor, justiça e prosperidade presente e futura.

Conheci um Bahá’í que costumava mudar esta frase do Imagine para "E também só uma religião". Com isso ele queria dizer a fé em que os Bahá'ís acreditam que é comum aos ensinamentos de todas as mensagens divinas. Tal como Bahá'u'lláh disse:
Esta é a imutável Fé de Deus, eterna no passado, eterna no futuro.[5]
Uma vez perguntaram a John Lennon sobre a substituição das palavras "e uma só religião também" mas ele rejeitou a sugestão. Se lhe tivessem perguntado sobre uma fé que unisse todas as religiões do mundo, vendo-as na sua essência como parte de uma só religião de Deus, a sua resposta talvez tivesse sido diferente.

A última parte deste verso - "Imagina todas as pessoas a viver a vida em paz" - está, certamente, em sintonia com os ideais dos Bahá'ís dedicados que passam a vida a trabalhar por um mundo pacífico e unido.

Os versos seguintes estão, obviamente, estreitamente alinhados com os valores de um Bahá'í.

 You may say I’m a dreamer
 But I’m not the only one
 I hope someday you’ll join us
 And the world will be as one.
 Podes dizer que sou um sonhador
 Mas eu não sou o único
 Espero que um dia te juntes a nós
 E o mundo será como um só.


Como Bahá’ís, não aceitamos o ponto de vista expressado às vezes que o objectivo de uma sociedade global pacífica é um sonho ou uma ideia impossível.

Muitos de nós vimos um mundo fracturado tornar-se uma sociedade global durante as nossas próprias vidas, apesar da sua natureza pacífica ainda não ter sido alcançada. Estamos confiantes que estamos no caminho certo, apesar das terríveis dificuldades e provações que parecemos destinados a enfrentar no futuro. Existem dois processos em acção: o colapso dos antigos métodos destrutivos da humanidade, e o crescimento dos ramos verdes de um mundo novo e unido.

E sim, nós esperamos que outros se juntem a nós e se tornem Bahá'ís; mas se eles não vêem isso como o seu caminho, ficaremos felizes por ser amigos e aliados num trabalho conjunto rumo a uma sociedade global justa e pacífica. Como disse John Lennon: "E o mundo será como um só."

Bahá'u'lláh disse algo semelhante:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos. [6]
O último verso é a repetição de um anterior, mas o penúltimo tem algumas ideias que merecem ser examinadas.

 Imagine no possessions
 I wonder if you can
 No need for greed or hunger
 A brotherhood of man
 Imagine all the people
 Sharing all the world...
 Imagina não existirem posses
 Pergunto-me se consegues
 Sem necessidade de ganância ou fome
 Uma fraternidade do homem
 Imagine todas as pessoas
 Partilhando todo o mundo...

Quando John Lennon nos pedia para "imaginar não existirem posses", ele não podia estar a referir-se ao seu significado literal. Penso que ele estava pedir-nos para termos uma visão diferente sobre as posses, como coisas que não devem ser adquiridas através da ganância... "sem necessidade de ganância".

Bahá'u'lláh dá-nos um conselho semelhante:
Porquê, então, mostrar tamanha ganância na acumulação de tesouros da terra, quando os seus dias estão contados e sua oportunidade está quase perdida? [7]
Quanto a "uma fraternidade do homem", esse conceito, que agora normalmente se expressa numa forma menos específica de género, como a família da humanidade, trata-se de uma crença fundamental da Fé Bahá'í: a unidade da humanidade. Somos todos parte da única família, uma fraternidade e irmandade - não separados por noções de raça, classe, género ou herança espiritual, mas unidos na nossa diversidade.

O convite de John Lennon para imaginar todas as pessoas a partilhar o mundo inteiro seria aceite por todos os Bahá'ís porque queremos trabalhar com outras pessoas bem-intencionadas, independentemente das suas crenças espirituais, ou a falta delas, para pôr em acção os processos que nos vão conduzir à paz global.

