sexta-feira, 25 de junho de 2004

Badasht




Em Junho de 1848, comunidade babí estava sem liderança activa; o Báb encontrava-se preso e incomunicável na fortaleza de Chiriq e em alguns locais da Pérsia tinham eclodido as primeiras perseguições e martírios de crentes. O movimento Babi era muito recente (o Báb anunciara a Sua missão em 1844); a falta de contacto com o Báb deixava espaço para muitos mal-entendidos e confusões sobre o verdadeiro propósito dos ensinamentos bábis. Algumas pessoas pensavam tratar-se de um movimento reformista do Islão; outros acreditavam tratar-se de uma nova religião independente do Islão.

Estas dúvidas relativas ao propósito do movimento bábi e a falta de contactos com o seu profeta fundador, impeliram alguns crentes mais destacados a convocar uma reunião para esclarecer os crentes sobre o objectivo da ensinamentos bábis e delinear uma forma de voltar a ter contacto com o Báb. Foi no início do verão de 1848 que se realizou esse encontro.


Local onde se realizou a conferência de Badasht

O principal promotor dessa reunião foi Bahá'u'lláh (na altura era conhecido entre os crentes como Jinab-i-Bahá). O local escolhido foi Badasht, um lugarejo em Mazindaran, no norte do Irão. Estiveram presentes oitenta e um crentes; foram instaladas várias tendas; entre os participantes contavam-se Quddus e Tahirih (uma poetisa, que se tornara uma das primeiras discípulas do Báb).

Bahá'u'lláh, anfitrião, acolheu calorosamente cada um dos participantes; em cada dia da reunião revelava uma epístola; esta era depois lida em voz alta perante todos os presentes (é preciso ter presente que na cultura islâmica a poesia e a literatura são usadas para elevar a moral das pessoas). A cada um dos presentes, Ele atribuiu um título; numa epístola revelada mais tarde pelo Báb, esses título seriam confirmados. ("Quddus" e "Tahirih" são títulos de crentes concedidos por Bahá'u'lláh; não são nomes próprios)

O VÉU DE TAHIRIH

A presença de uma mulher naquela reunião não era normal; recordemo-nos que a Pérsia em meados do séc. XIX era socialmente muito atrasada (quase medieval!). O papel da mulher era casar, gerar filhos e ficar em casa; raramente era vistas em público, e quando isso acontecia tinham sempre o tradicional véu a cobrir-lhes o rosto. Por este motivo, a simples presença de Tahirih era, no mínimo, incómoda.

Num dia, ao dirigir-se à assembleia de crentes, Tahirih tirou o véu que lhe cobria o rosto. A discussão estalou imediatamente; vários crentes ficaram escandalizados, outros abandonaram a reunião; mas havia outros apoiavam o acto da poetisa. O próprio Quddus ficou furioso e estava de espada na mão como se a qualquer momento pudesse desferir um golpe sobre quem ousasse ofender Tahirih. Apesar da confusão que se gerou, ela continuou a falar para os restantes crentes que ainda ficaram para a ouvir; estava serena e confiante.

Durante alguns dias persistiu um estado de tensão entre os crentes; tomavam diferentes partidos e discutiam entre si. Bahá'u'lláh interveio e acalmou os ânimos; conciliou as diferentes opiniões; conseguiu fazê-los perceber que os preceitos do Islão eram coisa do passado. Um punhado de crentes, porém, abandonou a reunião, considerando insuportável aquela heresia que atentava contra valores invioláveis do Islão.

A visibilidade daquela mulher na comunidade dos primeiros crentes levaria mais tarde alguns crentes a queixarem-se ao próprio Báb que ela não estava a honrar as tradições do passado. A estas reclamações, a resposta do Báb foi "Quem sou eu para dizer o que seja sobre aquela que a Língua do Poder e Glória designou por Tahirih...?" (Uma epístola dirigida a Tahirih e escrita pela mão do próprio Báb pode ser vista aqui)

A reunião durou vinte e dois dias. No final desta, os Babís sentiam-se mais confiantes e fortes na sua fé. Compreendiam e assumiam definitivamente o rompimento com a ortodoxia, as tradições e os rituais islâmicos. Esta posição ia despertar a fúria do clero xiita. Terminada a reunião, vários crentes foram violentamente atacados no caminho de regresso a suas casas.

Aquela reunião ficou conhecida como "Conferência de Badasht"; o gesto de Tahirih nessa conferência é frequentemente recordado por muitos bahá'ís como o primeiro sinal da emancipação feminina no Irão; vários livros e poemas têm sido escritos sobre ela. Hoje, em algumas famílias bahá'ís iranianas é normal encontrar mulheres com o nome Tahirih .