Queremos que todos os povos do mundo partilhem de forma justa e igual todos os aspectos das riquezas materiais e espirituais da humanidade.

Quando ouço a canção Imagine, com a sua melodia fascinante e letra maravilhosa, penso nela como estando em harmonia com os ensinamentos de Bahá'u'lláh.

Tento lembrar-me de orar pelo progresso da alma de quem, tomando nota da inspiração que lhe veio, sentou-se, escreveu a canção, e a enviou para o mundo.

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NOTAS
[1] - https://en.wikipedia.org/wiki/Imagine_(John_Lennon_song)
[2] - De uma carta escrita em nome de Shoghi Effendi a um crente individual, 14 de Novembro de 1947, in Lights of Guidance, compiled by Helen Hornby, Baha’i Publishing Trust India, 1983, p.395, no. 1079. High Endeavours, Messages to Alaska, pp 49-50.
[3] - https://en.wikipedia.org/wiki/Beautiful_Boy_(Darling_Boy)
[4] - Paris Talks. UK Baha’i Publishing Trust, 1972, eleventh edition reprint. P. 130
[5] - Proclamation of Baha’u’llah, US Baha’i Publishing Trust, 1978 reprint. P. 119
[6] - Gleanings from the Writings of Baha’u’llah. US Baha’i Publishing Trust, 1990 pocket-size edition. P. 250
[7] - Ibid, p.127.

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Texto original: How the song “Imagine” by John Lennon Compares to Baha’i Beliefs (http://bahaiblog.net/site/)

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Michael Day é jornalista que já trabalhou para jornais diários na Austrália e Nova Zelândia. Entre 2003 e 2006, foi o editor do Bahá'í World News Service no Centro Mundial Bahá'í. Actualmente vive em Brisbane, onde trabalha como assessor de imprensa da Comunidade Bahá’í da Austrália. Os seus interesses focam-se na história Bahá'í, literatura, arte, râguebi, surf e mergulho

domingo, 27 de dezembro de 2015

Paris, U2, e “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True”

Por David Langness.


Nesta nova e maravilhosa dispensação os véus da superstição foram rasgados e os preconceitos dos povos orientais estão condenados. Entre certas nações do Oriente, a música era considerada repreensível, mas nesta nova era a Luz Manifesta, nas suas sagradas Epístolas, proclamou especificamente que a música, cantada ou tocada, é alimento espiritual para a alma e coração. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #74)
Quem foi ao recente concerto dos U2 no AccorHotel Arena, em Paris, juntamente com 20.000 de seus melhores amigos, ou viu o concerto na televisão em qualquer lugar do mundo, teve a oportunidade de viver um momento verdadeiramente notável. Muito mais do que apenas concerto de rock, esta actuação usou o poder da música para espalhar a verdade sobre a unicidade da religião.

Tudo começou a acontecer quando U2 tocaram os seus comoventes hinos à paz, igualdade e liberdade com paixão e vigor. Os concertos da banda em Paris, originalmente programados para começar no dia seguinte aos ataques de 13 de Novembro, assumiram uma nova e simbólica importância, com o seu regresso desafiador.

Os nomes de todas as vítimas dos atentados de Novembro foram projectados num
enorme ecrã onde se viam as cores da bandeira francesa e um símbolo da paz.
Bono criou a dinâmica ao falar (em francês e inglês) entre as músicas, sobre a tragédia dos ataques terroristas de Paris. "Somos todos parisienses", afirmou. E acrescentou que o terrorismo não pode parar a música e que tínhamos de transformar o medo em amor.

O entusiasmo e a intensidade na arena aumentaram ainda mais quando a banda tocou o tema icónico "Pride: In the Name of Love", sobre Martin Luther King, Jr. e outros defensores da liberdade. A canção foi um hino de homenagem às 130 pessoas que morreram nos ataques de Paris, ao mostrar os nomes de cada vítima num enorme ecrã de vídeo, juntamente com os símbolos da paz e do amor.

A multidão ovacionou, obviamente inspirada pela solidariedade que sentia.

Então Bono surpreendeu todos os presentes quando teve a coragem de dizer: "Nós estamos com aqueles cujas vidas foram dilaceradas por uma ideologia que é uma perversão da bela religião do Islão."

E continuou: "Tanto quanto sei, o Islão significa ‘submissão’". E então pediu à multidão para alargar a sua simpatia e orações às famílias e parentes dos próprios terroristas, "por muito difícil que isso seja".

Esse momento unificador lembrou concertos dos U2 após os ataques terroristas do 11 de Setembro nos Estados Unidos e depois dos atentados de 2005 em Londres, quando Bono usou a faixa "Coexist" no cenário do palco, e num apelo à unidade religiosa, cantou “Jesus, Jew, Muhammad, it’s true. All sons of Abraham. Father Abraham, speak to your sons. Tell them ‘No More!’” ("Jesus, Judeu, Maomé, é verdade. Todos os filhos de Abraão. Pai Abraão, fala aos seus filhos. Diz-lhes 'Nunca Mais!'")

Membros da banda U2 colocaram flores junto ao Bataclan,
numa homenagem às vítimas dos atentados de Paris.
Para os Bahá'ís, a declaração de Bono tem um nível especial de percepção, não só sobre a descendência de Abraão, mas sobre a ligação progressiva de todas as religiões:
... os descendentes de Abraão receberam a bênção especial de todos os Profetas da Casa de Israel terem surgido no seu seio. Isto é uma bênção que Deus concedeu a essa linhagem. Moisés, tanto através do Seu pai e da Sua mãe; Cristo, através da Sua mãe; Maomé; O Bab, e todos os profetas e os Santos de Israel pertencem a essa linhagem. Também Bahá'u'lláh é descendente directo de Abraão, pois Abraão teve outros filhos além de Ismael e Isaac, que naqueles dias emigraram para as regiões da Pérsia e Afeganistão, e a Abençoada Beleza [Bahá'u'lláh] é um dos seus descendentes. ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 246-247)
Depois veio o final, uma apoteose musical inspiradora em que os membros do público e da banda cantaram a plenos pulmões, com uma vontade profunda que o amor, a alegria e a música triunfem sobre o medo.

Há pouco mais de cem anos atrás, em Paris, a cidade dos corações, ‘Abdu'l-Bahá fez soar o apelo unificador da Fé Bahá'í, agora transmitido para todo o mundo:
Todos os Profetas de Deus vieram por amor a este único e grande objectivo.

Vede como Abraão se esforçou para trazer a fé e o amor entre o povo; como Moisés tentou unir o povo através de leis sólidas; como o Senhor Cristo sofreu a morte para levar a luz do amor e da verdade a um mundo em trevas; como Maomé tentou conseguir a unidade e a paz entre as várias tribos incivilizadas com quem Ele habitava. E por fim, Bahá'u'lláh sofreu quarenta anos pela mesma causa - o propósito nobre e único de espalhar o amor entre os filhos dos homens - e para a paz e a unidade do mundo o Bab deu a Sua vida.

Assim, esforçai-vos para seguir o exemplo destes Seres Divinos, bebei da Sua fonte, iluminai-vos com a Sua luz, e sede para o mundo como símbolos da Misericórdia e do Amor de Deus. Sede para o mundo como chuva e nuvens da misericórdia, como sóis da verdade; sede um exército celestial, e, na verdade, conquistareis a cidade de corações. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp 171-172)
Por vezes é necessário partilhar experiências culturais e emocionais como esta para entender que a sociedade pode realmente reencontrar-se em amor, perdão, compaixão espiritual e unidade.

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Texto original: Paris, U2, and “Jesus, Jew, Muhammad, It’s True” (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.